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abril 06, 2018

O ESTILO COSTA: COMPRAR O SILÊNCIO SEM RESOLVER OS PROBLEMAS DE FUNDO

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CULTURA - Esta semana o tema dos subsídios à actividade cultural irrompeu de forma estridente. O financiamento da Cultura é sempre um problema seja qual fôr o Governo, os candidatos e projectos são sempre em excesso das verbas disponíveis e as coisas pioram quando há arrogância do poder associada a incompetência - que na realidade foi o que aconteceu. Mas esta semana houve uma reveladora frase no meio da polémica quando, depois de chamado a S. Bento, o Secretário de Estado da Cultura confessou ingenuamente que o Primeiro-Ministro António Costa estava a par de tudo o que se tinha feito e aplicado. Acontece que o Primeiro-Ministro, como já aconteceu noutros casos e noutras áreas, cedeu ao sururu de quem protestou e primeiro deu um público puxão de orelhas ao Ministro e Secretário de Estado por terem deixado criar tanto alarido, apareceu ele próprio a resolver a confusão e rematou com um cínico elogio aos ocupantes da Ajuda. Este caso ilustra duas coisas: em primeiro lugar que não existe uma política nem um estratégia para a Cultura - e não é de agora, bem sei; e, em segundo lugar, que António Costa prefere ceder mais uma vez aos protestos do que perceber porque existem e qual o caminho para resolver o problema de fundo - para não ir mais longe actualizar a Lei do Mecenato. Na realidade António Costa replicou aqui o que tem feito em tantos casos - preferiu ceder às reivindicações suportadas pelo Bloco e pelo PCP a ter que arranjar dores de cabeça em futuras votações parlamentares. Desenganem-se os grupos de teatro se acham que o recuo anunciado tem a ver com uma compreensão da situação e a definição de uma nova política. O que se passou foi uma troca: satisfazer aqui os aliados da coligação, para noutros casos lhes pedir a compensação. Foi só isto. Mais à frente se perceberá qual foi a taxa de câmbio utilizada.


 


SEMANADA - Na PSP há 16 sindicatos, três deles têm mais dirigentes que sócios; a pressão turística no Porto e em Lisboa é superior à que se verifica em Londres ou Barcelona; Portugal importa dez mil toneladas de pão diariamente, em todo o país há apenas 300 guardas-nocturnos; a rede Siresp, que serve de sistema único de comunicação entre as forças e serviços de segurança e emergência falhou durante nove mil horas, em 2017; quase 30% dos estudantes abandonam o ensino superior e mais de metade dos alunos que entram com média de 10 valores não acaba a licenciatura; em 2017 foram registados 22.599 crimes de violência doméstica, 6.303 dos quais no distrito de Lisboa; as ajudas concedidas à Banca entre 2007 e 2017 foram de 23,7 mil milhões de euros, cerca de 12,3% do PIB, o que significa 2302 euros por cada português; as vendas de automóveis nos três primeiros meses do ano aumentaram 4,7% em relação ao mesmo período do ano passado e totalizaram 73 104 viaturas; de acordo com a Marktest, 21.96% do poder de compra está concentrado em 5 concelhos: Lisboa, Porto, Sintra, Vila Nova de Gaia e Cascais ; ainda segundo  a Marktest cerca de 3,9 milhões de portugueses com 15 e mais anos ouviram música online em 2017 e este hábito aumentou 91% nos últimos sete anos; o Estado exige a privados contratos a prazo mais curtos que os que utiliza nas suas próprias  contratações de pessoal.


 


ARCO DA VELHA - Na semana passada a RTP2 ficou  em 12º lugar das audiências a nível nacional e na região de Lisboa nem aparece entre os 20 canais mais vistos.


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FOLHEAR - Se sigo a actualidade e as notícias no digital, prefiro olhar para a reflexão e a descoberta no papel. E é aí que entra a nova geração de revistas que se vai publicando e que mostra as capacidades da imprensa, que estão longe de estar esgotadas. Com criatividade, imaginação editorial e gráfica, arrojo, e alguma capacidade para encontrar nichos de público yêm surgido numerosas novas publicações. A minha mais recente descoberta é a “Mayday”, cujo primeiro número foi publicado no final do ano passado, em Copenhaga, uma cidade que nesta área editorial tem estado muito activa. A revista debruça-se sobre cultura, sociedade, tecnologia e realidades imprevistas, no dizer dos próprios editores. A História é o ponto de união de vários artigos desta edição - seja a narrativa de Don Quixote, sejam as descobertas sobre a evolução da humanidade. Um artigo que me chamou particularmente a atenção chama-se “A Arte É a Lente Que Nos Permite Ver o Mundo”, escrito pela curadora de um dos museus europeus que mais admiro, o Louisiana Museum Of Modern Art, nos arredores de Copenhaga. Mary Laurberg, uma das curadoras do museu, fala sobre quatro artistas escandinavos contemporâneos a partir da frase de Joyce Carol Oates,  “a Arte leva-nos a novos lugares”. Termino com um destaque de uma das páginas da “Mayday”: “a colaboração é uma das mais importantes competências do século XXI”. Vista numa folha, retive estas palavras. Talvez num ecrã isso não tivesse acontecido. A “Mayday” está disponível na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88.


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VER - A iniciativa British Bar, imaginada e desenvolvida por Pedro Cabrita Reis, entrou agora na sua 12ª edição - tem portanto um ano de vida. Ao longo destes 12 meses Cabrita Reis seleccionou e convidou mensalmente três artistas plásticos para criarem ou escolherem obras suas que pudessem ser expostas nas três montras verticais do British Bar, no Cais do Sodré, uma casa que o organizador frequenta há muitos anos e que é um ponto de passagem num local central. É uma forma especial de arte pública, expondo obras num contexto bem diferente do habitual e colocando-as perante públicos diversos daqueles que as estão habituados a ver nas galerias ou museus. Sempre suportada por um folheto bem elaborado com informação sobre os artistas e obras expostas, esta semana foram apresentadas “Private Dancer” de Pedro Calapez, “Fruteira”, de Pedro Valdez Cardoso, e Banco de Estirador B, de Fernanda Fragateiro. São todas elas obras criadas para o local e confrontam quem passa na rua com três perspectivas criativas bem diversas. Outras sugestões: no espaço capela do Centro Cultural de Cascais um ensaio fotográfico de Bruno Saavedra, “Ana”, sobre os últimos cinco dias de vida de uma mulher; na Galeria Módulo, Tito Mouraz mostra a sua visão do interior em “Fluvial”.


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OUVIR - Nos dias de hoje as fronteiras entre géneros são cada vez mais ténues e as classificações são por vezes dificeis. Quando músicos de jazz se lançam em  música improvisada maioritariamenteb de origem electronica, poderá ser considerada ainda dentro dos terrirórios do jazz contemporâneo? Os britânicos GoGo Penguin estão no centro de uma polémica sobre este assunto desde o seu disco anterior, “Man Made Object”. O novo “A Humdrum Star”, já distribuído em Portugal, vem reacender a discussão. Há aqui elementos de house, mas também de electrónica, de ambiental, de clássica contemporânea. Este “A Humdrum Star” é um passo em frente na transição dos Go Go Penguin para um território electrónico mais explícito e acentuado onde alguma ausência de regras é a matéria prima mais visível para a forma como as nove faixas deste disco se desenvolvem e cruzam, com uma bem vinda libertinagem que tem andado demasiado arredada da música. O que aqui me seduz mais é o cruzamento do piano com teclados electrónicos, a presença da percussão bem cruzada com o baixo, tudo a fluir de forma deliciosamente imprevisível, ao sabor dos acontecimentos e do sentir dos músicos. Há muito que não ouvia um disco tão libertador. CD “A Humdrum Star”, dos GoGo Penguin, edição Blue Note, distribuição Universal Music.


 


PROVAR - Estamos no fim da época dos ouriços do mar e não há melhor local para descobrir esta iguaria do que a Ericeira, onde, até domingo, decorre o 4º Festival Internacional dos Ouriços do Mar. Em 22 restaurantes da localidade e arredores (nalguns o prazo será alargado) dão-se a provar diversas formas de experimentar esta iguaria a que alguns chamam o caviar da Ericeira. Acontece que a preparação dos Ouriços é trabalhosa, a época do ano em que estão com as saborosas ovas é esta e é muito limitada, os ouriços do mar são raros e a sua apanha é difícil. Mas a Ericeira é o seu bastião em Portugal. As propostas existentes nos diversos restaurantes da terra passam por um risotto de ouriços do mar com camarão grelhado, açorda de ouriços de mar, arroz do mar com ouriços e algas e até caril de ovas de ouriços do mar ou spaghetti com ovas de ouriço. Mas se é neófito nestas lides comece por experientar os ouriços ao natural, uma experiência inesquecível, pela explosão de sabor de mar que proporciona .


 


DIXIT - Actualmente não há quase nada mais importante do que garantir a existência de um robusto serviço público de informação acessível universalmente aos cidadãos - Emily Bell, ex editora digital do Guardian.


 


GOSTO - O filme "Terra Franca", a primeira longa-metragem da realizadora Leonor Teles, venceu o "Prix International de la Scam" no festival Cinéma du Réel em Paris.


 


NÃO GOSTO - Do plágio feito no filme “Peregrinação”, realizado por João Botelho, ao livro “Corsário dos Sete Mares”, de Deana Barroqueiro, utilizado sem autorização nem tão pouco comunicação prévia.


 


BACK TO BASICS - Os americanos não têm o sentido da privacidade nem sabem o que ela significa, privacidade é coisa que não existe nesse país - George Bernard Shaw.


 




março 28, 2013

CULTURA & SERVIÇO PÚBLICO + SUGESTÕES AVULSAS

CULTURA & SERVIÇO PÚBLICO - Num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?


Nesta conjuntura, porque deve existir um serviço público financiado pelos cidadāos, quando três quartos das casas têm cabo e acesso a mais de 50 canais de todo o mundo? O serviço público deve fazer concorrência aos privados, disputando com eles audiências e publicidade? Ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entertenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que passam nos canais de cabo emitidos em Portugal? As perguntas são numerosas, mas no fim resumem-se a isto: o serviço público deve investir em produção de stock, que possa ser reutilizada, emitida diversas vezes, ou, como tem predominantemente feito, investir em produção de fluxo que se esgota na primeira emissão? Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas. Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural nma acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos. Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.




SEMANADA - A Biblioteca Nacional contava em 2010 com 46.502 leitores presenciais, uma redução em relação aos 69.341 de 2000; Em 1997 existiam 164 bibliotecas escolares, em 2011 o total era de 2490, das quais 2069 no ensino básico público e 36 no ensino privado; em 2007 foram registados 17.097 novos títulos de livros, em 2011 o número desceu para 16.839, o valor mais baixo dos últimos anos; em 1960 existiam 437 recintos de espectáculos, em 2011 o número era de 165; em 1960 a percentagem de espectadores de cinema era de 2,9% por mil habitantes e em 2011 era de 1,5%; 2011 foi o ano com menor número de filmes portugueses exibidos desde 2000; o número de exibições de filmes de origem norte americana quadriplicou entre 1980 e 2011; o número médio de espectadores de cinema por sessão era de 334 em 1960, passou para 179 em 1980, reduziu para 56 em 1990 e caíu para 23 em 2011; em 2009 o Teatro Nacional de S. Carlos registou 46.272 espectadores de ópera e em 2011 desceu para 23.838, um numero ainda menor que os 27.675 de 1986; os gastos familiares com cultura e lazer desceram 9,5% no último ano.




ARCO DA VELHA - O número de exemplares vendidos de publicações de imprensa periódica em 2011 foi o mais baixo desde o início do milénio

VER - Na galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C, 2ª a 6ª, das 15 às 19h30), está uma mostra do trabalho realizado nos últimos 25 anos por Júlio Pomar sobre o suporte azulejo - como as figuras de convite, evocação dos painéis que eram colocados na entrada de edifícios numa atitude de cortesia. Na exposição, “Que Procura Vmê” estão também cerâmicas -  por exemplo  cinco peças  feitas a partir dos moldes de Bordallo Pinheriro, que resultaram de um desafio feito pela galerista, Ana Viegas, a Júlio Pomar, a propósito da comemoração do centenário da morte de Bordallo Pinheiro, em 2005.




OUVIR- O jazz é um território de cruzamentos, de fusões, de encontros inesperados, de desafios. Jason Moran, 38 anos, é um dos mais interessantes pianistas da nova geração do jazz americano, um contraste com o saxofonista Charles Lloyd, de 75 anos. São duas gerações de músicos, com influências diferentes. Moran integra a formação regular de Lloyd, mas em “Hagar’s Song” decidiram juntar-se apenas os dois. Charles Lloyd assegura o sax alto e tenor e flautas e Jason Moran o piano e tamborim. O título do álbum, e um dos seus temas, “Hagar Suite”, representam uma homenagem à avó de Lloyd, que foi uma escrava negra. Para além dos temas originais, intensos, aqui estão versões inesperadas e cativantes de Mood Indigo, de Duke Ellington, de “Bess You Are My Woman Now” de Gershwin, de “I Shall Be Released” de Bob Dylan e de “God Only Knows”, dos Beach Boyes, com quem aliás Lloyd tocou na California nos anos 70. CD ECM, na Amazon..




FOLHEAR - Como era o mundo do jazz na Lisboa entre os anos 20 e 50 do século passado? João Moreira dos Santos, um dos homens que mais se tem dedicado á investigação da história do jazz em Portugal, fez um curioso roteiro do que foi o despontar do jazz em Lisboa, desde clubes como o Bristol, a cabarets como o Maxim (que era no Palácio Foz), clubes como o Magestic ou o Nina (onde tocou Louis Armstrong), passando por cafés como o Negresco, o Hot Clube, ou salas como o Teatro Apolo, o Condes ou o Coliseu dos Recreios, não esquecendo o São Carlos onde já em 1925 se tocava jazz. Ao longo de uma centena de páginas compilam-se informações, pequenas histórias e curiosidades que ajudam a fazer o retrato de uma Lisboa cosmopolita - como se diz na capa, este é um “guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do jazz em Portugal”. Edição Casa Sassetti.


 


PROVAR - O pastel de Chaves é uma especialidade tradicional constituída por uma espécie de folhado finíssimo de carne picada no interior, com tempero transmontano. A receita original foi inventada há 150 anos e em 2012 passou a ser um produto de indicação geográfica protegida. Desde há algum tempo passou a ser possível prová-los em Lisboa, na loja Prazeres da Terra, que fica no nº6 do Largo Dona Estefãnia. Lá estão eles fresquinhos todos os dias, prontos a comer ou a levar, ou ainda congelados para fazer em casa á medida das necessidades - e na versão congelados há também um belo formato mini.A casa tem muitos e bons produtos transmontanos, de enchidos a azeite, passando por vinhos, queijos, compotas e o célebre pão de Gimonde, pitos de Santa Luzia, corvilhetes (umas empadas...) de Vila Real, ou o folar de Chaves. Um mundo de bons petiscos.




GOSTO- Na Islândia o sector das indústrias criativas tem uma receita que é o dobro da riqueza produzida pela agricultura e quase igual à receita das pescas.




NÂO GOSTO -  A receita produzida pelas  industrias criativas na economia, em Portugal, tem vindo a diminuir nos últimos cinco anos.




BACK TO BASICS - "Se tiveres a impressão de que és pequeno demais para poder mudar alguma coisa neste mundo, tenta dormir com um mosquito e verás qual dos dois impede o outro de dormir” - Dalai Lama




(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Abril)

julho 29, 2009

(Publicado no Jornasl de Negócios de 24 de Julho)

CULTURA – Têm razão aqueles que dizem que uma boa definição, de cada partido, em relação às questões de política cultural, seria uma boa forma de ajudar muita gente a definir o seu voto. Considerada sempre como uma área menor onde não vale a pena investir nem tempo, nem dinheiro, a área das indústrias culturais e criativas é hoje encarada não só como relevante do ponto de vista económico, como importante para ajudar a decidir uma opção eleitoral. Se há coisa que, nalguns momentos, o actual Governo fez bem, foi, pela mão de Manuel Pinho, conseguir encontrar pontos de ligação entre o turismo e a cultura e desenvolver programas comuns – numa legislatura onde a Cultura foi genericamente mal tratada essa foi uma experiência a reter para o futuro, aliás quer em termos de Governo, quer em termos de autarquias. À oposição falta dar uma resposta nesta área. 

 


 


FINANÇAS – Teixeira dos Santos não foi uma figura muito simpática, cultivou alguma arrogância contra os contribuintes e, em termos políticos, não foi mais que um zeloso cumpridor de orientações. Enquanto a crise não apareceu lá foi conseguindo iludir as aparências, mas agora a falta de eficácia das suas políticas surgiu por completo. Já é impossível esconder que a despesa pública está a aumentar (pelas más razões), e tornou-se evidente que as medidas tomadas em época de crise não evitaram a brutal quebra de receitas do Estado, provocada pela enorme queda de actividade económica e do consumo. Com a despesa a subir e as receitas a cair Teixeira dos Santos vai fazer um triste fim de mandato, com resultados muito, muito fracos, que marcam o falhanço do PS na gestão das finanças públicas – uma das áreas onde Sócrates mais promessas fazia, recorde-se. 

 


 


LISBOA – Fiquei muito surpreendido por uma entrevista de Manuel Alegre onde ele, liricamente, se congratulava pelo acordo Roseta-Costa em Lisboa, dizendo estar muito satisfeito por ter sido conseguida a união da esquerda na capital. A sua megalomania habitual leva-o a considerar-se, a ele e aos seus apoiantes, como a esquerda que faltava ao PS, obviamente esquecendo que quer o Bloco, quer o PC concorrem contra a lista que ele apoia. Na realidade a lista de Costa é apenas uma lista onde se juntam as várias gerações do PS, o que como se sabe é muito diferente de ser uma lista de esquerda. Vai ser curioso ver o efectivo reflexo eleitoral de Roseta, agora que abdicou da sua independência em relação ao PS e ao resto da esquerda. 

 


 


SOCIALISTAS – Bernard-Henri Lévy deu uma curiosa entrevista sobre o estado do PS francês, mas que se aplica que nem uma luva aos partidos socialistas que por essa Europa fora seguiram a célebre terceira via de Blair, Sócrates incluído. A tese do filósofo francês é simples: o PS já não encarna a esperança, está numa situação semelhante à dos PC’s de finais dos anos 70, meados dos 80. Vai mais longe: a crise dos socialistas começou com o declínio comunista, porque os partidos socialistas sempre se posicionaram e construíram em demarcação aos partidos comunistas: quando estes se começaram a apagar perdeu-se o referencial e o PS desorientou-se e deixou-se infiltrar por ideologias reaccionárias – palavras de Lévy. 

 


 


LISTAS – A procissão das listas partidárias ainda vai no adro e já há muito burburinho – a coisa deve aumentar certamente nas próximas semanas. O principal problema tem a ver com a forma como as listas são constituídas, por jogos de influência e em resultado da relação de forças aparelhísticas dentro de cada partido. O resultado é que em muitos casos as listas são distantes do eleitorado e até dos simpatizantes de cada partido, o que é bem diferente de militantes encartados. Também esta situação contribui para a degradação do sistema político e para o alheamento da participação cívica nos processos eleitorais. Cada vez me convenço mais que devia existir um sistema próximo das primárias americanas, aplicado às legislativas, em que fora do estrito círculo das sedes bafientas dos partidos se pudessem escolher e indicar nomes para cada lista, distrito a distrito. 

 


 


PERGUNTA – O relatório do Tribunal de Contas sobre o negócio da Liscont não deveria levar a que fosse responsabilizado quem prejudicou da forma descrita o erário público? 

 


 


OUVIR – Originária do Mali, Rokia Traoré é uma das novas figuras de destaque no panorama da world music. Acompanhada pela sua guitarra, canta as suas próprias composições, acompanhada por um grupo de excelentes músicos africanos. «Tchamantché», o seu quarto disco, agrupa canções intensas, orgulhosamente africanas, envolventes e ritmadas, de tal maneira que ganhou o prémio de melhor artista na primeira edição dos prémios da revista britânica de world music «Songlines». CD Tama/Universal. 

 


 


LER – Óscar Wilde é um dos mais fascinantes escritores que conheço e, das suas obras,retiram-se algumas das mais iluminadas citações que podem ser utilizadas em várias ocasiões. Loureiro Neves compilou citações de Óscar Wilde e editou-as agora na «Casa das Letras» sob o título «A Sabedoria e o Humor de Oscar Wilde» - 140 deliciosas páginas que se juntam a outras edições de citações da mesma editora. 

 


 


PROVAR – O Castas & Pratos é um bom exemplo de um restaurante simpático, de boa comida e bom serviço, num velho edifício bem recuperado, um dos armazéns da estação de caminho de ferro da Régua. Por baixo fica um wine bar onde há uma boa escolha de vinhos da região a copo e também tapas diversas. No restaurante, numa noite luminosa, a escolha nas entradas foi laminado de presunto bísaro e crepes recheado com brunesa de legumes ; a seguir vieram um medalhão de vitela com risotto de cogumelos e uma espiral de polvo com batata grelhada recheada de grelos. A acompanhar vinhos a copo propostos pelo escanção. Para sobremesa um delicioso pudim de vinho do Porto. O restaurante, no primeiro andar, por cima do wine bar, é confortável, bom serviço e preço decente. Castas & Pratos, Rua José Vasques Osório, Estação da CP Peso da Régua, tel. 254 3232 90, www.castasepratos.com. 

 


 


BACK TO BASICS -   O progresso é a realização de utopias, Oscar Wilde 

 

julho 13, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 10 de Julho)

INVESTIGAÇÕES – Um dos problemas, graves, que existe na justiça portuguesa é a forma como investigações da Polícia Judiciária se tornam muito rapidamente armas de arremesso político ou social. Os anos recentes estão cheios de casos destes – em que as fontes que tornam públicas investigações partem de dentro da própria polícia, como forma de provocar julgamentos na praça pública, que muitas vezes nem chegam a tribunal. O histórico da Polícia Judiciária no sucesso de investigações complexas, na resolução de crimes ou no desmantelamento de redes criminosas é muito pequeno, quando comparado com a forma como em casos políticos se deixa manipular e como é utilizada como elemento central de campanhas de opinião pública. Algo vai muito mal no funcionamento da Polícia Judiciária - e a sua reforma é uma peça essencial para que a Justiça possa melhorar. 

 


 


DÚVIDA – Às vezes fico um bocado espantado sobre a forma de comportamento dos porta-vozes partidários. Eu acho que o natural seria que um porta-voz tentasse alargar o raio de comunicação do seu partido, que falasse para os eleitores que estão nas margens, para conseguir captar eleitorado, neutralizar quem antipatiza com esse partido e sobretudo conseguir dar bons argumentos para que os militantes e simpatizantes consigam eles próprios exercer influência nos círculos onde se movem. Mas em vez disso os porta-vozes, com raras excepções, falam para dentro, para o núcleo duro, reproduzem argumentos frequentemente de forma dogmática, e parecem mais obstinados em fornecer argumentos para confrontos do que em comunicar no sentido básico do termo – fazer chegar uma mensagem a quem à partida não estaria predisposto a ouvi-la. Olhem para o espectro partidário e analisem como actuam os porta-vozes – raros ultrapassam o nível de um propagandista, teimoso mas inábil, em início de carreira. 

 


 


 


 


RESUMO DA SEMANA – A Comissão de Inquérito da Assembleia da República ao caso BPN achou que o Banco de Portugal agiu bem na fiscalização daquele banco; Cristiano Ronaldo em Madrid foi o assunto central da semana nacional; já existem três manifestos sobre obras públicas, mais uma conferência de imprensa de Jorge Coelho; dizer um palavrão na Assembleia da República não tem consequências mas exprimi-lo gestualmente dá demissão – é aquilo a que se chama o poder da imagem. 

 


 


PERGUNTA INDISCRETA – Agora que Manuel Pinho se foi embora, quem é que vai tratar dos assuntos da Cultura no Governo? 

 


 


VER – Senti o cheiro das rotativas e a emoção de ver uma história publicada, o caos das redacções e o zig-zaguear do desenvolvimento de uma reportagem em «Ligações Perigosas», um filme de Kevin Macdonald sobre a investigação jornalística da morte da amante de um político que andava a investigar negócios pouco claros na área militar. O «thriller» é bem construído, o argumento é muito bom e a interpretação de Russell Crowe é superior. 

 


 


LER – Confesso-me um leitor devoto de policiais e confesso-me amigo do Fernando Sobral, que também escreve nas páginas deste jornal. Gosto de o ler diariamente no seu certeiro «Pulo do Gato» ou nas notas sobre a semana ou sobre livros que ele publica aqui neste «Weekend». Feitas estas declarações tenho a dizer que «L.Ville», o novo livro do Fernando Sobral, um policial, é uma história fascinante de um detective que, na cidade de Lisboa, se confronta com um caso de homicídio. Não vou contar a história – que é daquelas que não se consegue parar de ler – mas direi que é um retrato contemporâneo de locais, comportamentos e atitudes. Eu li-o de seguida, a imaginar sítios, a ouvir as canções que são citadas, a sentir cheiros e aromas. «L.Ville» é um dos melhores policiais que tenho lido ultimamente e que, ainda por cima, tem a particularidade de ter frases absolutamente  geniais, como esta: «Podemos ensinar tudo; mas devemos ficar sempre com o truque definitivo». (Edição Quetzal) 

 


 


OUVIR – Ao fim de duas décadas e de uma quinzena de discos ainda há lugar para surpresas numa banda que em 1988 ganhou fama e notoriedade com o disco «Daydream Nation», que se afirmou com uma sonoridade própria na Nova York dos anos 90? Estou a falar dos Sonic Youth, esse quarteto que fez fama com canções que reproduziam os ruídos, as sensações e a criatividade dessa cidade. Ironicamente intitulado «The Eternal», o novo disco dos Sonic Youth, uma nova explosão de energia, misturada com pequenas provocações que salpicam as canções. Os Sonic Youth, que há três anos não lançavam disco novo, não inventam aqui nada – mas aperfeiçoam o seu estilo, e surpreendem pela coerência, num tempo em que esta música podia ser mais difícil para atrair novos públicos. Destaque para a forma como Kim Gordon canta, e sobretudo para a última canção do disco, verdadeiramente impressionante, «Massage The History». CD Matador. 

 


 


PROVAR – As coisas mais simples e mais tradicionais são muitas vezes as melhores. De repente um regresso a um restaurante onde já não se ía há uns tempos faz recordar a importância da boa escolha de produtos, a boa confecção, o tempero cuidado, a atenção ao pormenor – por exemplo a qualidade da preparação das azeitonas e do pão que se servem – um dos «couverts» mais simples, que ou corre muito bem ou é para esquecer. Pois correu muito bem num regresso ao «Apuradinho», em Campolide, uma noite destas onde o objectivo era comer bem, com calma, sossegado. A escolha da noite recaiu numas lulas recheadas acompanhadas de puré de batata – aqui está um prato que pode ser um desastre, mas felizmente no «Apuradinho» é um sucesso – lulas perfeitas, tenras, recheio muito bom, um puré de batata natural muito bem condimentado. A terminar, cerejas magníficas, absolutamente excepcionais – num ano, aliás, que tem sido bom em matéria de cerejas. Resumo da noite: porque é que não vou mais vezes ao «Apuradinho» - aos seus pastéis de bacalhau levíssimos, ao estufado de pivetes (rabo de boi) ou ao cozido, sempre superior? «Apuradinho», Rua de Campolide 209 A, telefone 213 880 501. 

 


 


BACK TO BASICS -  A História é pouco mais do que uma sucessão de crimes e de infortúnios - Voltaire 

 

maio 13, 2009

O COSTA DA CULTURA

(Publicado no diário Meia Hora de 12 de Maio)


Esta semana li, algo surpreendido, um texto de propaganda sobre o que seria a política cultural da Câmara Municipal de Lisboa, protagonizada por António Costa. Publicada no sábado no «Público», a reportagem mostra um António Costa – pela primeira vez no seu mandato – preocupado com as questões da política cultural.


Presidente de uma vereação onde a Cultura é actividade acessória, confinada a estudos estratégicos de programa pré-definido e universo estreito, António Costa pouco mais fez do que mostrar como é presa de preconceitos e de lugares comuns, evitando falar de coisas concretas.


A estratégia de António Costa nesta matéria é curiosa: em vez de fazer uma política para a cidade, fez uma política e desenvolveu uma estratégia para querer seduzir pessoas, organizações e instituições ligadas às actividades culturais, dentro de um círculo razoavelmente restrito e com elevada dose de fidelidade política – na prática desprezou os públicos. O resultado é que a cidade perdeu aura, embora algumas pessoas tenham ganho ocupação subsidiada.


As iniciativas populares e o entretenimento – áreas marcantes da cultura popular contemporânea – têm-lhe merecido desprezo, substituídas por apoios avulsos a iniciativas muito especializadas e demasiado sectoriais. Mesmo num dos seus cavalos de batalha – a multiculturalidade, o seu mandato fica marcado pela extinção do África Festival, substituído por uma África.cont. que ainda ninguém sabe bem o que será e que, a bem dizer, não existe além do papel.


Mas o pior do curto mandato de António Costa em Lisboa tem sido a sua submissão ao Governo: foi assim com a Colecção Berardo, em que a Câmara devia ter imposto a solução do pavilhão de Portugal, na Expo, como equipamento receptor; foi assim no caso do inconcebível projecto do Museu dos Coches; foi assim na discutível transformação do Pavilhão dos Desportos num Museu do Desporto que ninguém sabe bem o que será e para que servirá.


O facto de em Lisboa conviverem instituições culturais nacionais com locais faz com que a Câmara deva ter voz activa nos equipamentos que estão na cidade. Mas como António Costa se demitiu desse assunto para não afrontar o Governo, Lisboa está no marasmo em que se encontra – à procura da fonte milagreira de onde brote o elixir que num instante transforme Lisboa numa cidade criativa – difícil quando se quer regulamentar e planificar a criatividade em vez de a deixar fluir. 

 

maio 04, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 30 de Abril

 


PRIORIDADES - Leio com atenção o artigo de Mário Soares no «Diário de Notícias» sobre o 25 de Abril e uma estratégia para Portugal. Soares fala em quatro quintos do artigo sobre memórias do tempo em que foi protagonista e diz que o país está à beira de uma nova era «política, financeira, económica, ambiental, energética e, sobretudo, de valores». Muito sintomaticamente não fala da maior crise da sociedade portuguesa – que é o não funcionamento da justiça, com o que ela traz – o implícito benefício de quem não a cumpre e o não reconhecimento de quem faz as coisas como deve. Uma geração de políticos, mairotariamente advogados e juristas, como Mário Soares, deixaram como legado um país onde a Justiça não funciona. E fazer com que funcione é um imperativo estratégico – senão, não há nem economia, nem valores que resistam. O artigo acaba por ser a confissão de que, para os políticos, a justiça não é uma prioridade.

 

LISBOA - Cá para mim António Costa pode bem ser o mentor escondido da Frente de Esquerda. É ele quem tem a ganhar politicamente se a Frente surgir, a acção em si é típica de políticos à antiga como ele (que evocam com saudade a época do frentismo e gostam da táctica da unidade para expurgarem o campo em que se movem), e claramente esvaziaria de sentido as aventuras de Helena Roseta e deixaria o Bloco encurralado – sendo que com o PCP, como antes já aconteceu, pode sempre fazer-se um acordozito. Acho que a coisa já esteve mais longe de poder acontecer do que está na realidade e a pressão sobre quem ficar de fora vai ser enorme – de cisionistas a aliados da reacção vão ouvir de tudo. Com o inefável José Sá Fernandes na primeira linha do combate frentista, aposto.

 

CAPILÉ - Na terça feira de manhã escrevi isto no Twitter e no Facebook: «Tanta conversa sobre os quiosques de refrescos já aborrece - fazem mais falta esplanadas decentes na Av. da Liberdade que hinos ao capilé». Esta afirmação desencadeou uma guerra de opiniões, coisa boa e que é aliás o que me anima a lançar frases fortes – que de qualquer maneira correspondem ao que eu sinto, quando há uma desproporção entre a promoção e o seu objecto – como é o caso.

 

LER – Eis um bom exemplo de como um livro de ensaios, e para mais sobre cultura contemporânea, pode ser um estimulante exercício para o pensamento – mesmo quando se percebe que o autor, como é compreensível, valoriza o seu ponto de vista e subalterniza o dos outros – o que proporciona aliás alguns momentos divertidos, por serem tão assertivos. Mas, divertimentos à parte, «À Procura de Escala», de António Pinto Ribeiro (não, não é o Ministro, que esse não pensa nem age sobre Cultura) é um conjunto de cinco textos que faz bem o ponto de situação de uma determinada lógica de pensar a política e a actividade cultural no sentido da criação de um gosto – desse ponto de vista é talvez o mais sólido resumo do que foi o verdadeiro fundamento da política a que Carrilho quis chamar de sua. («À Procura da Escala», de António Ponto Ribeiro, Livros Cotovia).

 

VER - Uma sugestão para todos os que gostaram de ver e ouvir o maestro venezuelano Gustavo Dudamel no Coliseu de Lisboa no passado fim de semana: existe no mercado português um óptimo DVD onde Dudamel dirige a Orquestra Juvenil Simon Bolívar, gravado em 2007. O repertório é bem diferente do que ele aqui interpretou e inclui a «Eroica» de Beethoven, a «Danza Final» do argentino Alberto Ginastera e «Huapango» do mexicano José Pablo Moncayo. Atractivo suplementar, um documentário sobre como foi criada e funciona esta orquestra que impressiona tanta gente. DVD Deutsche Grammophon, distribuído pela Universal.

 

OUVIR – J.P. Simões é um dos mais interessantes e polifacetados músicos contemporâneos portugueses. Ao longo da sua carreira esteve com os Pop Dell Arte, fundou os Bellechase Hotel e criou o Quinteto Tati antes de iniciar a sua carreira a solo, que já leva dois discos editados. Pelo meio escreveu em jornais, fez bandas sonoras para filmes, escreveu um livro de contos, e tem dado concertos um pouco por onde calha, muitas vezes sozinho em palco com a sua viola. Admirador confesso de Chico Buarque, de quem as influências até na forma de cantar se notam, J.P. Simões é um compositor de invulgar talento e um intérprete notável. Eu acho que não é exagero considerá-lo o melhor da sua geração e o novo disco, acabado de editar e gravado maioritariamente ao vivo, «Boato», é prova disso mesmo. Não são só as canções, é o ambiente, a forma de tocar, o que está escrito e como é cantado – tudo tem aquele raro toque de génio que volta e meia nos faz parar a corrida para ouvir o que se passa à nossa volta.

 

DESCOBRIR - Nesta época de crise da imprensa é bom ver como no sector das revistas há alguma coisa diferente. O grupo editorial norte-americano Condé Nast decidiu acabar com a sua revista de economia e negócios, «Portfolio», mas ao mesmo tempo decidiu lançar a «Wired» no Reino Unido. Neste número inaugural da edição europeia surgiram novos temas e novas formas de abordagem relativamente à americana, com o futuro como tema de capa.

 

PETISCAR – Podia ser uma barra espanhola bem fornecida, como o Luciano em Ayamonte, mas é uma boa taberna portuguesa em Setúbal. Chama-se Taberna Grande, fica na Rua das Fontainhas 30 e apresenta um conjunto de propostas para petiscar com fartura e qualidade, de pataniscas a torresmos, passando por polvo à galega, presunto, requeijão e doce de abóbora a condizer. Recomenda-se apenas maior atenção na fritura – por vezes imperfeita e pesada. A garrafeira tem boas propostas regionais e o espaço é confortável, mesmo quando está cheio. Telefone 309847226.

 

BACK TO BASICS – A justiça deve ser mantida viva pelo espírito e não pela forma da Lei – Earl Warren

março 30, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 27 de Março)

CULTURA - Não sou dos que embandeira em arco com a gestão de Manuel Maria Carrilho no Ministério da Cultura. Acho que fala bem, escreve melhor, lê muito, pensa razoável, mas o balanço concreto do seu mandato, promessas e fogo de artifício à parte, é, de facto, escasso em obra feita. Mas também reconheço que o texto que colocou a debate no PS sobre política cultural, e que esta semana foi divulgado na imprensa, é uma análise lúcida da realidade e do triste estado a que o seu partido deixou chegar as coisas. Infelizmente bem sei que em matéria de política cultural o PSD é praticamente inexistente, o que somado à forma como o PS de Sócrates tem gerido a área, deixa as maiores reservas para o futuro. Quanto mais não seja o texto de Carrilho é bom, precisamente para que fora do PS se reflicta sobre o que se deve fazer nesta área. 

 


 


DESPORTO – Em Portugal deixou há muito de haver verdade desportiva no futebol e as histórias relatadas de corruptelas com árbitros sucedem-se - alguns a troco de dinheiro, outros de prendas, mais alguns a troco de favores sexuais. A única forma de devolver a moralidade ao jogo é punir os erros, porque se vamos à procura de processos judiciais e de provas acabamos naquilo a que a justiça portuguesa já nos habituou – o crime compensa. A Liga Portuguesa de Futebol tem a responsabilidade de criar um sistema que avalie o que se passa. E deve pensar, como noutras modalidades,  que o recurso ao vídeo-árbitro é melhor forma de evitar as tentações e os enganos e de identificar os erros. A partir daí a Liga só pode encarar a punição dos erros dos árbitros como a única solução para moralizar o espectáculo desportivo.  

 


 


MANIPULAÇÃO - O funcionamento da Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) levanta cada vez mais dúvidas – desde a forma como a maioria dos seus membros analisou e eliminou as propostas concorrentes ao quinto canal, passando pelo papel de putativo censor de serviço (como no caso da TVI), quase nada funciona em termos transparentes e isentos. Dotada de um orçamento generoso e excessivo, pago pelas audiências e pelos operadores do sector (excesso que se vê bem nas contas que apresenta), a ERC devia ser escrutinada com rigor e cuidado pelo Parlamento. Mal nascida de raiz, fruto de um acordo politiqueiro, a ERC é o exemplo acabado dos perigos da manipulação política e da ineficácia do Parlamento como órgão de controlo deste tipo de entidades. Na realidade o mais certo seria rever a utilidade da própria ERC tal como ela está. 

 


 


VER – No Museu Berardo, CCB, a exposição dos três finalistas da edição 2008 do BES PHOTO. O prémio tem gerado polémica ao longo dos anos, com um júri atreito mais a modas do que à abordagem da fotografia. Os três finalistas representam opções bem diversas: Luís Palma explora a contemplação, um naturalismo de inspiração pictórica algo óbvio mas muito em voga; Edgar Martins aborda a fotografia pelo lado da manipulação da imagem, com um resultado previsível, muito «arty» e politicamente correcto; e André Gomes surpreende pelo trabalho de concepção de narrativa e pela poética de «O Livro de Ângela», naquela que é, eventualmente, a mais conseguida utilização da fotografia como forma de expressão e criação patente nesta edição do BES Photo. 

 


 


VER II – De entre as exposições em galerias lisboetas destaco a individual de José Pedro Croft na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80, a Xabregas, terça a sábado entre as 10 e as 20 horas). Croft apresenta desenhos, esculturas de chão e esculturas de parece em ferro zincado, colorido.  As esculturas de parede, que são talvez a zona mais interessante da exposição, elas como que partem dos desenhos, formando um círculo de cumplicidades. É verdadeiramente uma mostra de equilíbrio e coerência. 

 


 


LER – Continuo fanático da revista mensal «Monocle», confesso que tenho pena de não ter ouvido a conferência do seu director, Tyler Brulé, quando esteve recentemente em Lisboa, numa visita pouco divulgada. Na edição de Abril da «Monocle», entre muitos outros temas, destaque para uma entrevista com Bernard-Henri Levy, um artigo sobre o maior jornal do mundo, o japonês «Yomiuri Shibun» e uma multidão de pequenas e preciosas notas sobre o que vai acontecendo por esse mundo fora – a «Monocle» nos tempos que correm é acima de tudo um remédio contra a crise: afinal há coisas boas e que funcionam. 

 


 


OUVIR – Molly Johnson é uma cantora canadiana, com uma voz de invulgar sentido rítmico. O seu novo disco, «Lucky» é uma selecção bem escolhida de standards de jazz em interpretações swingantes e cheias de energia. O quarteto que a acompanha está à altura e ajuda a fazer deste disco uma preciosidade. CD Verve/ Universal. 

 


 


PETISCAR – Há cerca de quarto anos o chefe Hardev Walia decidiu mudar-se de Londres para Lisboa e dar a conhecer aos alfacinhas prazeres desconhecidos da cozinha indiana. Mestre na arte de escolher as especiarias e fazer o tempero, chamou ao seu restaurante «Tamarind», um fruto tão exótico e delicioso como as receitas que Hardev Walia prepara. A sala é pequena, colorida e tranquilizante – à noite reservar é prudente. Existe um menu de almoço com quatro escolhas, a bom preço, e, à noite,  independentemente da carta, vale a pena perguntar ao chefe o que ele propõe. Os seus conselhos são de seguir – se acha que um caril de grão é uma coisa estranha, perca o receio e escolha chana masala; mesmo que não seja grande apreciador de borrego não hesite no rogan josh – nunca provou nada assim. O pão Nan de alho é extraordinário, os molhos de entrada são bem condimentados e para sobremesa peça o gelado de pistacchio com doce de cenoura quente ou a mousse de chocolate com queijo e natas, acompanhada de palitos de gengibre – arrebatador. Restaurante Tamarind, Rua da Glória 43-45, tel. 213 466 080. 


 


 


 


BACK TO BASICS – O desporto não serve para criar carácter, apenas para revelar o que existe  - Knute Rockne 

 

dezembro 06, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 5 de Dezembro)

RESUMINDO – O conflito com os professores continua, o Governo salvou mais um banco que até há pouco tempo era elogiadíssimo, José Sá Fernandes está cada vez mais ao colo de António Costa, a concretização das medidas do plano de Durão Barroso para salvar a Europa leva negas de todo o lado, o PS entrou definitivamente em choque com o Presidente da República e o guarda redes do Benfica deixou entrar 30 golos em 21 partidas. São assim os tempos que correm… 

 


 


 


 


 


VENDO – Na revista virtual «Arte Capital» (www.artecapital.net) vale a pena ler o habitual artigo de Augusto M. Seabra, desta vez sobre a actuação do Ministro da Cultura, que acaba assim: « É inteiramente legítimo que José António Pinto Ribeiro aspirasse a ser ministro. Para mal geral, num sector já em tão grave situação financeira, o seu desempenho na Cultura é um mero exercício de mundanidade e vanitas.».


 


OUVINDO - Está encontrado o disco – ou melhor, o par de discos – para esta quadra natalícia: Verve Christmas, Remixed e Unmixed. São dois CD’s, ambos baseados em standards do catálogo de jazz Verve, com alguma ligação ao Natal, de nomes como Nina Simone, Mel Tormé, Ella Fitzgerald ou Jimmy Smith, entre outros – 11 temas ao todo. A versão Unmixed tem as gravações originais. A versão Remixed tem as misturas propostas para os diversos temas por nomes contemporâneos. Por exemplo «’Zat You Santa Claus?» de Louis Armstrong é remisturado por The Heavy; «What Are You Doing New Years Eve?» de Ella Fitzgerald é remisturado por Mangini vs. Palin; «I’ve Got My Love To Keep Me Warm» é trabalhado por Yesking, «What a Wonderful World» de Louis Armstrong por The Orb, «Silent Night» por Dinah Washington com remix das Brazilian Girls e «The Christmas Song» por Mel Tormé, trabalhada por Sonny J, entre outras. Os dois discos são mesmo uma maneira divertida – e variada – para bandas sonoras de natal para todas as coasiões. Sugerem-se as remixes para depois da meia noite e as versões clássicas para os aperitivios da ceia. (CD’s  Verve, Universal Music). 

 


 


VIBRANDO – Onde é que coexistem o apito dourado, Elvis Presley, Doors, David Bowie, as Doce e «Sympathy For The Devil» dos Rolling Stones? Se disser que é num concerto de Rui Reininho acerta em cheio. Na noite de quarta-feira, no palco do Cinema S. Jorge, em Lisboa, ele esteve no seu melhor – algo refinado até – e rodeou-se de uma sonoridade diferente dos tempos do GNR, sob a batuta de Armando «Balla» Teixeira. Até ver aqui está um exemplo de como entrar numa nova fase da carreira sem cair na lamechice. No final do concerto, Helena Coelho, das Doce, mostrou boa forma vocal ao lado de um Reininho entusiasmado, a cantar «Bem Bom». Delirante – mas era isso mesmo que se esperava. O disco estreia de Reininho a solo sai para a semana, chama-se «Companhia das Índias» e tem originais de nomes como Rodrigo Leão, Legendary Tiger Man, Armando Teixeira, J.P. Coimbra (Mesa) e Margarida Pinto (Coldfinger), entre outros. (Parabéns aos organizadores do Super Bock em Stock, a Avenida da Liberdade estava uma festa).


 

 


DIVERTINDO - O jornal mais divertido que se edita em Portugal nos dias de hoje é gratuito, mensal, chama-se «LuxFrágil», é dirigido por Manuel Reis e aborda temas que vão do sexo à música, passando por receitas, horóscopos (de Anamar), textos inéditos para peças de teatro, desvarios vários – destaque para Quim Albergaria  e para Hugo Gonçalves que exploram o complexo campo das relações, da pornografia, da mentira e da atracção. Têm que ler – encontram exemplares disponíveis na Bica do Sapato e no próprio Lux. E, claro, o jornal traz toda a programação da casa – destaque este mês para o encontro de Zé Pedro Moura com João Peste no sábado 20. Para termonar: a capa é a reprodução de uma factura de um santeiro, datada de 1853, relativa a trabalhos de reparação efectuados nas capelas do Bom Jesus de Braga. Imperdível. 

 


 


 


FOLHEANDO - A Magnética Magazine é algo de diferente de tudo o que por cá havia sido feito – é uma publicação mensal, gratuita, de distribuição exclusiva na internet. É uma publicação de lifestyle, mas também de moda e tendências, de consumos e luxos. Pode ser consultada em www.magneticamagazine.com e tem um daqueles curiosos sistemas electrónicos que permite passar páginas como se estivéssemos a folhear uma edição em papel. Em destaque neste primeiro número a voz da cantora Maria João e a música dos Buraka Som Sistema por via de Kalaf, o paladar do chocolate (com um texto de Álvaro de Campos) e muitas e belas páginas sobre design. Parabéns a quem desenhou e editou a revista. É um belo objecto virtual. 

 


 


PIZZANDO - Permanecendo na pesquisa das pizzas, recomendo as da cadeia Capricciosa, hoje em dia com presença em Alcântara, na zona da Expo, em Carcavelos e também na Doca de Santo. Para o caso a experiência foi feita em Alcântara, na Rua João de Oliveira Miguéns nº 48, onde em tempos foi um restaurante cubano. Sala ampla, serviço rápido e simpático, preços razoáveis, bom aquecimento nestes dias fresquinhos. Cada vez que vou a uma destas pizzarias espanto-me como nos últimos anos se avançou tanto na matéria – na confecção das massas, finas, estaladiças, na proposta de ingredientes, nas muitas possibilidades que se abrem. Para além de pizzas a Capricciosa tem massas e saladas e se quiserem uma sobremesa experimentem a cassatta, que é mesmo boa. Telef 213955977.


 

 


BACK TO BASICS - A liberdade significa responsabilidade, é por isso que a maior parte das pessoas a temem – George Bernard Shaw. 

 

agosto 03, 2008

A ESQUINA DO RIO

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 1 de Agosto)


 


PUFF! – As ruas de Lisboa cheiram mal, os passeios estão sujos, há sítios onde o branco da calçada é uma recordação. A coisa existe em várias áreas, não é só numa – e não se vêem lavagens de rua frequentes. Que se passa com a limpeza na cidade? Das avenidas novas ao Bairro Alto, passando pelo Martim Moniz, o cheiro nestes dias de calor é pestilento. 




INDECÊNCIA – O pequeno Largo do Chiado é dos melhores locais de Lisboa. Nestes dias de Verão, ao fim da tarde, é um corropio de estrangeiros, ouve-se falar todas as línguas, é engraçado ficar numa esplanada a ver o ambiente. Claro que tudo seria melhor se a esplanada estivesse limpa, mas infelizmente não é o caso. A «Brasileira» do Chiado, ao fim da tarde, é o exemplo do que não pode acontecer – já nem falo da degradação das mesas com a pintura toda estalada e geralmente sujas – basta ver o chão. Na zona concessionada da esplanada, ao fim da tarde, acumulam-se sujidades diversas, restos de embalagens, guardanapos de papel, bocados de pacotes de açúcar. Verdadeiramente não sei o que a Câmara anda à espera para pôr o local na ordem e obrigar os concessionários a manter bem limpa e digna a esplanada melhor colocada de Lisboa, protegida pela sombra de Fernando Pessoa. 

 


 


ROMANCE – Muito curiosa a troca de piropos entre João Cravinho e Alberto Martins, ambos destacados socialistas, a propósito da legislação de combate à corrupção. Cravinho, já se sabe, acha que o assunto não está a ser tratado com o rigor devido. E Alberto Martins acusou o toque. Pelo meio ficaram acusações que nem a oposição se lembra de insinuar. Deve ser uma forma de exprimir a fraternidade socialista, suponho. 

 


 


FUTEBOL – No caso da RTP e do Futebol quem tem que explicar o que quer é o representante do accionista Estado, ou seja o Ministro Santos Silva. Convém que esclareça se o accionista Estado, em vésperas de permitir a abertura de um terceiro canal privado, pretende reforçar a competitividade comercial do operador de serviço público. Aqui a única pessoa com responsabilidades é quem dá orientações, ou seja, o accionista. 

 


 


CHINA – Nestes dias todas as revistas trazem fotografias de Pequim, da nova Pequim, em vésperas do início dos Jogos Olímpicos. Estive lá em 1990, um ano depois dos incidentes de Tiananmen, e quando olho para as fotografias actuais das grandes avenidas nem acredito na transformação acontecida em menos de duas décadas. Arquitectura impressionante, soluções de engenharia inovadoras, uma dimensão enorme, uma cidade completamente transformada, uma sociedade em constante mutação.  

 


 


ESQUISITO – O Ministro da Cultura demitiu o Director do Teatro Nacional D. Maria II sem ter tido uma única conversa com ele sobre o seu trabalho. Ninguém questiona o direito de o Ministro escolher a sua equipa e de não ter que viver com as escolhas da sua antecessora, mas não parece curial, sobretudo nesta área, que se evite o frente a frente e que se assine uma exoneração sem se ter dito ao interessado, olhos nos olhos, que iria ser demitido. Como todos os intervenientes nesta história são crescidinhos, resta pensar que existe alguma coisa escondida em toda esta novela. É do interesse público saber o que se passou e não promover jogos da cabra cega. 

 


 


VER – Merece uma visita a exposição de fotografias de João Silva, um fotojornalista português que trabalha no «The Star» de Joanesburgo. Intitulada «Pesadelo», a exposição agrupa imagens do Iraque, do Afeganistão, do Líbano, do Malawi, da África do Sul, do Gana e do Quénia. Pode ser vista na Galeria do «Diário de Notícias», Avenida da Liberdade 266. 

 


 


LER – A mais recente edição da «Vanity Fair» tem reportagens fascinantes sobre as razões do colapso do Banco Bear Sterns e sobre a história dos conflitos entre os herdeiros de Agnelli e, sobretudo, um exemplo de jornalismo investigativo nos bastidores da campanha de Hillary Clinton, sobre as razões que levaram à sua derrota. Mas melhor que tudo é o editorial do director da revista, Graydon Carter, que – sem papas na língua – revela que Bill Clinton andou a denegrir o autor de um anterior artigo da revista sobre as suas actividades pós-presidenciais. Sempre achei que uma revista como a «Vanity Fair» fazia falta por cá. E que fazem falta mais editores como Graydon Carter. 

 


 


OUVIR  - Nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova vale a pena encomendar da Amazon  (já que por cá não existe) a colectânea «The Antonio Carlos Jobim Songbook», uma edição da Verve feita em 1995 para homenagear Jobim aquando da sua morte. Para além da «Garota de Ipanema» por Stan Getz e João Gilberto com o próprio Jobim, o CD inclui versões de Sarah Vaughan («Corcovado»), Wes Montgomery («Insensatez»), Billy Eckstine («Felicidade»), Ella Fitzgerald («Desafinado»), Óscar Peterson («Wave») e Dizzy Gillespie («Chega de Saudade»).  

 


 


COMER – Picanhas há muitas, mas começa a ser raro encontrar uma que seja tenra, bem cortada e grelhada na brasa como deve ser, sem ficar passada e transformada num bocado de sola de sapato. Um novo restaurante em Campolide, ambiente simples e familiar, oferece uma boa alternativa. «O Assador» é especialista em grelhados de peixe e carne, tem serviço simpático e boa matéria prima. O vinho da casa, da região de Aveiras, acompanha bem os grelhados, o preço no fim da refeição é uma boa surpresa –a par da qualidade do bolo de bolacha sugerido para sobremesa. Fumadores autorizados. O Assador, Rua de Campolide 165 A, Tel 21309870783.


 

 


BACK TO BASICS – A Paz, na política internacional, consiste num período de vigarices, entre dois períodos de conflito, Ambrose Bierce. 

 


 

junho 04, 2008

CRIATIVIDADE CONGELADA

(Publicado no diário Meia-Hora de 4 de Junho)


Nos últimos tempos fala-se bastante da importância de atrair e fomentar a criatividade e há poucas semanas esteve em Lisboa, para uma conferência, o economista norte-americano Richard Florida que se tornou conhecido exactamente por defender a necessidade de cidades e países se posicionarem enquanto pólos de criatividade, como factor de desenvolvimento económico e social.


Numa conjuntura destas seria de esperar que os maiores municípios do país e o Governo andassem de mãos dadas para tentar criar uma estratégia de actuação concertada. E seria natural que fossem os vereadores dos pelouros autárquicos da Cultura e o Ministro da Cultura os dinamizadores dessas acções.


Pois então não se passa nada disso. A área da Cultura continua a ser sistematicamente subalternizada, e em primeiro lugar por Presidentes de Câmara e por Primeiros Ministros, que olham para o sector e não conseguem ver mais do que a política de subsídios e a gestão de favores a grupos de interesse, para posterior utilização nos ramalhetes de apoios em épocas eleitorais.


A actividade cultural – no sentido lato do entretenimento e das indústrias criativas – é hoje em dia um factor decisivo para fazer desenvolver a economia. Duvidam? Pois ouçam estas palavras do Mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg: «O sector criativo dá à nossa cidade a sua vantagem estratégica e a margem competitiva que lhe permite ter êxito na economia globalizada. O diversificado e criativo ambiente de Nova Iorque não só atrai empresários, homens de negócio e turistas de todo o mundo, como influencia cada um dos nossos mais pequenos gestos. Na realidade este ambiente melhora permanentemente a qualidade de vida em Nova Iorque, cria empregos, atrai estudantes, contribui para manter na região empresas e negócios e ajuda a transformar e requalificar os nossos bairros. A influência das artes e da cultura na cidade é extraordinária.»


Dito isto, pensem lá um bocadinho: que andam a fazer, por exemplo, os vereadores da cultura do Porto e de Lisboa? Que anda a fazer o Ministério da Cultura? Não se sente nenhum esforço em tornar esta área uma prioridade, mas a maior responsabilidade cabe aos titulares governamentais da pasta da Cultura que nunca se bateram pela definição de uma estratégia nacional para o desenvolvimento económico do sector.

março 31, 2008

SUGESTÕES AVULSAS

(publicado no »Jornal de Negócios» de 28 de Março)



MAU – A intrusão do Fisco na vida das pessoas, impondo, sob a ameaça de multas, informações pormenorizadas sobre aquisições de bens e serviços, obrigando particulares ao demorado preenchimento de questionários e ao envio de cópias de facturas (ao abrigo de que Lei?) . Já se percebeu que o folclore pré-redução de impostos já está em marcha – e será de saudar – mas tão importante como isto é acabar com os abusos de poder da máquina fiscal. 




PÉSSIMO – A utilização, em material audiovisual do PS, de imagens e voz de um jornalista, José Rodrigues dos Santos, sem autorização do próprio e ainda por cima num contexto de montagem e de edição que pode levar a pensar que ele estava a corroborar as opiniões expressas no resto do vídeo.  




BOM – O blog do jornalista e crítico cultural A.M. Seabra, intitulado Letra de Forma e pode ser consultado em www.letradeforma.blogs.sapo.pt . A.M. Seabra, recordo, também escreve uma coluna regular no artecapital (www.artecapital.net )  e o tema da mais recente é a Fundação de Serralves. 



VER – Até este Domingo ainda tem oportunidade de ver as «Variações à Beira de Um Lago» de David Mamet, pela Companhia do Teatro de Almada, com encenação de Carlos Pimenta, na bela sala do Teatro Municipal de Almada. Hoje e Sábado as representações são às 21h30, Domingo é às 16h00. Vale a pena destacar o trabalho dos dois actores, que à beira de um lago, e usando os patos que o povoam como pretexto, acabam a falar da condição humana. André Gomes e João Ricardo têm bons desempenhos, bem auxiliados pela cenografia aberta de João Mendes Ribeiro. Destaque ainda para a música original de Mário Laginha. E já que estamos a falar de um trabalho em que participa André Gomes, aqui fica uma outra indicação – fora da pele de actor, André Gomes tem realizado de forma sistemática ensaios com base fotográfica recorrendo a Polaroids, e o mais recente está exposto no Museu da Electricidade, Fundação EDP. Intitulada «Era Na Velha Casa», a exposição é a interpretação visual do autor sobre dois fragmentos da Ode Marítima de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa. Até 27 de Abril, de terça a Domingo, das 10 às 18h00. 


DESCOBRIR – «VPF Rock Gallery» é o novo espaço acabado de nascer na Rua da Boavista 84, em ligação com a VPF Cream Art Gallery e a Plataforma Revólver. Este novo espaço, também concebido e dirigido por Victor Pinto da Fonseca, tem por objectivo divulgar o trabalho de novos artistas, no princípio de carreira. A honra da estreia da nova galeria coube à fotógrafa Marta Sicurella. Na VPF Cream Art está uma exposição de pintura e desenho de Jorge Feijão e na Plataforma Revólver uma instalação de Armanda Duarte.  De terça a sábado, das 14 às 19h30. 



OUVIR – A banda sonora do filme « Juno», com deliciosas canções pop de Kimya Dwason ( a voz dos Moldy Peaches), melodias de uma simplicidade desarmante. O filme, como alguns saberão, conta a história da gravidez acidental de uma adolescente e as canções reflectem o espírito dos dias, desde as originais de Dawson, até clássicos como «A Well Respected Man» da banda britânica dos anos 60 The Kinks, passando por «Dearest» de Buddy Holly, «Expectations» de Belle & Sebastian , «Superstar» dos Sonic Youth, o sempre magnífico «All The Young Dudes» pelos Mott The Hoople ou uma versão arrebatadora do clássico «Sea Of Love»  por Cat Power. Aqui está uma banda sonora absolutamente imprevista, variada, adequada ao filme e fascinante de um modo geral. CD Rhino, comprado na Amazon. 


LER – A edição de Março da revista trimestral «Egoísta» é uma espécie de número especial (até na paginação), dedicado ao mar, intitulado «Atlântico» e com uma magnífica fotografia de capa  de João Carvalho Pina, aliás repetida num portfolio do autor publicado nesta mesma edição. Outros portfolios em destaque são de Augusto Brázio e de Pedro Cláudio, este último cada vez mais interessante nos caminhos que está a percorrer com as suas imagens. Nos textos destaques para o ensaio «Portugal E o Mar» de Ernâni Rodrigues Lopes, para o relato da partida da corte portuguesa para o Brasil por Margarida Magalhães Ramalho e, sobretudo, à «Confissão do Sinaleiro», de Ondjaki. 



DIREITO DO CONSUMIDOR – A coisa que mais irrita é ler «abertura fácil» numa embalagem manifestamente difícil e incómoda de abrir. Embora já tenha tentado melhorar várias vezes o processo, a verdade é que a Compal ainda não conseguiu atinar com a embalagem dos sumos «Essencial», cuja abertura continua sem ser nada fácil. O mais grave é que os sumos são bons – há quem adore o de banana, eu prefiro o de ananás e o de maçã – mas o mais terrível de tudo é que começar uma manhã a tentar abrir um frasco daqueles arrisca-se logo a estragar um belo dia primaveril. 


PETISCAR – Tenho para mim que o bitoque tradicional português é coisa para derrotar 10 a zero qualquer hamburguer industrial. O bitoque – esse pequeno bife, fino mas não demais, feito em tacho de barro com banha e louro, acompanhado de batatas fritas e uns pickles e cavalgado por um ovo estrelado – é a dose ideal de comida para saciar a fome sem a deixar esmagada pela quantidade. Eu sou fã de bitoques e acho graça a que exista um estabelecimento exactamente com esse nome. «O Bitoque» fica no número 59 da Rua Ferreira Borges, em Campo de Ourique e por 6,40 euros oferece o prato que lhe dá o nome. Resta dizer que a casa se esmera para honrar o petisco. 



BACK TO BASICS - «A adição de emoção é uma tentativa de comprar o público» - David Mamet.

março 24, 2008

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MAU – Uma provável suspensão da revista «Atlântico» é das piores notícias que podia  surgir. Trata-se da única revista mensal assumidamente de debate social, político e cultural existente na sociedade portuguesa. Embora tendo por base um núcleo fundador essencialmente liberal, nela têm colaborado pessoas de muitos sectores e a revista, muito bem dirigida editorialmente por Paulo Pinto de Mascarenhas, tornou-se o veículo privilegiado para a intervenção política de muitas figuras que se retiraram da primeira linha da actividade partidária ou que pura e simplesmente hoje em dia não têm partido. Mas é também uma revista que procura ajudar a interpretar a História, nomeadamente a portuguesa, e ao mesmo tempo aborda temas de política internacional pouco tratados por cá. Provocadora, iconoclasta, a «Atlântico» é uma leitura mensal obrigatória. As dificuldades com que se debate para sobreviver são a prova da fragilidade de uma sociedade civil que gosta de dizer que existe, mas que tem muita dificuldade em agir e concretizar projectos fora da zona da actividade empresarial em que algumas das suas figuras principais se distinguiram. Noutros países os grandes líderes empresariais empenham-se em garantir possibilidades de fomentar o debate de ideias e a análise das situações, certos de que assim estão a contribuir para o progresso da sociedade e, em última análise, para o crescimento e consolidação dos mercados. Promovem «think tanks», são patrocinadores empenhados. Aqui está um exemplo de boas práticas que podia ser mais seguido. 




PÉSSIMO – Já lá vai um mês e meio desde que Isabel Pires de Lima saíu do Ministério da Cultura e ainda não se ouviu uma palavra do seu sucessor sobre o que pretende fazer. Entretanto, para além das recorrentes notícias sobre falta de meios para salvaguardar o património e do encerramento das visitas em alguns monumentos, na semana passada foi divulgada a posição de 28 directores de museus e palácios nacionais, que, dizem, estão sob risco de «iminente colapso». É certo que as culpas vêm do orçamento deixado por Isabel Pires de Lima e pela falta de atenção do Governo ao sector, mas a realidade é que a ausência de capacidade política e uma errática actuação pública são as características da actividade do Ministério da Cultura de Sócrates. Será este Ministro capaz de ganhar carta de alforria? 




OUVIR – Pierre-Laurent Aimard é um pianista francês com uma carreira curiosa, que oscila entre o contemporâneo e a música antiga. No início da sua carreira foi convidado por Pierre Boulez para integrar o núcleo fundador do Ensemble InterContemporain. As suas interpretações da música de Boulez, Stockhausen e Ligeti são consideradas referências. Mas ao mesmo tempo tem desenvolvido uma actividade exemplar na música antiga, colaborando com nomes como Nikolaus Harnoncourt, com cuja Orquestra de Câmara Europeia gravou os cinco concertos para piano de Beethoven. O motivo desta nota é no entanto a sua mais recente gravação, a primeira para a Deuscthe Grammophon. Trata-se de «A Arte da Fuga» de Bach, uma peça inacabada cuja composição Bach começou cerca de 1742 e que demonstra o seu enorme domínio técnico de uma das mais complexas formas de expressão da música europeia desse tempo, conhecida como o contraponto. A interpretação agora gravada por Aimard mostra a sua técnica, a sua capacidade, mas também a inteligência e sensibilidade da sua interpretação. 



LER – Durante alguns anos assinei – e li – religiosamente a «Granta», uma revista literária fundada em 1979 por estudantes de Cambridge e que deu a conhecer ao mundo, e a mim em particular, alguns dos novos escritores da época, como Martin Amis, Ian McEwan, Richard Ford e Angela Carter. Mas a «Granta» foi também o paraíso de deliciosas short-stories de proveniências diversas, de portfolios fotográficos inesperados e de numerosas peças de literatura de viagem que me fizeram dar mais atenção ao género. Pois a «Granta» chegou agora ao seu número 100 – são feitas quatro edições por ano, uma em cada estação, e debaixo do título lá continua a frase mágica «The Magazine Of New Writing». Esta edição (350 páginas) é verdadeiramente uma peça de colecção que inclui, por exemplo, um poema de Harold Pinter , um libretto de Ian mcEwan, uma short-strory de Hanif Kureishi, um ensaio ( «The Unknown Known») de Martin Amis e uma curiosa nota sobre a construção de personagens por Mário Vargas Llosa, além de um belíssimo ensaio fotográfico sobre Nova York de Bruce Frankel.


Por cá encontram a «Granta» 100 nas boas lojas de revistas e nalgumas livrarias com edições inglesas. 



PETISCAR – A coisa não é bem sushi tradicional, digamos que é sushi tropical, Japão com influência do Brasil, há quem lhe chame sushi-fusão. O resultado pode desagradar aos puristas mas o final é bom. Experimentem o Hot Salmon ou o Spicy Tuna e vão ver que têm uma boa surpresa. O serviço é simpático mas às vezes é preciso combater a distracção e o olhar vago no horizonte dos empregados – a coisa percebe-se, a vista é deslumbrante, com o rio ali ao pé. O «Sushi no Rio» fica por cima da esplanada dos «Meninos do Rio», na zona de Santos, para lá da linha de comboio, na Rua da Cintura do Porto de Lisboa, armazém 255, edifício Steak House, telefone 213220070. 


BACK TO BASICS – Abrir a porta da rua pode ser uma actividade perigosa – J.R.R. Tolkien 

fevereiro 29, 2008

COSTA, CULTURA, RTP e AZULEJOS

INTERESSSANTE - António Costa está a experimentar o amargo sabor da legislação que fez enquanto Ministro da Administração Interna. Ele bem pode dizer que a lei foi mal interpretada, mas na realidade esta é a prova do que pode acontecer quando se utiliza a capacidade legislativa para fazer guerrilha política – na altura Costa legislou assim, em primeiro lugar, para condicionar alguns dos maiores municípios do país, que estavam na mão da oposição e em crônica situação de endividamento. Acontece que agora se voltou o feitiço contra o feiticeiro. É por isso que, em política e já agora no jornalismo, a memória é fundamental para analisar o que se passa. Baste ir ver o que se disse e quem disse aquando da elaboração por Costa da legislação de que ele próprio se queixa.


 


MAU – A questão não é só a RTP deixar de ter publicidade, é saber como isso se pode fazer. A questão do financiamento global do Grupo RTP merece um debate sério, sem as tiradas demagógicas de Arons de Carvalho nem as imitações apressadas de Sarkozy pelo líder da oposição. Basta observar o crescimento de receitas nos últimos quatro anos, entre aumento constante da indemnização compensatória e da cobrança da taxa do audiovisual, que foi entretanto alargada a consumidores que antes a não pagavam. E, claro, tem que se ter em conta este simples facto: a publicidade numa estação de televisão rende em função das audiências; para se fazerem bons números é inevitável que se perca em qualidade de serviço público. Aqui está uma questão que dava pano para mangas.


  


PÉSSIMO – A nova sede dos serviços secretos, no antigo forte da Ameixoeira, teve um custo de obras que ascendeu a 15 milhões de euros. A obra não resistiu às primeiras chuvas intensas. Tal como o resto do país, a secreta foi inundada e os jornais relatavam a surpresa dos espiões lusitanos quando viram água e lama entrarem de enxurrada pela porta principal do edifício.


 


EXPORTAÇÕES DA SEMANA – O grupo de rock Wray Gunn faz sucesso em França, com presença em revistas, elogios em jornais, discos a vender bem e canções escolhidas para as passagens da Paris Fashion Week; uma obra dos robots pintores criados pelo artista plástico Leonel Moura ilustra a capa da revista do MIT (Massachussets Institute of Technology) sob o tema «Artificial Life»; Paula Rego consolida a sua cotação depois de o quadro «Baying» ter atingido 740 000 euros num leilão promovido pela Sotheby’s em Londres. É com isto que se vai fazendo a imagem de um país – mas já agora convinha que o Governo tivesse isso em conta. Para quando a diminuição do IVA sobre produtos culturais. Irá o novo Ministro da Cultura convencer o jogger Sócrates que não é só aos ginásios que vale a pena dar benefícios fiscais?


 


ESTUDAR – Por falar em Ministro da Cultura, merece estudo atento a análise que Augusto M. Seabra faz na www.artecapital.net, na sua habitual coluna «O Estado da Arte». Excerto: « A pior coisa que pode acontecer ao ministro José António Pinto Ribeiro é ser um gestor de clientelas. O que se poderá desejar de alguém com o seu perfil público, e até do protagonismo político a que por certo não se regateará, é que corte rente com o dirigismo, abra espaço a iniciativas próprias e catalize esforços e parcerias, que saiba também fazer uma cultura da mediação. O que se passou durante os 34 meses da gestão Pires de Limas/Vieira de Carvalho foi também a negação de uma cultura democrática. O fundador do Fórum Justiça e Liberdade tem a obrigação elementar de ter presente esse dado e tirar as devidas consequências na sua acção política como Ministro da Cultura – que crie instrumentos legais e iniciativas em vez das cadeias de comando do servilismo burocrático.»


 


VER - A exposição e o álbum de fotografias «Ponto de Vista», feitos com base nas imagens recolhidas por António Barreto durante as filmagens da série «Portugal- Um Retrato Social». Boas fotografias a preto e branco, enquadramentos rigorosos e- o que é mais importante – um modo de ver que nos ajuda a descobrir. Afinal a fotografia é isso mesmo. Na FNAC do Colombo.


 


OUVIR – Um delicioso disco ao vivo , «The Oscar Peterson Trio Live in Newport». A edição surge integrada nas comemorações do 50º aniversário do Festival de Newport. A gravação foi feita na noite de 7 de Julho de 1957, Norman Granz, o lendário produtor da prestigiada etiqueta Verve, gravou a actuação de Oscar Peterson no piano, Herb Ellis na guitarra, Ray Brown no baixo, Roy Eldridge no trompete, Sonny Stitt no sax alto e Jo Jones na bateria. Aqui estão temas como «Will You Still Be Mine?», «Autumn In New York», «52nd Street Theme» e «Monitor Blues», entre outros. CD Universal.


 


DESCOBRIR – Uma nova forma de olhar para os azulejos, com as obras do japonês Jun Shirasu, na Galeria Ratton, Rua da Academia das Ciências 2C. A exposição chama-se «Regresso do Oriente» e mostra pequenos painéis e também azulejos individuais onde a contenção e um sentido lúdico de observação da natureza e do quotidiano são as marcas dominantes. Até 4 de Abril.



BACK TO BASICS - «As Finanças, em Portugal, foram já muito mais longe do que seria aceitável, ainda que em nome da eficiência da cobrança fiscal» - Pacheco Pereira

fevereiro 01, 2008

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AS NOSSAS CIDADES
(publicado no diário «Meia Hora» de quarta feira dia 30 de Janeiro)

Uma das coisas que permanentemente me preocupa é a volatilidade das estratégias das nossas cidades. As coisas aparecem feitas um pouco por acaso, sem planos continuados, sem método, sobretudo sem grande estudo. As cidades portuguesas cresceram muito nas últimas décadas mas paradoxalmente desertificaram-se no seu centro. A grande culpada disto, já se sabe, é a Lei das Rendas – que apesar das tímidas reformas continua a fomentar a compra de casa, a justificar a construção nas periferias, a criação de cidades dormitório.

O caso de Lisboa é particularmente preocupante, porque a cidade está cada vez mais a perder habitantes e claramente está a ficar envelhecida. Reconheço que nesta semana se deu um passo importantíssimo para Lisboa – a devolução da zona ribeirinha à cidade, e à sua autarquia. De uma forma ou de outra, a partir de agora, terá que se pensar neste assunto, na forma de refazer Lisboa a partir do rio, na forma de conseguir projectar o futuro.

Como estas coisas se fazem a partir de bons exemplos e de bons estudos, sugiro que percam algum tempo neste endereço: http://www.nycfuture.org . Trata-se do site do «Center For A Urban Future», de Nova Iorque. Esta organização apresenta-se como um think tank que produz relatórios aprofundados sobre temas críticos que preocupam a cidade e apresenta propostas políticas concretas para resolver alguns problemas.

A existência de organizações deste tipo é relativamente comum nos países onde a sociedade civil é activa – os poderes aliás tendem a apoiar este género de iniciativas, a manter um bom diálogo e a aproveitar muitas das suas sugestões.

Uma visita ao site do «Center For A Urban Future» permite ler estudos sobre temas que vão do ensino da língua inglesa a emigrantes, até ao ressuirgir das feiras de rua em Nova Iorque, passando por políticas de cultura, de emprego, de animação. E, lá também poderão ler a transcrição do debate «Creative New York», uma peça que os nossos queridos autarcas de todo o país – a começar por Lisboa e Porto – bem poderiam estudar.

Uma cidade que perde a criatividade e não a estimula acaba por perder todo o atractivo. Parece evidente mas basta olhar à nossa volta para ver o triste estado da Nação nesta matéria.
AS NOSSAS CIDADES
(publicado no diário «Meia Hora» de quarta feira dia 30 de Janeiro)

Uma das coisas que permanentemente me preocupa é a volatilidade das estratégias das nossas cidades. As coisas aparecem feitas um pouco por acaso, sem planos continuados, sem método, sobretudo sem grande estudo. As cidades portuguesas cresceram muito nas últimas décadas mas paradoxalmente desertificaram-se no seu centro. A grande culpada disto, já se sabe, é a Lei das Rendas – que apesar das tímidas reformas continua a fomentar a compra de casa, a justificar a construção nas periferias, a criação de cidades dormitório.

O caso de Lisboa é particularmente preocupante, porque a cidade está cada vez mais a perder habitantes e claramente está a ficar envelhecida. Reconheço que nesta semana se deu um passo importantíssimo para Lisboa – a devolução da zona ribeirinha à cidade, e à sua autarquia. De uma forma ou de outra, a partir de agora, terá que se pensar neste assunto, na forma de refazer Lisboa a partir do rio, na forma de conseguir projectar o futuro.

Como estas coisas se fazem a partir de bons exemplos e de bons estudos, sugiro que percam algum tempo neste endereço: http://www.nycfuture.org . Trata-se do site do «Center For A Urban Future», de Nova Iorque. Esta organização apresenta-se como um think tank que produz relatórios aprofundados sobre temas críticos que preocupam a cidade e apresenta propostas políticas concretas para resolver alguns problemas.

A existência de organizações deste tipo é relativamente comum nos países onde a sociedade civil é activa – os poderes aliás tendem a apoiar este género de iniciativas, a manter um bom diálogo e a aproveitar muitas das suas sugestões.

Uma visita ao site do «Center For A Urban Future» permite ler estudos sobre temas que vão do ensino da língua inglesa a emigrantes, até ao ressuirgir das feiras de rua em Nova Iorque, passando por políticas de cultura, de emprego, de animação. E, lá também poderão ler a transcrição do debate «Creative New York», uma peça que os nossos queridos autarcas de todo o país – a começar por Lisboa e Porto – bem poderiam estudar.

Uma cidade que perde a criatividade e não a estimula acaba por perder todo o atractivo. Parece evidente mas basta olhar à nossa volta para ver o triste estado da Nação nesta matéria.

janeiro 10, 2008

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A MINISTRA DA CULTURA VAI PARA O GINÁSIO OU PÕE-SE AOS GRITOS?
(publicado na edição de 9 de Janeiro do diário «Meia Hora»)

Na sua incessante busca pelo aperfeiçoamento do corpo, o Primeiro Ministro José Sócrates resolveu baixar o IVA aplicável aos utilizadores de ginásios para 5%. A redução, que entrou em vigor ao mesmo tempo que as medidas anti-tabaco, deve certamente destinar-se a combater o aumento de peso dos ex-fumadores.

Uma outra hipótese é que, com base nestas medidas, o Governo venha anunciar que já começou a descer os impostos, o que certamente dará oportunidade ao Ministro Santos Silva para vir mais uma vez dizer que este Governo, na realidade, não pede sacrifícios aos portugueses.

Eu por mim não tenho nada contra esta descida de IVA, até me parece que ela é de saudar. Só tenho uma pequena questão: o que dirá a Senhora Ministra da Cultura deste assunto? Baterá palmas de contente? Ou terá exigido que idêntico tratamento, em matéria fiscal, seja concedido aos bens culturais?

A pergunta é retórica, porque está provado que a Ministra não tem opinião nem vontade – está ali para fazer o que lhe dizem sem levantar ondas. Mas o tema não é nada retórico: na verdade é espantoso que o Primeiro Ministro ache que é importante descer a taxa de IVA nos ginásios, mas que continue a achar que nos bens culturais não vale a pena diminuir impostos.

Recordo que, embora os livros tenham uma taxa reduzida de 5%, os CD’s e os DVD’s pagam os 21% de taxa máxima. Numa altura em que a música gravada atravessa uma crise sem precedentes, um pouco por todo o lado procuram-se maneiras de apoiar os artistas e a edição musical. O mesmo se passa em relação ao universo do audiovisual. Aqui ao lado, em Espanha, há uns meses, o Governo decidiu reduzir de forma drástica o IVA aplicado a bens culturais, que já era mais pequeno que em Portugal. No caso dos livros desceu para apenas 1% e no caso dos CD’s e DVD’s reduziu para 4% - uma diferença de 17% em relação ao que se passa em Portugal.

Senhora Ministra da Cultura, de que está à espera para se pôr a protestar e exigir tratamento igual ao dos ginásios? Senhora Ministra: se não consegue que o seu Governo defenda e promova os bens culturais, que está aí a fazer?
A MINISTRA DA CULTURA VAI PARA O GINÁSIO OU PÕE-SE AOS GRITOS?
(publicado na edição de 9 de Janeiro do diário «Meia Hora»)

Na sua incessante busca pelo aperfeiçoamento do corpo, o Primeiro Ministro José Sócrates resolveu baixar o IVA aplicável aos utilizadores de ginásios para 5%. A redução, que entrou em vigor ao mesmo tempo que as medidas anti-tabaco, deve certamente destinar-se a combater o aumento de peso dos ex-fumadores.

Uma outra hipótese é que, com base nestas medidas, o Governo venha anunciar que já começou a descer os impostos, o que certamente dará oportunidade ao Ministro Santos Silva para vir mais uma vez dizer que este Governo, na realidade, não pede sacrifícios aos portugueses.

Eu por mim não tenho nada contra esta descida de IVA, até me parece que ela é de saudar. Só tenho uma pequena questão: o que dirá a Senhora Ministra da Cultura deste assunto? Baterá palmas de contente? Ou terá exigido que idêntico tratamento, em matéria fiscal, seja concedido aos bens culturais?

A pergunta é retórica, porque está provado que a Ministra não tem opinião nem vontade – está ali para fazer o que lhe dizem sem levantar ondas. Mas o tema não é nada retórico: na verdade é espantoso que o Primeiro Ministro ache que é importante descer a taxa de IVA nos ginásios, mas que continue a achar que nos bens culturais não vale a pena diminuir impostos.

Recordo que, embora os livros tenham uma taxa reduzida de 5%, os CD’s e os DVD’s pagam os 21% de taxa máxima. Numa altura em que a música gravada atravessa uma crise sem precedentes, um pouco por todo o lado procuram-se maneiras de apoiar os artistas e a edição musical. O mesmo se passa em relação ao universo do audiovisual. Aqui ao lado, em Espanha, há uns meses, o Governo decidiu reduzir de forma drástica o IVA aplicado a bens culturais, que já era mais pequeno que em Portugal. No caso dos livros desceu para apenas 1% e no caso dos CD’s e DVD’s reduziu para 4% - uma diferença de 17% em relação ao que se passa em Portugal.

Senhora Ministra da Cultura, de que está à espera para se pôr a protestar e exigir tratamento igual ao dos ginásios? Senhora Ministra: se não consegue que o seu Governo defenda e promova os bens culturais, que está aí a fazer?

novembro 19, 2007

BOM – A mais recente edição da revista «Atlântico» tem sobejos motivos de leitura: um texto programático de José Miguel Júdice sobre a política portuguesa; uma deliciosa análise de Gunter Grass por Vasco Pulido Valente, uma entrevista a Paul Auster por Pedro Mexia (que bom qunado o entrevistador sabe do que fala…) e, sobretudo, mais um magnífico artigo de Rui Ramos sobre a História de Portugal, desta feita sobre as invasões francesas, há 200 anos, e os seus efeitos ao longo do tempo.


MAU – Os atropelamentos sucedem-se porque os radares de velocidade estão nas vias rápidas em, vez de estarem em zonas residenciais. Se a Polícia Municipal servisse para alguma coisa estaria a controlar o que se passa em pleno centro da cidade em vez de locais onde nem há passadeiras de peões. Alguém já experimentou controlar a velocidade bem no centro de Lisboa, como na Avenida Miguel Torga, em Campolide?


PÉSSIMO – Hugo Chavez está a um passo de fazer aprovar uma Constituição que consagra a expropriação da propriedade privada e lhe permitirá continuar indefinidamente a ser Presidente da Venezuela. O pai, Hugo de Los Reys Chavez, é governador do Estado de Barinas (de onde a família é originária); mas como a idade avançada já lhe provoca limitações, foi criado especialmente o cargo de secretário de Estado do Governador (que não existe em mais nenhuma provícia da Venezuela) para Argenis Chavez, um dos irmãos do Presidente. Outro irmão, Anibal Chavez é Presidente da Câmara de Sabanita, a terra natal do clã. E um outro irmão, Adan Chavez, é o ministro da Educação responsável pelas recentes e bizarras imposições de programas escolares «revolucionários». Agora o melhor: na semana passada, ao mesmo tempo que o Primeiro Ministro e o Rei de Espanha criticavam publicamente o ocupante da presidência venezuelana, o Primeiro Ministro José Sócrates convidou Hugo Chavez para visitar oficialmente Portugal já nos próximos dias. Diz-me com quem andas…


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Confrontada com o encerramento de salas nos principais museus portugueses por falta de guardas e falta de verba, a Ministra da Cultura, que tutela aos museus, teve por reacção dizer alto e bom som que a culpa não era dela, mas sim do Presidente do Instituto dos Museus, a quem há bem pouco tempo elogiava com fartura, quando se tratou de afastar umas pessoas e promover outras.


INDEFESOS – A sucessão de acidentes das últimas semanas mostra uma coisa: o Estado está mais interessado em reprimir do que em prevenir, uma velha distorção da sociedade portuguesa, muito mais dada a passar multas do que em resolver a causa dos problemas ou prevenir o seu surgimento. Alguma razão há-de haver para tanto acidente com veículos pesados nos últimos dias e isso é que era bom perceber.


PETISCAR – Bom almoço, boa conversa, uma vista larga sobre Lisboa e uma bela proposta: cannelonni de lagosta com vieiras de um lado, e risotto de ostras do outro. Vinho Loridos branco, a copo. Serviço médio, qualidade da comida muito boa, preços razoáveis para os pratos e vinho em causa. A coisa passa-se no restaurante do El Corte Inglês, no sétimo andar. Telefone 213711724. Uma descoberta.


LER – «As Mulheres de Meu Pai». de José Eduardo Agualusa, saíu há uns meses mas só agora o li. Fiquei conquistado pela forma magnífica da escrita, mas sobretudo pela história em si: a vida de um músico africano entre Luanda e a Ilha de Moçambique, cujo percurso e episódios de vida são revisitados pela filha Laurentina (o nome da marca de uma cerveja angolana), que tenta construir um documentário sobre o pai, Faustino Manso. No fim o livro ganha uma pujança ainda maior, fica com uma escrita ainda mais cinematográfica – quase com anotações de direcção. Fascinante.


OUVIR – Herbie Hancock nasceu em Chicago em 1940 e tornou-se notado como um dos grandes pianistas do jazz logo nos anos 60. Aos 23 anos foi convidado por Miles Davis para o seu quinteto. Em finais dos anos 60 escreveu a banda sonora de «Blow Up» de Michelangelo Antonioni. Agora, com 67 anos, Hancock atirou-se ao repertório de uma das grandes folk singers norte-americanas, Joni Mitchell. O seu novo disco chama-se «River- The Joni Letters» , e para além da própria Mitchell, conta com participações de Norah Jones, Corinne Bailey Era (porventura a melhor interpretação vocal do disco, precisamente em «River»), Tina Turner , Luciana Souza e Leonard Cohen. Pelo meio fica uma versão de «Nefertiti», um tema de Wayne Shorter, do tempo em que ambos tocavam com Miles Davis. CD Verve, Universal Music.


VER – A exposição «Planos», de Pedro Calapez, na galeria Lisboa 20, Rua Tenente Ferreira Durão 18-B, em Campo de Ourique. Obras a três dimensões, com recurso a volumes e formas que evocam esculturas e instalações e se cruzam com a pintura. Inesperado e sedutor.


BACK TO BASICS – Alguns políticos, como Santana Lopes, são como os gatos: têm sete vidas; não vale a pena é tentarem esgotá-las todas em rápida sucessão.