POLÍTICA ANIMAL - Às vezes diz-se de um ou outro político que ele parece um animal feroz e em todos os partidos surge gente a quem a expressão assenta que nem uma luva. Distinguem-se pela oratória e demagogia, pelo desfasamento entre a realidade e o que dizem, por uma permanente tentação de darem nas vistas, pelo uso de linguagem desbragada. Normalmente são pessoas que, pela sua atitude e comportamento, encaixam na categoria “cão que ladra não morde”, muito usada na gíria popular - aliás falam muito mas na realidade fazem pouco e são essencialmente exibicionistas. De acordo com a evolução das espécies, alguns passam para uma outra categoria, a que eu costumo chamar de rottweiler da política. Os rottweiler podem ser cães tranquilos, mas são conhecidos por defender os donos, e os seus instintos protectores podem levar à agressão contra quem sentem como uma ameaça. Não é preciso ser génio para perceber que um dos factores que mais contribui para o bloqueio do nosso sistema político e para o clima tenso que existe entre o PS e o PSD, os dois maiores partidos portugueses, é a existência de sistemáticos comportamentos de ataque de um e outro. Do lado do PS, durante os anos em que esteve no poder e era alvo de acusações da oposição, Augusto Santos Silva revelou-se como rottweiler de serviço no parlamento. Agora que está, até ver, retirado, e o governo é do PSD, o papel de guardião do poder e escuteiro de Montenegro criou um novo rottweiler no PSD: Hugo Soares. Tirando as diferenças partidárias, o comportamento de ambos é semelhante, são as duas caras de uma má moeda da política. Os líderes gostam deles, são os porta-vozes daquilo que muitas vezes querem dizer mas não podem. Tal como os rottweiler, são fiéis e atacam quando se sentem ameaçados. São animais ferozes e a única utilidade que têm é servirem de maus exemplos do debate político democrático, sempre instigando o ódio contra quem pensa de forma diferente. O parlamento seria bem melhor sem espécimes destes, o espectáculo que dão é ainda mais degradante que as discussões entre adeptos de clubes de futebol adversários. Estes rottweiler da política sentem-se donos do mundo quando têm um microfone e uma câmara de televisão à frente. Vivem para dar nas vistas.
SEMANADA - O fisco cobra 60 mil multas por mês a condutores que não pagaram portagens; faltam anestesistas no Hospital D. Estefânia e ortopedistas no Hospital de Santa Maria; o Governo anunciou que abandonou o objectivo de proporcionar médico de família a todos os utentes do SNS; 38% dos portugueses fazem compras online pelo menos uma vez por semana; de entre os portugueses dos 25 aos 34 anos que vêem televisão, 40,2% seguem plataformas de streaming e de internet na TV, 34,5% seguem canais de cabo e apenas 26,1% vêem os canais generalistas; 33% das pessoas que vivem na União Europeia, tem assinaturas pagas de serviços de streaming de filmes, séries ou desporto e em Portugal o número desce para 22%; Portugal registou o maior aumento anual do custo da habitação entre 57 países analisados num estudo internacional, tendo-se verificado um aumento de 15,2% em apenas um ano, enquanto o preço das casas, em termos mundiais, caíu 1,2% no mesmo período; a despesa do Estado com juros da dívida pública tem a maior subida em quatro anos, um agravamento de 776 milhões e euros; o aeroporto de Lisboa foi considerado o mais stressante de toda a Europa, apenas metade das partidas não tiveram atrasos e 55% das opiniões dos viajantes foram negativas; um outro estudo colocou o aeroporto Humberto Delgado na posição 274 num total de 279 aeroportos avaliados em todo o mundo; este ano o limite de voos nocturnos em Lisboa só foi cumprido em duas semanas; há mais turmas sem professor no início deste ano escolar que em 2025; até ao dia 3 deste mês, morreram nas estradas portuguesas 333 pessoas em 102 824 acidentes que causaram 2003 feridos graves e 30 102 feridos ligeiros.
O ARCO DA VELHA - Um em cada três jovens diz ter visto nas redes sociais conteúdos relacionados com a automutilação.
LISBOA INVADIDA POR FOTOGRAFIA - O colectivo de fotografia CC11 realiza mais uma vez ao longo de Setembro o seu ciclo de exposições MFA - Mostra de Fotografia e Autores. Esta semana podem já ser vistas algumas exposições e o destaque vai para o trabalho “Raspberries For Christmas” do luxemburguês Marc Schroeder (nos Jardins do Bombarda, Rua Gomes Freire 161)). As imagens apresentadas integram um projecto sobre o risco de deslocação provocado pelas alterações climáticas, iniciado por Marc Schroeder durante uma caminhada de longa distância pelo Sul de Portugal, em Janeiro de 2022, marcado pela seca, e que culminou, no início de 2026, com a devastação provocada pela depressão Kristin na Mata Nacional de Leiria. Schroeder tem desenvolvido um ensaio fotográfico que aborda as consequências do aquecimento global e dos fenómenos meteorológicos extremos (na imagem uma das fotografias expostas). O trabalho não é um simples registo documental de um desastre natural, as imagens mostram uma paisagem profundamente transformada, onde a violência do acontecimento está inscrita no território. Outras exposições que já podem ser vistas estão nos Pavilhões da Mitra, em Lisboa (Rua do Açúcar 56) e ali estão expostas uma retrospectiva do trabalho da fotojornalista Céu Guarda, “Dois segundos na Luz”, “Algarve 63”, de Tim Motion e “Guerra Com Gente Dentro”, de André Luís Alves, que foi o vencedor do Prémio CC11 de Fotografia 2026. Para a semana inauguram duas exposições no Mercado de Campo de Ourique: “Outras Paisagens” - aqui tenho que deixar uma declaração de interesse, já que é uma exposição minha sobre o lixo que todos produzimos; a outra exposição é de João Pedro Almeida, “Chão Que Não se Pisa não Dá Fruto”. Dia 23 na Casa de Imprensa inaugura uma retrospectiva do fotojornalista Manuel Moura, que desenvolveu toda a sua actividade profissional ao longo de quatro décadas em agências noticiosas. E no dia 30, no Mercado da Ribeira, inaugura “A Cidade” de Rui Soares Esteves e “O Mar” de Eduardo Leal.
ROTEIRO - Com Setembro já pujante as galerias de arte contemporânea retomam o seu percurso e começam a apresentar novas exposições. Na Fundação Carmona e Costa inaugura dia 12 uma exposição individual de Mónica Coelho, uma jovem artista que vale a pena seguir. “Fora de Horas”, assim se chama a exposição, tem curadoria de Manuel Costa Cabral e pode ser vista até 14 de Novembro. A Fundação Carmona e Costa fica na Rua Soeiro Pereira Gomes 8, 6o andar e o horário de funcionamento é de quarta a sábado das 15 às 19h. Num salto até Madrid recomenda-se uma visita ao Jardim do Museo Lázaro Galdiano que na 17ª edição do Apertura Madrid Gallery Weekend se transforma numa sala de arte ao ar livre onde o português Pedro Calapez apresenta uma escultura inédita integrada na exposição “Entre la retícula y la vida” (na imagem). E na Galeria Sá da Costa (Rua Serpa Pinto 19) a artista britânica Ramona Galardi apresenta até 26 de Setembro a exposição “Odyssey”, com desenhos, pintura e colagens.
LEITURAS ECONÓMICAS - “Economia de Exílio” aborda alguns dos grandes problemas que varrem a economia do mundo atual, como tarifas, guerras comerciais e o futuro depois da globalização. Originalmente editado em 2025 no Reino Unido foi escrito por Ben Chu, um jornalista de economia que trabalha em Londres. Chu defende a tese de que existe uma “Economia de Exílio» baseada na rejeição da interdependência, na desvalorização da colaboração multilateral e na procura de uma maior autossuficiência nacional e os defensores desta nova ordem argumentam que ela trará segurança, prosperidade e paz duradouras. Será assim? Este é o tema do livro editado pela Temas e Debates. Noutro livro, também dedicado à economia, o jornalista Pedro Andersson ensaia em "Dinheiro à Prova de Crises" um guia de como organizar, gerir e multiplicar o salário e debruça-se sobre as razões que levam algumas pessoas a construir património com salários normais enquanto outras passam a vida aflitas com dinheiro. Pelo meio sugere formas de organizar as finanças sem complicações, acabar com hábitos que destroem riqueza, criar fontes de rendimento extra e preparar a reforma e conquistar mais liberdade financeira. Edição Contraponto.
MÚSICA SURPREENDENTE - “So Much For Goodbyes”, de Billy Stings, está entre os melhores discos que ouvi este ano. Stings, um músico americano que vai no seu sexto disco, é praticante de bluegrass, um género musical com influências dos blues, mas também do jazz e do folk irlandês, e que utiliza exclusivamente instrumentos acústicos. Dos blues traz a tradição de cantar histórias e dos irlandeses traz a tradição de música que chama para a dança. O novo disco de Billy Stings tem 16 faixas, que se ouvem de forma cada vez mais cativante ao longo de uma hora e um quarto. É um disco de memórias, sobre a vida agitada do cantor: o pai e mãe morreram de overdose em épocas diferentes, ele saíu de casa aos 14 anos e o disco está cheio de referências à sua vida, desde o título, à capa baseada numa colagem que a mãe estava a fazer quando morreu, até à última canção, que lhe é dedicada, “Debra’s Waltz”. “Lay Me Down” e “Light The Way” podem parecer versões de temas dos anos 40 ou 50, mas são canções bem actuais, sobre os problemas que mais afectam as pessoas. “Mill Town Flood” lembra, na sua estrutura narrativa, uma canção dos primeiros tempos de Bruce Springsteen. Stings conta o que sente e o que vê à sua volta como poucos na sua geração (tem agora 34 anos). O seu trabalho tem sido elogiado por nomes como Bob Dylan ou Willie Nelson, que já o classificou como “o John Coltrane do bluegrass”. “Burn the Other End”, uma das canções mais marcantes do disco, é como um intenso alerta, que chama todo o quarteto que o acompanha num arranjo musical intenso, onde violino, bandolim, baixo e banjo coexistem com o virtuosismo de Billy Stings na guitarra. E sim, leram bem: não há bateria nem percussão neste disco tão arrebatador. Disponível em streaming.
TV GUIA - “This Town” é uma série da BBC que mostra como era o Reino Unido no início dos anos 80, com a guerra civil instalada na Irlanda e motins em várias cidades inglesas. Na HBO.
DIXIT - “Nunca um só ministro, com tão medíocres trapalhadas, pôs assim em causa a democracia, o Governo e as instituições” - António Barreto, sobre Luís Neves.
BACK TO BASICS - “O homem é o único animal que consegue conviver com as pessoas que pretende aniquilar “ - Samuel Butler
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS