setembro 18, 2026

COMO SE FABRICOU A DECADÊNCIA DE UMA GERAÇÃO



A DESEDUCAÇÃO - Na campanha eleitoral de 1995 António Guterres, que então foi eleito Primeiro-Ministro, proclamou que a educação devia ser a paixão de Portugal. Ao longo dos anos, nesta e noutras funções, tem repetido que a educação deve ser a prioridade de Portugal. Vamos aos factos: desde 1995 o PS esteve quase 22 anos no poder, enquanto o PSD esteve, até agora, cerca de nove anos. A recente avaliação internacional PISA, que mostrou quebras acentuadas na aprendizagem da leitura e da matemática, evidenciou que os níveis de desempenho em Portugal regrediram duas décadas, com a média a leitura e a matemática a atingir o valor mais baixo de sempre. Esta avaliação PISA foi feita a alunos que nasceram por volta de 2009. Ou seja, grosso modo, nasceram quando José Sócrates era Primeiro Ministro e começaram a escolaridade obrigatória por volta de 2015, quando António Costa se tornou chefe de Governo. Os seus primeiros nove anos de escolaridade passaram-se em governos do PS, com ministros de educação que foram fazendo várias reformas, muitas delas facilitistas, como a abolição de exames do 4º e 6º ano da escolaridade, a alteração dos currículos e de sistemas de avaliação, acções que especialistas em educação consideram que contribuíram para os maus resultados agora obtidos. A OCDE, que promove este estudo, aponta problemas estruturais, entre os quais a distração digital e a alteração dos hábitos de leitura como um enquadramento a ter em conta. A quebra foi quase generalizada em vários países e um dos maiores sinais de alarme, muito saliente em Portugal, surge na degradação da capacidade de leitura, reflectida na avaliação da informação obtida, na capacidade de reflexão crítica e na capacidade de concentração. Em contraste, aumentou a leitura superficial, apressada. Como Vasco Teixeira, administrador da Porto Editora, sublinhou num artigo publicado no “Expresso” “uma sociedade que perde capacidade de leitura perde instrumentos para compreender, discernir, imaginar e participar plenamente”. Já agora, a OCDE considera a literacia em leitura “a mãe de todas as competências” e lembra que a leitura é a base para compreender tudo o resto, seja para resolver um problema de álgebra, analisar uma informação histórica ou interpretar uma experiência científica. Os países que enfrentam as perdas mais acentuadas na leitura tiveram degradação do desempenho dos alunos a matemática e ciências. Infelizmente durante muitos anos, nas sucessivas reformas do sistema educativo em Portugal, as crianças foram encaradas como “cobaias de um laboratório cruel”, como Susana Peralta escreveu no Público. Toda esta degradação se passa, convém sublinhar, num contexto de avanço fulgurante da Inteligência Artificial. Alunos menos preparados para compreender são mais suscetíveis de se tornarem cidadãos mais mal informados, mais facilmente iludidos, colocados à mercê das máquinas e desligados do pensamento autónomo e do conhecimento. 



SEMANADA - O autarca de Loures, Ricardo Leão, anunciou que pretende construir uma piscina de ondas com dois hectares na Bobadela; o estudo TGI da Marktest indica que três em cada quatro portugueses adultos consome bebidas alcoólicas; 2,7 milhões de portugueses tem gatos como animais de companhia; segundo o Ministério Público a violência conjugal ou equiparada é um dos fenómenos criminais de maior aumento registado em 2025, ano em que entraram 33 844 novos inquéritos, uma subida de 31,7% em relação ao ano anterior; o crime que teve um maior aumento de percentagem de ocorrências foi o tráfico de estupefacientes, com um aumento de 36,4% dos casos reportados em relação ao ano anterior, num total de 8794 ocorrências; o branqueamento de capitais registou um aumento de 31,3% e os crimes de incêndio florestal subiram 26,1%; a quantidade média de resíduos urbanos produzidos por cada português em 2024 foi de 517 kgs, acima dos 502 kgs registados no ano anterior; os sacos de plástico fino têm um pegada ecológica menor que os de papel; as licenças para construção e reabilitação de edifícios habitacionais caíram 6,9% no primeiro semestre; segundo o International Expat Insider, Portugal está no 8º lugar em relação a qualidade de vida, no 29º em condições para estrangeiros cá trabalharem e em último lugar quanto a perspectivas de evolução de carreira; a diferença do preço dos combustíveis entre Portugal e Espanha aumentou devido à diferença da carga fiscal, que penaliza Portugal. 




O ARCO DA VELHA -  A PSP deteve um homem de 30 anos que se dirigia para o concerto de Carl Cox com 108 gramas de cocaína, 52 de ecstasy, 29 selos de LSD, 16 comprimidos de Viagra e um frasco com GHB (droga da violação). Foi libertado pelo tribunal.




NA ESTEPE - Imaginem um projecto fotográfico, feito ao longo de seis anos, no pico do inverno da Mongólia Interior, a 40º C negativos. O fotógrafo chinês A Yin fê-lo, seguindo  os cavalos semi-selvagens que por lá existem. A exposição que resulta deste trabalho tem na verdade dois temas, a beleza dos cavalos, permanentemente no meio da neve, marcados por ela, e a temperatura que dá o título à exposição: “40 graus negativos”. É impressionante ver seres vivos numa paisagem gelada, que é o seu habitat e as manadas de cavalos que A Yin fotografou pacientemente são uma prova da persistência da vida mesmo em condições tão adversas como estas.  João Miguel Barros, curador da exposição e responsável pela Ochre Space, a galeria onde ela decorre, deixa uma pergunta: “que forma assume a vida quando é obrigada a existir no limite?” E responde: Os cavalos, cobertos de inverno, não representam apenas a sobrevivência, tornam visível a sua forma”. Ochre Space, Rua da Bica do Marquês 31, até 24 de Setembro.




ROTEIRO Miguel Telles da Gama apresenta uma nova exposição, de colagem e pintura, que reúne 60 peças inéditas, feitas ao longo de quase um ano, sob o título “Movimento Perpétuo” (na imagem). Desenho à faca, chamou-lhes a crítica de arte Luísa Soares de Oliveira, evocando a forma como o artista pintou, cortou e depois montou e colou cada obra. A exposição está no Espaço Triângulo da Galeria Diferença até 8 de Outubro (Rua Filipe Neri 42). Na Galeria 111 Fátima Mendonça apresenta três dezenas de novos trabalhos sob o título “Dias de tédio e a dança com o lobo mau”. A exposição mostra pinturas da própria casa da artista, por vezes com os animais que lhe fazem companhia, em situações que descolam da realidade para  a fantasia, num exercício que espreita o humor no quotidiano. Até 31 de Outubro na 111, Rua Dr João Soares 5B. Na Fundação Carmona e Costa a jovem artista Mónica Coelho apresenta-nos uma viagem pelas obras que tem feito ao longo dos últimos anos,em suportes que vão do azulejo ao ferro, passando pelo vidro, pano cru e  papel. Chama-se “Fora de Horas” e está exposta até 14 de Novembro na Fundação Carmona e Costa (Rua Soeiro Pereira Gomes 8, 6º).




UMA HISTÓRIA ANTIGA - Uma jornalista e escritora  neozelandesa que vive em Lisboa, Brigid Hampton,  imaginou um romance que conjuga o exílio, a guerra e o fim do império colonial português, “Parar o Vento Com as Mãos”. A história começa em 1939, quando uma alemã, Fanny Reiss, foge da Alemanha nazi e desembarca em Lourenço Marques com os seus dois filhos mais novos. Um, Otto, tem uma vida de aventura, casa-se com uma moçambicana no norte do país e acaba por se envolver na guerra. Eva, a sua irmã, fica em Lourenço Marques onde casa com um membro de uma família chinesa abastada. Tem dois filhos, Luís e Sofia, que partem para estudar na Europa. Luís vai para Londres estudar Medicina e Sofia frequenta a universidade em Lisboa. E é em Londres e Lisboa que são surpreendidos pelo 25 de Abril e vivem vidas bem diversas. O livro percorre quatro décadas e segue a evolução da História de Moçambique, culminando na independência, e no período que se seguiu, entre esperança e desencanto. Luís torna-se ortopedista, especialista em traumas de guerra e percorre o mundo onde há conflitos. Mas no fundo está sempre a querer regressar a Moçambique, onde descobriu o amor.  “Parar O Vento Com As Mãos” é uma história passada entre os sobressaltos que a História trouxe. Porto Editora.


MESA DE CABECEIRA  -Ricardo Paes Mamede é um economista e professor de Economia Política no ISCTE e o seu novo livro  aborda a situação em que vivemos ultrapassando as politizações do costume entre esquerda e direita ou a discussão entre  o papel do Estado e o do mercado. Está mais preocupado em sublinhar que o nosso futuro comum passa pelo que somos capazes de fazer para melhorar as capacidades existentes. Este é o tema do seu livro  “Política Industrial, Como os Estados Transformam as Economias”, uma  Edição Contraponto. A grande questão é saber até que ponto pode o Estado intervir. São do próprio autor estas palavras:  “Esta a questão central deste livro: O que podem fazer os Estados para transformar a estrutura das actividades produtivas tendo em vista determinados objectivos públicos?». O outro livro que escolhi esta semana é “Revoluções, Uma Nova História”, de britânico Donald Sassoon, que lecciona História Comparada em Londres. O historiador evoca algumas das revoltas mais célebres, como a Guerra Civil inglesa, a guerra de independência americana, a revolução francesa que produziu a Declaração dos Direitos do Homem, as revoluções nacionais que unificaram a Itália e a Alemanha e as revoluções Russa e Chinesa, que marcaram o século XX. Donald Sassoon estabelece comparações entre estes marcos históricos gigantes com  numerosas rebeliões, golpes de Estado e tumultos que o tempo esqueceu, conseguindo construir uma narrativa emocionante. Edição Temas & Debates.




ALMANAQUE - O MUDE acolhe entre 19 e 27 de Setembro a 3ª edição da Bienal de Joalharia Contemporânea. Além do MUDE, a Bienal estende-se pelo Convento dos Cardaes e o Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual. No MUDE está  a exposição “Coexistências – A Joalharia e a Beleza do Mundo”, com curadoria de Marta Costa Reis e Patrícia Domingues, e também a exposição da Coleção de Joalharia Contemporânea de Tereza Seabra, composta por cerca de 300 peças reunidas ao longo de mais de meio século e agora doadas ao MUDE.


DIXIT - “Os políticos que temos já são a consequência de um meio ambiente dominado pelas regras do analfabetismo funcional. Lamento a brutalidade da linguagem, mas é mesmo assim. “ - Francisco Mendes da Silva, no Público.

BACK TO BASICS - A História da Humanidade é cada vez mais uma corrida entre a educação e a catástrofe” - H.G. Wells


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS