setembro 04, 2026

PARA MAIS TARDE RECORDAR...


OS NOVOS COMUNICADORES - Nos últimos tempos a comunicação política tem mudado de forma acentuada. Multiplicam-se as conferências de imprensa onde os políticos, sobretudo os governantes, apenas fazem declarações e avisam logo  que não respondem a perguntas dos jornalistas. Na Universidade de Verão do PSD a fuga às respostas foi a regra, até do porta-voz do partido. Foi aí que Luís Montenegro reforçou o que já tinha feito na Festa do Pontal: preferiu fazer o anúncio de uma medida do Governo numa iniciativa partidária em vez de usar os canais institucionais do governo. Ou seja, confunde cada vez mais o partido com o governo e subalterniza o debate sobre as decisões que toma. É normalmente um caminho perigoso. Se Montenegro é  modesto nas redes sociais, em compensação  tem no seu governo uma autêntica influencer: Margarida Balseiro Lopes. A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, é de longe a mais multifacetada instagrammer do executivo. Ela publica um diário completo das suas actividades, desde os Jogos do Mediterrâneo à Feira Medieval de Castro Marim, passando pela romaria de Nossa Senhora dos Remédios ou a Universidade de Verão do PSD, tudo no espaço de uma semana. Margarida Balseiro Lopes é sem dúvida a campeã da utilização de redes sociais no elenco governativo. Passa a imagem de que fala com toda a gente, vai a todo o lado, está sempre presente. A sua produção é cuidada, desde o permanente sorriso ao variado guarda-roupa. A exuberância do seu instagram contrasta, no entanto,  com a escassez e a pobreza das medidas que toma enquanto governante. É como aquelas pessoas que andam sempre a correr mas no fim do dia têm pouco de concreto para apresentar além das correrias. É mais uma caixeira viajante que uma ministra. Estes dois exemplos mostram como a comunicação política está a mudar, uma mudança que chega até ao Presidente da República. António José Seguro faz-se fotografar a vindimar na companhia da sua mulher e publica a fotografia, de um episódio privado,  na página oficial da Presidência da República. Seguro publica pouco, mas fabrica cuidadosamente ocasiões. É uma pose bem diferente das selfies espontâneas de Marcelo Rebelo de Sousa. António José Seguro age sempre para passar uma calculada imagem de moderação, atenção ao interior do país, por vezes num estilo descontraído, como quando apareceu em suspensórios, a andar de comboio no Douro e a defender a importância da ferrovia.  Aquilo a que estamos a assistir, e de que estes casos são exemplos, é a uma alteração profunda da forma de comunicar dos políticos, uma alteração transversal a todo o espectro partidário. Sob a aparência de que comunica muito, a elite política esconde-se mais. No fim do dia há pior informação.


SEMANADA - Em Portugal, cerca de 4 em cada 10 adultos não têm competências digitais básicas, apenas 59% da população é digitalmente capacitada e o país está muito distante da meta europeia até  2030; um estudo da União Europeia indica que em Portugal a renda de habitação significa 116% do salário médio nas grandes cidades, o índice mais elevado de toda a UE; 540 euros é o valor médio do aluguer em Lisboa de um quarto para estudante; na capital só há 3500 camas em residências públicas, mas na cidade existem 60 mil estudantes deslocados da sua residência familiar; o número de camas da rede pública de alojamento para estudantes é de cerca de 18 mil, nove mil abaixo da meta que tinha sido estabelecida pelo PRR;  a área plantada de cereais em Portugal diminuiu 77% em 20 anos e o país só produz 6% do trigo que consome; segundo o banco UBS em 2025 existiam em Portugal 181 mil milionários, ou seja, com activos líquidos superiores a um milhão de dólares; em 2025 o peso fiscal voltou a aumentar em e em média, cada contribuinte português pagou 16.055 euros em impostos, mais 1.041 euros face a 2024 e 3.063 euros em relação a 2016; Portugal é o 3.º país da UE com maior índice de envelhecimento: um rácio de 182 idosos por cada 100 jovens; o Ministério da Educação deve 38 milhões de euros aos Institutos Politécnicos; há 3000 enfermeiros recém formados, o SNS não tem autorização para novas contratações e muitos encaram ir para o estrangeiro.


O ARCO DA VELHA - O actual Director da Polícia Judiciária, Carlos Cabreiro, negou a um juiz a existência de uma escuta que ele próprio ordenou e que não tinha sido autorizada pelo Ministério Público.




O MUSEU DE VISEU - Até 6 de Setembro decorre ainda em Viseu a tradicional Feira de S. Mateus, uma das maiores festividades populares do país. Se a forem visitar não percam a oportunidade de, na mesma viagem, visitar o Museu Grão-Vasco, um dos mais importantes museus portugueses que tem nas suas colecções 22 peças classificadas como tesouro nacional. A colecção do museu inclui pintura, escultura, desenho, ourivesaria e um foco especial no trabalho de Vasco Fernandes, que ficou conhecido como Grão Vasco, nascido na região e que foi um expoente da arte portuguesa na primeira metade do século XVI. Trabalhou para os bispos das dioceses de Viseu e de Lamego e para importantes casas conventuais da região do Douro e das Beiras. Influenciado pela escola flamenga, formou ele próprio vários discípulos que com ele trabalharam. Uma das suas obras mais importantes é o antigo retábulo da capela-mor da Sé de Viseu, originalmente com 18 painéis. Os 15 painéis que sobreviveram à sua desmontagem estão expostos reagrupados no Museu Nacional Grão Vasco (na imagem) Esta é uma obra fundamental para perceber a influência que os pintores provenientes dos Países Baixos exerceram sobre o gosto da clientela da época e sobre o trabalho dos nossos pintores. A obra foi uma encomenda do bispo de Viseu, D. Fernando Gonçalves de Miranda, manifestando a sua preferência pela pintura que se fazia na Flandres e terá sido executada entre 1501 e 1506, com a colaboração do pintor flamengo Francisco Henriques.




QUATRO BOAS PALESTRAS - Rutger Bregman é um historiador e escritor holandês que publicou diversos livros sobre história, filosofia e economia, escreve regularmente para vários jornais e foi considerado como "um dos jovens pensadores mais proeminentes da Europa". Na BBC fez uma série de palestras, inseridas nas célebres palestras Reith, assim chamadas em homenagem ao primeiro Director Geral da BBC, Lord Reith,  que as criou em 1948 para marcar que o serviço público devia ter como função enriquecer a vida cultural e intelectual do Reino Unido. As quatro palestras de Bregman abordam a ascensão do autoritarismo, o fracasso das elites em fazer-lhe frente e a crescente pressão sobre as instituições democráticas. Bregman é um crítico assumido de Donald Trump e na sua primeira palestra foi alvo de censura da BBC, que retirou uma frase que descrevia Trump como «o presidente mais abertamente corrupto da história americana». Esta intervenção ocorreu após o processo editorial ter sido concluído, foi ordenada pelos mais altos níveis da gestão da emissora e teve lugar sem o consentimento de Bregman.  «As democracias não colapsam da noite para o dia, elas vão-se erodindo gradualmente através de atos de medo. Não tenhamos medo de dizer o que está a acontecer e não tenhamos medo de dizer a verdade”, sublinha Bregman. No livro “A Revolução Moral” estão as quatro palestras na sua versão integral. A primeira, “Tempo de Monstros” é um retrato do mundo actual. Cito uma frase: ”Nas famosas palavras de um prodígio matemático que acabou a trabalhar no Facebook, as melhores mentes da minha geração estão a pensar em como fazer as pessoas clicarem em anúncios. É uma treta”. Um livro fascinante, editado pela Bertrand.






MESA DE CABECEIRA - Esta semana trago  dois livros de divulgação científica escritos por portugueses, ambos da colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva. O primeiro é “Após a Bomba”, de Jorge Calado, que faz um relato, na primeira pessoa, do renascimento da ciência em Portugal, nos anos 50.  É um ensaio que nos leva numa viagem entre ciência, arte e história do século XX e nos revela como a bomba atómica transformou muito mais do que a política. O livro é  uma reflexão sobre o momento que redefiniu a ciência, a arte e a sociedade e um contributo para a História da ciência em Portugal, passando pelos seus principais protagonistas. O outro livro é “Casamentos E Outros Desencontros… a culpa é da matemática?” , de Jorge Buescu, outro importante divulgador científico português, que cruza matemática, vida quotidiana e histórias humanas . O livro tem prefácio de Carlos Fiolhais e em dúzia e meia de curtos ensaios Jorge Buescu explica de uma forma divertida como é que uma abordagem matemática ao mundo enriquece a nossa compreensão do seu funcionamento. O autor sublinha que a matemática é acima de tudo uma extraordinária aventura intelectual, fervilhante de ideias e em permanente construção. 




EMOÇÕES
- O novo trabalho da norte-americana Julia Holter, “Materia”, é construído em torno da evocação do álbum anterior “Something In The Room She Moves”. Em “Materia” ela revê e reinterpreta canções anteriormente gravadas, novas composições e desvenda gravações até agora inéditas. Nas reinterpretações destaque para duas novas e intensas versões da canção “Materia”, que figurava no álbum anterior. A combinação da voz de Holter, com as melodias que compõe e os arranjos instrumentais que cria, constituem um caso raro na música actual pela sobriedade e pela carga emocional que transmite.




ALMANAQUE TV - “Tout Pour Agnés” é uma série francesa que conta a história de Agnès Le Roux, a gerente de um dos casinos mais populares em Côte d’Azur nos anos 1970 e que se defronta com problemas que vão de ameaças da máfia até à concorrência de outros casinos. A dada altura na sua vida, vendeu a sua participação no casino e desapareceu. O que lhe aconteceu? A série, de 2023, tem quatro episódios, foi exibida na RTP2 e está disponível em streaming  na RTP Play.


DIXIT - “É difícil compreender a lógica e o espírito da acção deste Governo. Faltam-lhe “alma” e “visão”, como se diz. Não se detecta nenhuma razão central, para além de gastar o que há para gastar, prometer o que se pode e não pode prometer e selar compromissos com fornecedores, auditores, consultores e compradores. Das poucas vezes que meteu mãos à obra de questões difíceis, fugiu mal percebeu que não ganhava.“ - António Barreto, no Público


BACK TO BASICS - "Quando uma pessoa diz que em princípio está de acordo com uma coisa, isso significa que na realidade não faz a menor intenção de a pôr em prática” - Otto von Bismarck.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS