setembro 26, 2026

O OLHAR CURIOSO

 


O  prazer da descoberta dando livre curso à curiosidade é das coisas mais fantásticas da mente humana. As crianças são curiosas por natureza, percorrem com o olhar, tocam, espreitam, mudam de posição para descobrir outros ângulos. Enquanto os adultos são cépticos, as crianças não têm preconceitos e mostram uma mente mais aberta. Não estão formatadas. Por isso é que os desenhos das crianças ou as suas construções em barro ou plasticina surpreendem tantas vezes: conseguem sair da regra e mostrar o que o seu próprio olhar e imaginação vêem. Gosto muito de ver crianças nos museus e exposições, a olhar, a fazer perguntas, às vezes sentadas no chão, com lápis e caderno, a desenharem o que está à sua frente. As crianças não se coíbem de se colocarem em posições que lhes permitem ver o que os outros, crescidos, não imaginam que se pode observar. Esta fotografia foi feita no dia da inauguração da nova exposição de Pedro Cabrita Reis no grande hall do MAAT, em Lisboa. A exposição chama-se
com o coração livre de cuidados, O título é todo um programa e aplica-se à forma como as crianças conseguem observar o mundo à sua volta mas, também, como um guia para o comportamento dos adultos, dispostos a mostrar que há outras formas de ver o mundo - como Pedro Cabrita Reis fez nesta exposição. O título tem origem numa passagem de Hesíodo, um poeta grego da antiguidade, na sua obra Trabalhos e Dias, dedicada à «Idade de Ouro», tempo primordial em que os homens viviam «como deuses», sem sofrimento, fadiga ou inquietação. É isto que alimenta a curiosidade: descobrir, conseguir ver sem ser por obrigação e sem inquietação. A exposição fica no MAAT até meados de Fevereiro.

(Pensamentos Ociosos, sempre em sapo.pt)