julho 29, 2010

VELHA ARMADILHA


 




Com a devida vénia transcrevo o excelente artigo de Luciano Amaral no diário «Metro de Hoje» - onde explica como, no caso da Constituição, a direita portuguesa caíu numa velha armadilha:



«Uma semana bastou para acalmar o
fur
or causado pela proposta de revisão


constitucional do PSD. Mas talvez valha
a pena voltar a ela mais um bocadinho.
O PSD caiu, ou quis-nos fazer cair, na
velha armadilha da direita portuguesa:
atirar-se à Constituição. Cães de Pavlov há-os para
todos os gostos: assim como a esquerda ladra logo
a quem se propõe tocar na Constituição, a direita
não deixa de babar quando alguém diz que vai
mudar a Constituição. Mas atirar-se à Constituição
é a melhor maneira de mostrar atitude reformista
sem fazer grande coisa. As constituições têm muito
de valor histórico, cristalizando o momento da
redacção. A Constituição da Irlanda, por exemplo,
o país de sucesso com quem gostávamos de nos
comparar há uns anos, foi escrita “em Nome da
Santíssima Trindade, de Quem toda a autoridade
deriva”. E está cheia de “directivas sociais”, contra
a “exploração injusta” resultante da “livre competição”.
Isto para além de belos preceitos antiquados,
como o de que “a permanência da mulher no lar
contribui para o Bem Comum”. As constituições
ocidentais estão cheias de bizarrias históricas.
A Constituição da Noruega consagra a religião
Evangélica-Luterana como religião de Estado.
A da Dinamarca consagra a Igreja Luterana
Dinamarquesa como a igreja oficial. Embora ambos
os países sejam famosos pelos “Estados Sociais”,
as respectivas constituições são omissas a esse
respeito. A 21ª emenda à Constituição dos EUA proíbe
“o transporte e a importação de bebidas alcoólicas”.
Apesar de a nossa Constituição estabelecer que
estamos a “abrir caminho para uma sociedade socialista”,
somos dos países com menor proporção de
propriedade pública. E embora a Constituição seja
muito estrita na legislação laboral, temos um mercado
de trabalho bastante flexível (embora dual:
uns protegidos de tudo, outros pelo contrário). Atirar-
se à Constituição é fácil, porque nunca resulta
em nada. Difícil é mudar certos hábitos de governação
que conduziram ao ponto em que estamos.»


Luciano Amaral

julho 27, 2010

AS LEIS E A JUSTIÇA

(Publicado no jornal Metro de 27 de Julho)


 


A agenda política dos últimos dias tem sido dominada pela questão da eventual revisão da Constituição. A questão em si é um pouco bizantina porque, em bom rigor, não é necessário de facto mexer no texto constitucional para fazer uma série de coisas que se têm anunciado - as taxas moderadoras foram introduzidas no sector da saúde sem que a questão Constitucional se colocasse. Os exemplos são numerosos. As grandes reformas que são necessárias podem ser introduzidas amanhã – se existir vontade política para tal.


O que falta em Portugal não são Leis – o que falta é cumpri-las e fazê-las cumprir. A nossa legislação é numerosa, abundante e faz as delícias dos legisladores. Mas depois muita dela fica pelo caminho – ou porque não é regulamentada, ou porque fica esquecida, ou porque pura e simplesmente ignorar as leis é uma actividade tão frequente como elaborá-las.


Isto, é claro, revela o estado do país: a prioridade devia ser pôr o sistema a funcionar, o que quer dizer, de forma muito prosaica, pôr a justiça a funcionar. O nosso maior problema é que a justiça funciona muito mal e isso condiciona tudo. Os custos sociais e económicos do mau funcionamento da justiça são a factura mais pesada que temos pela frente.


Em vez de gastar energias a fazer novas leis, sugiro aos políticos que se concentrem em fazer funcionar o que existe - até porque seria um desafio curioso para eles: por uma vez mostrariam se são capazes de conseguirem fazer alguma coisa de concreto, por alguma vez teriam a oportunidade de fazer uma reforma visível, por uma vez nós, os eleitores, poderíamos ver se eles sabem de facto trabalhar e fazer ou se se limitam a falar. É que a situação do país deve-se muito ao facto de os políticos falarem muito mas concretizarem e fazerem muito pouco. Melhorem a justiça – ela está tão mal que não há-de ser muito difícil obter alguns resultados.


Falar da revisão Constitucional é um acto meramente simbólico. Tratar da reforma da justiça seria uma acção prática de enormes e rápidos efeitos.


 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Julho)

CONSTITUIÇÃO – O principal mérito do projecto de revisão constitucional que anda a ser preparado pelo PSD é o de ter colocado à discussão uma série de questões, algumas delicadas, não tendo medo de ser politicamente incorrecto e não fazendo o péssimo truque, habitual na política portuguesa, de só tomar as medidas polémicas ou falar da necessidade de fazer cortes ou reduções depois de eleições. Este é claramente um ponto a favor, como é também um ponto a favor a abertura da discussão sobre o que todos podemos esperar do Estado Social. Depois há questões, do ponto de vista da reforma do sistema político, em que não se entende bem a prioridade estabelecida, relativa às competências do Presidente da República. Fazia mais sentido, acho eu, debater questões como o funcionamento do sistema partidário, a reforma das eleições para tentar maior participação (por exemplo facilitando candidaturas independentes),  e uma abordagem séria das actualizações impostas pela evolução enorme de comunicação e das novas  possibilidades de participação desenvolvidas tecnologicamente nos últimos dez anos. Faz-me impressão que se encare como imutável o papel dos partidos e dos seus aparelhos e que se trave a abertura da política e da participação cívica a independentes – de que os partidos apenas têm uma visão utilitária em véspera de eleições. E, claro, não se entende como se fala da educação e da saúde e não se aborda de frente a questão da degradação cada vez maior do funcionamento da justiça. Mas regressemos à questão das obrigações do Estado em matéria social – o sistema inevitavelmente tem de ser revisto: não é suportável pagar ainda mais impostos em nome de um modelo que penaliza as gerações futuras e que no fundo se está a deteriorar. E não se pode falar de diminuir o Estado Social sem mostrar que ao mesmo tempo descerão os impostos – se não for assim, ninguém percebe. Não é por acaso que são os arautos da brigada do reumático, que nunca fizeram contas e que são muito responsáveis pelo estado das finanças públicas, que aparecem a gritar contra as mudanças nestas áreas. Mas é também certo que a forma como foram comunicadas as propostas do PSD – a conta-gotas, de forma desconexa, parcelar, e muitas vezes incompleta, deram azo a que a gritaria dos que nunca querem mudar nada se amplificasse. A última coisa que a reforma do Estado social precisa é que se alimente uma frente unida da velha esquerda e que se comprometa o apoio da zona central do eleitorado ás mudanças necessárias. E este ressuscitar da frente unida de esquerda poderia ser evitado se o assunto fosse bem comunicado e de forma dirigida ao alvo mais interessado na mudança – todos os que começam agora a sua actividade profissional. Espero sinceramente que a má comunicação não comprometa as boas propostas e que haja ainda o bom senso de repensar o que é mesmo importante na reforma do sistema político-partidário.


 


CRISE – O episódio da Ministra do Emprego a anunciar o que não lhe competia é apenas o sinal mais recente do desnorte e descoordenação do executivo. A realidade é esta: o Governo não está a gerir a crise, está apenas a aumentá-la e, assim sendo, mais valia pensar se em matéria de instabilidade não será mais grave manter as coisas como estão ou procurar soluções alternativas. O pretexto da estabilidade, como os números e os factos mais recentes mostram, serve apenas para deteriorar ainda mais a situação. O Governo ziguezagueia – uma coisa é o que Teixeira dos Santos diz em Bruxelas, outra é o que Ministros avulsos vão prometendo pelo país às diversas corporações de interesses. E a nova batalha pelo “Estado Social” ainda vai fazer degradar mais as coisas.


 


VER – Se por estes dias passarem por Coimbra entrem no centro da cidade, no Pátio da Inquisição, e vão descobrir o Centro de Artes Visuais, uma das consequências dos Encontros de Fotografia de Coimbra, criados e dinamizados por Albano da Silva Pereira desde os anos 80. Durante o verão podem lá descobrir a exposição «Imaginário da Paisagem», montada a partir de fotografias da colecção do BES, de nomes como Gérard Castello Lopes, Andreas Gursky, John Baldessari, Josef Koudelka ou Nuno Cera, entre outros.


 


LER – Cada crise, para além das dificuldades que provoca, é também uma fonte de oportunidades, desde novos padrões de consumo, até à criação de novas formas de trabalho frequentemente inovadoras, passando por novas infraestruturas e uma reorganização do território em função do desenvolvimento de novas actividades – este é o ponto de partida para o novo livro do norte-americano Richard Florida, «The Great Reset – How New Ways Of Living And Working Drive Post-Crash Prosperity». Editado há poucos meses este livro bem que podia ser lido por vários políticos da praça. Como Richard Florida diz, « paremos de tratar os sintomas, deixemos de confundir nostalgia com solução». Edição Harper, na Amazon.


 


OUVIR – Ao longo da sua carreira Laurie Anderson tem sido cáustica com a América, e este é assumidamente um disco político, um disco motivado pela crise do subprime e pelo colapso financeiro que se seguiu. Anderson continua com um sentido de humor apurado, que se vê logo na capa do CD, com ela mascarada, a evocar o Chaplin de «Tempos Modernos». Mas, ao mesmo tempo, Laurie Anderson continua também musicalmente a arriscar e a experimentar, sempre com o seu violino como base, recorrendo à manipulação de sons electrónicos mas também aos instrumentos primitivos de um grupo de músicos étnicos e ao talento de produtor de Lou Reed, que é casado com Anderson. Das 12 faixas há, na minha opinião, duas que se distinguem: «Only An Expert», uma composição que agarra o ouvinte do princípio ao fim, e o épico «Another Day In America», envolvente, em crescendo. «Homeland» inclui ainda o DVD «The Story Of The Lark», que aborda o processo criativo da artista e deste disco em particular. CD e DVD Nonesuch, via Amazon.


 


PETISCAR – A nova Frutalmeidas nas Avenidas Novas, em Lisboa, tem espaço amplo mas a mesma qualidade nas grandes tradições da casa que há umas quatro dezenas de anos nasceu na Avenida de Roma: os pastéis de massa tenra, as empadas de galinha, as tartes de maçã e os sumos naturais. Redescobri o prazer daqueles pastéis de massa tenra há poucos dias quando fui experimentar esta nova loja, que fica na Rua Pedro Nunes 25, esquina com a Latino Coelho.


 


ARCO DA VELHA – Apesar dos PEC’s, promessas e juras de contenção, a despesa do Estado nos primeiros seis meses do ano cresceu 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado – em números redondos mais mil milhões de euros. Em política, o que parece é: aumentam os impostos e aumenta a receita, mas a despesa não diminui, em vez disso cresce. Chama-se a isto cavar ainda mais a crise.


 


BACK TO BASICS – Ganho algum dinheiro a criticar as políticas do Governo, e depois dou-lhe boa parte do que ganho em impostos para ele continuar a fazer o mesmo – George Bernard Shaw


 

julho 20, 2010

QUAL CRISE? - UM GOVERNO EM CRISE

(Publicado no diário Metro de 20 de Julho)


 


José Sócrates gosta de se iludir a si próprio e de iludir os outros: não se cansa de dizer alto e bom som que «o país precisa de tudo menos de uma crise política», mesmo quando ela está à sua frente. O grande problema é que os seus Ministros não acreditam no seu conselho e fazem tudo, mas mesmo tudo, para tornar a crise evidente.


Querem ver o que é sinal de crise? Enquanto o Ministro das Finanças se esforça para ver onde reduz a despesa, a Ministra da Cultura vem dizer que José Sócrates a deixa gastar sem fazer cortes; Mariano Gago, Ministro do Ensino Superior, garante que o Primeiro Ministro lhe prometeu não fazer passar as Universidades por apertos orçamentais; a Ministra do Trabalho anunciou por sua conta e risco que a Função Pública teria aumentos iguais à inflação; e o Ministro das Obras Públicas tornou-se o maior trapalhão do executivo, desdizendo-se a toda a hora sobre o romance das portagens e os grandes investimentos. Quando a coisa aperta todos eles se viram para o mesmo sítio – o Ministro das Finanças que se arranje para resolver o problema.


Nas últimas semanas tornou-se evidente que há duas políticas financeiras no Governo – a que o Ministro das Finanças explica a Bruxelas e aos mercados internacionais; e a que o Primeiro Ministro atribui aos seus Ministros, rateando promessas e mais promessas sem cuidar como as cumprir.


A realidade é que vivemos numa crise política que passa pelo facto de o Governo actual ter sido eleito com um programa que é o oposto daquele que está a colocar em prática. Os eleitores não votaram nestas políticas, votaram em promessas que foram já abandonada. José Sócrates foi eleito porque mentiu prometendo o que não podia cumprir, e fez isso porque está agarrado ao poder, que quer manter a todo o custo, mesmo chefiando um Governo cujos Ministros estão em roda livre e completamente desorientados. Na realidade este Governo deixou de ter legitimidade eleitoral. Ao PS resta convencer José Sócrates que o melhor será sair, precisamente em nome de resolver a crise política que se instalou.

julho 16, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 16 de Julho)

A BILHETEIRA – O novo Director Geral das Artes, soube-se por estes dias, vai também coordenar a rede dos cineteatros sem que se saiba exactamente o que isto quer dizer, já que estas salas estão na dependência das autarquias onde estão situadas. Mas neste sector existe, em geral, uma  questão que se prende com a forma como a bilheteira destas salas é maioritariamente encarada. Um dos grandes problemas que existe vem da grande percentagem de bilhetes oferecidos, que as salas do Ministério da Cultura e  das autarquias, disponibilizam em muitas das suas actividades. A medida, que em si pode parecer bondosa, acaba por ser perversa – contratam-se espectáculos sem ter em conta o seu potencial de cativar públicos e sem os fazer passar pelo teste da bilheteira de forma real e efectiva. Na realidade a oferta de bilhetes não incentiva a formação de públicos – arranjar um bilhete à borla, para tudo e mais alguma coisa, é um desporto nacional. A consequência deste vício na borla é que, muitas vezes, é insuficientemente valorizado o acto de ir a um espectáculo e pagar por isso, percebendo que assim se está a contribuir para os custos da produção e do trabalho de todos os envolvidos, de actores e criativos a técnicos. Era curioso fazer um estudo sério, nas salas geridas pelo Estado ou pelas autarquias, que comparasse a percentagem dos bilhetes vendidos com a percentagem dos bilhetes oferecidos. Em Lisboa o caso é particularmente grave – valia a pena que no Maria Matos, no S. Luis e, de uma forma geral, nos espaços geridos pela Câmara ou a sua empresa EGEAC, se fizesse um estudo sério sobre esta matéria. Uma coisa é subsidiar os bilhetes, tentar atrair novos públicos, promover o trabalho de artistas e grupos, outra coisa é programar sem olhar à capacidade de atracção e criação de públicos. Por detrás de tudo isto ainda existe uma outra questão: o investimento e o esforço de divulgação, promoção e publicidade dos espectáculos é muitas vezes insuficiente, precisamente porque o critério billheteira é subvalorizado – a sala acaba por se encher, muitas vezes, à pressa, com recurso a bilhetes oferecidos, e o marketing cultural, na generalidade dos casos, é incipiente e frequentemente mal feito. Na realidade, é bom recordá-lo, não há bilhetes gratuitos – somos todos nós, contribuintes, que os pagamos. E a programação de todas estas salas, que deve viver do equilíbrio entre novos artistas e a manutenção de companhias e grupos existentes, e que deve ser uma das componentes de uma política de financiamento do Estado – mais que os subsídios sem contrapartidas – acaba por ser desvalorizada e secundarizada. Avançar sem conhecer a realidade da bilheteira é sempre de eficácia duvidosa. Em todas as áreas.


 


TV – Só para fazer notar que este foi o primeiro campeonato do Mundo de futebol cujas imagens puderam ser seguidas no telemóvel e em sites pelo computador e cujos resultados, protestos pelos erros de arbitragem e comentários puderam ser vistos no twitter e no facebook. Também foi o primeiro que teve transmissões mais ou menos generalizadas em alta definição e algumas em 3D e foi, ainda, aquele com maiores provas técnicas dos erros da arbitragem, com maior número de estatísticas do jogo (posse de bola, remates, etc) em tempo real. Há quatro anos quase nenhuma destas opções existia, mas agora elas tornaram-se vulgares. Muito provavelmente daqui a quatro anos, em 2014, olharemos para o que experimentámos em 2010 como agora olhamos para as nossas recordações de 2006. A televisão está a mudar e o desporto é o prato forte da mudança na lista dos conteúdos, como aqui se escrevia há umas semanas.


 


LER – É engraçado como um livro sobre o medo de voar se tornou numa atracção mediática nos últimos dias – é sinal que o problema afecta muita gente e que causa angústias variadas nos mais diversos meios. O engraçado de «Voar Sem Medo» é que está escrito quase como se fosse as instruções de um jogo, nas suas várias etapas. Às vezes um pouco técnico demais, aqui e ali a dirigir-se em simultâneo ao público em geral e a especialistas (o que não é uma boa ideia), é justo reconhecer que as indicações, sugestões, dicas e truques diversos apontados neste livro serão certamente da maior utilidade para aqueles que se sentem desconfortáveis quando entram num avião – e existe até um teste, fácil e rápido, para avaliar o grau de à vontade e desconforto de cada um face à perspectiva de um voo. Cristina Albuquerque, psicóloga de formação, tem-se especializado na área do tratamento de aerofóbicos e há duas décadas que se interessa por este problema. Quer-me parecer que este bem pode ser um inesperado best-seller. «Voar Sem Medo», de Cristina Albuquerque, edição Gradiva.


 


OUVIR -  Pensei um bom bocado antes de escrever sobre este disco – à partida tem tudo o que me desagrada (uma junção de estrelas, uma colectânea de canções óbvias, um ar de campanha «num esforço para mostrar o poder e a beleza da colaboração a nível global como um caminho radioso para a paz», citação das notas de capa). Mas no fim decidi dizer-vos que vale a pena conhecer a mais recente aventura de Herbie Hancock, que já vai nos seus 70 anos. O disco chama-se «Imagine Project» e conta com numerosas colaborações, de Seal a Jeff Beck, passando por Pink, Los Lobos, The Chieftains e Dave Matthews, entre outros. A minha escolha vai para algumas versões brilhantes, de que destaco «Space Captain», uma canção popularizada por de Joe Cocker, «Don’t Give Up», de Peter Gabriel, «Tempo de Amor», de Baden Powell e Vinicius, «The Times They Are A Changin» de Bob Dylan e «Exodus» de Bob Marley.  «Imagine Project», de Herbie Hancock, CD Sony Music, na FNAC.


 


VER – Já aqui falei uma vez da revista portuguesa «The Scope», um dos mais interessantes e arriscados projectos editoriais surgidos nos últimos tempos. É certo que é uma revista de segmento, que é um objecto quase de luxo, muito bem impresso e editado. Tem distribuição internacional, publicidade internacional e direcção de Tiago Machado. A revista sai quatro vezes por ano, a par com as estações, e este número de Verão oferece motivos de interesse que vão de textos de Brad Mehldau sobre os seus heróis na música até uma entrevista com o arquitecto Rem Koolhaas ou uma viagem pelo mundo do vinho tinto da região de Burgundy, pelo autor do filme «Mondovino», Jonathan Nossiter E, depois, claro, como pano de fundo há a paixão pela fotografia e pela imagem que é o DNA desta revista.


 


PROVAR – Esplanada da semana: em dias quentes provar uma Conchanata, na geladaria do mesmo nome, na Avenida da Igreja 28 A. Fecha às segundas.


 


ARCO DA VELHA – A senhora Ministra da Cultura emitiu um comunicado onde manifestou a sua grande satisfação pela demissão de um director geral. Depois disse que a satisfação era devida a não ter que lhe pagar indemnização. A seguir anunciou que o buraco orçamental que abriu na Cultura será resolvido pelo Ministro das Finanças como ele achar melhor.


 


BACK TO BASICS – As circunstâncias nunca devem alterar os princípios – Oscar Wilde


 

julho 14, 2010

UMA MINISTRA INCAPAZ

(Publicado no diário Metro de dia 13 de Julho)


 


A senhora Ministra da Cultura anunciou no final da semana passada que é incompetente para afastar dirigentes do seu Ministério, preferindo que eles se demitam. Isto parece-vos estranho? Eu também acho que é um pouco bizarro, mas a realidade é que a Ministra fez um comunicado onde está escrito, preto no branco: « A Ministra da Cultura confirma o pedido de demissão do Director-Geral das Artes. O Ministério da Cultura manifesta a sua grande satisfação por esta decisão, que vem permitir finalmente que a DGArtes se liberte de constrangimentos vários que têm vindo a dificultar a sua acção.»


 


Este comunicado mostra bem o estado a que se chegou na área da Cultura: uma Ministra incapaz de governar o seu próprio Ministério, que prefere deixar apodrecer uma situação a intervir, e que ao longo de meses vai deliberadamente agravando o funcionamento de um sector na esperança de que alguém se farte e resolva sair daquela casa – que foi exactamente o que acabou por acontecer.


 


Independentemente do fraco retrato que dá de si própria e da sua capacidade de decisão e de acção, o comunicado é mais grave – porque lança suspeitas, graves, sobre uma pessoa séria – Jorge Barreto Xavier, o citado Director Geral das Artes que se fartou e foi embora. E é exactamente o carácter rasca de todo o comunicado, que pode ser lido no site do Ministério da Cultura, que traça o melhor retrato do que é a actuação do Ministério da Cultura sob a gestão Gabriela Canavilhas – uma casa onde se diz hoje uma coisa e amanhã outra, apenas capaz de funcionar por impulsos externos, sem linha estratégica nem programa de acção.


 


O balanço do consulado Sócrates em matéria de Cultura é verdadeiramente desastroso – decisões de impulso, mal pensadas, falta do mínimo de coerência, inexistência de qualquer linha programática, cedência a gostos e modas, instabilidade no sector, negócios pouco claros na relação entre o Estado e grandes coleccionadores, obras faraónicas e polémicas, como o novo Museu dos Coches, desperdiçando o parco dinheiro que cronicamente existe na área da Cultura.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

julho 09, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 9 de Julho)

CULTURA – Vai um grande burburinho na área dos agentes culturais – em boa medida graças à inabilidade política da Ministra, mas também em boa parte devido a erros e vícios acumulados no sector. Deixemos a inabilidade política de lado. O problema central da política cultural é que ela vive sem estratégia há muitos anos, basicamente desde que Carrilho foi para o Ministério com uma linha programática que se resumia a isto: subsidiar, subsidiar, subsidiar. Com os planos de recuperação de teatros, património e museus muito avançados quando chegou ao Governo, Carrilho concentrou-se em montar uma complexa teia de modelos de financiamento, para as mais diversas organizações e formas de expressão. Ao longo dos anos o efeito da estratégia clientelar criada por Carrilho entre 1995 e 2001 multiplicou-se. Não é de admirar que os agentes artísticos elogiem este seu consulado – ele limitou-se a aumentar o investimento do Estado em subsídios, dando uma falsa imagem de crescimento do investimento público na área da Cultura. Rui Vieira Nery, que foi seu Secretário de Estado, demitiu-se acusando-o de gestão danosa na Cultura e António Barreto, depois do conflito que manteve com o Ministro a propósito da Sociedade Porto 2001, escreveu um artigo que ficou célebre intitulado «Um Homem sem Qualidades». O modelo da criação de dependência aos subsídios foi exponenciado nessa época e o Estado assumiu então – e continuou a assumir depois – muito mais compromissos fixos em estruturas, de festivais a associações culturais, passando por grupos de teatro ou empresas de produção. O resultado é que o dinheiro claramente não chega para tudo. Não é certo que todo o dinheiro atribuído em subsídios seja um bom investimento e não é certo que ele seja eficazmente reprodutivo, do ponto de vista de resultado artístico e criativo – eu sei que os subsidiados não gostam de ouvir isto mas é uma facto que têm de encarar de frente. O que os Governos não fizeram foi encontrar formas de captar e incentivar o investimento privado nas artes, preferindo manter um modelo de benefícios fiscais duvidoso. E menos ainda fizeram na articulação com as autarquias, que replicaram elas próprias os piores exemplos da administração central - como está bem patente em Lisboa aliás. O resultado está à vista e, desta vez, quem trabalha no sector tem que puxar pela cabeça para construir e reivindicar um modelo sustentado, em vez de promover apenas mais protestos e a manutenção dos subsídios existentes. É simples: acabou-se o dinheiro fácil, o mundo mudou mesmo e não vai ser como dantes.


 


PT – Se o comportamento dos sucessivos Governos ao longo dos anos, em relação à Portugal Telecom, fosse menos político, se não tivesse havido todo o caso da forma como a PT andou a negociar a compra da TVI com o já assumido conhecimento – e aparente incentivo - de homens de confiança do PS, de membros do Governo e do próprio Primeiro-Ministro, talvez a utilização das acções especiais que o Estado detém na Portugal Telecom não tivesse provocado tanto burburinho. Mas a verdade é que o veto da golden share foi utilizado no culminar de um processo onde a existência de pressões políticas à margem dos accionistas se tornou patente. Também não deixa de ser curioso que esses mesmos accionistas não se tenham mostrado muito incomodados com o clima de interferência política baseado nas acções especiais, mas que se tenham agastado quando a sua utilização redundou num veto a um negócio de grande dimensão. Fica-me a sensação de que do lado de Sócrates não se dedicou tempo e atenção suficientes a juntar os seus confessos amigos Zapatero e Lula da Silva para, a três, e já que dizem ter tão boa relação e tanto em comum, se conseguir atingir uma acordo que não descambasse na situação actual.


 


EXTERIOR – É sabido que existe uma curiosa tradição de que as declarações importantes dos políticos portugueses sobre Portugal sejam feitas em entrevistas ou declarações a jornais estrangeiros. Presidentes da República e Primeiros Ministros tornaram-se useiros e vezeiros nesse método. Sócrates lembrou-se disso e fez uma jogada de comunicação brilhante quando decidiu explicar a posição do Governo sobre a utilização das acções especiais da PT precisamente numa entrevista ao «El Pais». Embora Marcelo Rebelo de Sousa tenha toda a razão sobre a falta de cuidado que houve na preparação e negociação do tema da compra da Vivo pelos espanhóis, a verdade é que uma vez usada a bomba atómica os conselheiros de Sócrates tudo fizeram para amortecer a explosão – primeiro com o artigo no «Público» e depois com a entrevista no «El Pais». Em termos de política de comunicação de crise foi uma belíssima jogada.


 


RTP – A série de dois artigos que Guilherme Costa, o Presidente da RTP, escreveu  no Público no início desta semana tem um sabor a balanço do trabalho feito. Pelo meio dos artigos percebia-se que o cenário de alguma forma de privatização anda no ar . Estes artigos vieram reforçar a convicção, expressa em círculos governamentais, de que seria melhor privatizar antes das próximas eleições – não só para moldar a privatização, mas também para poder haver ainda alguma palavra na escolha de quem possa vir a ficar com o sector ou sectores da RTP que forem privatizados. Quer-me parecer que ainda vamos assistir a algumas surpresas, nesta matéria, nesta legislatura.


 


OUVIR- Em 1957 Thelonius Monk e John Coltrane, durante alguns meses, tocavam juntos num dos históricos locais do jazz em Nova York, o Five Spot Café. Nessa altura foram a estúdio e gravaram uma série dos temas que tocavam em conjunto habitualmente.  Estas gravações  ficaram por editar até 1961, ano em que foi lançado «Thelonius Monk With John Coltrane», considerado um dos melhores discos de jazz de sempre. O piano de Monk e o saxofone tenor de Coltrane encontraram-se de forma explosiva, num entendimento musical perfeito. É essa gravação histórica que a Universal agora reeditou na sua belíssima série Original Jazz Classics Remastered. Fantástico para ouvir nestas noites quentes.


 


LER- António Pinto Ribeiro, programador, investigador, responsável pelos ciclos «Próximo Futuro» na Gulbenkian, tem uma já numerosa obra publicada, predominantemente de ensaios. O seu novo livro, algo inesperado, chama-se «É Março E É Natal Em Ouagandougou» e apresenta-se como um «livro de viagens». É mais exacto dizer que é um diário de viagens  sem organização cronológica, e que evoca outros livros de viagem e outras literaturas, quase como um guia de locais acompanhado de bibliografia para cada circunstância. É, acima de tudo, um livro sobre memórias de locais, impressões de momentos, às vezes quase instantâneos escritos em vez de fotografados. É um bom retrato de sensações – desde a paixão evidente por África à sensualidade de Buenos Aires. A última página é de Lisboa, numa passagem de ano, no Lux, a fazer lembrar o esplendor de Veneza no século XVI.


 


DESCOBRIR- A única forma possível de descobrir o que se passa na capa da edição 43 da revista «Egoísta», que tem por tema a «Liberdade», é colocar a revista dentro de um forno micro-ondas a 500 watts durante 10 segundos. Só aí aparece a imagem de capa – verdadeiramente esta é uma capa que precisa de ser descoberta. Se não tiver micro-ondas contente-se com o interior e não fica anda mal – gosto muito da história desenhada sobre a Mongólia de Rodrigo Prazeres Saias, do texto de Francisco José Viegas «O Navegador Que Morreu À Espera da Primavera», da «Metamorfose» de Rui Zink e das fotografias de João Carvalho Pina. A «Egoísta», cujo Director é Mário Assis Ferreira, deu uma bela festa esta semana para assinalar o seu décimo aniversário, com um concerto de Al Green no Casino Estoril - «Soul» tocada por grandes músicos.


 


PROVAR – Nestes dias de calor intenso fazem falta locais em Lisboa com boas saladas e sanduíches leves e frescas. Não é tempo de bifanas, menos ainda de tostas mistas, e as saladas de farrapos de frango com retalhos de alface salpicados com grãos de milho acabados de sair das latas também são muito pouco convincentes. Por isso mesmo venho aqui louvar a belíssima salada de peixe fria, sobre cama de feijão verde e bem rodeada de outros legumes, disponível na Bica do Sapato, apenas na renovada esplanada, agora bem protegida do vento e do sol. Esta salada é exactamente o modelo do que se pode fazer com bons ingredientes num dia de grande calor.


 


ARCO DA VELHA – Esta semana o país descobriu que em Alcochete o Sporting tinha um pomar de macieiras atacado por alguma praga de bichos – de tal forma que o respectivo presidente se reivindica especialista no tratamento de maçãs podres.


 


BACK TO BASICS – Razões fortes determinam acções fortes – William Shakespeare


 

NO TAMARIZ

(Publicado no diário Metro de dia 6 de Julho)


 


O espírito inventivo dos portugueses é extraordinário: logo que se soube dos distúrbios na praia do Tamariz houve logo quem se propusesse desenvolver um protector anti-cacetada com intensidade 40. A coisa terá a forma de um escudo que se pode também utilizar como guarda sol e como lança. Cada vez que começa a pancadaria usa-se o escudo para protecção e o cabo do dito como lança para repelir os mais afoitos.


A avaliar pelo estado do policiamento a nova invenção vai ter grande saída e não me espantava se ela começasse a aparecer de repente nas lojas chinesas da região, sempre tão rápidas a duplicar os produtos que têm grande procura do público.


Consta até que o Ministro Rui Pereira se vai colocar vestido de nadador salvador no meio da praia, acompanhado daquela comissária da PSP que faz de porta-voz da organização e que vai aparecer com o fato das miúdas da série marés vivas. Juntos vão fazer demonstrações de utilização do escudo protector. Está a decorrer uma reunião na presidência do Conselho de Ministros porque há alguns colegas de Rui Pereira que também querem participar na acção – supõe-se que querem também experimentar a sensação de uma luta corpo a corpo para se treinarem para as próximas reuniões do Conselho de Ministros, que se prevêem mais renhidas que o habitual, a propósito da elaboração do próximo Orçamento de Estado.


Quem já disse que não precisava do escudo para nada foi José Sócrates: optou por uma guarda pretoriana composta por Silva Pereira e Jorge Lacão, com apoio militarizado especial fornecido por Santos Silva, que para o efeito já escalou uma divisão de paraquedistas.


É de facto extraordinário como um incidente de fim de semana teve consequências tão vastas no Governo – sabemos de fonte segura que o caso perturbou vários membros do executivo quando estavam quase afundados dentro de água em diversas localidades do país, no meio de sessões de esclarecimento junto de bases do PS a propósito das SCUTs.


Sobre o assunto sabe-se que o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, se limitou a perguntar - «querem que mande o Ricardo Rodrigues já para o Tamariz?».


 


 


 


 

julho 05, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 2 de Julho)

FUTEBOL – Agora que já não temos o espectro do resultado da selecção portuguesa,
falemos do Mundial como um negócio que alimenta outros negócios. Acima de qualquer
outra coisa, hoje em dia, uma prova como o Mundial de Futebol é um espectáculo que
fornece um conteúdo audiovisual precioso – aliás as grandes provas desportivas são
conteúdos audiovisuais de excelência. Existem algumas razões para isto. Em primeiro
lugar uma transmissão desportiva é o directo por excelência – vive do directo, do instante
em que acontece. Por mais graça que tenha ver resumos dos jogos, o interesse é saber
qual o resultado no exacto instante final de uma prova. Depois de se saber quem ganhou,
rever um jogo é um exercício de nostalgia, não é uma emoção. E, é pelo enorme peso
de emoção e de paixão que transporta, que uma grande prova desportiva é tão disputada
pelas televisões, e em breve por canais digitais e por aí fora.
Isto é verdade para o futebol, mas é também verdade, como nos Estados Unidos, para o
baseball ou para o basketball e - imagine-se – nalguns casos (os grandes torneios), até
para o golfe. Nos Estados Unidos há modalidades cujo desenrolar de jogo está quase
feito de forma perfeita para televisão – com pausas a tempos certos para emissão de
publicidade, com um ritmo que tem picos permanentes. O futebol ainda não é assim,
mas se analisarmos o que se tem passado neste Mundial percebe-se que algumas coisas
irão ter que mudar. Por exemplo não faz sentido que existam erros de arbitragem em
clara contradição com o que os espectadores vêem em casa nas repetições – sobretudo
quando há vastas regiões do mundo, na Ásia nomeadamente, onde o futebol começa a
ser popular. Os novos telespectadores – seja em idade, seja em adesão à modalidade –
terão dificuldade em perceber que podem ver um jogo em alta definição ou em 3D, mas
que os resultados do jogo podem ser falseados pela não utilização de meios técnicos pela
arbitragem. Não faz sentido que a FIFA esteja atenta às possibilidades de negócio das
novidades tecnológicas mas que continue a usar meios de arbitragem da primeira metade
do século XX.
A globalização do futebol tem efeitos curiosos. Basta ver como algumas grandes equipas
(Inglaterra, França, Itália e até Portugal) foram eliminadas nas primeiras fases do
Campeonato. Há uma série de países ainda em competição que seria impensável estarem
onde estão há uns anos atrás. Isto tem a ver com a globalização dos jogadores e o caso
da selecção portuguesa é bem elucidativo: muitos jogadores já não jogam em clubes
portugueses, muitos têm agendas próprias e o conceito de selecção nacional acaba por
ser um pouco forçado. Nem que seja do ponto de vista psicológico não deve ser fácil
a um português jogar contra a Espanha quando vive em Madrid e é pago por um clube
espanhol. Em contrapartida, países com poucas tradições no futebol e poucas grandes
estrelas internacionais, têm maior facilidade em montar equipas para as respectivas
selecções e em fazê-las jogar de forma mais coerente e eficaz.
O facto de o futebol ter alargado nos últimos 10 anos a sua capacidade de atracção de
públicos (como nos Estados Unidos e China), tem consequências directas numa série de
áreas que só podem existir porque a televisão leva o jogo a todo o lado: os patrocínios de
equipas e de jogadores, os patrocínios oficiais da própria FIFA, a publicidade a marcas
ligadas ao desporto, as próprias apostas online. O futebol deixou de ser um negócio
apenas da Europa e da América do Sul, passou a ser global, é um conteúdo cada vez
mais disputado e um veículo publicitário valioso. Tudo isto só funciona enquanto houver
emoção, disputa, resultados e vitórias claras. O futebol não é só um jogo: é espectáculo e
a sua gestão tem que ter isto em conta. Lá fora e, também, cá dentro de portas. Só que cá
dentro ainda há quem pense que o futebol deve ser encarado como uma negociata, em vez
de ser show business.



LER – Onde preferiria viver? Numa capital confortável ou numa cidade cosmopolita e
caótica? – a pergunta é o tema de capa da edição de Julho/Agosto da revista «Monocle»,
que inclui o relatório sobre a qualidade de vida nas 25 cidades que a revista coloca
entre as melhores. Lisboa aparece pelo segundo ano na 25ª posição, Madrid subiu para
a décima posição e Barcelona desceu duas posições para o 17º lugar. Um bom artigo
para qualquer autarca ler é a entrevista a Raymond Rybak, o mayor de Minneapolis, que
vai no seu terceiro mandato e é um exemplo de boas ideias e boas práticas. Outro artigo
muito interessante é sobre uma estação de rádio de Nova York, a Air, exclusivamente
dedicada ao mundo da cultura e do entretenimento. Finalmente assinale-se que a
produção de moda é fotografada no Porto, parte dela na casa de chá desenhada por Siza
Vieira e que existem belos portfolios fotográficos sobre Beirute, Istambul, Nápoles ,
Rio de Janeiro e Taipé – porquê? Porque não estão no top 25 mas porque têm tudo para
brevemente integrarem a lista.



VER – Há de tudo um pouco no novo ciclo de exposições inaugurado na semana passada
no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84). O novo primeiro piso, a extensão da
Platafroma Revólver, continua a afirmar-se como um espaço cheio de potencialidades
e a colectiva «De Heróis Está o Inferno Cheio», ali exposta, é na minha opinião pessoal
a mostra mais interessante de entre o conjunto agora apresentado. Na Rock Gallery
está «Australia » de Joana da Conceição e na VPF Cream art gallery está «Nude» de Inês
Pais. No piso 3 a Plataforma Revólver apresenta a colectiva «If I Can’t Dance, I Don’t
Want to be part of your Revolution».



OUVIR – Um dos melhores discos que me foi dado ouvir nos últimos tempos é «The
Bamboos – 4». Este belíssimo exemplo de soul, bem pontuado por sinais de funk, vem
da Austrália e é arrebatador. O melhor de tudo é que é um disco muito bem tocado,
feito com calor e paixão – sente-se que os músicos se estão a divertir e a passar um bom
bocado com a música que fazem e isso é obviamente contagiante. A energia e alegria que
este registo de estúdio dos Bamboos transmite é de facto inusitado nos dias que correm.
E o facto de a execução e interpretação serem brilhantes claro que ajuda – assim como a
bela voz de Kylie Auldist. CD Tru Thoughts, na Amazon.



IR – Estou aqui para um alerta: façam uma marcação nas vossas agendas – na sexta feira
da semana que vem, dia 9, a grande e única Dee Dee Bridgewater actua no Estoril Jazz,
com o seu espectáculo de homengem a Billie Holiday. Outros pontos altos do Festival:
sábado dia 3 o quinteto do trompetista Wallace Roney, no Domingo dia 4 o Quarteto
de Charles Loyd e no Domingo 11 de Julho o quarteto da saxofonista e contrabaixista
Esperanza Spalding.



PROVAR – Existem bastantes restaurantes italianos em Lisboa, mas poucos como
o Bella Lisa, na Visconde de Valmor 65 A. O destaque vai para as massas frescas
(disponíveis ao jantar) e, em especial para o spaghetti com gambas e rúcula, para o
spaghetti vongole (com amêijoas) e para o tagliatelli com açafrão e gambas. Os risottos
– uma prova difícil para a generalidade dos restaurantes lisboetas – também sobrevivem
neste local. A salada caprese é uma entrada generosa que pode ser dividida, há um
belíssimo e fresco prosecco da casa que se recomenda. O restaurante tem zona de
fumadores, a sala é atraente e colorida q.b., o serviço é bom e vê-se que na cozinha
existe mão italiana. Ao almoço vale a pena ver as sugestões do dia, que também incluem
algumas especialidades pouco usuais como involtini de peixe. Reservas pelo tel. 217 979
026.



ARCO DA VELHA – Depois de afirmar querer cobrar portagens nas SCUTs o governo
apresentou um plano para isentar de portagens 46 concelhos – gostava de perceber que
percentagem isto representa nas receitas iniciais previstas.



BACK TO BASICS – «O homem que vê os dois lados de uma questão é um homem
que não vê absolutamente nada» - Oscar Wilde



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mfalcao@gmail.com
www.aesquinadorio.blogs.sapo.pt

junho 28, 2010

(publicado no Jornal de Negócios de 25 de Junho)

MEMÓRIA - Há uns anos, em 1995, António Guterres venceu as eleições legislativas baseado num programa de promessas de mais apoios sociais – como o rendimento mínimo – e de tornar gratuito o que tinha um custo para os utilizadores – como alguns troços  de estrada, vias rápidas, e, anos mais tarde, a promessa de eterna gratuidade das SCUT. Criou-se a ilusão de que os direitos aumentavam e existiriam sempre, enquanto diminuiriam os deveres de cada um – uma dolorosa mentira, como hoje já se sabe. Tudo isto custava muito dinheiro ao Estado e o défice, que já existia, começou a funcionar numa espiral sempre crescente. É certo que uma das facturas pesadas que estamos a pagar teve a ver com o grande aumento da massa salarial da administração pública decidido por Cavaco Silva nos anos 90 – em 2005, num artigo publicado no «Expresso», Miguel Cadilhe acusava Cavaco de ser pai do "monstro" do défice precisamente devido a esses aumentos. O que é certo é que sucessivos Governos fizeram crescer o peso do Estado muito para além do razoável. As promessas eleitorais, sabemos agora, foram sempre pagas à custa do aumento da carga fiscal. Quem votou na ampliação do Estado Social e da utilização gratuita de recursos é também culpado da situação em que estamos e de estarmos a pagar mais impostos directos e indirectos.


A coisa não fica por aqui: temos uma Administração Pública pesada, pouco eficiente, um sistema educativo que está perto do caos, um sistema judicial que não funciona nem garante justiça em prazos razoáveis, e um sistema de saúde com problemas crescentes. Perdemos indústrias, perdemos quase totalmente a agricultura, perdemos muita da pesca – se, por cada dez rotundas feitas no país nos últimos 20 anos, existisse uma nova traineira com possibilidades de pescar na nossa zona económica exclusiva, não teríamos ficado de costas voltadas para o mar, sobretudo não teríamos ficado com uma frota pesqueira cada vez mais pequena e menos competitiva. Temos tido muito maus Governos. Temos esbanjado sem que se vejam bons resultados. Gastámos muito para além do que devíamos, recusámos todas as evidências e no último ciclo eleitoral, no ano passado, repetiram-se as promessas que já se sabiam não poderiam ser cumpridas. Não deixa de ser irónico que o PS esteja agora a retirar o que deu irresponsavelmente há 15 anos. E o pior é o que ainda está para vir.


 


APOIOS - A carreira política de Ricardo Rodrigues é curiosa. Foi secretário regional no Governo dos Açores presidido pelo socialista Carlos César, demitiu-se na sequência da publicação de uma reportagem do Expresso e SIC sobre abuso sexual de menores. Na altura, em declarações ao «Público», Carlos César afirmou sobre Ricardo Rodrigues, de quem se confessou amigo:  "Estou convencido da sua inocência. É isso que ele me diz. Conheço-o bem, sei que é uma pessoa de bem.». A expressão é coincidente com a de Francisco Assis, no caso do roubo efectuado por Ricardo Rodrigues dos gravadores a jornalistas da revista «Sábado» que o entrevistavam. Só que aí há uma filmagem do furto e não há maneira de o visado reclamar inocência. Mas, aparentemente, sendo considerado «uma pessoa de bem» pode fazer o que lhe apetece em cargos públicos. No Parlamento tem tido um comportamento arrogante e foi um dos que contribuiu para a inutilidade prática do trabalho da Comissão de Inquérito ao caso PT/TVI. Gaba-se de ter boa ligação com José Sócrates, de ser ainda influente nos Açores e de ter muitos apoios no PS. Esta semana o Parlamento fez o inevitável e levantou-lhe a imunidade – mas o deputado optou por responder por escrito - podia mostrar coragem e ir de viva voz, mas prefere usar as prerrogativas parlamentares até ao limite do possível.


 


LER – Paul Harden foi durante anos director criativo da agência de publicidade Saatchi & Saatchi, na época áurea da empresa, autor de numerosas campanhas, como as que deram novo alento à British Airways e a do lançamento do jornal The Independent, entre outras. Paul Arden, que morreu em 2008, escreveu vários livros e um deles tornou-se num clássico - «It’s Not How Good You Are, It’s How Good You Want To Be». O livro criou fama de ser uma espécie de manual infalível para obter sucesso, baseado no processo criativo utilizado na publicidade. A Phaidon fez uma nova edição, graficamente muito cuidada, disponível nas livrarias Bulhosa.


 


VER – «And Then Again»  é uma exposição colectiva de artistas portugueses e ingleses que abriu esta semana e que é feita com o apoio do Royal College of Arts e o Centro Português de Serigrafia – a gravura como suporte da criação artística é o tema central da exposição, que tem curadoria de Ana Fonseca e Liz Collini e está no Pavilhão Preto do Museu da Cidade até 5 de Setembro. Há várias iniciativas paralelas e complementares, informações em www.andthenagain.net .


 


DESCOBRIR –A edição nº 100, de Julho, da revista britânica MOJO, tem a particularidade de ser editada por Tom Waits – que escolheu também as faixas do CD que a publicação oferece. É uma selecção de blues e de country absolutamente fantástica e só por isso vale a pena comprar esta edição da MOJO. De Hank Williams a Ray Charles, passando por Howlin’ Wolf, ali está tudo o que Tom Waits considera serem as suas influências – e uma delas é Harry Belafonte, presente no disco e numa magnífica e reveladora entrevista nesta edição.


 


OUVIR – Robert Wyatt, o vocalista dos Soft Machine, tem uma longa carreira a solo marcada por grandes canções, a maior parte da sua autoria, mas também com algumas versões como duas que estão neste disco – de «I’m A Believer» dos Monkees e de «Shipbuilding», que Elvis Costello escreveu para ele. Wyatt vive numa cadeira de rodas desde um acidente no início da década de 70 mas isso não o tem impedido de trabalhar em música. Este disco é uma compilação de alguns dos seus temas famosos, ironicamente chamada «His Greatest Misses», e foi inicialmente pensada por um fã japonês em 2004. A reedição permite redescobrir todo o encanto e energia das interpretações de Wyatt e da sua composição, como em «Sea Song» ou «Solar Flares». CD «His Greatest Misses», Robert Wyatt, edição Rykodisc, na Amazon.


 


PROVAR – É uma pena mas são raros os restaurantes de Hotel em Lisboa que conseguem ter uma vida própria sobretudo ao jantar – mesmo quando têm excelente localização. O novo Altis Avenida, nos Restauradores, tem no seu último andar um restaurante, com um belo terraço e uma belíssima vista, o Brassereie Gourmet Rossio, mas infelizmente se lá for jantar arrisca-se a estar sozinho, ou quase. Deixemos de lado o facto de o nome ser um pouco pomposo demais - há que reconhecer que a cozinha está bem entregue, melhor que o serviço de sala. Nas duas ocasiões em que lá fui gostei de tudo o que foi servido – amouse bouche de migas de bacalhau com broa, umas vieiras com puré de ervilhas como  entrada, um salmão com flor de sal e tomilho acompanhado de risotto do mar, e um bacalhau fresco com legumes ao vapor. No final os sorbet são imprevistos – maçã com poejo, melancia com gengibre e baunilha com cardamono. Confesso que das duas vezes não gostei tanto do serviço – um pouco pretensioso, a falar mais do que aquilo que é preciso, com algumas falhas graves – o insistir numa coisa que o cliente já disse não querer, o esquecer do frappé no vinho branco e ser preciso chamar a atenção para resolver a questão, e sobretudo, à noite, o inqualificável gesto de começar a colocar as mesas do pequeno almoço do dia seguinte enquanto há ainda clientes a jantar.. Resumo: se quiserem experimentar prefiram o almoço. Brasserie Gourmet Rossio, Hotel Altis Avenida, Telefone 210440000


 


 


ARCO DA VELHA – A EMEL quadriplicou os resultados líquidos em 2009. À custa de quê e de quem, Dr. António Costa? E o estacionamento em dupla fila, acabou?


 


BACK TO BASICS – Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas – Oscar Wilde

junho 22, 2010

E O PARLAMENTO?

(publicado no diário Metro de dia 22 de Junho)


 


Algumas pessoas acham que a Comissão de Inquérito Parlamentar ao caso PT/TVI não serviu para nada. Eu defendo exactamente o contrário: serviu, e muito. Serviu para provar o mau estado do sistema político e partidário português; serviu para provar o mau funcionamento do Parlamento; serviu para provar que uma comissão de inquérito pode ser manipulada; serviu para provar que deputados e partidos não olham a meios para atingir determinados fins. Em suma, serviu para mostrar que com deputados assim e um sistema destes o parlamento é uma farsa. E é justo dizer que também serviu para mostrar que as coisas não teriam de ser assim tão más se existissem mais cabeças livres, frontais e corajosas como a de Pacheco Pereira, o único deputado que se insurgiu de forma coerente contra os critérios estipulados por Mota Amaral com o evidente objectivo de abafar o caso, em conluio com o PS e perante a neutralidade do PSD.


Alguns arautos da democracia representativa ficam muito incomodados com a afirmação de que o Parlamento se está a tornar numa inutilidade – mas fariam melhor em olhar para os seus actos e perceber que os partidos, o método de funcionamento que impõem aos seus representantes, e os próprios deputados, são os principais causadores do descrédito parlamentar. Os números da abstenção eleitoral em Portugal falam por si – as pessoas já não acreditam na eficácia do sistema e colocam-se de lado e incidentes destes só agravam a situação.


Este Parlamento é inútil – é apenas cenário para acordos e negociatas partidárias, já deixou há muito de ser um fiscalizador das acções do Governo e um defensor dos eleitores – que é o que se espera da instituição parlamentar.


Este caso, por configurar um abuso de poder do executivo, era uma boa oportunidade para que o Parlamento exercesse uma actividade moralizadora e fiscalizadora. Que mostrasse independência face ao poder político e que averiguasse sem ceder a pressões. Infelizmente o que aconteceu foi o contrário disso mesmo. Muitos destes políticos que estão sentados em S. Bento e nos directórios partidários estão a dar cabo da função parlamentar e, pelo, caminho irão destruir a democracia.

QUERO LÁ SABER DO MUNDIAL - OS MISTÉRIOS

(Publicado no Record de dia 22 de Juno)


Confesso que sou um fã de policiais – mesmo aqueles que têm um bocadito de futebol  pelo meio, como os do Francisco José Viegas. Gosto de mistérios, de tentar adivinhar os culpados, de perceber a lógica das investigações. Pensando bem no assunto o futebol é um mundo de mistério – o próprio jogo é um mistério muitas vezes: porque é que uma equipa joga semanas a fio tão mal e, depois, de repente, dá uma cabazada ao adversário? Mistério!


Este Mundial, no caso português, está fértil em mistérios. Primeiro foi o Nani, que veio recambiado para Lisboa, com prazo de recuperação anunciado de uma semana, sem nunca se saber exactamente o que teve. A semana já lá vai e pouco se sabe mais do assunto – é certo que a vitória contra a Coreia faz esquecer muita coisa, mas lá que eu gostava de ver este mistério resolvido, gostava.


Outro mistério é o da lesão saltitante em parte incerta que atingiu Deco poucos dias depois de ter feito declarações que punham em causa Carlos Queiroz. O que eu sei é que primeiro a lesão era na anca direita, depois na anca esquerda e no fim parece que é na coxa. Não é preciso ser perito em anatomia para distinguir uma anca de uma coxa – e não estou a falar de bailarinas.


Feitas as contas a prestação da selecção até ao momento cifra-se em um empate, uma vitória e dois mistérios. Eu se fosse a Gilberto Madail encomendava aos Black Eyed Peas uma canção chamada «I’ve Got A Mistery»

junho 18, 2010

SERVIÇO PÚBLICO, ELEIÇÕES, LIBERDADE DE ESCOLHA

(Publicado dia 18 no Jornal de Negócios)


 


SERVIÇO PÚBLICO  –  O deputado do PSD Agostinho Branquinho veio esta semana reintroduzir o debate sobre o serviço público de televisão através de um artigo, no «Diário Económico», onde defendeu implicitamente a sua extinção. Citando alguns números, alguns dados e muito pouco benchmarking, fez algumas extrapolações, todas a partir do actual modelo existente.


Há um vício de forma em toda a argumentação de Agostinho Branquinho – ele parte do pressuposto de que a RTP faz Serviço Público e esse é o erro base. Na realidade, diz o deputado, «o cidadão português não ganha nada com a televisão pública que não possa obter num qualquer operador privado». Mas isso acontece exactamente porque a RTP cada vez se afasta mais do conceito actual, contemporâneo, de serviço público de televisão, nomeadamente dos modelos dos países onde a televisão privada é forte, como os casos da PBS norte-americana e de uma série de estações públicas europeias de países como a Holanda, a Dinamarca, a Alemanha, a Noruega e a Suécia. Convido a uma reflexão sobre estes modelos e a uma análise cuidada das suas realidades.


Para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, com um único canal nacional, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal único nacional não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, desporto incluído – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento. Existem diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos, como a «Rua Sésamo». Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. Não há razão que impeça que o serviço informativo seja contratado no exterior – há países onde isso acontece em canais de serviço público. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.


Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam ou não útil e necessário. O resto é uma questão de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado. Se é concessionado ou não é outra história e não é o mais importante.


Existe acessoriamente uma razão para a existência de um operador de serviço público: a dinamização da produção independente nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais.


Questão final, cuja responsabilidade é dos políticos: garantir que um operador de serviço público possa ser independente do poder político, com um caderno de encargos rigoroso (cujo levantamento aliás existe), fiscalizado de forma técnica e regulado de forma independente. Se os políticos não conseguirem replicar este modelo, que existe em vários países, então o melhor é demitirem-se de serem políticos.


 


POLÍTICA - Para existir liberdade de voto tem que existir liberdade de escolha. Para existir liberdade de escolha têm que existir vários candidatos. Utilizar o argumento de que não devem surgir mais candidaturas, por exemplo à Presidência da República, para que não se prejudique a reeleição de Cavaco ou as possibilidades de Alegre, é o princípio do fim da democracia – ou seja aquilo em que os partidos e muitos políticos esforçadamente andam a tentar fazer. Mão amiga fez-me chegar à memória este dado: nas eleições presidenciais francesas de 2007 existiam na primeira volta 12 candidatos, e em 2002 eram 15. Liberdade de escolha é isto – ter várias propostas, ouvir vários discursos, ter por onde escolher. De qualquer modo, à segunda volta passam sempre apenas dois candidatos e é entre eles que se decide. O que me aborrece muito é a ideia de que basta existir uma primeira volta e com quanto menos candidatos melhor. O que me anima é poder ter uma campanha onde, por exemplo, se discuta o que deve ou não mudar no nosso sistema político-partidário para que o país possa funcionar melhor e sair da crise. Utópico? Serão o voto e a escolha uma utopia?


 


MUNDIAL - Estava a ouvir Carlos Queiroz no final do jogo com a Costa do Marfim e, de repente, olhando para o seu sorriso naquelas circunstâncias, achei que ele e Sócrates são gémeos no discurso: Mau resultado? – Nada disso. Problemas? - Nenhuns, ânimo que conseguiremos. Críticas? - Devem ser influências de manobras do estrangeiro. Dificuldades? - De todo. Mudanças? - Nenhumas. Erros? – Disparate. Este é o discurso da cegueira – já se viu onde levou nas finanças nacionais, vamos a ver o resultado no Mundial. No futebol ganha quem marca golos. Ainda não percebi bem como se chama o jogo que a selecção anda a fazer.


 


LER – Nick Hornby tem uma carreira literária a contar histórias feitas no universo do rock e do pop. Este «Juliet, Naked», recentemente publicado e já traduzido aliás para português, é talvez o seu melhor livro. A história é deliciosa e conta como um mediano músico norte-americano, Tucker Crowe, se tornou num, fenómeno de culto a partir do seu desaparecimento da cena musical a meio de uma digressão, sem que nenhuma novidade a seu respeito surja durante 20 anos. Deste ponto de partida começa uma descrição das relações entre as pessoas que têm gostos comuns – no caso a música do desaparecido Tucker. A publicação de uma gravação inédita, mas de qualidade discutível, provoca uma série de reacções entre os seus fiéis e sobretudo mostra como os nossos ídolos só ganham a dimensão que projectamos a partir das fantasias que elaboramos sobre eles. Incidentalmente, uma das teorias entre os fanáticos do músico dizia que Tucker viveria isolado numa garagem em Portugal – mas episódios à parte o livro vale pela construção de personagens, pela exploração dos mecanismos de formação do gosto, e pela forma como as obsessões nos afastam da realidade. Este é o livro de Hornby de que mais gostei. «Juliet, Naked», edição de bolso Penguin, na Amazon, cerca de 10 euros. Se puderem leiam o original, em inglês, vale a pena.


 


OUVIR –  A capa do disco é uma paródia aos westerns e o conteúdo é surpreendente – tanto que se transformou num clássico pouco tempo depois da sua edição original, em 1957. «Way Out West», de Sonny Rollins, resiste de forma impecável aos 53 anos de vida que já tem. Destaque para o clássico «I’m An Old Cowhand» , para a versão de «Solitude», um original de Duke Ellington, para um «Wagon Wheels» perfeitamente cinematográfico e para o tema título, do próprio Sonny Rollins, «Way Out West». Esta nova edição da excelente série Original Jazz Classics da Universal tem remasterização digital e inclui ainda versões até aqui inéditas de três dos temas do álbum original.


 


PROVAR – A Bica do Sapato fez 11 anos esta semana e renovou a esplanada, que agora conta com um bar – muito bom para fins de tarde -  tem mais sombra e está mais protegida do vento. Além disso  introduziu novidades na lista de verão, como um novo menu de almoço onde se destacam um delicioso carpaccio de carapauzinhos marinados, um hamburguer de frango do campo e farófias como sobremesa. O menu almoço custa 21 euros e inclui vinho a copo. No resto da lista também há boas novidades, algumas a valer uma experiência. Reservas pelo telefone  218 810 320.


 


BACK TO BASICS – A prudência inscrita no livro da covardia tem o nome de senso comum – Oscar Wilde


 

junho 15, 2010

ESTOU FARTO!

(Publicado no diário Metro de dia 15)




Esta semana enchi as medidas. Estou farto de uma actividade política que é baseada na mentira, no engano, na dissimulação, estou farto de um Parlamento que é  uma câmara de horrores.


Estou farto de equilibrismos políticos em nome do mal menor. Estou até aos cabelos com comissões de inquérito parlamentares que são uma fantochada, uma pedrada mais na credibilidade dos deputados e do Parlamento. Estou farto destes consensos em nome da salvação nacional, que começam em Belém, passam pelo Rato e pala Lapa e terminam em S. Bento, com toda a gente muito interessada em garantir protecções recíprocas. Estou farto de um Parlamento que protege Ricardo Rodrigues um deputado filmado no acto de roubar.


Estou farto de figuras como Mota Amaral, um dos poucos líderes regionais derrotado sem apelo nem agravo em eleições, um dos exemplos em como se pode fazer uma carreira cheia de ineficiências mas muitos equilibrismo. Estou saturado de manobras de bastidores e de corredores que subvertem a ordem lógica das coisas.


Estou farto destes partidos, do funcionamento do sistema, do desprezo pelos eleitores, do cinismo como linha política e da falta de princípios como ideologia. Estou farto de ver os líderes eleitos darem o dito por não dito, estou farto de promessas eleitorais não cumpridas. Estou farto do aumento de impostos, dos abusos do fisco, do laxismo geral do sistema, da ineficácia da justiça e do despesismo do Governo.


Estou farto de diagnósticos que dizem que a situação é insustentável mas que depois não tomam medidas, nem acções. Estou farto dos partidos que dizem que o Primeiro Ministro é incompetente mas que depois não apresentam moções de censura e no Parlamento fazem o que podem para garantir que a coisa continue a piorar até que a podridão lhes dê  jeito.


Estou farto de votar no mal menor, de candidaturas que não avançam para não beliscar as do costume, estou farto de ter a minha liberdade de voto limitada pela ausência de candidatos, estou farto do politicamente correcto, estou farto de Bruxelas e estou farto do sistema partidário que temos – uma coisa arcaica cujo maior feito é conseguir um contínuo aumento da abstenção.


 

junho 14, 2010

SOBRE O FADO E A UNESCO

(publicado no Jornal de Negócios de 11 de Junho)


 


FADO – Na semana passada a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, por unanimidade, a candidatura do Fado a património imaterial da Humanidade, que será depois formalizada junto da Unesco. Foi feito um grande foguetório à volta deste assunto e não percebo bem porquê – que a candidatura tenha sido aprovada era de esperar, que ela tenha algum efeito prático é outra coisa, mas isso só o tempo o dirá, e cheio de boa vontade vou esperar que sim. Vale a pena dizer, no entanto, que um outro género musical com uma identidade própria parecida com a do Fado, o Tango argentino, tentou também a classificação junto da Unesco e foi repelido. Espero, sinceramente, que o destino do Fado seja diferente. Mas este sentimento de unidade nacional – que é sempre uma coisa que me irrita um bocadinho – não nos deve impedir de fazer o balanço de um episódio particularmente desagradável desta candidatura. Falo do filme «Fados», realizado por Carlos Saura, e que, a certa altura, um bizarro vereador do pelouro da Cultura que passou por Lisboa, de nome José Amaral Lopes, resolveu apoiar com um milhão de euros. Outras entidades públicas, pressionadas, diga-se, participaram também cegamente no financiamento, que apresentou um orçamento total de cerca de quatro milhões de euros. Toda a argumentação para o apoio da Câmara e do Estado ao projecto teve como base a grande importância que ele teria para a acima citada candidatura do Fado no âmbito da Unesco – que só agora vai acontecer, já ninguém se lembra do filme, que foi um flop total. Na altura escrevi, aqui mesmo neste jornal, que o financiamento do filme era um disparate e que os argumentos utilizados eram um engano terrível e caríssimo. Volto ao assunto para que as coisas não caiam no esquecimento. «Fados», diziam os seus apoiantes, teria uma grande carreira nacional e internacional e seria premiado pelo mundo inteiro, numa extraordinária operação de marketing da candidatura. Resultado? - 34.151 espectadores em Portugal, o que deu 141.181 euros de receita de bilheteira (números do Instituto do Cinema), uma pífia carreira internacional em meia dúzia de mercados não influentes, arrasos diversos da crítica, e só em Espanha (terra do realizador Carlos Saura), conseguiu um prémio, menor, relativo à banda sonora. O «enriquecimento da projecção internacional do Fado» como dizia o PSD Amaral Lopes, «em boa hora apoiado», como disse o PS António Costa, ficou-se por uma operação sem resultados. «Quem não conhece a história do fado sairá certamente decepcionado deste filme» - escreveu um crítico brasileiro, depois de, por cá, muitas pessoas terem chamado a atenção para as inexactidões que este pseudo-documentário exibia. Mas no fim, fica uma pergunta a que eu acho que alguém, na autarquia, devia responder: não teria sido mais rentável produzir, com o mesmo milhão, uma boa série documental para televisão? Ou, esse milhão não teria sido melhor empregue a criar a Film Commission Lisboa, que faz falta, tarda, e, essa sim, podia ajudar à nossa imagem internacional, fado incluído? Com a falta de financiamentos que existe na área da cultura e criatividade faz impressão ver como esta candidatura do Fado serviu para atirar à rua um milhão de euros da Autarquia em nome do apoio saloio a Carlos Saura. Para terminar: por acaso ele realizou um idêntico mau filme sobre o «Tango» (foi aliás daí que a ideia foi copiada) e o resultado na Unesco para a música de Buenos Aires já se conhece.


 


VER – Já que os poderes dominantes acabaram há uns anos com a Lisboa Photo, para vermos o trabalho de comissariado do português Sérgio Mah na área da fotografia, restam-nos duas alternativas: ou ir a Madrid, cidade que rapidamente o acolheu na PhotoEspaña, ou aproveitar o facto de o Museu Berardo, no CCB, volta e meia nos proporcionar algumas destas exposições que ele trabalhou para o evento madrileno. Na semana passada foi inaugurada «German Faces», do norte-americano Colin Schorr, um dos mais interessantes nomes da fotografia contemporânea, que se tem especializado no retrato, muitas vezes encenado em situações de evocação histórica. Tal como nas suas séries «Novos Soldados» ou «Florestas e Campos», Schorr regressa com este trabalho às evocações históricas das marcas da guerra no nosso imaginário comum. Neste caso as imagens são todas de habitantes de uma pequena cidade do sul da Alemanha, Schwabisch Gmund, retratos fortes, marcantes, quase intemporais, a assinalar apenas uma espécie de recordação da ameaça permanente do passado. As imagens de Schorr ficam no Museu Berardo até 15 de Agosto e são uma das mais interessantes exposições de fotografia apresentada este ano em Portugal.


 


LER – Os diários de viagem são um género muito peculiar e quando os seus autores são personagens fascinantes a coisa torna-se ainda mais interessante. «Diário da Bicicleta», de David Byrne, o fundador e mentor dos Talking Heads, entra nesta categoria. O que se passa é que desde o início dos anos 80 David Byrne decidiu que a bicicleta seria o seu principal meio de transporte quando está numa cidade – de maneira que, quer em Nova Iorque, onde vive, quer nas cidades por onda vai fazendo actuações, transporta sempre consigo um velocípede. Vai daí começou a escrever um livro sobre a forma como, pedalando, via metrópoles como Londres, Buenos Aires, Berlim, Istambul, Sydney e uma série de cidades norte-americanas, para além de NY, num delicioso passeio pelas suas memórias de infância e de vida. Pelo meio destes passeios fala não só do que vê, mas também do que sente, seja com a música local (de que faz muito engraçadas notas) até à arquitectura. Tudo isto é completado por fotografias escolhidas por Byrne e por muitos desenhos feitos por ele próprio em observações bem irónicas e certeiras. São 400 páginas que correm num ápice, numa bela edição da Quetzal.


 


OUVIR – O pianista Brad Mehldau gosta de arriscar - e a verdade é que misturar jazz com drum and bass pode parecer uma ideia perigosa. Acontece que o resultado é muito bom.  As primeiras experiências nesta direcção tinham sido feitas com o álbum «Largo» (de 2002), onde se ensaiou a primeira exploração neste sentido – podia ter corrido mal, mas não; e agora, em «Highway Rider» o resultado é ainda melhor, com a curiosidade de, às sonoridades mais contemporâneas, se juntar uma orquestra completa ao longo deste duplo CD, que é talvez o trabalho mais conseguido da carreira de Mehldau – conseguido e polémico já que as críticas oscilam entre o elogio e o arraso. Eu coloco-me do lado do elogio. Em «Highway Rider» está o trio habitual (Mehldau no piano, Jeff Ballard na bateria e Larry Grenadier no baixo), a que se juntaram o génio de Matt Chamberlain na percussão e o talento do saxofonista Joshua Redman (que aqui volta a demonstrar a sua técnica e sensibilidade). É certo que as culpas do que correu bem devem ser assacadas em partes iguais ao bom senso de Mehldau e do produtor que o tem acompanhado nestas explorações, Don Brion.  Ouçam o dueto entre Mehldau e Redman em «Old West», a forma como Redman intervém em «The Falcon Will Fly Again» ou o envolvente «Into The City» e deixem-se levar por este magnífico disco.


 


PROVAR – Um dia destes, por mero acaso, tive a sorte de descobrir um verde branco absolutamente fantástico, feito na região de Baião, e chamado «Cazas Novas» - fresco, vivo, verdadeiramente ideal para o fim de tarde em dias quentes, ou para acompanhar saladas, peixe e marisco. Por favor deixem-se de preconceitos e não comecem a torcer o nariz -  entre os vinhos verdes estão alguns dos nossos melhores e mais raros brancos. Este «Cazas Novas» é produzido na Quinta de Guimarães, em Santa Maria do Zêzere. Não é fácil de encontrar mas se vos passar por perto agarrem-no, que vale a pena.


 


BACK TO BASICS – Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem – Padre António Vieira


 

A INÚTIL EMEL

(publicado no Metro de 8 de Junho)


 


 


 António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, prometeu nas eleições que iria acabar com o caos nas Avenidas Novas, prometeu eliminar os carros estacionados em segunda e terceira fila – mas a realidade é que a circulação naquela zona está cada vez pior. O mais estranho de tudo é que a EMEL, que ali perto da sua sede é hiper-activa, se entretém mais a multar e bloquear carros bem estacionados, mas eventualmente fora do limite de tempo, do que a exercer uma atitude efectiva de fiscalização e prevenção do estacionamento em dupla (e às vezes terceira) fila. Pior – nalguns casos são até viaturas da EMEL que estão a empatar o trânsito em segunda fila ou mesmo em cima de passadeiras de peões. Há uns tempos enviei à empresa, e ao mail público do Presidente da Câmara, uma fotografia tirada à porta do meu escritório a uma carrinha da EMEL que ostensivamente bloqueava toda a passadeira ali existente. A resposta que os serviços me deram foi que a carrinha estava em serviço. Ora quantas vezes é que a EMEL bloqueia e multa carros de pessoas que estão em serviço? Como pode a empresa usar uma justificação destas para parar numa passagem de peões num cruzamento movimentado e depois fazer uma fantochada de uma campanha a dizer que protege a segurança dos peões. A EMEL é um serviço de multas – não é um serviço de regulação de estacionamento e este é o grande problema. Quem vive e trabalha em Lisboa sabe que os exemplos de prevaricação da EMEL sobre os contribuintes lisboetas são enormes. A EMEL é um abuso de poder, uma instituição de legalidade duvidosa na sua actuação, que segue a máxima dos cobradores de impostos – roubar onde é fácil, fechar os olhos ao que é difícil.


Caro Presidente da Cãmra, Dr. António Costa, deixe-me usar uma velha expressão popular no mês das Festas da Cidade: o Senhor não é homem não é nada se não mudar esta situação. Feche a empresa, castigue quem manda nela, faça qualquer coisa mas resolva o problema. A EMEL assim só contribui para diminuir a qualidade de vida dos lisboetas e fazer-lhes aumentar a tensão arterial.


 


 

junho 01, 2010

O ENGANO EUROPEU

(Publicado no diário Metro de 1 de Junho)


 


Durante anos gerações de políticos tentaram vender-nos a ideia de que a Europa seria a solução para todos os nossos males e o remédio para todas as nossas dificuldades. Como agora dramaticamente se verifica a Europa está no centro da origem da crise e o entendimento político foi mandado às urtigas em nome das necessidades económicas.


O grande papel da União Europeia nos últimos anos foi o de incentivar a destruição dos sistemas de produção nos países mais pequenos e periféricos, comprando-os com subsídios e estimulando a sua transformação em mercados consumidores de produtos importados, nomeadamente para as exportações alemãs e francesas. No caso português os investimentos da União Europeia foram no sentido de destruir culturas agrícolas, de limitar a actividade pesqueira, de construir infra-estruturas que facilitassem a logística do consumo. O resultado está à vista – temos a maior zona económica exclusiva da Europa em termos de orla marítima mas deixámos que as limitações que nos foram sendo impostas destruíssem a nossa frota pesqueira. A ideia Europeia crescei nestes paradoxos.


No caso português, verificamos hoje que aumentámos em muito a nossa dependência do exterior, passámos a importar o impensável – até alhos, por exemplo. As exportações foram caindo, as indústrias foram encerrando, os campos largados ao abandono. A nossa maior exportação tem sido mandar para cargos internacionais ex-primeiros ministros. É pouco.


A Europa politicamente correcta fomentou a ideia de que tudo seria sempre fácil, que os subsídios viriam sempre – criou a ilusão de que este admirável mundo novo iria durar sempre – o despesismo público, o crédito infindável, o gasto descontrolado. De certa forma a ideia do socialismo – a criação de riqueza para todos e a sua distribuição – confundiu-se com o ideal europeu. Parecia que havia dinheiro a rodos, para sempre. Mas afinal acabou por se descobrir a verdade mais antiga da História: só se deve gastar aquilo que se tem, só gera receitas o que se produz.

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 25 de Maio)

CONFUSÃO – Numa só semana várias entidades de três ministérios desdisseram-se e contradisseram-se umas às outras. No Ministério da Economia a confusão foi causada pelo esgotamento do crédito às PME’s, que provocou posições e informações desencontradas; nas Finanças a introdução das taxas agravadas de impostos provocou uma autêntica sucessão de comunicados e despachos que criaram a maior das confusões; nas Obras Públicas as declarações sobre aumentos de preços de transportes, suspensões de planos e manutenção de planos tornaram-se a regra. Economia, Finanças  e Obras Públicas não são ministérios menores – a confusão que lá reina é sinal do caos instalado no Governo.


 


FITAS - Já se percebeu que neste Governo há dois novos Ministros que são exemplos perfeitos de erros de casting: António Mendonça nas Obras Públicas e Helena André no Trabalho e Solidariedade Social. Isto, claro, para não falar de um outro erro de casting antigo que se tem vindo a acentuar – o próprio Sócrates cujo comportamento ao longo da crise foi revelador da sua instabilidade psicológica e dos seus piores defeitos – a teimosia e a dificuldade em perceber a realidade que o cerca.


 


NEXT - A corrida pela sucessão de Sócrates no PS já começou. A dúvida está em saber se vai ser uma prova de 3000 metros obstáculos ou uma meia maratona – seja como for os treinos já começaram. A agravar a instabilidade do partido do Governo está também o caso das presidenciais, com uma assinalável falta de entusiasmo no apoio à candidatura de Manuel Alegre, um osso difícil de engolir – em qualquer caso é daqueles assuntos que vai gerar crise interna pela certa.  Vamos ver o que se passa no regresso de Sócrates da Venezuela e dos conselhos que deve ter recebido do seu amigo Hugo Chávez.


 


EURO - Uma das melhores contribuições para a compreensão daquilo que se passa foi dada pela entrevista do economista João Ferreira do Amaral ao «Jornal de Negócios» na qual explicou porque é que q nossa economia tem sido destruída pelo Euro. João Ferreira do Amaral, recorde-se, ex-conselheiro para assuntos económicos do Presidente da República Jorge Sampaio, foi das poucas vozes que em tempo devido se manifestou a chamar a atenção precisamente para os perigos para a economia portuguesa que poderiam advir da adesão á moeda única. No meio do entusiasmo europeísta não foi ouvido – e muito do que dizia acabou por se confirmar.


 


 LER – O Brasil está a fazer uma gigantesca operação de comunicação que utiliza os mais diversos recursos, não descurando nem um pouco a qualidade dos meios escolhidos e a forma como se pretende mostrar a imagem de um país criativo, moderno, divertido e evoluído. Depois de ter tido um especial numa edição recente da prestigiada revista «Monocle», eis que o Brasil patrocina a edição de Junho da «Wallpaper», uma das publicações de referência em matéria de lifestyle. Para o efeito a redacção da «Wallpaper» deslocou-se por umas semanas para São Paulo e o resultado é um número em que o Brasil expõe o que tem de melhor nos negócios, na arte, no design, na arquitectura, na moda, na comida e, claro, nas praias e na paisagem. O título de capa diz tudo: «Born In Brazil – A Warm Welcome from the most exciting country on earth». A isto chama-se uma operação especial de comunicação bem conseguida.


 


OUVIR – Joe Pass foi um dos grandes guitarristas da história do Jazz e fez fama tocando ao lado de nomes como Ella Fitzgerald, Count Basie, Duke Ellington e Dizzy Gillespie, entre outros. Mas foi com o seu segundo álbum a solo, «Virtuoso», editado originalmente em 1974, que ele ganhou verdadeiramente estatuto e reconhecimento. É uma gravação extraordinária, com versões para guitarra eléctrica do próprio Joe Pass para onze temas clássicos do jazz , desde «Night And Day» de Cole Porter até «The Song Is You» de Jerome Kern, passando por outros como «Stella By Starlight», «How High The Moon» e «Round Midnight». O disco inclui ainda uma composição de Pass, «Blues For Alican». Joe Pass foi um dos reinventores da forma de tocar guitarra eléctrica no jazz, ao mesmo tempo explorando a melodia e o ritmo, usando com imaginação as possibilidades da guitarra eléctrica e com uma técnica extraordinária – daí «Virtuoso» ser mesmo um título ideal para o disco. Através da etiqueta Concord, a Universal Music promoveu a reedição do álbum, num CD remasterizado a 24 bits na magnífica série Original Jazz Classics. Em poucas ocasiões terão oportunidade de sentir a emoção única que uma guitarra é capaz de proporcionar como neste disco.


 


PROVAR – Quando li que o Chefe Vitor Sobral tinha a supervisão da cafetaria da nova livraria Babel, perto da Praça de Espanha, fiquei com curiosidade. A livraria fica no nº 148 da Avenida António Augusto de Aguiar, mesmo em frente ao Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian cujos jardins são a vista principal da zona da cafetaria. A carta felizmente é baseada em refeições leves – saladas, sanduíches, e alguns petiscos variados. Experimentei uma bela sanduíche aberta de maçã, queijo da ilha gratinado, presunto, rúcula e hortelã e dei-me por muito satisfeito. Poderia ter escolhido uma salada de bacalhau fumado, mas fica para a próxima. E, nos petiscos, houve uma empada que também me chamou a atenção. Há sumos, vinho a copo e cerveja. É na realidade uma cafetaria, com a vantagem de ter mobiliário simpático e confortável, bom serviço e uma ementa bem construída e despretensiosa. Ainda por cima a preços decentes.


 


DESCOBRIR – Uma boa maneira de nos mantermos a par do que vai surgindo de novo no mundo da música é seguir o site MyWay em www.myway.clix.pt . Aqui pode escolher entre os géneros que preferir ou pode simplesmente deixar-se levar pelas várias pré-selecções existentes – desde as novidades até às várias estações webradio dedicadas a géneros musicais específicos e até artistas. Além disso há uma área de notícias e outras dedicadas aos próximos concertos que se realizam em Portugal. É de navegação fácil e tem um catálogo de música muito alargado.


 


CITAÇÃO - «Ricardo Rodrigues foi um ladrão. Roubou objectos que não lhe pertenciam. O resto é conversa» - Miguel Esteves Cardoso, no «Público»


 


BACK TO BASICS –   «Enforcamos os criminosos vulgares e nomeamos os maiores para cargos públicos» - Ésopo

maio 28, 2010

MUNDO TV

(Publicado no diário Metro do dia 25)


 


A SEMANA DA SIC


Vai uma guerra aberta nos canais de televisão: a SIC conseguiu o seu melhor resultado semanal do ano, com um share de 25% nestes últimos oito dias, colada à TVI que teve 26,6% e a com uma confortável vantagem sobre a RTP, que teve 22,7%, apesar dos resultados conseguidos com a final da Liga dos Campeões, no sábado. O cabo, no mesmo período, atingiu 20,7% - um quinto das audiências.


A SIC, em época de fim do enredo das novelas, teve bons resultados ao longo de toda a semana e bons números na sua programação de Domingo, graças à Gala dos Globos de Ouro. O resultado é que a SIC venceu destacada a guerra deste Domingo com 30,6%.  Nem o regresso de Marcelo Rebelo de Sousa à TVI,  embora tenha tido um excelente resultado para as circunstâncias, foi suficiente para segurar a liderança nesse dia.


Se olharmos para o top tem dos programas mais vistos da semana, quatro são da TVI (um deles o Jornal da Noite de Domingo com a análise de Marcelo Rebelo de Sousa), quatro são das SIC e apenas dois da RTP – a final da Liga dos Campeões e um Especial Informação com uma entrevista a José Sócrates em pleno período de anúncio de medidas de austeridade – nada de ficção produzida em Portugal entre os êxitos do Serviço Público – a menos, é claro, que consideremos José Sócrates um caso de ficção (mas isso é outra conversa).


No cabo também há mudanças – e esta semana a Fox ultrapassou mesmo o canal infantil Panda, e conquistou pela primeira vez  a segunda posição dos canais mais vistos em sistemas de cabo e satélite, atrás da SIC Notícias.


O mais interessante é analisar o que se passa nos lares que acedem à televisão via um dos operadores de cabo, e que são a maioria nas grandes cidades, na zona litoral e no Algarve :  já só cerca de 2/3 vêem os canais abertos – RTP 1 e 2, SIC e TVI e, quase sempre, a ordem de preferências é TVI, seguida da SIC, da RTP 1, da SIC Notícias e só depois da RTP 2.


A televisão continua a ser um bem muito consumido: a média de tempo de consumo de televisão dos telespectadores portugueses esta semana foi de 3 horas, 59 minutos e 41 segundos.