março 30, 2010

CULTURA: SUBSÍDIO OU INCENTIVO?

(Publicado no diário Metro de 30 de Março)


Com o Forum Europeu de Industrias Culturais a decorrer em Barcelona ainda é mais actual pensar nestes temas...


 


Quando se começa a falar dos dinheiros da Cultura existe uma tendência para a conversa se entornar rapidamente. Extremam-se posições entre os que reivindicam maior orçamento, maiores subsídios e os que propõem sobretudo medidas de estímulo ao desenvolvimento de várias actividades.


Temos à mão um bom exemplo com a produção de telenovelas e séries portuguesas. Os mais cépticos perguntarão  logo – o que é que isso tem a ver com cultura? Tem muito mais do que aquilo que se pensa.


Há uns anos atrás, antes de existir em Portugal a produção regular e constante de novelas e séries para televisão que hoje existe, o trabalho dos actores era bem mais precário e as oportunidades bem mais reduzidas. Desde que esta produção se desenvolveu a maior parte dos grandes nomes do nosso teatro passou a encarar a televisão como um boa forma de encontrar uma estabilidade que o Teatro e os subsídios não podem proporcionar.


Por outro lado uma nova geração de actores estreou-se na televisão e alguns já deram depois o salto para o cinema e, nalguns casos, para o Teatro. De uma forma geral nos últimos dez anos desenvolveu-se o guionismo (a escrita de argumentos), uma série de profissões técnicas fundamentais para a produção artística (iluminação, sonorização, realização) e tudo isto foi feito sem subsídios.


Recentes declarações da Ministra da Cultura parecem querer desvalorizar as actividades que movimentam mais dinheiro, mas que criam mais emprego e desenvolvem mais competências, como é o caso da televisão e da produção audiovisual no geral. Esta atitude perante o sector industrial das actividades da cultura e do entretenimento é a responsável  pelo miserabilismo de grande parte da política cultural do Estado ao longo dos últimos 20 anos.


Em vez de se pensar em fomentar a actividade e em criar mercado, centraram-se os esforços apenas nas formas de distribuição de subsídios e no aumento da participação do estado em várias actividades. Assim, já se sabe, não há dinheiro que chegue. E no fim não há quase nenhum efeito multiplicador. Melhor do que querer mais subsídios é por exemplo fomentar incentivos fiscais, a começar por uma nova Lei do mecenato. 

março 23, 2010

E O PAVILHÃO DE PORTUGAL?

(Publicado no diário Metro de dia 23 de Março)


Enquanto se lançam primeiras pedras de mais obras, como o novo Museu dos Coches, o  Pavilhão de Portugal, na Expo, lá continua vazio – é pena que um edifício feito para albergar exposições permaneça quase votado ao abandono, tornado um espaço de aluguer para eventos. O Museu Colecção Berardo, que podia ter ido para lá, acabou por ficar no CCB, onde aliás está a fazer bom trabalho. A colecção de Moda e design também podia ter ido para lá, mas acabou por ficar na Baixa, nas antigas instalações de um Banco. Quase todos os anos surgem em Lisboa notícias de ampliações ou obras de novos museus – desde o de Arte Contemporânea até um eventual museu da cidade no Terreiro do Paço. Estas obras de recuperação são caríssimas na generalidade dos casos e no entretanto ninguém se lembra de dar uma utilização condigna ao Pavilhão de Portugal. Com uma área de 2000 m2, com infra- estruturas raras em edifícios deste género, com uma pala enorme e impressionante  que  se tornou entretanto um emblema  de Lisboa, o Pavilhão de Portugal projectado por Siza Vieira, é um enorme elefante branco em que ninguém quer tocar.


A razão desta situação de abandono é meramente contabilística – quem ficar com o Pavilhão vai ter que arcar com o valor a que ele está considerado nas contas da Expo, e que não é pequeno – mas a verdade é  que há mais de dez anos vários governos e várias presidências da Câmara ainda não foram capazes de encontrar uma solução racional que permita a utilização deste belíssimo edifício para a finalidade – mostrar exposições – para o qual foi pensado e construído. A mim faz-me muita impressão que se projectem tantas obras e que ninguém se lembre de resolver esta questão – em Dezembro a Ministra da Cultura disse que o Pavilhão tinha um destino mas não disse qual e deixou entender que – estranhamente – não seria na área do seu Ministério. E entretanto lá continua desesperantemente vazio, a ser alugado ao dia como um salão de hotel. Este país não se percebe. 

março 22, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 19)

CORTES – Várias análises publicadas esta semana mostram que os principais cortes que o PEC realizou foram obtidos à custa das despesas sociais, muito mais do que à custa da diminuição do peso do aparelho de Estado. Traduzido por miúdos o Governo corta naquilo que se esperaria que os impostos e taxas que cada um paga garantissem, e não se aplica a racionalizar e a melhorar efectivamente o serviço que o Estado presta aos cidadãos. 

 


 


JUSTIÇA – Precisamente a este respeito o funcionamento da Justiça é um dos maiores problemas que temos. Infelizmente ainda esta semana se voltou a confirmar que o funcionamento da polícia é parte dos problemas no funcionamento da Justiça – sobretudo quando se percebe que em 2009 a polícia efectuou nove execuções e em 2010 já vai em mais quatro. Para um país que se gaba de ter sido dos primeiros a abolir a pena de morte, não está mal.  

 


 


CONGRESSO – De todo do Congresso do PSD retive a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, a tentar colocar os pés dos congressistas bem na terra – para o PSD conseguir um Governo estável tem que desenvolver uma estratégia de alianças, o que quer dizer ter as ideias bem assentes sobre o que quer fazer no Governo e com quem. É básico, mas não estava dito e fez bem ouvir alguém falar do assunto naquela ocasião. Quanto ao resto apenas me ocorre dizer, como um bom amigo me disse no dia seguinte, que o Congresso correu bem…ao PS. 

 


 


TELEVISÃO – Em vésperas da data prevista para a transição do sistema analógico actual para a televisão digital terrestre seria bom voltar a discutir qual o papel do Serviço Público na nova paisagem audiovisual, como se devem encarar nesse contexto as novas oportunidades abertas pelas tecnologias mais recentes, como criar condições para desenvolver a oferta e os modelos de negócio dos operadores privados de televisão, e como criar as bases para o desenvolvimento da indústria de produção audiovisual em língua portuguesa e em Portugal. O resto, nesta matéria, na nossa situação actual, é pura perca de tempo e de energias.


 

 


VER – Na Galeria Baginski inaugurou nesta quarta feira uma dupla exposição muito curiosa: novas pinturas de Carlos Correia e manipulações de fotografias por Délio Jasse. «Ensaio» é o título da exposição de Carlos Correia, um dos mais originais pintores portugueses contemporâneos, com obra pública iniciada há pouco mais de uma década e com presença já assinalável numa série de colecções importantes. As novas obras exploram nomeadamente as memórias de imagens que marcam a vida quotidiana. Na sala ao lado o angolano Délio Jasse apresenta «Schengen», uma evocação da sua condição de imigrante e da vigilância que as sociedades europeias exercem sobre os imigrantes. Jasse reflecte sobre a sua condição através da manipulação e intervenção sobre a imagem fotográfica.  Até 15 de Maio, Rua Capitão Leitão 51/53, a Marvila. 

 


 


LER – Joaquim Manuel Magalhães é dos poetas portugueses que mais gosto. A sua produção é escassa e o autor submete-a a periódicas revisões. Este ano foi publicado pela Relógio d’Água «Um Toldo Vermelho», uma antologia que o próprio autor descreve desta forma numa discreta nota final: «Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior». O autor quer assim como que rever a forma como expõe a sua obra, preferindo não incluir aqueles textos que por alguma razão deixou de considerar poemas publicáveis. O que gosto mais em Joaquim Manuel Magalhães é a forma como escreve, o ritmo que imprime, o modo como escolhe palavras e a narrativa que desenha, Tem uma forma de escrita quase gráfica, permanentemente sugerindo imagens. E, como explora os limites do português e tem um olhar totalmente contemporâneo, consegue escrever poesia sobre um tema tão improvável como as máquinas de um ginásio. 


 

 


OUVIR – Neste tempo em que muito se fala da necessidade de cada pessoa ou empresa se reinventar permanentemente é muito curioso observar como os Tindersticks passaram eles próprios por esse processo. Este «Falling Down A Moutain», o oitavo disco do grupo, que há cinco anos não publicava originais, mostra uma banda num momento alto de criatividade, a revisitar ambientes de jazz, influências dos rhythm’n’blues, de Tom Waits e até de Johhny Cash, para além das baladas que são a imagem de marca de Stuart Staples. Vale a pena destacar um dueto de Mary Margaret O’Hara com Staples, «Peanuts», um diálogo bem humorado e irresistível. Destaque ainda para «Piano Music», a faixa instrumental que encerra o disco, num ambiente que faz o contraponto perfeito à faixa de abertura, que é a muito jazzy e quase hipnótica «Falling Down A Moutain», que dá o nome ao álbum. CD 4AD. 

 


 


PETISCAR – Muitos dos estabelecimentos comerciais que hoje em dia se intitulam gourmet shops são na realidade pouco mais do que as antigas mercearias e charcutarias finas – como as mercearias antigas da Baixa (como a Jerónimo Martins) ou as charcutarias Diplomata. Confesso que muitas vezes gosto de acabar as minhas tardes com um pequeno passeio num destes estabelecimentos, a procurar inspiração para o jantar ou à procura de alguma novidade para o paladar – salvaguardadas as devidas distâncias não é, do ponto de vista sensorial,  um exercício muito diferente de percorrer as estantes de uma livraria ou os escaparates de uma discoteca. Bem perto do Chiado, junto ao Largo Barão de Quintela, a meio da Rua das Flores, fica a Mercearia Doubles  - um local despretencioso, mas com um razoável garrafeira, uma boa secção de frutas e legumes frescos, óptimas compotas, queijos e enchidos. Mesmo ali ao pé fica a nova padaria Quinoa, na Rua do Alecrim 54 – onde pode comprar desde bagels até diversos pães pouco usuais e de boa qualidade. O local também serve refeições leves e oferece uma boa selecção de chás, cafés e chocolates. Entre as duas pode encontrar forma de levar para casa o suficiente para petiscar como deve ser. 

 


 


BACK TO BASICS – É o Governo que deve trabalhar para os cidadãos e não os cidadãos que devem trabalhar para alimentar os governantes – Gordon Beck 

 

 

março 16, 2010

VALE A PENA TER SERVIÇO PÚBLICO DE TV?

(Publicado no diario Metro de 16 de Março)


 


Nos últimos dias a questão do financiamento da RTP veio de novo à baila, no meio do Congresso do PSD . Esta é uma conversa recorrente e muitas vezes aparece associada à ideia de que valeria a pena privatizar a RTP – assim acabava-se com a despesa do financiamento e ao mesmo tempo fazia-se um encaixe. Quando estas ideias aparecem em cima da mesa geralmente evita-se discutir o que é, ou o que deve ser, o Serviço Público de Rádio e de Televisão e se faz sentido existir. Em que termos se justifica o Serviço Público de TV? No universo das transformações tecnológicas, como deve ele evoluir? Há oito anos, em 2002, foi constituído um Grupo de Trabalho, alargado, a que pertenci, que estudou estas questões e que no final elaborou um relatório que, no essencial, se mantém actual.

A iniciativa da constituição deste Grupo de Trabalho foi dos então Ministros Nuno Morais Sarmento e Manuela Ferreira Leite e, em termos gerais, o relatório elaborado foi tido em conta em várias áreas no processo que levou à reestruturação da RTP. Infelizmente de então para cá regrediu-se e muitas das recomendações, na área da programação, foram sendo progressivamente deixadas no esquecimento.

A existência de um Serviço Público de televisão é essencial para a defesa da língua e cultura de um país, nomeadamente no domínio do audiovisual e do multimédia e sobretudo no contexto europeu. Mas a verdade é que o Serviço Público não deveria concorrer com os privados, nem em programação nem na venda de espaço publicitário, e faz sentido limitar a sua oferta de conteúdos para não interferir com o mercado. Idealmente o Serviço Público deveria desempenhar um papel regulador e dinamizador, fomentando a produção nacional.

Bem sei que não é isto que se passa e que a RTP frequentemente excede as noções mais amplas do que deveria ser a sua missão – mas a resolução deste problemas não passa por extinguir o Serviço Público de Rádio e Televisão. Passa por o adequar aos tempos actuais, por evitar que ele enfraqueça os operadores privados e por conseguir maior racionalidade no seu funcionamento.

A DEMAGOGIA REINANTE

(Publicado no Jornal de Negócios de 12 de Março)


 


FUTURO – Esta semana ficámos a saber que a governação recente hipotecou o país por mais uma década. Feitas as contas haverá mais uma geração desprezada em Portugal, que irá certamente engrossar o rol dos novos emigrantes. Em qualquer caso existe um pano de fundo que ainda é pouco assumido, porque em geral não interessa a uma classe política desfasada da realidade e que vive de fazer promessas: o mundo mudou e não vai voltar a ser como era antes. Acabaram os tempos de facilidades e as projecções super optimistas.


 

 TRUQUE – Não sei se já repararam mas é a segunda vez que Sócrates usa o mesmo truque: ganha eleições com um programa de promessas e depois subverte tudo o que anunciou e faz ao contrário. Em Setembro passado prometeu obras, manifestou-se optimista, subestimou os anúncios da gravidade da situação. Agora, faz tudo ao contrário, aumenta a despesa fiscal dos contribuintes, reconhece que tem que cortar investimento e concede que a situação é difícil. Ou seja, diz agora o que a oposição dizia em Setembro. Ganhar eleições a fugir à realidade é a nova forma de demagogia e está a matar a democracia – em políticos destes não se pode acreditar.

 

PEC - O caminho mais fácil é sempre aumentar a receita – vender anéis, cortar dedos, esfolar o parceiro, cortar investimentos. O que é curioso é que um Estado tão bom a captar mais receitas à custa da máquina fiscal não consegue um plano coerente de diminuição efectiva da despesa pública, nem consegue um plano eficaz que fomente o crescimento da economia. Assim Portugal continuará adiado, com os contribuintes efectivos a pagarem cada vez mais ao Estado e com as empresas e o país a perderem competitividade.

 

CONGRESSO – Neste fim de semana o PSD reúne-se num Congresso cujo desfecho, nesta altura, é imprevisível, tão imprevisível como uma situação política onde todos falam de mudanças, onde ninguém quer ouvir falar em novas eleições e onde a produção de tabus variados se tornou na indústria em maior expansão em todo o país. O PSD precisa de ter um candidato a Primeiro Ministro, precisa de apresentar medidas exequíveis e concretas e precisa de clarificar o seu posicionamento. Sem estas três coisas não conseguirá assumir-se como alternativa. A ver vamos como corre este primeiro round antes das directas. Neste momento a dúvida maior é saber o que poderá acontecer de inesperado – porque o guião inicial de certeza já não vai ser seguido à letra.

 

CULTURA – Na edição de Março da revista «L+Arte» a Professora Raquel Henriques da Silva escreve um exemplar artigo intitulado «Contra o Novo Museu dos Coches», onde explica como também na área da política cultural há obras públicas desnecessárias e perdulárias. Recomendo o artigo,  e aqui deixo um excerto: «O orçamento previsto para o novo Museu dos Coches é de 36 milhões de euros (…) É uma verba considerável, cuja utilização na edificação de um museu, que não é nem uma necessidade nem uma prioridade, é uma dolorosa provocação às imensas carências do sector (…) Em vez de obra nova (muito novo-rica e solidamente defendida pelo poderoso lobby dos arquitectos), os recursos deviam ser canalizados para a requalificação, para o cumprimento de necessidades urgentes que há muito estão inventariadas e para se pensar os museus do País…»

 

FICA – Há duas semanas questionava aqui em que situação estaria o Fundo de Investimento no Cinema e Audiovisual (FICA). Hoje sabemos que está efectivamente parado, sem entidade gestora, com dívidas acumuladas e a provocar já situações preocupantes numa série de produtoras. A muito anunciada política do investimento no audiovisual resumiu-se afinal a mais uma trapalhada criada pelo Ministério da Cultura.

 

LER – O escritor e arquitecto paisagista Júlio Moreira lançou mãos à obra e fez uma nova edição da sua «Grande Viagem dos Homens através do tempo e do espaço», desta vez com ilustrações de Andreas Stocklein e chancela da Guimarães. Usualmente apresentado como um livro para adolescentes, esta história breve da evolução da raça humana é na verdade um livro bem útil nestes tempos conturbados – obriga-nos a revisitar conceitos, princípios e factos que muitas vezes esquecemos no dia-a-dia, desde as origens do universo até às origens das lutas pelo poder. É um daqueles livros que apetece ter à mão para, de vez em quando, relembrar como as coisas são de facto.

 

OUVIR – O pianista Bernardo Sassetti recriou o trio que tinha feito há uma dúzia de anos com o baterista Alexandre Frazão e o contrabaixista Carlos Costa e o resultado, o CD «Motion», agora editado, é surpreendente. Destaco em primeiro lugar a contenção dos músicos, o seu sentido de improvisação e a forma como conseguem criar um clima de tensão sonora, arrebatador do princípio ao fim. O disco passa por originais feitos por Sassetti para bandas sonoras e revisita temas pop e clássicos, mas no fundo assume-se como um objecto sonoro concebido para estimular o pensamento e a imaginação. CD Clean Feed

 

NAVEGAR – Interessa-se  por «branding», pela discussão em torno do valor das marcas? Por tendências? Então experimente visitar www.branding.blogs.sapo.pt e descubra sugestões de leituras, resumos de análises e conferências e ainda comentários sobre tendências.

 

PROVAR –  As flames são um petisco originário da Alsácia que podem ser brevemente descritas como uma espécie de pizza, só que mais finas, com menos gordura, e rectangulares em vez de redondas. A massa é diferente, mais leve, e os ingredientes são variados. Há pouco tempo abriu na Rua do Alecrim o restaurante Storik, que introduz as flames em Lisboa. O ambiente é simpático, as salas são agradáveis e as flames são engraçadas – no caso provei uma de salmão, anchovas e alcaparras que estava bastante boa e uma de maçã e morcela que era apenas curiosa. Embora diligente o serviço é lento e um bocadinho descoordenado – demorado até se a escolha recair fora do mais trivial. A lista das cervejas disponíveis é boa e inclui a grande Grolsch – não estamos felizmente   no mundo da ditadura da monomarca que as cervejeiras nacionais impuseram a alguma restauração. O Storik desdobra-se em bar fora das horas de almoço e jantar ( e há noites temáticas com poesia, humor e música) e ainda um bom local para lanchar scones ou bolas de Berlim. Rua do Alecrim nº30, telf 216 040 375, www.storik.pt .

 

BACK TO BASICS – O verdadeiro poder não se revela por atitudes duras e frequentes mas sim por falar verdade e agir em função disso – Honoré de Balzac

março 10, 2010

A ECONOMIA DA CULTURA

(PUBLICADO NO DIÁRIO METRO DE DIA 9)



Um recente estudo, de Augusto Mateus, sobre a área da cultura e entretenimento mostra que hoje em dia o peso económico das indústrias criativas já é maior, por exemplo, que o dos têxteis.


A Ministra da Cultura, numas declarações a propósito do estudo, meteu os pés pelas mãos e embrulhou-se toda para explicar, meio engasgada, que o estudo abrangia um universo muito lato que ía até ao que designou por música pimba, que não é mais que a música popular.


Na realidade a vantagem deste estudo é que partiu para a análise do sector sem ideias feitas e com espírito aberto, adoptando aliás o enquadramento do sector que é  utilizado em todo o mundo e que abrange, além das áreas habituais, a industria discográfica, os espectáculos, o audiovisual (cinema e televisão), os jogos de computador ou a publicidade, por exemplo.


Analisando as coisas nesta perspectiva, que é a que corresponde à realidade, cedo se torna evidente que o que interessa para desenvolver este sector é canalizar para lá mais investimentos em vez de a preocupação estar centrada apenas em subsídios pontuais. Ou seja, do ponto de vista de criação de postos de trabalho é importante fomentar a actividade nestas áreas, nomeadamente no audiovisual e no digital, assim como criar esquemas financeiros que fomentem, à semelhança de outros países, a compra de obras a jovens artistas plásticos.


Desculpem por puxar a brasa ao audiovisual – uma língua e uma cultura que não estejam  presentes de forma consistente na produção para digital, televisão e cinema estão condenadas ao progressivo desaparecimento no mundo actual. Por isso, o Fundo de Investimento para o Cinema e o Audiovisual, lançado há uns anos, era uma ideia importante. Infelizmente, soube-se esta semana, o Governo e o Ministério da Cultura não cumpriram os seus compromissos e estão a provocar a paralisia de empresas de produção, o despedimento de técnicos e a asfixia do sector. Ou seja, na prática o Governo faz o contrário daquilo que o estudo que encomendou aconselha. 


março 08, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Março)

PSD – Olho para a discussão entre os candidatos a líderes do PSD e fico um pouco perplexo. Eu, como muitos outros cidadãos sem partido, gostaria que houvesse um debate mais político e menos aparelhístico. Citando Marcelo Rebelo de Sousa, a última coisa que desejo é que a discussão entre os candidatos à liderança do PSD se transforme num concurso de tempos de aplausos no próximo congresso social-democrata.  Nestes dias, nestes debates, vejo surgirem muitas propostas, a maior parte delas sem serem acompanhadas de uma estratégia que permita concretizá-las, para além da vontade pessoal de cada um dos candidatos. Sinceramente gostaria que tivéssemos um governo reformista, liberal, capaz de começar a apagar o peso do Estado, capaz de defender as pessoas, capaz de combater o despesismo e capaz de fazer investimentos produtivos. Já percebemos que o caminho do Governo do PS não é este. Eu espero que possa ser encontrado um rumo para que num futuro próximo surjam condições políticas para criar uma nova forma de governar – com mais respeito pelas opiniões dos outros, com respeito pelas vozes críticas, com menos escândalos e trapalhadas.  

 


PS - Nas últimas semanas uma série de figuras do PS têm-se desdobrado em defesa de José Sócrates e o próprio tem vindo a terreiro defender-se do que entende serem ataques pessoais. Estas atitudes subvertem completamente o que está em jogo – o que se tem passado, numa série de casos recentes, não é uma perseguição pessoal a José Sócrates, é um ataque político a atitudes ligadas ao exercício do cargo de Primeiro Ministro. Na realidade, o carácter do Primeiro-Ministro é porto em causa não por outros, mas por ele próprio. 

 


ÉTICA – O teatro pode ser um bom palco para reflectir sobre a ética– foi o que pensei quando estava a assistir a «Édipo», no Teatro Nacional D. Maria II. Achou louvável que o Teatro Nacional leve à cena grandes textos clássicos e acho ainda mais louvável que escolha um encenador como Jorge Silva Melo, que fez um belo trabalho. Mas acho muito descabido que o Director de um Teatro Nacional aceite colocar-se no papel principal das peças que produz. Esta confusão de papéis – entre director artístico e actor - gera situações equívocas. Independentemente do fraco  resultado artístico da actuação de Diogo Infante como Édipo, a questão está na mistura de funções. Infelizmente estas coisas discutem-se pouco e existe uma espécie de pudor em dizer - «o Rei vai nu». Mas, neste caso, vai mesmo. Fica se na duvida se isto é programação em causa própria e, se o for, talvez lhe ficasse melhor fazer o papel de Narciso


Salva-se a encenação, a banda sonora e os pastores, sobretudo Cândido Ferreira. 

 


LER – A edição nº 31 da revista «Monocle», publicada em Março, tem dois especiais que são dignos de nota. O primeiro é sobre a cidade do Rio de Janeiro, considerada como uma cidade em alta depois do anúncio dos Jogos Olímpicos. O artigo é completo, tem dicas de locais, de hotéis e restaurantes a bares e lojas. Fala do renascimento urbano do Rio e cita o exemplo de uma instituição chamada Rio Filmes, que financia filmes que têm a cidade como palco – e que trabalha em estreita relação com a Film Commission local – um bom exemplo de trabalho nesta área de produção de cinema. O segundo especial é um suplemento de 36 páginas inteiramente dedicado a Espanha. Está editado com enorme cuidado, é objectivamente feito em parceria com as autoridades espanholas do turismo e quem o vir nem acredita que existe uma grave crise aqui no país vizinho. Editorialmente está focado em temas com a indústria, a energia, a cultura, turismo, moda e design, entre outros, sempre numa perspectiva de mostrar o que é novo e não apenas o que já é conhecido. Em termos das pessoas focadas nota-se o cuidado em mostrar talentos emergentes na área do cinema e da moda e não os nomes já consagrados. A imagem que resulta é a de uma sociedade criativa, viva e dinâmica, a responder às dificuldades. É um suplemento exemplar daquilo que pode ser a divulgação da imagem contemporânea de um país. Outro interessante artigo relata a guerra política que vai em torno dos grandes grupos de media turcos – muito interessante se tivermos em conta a nossa história recente por estas bandas. 

 


VER - «Sem Rede», a exposição retrospectiva de Joana Vasconcelos que esta semana inaugurou no Museu Berardo é verdadeiramente irresistível. A artista é polémica e eu descrevo assim o seu trabalho: excessivo, intensamente físico, delirante e fantástico. A montagem aproveita os grandes espaço do CCB e obras de referência da artista como «A Noiva» (o lustre feito de tampaxes), «Burka», «Contaminação» ou «Cinderela» são aqui novos motivos de surpresa. A exposição vai estar até 18 de Maio e garantidamente constituirá um êxito de público – o que é muito bom.


 

OUVIR – As coisas simples são frequentemente as melhores. «Home», um disco do norte-americano Peter Broderick datado de 2008, é o exemplo de como se podem fazer excelentes canções com parcos recursos – guitarras, alguma percussão, alguns instrumentos electrónicos, uma harmónica e um vibrafone aqui e ali. Arranjos elegantes, letras intimistas e inteligentes, uma voz quente. E aqui está um grande disco.
 

 


PETISCAR – Durante anos habituei-me a encontrar no restaurante «O Manel» do Parque Mayer um refúgio seguro a preço razoável. Por lá tive encontros de trabalho, almoços e jantares com amigos, sempre com serviço cuidado e boa qualidade. Quando o Parque Mayer fechou, no final do ano passado fiquei sem saber o que tinha acontecido a Júlio Calçada, o filho e herdeiro do fundador,  e à sua equipa.  Mudaram-se para o restaurante do Clube Municipal de Ténis de Monsanto, a Grelha Real. A lista do velho «O Manel» mantém-se e esta semana lá fui experimentar a primeira lampreia da época – arroz saborosíssimo, no ponto, belos bocados do bicho perfeitamente cozinhados. Enquanto a lampreia durar por lá estará às quartas; o cozido mantém-se às quintas e todos os dias há bom peixe fresco. E Júlio Calçada continua a saber o que é tratar bem os seus clientes. Está encerrado ao Domingo à noite e toda a Segunda-feira e nos outros dias serve almoços e jantares. Tem parque privativo, fica a dez minutos de carro das Amoreiras e o telefone é 213 646 302. 

 


 


BACK TO BASICS – Os partidos têm de ter vergonha e ter cuidado com quem colocam nos postos cimeiros - José Luis Saldanha Sanches  


             

 


 

fevereiro 27, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 26 de Fevereiro)

 ONG – Admiro as pessoas que se entregam a causas e que têm a capacidade de fazer, em Organizações Não Governamentais, aquilo que os Governos se mostram incapazes, insensíveis ou desinteressados em fazer. Mostram uma capacidade de mobilização , uma capacidade de atingir objectivos e de alcançar resultados que fazem inveja a muitos gestores. É uma forma de intervenção cívica que vive do princípio de juntar vontades, juntar esforços e evitar a tradicional armadilha da política e políticos tradicionais – dividir para reinar. Espanto-me por isso que Fernando Nobre surja agora no papel de político, forçosamente a provocar divisões entre quem o tem apoiado na AMI, e a meter-se numa luta de facções no mínimo exótica. Resta esperar que no fim desta aventura não seja a AMI a prejudicada – o que é um risco considerável. Ganhar notoriedade no bem comum para depois a gastar no poder pessoal é no mínimo uma coisa desagradável. 



EXEMPLO – Onde é que a arrogância do Governo e a inoperância da Câmara Municipal de Lisboa se cruzam? - Na devastação criada frente à Torre de Belém, que viu a sua área envolvente destruída pelas festividades da assinatura do Tratado de Lisboa. Uma operação de imagem de Sócrates devastou um dos emblemas da cidade e do país e a Câmara lá tem ficado parada a ver o lamaçal adensar-se, nada fazendo em quase três meses para resolver a situação. É mais ou menos desde essa altura que anda a destruir o Jardim do Princípe Real. 


ESTUDO – Na semana passada o semanário «Expresso» publicou um bom estudo elaborado pela empresa de consultoria de Augusto Mateus sobre o peso económico das indústrias culturais e criativas na economia portuguesa. Muito resumidamente conclui-se que este sector já vale mais que os têxteis e quase tanto como o sector automóvel. O bom senso mandaria que os amáveis políticos, que nos governam ou querem governar, se dedicassem a estudar o tema e a apresentar políticas. Mas quase nada surge, muitas vezes o que aparece é meramente rotineiro e bastante ultrapassado, pouco passando de vagas declarações de princípio. Há pouco estudo de bons exemplos internacionais, há pouco conhecimento de tendências, há ignorância na aplicação de vantagens fiscais, continua a preferir-se subsidiar a incentivar. E, na realidade, as indústrias culturais e criativas fortes, para além das vantagens económicas, são um factor de atractividade, de competitividade e de imagem – e menos sujeitas a deslocalizações que as quimondas desta vida. 


FICA – O Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual foi uma das grandes bandeiras do primeiro Governo de Sócrates na área da Cultura. A ideia em si era boa – mas precisava de dinheiro. Ora nos últimos tempos o FICA tem-se deparado com falta de fundos – o Estado não pagou durante muito tempo (quase dois anos), depois utilizou verbas do CREN para pagar o que devia – solução que levanta dúvidas – e na sequência dos atrasos do Estado claro que as televisões também não entregaram a fatia que lhes competia. Em resumo, o FICA está numa crise de financiamento e de gestão, algumas produtoras já estão a sofrer com o assunto e nalguns casos já se verificam despedimentos. Sobre este assunto – precisamente na área das indústrias criativas e da inovação, que tem o Governo a dizer? 

 


LER – A revista norte-americana «Wired» foi considerada a «revista da década» pela «Adweek», uma publicação especializada na análise de media. A edição de Fevereiro inclui um artigo muito interessante, que podem também ser consultados na edição on line. O artigo mais interessante diz respeito ao novo conceito de revolução industrial no século XXI – uma revolução que muda os paradigmas das grandes instalações industriais para a criatividade individual, desenvolvida em poucos espaços e muitas vezes apenas com recursos próprios. Dá que pensar e vale a pena ler.- «The New Industrial Revolution», por Chris Anderson. 

 


VER – A programação do Museu Berardo, em Lisboa, no CCB, continua verdadeiramente exemplar. Desde o início do mês já inauguraram três exposições dignas de nota e, para a semana, na segunda-feira, arranca uma retrospectiva da obra de Joana Vasconcelos – mas isso ficará para outra ocasião. Das exposições que já estão a funcionar destaco «Body Without Limits» de Judith Barry, surpreendente de criatividade e originalidade na forma de utilizar o vídeo e com uma montagem excepcional – um projecto que teve curadoria de Luis Serpa. Quase tão entusiasmante como a exposição de Judith Barry é a retrospectiva de Robert Longo, um artista norte-americano muito influenciado pela pop (fez vários videoclips para os New Order e REM por exemplo), e que mais tarde se dedicou à escultura e ao desenho. Finalmente, num registo diferente, as fotografias de viagem de Annemarie Schwarzenbach mostram um olhar de época sobre destinos exóticos para uma suíça – entre os quais Portugal. Mas o que interessa reter é a dinâmica da programação, a agitação do local com públicos de várias idades, a variedade de propostas e o empenho em divulgar artistas e as suas obras.  


OUVIR – Depois de um interregno de oito anos Peter Gabriel regressa com um surpreendente disco, onde  reinventa o conceito de versões – reconstrói os originais e com a ajuda de John Metcalfe cria novos arranjos, recorre a instrumentações pouco usuais, alterações de ritmos e harmonias e, finalmente, arrisca interpretações vocais que propositadamente se afastam do que podia ser esperado. Aqui estão canções, de David Bowie, Arcade Five, Magnetic Fields, Regina Spektor, Neil Young mas também de Paul Simon, Talking Heads e Lou Reed, entre outros, numa curiosa recolha de preferências do próprio Gabriel – que nas interessantes notas de capa do disco confessa que o processo de escrita de uma canção foi o que o atraiu para a música. Sublinha que escolheu algumas das suas canções favoritas e focou-se no lado da interpretação e não na criação original. O resultado é um exemplo de criatividade aplicada à reinvenção, muitas vezes mais complexa do que o processo criativo original. «Scratch My Back» é o título do projecto, a que se seguirá um outro disco, com os autores das canções aqui utilizadas a recriarem canções de Gabriel que eles escolherão – e o novo trabalho continua o título deste - «And I’ll Scratch Yours». (CD Real World). 


BACK TO BASICS – Quanto maior o poder, maiores as responsabilidades e maiores as consequências - juiz americano, ao condenar a prisão um alto funcionário por mentir em inquéritos oficiais.


 


fevereiro 22, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de Fevereiro)

 


PSD – Os primeiros momentos do processo de eleição do novo líder do PSD não são muito entusiasmantes. A começar pelas trocas de acusações entre as equipas de alguns candidatos e a terminar nos nomes que integram algumas dessas equipas e apoios, nota-se que na realidade a mudança não está muito presente. Na realidade se a coisa se resumir a estilo pessoal teme-se que a discussão afinal acabe por se fulanizar.

 

PS – Há poucos dias vi anunciada uma manifestação de apoio a Sócrates para sábado, na Alameda, em Lisboa. Depois deixei de ouvir falar no assunto e percebi que nesse dia ele tem um encontro com militantes do PS no norte. Fico na dúvida se a anunciada manifestação era partida de Carnaval ou se foi mesmo o PS que se transformou numa paródia.

 

BANCA- Razão tinha Vitor Constâncio quando disse que as nomeações para o BCE são mais fruto de habilidade diplomática do que de competência. Não deixa de ser irónico que, depois de tudo o que se passou em Portugal com a supervisão da Banca, na directa dependência de Constâncio, nomeadamente no BPN e no BPP, ele acabe agora por ficar exactamente com a responsabilidade da supervisão bancária no Banco Central Europeu.

 

LIVROS – Olho para o top dos dez livros mais vendidos nas lojas Bertrand na última semana e tenho uma surpresa: «Mudar», de Pedro Passos Coelho, está em terceiro lugar de vendas, logo atrás de «As Regras de Moscovo» de Daniel Silva e «Amor» do inenarrável Paulo Coelho. Atrás do livro do candidato à liderança do PSD estão obras de José Rodrigues dos Santos, Isabel Allende, Dan Brown e Margarida Rebelo Pinto. Que me recorde é a primeira vez que um livro programático de um político português regista este nível de vendas – cerca de 7500 exemplares até agora, com a terceira edição a chegar às livrarias. É curioso aliás folhear «Mudar» - nota-se um cuidado formal, de escrita, de ritmo de escrita, de ligação entre temas, que é invulgar em edições deste género. Na apresentação do livro, Pedro Passos Coelho contou que tinha frequentes conversas com o responsável pela editora, a Quetzal, Francisco José Viegas. Estou em crer que Francisco José Viegas desempenhou de facto o papel de editor, no sentido anglo-saxónico do termo, e assim o resultado final reflectirá as suas sugestões do ponto de vista da forma – pelos vistos com bom resultado.

 

FILMES – Fim de semana de Carnaval: o filme mais visto foi «Dia dos Namorados», que entre 11 e 14 de Fevereiro totalizou 44.285 espectadores. Em segundo lugar está «Avatar» com 43.717 espectadores e, claro, «A Princesa e o Sapo» com 39.366. O primeiro filme português a aparecer foi «A Bela e o Paparazzo» que teve neste período 10.787 espectadores, mas que já acumulou 72.829 espectadores, desde que estreou a 28 de Janeiro – bom resultado até quando comprado com os 115.420 espectadores de «Invictus», que estreou na mesma altura. Outros números – Avatar já ultrapassou o milhão de espectadores em Portugal desde que foi estreado dia 17 de Dezembro, nas nuvens vai com 168.979. De entre os filmes em exibição o segundo mais visto em termos globais é «Sherlock Holmes» que totaliza 394.465 entradas desde 24 de Dezembro.

 

OUVIR – Tom Waits acabou de fazer 60 anos e este seu disco gravado ao vivo em vários concertos na Europa e Estados Unidos, percorre as várias fases dos seus quase 40 anos de carreira – desde os blues ao folk e ao rock, passando pelo experimentalismo, sempre com a sua voz única a servir de catalisador. O grande teste de um disco gravado ao vivo é saber se, depois de o ouvir, nos lamentamos de não ter assistido ao concerto. Pois foi isso mesmo que me aconteceu: fiquei roído de inveja de não ter estado em nenhum dos concertos de Waits. O álbum é duplo, o segundo CD tem 35 minutos de belas histórias contadas despretenciosamente pelo próprio Waits – Tom’s Tales. Também isto é surpreendente. «Glitter And Doom Live», Tom Waits, 

 

VER – «Suspender o Ar» é a nova exposição de Cristina Ataíde, que estará na Casa da Cerca, em Almada, até 16 de Maio. Reinterpretando vários marcos da sua obra, Cristina Ataíde explora ao mesmo tempo algumas curiosas direcções nos seus novos desenhos (que são talvez a parte mais interessante da mostra), muito sensoriais, com uma carga física intensa, mesmo que sendo aparentemente despojados de corpos e da presença humana.

 

PETISCAR – Mesmo ao lado do velho e conservador Belcanto, perto do S.Carlos, fica agora O Largo, um conceito que ultrapassa o mero restaurante e aposta em ser um local para convívio, para ver e ser visto e para poder proporcionar um bom entretenimento, no sentido lúdico e também gastronómico. Há alguns anos que em Lisboa não abria um local assim, com este objectivo assumido de ser o local onde vale mesmo a pena ir. Na cozinha de O Largo está Miguel Castro e Silva (do Bull & Bear no Porto e, mais recentemente, do De Castro em Lisboa). O projecto de arquitectura é de Miguel Câncio Martins, um português com actividade em toda a Europa – o seu desafio era grande já que o restaurante fica nos antigos claustros do Convento da Igreja dos Mártires. O resultado é excelente em estilo, sobriedade e conforto. Por detrás de tudo está Frederico Collares Pereira que investiu no projecto e o dirige. O Largo consegue ser um daqueles locais onde a boa cozinha se conjuga com um serviço exemplar e com um ambiente «trendy». Miguel Castro e Silva fugiu um pouco aos pratos que foram o seu ex-libris e tem propostas como robalo marinado com ervas frescas, as vieiras em cama de endívias e ovos Averuga e as lulas salteadas com camarão beurre blanc. Nas entradas e sobremesas há muitas escolhas – que incluem, nas primeiras, uma honesta terrina de foie gras e , nas segundas, gelados Santini e uma criação do chef, mousse de chocolate a zero graus com creme de avelã. Resta dizer que há uma zona de fumadores e que ao almoço existe um menu executivo que começa nos 18 euros. Mas é à noite que as coisas se animam mesmo - e aí conte com uns 50 euros por pessoa sem demasiadas extravagâncias. Rua Serpa Pinto 10A, Lisboa. 213 477 225.

 

BACK TO BASICS – Diz-se que o poder corrompe, mas é talvez mais adequado dizer que o poder atrai os corruptíveis – David Brin

fevereiro 18, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Fevereiro)

UMA LINHA POLÍTICA – O caso das tentativas de ingerência do Governo, do PS e, em especial, de José Sócrates na comunicação não são um caso de violação de segredo de justiça – desde que Sócrates, em pleno Congresso do PS, apontou a dedo os alvos a abater em matéria de informação criou uma linha política. A actuação do PS e do seu Governo nesta matéria tem-se limitado a seguir essa linha com o objectivo de, sempre que possível, combater a divergência, castigar quem critica, querer assegurar a manipulação e uniformizar a informação. Os relatos sobre estas malfeitorias são numerosos e oriundos de várias procedências. 

 


 


O PS E A IMPRENSA – O Partido Socialista gosta de ostentar galardões em prol da liberdade de imprensa e Mário Soares veio em defesa de Sócrates agitar os seus pergaminhos. Como a luta pela liberdade de expressão e de imprensa não era um monopólio do PS antes de 1974, proponho que se analisem as coisas ocorridas depois do 25 de Abril. Ao ataque de que a «República», próxima do PS, foi alvo em 1975, por forças à sua esquerda, respondeu o PS, anos depois, com o encerramento de todo o grupo «Século», pela mão de Manuel Alegre, então com funções governativas nessa área – foi o primeiro caso em que o PS resolveu acabar com um voz que lhe era incómoda, não se preocupando nem com o desemprego causado, nem com o facto de estar a encerrar um dos grupos de imprensa com maior História em Portugal. A geração de dirigentes do PS dessa época passou, depois, a querer criar jornais que seguissem a cartilha do partido, sempre com assinalável dose de insucesso comercial – desde o extinto «Portugal Hoje» que se esboroou a combater Eanes, até à aventura com Robert Maxwell, que acabou no meio da trapalhada do caso Emaudio. Ao longo destes vários casos o PS sacrificou jornalistas, fez e desfez empresas e postos de trabalho. A geração pós-Soares, esta que agora está no poder, é muito mais profissional e eficaz nesta matéria: usa-se o aparelho de Estado, a pressão, a influência e se necessário for o dinheiro para alcançar os objectivos.  

 


 


O CASO TVI – Um dia ainda alguém há-de fazer a história da entrada da Prisa em Portugal, da forma como a vida lhe foi facilitada, das primeiras nomeações que fizeram (na Administração e na rádio, por exemplo) e dos apoios, dentro do actual PS, que tiveram em relação aos seus primeiros anos em Portugal, no início do primeiro Governo Sócrates e com um empurrão de Zapatero. Quem seguir a linha dos acontecimentos no sector dos media perceberá que o que se está a passar no país não pode ser discutido apenas à luz da justiça, mas sobretudo à luz da política. Na realidade a única coisa que todo o processo Face Oculta mostra é que uma investigação sobre corrupção se cruzou com uma conspiração política, que acabou por tocar o núcleo central do regime. 

 


 


ELEIÇÕES – Hoje em dia fica claro que o objectivo de uma sucessão de movimentações desencadeadas por figuras próximas de Sócrates no sector dos Media era condicionar a opinião pública num ciclo de sucessivos períodos eleitorais. Na realidade o que é politicamente relevante é que o núcleo duro de José Sócrates agiu em nome de um conceito absolutista de poder, através do qual se habituou a mandar no país, e criou um plano que apenas abortou porque foi conhecido antes de finalizado. Mas, mesmo assim, acabou por atingir a maior parte dos seus objectivos, tal enunciados por Sócrates no Congresso do PS – mudou direcções no «Público» e na TVI. 

 


 


 


PERGUNTINHA – As figuras do PS que se insurgiram contra a inger~encia nos media, que vão fazer agora? 

 


 


 


LISBOA – António Costa, neste seu segundo mandato, está a ter a característica de andar razoavelmente ausente dos grandes problemas da cidade. Não se lhe vê nem a energia nem a vontade de tomar conta dos grandes dossiers que podem fazer Lisboa mudar, nem tão pouco a capacidade de evitar situações como a do Principe Real. Quem assiste às reuniões da Câmara dá conta do seu ar frequentemente enfadado. Na Assembleia Municipal tornou-se maioritariamente ausente – desde que foi reeleito já são em maior número as reuniões em que não esteve do que aquelas a que se dignou comparecer. E entretanto, vai sendo cada vez mais habitual o PS não conseguir ganhar votações na Assembleia Municipal, que esta semana recomendou à Câmara que não se envolvesse na Red Bull Air Race. 

 


 


LER – A edição de Fevereiro da «Monocle» é um número perfeito para viajantes. O tema de capa é a importância da hospitalidade na capacidade de atracção turística de países, cidades, linhas aéreas e hotéis – muito didáctico para a realidade nacional. Outros bons artigos – uma perspectiva diferente sobre o balanço do primeiro ano de Obama como Presidente, uma bela reportagem sobre a realidade do Nepal, um artigo sobre a aposta dos correios suíços na produção e distribuição de conteúdos como nova área de negócio, uma avaliação de alguns dos hotéis que vale a pena conhecer e, a terminar, um guia de Banguecoque e um portfolio sobre uma das fronteiras de Israel. 

 


 


OUVIR – Electro-folk-pop: sabem o que é? Se não sabem descubram o novo disco de Charlotte Gainsbourg, «IRM», que deve muito da sua eficácia à produção certeira e elegante de Beck. Mas a produção não faria nada sem as canções simples, intimistas e muitas vezes surpreendentes que são todas assinadas ou co-assinadas pelo próprio Beck Hansen. A minha dúvida é se hei-de considerar este o melhor disco de Beck dos últimos anos ou se, como me parece neste momento, se trata de um trabalho a quatro mãos em que Charlotte Gainsbourg serviu de inspiradora e veículo para nos trazer uma outra faceta desse génio às vezes meio desaparecido que é Beck. De qualquer das formas «IRM» é um disco absolutamente arrebatador, por vezes erótico, por vezes dramático, sempre com a sobrevivência e a busca da vida como pano de fundo. CD 

 


 


DESCOBRIR – Todos os espectadores de teatro têm agora à disposição uma eficaz agenda com indicações úteis sobre estreias, peças em cena, horários e preços. Vale a pena conferir em www.agendadeteatro.com . 

 

 


BACK TO BASICS – Se alguém diz a verdade, é certo que, mais cedo ou mais tarde, será descoberta – Oscar Wilde

fevereiro 10, 2010

Aquela Máquina

 (Publicado no jornal "Metro" de 9 de Fevereiro)



O novo tablet da Apple, o iPad, é mais do que uma novidade tecnológica para maluquinhos da internet – é um novo tipo de aparelho que abre uma nova área de desenvolvimento na indústria de conteúdos. Na realidade o iPad não é um computador  - é um centro de entretenimento móvel. Se quiserem uma comparação, o iPad está para o mundo actual como os rádios portáteis a transístores estiveram para o mundo do início dos anos 60.


Com o iPad pode transportar-se tudo para todo o lado, desde música e jogos a filmes, passando por livros, jornais e revistas, ou  pelo acesso ao email e a visualização de programas de televisão – para já não falar das estações de rádio que habitam a internet. O iPad – e outras máquinas semelhantes que inevitavelmente se lhe seguirão – vai de facto mudar a nossa forma de viver, de nos relacionarmos e de consumir conteúdos.


Quando o iPad estiver na sua idade madura, digamos daqui a uns dois anos, meados de 2012, a primeira geração que já cresceu num ambiente digital estará a sair das faculdades e a começar a trabalhar. Pare eles,  máquinas como o iPad serão tão familiares como as consolas portáteis de jogos e serão um acessório incontornável no dia-a-dia.


Isto coloca um enorme desafio ao nosso país: Portugal é subdesenvolvido em matéria de produção audiovisual e de conteúdos digitais. Isto quer dizer que, a menos que exista uma esforço sério de criar conteúdos audiovisuais de nova geração – jogos, aplicações, micro séries, revistas virtuais – os utilizadores portugueses destas máquinas terão pouca escolha de conteúdos nacionais. Ou seja, o português corre o risco de se extinguir no novo mundo digital.


Numa altura em que se discute muito a sobrevivência da nossa língua e a reforma ortográfica vale a pena dizer que tudo isso não servirá para nada se a língua não existir nas plataformas de conteúdos audiovisuais e digitais. Um país que não exista neste domínio será um país esquecido, uma cultura inexistente e uma língua morta.


 


fevereiro 08, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Fevereiro)

 


CEM DIAS – Desde há cem dias que o PS governa sem maioria absoluta e a convivência com o diálogo, o acordo e a busca de consenso não lhe está a ser nada fácil. Os relatos saídos das reuniões entre o Primeiro Ministro e os partidos descrevem a dificuldade em aceitar propostas diferentes, em reconhecer erros, em admitir críticas. O maior problema da situação política está nisto: o Governo quer impôr em vez de negociar, encara cada alteração como uma derrota ou recuo, e não consegue ver o País sem ser do alto do poder. Os malabarismos em torno dessa nova invenção que é o défice flutuante, que se inflaciona ao sabor do momento, para depois se dizer que desceu, é um dos exemplos maiores desse facto.

 

DENÚNCIA – Três dirigentes da bancada socialista da Assembleia da República anunciaram como principal proposta para combater a corrupção um projecto que pretende tornar públicos os rendimentos de todos os cidadãos. Um deles explicou numa rádio que a ideia era permitir que um vizinho achasse estranho que na casa ao lado existisse um Ferrari quando o seu dono tinha poucos rendimentos declarados – e que assim cada cidadão fosse um fiscal. Ou seja esse dirigente do PS acha salutar que cada um vigie o próximo e denuncie o que achar que foge à regra que o Estado impõe. A notícia foi manchete de um diário e a generalidade dos outros partidos parlamentares, da esquerda à direita, teve o bom senso de repudiar a ideia. A meio da tarde o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, veio dizer que enquanto ele dirigisse a bancada, esse projecto não veria a luz do dia. No fim, o episódio serviu apenas para mostrar o estado interno do PS, quer em ideias, quer em organização.

 

CONVERSAS - A pior coisa que pode acontecer a um Primeiro-Ministro é ter falta de bom senso e, seja qual fôr a versão apresentada, uma coisa é certa: existiram, em local público, alto e bom som, declarações de José Sócrates sobre um jornalista, declarações que confirmam a tendência, já verificada em ocasiões anteriores, de um desejo de ingerência na forma como meios de comunicação se referem ao Governo. Ora, quem tem cargos públicos e ainda por cima exerce o Poder deve ser um exemplo de boas práticas. Pior ainda é que dois outros membros do Governo achem que classificar a actuação de um jornalista como um problema se resume a uma «calhandrice». Já agora, no início de tanta celebração republicana estimulada por este Governo era bom que o exemplo de tolerância e liberdade viesse de cima.

 

LISBOA - Em torno das obras no jardim do Princípe Real tem existido uma significativa e exemplar mobilização, com especialistas a pronunciarem-se sobre questões técnicas relevantes e a conseguirem desarmar os considerandos do vereador José Sá Fernandes sobre o assunto. Em torno de um outro caso, que está a deixar muita gente em Lisboa preocupada, o encerramento do Hospital de D. Estefânia, também se está a verificar considerável mobilização. Em ambos os casos o «Facebook» tem servido de plataforma de troca de opiniões e de organização. É óptimo que a sociedade civil se manifeste desta forma e se esteja a insurgir contra os abusos e dislates da Câmara Municipal. Mas não posso deixar de pensar que muito provavelmente muitos dos que hoje protestam votaram em António Costa em nome de uma unidade de esquerda cujos efeitos práticos agora estão à vista.




PERGUNTINHA – O que se passa com a reinstalação do Hot Clube, assunto de que já ninguém fala?

 

VER - O prémio BES Photo tem vivido entre a polémica e o equívoco, ao privilegiar o critério da fotografia como suporte técnico e não a linguagem fotográfica como expressão. O resultado é que ao longo dos anos se tem estabelecido a confusão. No seu blog, o crítico Alexandre Pomar afirma, e bem, que «os nomeados foram melhor antes, nas exposições por que foram escolhidos, do que na exposição/concurso. Em parte (outras razões são de produção e "comissariado"), porque lhes falta experiência para enfrentar a provação, o "efeito prémio", o tipo de "projecto" que o "meio curatorial" aprecia.». Mesmo assim quem melhor escapou ao duvidoso crivo do júri e apresenta o trabalho mais coerente é Patrícia Almeida, que mostra o seu olhar sobre o outro lado dos festivais de música. Na realidade é a única que consegue mostrar um olhar em vez de obedecer a um conceito.

  

OUVIR – A guitarra portuguesa é um instrumento traiçoeiro; tecnicamente difícil, a guitarra pode ser tocada de duas formas – conformista, a imitar os grandes nomes; ou arriscada, a procurar as sonoridades estranhas e envolventes que a caracterizam. No segundo caso (às vezes também no primeiro) , o risco é evitar que o resultado não seja uma sonoridade semelhante à que se obtém se se deixar cair o instrumento por umas escadas abaixo. Ricardo Rocha é dos poucos que consegue passar bem na prova mais arriscada. O seu novo disco, «Luminismo», mostra isso mesmo com as interpretações que faz de temas de Carlos Paredes, Artur Paredes e Pedro Caldeira Cabral, em contraponto às suas próprias composições, intricadas e misteriosas, tecnicamente exigentes. O resultado é o melhor disco de guitarra portuguesa dos últimos anos. «Luminismo», Ricardo Rocha, Duplo CD editado por MBari.

 

LER – A edição de Fevereiro da revista «Vanity Fair» tem um extraordinário portfolio de Tiger Woods fotografado por Annie Leibowitz, acompanhado por um artigo sobre os mistérios do golfista que mais se aproximou do estatuto de uma estrela pop. Na mesma edição vale a pena seguir a aposta em seis novas actrizes de Hollywood, um belo artigo sobre Patti Smith e outro sobre a história do disco-sound. A não perder.

 

DEVORAR – Se querem manter-se actualizados sobre novidades gastronómicas, desde restaurantes a produtos, passando por vinhos, não percam o blog Mesa Marcada ( http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/ ). Os críticos gastronómicos Duarte Calvão e Miguel Pires e o crítico de vinhos Rui Falcão (não é da minha família) fazem uma bela abordagem do assunto e pelo meio revelam algumas boas curiosidades.

 

BACK TO BASICS –  Quem não quer dar nas vistas não fala alto em restaurantes – anónimo.

fevereiro 02, 2010

COMEMORAR FALHANÇOS

(Publicado no diário Metro de 2 de Fevereiro)


 


Por muito que me esforce não consigo compreender a azáfama das comemorações do centenário da República nem as largas somas de dinheiro colocadas à disposição da respectiva comissão. A República não é propriamente um regime de sucesso – a balbúrdia da Primeira República conduziu à ditadura e os 36 anos posteriores ao 25 de Abril falharam em grande escala dois dos três ideais republicanos – a justiça e a educação; apenas a saúde apresenta indicadores razoáveis.

O não funcionamento da Justiça em Portugal – desde a investigação até aos Tribunais – mostra como o Estado não se preocupa de facto com os cidadãos. Esta República criou um país onde os crimes ficam sem castigo, onde os boatos se perpetuam, onde os julgamentos se arrastam para além do admissível. Por estas e por outras é que não é de admirar que apareçam no YouTube gravações de escutas – basta ouvi-las para se ficar um pouco surpreendido com o desfecho de alguns processos e as conclusões de alguns tribunais. Torná-las públicas tem a vantagem de ajudar a perceber melhor aquilo que se quer tapar.

Na educação o falhanço do sistema é total – desarticulado o ensino técnico, transformadas as universidades em fábricas de diplomas para desempregados, o ensino não estimula a ligação da teoria à prática e pouco incentiva a ligação das escolas às empresas. O abandono escolar, o desajustamento do conteúdo de muitos cursos, a caótica situação do financiamento do Ensino Superior, as permanentes confusões em torno do Ensino Secundário, fazem da República portuguesa um triste exemplo de criadora de gerações pouco qualificadas.

Os republicanos de há cem anos diziam querer promover a igualdade em torno do acesso dos cidadãos à saúde, à educação e à justiça. Não é preciso ser visionário para perceber como estamos longe dos objectivos, não é preciso ser muito exigente para perceber que meio país anda enrolado em comemorações de um regime consideravelmente falhado – e nem digo nada da pouca vergonha da política que por aí se faz…

 

 

 

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 29 de Janeiro)

 


INFORMAÇÃO - Terça-feira à noite estava a ver os telejornais das 22h00 quando de repente vi a emissão interrompida para entrar um «directo» que se resumia à entrega do suporte informático da proposta de Orçamento de Estado, pelo Ministro das Finanças ao Presidente da Assembleia da República. Não havia declarações, não havia nada – apenas a simbólica imagem da entrega do documento, aliás com considerável atraso sobre a hora prevista. Ou seja, um directo digno de países subdesenvolvido que se importam mais com as simbologias do que com as notícias. Chávez não faria melhor.

 

SEMANADA - O PP anunciou que se iria abster na votação do orçamento, o PSD anunciou a seguir que também se iria abster; o IPSD apresentou um estudo onde defende a possibilidade da redução da despesa pública para 41% no espaço de uma legislatura; o economista João Ferreira do Amaral afirmou numa entrevista que para avançar nas reformas mais difíceis não basta haver acordos, tem de haver coligações;

 

EVIDÊNCIA – Depois de quatro anos de austeridade imposta à sociedade, Sócrates não conseguiu impor austeridade ao Estado. Ou seja, o Governo PS impôs ao sector privado o que não conseguiu concretizar no sector público.

 

LISBOA – Esta semana a Emel fez nova manobra de propaganda com umas maquinetas que, à custa dos utilizadores, pretendem tornar a empresa mais rentável. A EMEL é um dos cancros da cidade, uma das peçonhas da política autárquica de vários executivos. O Presidente da Câmara devia impôr normas de funcionamento à EMEL que a obrigassem a cumprir prazos de desbloqueamento e a responder às queixas dos munícipes e que a fizessem dissuadir do estacionamento que incomoda e perturba em vez de praticar a caça à multa cega – que é de facto a única coisa que faz. A missão da EMEL está mal definida de início – não é uma ferramente para facilitar a circulação, é um expediente para ir buscar receitas, ainda por cima com uma duvidosa rentabilidade. Mas, acima de tudo,  a autarquia devia reconhecer que os habitantes de Lisboa, que já pagam por usar automóvel na cidade, deviam estar isentos de estacionamento, que se devia aplicar apenas aos automóveis que vêm de fora da cidade. Isso é que era coragem, verdade e honestidade. De outra forma trata-se de um assalto aos lisboetas, feito pela Câmara Municipal de braço dado com a EMEL.

 

PERGUNTINHA  - Depois do treino de Sá Pinto com Liedson será que o Sporting vai voltar a dinamizar a secção de boxe?

   

TELEVISÃO – Todas as quintas-feiras, na TVI 24, pouco depois das dez da noite, vale a pena ver um dos mais interessantes debates políticos da televisão portuguesa, a «Roda Livre» - Manuel Villaverde Cabral, Rui Ramos e Pedro Adão e Silva debatem a actualidade política com humor, bastante sabedoria e alguma salutar discussão.

  

VER -   «A Bela e o Paparazzo»  é um exemplo do que pode ser o cinema português que não tem vergonha de querer ter público e de divertir os espectadores. António-Pedro Vasconcelos fez uma belíssima comédia onde as interpretações de Marco D’Almeida, de Nuno Markl (com «buchas» em forma de dizeres nas t-shirts) e de Soraia Chaves mostram que não é por falta de talento local que não se fazem filmes mais populares. Com um piscar de olhos a comédias como «O Páteo das Cantigas», este é um exemplo de que o cinema português não está condenado a viver apenas de angústias existenciais – e além disso cumpre o importante papel de mostrar no grande ecrã uma geração de actores e de humoristas que marcam esta época que vivemos.

 

LER – A edição britânica da revista «Wired» publica na sua edição de Fevereiro um delicioso artigo onde se explica como Jamie Oliver, o mediático cozinheiro popularizado por programas da BBC, entrou em força no mundo das aplicações para iphone com conselhos e receitas semanais, que incluem listas de compras e porções variáveis face ao número de convivas. Verdadeiramente um achado. Mas esta «Wired» tem muito mais coisas interessantes e está a ficar muito mais atraente que o original norte-americano.

 

CLIMAX – Durante várias semanas a Apple construiu uma novela de suspense à volta do seu tablet, que se espera venha a oferecer à imprensa um fonte de rendimentos semelhante à que o o iPod ofereceu à indústria dicográfica. O mistério foi desvendado na quarta-feira – a máquina chama-se iPad- e as primeiras impressões superam as expectativas. Eu sou dos que acreditam que este novo produto da Apple pode mesmo mudar a forma como consumimos informação, livros e nos relacionamos com o mundo à nossa volta. Na apresentação um dos responsáveis do «New York Times» mostrou como pode ser lido um jornal no iPad, o que confirma que o produto foi desenvolvido em colaboração com os grupos de imprensa norte-americanos – uma boa notícia para todo a indústria de mídia.

 

OUVIR - Depois de uma separação de cinco anos, os noruegueses Eirik Bøe e Erlend Øye resolveram voltar a juntar esforços e o resultado é um conjunto de 13 canções onde o destaque vai para uma sensação de facilidade intuitiva, de um encanto melódico feito sem esforços nem truques, quase como se fosse natural fazer um disco assim tão simples e atraente. Vou arriscar um chavão – isto é música intemporal. Kings Of Convenience, «Declaration Of Dependence», CD Virgin/Source, na Amazon.

 

PROVAR – Em Lisboa passem pela Deli Delux (a Santa Apolónia) e procurem pelos produtos da Boa Boca Gourmet – não se arrependerão. Depois vão a

www.boaboca-gourmet.com  e descubram como um jovem casal, que vive em Évora, está a conseguir fazer uma marca baseada na qualidade das matérias primas, da confecção e do design das embalagens. Verdadeiramente exemplar.

 

BACK TO BASICS – Ninguém acredita num boato até ser oficialmente desmentido – Edward Cheyfitz.

 

janeiro 29, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 22 de Janeiro)

EXERCÍCIOS SOBRE A MEMÓRIA 

 


 


DESPERDÍCIOS - Em declarações à Bloomberg, o antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, defendeu que alguns municípios deviam proceder à demolição dos estádios construídos para o Euro 2004 já que «é muito difícil lidar com dívidas de algo que não cria riqueza nem representa um bem público». Como a mamória é parte da política, recordo que o actual Primeiro Ministro José Sócrates foi o responsável pela condução do processo que levou a que o Euro viesse para Portugal, o que implicou um programa megalómano de construção dos estádios, que arruinou vários clubes e, também, alguns municípios – e que agora se prova ser um enorme desperdício. Os estádios que causam maiores impactos negativos nos respectivos municípios são os de Aveiro, Leiria e Faro. Ponham isto no curriculum de Sócrates, na secção Obras Públicas – também nessa altura se argumentou muito com o efeito positivo que o Euro e os estádios teriam. 

 


 


PRESIDENCIAIS - Manuel Alegre, o responsável pela decisão governamental de acabar com o jornal «O Século» e o seu grupo editorial em 1979, é, para já, o candidato do Bloco de Esquerda; Vitalino Canas, do PS, deu a entender que não seria o seu candidato; Francisco Assis, do PS, deu a entender que Manuel Alegre seria o seu candidato; Marco António, do PSD, deu a entender que Marcelo Rebelo de Sousa poderia ser candidato à Presidência da República; O Presidente da ERC mostrou-se contrário à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da RTP depois de o Director de Informação desta estação ter declarado que era por instruções da ERC que Marcelo teria de deixar o seu comentário dominical.   

 


 


LISBOA - Esta semana assisti, na Assembleia Municipal, à apresentação da Carta Estratégica de Lisboa. Confirmei o que suspeitava: excepção feita à área a cargo de Augusto Mateus, o resto é um documento propagandístico cheio de banalidades e de sugestões avulsas mais ou menos de senso comum, quase nunca surpreendentes, extremamente pouco inovadoras e muito embaladas pelas ideias politicamente correctas mais em voga. Trata-se de um bom levantamento de problemas – até aí concordo – mas de um fraco trabalho de apresentação de propostas ou de formulação de uma estratégia. Qualquer empresa de consultoria ficaria envergonhada se, após tanto tempo, apresentasse um resultado destes - na realidade, em matéria de perspectivas e de futuro, o documento é de uma pobreza  confrangedora. Na realidade, na maioria dos casos, não se trata de uma Carta Estratégica mas de um Inventário de Problemas. 

 


 


HOT CLUBE – Hoje completa-se um mês sobre o incêndio que fez interromper a actividade do Hot Clube, na Praça da Alegria. Ao fim deste mês ainda não se conhece uma solução (estou a escrever este artigo na quarta-feira à noite, dia 20).  Eu acho que nesta questão tem de existir bom senso e realismo. Se a questão mais importante fôr proporcionar o rápido retomar das actividades do Hot (concertos incluídos), a prioridade é encontrar um espaço com área semelhante, condições técnicas razoáveis e localização e acessos simpáticos. Já se sabe que poderá não ser uma solução definitiva, mas também é evidente que a questão da recuperação do prédio vai demorar uns anos a concluir. O bom senso – quer da Direcção do Hot, quer da CML, mandaria que se procurasse uma solução rápida. Se cada um se entricheira no ideal (como me parece que está a acontecer), o Hot vai acabar por se esvair – e vai ficar apenas a alimentar as memórias dos saudosistas. O conservadorismo em relação a tradições e locais é mau conselheiro. O bom é inimigo do óptimo – eu acho que havia já tempo para se ter escolhido um local que, depois, em dois meses, ficasse pronto para funcionar. Mas pelos vistos ligou-se o complicómetro… 

 


 


FILMES – Segundo números do Instituto do Cinema e do Audiovisual, dos 20 filmes mais vistos em 2009, apenas quatro tem participações na produção de países europeus e nenhum é português. O filme mais visto foi «A Idade do Gelo 3», com 667.551 espectadores e o vigésimo foi «A Troca» com 188.611. Em comparação com o ano anterior verificou-se uma diminuição de espectadores de 1,9%, sendo o número final de 15,6 milhões de bilhetes vendidos. O mês com melhores resultados foi Dezembro. Dos 20 filmes mais vistos, todos estrangeiros, 18 tiveram mais que 200.000 espectadores. Passemos à produção nacional – o filme mais visto entre as 22 longas-metragens portuguesas estreadas, foi «Uma Aventura Na Casa Assombrada» com 102.309 espectadores. Destes 22 filmes portugueses, 13 tiveram menos que 3.000 bilhetes vendidos e apenas cinco mais de 10.000 espectadores. Aqui estão alguns números que devem fazer pensar – um país sem uma produção audiovisual massificada é um país sem idioma vivo nos tempos que correm - o resto é pura conversa da treta. Uma curiosidade – até ao início desta semana «Avatar», estreado em Dezembro, já era recordista de bilheteira em Portugal com um total 672.133 entradas. Enfim… 

 


 


VER – Para assinalar o seu 450º aniversário, a Universidade de Évora resolveu convidar o colectivo de fotojornalistas da agência Kameraphoto para mostrar a realidade da Universidade, nas suas várias áreas, nos dias de hoje. O trabalho dos 13 fotojornalistas que trabalharam no projecto, ao longo de um ano lectivo inteiro, resultou em 170 fotografias e também num documentário em video - este é um trabalho exemplar, de que resultou uma exposição e um livro, ambos do ano passado. É um dos raros casos de uma encomenda séria de um ensaio fotográfico, ao que sei com total liberdade para os fotógrafos envolvidos poderem trabalhar e aceder onde quisessem. Fazem falta mais obras assim, mais ideias assim , mais encomendas assim. Talvez algumas das muitas Fundações que existem em Portugal pudessem tomar este exemplo e adaptá-lo. A (boa) edição é da Reitoria da Universidade de Évora. Espreitem www.kameraphoto.com/450/ 

 


 


OUVIR – Um quarteto tradicional (Jon Irabagon no saxofone, Kenny Barron no piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria) mostra como é possível conciliar melodias acessíveis e tonalidades jazzisticas clássicas, com interpretações de uma clara sonoridade contemporânea. Os dez temas são todos compostos por Jon Irabagon, o vencedor de 2008 da Thelonious Monk Institute International Jazz Saxophone Competition. Aqui está um músico a seguir, com um dos discos recentes a ter em conta. CD Concorde/Universal Music, «The Observer», Jon Irabagon, disponível na Fnac. 

 


 


BACK TO BASICS – Na política nada é tão útil como uma memória curta – John Kenneth Galbraith 

 

janeiro 20, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 15 de Janeiro)

ZIGUEZAGUE - A situação das contas portugueses nos últimos meses parece um filme de horror – os indicadores degradam-se cada vez mais, desde o desemprego ao endividamento externo, passando pelo défice. Depois de ter andado meses a negar as evidências e a atacar quem relatava a verdade sobre o estado da nação, José Sócrates começou agora a fazer ziguezagues na sua até aqui intocável política de investimentos públicos. Tenho alguma curiosidade em ver onde isto vai parar, que projectos o Governo vai acabar por cancelar. Uma coisa é certa – foi preciso a realidade ser muito dura e desagradável para alguma coisa acontecer. E não precisava de ser assim. 

 


SEXO - Agora que as discussões sobre sexo abrandaram no Parlamento e que os debates sobre casamentos de geometria variável se vão desvanecendo, fica já evidente que a pressa foi tanta que tecnicamente o trabalho ficou mal feito. Mais importante, fica claro que o agendamento destas questões fez apenas parte de uma estratégia de desviar a atenção de problemas mais importantes – a situação estrutural das contas públicas e das finanças portuguesas – na esperança que algum milagre as resolvesse. Como é bom de ver não houve milagre e andou-se a perder tempo precioso para tomar medidas ou para fazer negociações políticas em torno de questões verdadeiramente urgentes e estratégicas. Chama-se a isto mau governo – um governo que foge da realidade e arranja artifícios para adiar a resolução dos problemas mais graves. 

 


PARTIDOS - A crise pela qual estamos a passar é um sintoma claro de que o sistema político e partidário têm que mudar – desde a forma de eleição até ao funcionamento do Parlamento ou das autarquias. A reflexão sobre estes assuntos está a tornar-se prioritária, sob pena de cada vez mais diminuir o interesse das pessoas na acção política e cívica. Atravessamos uma época em que a política é encarada como um expediente para obter vantagens pessoais ou uma ocupação para ociosos – é este estado de coisas que é preciso mudar. Atravessamos uma época em que aos eleitos é requerida apenas obediência e desejado conformismo. O resultado desta forma de agir está à vista. 

 


TV - Eu acho que em televisão não existem lugares cativos nem eternas fórmulas de sucesso. Mas também acho que quando se consegue conciliar audiência com qualidade é verdadeiramente um desperdício acabar com um programa como «As Escolhas De Marcelo Rebelo de Sousa» - que na semana passada foi o 15º programa mais visto em todos os canais e o 5º mais visto na RTP. Esta decisão, exclusivamente política, de terminar com o programa volta a colocar a necessidade de debater como deve funcionar o serviço público – e como deve ser de facto garantido o pluralismo. As matemáticas da ERC redundam numa diminuição objectiva de qualidade da emissão – alguma coisa está mal quando o serviço público é obrigado a sobrepor critérios políticos a critérios qualitativos e ao juízo dos espectadores e da crítica. 

 


LER – A edição 41 da revista trimestral «Egoísta» é dedicada à natureza e tem numerosos portfolios fotográficos, bastante desiguais. Merecem destaque os de Pedro Cláudio, de Gonçalo F.Santos, de Alfredo Cunha e de Nelson D’Aires. Nos textos destaque para «A Natureza da Carne» de Miguel Gullander e «A Velha» de Hélia Correia. São poucos mas bons – talvez a obrigar a revista a voltar a ter alguns rasgos de inovação que lentamente se vão sempre perdendo ao longo dos anos. De qualquer forma a «Egoísta» continua a ser um objecto impresso invulgar – precisa é de voltar a ser surpreendente. 

 


OUVIR – Sou um devoto dos trios de jazz na sua formação mais clássica – piano, baixo e bateria. Aqui há uns anos Brad Mehldau recuperou, e bem, o género e algumas novas formações foram ganhando público. Stefano Bollani é um pianista italiano muito versátil que tem interpretado desde temas clássicos até versões pop-rock – mas é no jazz que se tem destacado. Há cerca de seis anos encontrou dois músicos dinamarqueses com quem tem vindo a trabalhar – Jesper Boldisen no baixo e Morten Lund na bateria. «Stone In The Water» é o mais recente disco do trio – que na semana passada esteve em Lisboa na Culturgest. Este «Stone In The Water» é um trabalho verdadeiramente surpreendente, na escolha de repertório (dois temas de Boldisen, quatro de Bollani, um de Caetano Veloso, um de Tom Carlos Jobim e um de François Poulenc), mas sobretudo pela enorme elegância, contenção e fluidez do trabalho dos músicos – aqui está um trio pouco exibicionista mas muito eficaz. Estou em crer que grande parte do encanto vem da forma muito especial com que o baixo de Jesper Bodilsen dialoga com o piano de Bollani. Este é verdadeiramente um trabalho de um grupo de músicos apaixonados pelo que estão a fazer. Vai sendo raro. Edição ECM. 

 


EXPERIMENTAR – O «Sessenta» é um restaurante despretencioso com um conceito engraçado – ao almoço concilia rapidez com qualidade e ao jantar tem propostas mais elaboradas. Ao almoço há pratos do dia que vão de frango panado com farinheira (segundas) até favinhas com entrcosto e chouriço (quartas), passando por caril de camarão (terças), lulinhas guisadas com arroz branco (quinta) ou lombo de perca com broa e legumes (sexta). A qualidade é acima da média, o serviço é simpático e o espaço é divertido. À noite a carta apresenta outras propostas, a maior parte baseadas na tradição portuguesa com alguns toques de criatividade não exagerados. A lista de vinhos é razoável e os preços são honestos. O restaurante tem ainda serviço de take-away e um site invulgarmente informativo e exacto dentro do género – www.sessenta.pt. Resta dizer que O Sessenta fica na Rua Tomás Ribeiro nº60, esquina com a Luís Bívar, e o telefone é 213526060. 

 


BACK TO BASICS – A escola certa para se aprender não é a vida, é a arte – Oscar Wilde 

 

janeiro 12, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 8 de Janeiro)

CULTURA - Por muito que me esforce não consigo compreender a razão de ser dos gastos em torno da comemoração do Centenário da República. Em Lisboa, o pretexto já serviu para dar cabo de meia Baixa e pelo país multiplicam-se as propostas loucas como a de um mastro para a bandeira com 100 metros de altura que custará um milhão de euros. Esta semana a Ministra da Cultura decidiu tristemente fazer a sua primeira grande intervenção em termos de anúncios de actividade espalhando dez milhões de euros aos quatro ventos num conjunto de mais de 50 actividades desconexas, avulsas, clientelares na maioria. Nada do que anunciou é estruturante, nada vai deixar marcas, tudo é efémero – mero foguetório em prol de um saudosismo ideológico – o do mito republicano – que poucos compreenderão hoje em dia. Não vou entrar nas comparações entre regimes – mas dez milhões de forrobodó é um contrasenso total numa área – a Cultura – que tem cronicamente falta de investimento. A Ministra dá a cara por umas Comemorações esbanjadoras que deitam à rua o equivalente e cerca de 5% do seu Orçamento anual. Não me parece bem. Parece-me um escândalo. 

 


 


PSD - Vejo com alguma perplexidade o que se passa no PSD, assisto a uma guerra entre as eleições directas para a liderança e o congresso. Por mais que me esforce vejo maioritariamente a discussão de questões internas e não encontro nada sobre propostas para ajudar o país a sair da grave crise em que está. Vejo um PSD gordo, anafado e estático, sempre centrado no umbigo, a discutir os mesmos assuntos internos, e sem perceber que há um mundo à sua volta. O PSD precisa de encontrar objectivos, criar uma estratégia, desenhar uma nova identidade. Como qualquer organização precisa de um líder que tenha um projecto, que consiga galvanizar as suas hostes com esse projecto, que consiga criar uma equipa para a acção e que consiga criar unidade interna. Não vejo nada disto, vejo apenas malabarismos tácticos, jogos de influências, alianças de conveniência, meras coligações de interesses conjunturais. Assim as directas não vão resolver nada – vão apenas servir para queimar mais um dirigente partidário que no dia a seguir a ser eleito se vai ver forçado a gastar mais tempo a contrariar a oposição interna do que a fazer oposição construtiva e a criar uma alternativa política. 

 


 


PAÍS – O Presidente da República prega no deserto e nenhum partido o quer ouvir: o PS porque não tem a mesma agenda; o PSD porque não tem agenda alguma; os outros porque fazem depender as respectivas agentes de acordos parlamentares que consigam estabelecer para ganharem mais algumas vantagens próprias. Mas Cavaco Silva teve razão na sua última mensagem e pôs o dedo na ferida: o país está a ser governado levianamente. Qualquer candidato às próximas presidenciais tem agora uma fasquia que pode ajudar a separar as águas. 

 


 


TELEVISÕES – Segundo dados divulgados recentemente cerca de um milhão de lares, equipados com caixas digitais do Meo, Zon, Clix e outros operadores, não estão a ser analisados no âmbito do estudo de audiências de TV. Estes lares, cerca de 30% do total, abrangem um grupo sócio-demográfico com poder de compra, urbano, com acesso simultâneo a TV e a internet de banda larga e profissionalmente activo. Acresce que os detentores de televisores digitais, plasmas e outros formatos e tecnologias recentes, também já não são auditados. É lícito dizer-se que quase metade do universo de lares portugueses já não é estudado em termos de audiências de televisão. Isto não são boas notícias para quem quer investir em publicidade na televisão – a realidade do mercado está demasiado afastada dos resultados divulgados. 

 


 


PROVAR – O sumo de maçãs frescas Copa, produzido em Alcobaça pela cooeprativa Frubaça. Está disponível na generalidade das lojas Go Natural e é produzido a partir de maçãs que não foram submetidas a tratamento com pesticidas. 

 


 


 


USAR – Este ano vou deixar de usar cadernos da Moleskine e passar a utilizar os cadernos das Papelarias Emílio Braga – são mais cool, mais variados, com belas e resistentes capas e têm bons formatos e bom papel. www.emiliobraga.com – os meus preferidos são os modelos 2001 A6 liso com 100 folhas (seis euros) e o modelo 2005 A5 liso também com 100 folhas (9,60 euros). 

 


 


LER – A mais recente edição da «Intelligent Life» , uma publicação trimestral lançada por «The Economist» tem, entre numerosas páginas interessantes, três artigos a reter. No primeiro, num dossier sobre a Terra e o Ambiente, Robert Butler chama a atenção para a importância do estudo da Geografia nos dias que correm, levantando a hipótese de ela ser actualmente mais importante que a História; no segundo Brian Cathcart aborda a evolução do jornalismo de uma forma muito acutilante; no terceiro Bee Wilson faz comparações entre o universo dos Simpsons e da Disney. Referência ainda a uma curiosa análise da evolução da avaliação do que é profissionalismo, em diversas áreas, por Ed Smith – que inclusivamente cita Scolari. Para terminar um belo porfolio fotográfico de Peter Kindersley sobre Londres fora da luz do dia – muito apropriado para estes tempos da estreia de «Sherlock Holmes».  

 


 


VER – A não perder a exposição «segunda Escolha» do fotojornalista António Pedro Ferreira na Kamera Photo, Rua da Vinha 43 A, ao Bairro Alto. 

 


 


OUVIR – Richard Bona é um músico originário dos Camarões que fez uma assinalável carreira como baixista nos Estados Unidos, embora na realidade seja um homem dos sete instrumentos. No seu novo disco, «The Ten Shades Of Blues», ele multiplica-se entre a voz, a guitarra, teclados, percussão, bateria, bandolim e.claro, o baixo. O disco é uma viagem pelas sonoridades da World Music, obviamente com a África presente, mas também com incursões na Índia e nos territórios da música popular norte-americana. «The Tem Shades Of Blue» é um trabalho que mostra a dedicação e o encanto de Bona pela música – é um exemplo de um disco feito com paixão com o objectivo de ser divertido. Nos tempos que correm não há muitos que se possam gabar disto. 

 


 


BACK TO BASICS – Aqueles que tentam liderar o povo, só o atingem porque seguem a multidão (Oscar Wilde) 

 

janeiro 04, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 31 de Dezembro)

MEDIA - No mundo dos Media, em Portugal, olhamos para trás e vemos um ano agitado: ataques do Primeiro Ministro a órgãos que lhe foram críticos, pressões variadas, mudança de responsáveis editoriais, novos jornais, mudança de propriedade de alguns, vários encerramentos de títulos, o afastamento de Manuela Moura Guedes do ecrã, o concurso do quinto canal numa trapalhada, a televisão digital terrestre ainda indefinida, uma ERC cuja utilidade e funcionalidade continua a ser um mistério, o panorama dos incentivos à produção audiovisual nacional cada vez mais obscuro, uma retracção do mercado publicitário em mais de cem milhões de euros. Só por curiosidade – aqui ao lado, em Espanha, dia 1 de Janeiro desaparece a publicidade paga na televisão pública espanhola, o que quer dizer que as televisões privadas poderão recuperar investimento. Destas decisões de Zapatero é que Sócrates não fala muito… 

 


 


FITAS - Do outro lado do Atlântico, Hollywood teve o melhor fim de semana alargado de Natal de sempre – com receitas de bilheteira nos três dias a ultrapassarem os 278 milhões de dólares. «Avatar» e «Sherlock Holmes», por esta ordem, foram os grandes responsáveis por estes números.«Avatar», o filme de James Cameron que levou 15 anos a preparar e a concluir, deve atingir os 300 milhões de dólares de receitas no final do ano, e a dúvida está em saber se, no mercado americano, conseguirá atingir o recorde de bilheteira, também pertencente a Cameron, com Titanic – 600 milhões. O ano em geral foi bom para o cinema nos Estados Unidos – as receitas anuais de bilheteira ultrapassaram pela primeira vez o patamar dos mil milhões de dólares. 

 


 


MUDANÇA - Este ano, no Natal, a Amazon vendeu mais livros em formato digital do que em papel. O seu leitor Kindle esteve entre os produtos mais vendidos (e cobiçados como prenda). O «New York Times» continua a desenvolver sistemas que possibilitem acesso pago, via digital, à edição integral actualmente existente em papel. As estimativas apontam para que daqui a dez anos, em 2020, existam cerca de 50 mil milhões de aparelhos portáteis capazes de aceder à net e aos seus conteúdos a partir de qualquer ponto. Na próxima década começam a entrar no mercado de trabalho os jovens que já cresceram, estudaram e vivem em ambiete digital. 

 


 


FUTUROLOGIA - Não é preciso ser bruxo para perceber que 2010 vai ser um ano infernal em matéria de política interna: o PSD anda à procura de um rumo e de nova liderança; o PS começa a dar sinais de uma crise interna que alastra, contestando Sócrates; Governo e Presidência da República estão em permanente rota de colisão; paira o espectro das eleições antecipadas e a certeza das presidenciais. O mais certo é o Governo não governar, o mais certo é o Governo não cortar na despesa pública, o mais certo é o Governo deixar o endividamento externo e o défice crescerem ainda mais. O ano não vai ser fácil – os sinais de recuperação económica a nível global vão ser confrontados com as evidências de uma instabilidade interna, que não vai ajudar a resolver os problemas – instabilidade que crescerá na proporção da insensibilidade de Sócrates a uma realidade política diferente que o devia levar a compromissos e negociações. 

 


 


IMPORT-EXPORT -Neste fim de semana encontrei um dos amigos da minha filha mais velha, licenciado, mestrado feito, boas notas, que perante a dificuldade de encontrar trabalho em Portugal arriscou Londres e está contente – tem trabalho, conhece outro mundo, é apreciado e estimulado. Contou-me que. dos seus amigos mais próximos, cerca de uma dezena estão no estrangeiro a trabalhar, a investigar ou a terminar doutoramentos. E resumia-me assim a situação da sua geração: «agora exportamos matéria cinzenta e importamos músculos – que vai ser de nós?»


 

 


HOT CLUBE - Infelizmente o Hot Clube foi vítima de um incêndio no prédio onde estava – o Hot é uma tradição de Lisboa e um dos poucos sítios onde se pode ouvir bom jazz ao vivo – além de que ao longo dos anos desenvolveu uma escola por onde têm sido formados alguns dos nossos melhores músicos de jazz. Se o Hot fica demasiado tempo parado, sem local, corre o risco de a tradição ser vencida pela inacção – não é situação única; por isso, enquanto o prédio não é recuperado é importante encontrar uma alternativa, de preferência em zonas históricas da cidade. Sugiro à Câmara Municipal que veja as áreas que tem livres – talvez no Convento das Bernardas, perto do Museu das Marionetas, exista algum espaço que possa ser usado; talvez as extensas áreas de serviço do Teatro Taborda e a própria sala possam ser divididas com o Hot (e esta seria a melhor de todas as soluções, inclusivamente para a Escola do Hot); talvez até na antiga área da Companhia de Dança de Lisboa no Palácio dos Marqueses de Tancos; talvez – e esta é uma possibilidade real - até no edifício ao lado do Cinema S. Jorge, desocupado há anos, e com pelo menos dois pisos disponíveis. O que eu sei é que para resolver isto é preciso imaginação e boa vontade – e sobretudo alguma rapidez. Se ficar tudo sentado a pensar, nada vai acontecer a não ser o Hot morrer aos poucos por falta de actividade. 

 


 


VER E OUVIR – Para passar o ano em beleza, o CD e DVD dos Pink Martini, «Splendor In The Grass» com magníficas e improváveis versões de velhos temas. Absolutamente a banda sonora perfeita para o dia 1 de Janeiro de 2010.


 

 


 


BACK TO BASICS – Uma pessoa deve ser pelo menos um pouco improvável – Oscar Wilde. 

 

dezembro 29, 2009

O HOT CLUBE

 


Infelizmente o Hot Clube foi vítima de um incêndio no prédio onde estava – o Hot é uma tradição de Lisboa e um dos poucos sítios onde se pode ouvir bom jazz ao vivo – além de que ao longo dos anos desenvolveu uma escola por onde têm sido formados alguns dos nossos melhores músicos de jazz. Se o Hot fica demasiado tempo parado, sem local, corre o risco de a tradição ser vencida pela inacção – não é situação única; por isso, enquanto o prédio não é recuperado é importante encontrar uma alternativa, de preferência em zonas históricas da cidade. Sugiro à Câmara Municipal que veja as áreas que tem livres – talvez no Convento das Bernardas, perto do Museu das Marionetas, exista algum espaço que possa ser usado; talvez as extensas áreas de serviço do Teatro Taborda e a própria sala possam ser divididas com o Hot (e esta seria a melhor de todas as soluções, inclusivamente para a Escola do Hot); talvez até na antiga área da Companhia de Dança de Lisboa no Palácio dos Marqueses de Tancos; talvez até no edifício ao lado do Cinema S. Jorge, desocupado há anos, e com pelo menos dois pisos disponíevis. O que eu sei é que para resolver isto é preciso imaginação e boa vontade – e sobretudo alguma rapidez. Se ficar tudo sentado a pensar, nada vai acontecer a não ser o Hot morrer aos poucos por falta de actividade.