fevereiro 28, 2026

UM TEMPERO PATRIÓTICO

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Já imaginaram o que seria da culinária nacional sem o alho? Imaginem umas amêijoas à Bulhão Pato sem alho. Ou um bife à portuguesa que não conte com ele. Ou a maravilhosa sopa de beldroegas, que na sua ausência fica deslavada. E já nem falo do bacalhau seu fidelíssimo companheiro por esse país fora, como Quim Barreiros não se cansa de proclamar - mostrando aliás de forma exemplar a musicalidade do alho. Maria de Lourdes Modesto, a grande senhora da gastronomia portuguesa, explicava de forma cristalina a importância do alho na cozinha do seu Alentejo natal e a sua receita de açorda é prova da importância que ela lhe atribuía. Mas, afinal o que é o alho? Segundo a Wikipedia, “o alho, de seu nome original Allium sativum, é um bolbo comestível da família Amaryllidaceae, amplamente usado na culinária mundial como tempero e conhecido pelas suas propriedades medicinais. Originário da Ásia Central, é valorizado pelo seu forte aroma, sabor intenso e composto activo alicina, que oferece benefícios antioxidantes e antibacterianos”. A sua utilização pode ser feita de muitas maneiras - esmagado, picado, laminado, moído em pó ou com os gomos inteiros a soltar aroma. Digo gomos, mas há quem lhes chame dentes - e há mesmo quem o morda por puro prazer gustativo. Claro que também há quem não suporte o seu aroma ou o seu odor e existe um certo consenso em evitar beijos aprofundados em que o sabor dominante seja o do alho. Guardemo-lo para outros temperos, eventualmente na companhia dos seus fiéis parceiros que o acompanham em tantas receitas  - os coentros e as folhas de louro. Miguel Esteves Cardoso, numa das suas incursões gastronómicas, defendia a qualidade do alho nacional e desancava os alhos importados, que chegam ressequidos e que são os que abundam nos supermercados. Já o alho nacional, viçoso, é figura sempre orgulhosamente presente nos melhores mercados deste país. O sensaborão alho importado é mais barato, mas este é daqueles casos em que vale a pena recordar o velho slogan: o que é nacional, é bom.





fevereiro 27, 2026

INDICADORES QUE DÃO QUE PENSAR

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O PAíS EM NÚMEROS - A Pordata, uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos, recolhe, analisa e divulga indicadores fundamentais sobre o que se passa no país, a nível das autarquias, do Governo ou de diversas instituições. É um inestimável serviço público que ajuda a perceber melhor a situação em que estamos. Por exemplo: em 1960 éramos 8,9 milhões e em 2024  atingimos os 10,7 milhões a viver em Portugal. Em 1981 o país tinha 2,5 milhões de jovens e agora tem só cerca de 1,4 milhões. Em 1960 existiam 437 salas de cinema que foram frequentadas por 26,5 milhões de espectadores, enquanto em 2024 o número caíu para 204 salas de cinema que acolheram cerca de 12 milhões de espectadores. Em sentido contrário, na assistência a espectáculos, houve uma enorme evolução: em 1960 foram 1,84 milhões de pessoas que assistiram a espectáculos ao vivo e em 2024 o número pulou astronomicamente para 85,5 milhões - e os muitos festivais que decorrem em todo o país são os grandes responsáveis por este aumento. Em 1960 havia 7 mil médicos, hoje há 64 mil, em 1960 havia 9,5 mil enfermeiros e hoje existem 85,5 mil. Em 1960 a taxa de mortalidade infantil era de 77,5% e hoje em dia é de 3% Em 1960 havia 2000 advogados, hoje há 39.000 mas o número de processos pendentes nos tribunais duplicou no mesmo período. Em 1960 os casamentos não católicos representavam 9,2% do total, hoje representam 80%. Em 1960 existiam 63 mil pensionistas da Caixa Geral de Aposentações, agora há 662 mil. Ainda segundo a Pordata, Portugal está longe de ser o país com a maior percentagem de estrangeiros na população residente: com 9,6%, Portugal encontra-se em 12.º lugar, longe do Luxemburgo, onde cerca de 47,3% dos residentes são estrangeiros, a taxa mais elevada a nível da UE. Mas Portugal é o segundo país mais envelhecido da UE, apenas ultrapassado pela Itália: há 53 jovens por cada 100 idosos. Portugal é também o país da UE onde a população ativa é menos escolarizada. Quatro em cada 10 pessoas não têm ensino secundário em Portugal, muito acima de países como a Polónia ou a Lituânia, onde apenas uma pessoa em cada 10 não concluíu esse grau de ensino.  Os números na sua crueza são um retrato do país que temos e do muito que ainda há a fazer.


 


SEMANADA - A carga fiscal dos residentes em Portugal voltou a agravar-se em 2025 e em média, cada português pagou 6728,73 euros em impostos no último ano, mais 352 euros do que em 2024 e mais 2310 euros face a 2016; as contribuições de emigrantes para a segurança social subiram 8,5 vezes em 11 anos; e no ano passado foram 4162 milhões; o ritmo de crescimento das receitas do turismo em 2025 foi o mais baixo desde a pandemia; um em cada dez novos alunos de licenciaturas interrompe os estudos ao fim de um ano e nos cursos técnicos essa percentagem sobe para 28%; desde o início de 2025 as autoridades registaram 19 denúncias de tentativa de violação por motoristas de TVDE’s; um estudo feito pela Universidade Católica do resultado das presidenciais indica que 65% dos votantes de Cotrim e 89% dos de Mendes votaram Seguro na segunda volta;  desde as mais recentes autárquicas, em 2025, o Chega já perdeu sete vereadores que se desvincularam do partido; o número de pessoas em tratamento devido a dependência de drogas e de álcool atingiu  o valor mais alto desde 2015; um estudo recente indica que 62% dos portugueses utilizam ferramentas de inteligência artificial e generativa, número que compara com a média europeia que é de 52%.


 


O ARCO DA VELHA - O Governo fez um ajuste directo para “aquisição de serviços de maquilhagem e cabeleireiro para os membros dos gabinetes ministeriais nas conferências de imprensa” que tem um custo anual de 11.520 euros, e que tem por objetivo  “garantir a qualidade da imagem” de ministros e secretários de Estado.


 


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NOVIDADES NO MAC - “May I Help You? Posso Ajudar?” é o título da nova exposição do MAC/CCB que apresenta obras de 90 artistas portugueses e estrangeiros da década de 70 em diante. As obras pertencem às coleções em depósito no MAC/CCB (Berardo, Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Holma/ Ellipse e Teixeira de Freitas), contando também com novas encomendas a artistas portugueses e ainda empréstimos de diversas entidades. Um eixo emblemático é “March” uma obra da dupla britânica Gilbert & George carregada de ironia - um grande painel em que os artistas se representam como operários da arte contemporânea (na imagem). Com curadoria de Nuria Enguita e Marta Mestre, a  exposição está dividida em três eixos: Produções, Mudanças e Tramas. Na exposição são apresentadas obras de, entre outros, Gilbert & George, Ana Jotta, Gabriel Abrantes, Bruno Zhu, Donald Judd, Sol LeWitt, Bernd e Hilla Becher, Allan Sekula, Doris Salcedo, Franz West, Jeff Koons, João Marçal, Gabriel Orozco, Carla Filipe, Alberto Carneiro, Taysir Batniji, David Hammons, João Marçal, Matt Mullican, Júlia Ventura, Daniel Buren, Silvestre Pestana, Agnes Martin, Irma Blank, Claude Viallat, Sara Bichão, Wolfgang Tillmans, Louise Lawler ou Joseph Kosuth.


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A partir de agora o MAC/CCB fica com duas exposições permanentes, a Deriva Atlântica, mais focada na arte moderna e esta May I Help You? complementando a abordagem à arte contemporânea. No dia da inauguração a pouco informada Ministra, que estava presente, foi confontada pela presença em grande número dos visitantes do autocolante "Ellipse 100% em Belém", numa referência à decisão de levar essa colecção para um depósito em Alcabideche.


 


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ROTEIROEm Serralves a exposição “Afinidades Eletivas” apresenta até ao início do próximo ano 24 pinturas, desenhos, colagens, esculturas e obras têxteis de Juan Miró das décadas de 60 e 70 do século passado , em paralelo com 53 obras de artistas de várias nacionalidades como Helena Almeida, Michael Biberstein, Robert Morris (na imagem), Pedro Calapez, Luisa Cunha, António Júlio Duarte, Josep Guinovart, Ana Hatherly, Asger Jorn, Anselm Kiefer, Jannis Kounellis, Graça Pereira Coutinho, Júlio Pomar, Dieter Roth, Julião Sarmento, Thomas Schütte, António Sena, Ângelo de Sousa, ou Antoni Tàpies entre outros. A exposição é organizada pela Fundação de Serralves e tem a curadoria de Robert Lubar Messeri. E a feira de arte contemporânea ARCO Madrid decorre de 4 a 8 de Março com 206 galerias de 36 países que apresentam obras de cerca de 1300 artistas. Há 13 galerias portuguesas representadas.


 


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UM LIVRO IMPERDÍVEL- Se tem fascínio pelo Oriente, em particular pelo Japão, não pode perder “Diários de Viagem e alguns poemas em prosa”, de Matsuo Bashô, escritos no século XVII. Matsuo Bashô foi um samurai errante, um “rònin”, para usar o termo original, que após a morte do seu mestre decidiu dedicar o resto da vida à poesia. Vagueou e mendigou pelo japão do século XVII descrevendo as suas viagens em diários, onde os poemas apareciam ao lado da descrição da natureza, amigos ou episódios circunstanciais. Estes escritos foram agora traduzidos pela primeira vez para português, de forma integral pela mão de Jorge Sousa Braga. O livro inclui ainda, para além de uma seleção de poemas em prosa, os mapas marcando o percurso trilhado pelo grande mestre japonês. Poeta e viajante, Matsuo Bashô nasceu em 1644 e morreu a 28 de novembro de 1694 e é  considerado o poeta nacional do Japão. O livro inclui seis diários de viagem e três poemas em prosa, entre eles um delicioso “A Moradia Irreal”, escrito em 1690, em que o autor conta como, após ter viajado pelo norte do Japão, se afastou da cidade e agora contempla paisagens a partir de uma modesta cabana de colmo “Casa da montanha, descanso do viajante - chamem-lhe o que quiserem, não é lugar para armazenar muitas coisas. Um chapéu de casca de cipreste de Kiso, uma capa para a chuva de junco de Koshi - é tudo o que está pendurado por cima do meu travesseiro”. Delicioso. Edição Assirio& Alvim.


 


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MESA DE CABECEIRA - Em “Uma Breve História do Universo” a cientista, Sarah Alam Malik leva-nos conhecer as grandes descobertas sobre o mundo que nos rodeia, de Aristóteles a Isaac Newton, passando por Copérnico. Como a autora afirma, “somos contadores de histórias em busca da maior história de todas, ainda que nela figuremos numa mera nota de rodapé. A nossa exploração do universo não consiste apenas num empreedimento científico de vanguarda, mas também na aventura espiritual de uma espécie repleta de questões impossíveis”(edição Casa das Letras). Outro livro em destaque é “O Que É A Filosofia”, baseado numa série de palestras que José Ortega Y Gasset proferiu no final dos anos 20 do século passado e que foi pela primeira vez editado em livro em 1957, já depois da morte do autor. Considerado o maior filósofo espanhol do século XX, Ortega Y Gasset foi também jornalista, político e ensaísta. As 11 lições agrupadas nesta obra tratam da articulação da história com a filosofia, do pragmatismo, da relação entre ciência e filosofia, dos dados do universo e da ligação de tudo isto com a religião. (edição Bertrand).


 


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CANÇÕES DE PROTESTO - De repente, após anos de ausência de novo material, os U2 apresentam um EP com seis temas, muito marcados pela situação política global. Tal como Bruce Springsteen fez ao retomar recentemente a tradição das canções de protesto com o seu “Streets Of Minneapolis”, os U2 incluem em “Days Of Ashes” três temas que abordam mortes recentes, em conflitos e acções de protesto evocando as mortes da iraniana Sarina Esmailzadeh, do palestiniano Awad Hathaleen e da norte-americana Renee Nicole Good. “American Obituary”, a canção sobre os incidentes em Minneapolis, é dos temas mais duros e contundentes dos U2, onde a guitarra de Edge surge quase como uma arma de arremesso, com Bono a cantar “America will rise against the people of the lie … the power of the people is so much stronger than the people in power” . Noutro tema, “The Tears Of Things” Bono atira ao fundamentalismo religioso: “When people go around talking to God it always ends in tears.” O tema final , “Yours Eternally” conta com a colaboração de Ed Sheeran e Taras Topologia. Disponível em streaming.


 


ALMANAQUE - O museu londrino Victoria & Albert adquiriu o primeiro vídeo carregado no YouTube, intitulado "Me at the zoo", publicado a 23 de abril de 2005 pelo cofundador do YouTube, Jawed Karim e esse vídeo está agora em exibição na galeria “Design 1900–Now”, apresentada juntamente com uma reconstrução gráfica de uma página de YouTube dessa época.


 


DIXIT - “Para milhões de pessoas, Zelensky é o que vêem de mais próximo da figura de um herói contemporâneo, num mundo à míngua de heróis.” - Teresa de Sousa, no Público, sobre os quatro anos da invasão da Ucrânia pela Rússia.



BACK TO BASICS -  “Toda a gente quer mudar o mundo, mas muito poucos pensam em mudar o seu próprio comportamento” - Lev Tolstoi


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fevereiro 21, 2026

E OS PAUZINHOS DO CARACOL?

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Estávamos nós num curto intervalo entre as chuvas  e ventanias da última semana quando, numa manhã não especialmente solarenga, ao chegar junto do carro, deparei no seu tejadilho com este caracol, de antenas de fora como se estivéssemos no verão. Esclareço desde já que não me tinha posto a cantar "caracol, caracol, põe os pauzinhos ao sol", essa melodia que mostra o desejo de ver este molusco gastrópode, primo das lesmas,  a sair da concha. Como poderão constatar  o exemplar em causa era um animal valente, destemido, com os corninhos bem para fora, embora não ao sol, que por sinal não se vislumbrava. Aprofundando  um pouco o meu conhecimento sobre esta espécie animal, percebi que  o sol forte pode ser prejudicial ao caracol, preferindo ele a humidade logo após a chuva. Portanto o meu estimado caracol passeava-se no tejadilho ainda com salpicos de chuva como se estivesse num spa. Está-se sempre a aprender, é o que é. Enchi-me de cuidados, retirei-o de onde estava e fui delicadamente pousá-lo na relva húmida ali bem perto. O tamanho era demasiado grande para o meu gosto gastronómico, mas esta singela descoberta fez-me evidentemente pensar num pratinho de caracóis bem acompanhado por uma imperial, esse sinal incontornável dos dias de um Verão, que ainda parece distante. Enquanto não vem esse tempo a alternativa é contentar-me com uns tremoços - e aproveito para denunciar o facto de que são cada vez mais raros os sítios onde os tremoços aparecem automaticamente ao lado da imperial. Sinal dos tempos, a compressão de custos chegou ao tremoço. A ver vamos a que preço estará o prato de caracóis este ano.




fevereiro 20, 2026

UM PAÍS DE PAPELÃO

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OS DADOS ESTÃO LANÇADOS - Existe um velho ditado português que descreve bem a situação que estamos a  viver: “depois de casa roubada, trancas à porta”. Aos poucos vão-se sabendo razões sobre o que aconteceu. Para além da imprevisibilidade dos elementos da natureza e a descoordenação na resposta, há questões que têm a ver com o desprezo pelo ordenamento do território e a falta de atenção que se tem  verificado: desde falta de vistoria e manutenção de infraestruturas em zonas problemáticas, até planos para novas obras estruturais que não têm em conta as condições do solo e dos locais, há de tudo e a síntese é esta: desleixo e incompetência do Estado. No rol de desgraças a que assistimos uma coisa salta à vista - foi a nível autárquico que se verificou maior empenho na resolução das situações mais graves e foi a nível do governo que se assistiu à maior desorganização. O Governo tem a responsabilidade de rever como, no futuro, deve ser coordenada a resposta a catástrofes e avaliar futuras obras públicas. Aquilo que sabemos fez-me lembrar como o saudoso arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles alertava contra o crescimento desordenado, os perigos da construção em linhas de água e os seus efeitos na impermeabilização dos terrenos. A força dos elementos desencadeou a situação, mas a mão do homem não é invisível nesta desgraça que nos leva a pensar se não temos andado a construir um país de papelão. Descobriram-se, entretanto, coisas extraordinárias como o facto de a futura linha de alta velocidade e a sua nova estação, em Coimbra, estarem localizadas em áreas que agora ficaram submersas. Só incompetência? Deixo duas citações a terminar. A primeira é de Carlos Fiolhais, cada vez mais lúcido: “É nossa obrigação aprender com a experiência acumulada em desastres naturais. Não apenas a curto prazo, capacitando a proteção civil para a defesa de pessoas em risco, mas também e sobretudo a médio e longo prazo, planeando o território de uma forma mais inteligente.” E a segunda é de Fernando Santos, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, sobre a dificuldade em encontrar material para a reparação dos telhados destruídos:  “A União Europeia, em vez de ter andado a normalizar a maçã e a pêra de Alcobaça, tinha feito melhor se tivesse regulado calibres para produzir telhas” .


 


SEMANADA - Até ao final da semana passada já existiam 34 mil candidaturas ao apoio de 10 mil euros para a reconstrução de casas afectadas pelas tempestades; segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de 2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda suba mais; segundo o IPMA até final da semana passada apenas tinham existido seis dias sem registo de chuva durante os últimos dois meses; há mais de 120 edifícios históricos que sofreram estragos, entre eles o Convento de Cristo e mais de 250 bibliotecas públicas; Portugal é o segundo país europeu que mais consome medicamentos antidepressivos e o primeiro lugar é ocupado pela Islândia; entre janeiro e agosto de 2025, o país exportou cerca de 40 toneladas da planta ou de preparações e substâncias à base de canábis, quase mais do dobro de 2024, e o sector já emprega cerca de sete mil pessoas; nas prisões portuguesas estão mais de 13.000 detidos, dos quais 140 estão a cumprir mais de 25 anos de prisão; em 2023 os residentes em Portugal perderam 2,2 mil milhões de euros em jogos de azar, mais do dobro de há uma década; o plano Ferrovia 2020, apresentado pelo Governo então do PS há dez anos, e  que pretendia modernizar as linhas ferroviárias em quatro anos, tem uma taxa de execução de apenas 18%; os tribunais de primeira instância declararam a insolvência de 6368 pessoas, no ano passado, o que dá uma média superior a 17 por dia e, no mesmo período, entraram também em falência 2014 empresas (cinco diariamente), o que dá um total de 8386 insolvências em 2025.


 


O ARCO DA VELHA - Os 10 mil preservativos distribuídos gratuitamente aos atletas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, desapareceram em apenas três dias.


 


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OBRAS CRUZADAS - O Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva apresenta até 10 de Maio a primeira das três exposições que realizará ao longo deste ano, com obras de Arpad e Vieira em paralelo com artistas de diferentes gerações: Sara & André, Vasco Futscher, Frida Baranek, Francisco Janes,  Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches são os convidados para este primeiro ciclo expositivo de 2026. No Museu a sala do piso de entrada foi renovada e  apresenta agora magníficos desenhos de Arpad e Vieira da Silva. Neste e noutros locais podem ser vistos mais desenhos como os que Arpad fez de Vieira da Silva, os impressionantes desenhos anatómicos que Vieira da Silva fez no início da sua carreira e pinturas sobre papel de ambos, da década de 30 do século passado. A escultura e cerâmica são os pontos comuns de quase todos os artistas convidados: Vasco Futscher apresenta “Broken Mile”, peças de cerâmica dispostas no chão, num exercício entre a produção industrial e o trabalho manual, trabalhos deliberadamente imperfeitos que contrastam com as obras de Vieira da Silva e Arpad - é neste espaço que estão, por exemplo, os rigorosos desenhos anatómicos. Mais à frente a brasileira Frida Baranek apresenta “Desafios”, trabalhos de escultura que utilizam vidro, madeira, ferro, acrílico, pedra, tubo e fio de aço, e que surgem como desafios ao equilíbrio. Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches, também um casal de artistas, criaram um conjunto de obras surpreendentes. Esta é a primeira vez que trabalham  em conjunto, a partir das esculturas em madeira de Rui Sanches e das peças de cerâmica de Teresa Segurado Pavão (na imagem). Sara & André estão no antigo atelier de Vieira da Silva, ali bem perto, e Francisco Janes apresenta uma instalação de imagens e som no espaço do auditório do Museu.


 


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ROTEIRO - Na Galeria Balcony, Manuel Caldeira mostra novos trabalhos de escultura e desenho, intitulada “Egyptian Reggae”, inspirada na reinterpretação de artefactos do Egipto antigo relacionados com a observação do vôo das aves e que o autor apresenta como “arqueologia inventada” (na imagem). São 17 obras, quase todas feitas no último ano, incluindo um conjunto de quatro desenhos. (Rua Coronel Bento Roma 12A, até 21 de Março).  No MAAT há uma nova exposição, “Turn Around”, baseada na colecção da Fundação EDP que conta com duas mil e quinhentas obras de mais de trezentos e quarenta artistas. “Turn Around  - Um Olhar Sobre a Colecção de Arte da Fundação EDP” terá dois momentos este ano O primeiro, agora apresentado,  inclui obras de Gabriel Abrantes, Luisa Cunha, Ana Jotta, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira e João Paulo Feliciano, entre outros. 


 


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FRAGMENTOS DE ESCRITA - “Cânone da Câmara Escura” é o novo livro do espanhol Enrique Vila-Matas. Este não é apenas um livro, é um conjunto de  fragmentos de outros livros, a partir de uma situação especial: o protagonista, Vidal Escabia, recebeu de herança por morte de pessoa muito próxima uma grande biblioteca, mas sob uma condição: que do total da biblioteca seleccionasse aqueles que considerasse os seus livros predilectos com a incumbência de sobre eles refletir e escrever e elaborar  o seu próprio Cânone literário. Escabia construíu um ritual, baseado em três movimentos: entrar no quarto escuro onde estava a biblioteca de obras escolhidas, escolher ao acaso um livro, ir ler e seleccionar um fragmento que lhe parecesse interessante e, depois, escrever o que entendesse sobre essa obra para futura inserção no arquivo do Cânone. Vidal Escabia, cumprindo as instruções de quem lhe deixou a biblioteca, seleccionou setenta e um livros. Escolheu fragmentos e intercalou o que anotava, com  relatos do seu quotidiano, dúvidas e reflexões sobre o que se passava à sua volta. Colocou interrogações sobre a presença de androides entre os humanos, chegando ao ponto, suprema ironia, de se questionar se ele próprio, ou quem o rodeava, poderia ser um desses androides. “Cânone de Câmara Escura” é uma obra sobre a paixão pela literatura, sobre o papel que ela tem na transmissão de ideias e sobre o sentido da própria escrita. É um livro dividido em 120 intrigantes fragmentos, que culminam nesta frase:”Até no ar percebo o Mal indefinido que está para chegar”. (Edição D. Quixote, tradução de J. Teixeira de Aguilar).


 


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MÚSICA PARA FILMES QUE NÃO EXISTEM - Bruno de Almeida, além de ser realizador de filmes e documentários, tem também uma carreira de músico, que nos últimos anos se tem consubstanciado na série “Cinema Imaginado”,  agora   no seu quarto volume. Nesta série de gravações Bruno de Almeida imaginou bandas sonoras para filmes que não existem, numa mistura de géneros musicais, combinando jazz e funk, por vezes com recurso a spoken word. Neste “Cinema Imaginado - Volume 4”, Bruno de Almeida esteve nos teclados e chamou para estúdio Ricardo Toscano, Mário Franco, Luís Figueiredo, Mário Delgado, Óscar Graça, José Salgueiro, Eduardo Cardinho, Miguel Bernat, André Sousa Machado, Iúri Oliveira, Graham Haynes, e uma secção de cordas composta por Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano, Ana Cláudia Serrão e Nuno Abreu. O disco inclui dez temas, que vão de incursões no jazz improvisado até baladas ao piano. Todas as composições são de Bruno de Almeida, excepto o tema “Parallax View”, que foi construído em parceria com Graham Haynes e Mário Franco, co-produtores do disco. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - Em Londres, a National Portrait Gallery apresenta até 4 de Maio a exposição “Lucian Freud: Drawing Into Painting” com 175 desenhos feitos por Freud, muitas vezes para se evadir da pintura, outros para recordar momentos, como os três retratos, a desenho, que fez de Francis Bacon num fim de tarde em 1951.


 


DIXIT - “Aberto um novo ciclo político, como quererá Montenegro passar à História? Como o hábil equilibrista, herdeiro de uma nefasta escola tacticista que vem privilegiando a gestão do curto prazo na última década, que se tem limitado a ser até aqui? Ou como um reformador pragmático, capaz de fazer consensos ao centro e de travar o crescimento dos populismos pelo qual, isso sim, parece ansiar a maioria sociológica existente no país?” - Pedro Norton, no Público.


 


BACK TO BASICS -  “Quando alguém perde a capacidade de se rir de si próprio, é o momento em que os outros se começam a rir dele” - Thomas Szasz.





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fevereiro 14, 2026

O SOM DA ÁGUA

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Acordo há dias sem fim com o som da chuva, da água a correr. É como se vivesse dentro de uma fonte. O correr da água, que pode ser um som tranquilizante, tem-se transformado num quase martírio. Olho para os vidros das janelas e lá estão as gotas de água a escorrer, sempre a escorrer. Saio à rua e chapinho nas poças de água que se formam por todo o lado, Não estamos habituados a tanta água e isso é tão verdade que a  Embaixada do Japão endereçou aos portugueses uma simpática mensagem com recomendações e cuidados a ter nestas situações e, em particular, nas inundações. É uma atitude de uma enorme delicadeza e de uma prova de amizade entre os nossos países, que esta chuva proporcionou. Tudo está alagado, o tempo está húmido, o sol anda escondido. Vou à rua comprar o jornal e vejo como os passeios de Lisboa são ainda mais perigosos quando estão tão molhados - parecem escorregas. Ao longo do estreito passeio por onde vou vejo as poças formadas nos buracos do alcatrão. Há carros que abrandam para não molhar os peões, mas há outros que parecem fazer de propósito para levantar uma cortina de água. Mesmo nestas alturas difíceis para todos há quem não pense nos outros. A raça humana é tramada, até nesta altura se nota.  Nas ruas os buracos aumentam todos os dias, como se o alcatrão fosse solúvel em água.  Regresso a casa, a ver se consigo evitar que o jornal fique empapado da chuva - quando isso acontece fica mais dificil fazer as palavras cruzadas porque não se consegue escrever no papel molhado. Sento-me a olhar para a janela que acolhe as gotas de água. Já chega de chuva por agora, Será que, quando esta chuva passar e o sol voltar a ver-se, vou voltar a ter o prazer de me sentar à beira do chafariz a gozar a frescura do som da água a correr? 




fevereiro 13, 2026

A FORÇA TRANQUILA

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VENDAVAL - No fim da noite de domingo, com os resultados apurados, só me lembrava de uma canção popularizada por Tony de Matos. Chama-se “Vendaval” e pela melodia fora vão-se ouvindo estas palavras: “o vendaval passou…navego agora em mar de calmaria… para onde vou? - não sei!”. A vitória de António José Seguro foi arrasadora: 3,4 milhões de votos. Mas para além dos números este resultado significou a clara rejeição de André Ventura por uma larga maioria do eleitorado, inclusivamente da maioria dos que tradicionalmente votam à direita do PS, e, também, evidencia a repulsa por soluções de ruptura. A resposta pedida na canção está dada: o eleitorado prefere soluções consensuais, estabilidade e moderação, mas que também quer alguém que ponha o Estado ao serviço dos cidadãos e não de quem ocupa S. Bento. Os eleitores que votaram Seguro quiseram deixar um recado: Portugal tem muitos problemas, trabalhem em conjunto, deitem abaixo as barreiras partidárias e resolvam-nos. Ora isto volta a colocar na ordem do dia a questão do alargamento do centro político, algo que é o contrário do que Ventura, Montenegro ou Pedro Nuno Santos pretendem. Destas eleições o partido que sai mais ameaçado é o PSD, que tem vindo a perder identidade e que vê muita da sua base de apoio a dar atenção ao Chega, que continua a crescer. Daqui para a frente, ou o PSD e o PS se entendem para fazer reformas nas áreas mais críticas, incluindo o combate à corrupção e a justiça e conseguem criar uma nova era política, ou Montenegro continua no seu jogo táctico de agradar a gregos e troianos e acabará devorado por  André Ventura. Quanto a Seguro, que resistiu aos cantos de sereia que o queriam levar a radicalizar o discurso, se fizer o que prometeu como colaborar para resolver problemas, não ter amarras partidárias, usar comedidamente a palavra e manter-se fiel à Constituição, pode vir a ser uma boa surpresa. Como escreveu Francisco José Viegas no “Correio da Manhã”, ele pode ser o primeiro presidente fora da velha oligarquia. Não é coisa pouca.


 


SEMANADA - Os portugueses gastaram 22 milhões de euros no site de conteúdos eróticos OnlyFans em 2025; o Hospital Amadora-Sintra identificou mais de 500 mulheres vitimas de mutilação genital feminina nos últimos dez anos; neste início de ano já há hospitais do SNS sem dinheiro para comprar medicamentos; no OE deste ano o Governo reduziu em 53,7 milhões de euros o orçamento direto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil; desde o início do ano já morreram 60 pessoas em acidentes rodoviários; no espaço de um ano a Marktest contabilizou 153 milhões de downloads, uma média de 2,9 milhões de downloads por semana; os podcasts mais procurados foram, por esta ordem, “Extremamente Desagradável” da Renascença Multimedia, “O Homem Que Mordeu o Cão” da Baur Media e “Mixórdia Temática” da Rádio Comercial; o Observador registou a maior quota de downloads de podcasts, seguido pela Renascença, Rádio Comercial, SIC Notícias e Expresso; ainda segundo a Marktest  3,5 milhões de pessoas, cerca de 41% dos portugueses ouvem rádio pela internet e este valor é o dobro do verificado há uma década; Portugal apresenta uma das mais baixas coberturas de seguros contra eventos climáticos extremos na Europa, com apenas cerca de 3% das perdas entre 1980 e 2024 seguradas.


 


O ARCO DA VELHA - Um juiz dos Açores, já aposentado, foi condenado a cinco anos de prisão, mas com pena suspensa, por ter pago a três rapazes menores para ter sexo com eles. 


 


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FOTOGRAFIAS PORTUGUESAS - O que se passa quando se olha para as mesmas coisas com décadas de diferença? A resposta está em  “A Prova do Tempo”, uma exposição de fotografias de Inês Gonçalves e Ana Paganini, na galeria Lumina. Os temas fotografados são os mesmos: o universo das touradas e das procissões e manifestações públicas da fé. Inês Gonçalves fotografou nos anos 90 os bastidores das touradas para a revista Kapa e procissões nos Açores, estas no âmbito de um projecto pessoal, e a maioria das fotografias expostas desta série são inéditas. Ana Paganini olhou para os mesmos dois universos de 2018 para cá. As duas fotógrafas tinham sensivelmente a mesma idade quando fizeram estes projectos - na casa dos 30 anos. São olhares diferentes, não só porque mostram épocas diferentes, mas também porque têm abordagens diversas. “A Prova do Tempo” é um nome  particularmente adequado - as fotografias de Inês Gonçalves testemunham uma época e resistiram bem às quase três décadas que levam; e as fotografias  de Ana  Paganini levam-nos a compreender o que mudou para permitir a permanência das tradições. As duas fotógrafas acabam assim por, em tempos diferentes, estabelecer um diálogo entre o que observaram e retiveram. Em cada exposição a Lumina, dirigida por Bruno Portela, guarda uma das suas paredes para apresentar uma outra obra no campo das artes visuais, uma área que tem curadoria de Rute Reimão - neste caso a escolha recaíu numa instalação de Sebastião Castelo Lopes, “O som de fazer o último poema”. A Lumina fica na Rua Actor Vale 53, junto à Fonte Luminosa.


 


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ROTEIRO - A galeria This Is Not A White Cube (Rua da Emenda 72, ao Chiado), apresenta a exposição de fotografia “Bloom”, de  Dagmar van Weeghel, baseada na evocação da  presença histórica de mulheres africanas, através do recurso actual a técnicas fotográficas do século XIX. A artista estabelece um diálogo entre retratos contemporâneos e imagens oitocentistas, numa relação  entre o passado e o presente. Na Fundação Albuquerque, em Sintra, a artista britânica Phoebe Collings-James apresenta um conjunto de cerâmicas contemporâneas a que deu o título “Nature Boy”, em que algumas peças foram já produzidas em Portugal no âmbito de uma residência promovida pela Fundação. É a primeira vez que a Colecção Albuquerque, centrada na cerâmica chinesa, acolhe uma ceramista contemporânea. A Galeria Diferença (Rua de São Filipe Nery 42) apresenta duas novas exposições: “Detritos Cósmicos” de Nuno Cera e “Terra Firme” de Matilde Sambo. Na Galeria Ilha (Praça das Flores 48A), pode ser vista uma exposição de pintura, desenho e fotografia do norte-americano John Kacere (1920-1999) intitulada “American Beauty”.


  


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O PAPEL DA MEMÓRIA - O que se escreve quando já se sabe que o fim é inevitável e não estará longe? “Partida”, de Julian Barnes, é uma das respostas possíveis a essa pergunta. Com uma brilhante tradução de Salvato Teles de Menezes “Partida” foi anunciado pelo autor como a sua derradeira obra e combina ficção com realidade, sobretudo quando Barnes fala de episódios da sua vida. Ele aliás diz a certa altura “and you can google that, if you wish”. O livro é uma reflexão sobre a vida do autor, sobre a sua relação com amigos próximos, sobre a memória e o que ela guarda: o amor, as cumplicidades, a amizade, o comportamento dos seres humanos; e também sobre o que se seguirá: a velhice e, inevitavelmente, a morte. É uma escrita envolvente, que amarra, irónica por vezes, crua por natureza, que se desenvolve como uma conversa que se vai tendo. É um livro de despedida, um adeus aos seus fiéis leitores, agora que o escritor fez 80 anos. “Partida”, escreve Barnes, é «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco». Julian Barnes escreveu mais de duas dezenas de livros, ganhou o Man Booker por “O Sentido do Fim” e a sua obra mais conhecida é “O Papagaio de Flaubert”. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - “A Mitologia Grega de A a Z”, do filósofo Luc Ferry, conta as origens do Olimpo, dos seus heróis lendários e todas as suas histórias. Aqui se recordam as aventuras de Ulisses, Zeus, Atena, Jasão, Hércules ou Afrodite e podemos compreender, de forma acessível, o legado da mitologia grega, que continua a habitar a linguagem de hoje e a servir de matéria prima para escritores e artistas das mais variadas áreas. Os mitos relatados por Luc Ferry permitem percorrer lições de vida e de sabedoria que perduraram ao longo dos séculos (Edição Guerra & Paz). Outro livro que percorre, embora de forma bastante diferente este universo mitológico é “A Odisseia de Homero”, mas sob a forma de uma novela gráfica, uma gigantesca obra de desenho e imaginação criada por Gareth Hinds ao longo de 250 páginas numa fascinante banda desenhada que reconstitui as aventuras de Ulisses. A “Odisseia” é um dos poemas épicos fundadores da literatura ocidental, atribuído ao poeta grego Homero, na época do século VIII antes de Cristo. O poema narra a longa e perigosa viagem de dez anos do herói Odisseu (Ulisses) para regressar a Ítaca após a Guerra de Tróia, enfrentando monstros, deuses e feiticeiras. Esta novela gráfica traz esta obra clássica a uma nova dimensão, visual, proporcionando a sua descoberta por novos públicos. 


 


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A BOSSA RARA - Nara Leão morreu cedo, aos 47 anos. Foi ela uma das grandes vozes da Bossa Nova, esse expoente da música popular brasileira, servida por talentos da escrita, da música e da voz como nenhum outro género depois. “A bossa rara de Nara” é o título de um álbum, agora publicado, com oito temas, gravações salvadas de um estúdio onde ela por vezes trabalhava. As gravações originais têm só a sua voz e o seu violão e foram encontradas pelo produtor Raymundo Bittencourt numa fita provavelmente gravada nos anos 80, quando ela trabalhava já com Roberto Menescal. Raymundo e Roberto juntaram-se na recuperação dessas gravações e conseguiram salvar a voz em boas condições em oito temas. Menescal juntou a sua voz, agora, como fazia frequentemente nos espectáculos com Nara. O produtor retirou o violão original das gravações e juntou o seu próprio e trouxe para estúdio Diógenes de Sousa no baixo, João Cortez na bateria e Leandro Freixo na flauta e teclados. Eis os oito temas do disco, todos eles clássicos da bossa nova: “Chega de saudade”, “Fotografia”, “Manhã de Carnaval” “Tristeza de nós dois”, “O barquinho”, “Você e eu”, “Diz que fui por aí” e “Wave”. Nara tinha uma capacidade de interpretação única, a sua voz namorava as palavras. Ouçam, está em streaming e é do melhor que tenho ouvido nos últimos tempos.


 


DIXIT - “Seguro fez uma campanha semelhante à que o publicitário Jacques Séguéla dirigiu em 1981, levando Mitterrand à Presidência sob o lema: “A força tranquila”. Da mesma forma, o “expulso” do PS português contrapôs a calma e a palavra escassa ao palavreado quase histérico de Ventura “  - Eduardo Cintra Torres, no Correio da Manhã.


 


BACK TO BASICS -  O homem sábio, quando descansa em segurança, fica atento aos perigos que podem surgir - Confúcio.


 


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fevereiro 07, 2026

O ADMIRÁVEL MUNDO DOS CACTOS

 


 


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Quando passeio a pé gosto de olhar à volta, seja onde estiver. Delicio–me com os pormenores, as coisas aparentemente escondidas que, de repente, me saltam à vista. A verdade é que passamos todos muito tempo a olhar para ecrãs, a atenção dirigida para um rectângulo luminoso, e a maioria das coisas que vemos são-nos dadas por algum intermediário: temos quem nos dê notícias, quem nos mostre filmes, quem nos faça descobrir novas músicas, quem nos proponha viagens e até quem nos explique alguma coisa que pretendamos querer saber. Mas nada disto substitui o prazer de olhar à nossa volta, seja numa rua ou num caminho no meio do campo. Olhar com atenção desperta a imaginação, olhar para o que está à nossa frente, ver as coisas bem de perto, sentir a sua forma e textura, leva-nos a descobertas . A beleza que desafia as convenções nasce onde menos se espera. Uma das coisas que me fascina é olhar bem de perto para um cacto, daqueles carnudos que se encontram à beira de um caminho. Muita gente não liga a estes cactos selvagens, mas eu gosto deles. São resistentes, marcam a paisagem, estão com bom ar todo o ano, sobrevivem às chuvas, ao vento e ao calor. E, parecendo iguais, são todos diferentes. Os seus caules carnudos são voluptuosos, têm forma e volume, enquanto os  espinhos são as suas folhas, que servem para os proteger. São umas plantas sábias, imprevistas, não há caules iguais. Este que hoje vos trago tem uma pequena janela aberta, circular,  por onde se pode espreitar o que se passa do outro lado. Combina a aparência opaca com transparência q.b. Se calhar tinha futuro na política.




fevereiro 06, 2026

A TEMPESTADE E O ESTADO

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O DESGOVERNO - O tempo não está para graçolas mas há coisas que parecem saídas de outro mundo. A actuação do Governo face à catástrofe que se abateu na região Centro, e em particular em Leiria, dava um filme que podia ter por título “Desaparecido em Combate”. As primeiras reacções demoraram horas, a falta de coordenação dentro do Governo e entre poder central e poder local foi gritante, com numerosos presidentes de câmara a afirmarem, mais de 24 horas depois da passagem da Kristin, que não haviam sido contactados por ninguém da Administração Central. No filme, a Ministra da Administração Interna, acusada de não dar a cara no meio da situação caótica, teve uma frase que ficará para a história do guionismo nacional : “trabalho em contexto de invisibilidade”. Mais tarde prosseguiu dizendo “não sei o que falhou, o sistema é complexo”. Já o produtor do filme, o Ministro da Presidência, Leitão Amaro, resolveu fazer um vídeo promocional, exibido nas suas redes sociais, mostrando-o em mangas de camisa a roer as unhas, com uma banda sonora emocionante, imagens a côr alternadas com um dramático preto e branco, e uma montagem ritmada, como se de uma aventura se tratasse. O realizador, Luís Montenegro, preocupado em não tomar posição sobre as presidenciais, teve também uma frase extraordinária para desculpar a inacção: “não conseguimos estar em todo o lado ao mesmo tempo”. E o Ministro da Economia recomendou às pessoas que se desenrascassem com o dinheiro dos salários - mesmo sabendo que muitas empresas locais terão dificuldade em os pagar. Em geral os governantes confessaram-se em estado de aprendizagem colectiva, às nossas custas, claro. O físico Carlos Fiolhais sintetizou o que se passa: “Embora ferida, Leiria existe, mas o governo não. Leiria existe sem o governo. Num contexto de alterações climáticas, temos de estar preparados para novas catástrofes, em Leiria e noutros sítios. E era bom que o governo passasse a existir.” O Estado português que consome 45% do PIB, falha na resposta a mais uma catástrofe, evidencia falta de liderança e uma aflitiva desorganização. Nas zonas mais atingidas pela tempestade há milhão e meio de eleitores, milhares deles ainda sem electricidade nem internet, centenas com casas destruídas, milhares de postos de trabalho em risco devido à destruição das instalações de muitas empresas. Estes eleitores, que durante 48 horas se viram abandonados pelo Governo, terão ânimo e vontade de votar? Se muita gente já tinha dúvidas sobre o funcionamento do Estado, os acontecimentos dos últimos dias reforçaram o sentimento de falta de confiança nos políticos. O que se passou é um péssimo serviço à democracia que só ajuda os que a querem enfraquecer. 


 


SEMANADA - O salário mínimo português caíu em 2026 para 12º lugar entre os 22 países da União Europeia e está abaixo da média da zona euro que é de 1346 euros; em 2025 a economia portuguesa cresceu 1,9%, abaixo da meta do Governo; a receita fiscal em 2025 aumentou mais de 3000 milhões de euros e o investimento público nesse ano desceu outro tanto; a receita do IMT ultrapassou no ano passado os dois mil milhões de euros, o valor mais elevado de sempre e que representa um aumento de 271% face a 2015; as contribuições de estrangeiros para a  Segurança Social no ano passado voltaram a subir de 3,6 mil milhões para 4,1 mil milhões e nos sectores da agricultura, pescas e florestas mais de metade das receitas vieram de trabalhadores imigrantes; um estudo de Fernando Freire de Sousa, professor da Faculdade de Economia do Porto, que compara 27 países europeus, coloca Portugal na 25ª posição em potencial económico e estrutura económica, na 27ª posição em desempenho social e estrutura social; a segurança social tem 854 imóveis devolutos de um total de 2561 que gere e as rendas por cobrar ultrapassam os 33 milhões; a CP tem mais de 30% da frota de carruagens dos comboios intercidades imobilizada nas oficinas por falta de pessoal e peças; o aeroporto de Lisboa atingiu um novo recorde de passageiros no ano passado, com 36,1 milhões de passageiros; os cinemas portugueses registaram no ano passado 10,9 milhões de espectadores o pior número desde 1996, com excepção da época da pandemia;   desde o início de 2025 já encerraram mais de meia centena de salas de cinema em todo o país e há vários distritos sem exbição comercial de filmes.


 


O ARCO DA VELHA - Em 2025 aumentou a actividade dos amigos do alheio e as autoridades registaram 6153 roubos feitos por carteiristas, sobretudo a turistas. Um dos detidos em flagrante delito é um reincidente de 71 anos que tinha no quarto telemóveis, dinheiro e cartões bancários roubados.


 


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ESCULTURAS PROVOCANTES - “Inverno” é a nova exposição de André Romão, um escultor que estudou em Lisboa e Milão e que recebeu em 2007 o prémio EDP Novos Artistas e o BES Revelação em 2013. Romão, 42 anos, apresenta agora na Galeria Vera Cortês esta nova exposição com oito obras, uma parte feita a partir de materiais encontrados, mas retrabalhados pelo artista, a partir de  fragmentos de madeira, cerâmica, bronze e outros materiais. Na imagem está “Ferida Fóssil”, uma escultura produzida a partir de uma peça de cerâmica vidrada dos anos 60, francesa, e coral vermelho mediterrânico. O trabalho de André Romão cruza-se com a poesia e neste caso parte de uma poesia de Yeats. Uma das peças, um fragmento de madeira retrabalhado, incorpora folhas  de árvore de cânfora do jardim da artista Lourdes Castro, no Funchal. Estas obras de Romão misturam técnicas e materiais e constroem novas realidades, abrindo numerosas possibilidades de interpretação. A exposição fica patente até 14 de Março na Galeria Vera Cortês, Rua João Saraiva 16-1º. em Lisboa.


 


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ROTEIRO“No Words” é  a nova exposição de Isa Toledo na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18)  e representa uma evolução assinalável no percurso criativo da artista, mostrando trabalhos que incorporam diversas técnicas e materiais com uma utilização constante de colagens. São 18 obras, todas da mesma dimensão (70x50). Na imagem Isa Toledo junto da obra “Carro da Ana”, na qual colocou aplicações de latão sobre flanela. Na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80) é apresentada “Works In Dialogue”, uma exposição colectiva de artistas ligados à própria galeria. E na Sociedade Nacional de Belas-Artes (Rua Barata Salgueiro 36), pode ver até 28 de Fevereiro a exposição “Nadir Afonso: Território de Absoluta Liberdade”, que apresenta 94 obras originais, entre pinturas, desenhos e estudos, incluindo sete grandes telas realizadas nos últimos anos de vida do artista.


 


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UMA MEMÓRIA - O destaque de hoje é um livro de fotografia, construído a partir do arquivo fotográfico de Álvaro Rosendo e que mostra a sua visão do que se passou no mundo da música, jornais e outras artes, nesse período explosivo de criatividade entre 1982 e 1996. Observador privilegiado, Álvaro Rosendo, que nessa época passou nomeadamente pelas redacções do “Blitz” e “O Independente”, acompanhou por exemplo a primeira digressão dos Xutos & Pontapés, mas também de bandas de culto dessa época como Peste & Sida ou Croix Sainte. Integralmente fotografado a preto e branco, com uma intensidade que só a proximidade dos fotografados proporciona, o livro traz, em cerca de 250 páginas, memórias de nomes como Rui Reininho, Madredeus, Rádio Macau, Rui Veloso, Sérgio Godinho, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira, Pedro Burmester, Maria João Pires, Carlos Paredes ou Inês de Medeiros, mas também de contemporâneos seus de fotografia, como Inês Gonçalves ou Daniel Blaufuks - e cito apenas alguns dos muitos fotografados. “Love Song” é um testemunho apaixonado de uma época, uma espécie de diário da aventura que foi percorrer esses anos.  Nesta empreitada Álvaro Rosendo teve a colaboração do radialista Henrique Amaro, ele próprio um dos protagonistas maiores, ainda hoje bem activo, e a concepção gráfica de Pedro Falcão. O livro está à venda exclusivamente através do site da editora, tintadachina.pt .


 


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MESA DE CABECEIRA - O título é certeiro:  “Impensável”. A neurocientista britânica Helen Thomson passou anos a viajar pelo mundo, investigando perturbações cerebrais raras. Neste livro conta as histórias de nove pessoas, desde o homem que pensa que é um tigre até ao médico que sente a dor dos outros apenas ao olhar para eles, passando pela mulher que ouve música que não existe.  A autora mostra como o cérebro pode moldar as nossas vidas de formas inesperadas e, em alguns casos, brilhantes e alarmantes. A edição é da Temas e Debates. Outro livro que vale a pena conhecer é “Relatividade”, de Albert Einstein. Escrito para leitores não especialistas, neste livro o físico apresenta as suas duas teorias da relatividade: a Teoria Especial, que trata da constância da velocidade da luz e da equivalência entre massa e energia; e a Teoria Geral, que explica de que modo a gravidade afeta a curvatura do espaço-tempo. Estas teorias revolucionaram a ciência e transformaram a forma como entendemos o universo, moldaram a física moderna e abriram caminho para a era espacial, a astrofísica e a tecnologia do nosso quotidiano. Edição Bertrand.


 


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SILÊNCIO -  “Stille” é o quarto álbum do músico de jazz dinamarquês Jesper Thorn, compositor e baixista. Stille, uma palavra dinamarquesa que tanto pode significar calma como silêncio, tem oito temas que, segundo o seu autor,  evocam a capacidade de a música ser um refúgio para parar e reflectir. Thorn é acompanhado por Marc Méan no piano, Andreas Bernitt no violino, Cecilie Strange no saxofone e Maj Berit Guassora no trompete. O grupo explora uma sonoridade muito própria do jazz nórdico, elaborando uma atmosfera musical que combina o lado intimista com o emocional. Edição ECM, disponível em streaming.


 


ALMANAQUE - Em Paris, no Jeu de Paume, um centro de arte focado na fotografia e no vídeo, está até 24 de Maio uma exposição dedicada à obra do fotógrafo inglês Martin Parr, recentemente falecido, e que exibe várias séries do seu trabalho realizadas a partir dos anos 70,  sob o título “Global Warning”.


 


DIXIT - “Em vez de proibimos a IA devíamos ter uma disciplina obrigatória e transversal a todos os cursos sobre o seu uso ético e responsável” - Luís Aguiar-Conraria, no Expresso


 


BACK TO BASICS -  "Exigência e intransigência são as primeiras palavras que me vêm à cabeça. E trabalho, muito trabalho, sempre e cada vez mais trabalho. O talento e a inspiração são coisas muito lindas, mas trabalhar, trabalhar, trabalhar" - João Canijo


 


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janeiro 31, 2026

MÉNAGE À TROIS

Juntaram-se os três à esquina a atirar água e a soprar forte. Deram cabo do que lhes apareceu pela frente. Chamam-se Ingrid, que foi a que chegou mais cedo, logo a seguir veio o Joseph e, como era muito brincalhão, chamou a Kristin, que desembarcou  com a promessa de ser a mais azougada. É um trio declaradamente cinematográfico, como veremos adiante. Este trio tem-nos atormentado, andou  a soprar forte por estas terras, regando-as copiosamente e salpicando-as dessa raridade nacional que é a neve. Dizem os meteorologistas que o trio, Ingrid, Joseph e Kristin, nasceu de uma depressão. Deve ter sido coisa de monta porque da forma como descarregaram em cima de nós as suas ansiedades parecia que estávamos sob ataque. Houve momentos, no início, em que a Ingrid e o Joseph mais pareciam Bonnie & Clyde, a rebentar tudo o que podiam à sua volta. Na altura pensei que este  tempestuoso casal se deve ter inspirado num dos casais mais afectuosos do cinema: Gomez e Morticia Adams, da família Adams. O  filme  tem uma das falas mais fantásticas das fitas, quando  Morticia se volta para Gomez e lhe diz: “Whenever we’re together darling, every night is Halloween”. A realidade, estamos nós a perceber, é que se sentiam sozinhos e chamaram Kristin para passar o Halloween a seu lado. Se eu fosse dado a maus pensamentos diria que estavam com vontade de um encontro a três. Os nomes são extraordinários. Um evoca Ingrid Bergman a estrela de Casablanca”, oscarizada  em “À Meia Luz”, outro o realizador Joseph Losey, o genial criador do picante  “Eva” e  de “O Criado”, e por fim o terceiro nome faz-me lembrar Kristin Davis, a Charlotte de “Sex In The City”. Assim se vê como as tempestades provocaram cinematográficos encontros.




janeiro 30, 2026

DE QUE SE RI MONTENEGRO?

 


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O SEMPRE A RIR - Ao fim dos quase dois anos que leva como Primeiro Ministro já é possível saber quais são as principais características de Luís Montenegro, a nível pessoal, no exercício do poder. De um lado há um conjunto de, digamos, obstinações, algumas a roçar o autoritarismo: tem dificuldade em encaixar a crítica, está convencido que nunca se engana, é de ideias fixas e não gosta de ser contrariado. Quando alguém lhe aponta alguma coisa faz-se logo de vítima e não hesita em ocultar factos, procurando adiar até ao limite informações que lhe são pedidas. Não é um político transparente, baseia toda a acção em jogadas tácticas e manobras de bastidores. Foi isso que fez dentro do aparelho do PSD até se tornar presidente do partido e é isso que faz como Primeiro Ministro. Quer o poder pelo poder e, como se tem visto, tem rumo incerto e inconstante. Nos últimos dias percebeu-se mais uma característica: apesar de estar sempre a sorrir quando fala, tem uma notória falta de sentido de humor. O sorriso que desenha permanentemente é como o do Joker, essa personagem do cinema com a cara distorcida por tanto ostentar um simulacro de sorriso. Socorro-me da IA:  “No filme “O Homem que Ri”, de 1928, o protagonista Gwynplaine, tem o rosto deformado num sorriso eterno e, mais do que uma expressão facial, esse sorriso representa o caos, a desordem e a desestabilização da psique humana”. Retomemos Montenegro: este homem sempre de sorriso afivelado em frente às câmeras, é o mesmo que entende mal o humor quando é ele o alvo. Pego nas palavras de Eduardo Dâmaso, no “Correio da Manhã”, a propósito das ameaças de Montenegro a quem fez uma sátira recente sobre ele: “Prefiro acreditar que quem diz e faz uma coisa daquelas é só muito ridículo. É como os Anjos contra Joana Marques. E isso é coisa que se cura com uma boa dose de humor e capacidade de rir de si próprio, que se recomenda ao senhor primeiro-ministro e acólitos. Prefiro isso a acreditar que o fazem por apanágio ideológico. Dou-lhes esse benefício da dúvida, da tolice, em vez de acreditar que, por absurdo, seriam capazes de mandar prender o Vilhena, ou o grandioso Bordallo pelas caricaturas e escritos de zoopolítica sobre a sua Grande Porca, a dita política, os seus Governos e ministros. Processar exercícios de humor fenece sempre numa enorme gargalhada.” Não é preciso dizer mais nada. 





SEMANADA - Segundo o INE 57% dos portugueses com mais de 64 anos usam diariamente a internet e 11% deles estão ligados cinco ou mais horas por dia; 58% dessas pessoas têm conta nas redes sociais e 11% deles estão online cinco ou mais horas por dia; 49% dos trabalhadores da agricultura, produção animal, floresta e pesca são imigrantes; 34% dos trabalhadores de alojamento e restauração são imigrantes; em Portugal no ano passado só um em cada cinco casamentos se fez pela Igreja Católica; em 2025 nasceram 89 162 crianças, mais 4520 bebés do que os registados em 2024, o valor mais alto dos últimos 13 anos; o custo do cabaz alimentar da Deco Proteste aumentou 9,67 euros desde o arranque do ano de 2026, atingindo o valor mais elevado em quatro anos (251,49 euros); na semana passada o Governo autorizou o abate de mais de um milhar de árvores protegidas, na sua maior parte sobreiros, e no total, só nos últimos dois meses, foi autorizado o abate de 9000 árvores; entretanto o Ministro da Agricultura sugeriu aos responsáveis do Instituto de Conservação das Florestas e Natureza que se poderia mudar  a lei para acelerar a aprovação de projectos e recomendou que sejam aprovados mais depressa os projectos que podem entrar em conflito com a lei; um jovem de 21 anos que foi detido pela Polícia Judiciária de Lisboa, por ter engravidado uma menor de 14 anos com deficiências físicas, ficou em liberdade por decisão do Tribunal de Sintra. 





O ARCO DA VELHA - Um inspetor da secção da Polícia Judiciária de Lisboa, que era instrutor de tiro, vai ser julgado quarta-feira por uma perseguição a tiro pelas ruas de Odivelas que terminou com um menor de 14 anos baleado duas vezes e um homem que nada tinha a ver com o caso atingido por uma ‘bala perdida’ quando estava sentado num passeio a beber café.


 


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SEM TÍTULO - João Paulo Feliciano tem uma longa e diversificada carreira a produzir obras em áreas como a música,  pintura,  desenho, colagem, fotografia, vídeo, instalação, luz, som e performance. Tem discos gravados, participou em bandas, criou espectáculos e teve um papel importante na bienal Experimenta Design. Quase desde o início deste século focou-se essencialmente nas artes plásticas e, hoje em dia, afirma que está sobretudo interessado em recuperar a capacidade dos artistas em fazerem composições visuais. Dos vários universos criativos que trabalhou ao longo da vida guardou referências que utiliza como artista plástico, desde  tecnologias que usou na música e em espectáculos até à utilização de imagens fotográficas como base de trabalho. Esta semana inaugurou a sua primeira exposição em Lisboa desde há dez anos e apresenta na Galeria Cristina Guerra duas dezenas de obras. A exposição assinala o seu regresso à pintura, confirmando a disposição em construir imagens, rejeitando as metáforas e retomando a pintura figurativa. Nem as obras nem a exposição têm qualquer nome e tão pouco existe uma folha de sala - “cada obra vale pela sua existência visual”, afirma João Paulo Feliciano que sublinha que esta mostra de trabalhos dos cinco últimos anos “é uma composição de assuntos individuais no espaço da galeria, não pretende dar corpo a um tema”. A exposição fica na Cristina Guerra Contemporary Art até 21 de Março (Rua de Santo António à Estrela 33.


 


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ROTEIRO - No Porto a Galeria Fernando Santos apresenta até 21 de Março a exposição de Raúl Cordero, “Pinturas para bater o recorde de 6 segundos” (na imagem), e as exposições de Pedro Valdez Cardoso, “O Sol quando nasce não é” e “The Great Unknown”. Ainda a norte Vila do Conde acolhe pela primeira vez a Mostra de Fotografia e Autores (MFA) entre 31 de janeiro e 15 de março, com fotografias de Alberto Picco, Ana Baião, Clara Azevedo, Fernando Negreira, Paulo Alexandrino e Ricardo Lopes.


 


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A SEGUNDA VOLTA - Há quarenta anos que não tínhamos uma eleição presidencial disputada a duas voltas. Estas presidenciais têm desencadeado um torrente de memórias do que então se passou. O Observador fez um bom podcast com muitas histórias de bastidores dos candidatos, pouco conhecidas, que mostram as peripécias do que então aconteceu e tem depoimentos esclarecedores, a RTP exibiu um documentário (disponível em RTP Play) com muitas imagens de arquivo que vale a pena conhecer e João Reis Alves, jornalista, fez este livro que hoje vos apresento - “A Segunda Volta- 1986 as eleições que mudaram o país”. Até dia 8 ainda há tempo de o ler (tem cerca de 200 páginas). Começa com um retrato do que foram os anos 80 em Portugal e termina com a tomada de posse de Mário Soares em Belém, depois de derrotar Freitas do Amaral e deixar pelo caminho Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo. João Reis Alves percorre os meandros da política portuguesa, numa altura em que a democracia era ainda uma conquista recente e o país enfrentava uma grave crise económica. Nessa época havia de tudo e o livro retrata as coligações que se formaram, o ambiente dos resgates do FMI, reviravoltas políticas, protagonistas carismáticos e bastidores agitados. O autor recolheu relatos na primeira pessoa, contextualizados por recortes da imprensa da época, recorda os incidentes, o ambiente dos comícios, os debates na televisão e os dias renhidos antes da votação da segunda volta. O livro faz um bom retrato dos candidatos e é um documento que nos ajuda a perceber o que se passa na política. Edição Contraponto.


 


IMG_9824.jpegMESA DE CABECEIRA -Trago-vos dois livros sobre o Japão. Um deles, “Uma breve história do Japão” proporciona uma viagem pela vida quotidiana dos japoneses ao longo do tempo. O autor, Christopher Harding, é um professor de História Asiática na Universidade de Edimburgo e permite compreender melhor o Japão, não se ficando apenas pelos relatos de acontecimentos históricos, explorando a visão do mundo dos japoneses através das artes, do teatro, da arquitectura, da comida e das artes marciais. São 200 páginas entusiasmantes, que se lêem de um fôlego. Edição Casa das Letras. O outro livro é uma peça deliciosa, “Lendas e Contos de Fadas Japonesas”, reúne histórias transmitidas de geração em geração, seis extraordinárias narrativas multisseculares, numa viagem fantástica ao imaginário japonês. O livro é maravilhosamente ilustrado, com reproduções de desenhos e  estampas japonesas, e leva-nos a um mundo de histórias em que a natureza e o sobrenatural andam de mãos dadas. Edição Guerra & Paz.


 


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A MELODIA DO BAIXO - Björn Meyer é um músico de jazz sueco que explora as potencialidades da guitarra baixo e “Convergence” é o seu segundo disco para a ECM. É um trabalho a solo em que o  músico explora  a forma como uma viola baixo, normalmente usada para acentuar o ritmo, pode construir melodias e desenhar texturas sonoras, de forma intensa, com um sedutor virtuosismo na sua execução. O disco foi produzido por Manfred Eicher, o homem que fundou a ECM, e o trabalho que ele e Meyer realizaram em estúdio, vai para além do óbvio e explora as potencialidades técnicas e overdubs. É raro que o baixo seja utilizado como instrumento melódico, mas é isso que acontece neste disco, quer quando Meyer toca baixo acústico ou elétrico. Edição ECM disponível nas plataformas de streaming.



ALMANAQUE - Se até 12 de Abril for a Londres não perca na Tate Britain a exposição “Turner & Constable: Rivals & Originals” que mostra em paralelo o mundo destes dois artistas. Nascidos há 250 anos, J.M.W. Turner e John Constable são dois dos maiores pintores britânicos, e ambos dedicaram-se a mostrar como a paisagem pode reflectir as mudanças que ocorreram à sua volta.


 


DIXIT - “O comportamento do presidente do primeiro partido, que também é primeiro-ministro, deve ser o de tomar partido, de optar, de ajudar a escolher e de se comprometer. O gesto de Luís Montenegro, presidente do PSD, foi errado e inaceitável. É sinal e retrato de uma triste covardia de quem não corre riscos. Resulta de um raciocínio calculista e medíocre - António Barreto, no Público.



BACK TO BASICS -  ”A velha ordem não vai voltar e não devemos lamentá-lo. A nostalgia não é uma estratégia” - Mark Carney


 


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janeiro 24, 2026

O MELHOR AMIGO DO HOMEM

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Em véspera de eleições, numa pacata loja de materiais de jardim, dei com este bicho. Meti-me à conversa com ele, obviamente com recurso à IA, e o canito  disse-me, com um ladrar metálico, que andava à procura de em quem votar. Eu já sabia em quem votaria e desejei-lhe boa sorte. Espero que o bicho tenha tomado uma boa decisão. Afinal o signo do Cão no horóscopo chinês representa lealdade, honestidade, justiça e um forte sentido  de dever. Já Milan Kundera dizia que "os cães são o nosso elo com o paraíso." Pus-me a pensar nos provérbios que a língua portuguesa dedica a esta espécie animal. Por exemplo, o conhecido “cão que ladra não morde” tem algumas variantes como “cão bom nunca ladra em falso”, ou ainda o sábio dizer “quando é velho o cão, se ladra é porque tem razão”, coisa que acontece também com muitos bons seres humanos. Outros provérbios se poderiam aplicar à política, por exemplo “cem cães a um osso“ ou o ajuizado “não acordes cão que dorme”. Nos meandros da política há outro provérbio muito usado, “quem não tem cão, caça com gato”. Quando os afazeres abundam vem logo à memória que se “está a  trabalhar como um cão”. E por vezes, no meio de uma conversa mais ácida, há quem pense logo que “quanto mais se conhecem as pessoas, mais se amam os cachorros”. Por outro lado não se deve “tratar  abaixo de cão”  quem nos desagrada, devendo sempre ter bem presente, mesmo nas mais duras discussões, que “os cães ladram, mas a caravana passa”. Para acabar em beleza aqui deixo uma frase do grande Charles M.Schulz, criador de Charlie Brown: “A felicidade é um cachorro quente”.




janeiro 23, 2026

O PAPEL DO PRESIDENTE DEVE SER ATEAR OU APAGAR FOGOS?

 


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QUE QUEREMOS? - O físico Carlos Fiolhais, com a sabedoria que lhe é reconhecida, colocou a questão da segunda volta das eleições presidenciais no ponto certo: “Há um candidato do regime e outro anti-regime. Estou em crer que, por muitos defeitos que tenha, o regime vai prevalecer.” E este é o ponto certo porque entre um candidato incendiário e outro que prefere combater as chamas não há muito que hesitar. De um lado temos António José Seguro, um candidato que em 2013, face ao memorando da troika, com o Governo de Passos Coelho a tentar tirar o país da bancarrota em que Sócrates o deixou, não hesitou em se mostrar disponível para um compromisso de salvação nacional, pedido pelo então presidente Cavaco Silva. Com essa disponibilidade, incompreendida pelo PS, acabou por ser afastado por António Costa. E do outro lado temos André Ventura, o dirigente de um partido que, socorrendo-me de um levantamento feito pela revista “Sábado” em Fevereiro de 2025, tinha então dezena e meia de responsáveis e dirigentes de vários níveis do Chega que estavam envolvidos em roubos, prostituição, violação de menores e pedofilia, violência doméstica e vários outros problemas com a justiça. O que queremos na Presidência: quem procura pacificar as tensões ou quem não consegue sequer manter a ordem dentro de casa? Espero que na campanha eleitoral para a segunda volta, ao contrário do que aconteceu na primeira, se fale mais do papel de Portugal neste agitado mundo em que vivemos: o que pensam os candidatos da interferência militar noutros países? Que acham das intenções de Trump de anexar a Gronelândia e se possível outros territórios? Quem aceita que é legítimo utilizar tarifas alfandegárias como arma coerciva? Quem quer que a Europa resista a Trump e à sua nova estratégia internacional baseada na estabilidade de relações com Putin e no combate à União Europeia e ao desmembramento da Nato? Que acham os candidatos de tudo isto? Estas são  questões sobre as quais temos que saber qual o pensamento do próximo Presidente da República. E sobre elas é melhor que os partidos do Governo tenham também posição e digam quem preferem ter em Belém.


 


SEMANADA - Segundo uma empresa gestora de fortunas, Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu; o risco de pobreza ou exclusão social  ameaça 2,1 milhões de pessoas em Portugal, numa percentagem acima da média europeia; o preço da carne subiu 45% em seis anos e o preço do peixe subiu 29%; o número de empresas ligadas ao sector imobiliário cresceu 20% no ano passado, o valor mais alto de todos os outros sectores económicos; no âmbito do programa Escola Segura a PSP encontrou 54 armas nas escolas portuguesas ano lectivo de 2024/25 maioritariamente armas brancas; mais de 80% dos directores de escolas dizem não ter recursos para assegurar a educação de alunos com necessidades especiais; vídeos de agressões realizadas em esquadras foram partilhados por 70 polícias em grupos de whatsapp e foram identificados dez episódios de extrema violência; existem 4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm contrato com o SNS; em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector público.


 


O ARCO DA VELHA - Na quinta feira da  semana passada existiam 108 milhões de dólares investidos em apostas nas eleições presidenciais portuguesas no Polymarket, um mercado online de apostas.


 


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CONVERSAS - Deliciei-me a ler “Susan Sontag - A Entrevista Completa da Rolling Stone” onde aborda temas que vão do corpo à espiritualidade, ao rock, feminismo, amores e sexualidade. Susan Sontag foi ensaísta, professora, crítica de arte, romancista, dramaturga e cineasta, é considerada uma das intelectuais americanas mais influentes do século XX. Escreveu, cerca de 20 livros, entre romances e ensaios sobre temas como fotografia, cultura e mídia. O autor da entrevista, Jonathan Cott, foi aluno de Sontag e, no final dos anos 70, durante alguns meses entrevistou-a, em Nova Iorque e em Paris. Na publicação original feita na revista “Rolling Stone” em 1979,  apenas foi utilizado um terço da entrevista. Cott decidiu em 2013 editar em livro todas a versão integral dessa série de conversas e é  esse livro que agora foi publicado pela Quetzal em Portugal. É  uma excelente forma de conhecer o pensamento de uma das mais importantes figuras da cultura contemporânea. São dela estas palavras:  “gosto de entrevistas porque gosto de conversar, gosto do diálogo, sei que boa parte do meu pensamento é o produto de conversas. De certo modo, o mais difícil da escrita é estar só e ter de conversar comigo própria, o que é fundamentalmente uma actividade antinatural”.


 


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MESA DE CABECEIRA - Um filósofo britânico, Tom McClelland, defende que uma das questões mais complicadas da actualidade é que a regulamentação em torno da IA está a avançar muito lentamente, enquanto o progresso na IA está a avançar muito rapidamente. A propósito disto ocorrem-me dois livros. O primeiro é do físico português Carlos Fiolhais e é um autêntico dicionário dos termos mais usados na Inteligência Artificial. Recolhe uma série de artigos semanais que Fiolhais fez para o Correio da Manhã publicados em “Inteligência Artificial de A a Z”,  uma edição Gradiva. Outro livro bem actual é “Tech Agnostic”, de Greg M. Epstein, um capelão do Massachusetts Institute of Technology que tem trabalhado nas implicações éticas do progresso tecnológico. O livro aborda como a tecnologia se está a tornar na mais poderosa religião do mundo e porque  precisa de uma reforma. A edição é da Temas e Debates.


 


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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  -  Até 31 de Maio poderá ver em Serralves, “Meteorizações”, uma exposição antológica de Filipa César que mostra um conjunto de trabalhos desenvolvidos ao longo de década e meia. Filipa César, que vive e trabalha em Berlim, é uma artista e realizadora portuguesa, nascida no Porto,  que se interessa pelos aspectos ficcionais do documentário. Esta exposição, com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento,  resulta de um trabalho de investigação em torno da história e da memória do movimento de libertação da Guiné-Bissau, cruzando arquivos, memória e história e desenvolvido desde 2011. Segundo a Fundação de Serralves, “o projeto aborda materiais fílmicos e documentais, práticas de circulação de imagens e modos locais de cuidar da memória visual, dialogando com o pensamento político e cultural de Amílcar Cabral, figura central do anticolonialismo do século XX.” A exposição integra filmes, documentos e materiais inéditos, desde obras iniciais da artista até produções mais recentes, e pretende desafiar o público a reflectir sobre a História do passado colonial.


 


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ROTEIRO - No Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (Rua Castro Matoso, 18) José Maçãs de Carvalho apresenta até 21 de Março  a exposição “21 minutes pour une image”.  A exposição apresenta trabalhos em fotografia  e em vídeo, recusando a oposição entre os dois suportes, e evidencia que a imagem em movimento não substitui a imagem fixa, antes a multiplica. A exposição (na imagem) tem curadoria de Daniel Madeira, e pode ser visitada de terça a sábado, das 14h00 às 18h00, com entrada livre. No Centro Cultural de Lagos Rui Sanches apresenta  até 4 de Abril“ Linha e mancha, corpo e máquina” uma exposição concebida para o Centro Cultural de Lagos, a partir de um conjunto de obras pertencentes à Coleção de Serralves e a importantes coleções em depósito na Fundação, abrangendo o trabalho de Rui Sanches ao longo de quatro décadas nas áreas do desenho e escultura. Esta mostra  integra o Programa de Exposições Itinerantes da Coleção de Serralves que tem por objetivo tornar o acervo da Fundação acessível a públicos de todas as regiões do país. Em Ponta Delgada, na Galeria Fonseca Macedo, Teresa Gonçalves Lobo apresenta um conjunto de novos trabalhos sob o título “A Ilha Como Nascente."


 


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BELAS CANÇÕES - Kurt Weil foi um compositor alemão que fez parte da sua carreira nos Estados Unidos e trabalhou com Bertolt Brecht em finais da década de 1920 na produção e criação de óperas e musicais, como "A Ópera dos Três Vinténs". Weil fugiu da Alemanha nazi e viveu e trabalhou nos Estados Unidos entre 1933 e a sua morte em 1950. A meia soprano Katie Bray pegou nalgumas das composições mais conhecidas de Weil, e noutras menos populares, e em conjunto com o pianista William Vann, o acordeonista Murray Grainger e o contrabaixista Marianne Schofield criou “In Search Of Youkali” um álbum que é uma viagem da vida de Weil enquanto compositor. O tema central do disco é precisamente o tema “Youkali”, que Weill compôs em 1935 inspirado na melodia do tango. Para Weil Youkali era a terra desejada, prometida mas nunca alcançada. O disco inclui temas cantados em alemão, francês e inglês, incluindo canções escritas por Weil para um musical baseado na  obra de Mark Twain “As Aventuras de Huckleberry Finn” no qual o compositor estava a trabalhar quando morreu. Destaque para as interpretações de “Barbarasong” , “Je ne t’aime pas”, “Surabaya Johnny”, “Happy End” e “Berlin Im Licht”, uma canção de 1928 que celebrava Berlim dos anos 20, antes de a cidade ter sido escurecida pela vitória de Hitler. Edição  Chandos, disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - A prestigiada  marca de produtos ópticos e fotográficos Leica tem há meio século uma fábrica em Portugal, perto de Guimarães. E tem  uma loja no Porto (Rua Sá da Bandeira 48), que além dos seus aparelhos fotográficos é também uma galeria. É nessa Leica Gallery que a fotógrafa portuguesa Matilde Veiga  mostra até 24 de Abril “Dia de Feira”, um trabalho que mostra o ambiente dos mercados tradicionais portugueses. O mesmo espaço recebe no início de fevereiro um workshop com o fotógrafo norte americano Todd Hido.


 


DIXIT -  ”A questão agora é simples: um socialista pode estar errado muitas vezes, mas um populista é perigoso todos os dias. Um socialista vive na mesma casa democrática do que eu, somos colegas de casa e até de quarto – como nesta segunda volta. Um chegano quer destruir esta casa onde vivo, quer a portuguesa, quer a europeia, quer a internacional. Qual é a dúvida?” - Henrique Raposo, no Expresso.


 


BACK TO BASICS -  “Tudo é passado na nossa vida. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando para cada vez mais longe” - Miguel Esteves Cardoso





A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




janeiro 17, 2026

O DESEJO NO OLHAR

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Corria o ano de 1955 quando foi filmada a célebre cena de “O Pecado Mora ao Lado” em que a saia de Marilyn Monroe é levantada pela saída de ar de um respirador do metropolitano, perante o olhar guloso de Tom Ewell, que com ela contracenava. A cena começou por ser filmada em Manhattan, mas juntou-se tanta gente a espreitar a beleza de Marilyn que o seu marido de então, Joe DiMaggio, uma estrela do baseball americano, causou um escarcéu tal que provocou a interrupção das  filmagens. Foram mais tarde retomadas em estúdio, já sem o preocupado marido presente e a histórica cena do filme, tal como a conhecemos, nasceu aí. O acaso juntou, numa das feiras de velharias que ao fim  de semana abundam pelo país, a imagem da saia esvoaçantemente reveladora de Marilyn com um coelho, outra grande referência do cinema, por via de Bugs Bunny. Adoro descobrir estes pares improváveis que se juntam: estão juntos na mesma feira de rua, mas de onde vieram? Estariam juntos em casa de alguém ou encontraram-se aqui? Quem seria que tinha em casa o grande poster da tentadora Marylin de saia levantada, olhando-a todos os dias? E como viveria o coelho de madeira entre as quatro paredes de uma casa? Andar pela rua a observar espicaça a curiosidade, desafia o olhar. Marc Riboud, um fotógrafo francês, tem uma frase de que gosto especialmente: “Tirar fotografias é saborear a vida intensamente, a cada centésimo de segundo”.






janeiro 16, 2026

ELEIÇÕES NO PAÍS DAS FILAS

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QUE FAZER? A figura do Zé Povinho foi criada há 150 anos por Rafael Bordalo Pinheiro, um homem cosmopolita que fundou oito jornais humorísticos, viajou por toda a Europa, viveu no Rio de Janeiro quatro anos, um grande amante do teatro e das artes visuais. Ao fundo do Campo Grande, em Lisboa, há um museu com o seu nome que tem agora uma exposição que dá uma boa ideia do que fez. Perspicaz observador da sociedade portuguesa, viveu entre 1846 e 1905 e deixou uma obra notável: foi caricaturista, ilustrador, fez trabalhos gráficos diversos, figurinista, e também ceramista, decorador, empresário caricaturista, ilustrador. Criou a figura do Zé Povinho em 1875, personagem resignado perante a corrupção e a injustiça, ajoelhado pela carga dos impostos, criticando de uma forma humorística os principais problemas sociais, políticos e económicos do país e ao mesmo tempo caricaturando o povo português, sempre revoltado contra a classe política, mas sem fazer quase nada para alterar essa situação. Que diria Bordalo face a este país que se tornou campeão das filas, seja à porta dos Pastéis de Belém, seja nos aeroportos, nos serviços de legalização de imigrantes, nos serviços de urgência, e, agora, até filas de ambulâncias à espera da devolução de macas nos hospitais. No boletim de voto das eleições de 18 de Janeiro há uma fila de candidatos, a maior de sempre, e até há três que não vão a votos, mas estão lá para confundir. No meio desta barafunda, que diria o Zé Povinho de tudo isto? Resignamo-nos aos políticos com experiência de nos enganarem, ou, nestes tempos difíceis, escolhemos alguém diferente, com provas dadas na defesa do país e fora das guerrilhas partidárias? Preferimos um árbitro ou um cúmplice? Para mim o papel do Presidente da República passa por chamar a atenção para os problemas que o Governo desvaloriza, deve ser a voz da realidade e não a voz do dono, e deve compreender a complexidade do mundo actual e os desafios geoestratégicos que se colocam internacionalmente. Só vejo um candidato nestas condições e chama-se Gouveia e Melo.


 


SEMANADA - Cerca de 1,6 milhões de portugueses vivem a mais de meia hora do hospital mais próximo e a chegada até um serviço de urgências pode levar mais que uma hora, dependendo da resposta do INEM; há vários concelhos em que o Hospital mais próximo fica do outro lado da fronteira, em Espanha, como é o caso de Melgaço; no fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família; em 2025 mais de metade das primeiras consultas no SMS foram feitas fora do tempo adequado; na última década o número de portugueses com seguros de saúde duplicou e ultrapassa agora os quatro milhões; dos mais de 89 mil bebés nascidos no ano passado 28% têm mãe estrangeira; Portugal está na 5ª posição na lista dos países mais envelhecidos do mundo, liderado pelo Japão, Itália, Finlândia e Grécia; Portugal é o segundo país mais caro em habitação da UE, apenas ultrapassado pela Hungria; Portugal foi o país da Zona Euro onde os preços das casas mais subiram no terceiro trimestre do ano passado, quando aumentaram 17,7% face a 2024; a pesca perdeu cerca de 34% da sua força de trabalho na última década e desde o início do ano, 13 pescadores morreram no exercício da atividade; segundo a Marktest em 2025 apenas 29% dos portugueses leu ou folheou a última edição de um título de imprensa; nos últimos seis anos foram apreendidas pelas autoridades policiais mais de 19 mil armas; mais de 850 presos exigem indemnizações do Estado alegando más condições nas cadeias.


 


O ARCO DA VELHA - A juíza de instrução criminal do Tribunal do Funchal, deixou em liberdade, com pulseira eletrónica, um homem de 31 anos constituído arguido por violência doméstica, e poucos dias depois o mesmo homem foi detido pela violação e roubo de uma prostituta de 47 anos, com ameaça de faca.


 


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UM CENTENÁRIO - Para celebrar o centenário do nascimento de Júlio Pomar é apresentada no CAMB- Centro de Arte Manuel de Brito, no Campo Grande, em Lisboa, uma exposição com uma seleção de obras de 1944 a 2004, que percorre praticamente todas as fases do artista. Júlio Pomar expôs na Galeria 111 durante quase meio século, é o artista mais representado na coleção Manuel de Brito e uma das obras expostas é este  “Tigre et Tortues”, de 1979. Na Galeria estão expostas 51 obras, sendo 28 de grandes e médios formatos e vinte três de pequenos formatos, estas últimas oferecidas pelo próprio Júlio Pomar. Na folha de sala da exposição destaca-se que “a exaltação dos corpos humano e animal que, por vezes se fundem, são uma prática constante” na obra de Pomar. E cita-se uma frase do artista no seu livro Então e a Pintura ? “O fim que me propus: inscrever na tela o vivo da vida”. Por outro lado, no Atelier Museu Júlio Pomar  continua até 5 de Abril a exposição “Húmus” que apresenta trabalhos de Júlio Pomar e Graça Morais, em contraste com obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, duas gerações artísticas distintas. A exposição põe em paralelo obras de Pomar com um extenso conjunto de desenhos pouco conhecidos, mas marcantes, de Graça Morais. A exposição fica patente até 5 de Abril. 


 


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ROTEIRO - O destaque desta semana vai para “Os Dias Mais Curtos”, de Joana Galego, na Galeria Belard (Rua Rodrigo da Fonseca 103B). É uma exposição invulgar:  entre os dias 22 de Dezembro, 2025 e 8 de Janeiro 2026, a artista ocupou o espaço da Galeria como seu atelier de trabalho (na fotografia) . Joana Galego criou ali uma colagem que cobriu as paredes e tecto de uma sala inteira, que depois usou como base para as suas pinturas, utilizando toda a superfície disponível, num trabalho que procura “eliminar as fronteiras entre a criação artística e o seu consumo e subverter o posicionamento  de uma galeria enquanto espaço neutro e estéril”. No CEFT - Centro de Estudos de Fotografia de Tomar pode ver  a exposição "Na paisagem do Médio Tejo - a Fotografia como mediação cultural", que  mostra o olhar de dois fotógrafos, António Ventura e Duarte Belo. Até este sábado pode ainda ver na Galeria 3+1 a exposição “Selva Oscura” de Tito Moraz. No sábado, pelas 17h00, decorre ali uma conversa entre o autor e outro fotógrafo, António Júlio Duarte. E na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Neri 42) pode ver duas novas exposições - na  Espaço Quadrado  está  “Encontros com a Ilha” de Luís Brilhante, que apresenta  catorze gravuras resultantes de uma temporada na ilha de São Miguel, nos Açores, e na sala e na Espaço Triângulo está “Escolha O Título”, do colectivo OTIA TVTA  formado por Agostinho Gonçalves, André Catalão, Eduardo Petersen e Paulo Lisboa.


 


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DE UM FÔLEGO SÓ - O novo romance de José Eduardo Agualusa, “Tudo Sobre Deus”, é bem diferente de “Mestre dos Batuques”, a sua anterior obra. O pano de fundo é sempre África, mas enquanto o “O Mestre dos Batuques” relatava uma aventura com um toque surreal, uma narrativa no domínio do fantástico que mistura acontecimentos históricos com as tradições e rituais do Bailundo, este novo “Tudo Sobre Deus” é um exercício de meditação sobre a vida e a morte, as relações familiares e a amizade. O livro conta a história de um homem que está a morrer e que procura um lugar onde possa passar os seus últimos dias. Encontra-o numa igreja abandonada, no meio do deserto, onde passa a viver, acompanhado do amigo que lhe resta neste fim da vida. Esta obra, que fica algures entre a ficção e a poesia, é assumidamente uma homenagem ao político e escritor senegalês Leopold Senghor. Ao longo da narrativa surge o relato de amores e desamores, os conflitos entre Pai e filha e o relato de uma amizade antiga que é o pretexto para uma das mais belas páginas do livro, onde Leopoldo Borges, o protagonista, se despede do seu amigo Inácio Brito Capitanga: “Nunca te disse, mas foi contigo que aprendi a verdadeira medida do silêncio que se pode partilhar sem constrangimentos. A ausência de explicações.” O livro deixa marcas, e lê-se de um fôlego só. África é o caderno onde Agualusa escreve os seus livros. Edição Quetzal.


 


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AUTOBIOGRAFIA MUSICAL - O primeiro disco português do ano saíu a 1 de Janeiro nas plataformas de streaming, é de Miguel Araújo e chama-se “Por Fora Ninguém Diria”. É um exercício intimista, em torno da vida pessoal do músico, depois de se ter separado e se ter reencontrado e redescoberto. Integralmente tocado por ele em todos os instrumentos, foi gravado ao longo de vários anos no seu estúdio pessoal. Numa entrevista recente ao Diário de Notícias, Miguel Araújo explica como chegou a este disco : “Desde que tenho o estúdio em casa, desde finais de 2018, que tenho uma ética de trabalho que é ir trabalhando quase todos os dias em pedacinhos de ideias, coisas soltas, algumas coisas mais concretas, umas mais acabadas, outras menos. E vou gravando. Vou gravando assim numa perspetiva descomprometida, sem estar muito a pensar se aquilo depois um dia vai ser editado ou não (...) O disco fala sobre separação, as músicas têm todas elas algum ângulo sobre esse processo, seja de uma pessoa com quem se teve uma relação amorosa, um amigo, ou alguma outra coisa, mas as músicas têm todas isso. Algumas têm uma coisa que é o pós-separação, a esperança que aí vem.” Com 11 temas, os mais marcantes e conseguidos são “Sinto Muito”, “As Vidas Que Esta Volta Dá”, “Charlie Brown” e o derradeiro tema, um manifesto musical intitulado “Eu Não Vou Mudar”. O título do disco é tirado da primeira canção, “Meia Vida”, onde Miguel Araújo se confronta consigo próprio. “Por Fora Ninguém Dirá” vai ser apresentado ao vivo numa série de espectáculos que arranca dia 14 de Fevereiro, em Vila Real.


 


ALMANAQUE - No início do ano cabe destacar que almanaque só há um: o Borda d´Água e mais nenhum. Sob o slogan “O Verdadeiro Almanaque”, o Borda d´Água está com 97 anos de idade, custa três euros e apresenta-se contendo “todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”, desde as fases da lua em cada mês até indicações sobre agricultura e jardinagem e as feiras e festas que se desenrolam ao longo do ano. Com tiragem de 100 mil exemplares, surge pela mão da Editorial Minerva. Todos os anos compro um.


DIXIT -”Coleccionar ambulâncias à porta dos hospitais porque as macas não são devolvidas (...) é só mesmo incompetência” - João Miguel Tavares, no Público


BACK TO BASICS -  “Tudo é passado na nossa vida. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando para cada vez mais longe” - Miguel Esteves Cardoso


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS