outubro 30, 2012

UM EPISÓDIO DE ABUSO

Aqui há umas semanas recebi uma notificação, oriunda de um departamento do DIAP,  para ser testemunha num processo, que é identificado apenas por uma referência numérica e não tem nenhuma indicação nem sobre os envolvidos nem sobre o assunto em causa. Enviei, no próprio dia que recebi a carta, por email, para o endereço eletrónico apontado na notificação, um pedido de informação que permitisse esclarecer minimamente ao que ía. Passadas duas semanas recebi, paradoxalmente por correio tradicional e não por email, uma nova carta, com uma fotocópia anexada, que reproduzia um despacho, de assinatura ilegível e sem referência à qualidade de quem proferia o dito despacho, que dizia isto: “Informo que o requerente assume a qualidade de testemunha e no momento da inquirição será informado dos factos em investigação”.


 


Parece uma anedota, parece um absurdo, mas na realidade é um exemplo do triste estado do funcionamento da nossa justiça e do total desprezo pelos cidadãos. Eu tenho o direito de ser informado ao que vou sem ser por um despacho absurdo como este. E o pior é que nem sei quem foi o responsável por isto – porque se esconde atrás de uma fotocópia sem assinatura ou cargo legível.


 


Isto é o abuso do Estado e o absurdo da Justiça, tudo em simultâneo. Indicam-me uma hora e um dia em que tenho de me deslocar, sob ameaça de multa e outras punições, e não me explicam minimamente o que pretendem de mim. Quem emite a notificação julga-se dono de um poder absoluto, isento de dar explicações e senhor do destino dos outros. Tem funcionários ao seu serviço que fazem fotocópias e enviam cartas por correio, em vez de ser o próprio a responder a um mail. É neste momento que temos a certeza de que falta fazer muito em matéria de reforma do Estado – e, já agora, de reforma da Justiça.


 


(Publicado na edição do Metro de dia 30 de Outubro) 

outubro 26, 2012

Sobre o carácter de Gaspar e outros temas candentes

PROVOCAÇÕES - Vítor Gaspar notoriamente é um homem informado, atento e estudioso; e é igualmente teimoso, insistente e orgulhoso. Todos sabemos como se tem enganado nas previsões (até as agências de rating o fizeram notar), como insiste em receitas rígidas e como nunca vê nem ouve o que não lhe interessa. A teimosia em demasia é muitas vezes confundida com estupidez; no caso de Vitor Gaspar, a teimosia parece ser também uma forma de provocação. Escolhe as palavras que ficam na memória, como o célebre “enorme aumento”. Conhece o peso político das palavras e frases que utiliza em momentos mediatizados. É o maior especialista em sound-bytes deste Governo. Nas últimas semanas fez, com uma regularidade espantosa, sucessivas provocações, sempre com o ar mais tranquilo do mundo – ao parceiro da coligação, ao Parlamento, a colegas seus Ministros. Até a declaração sobre a nota de Cavaco Silva no Facebook tem um travo incontornável de humor negro. Eu acho que o homem é um exímio provocador que tem prazer em pisar o risco com as palavras – vê-se- lhe isso nos olhos, na expressão. Ao princípio ainda se dizia que Gaspar era politicamente ingénuo; agora já se percebeu que é intencionalmente provocador. Por exemplo, esta semana anunciou que os portugueses querem mais do Estado do que os impostos que pagam, mas esqueceu-se de referir que o Estado é especialista em tirar aos contribuintes aquilo que eles já pagaram – nas reformas e pensões, para as quais descontaram durante a sua vida profissional. Já se sabe que o Estado não é pessoa de bem – e nessa matéria fica muito bem representado por Vitor Gaspar. Os burocratas, como cada vez mais se constata, acham sempre que baixar na despesa é difícil e que só se pode mexer nos apoios sociais – nem pensar em reduzir o peso do Estado já que é a sua enorme dimensão que garante o poder dos burocratas. Mas o mais aflitivo no Governo, e creio que o problema começa em Vitor Gaspar porque faz parte do seu perfil provocador, é o desprezo pela negociação – internamente e com a Comissão Europeia. Vitor Gaspar saberá o que é negociar? Terá ideia de que há outros países que têm conseguido negociar – nos prazos, nos juros, nos apoios, na flexibilização de algumas metas e que mesmo assim têm continuado abrangidos pelos auxílios da Troika? Mais valia Vitor Gaspar dizer que não gosta - ou não sabe – negociar e que prefere provocar. Negociar obriga a alterar modelos e dogmas – e provocar, não. Já me ocorreu que pode ser que Vitor Gaspar não saiba negociar ou que se incomode a pedir descontos. No dia a dia pedir descontos e ajustes faz parte da negociação. Eu gostava de ter um Governo que negociasse, em vez de ter um Governo que obedecesse. Preferia um Governo flexível, inteligente e hábil a um Governo marrão, inflexível e sem raciocínio.


 


COLIGAÇÃO - Nestas últimas semanas tenho estado inquieto com as pessoas que integram um Conselho de Coordenação da Coligação. Será que estão acamados e não têm podido agir, trabalhar, enfim, coordenar? Desde que esse Conselho foi criado há notícia de uma reunião inócua – aquilo a que se chama uma photo opportunity. Mas o Conselho conseguiu a proeza de passar invisível sobre toda novela orçamental, com as medidas anunciadas e retiradas, com os cortes e contra-cortes, com declarações públicas contraditórias de dirigentes e o rol de descoordenação a que se tem podido assistir nos últimos dias. Tenho uma ideia para esclarecer este assunto: de facto a Coligação já é apenas virtual, uma espécie de holograma político, e por isso nem faz sentido coordená-la.


 


SEMANADA – Um espião do SIS foi apanhado numa rede de lavagem de dinheiro; agências de rating duvidam dos números do orçamento de Vitor Gaspar; a receita com impostos recuou 4,7% entre Janeiro e Setembro; a contribuição per capita do IRS subiu 54% em dez anos; no final de Junho as contas da segurança social registaram o primeiro défice desde 2002; a dívida pública continua a crescer e aproxima-se dos 200 mil milhões de euros; o número de famílias que pediu insolvência aumentou 500% entre 2007 e este ano; mais de 200 famílias de guardas da GNR pediram insolvência; o número de portugueses que emigram deverá ultrapassar os 100 mil este ano; No espaço de dois dias o Governo cortou o subsídio mínimo de desemprego e depois recuou no corte; a receita com impostos recuou quase 4,7% entre Janeiro e Setembro, cerca de 1240 milhões de euros; o Banco de Portugal investiu mais de 40 milhões de euros em obras na sua sede, incluindo a criação do Museu do Dinheiro; uma manifestação contra o FMI em Lisboa registou mais polícias do que manifestantes junto aos escritórios da representação daquele organismo;


 


ARCO DA VELHA – Eis o regresso aos mercados: a banca portuguesa cortou o financiamento às empresas em 6,8 mil milhões de euros este ano, mas investiu, no mesmo período, 7,4 mil milhões em dívida pública. Como dizia o outro, o dinheiro não chega para tudo…


 


VER – Três sugestões esta semana: a primeira é uma visita à Carpe Diem (Rua Do Século 79) onde gostei especialmente de ver os desenhos “Lar Doce Lar…” de Cristina Ataíde, o vídeo “Cruzada” de Cinthia Marcelle, a instalação “Variações da Fé” de Hélène Vieira Gomes e Carlos Gomese a “Pintura Descolada” de Rosana Ricalde e Filipoe Barbosa; a segunda é a exposição de Maria Beatriz que assinala os 25 anos da Galeria Ratton (Rua da Academia das Ci~encias 2C), e que recolhe obras do final dos anos 70 e princípio dos anos 80 – desenhos e um belíssimo painel de azulejos – sob o título genérico “Um Lugar À Mesa”; finalmente até Domingo não percam a oportunidade de ver a exposição Blind Date, inserida na Lisbon Week, e que permite também descobrir o espaço, supreendente, da Biblioteca dos Paulistas - Igreja de Santa Catarina - Calçada do Combro, 82 - além de proporcionar um jogo de adivinhas sobre quem é o autor de cada obra exposta, todas do mesmo formato, mas não identificadas.


 


OUVIR – A carreira discográfica de Tori Amos começou há 20 anos com “Little Earthquakes”, na altura um disco surpreendente. Depois de incursões em várias áreas, da electronica à dança e até, pontualmente, ao hip-hop, Tori Amos como que fecha um círculo com “Gold Dust”, o seu novo álbum, agora editado pela Deutsch Grammophon – é uma revisitação de 14 temas feitos ao longo da sua carreira, provenientes de 10 dos seus 12 discos, aqui com novos arranjos e com o acompanhamento da holandesa Metropole Orchestra. Este não é um “best of”, no sentido que não são as canções mais conhecidas de Amos que ela escolheu – mas aquelas que por alguma razão são mais autobiográficas ou marcantes do seu ponto de vista pessoal. Na realidade este é um belíssimo cartão de visita para quem quiser conhecer ou revisitar a obra de Tori Amos.


 


FOLHEAR – Já aqui tenho dito que sou fã e colecionador do “Próximo Futuro”, um jornal editado pelo programa, do mesmo nome, criado pela Fundação Gulbenkian. A edição agora distribuída (nº11, Outubro/Novembro) – e que pode ser recolhida gratuitamente na Fundação e numa série de locais em Lisboa – tem um excelente artigo de António Pinto Ribeiro (que é o programador da iniciativa) intitulado “O Choque Civilizacional É No Interior De Cada País”, um bom portfolio fotográfico de Adonis Flores, uma ilustração com o traço inconfundível de Pedro Zamith e uma série de poemas de Fairdooz Tamini. Mais informações em www.proximofuturo.gulbenkian.pt.


 


PROVAR – Aqui e ali começam a ser reinventadas as padarias – que além de venderem pão, proporcionam pequenas refeições. Uma das mais recentes é “ O Pão Nosso”, que fica na Rua Marquês Sá da Bandeira 46B, perto da Fundação Gulbenkian. Lá provei um destes dias uma belíssima e tradicional tiborna de presunto e uma broa de mel que me trouxe sabores da infância. Na mesma ocasião levei para casa uns belos bagels, e fiquei com olho num bolo levedo, na broa de milho e na broa de avintes. Muito território a explorar. Mais informações e www.opaonosso.pt.


 


GOSTO – Da iniciativa de Zeinal Bava, na PT, que vai trazer a Portugal alguns dos maiores investidores mundiais para lhes apresentar soluções tecnológicas portuguesas.


 


NÃO GOSTO – De saber que a EMEL remunera os seus fiscais em função da quantidade de multas passadas.


 


BACK TO BASICS – Em Portugal a emigração não é a transbordação de uma população que sobra, mas a fuga de uma população que sofre” – Eça de Queiroz.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 26 de Outubro)

outubro 23, 2012

A PRODUTIVIDADE DAS MULTAS

Por estes dias ficámos a saber que os fiscais da EMEL ganham à multa. A administração da empresa chama-lhe incentivos à produtividade e elogia o bom desempenho dos funcionários que conseguem melhores resultados. Ora acontece que o bom desempenho dos funcionários da EMEL não se verifica na diminuição de carros estacionados em segunda fila nem em outras anomalias que prejudicam de facto a circulação. É sabido que há locais em que os funcionários estão praticamente escondidos à espera que algum incauto se coloque em posição de ser multado – ou porque foi trocar dinheiro, ou porque parou numa situação de urgência ou alguns outros motivos relevantes. Estes zelosos funcionários são pepe rápidos – aparecem, multam e fogem do local para não terem que ouvir os protestos dos cidadãos.


O problema é que a missão da EMEL evoluiu de um regulador do estacionamento para uma empresa caçadora de multas – não lhe interessando grande coisa resolver os problemas mas sim aumentar as receitas das coimas.


Era curioso que a EMEL disponibilizasse uma tipologia de multas aplicadas: quantas correspondem a segunda fila; quantas correspondem a estacionamento em zonas proibidas; quantos correspondem a ausência de ticket de parqueamento e quantas correspondem a estacionamento para além do tempo pago. A resposta a estas questões permitiria avaliar a natureza do serviço prestado pela EMEL. E já agora, qual o tempo médio de resposta a pedidos de desbloqueamentos – para se avaliar se é proporcional ao tempo que demora a bloquear.


A escandaleira é tal que até o atual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa veio recentemente admitir que havia muita coisa no funcionamento da empresa que o preocupava. Talvez pudesse, em ações, ser coerente com o que diz. Nós, lisboetas, agradecíamos.




(Publicado no Metro de 23 de Outubro)

outubro 16, 2012

O NOVO RITMO DO TEMPO

O mundo agora anda muito depressa. Tudo muda mais rápido que há uns anos. Vou dar um exemplo: no passado dia 5 de Outubro o Presidente da República tinha duas preocupações: fazer as celebrações da implantação da República à porta fechada; e evitar falar da situação do país. Escolheu falar da educação, louvando as suas qualidades. Fugiu assim de temas mais abrangentes e prementes, como a austeridade e os impostos.


 


No entanto, apenas poucos dias depois, de repente, no fim-de-semana passado, resolveu colocar no seu Facebook, o local onde passou a fazer as declarações verdadeiramente importantes, uma crítica à forma como a austeridade e  a política fiscal do Governo têm sido conduzidas.


 


Sabendo-se que Jorge Sampaio ía falar do assunto numa entrevista à SIC Notícias, onde iria abordar o tema da austeridade e dos impostos, restam duas possibilidades: ou combinaram ambos ter um discurso sincronizado, ou Cavaco – que já tinha ouvido palavras críticas em relação à situação, vindas de Ramalho Eanes e Mário Soares – resolveu alinhar no discurso para não estragar a festa – e para não parecer ser o único que não entendia a gravidade da situação.


 


Este modernismo facebookiano de Cavaco Silva é coisa recente – por exemplo no tempo que que tolerou que Sócrates fizesse as malfeitorias que se conhecem, nunca o Presidente da República deu pública nota de estar atento e vigilante. É certo que nessa época estava mais preocupado em não fazer nada que pudesse prejudicar a sua reeleição.


 


Aqueles que se habituaram à velocidade de resposta e evolução na internet e nas redes sociais olham com desconfiança para políticos que não reagem e – como Edson Athayde fazia bem notar esta semana – não entendem ciclos de tempo tão longos como legislaturas de quatro anos. Dá que pensar.


 


(Publicado no Metro de 16 de Outubro)

outubro 12, 2012

AS IMAGENS DE GASPAR

RETRATOS - Esta semana fiquei impressionado com duas fotografias de Vítor Gaspar: a primeira, na conferência de imprensa, do enorme aumento de impostos, de olhar alucinado; na segunda, no Eurogrupo, de sorriso satisfeito e matreiro, entre os seus pares. As duas imagens são o retrato perturbante de um homem que se tem enganado em todas as suas previsões, que tem falhado a maioria dos objectivos que estabeleceu para justificar as medidas que tomou, e que até agora nunca teve a capacidade de reconhecer que se enganou. Passei a semana à espera que ele dissesse que tinha errado, que algures se tinha enganado. Nada. Não justifica sequer porque é que calculou tão mal o efeito das medidas que tomou, sem restrições – note-se -  no decurso do último ano. Até o FMI já veio dizer que calculou mal o impacto da austeridade e mesmo Catroga veio distanciar-se das novas medidas fiscais anunciadas. E para onde vai todo o dinheiro dos impostos? De tudo o que é colectado, nada vai para pagar a dívida, mas no Governo não se fala disto. Continuamos, como se sabe, a acumular défices. Continua a ser tudo para o Estado gastar e mesmo assim não chega. Todo o esforço não é suficiente para equilibrar as contas. O que se passa no Governo é o retrato do país: Só o Ministro das Finanças pode falhar e nada lhe acontece; mas contribuinte que falhe, é executado.


Há dias, no Facebook, li um relato que me fez pensar: “Hoje, em conversa com uma alemã comum, perguntei-lhe como olham os alemães comuns para Portugal. Esperando uma resposta do tipo "passam o tempo na praia" obtive " o que vemos é sobretudo um país com muita corrupção, parece ser o vosso maior problema". É verdade: temos um monte de PPP’s, de escândalos como o BPN, de negócios sucateiros, que são a face evidente da pior das ineficiências, que é a falência de uma justiça que favorece objectivamente a corrupção porque, ao não funcionar, garante a impunidade. Portugal é, aos olhos de quem nos visita, uma república das bananas onde os habilidosos se safam e o Estado continua sem nada fazer a não ser gastar o que não tem.


 


 


SEMANADA – A quebra de receita do Estado provocada pelos efeitos da subida do IVA na restauração é estimada em 947 milhões de euros; 11 mil policias estão em trabalhos de secretaria, fora de funções operacionais, o que significa cerca de 25% dos agentes da autoridade; nos primeiros seis meses do ano aumentaram 33% os casos de assassinato que já ultrapassam a centena até final do mês passado; no hospital da Guarda os vivos dormem com os mortos nas enfermarias porque a morgue fecha durante a noite; uma das razões da perca de competitividade das nossas empresas reside nisto: o financiamento das pequenas empresas na banca em Portugal é o mais caro da zona euro – 7,79% contra 4,15% ; o crédito malparado atinge 15,6 mil milhões de euros; o desemprego de longa duração sobe 14%; 300 mil inscritos nos centros de emprego não estão a receber qualquer subsidio; os impostos pagos sobre a gasolina e o gasóleo já são praticamente o dobro do custo do combustível propriamente dito; o Governo quer aumentar tabaco de enrolar em 30%; Portugal está em segundo lugar, a seguir à Argentina, na lista dos países com maiores subidas de impostos; figuras do PS lançaram o nome de José Luís Judas para candidato à Câmara Municipal de Cascais; no 5 de Outubro António Costa parecia já o líder da oposição e não o Presidente da Câmara de Lisboa.


 


ARCO DA VELHA – Um livro de poesia para adultos, de Alice Vieira, sobre o amor, foi incluído numa lista de leituras recomendadas para alunos do 2º ano de escolaridade e foi preciso a autora vir alertar para o facto.


 


GOSTO – A Universidade de Limerick, na Irlanda, vai organizar uma conferência, intitulada “Strange Fascination”, para estudar o impacto cultural da obra de David Bowie.


 


NÃO GOSTO - No final do terceiro ano do programa de ajustamento, Portugal terá menos 500 mil empregos do que tinha quando pediu ajuda externa.


 


VER – Pedro Cabrita Reis inspirou-se em coisas simples da terra para uma nova série de desenhos que expõe na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, ao Chiado). Com o título “D’Après Nature (possibly...)” estão reunidas obras em que, entre os materiais usados nestes desenhos sobre papel, estão café, azeite, vinho, beterraba ou mel, alem, claro de grafite. Os produtos são maioritariamente oriundos da quinta que Cabrita Reis tem perto de Tavira –  as paisagens locais têm aparecido por diversas vezes na sua obra mais recente. “Trago-vos ainda o mutismo das árvores que aos poucos apaziguamos em febre dourada,  sanguínea e, por fim, negra, que verte dos cachos e flui, purificando os sentidos dessa outra inútil pureza, a do pensamento” – escreve o artista no texto que acompanha a exposição. São cores do Outono estas que percorrem as imagens da natureza assim desenhadas por Cabrita Reis – tranquilas, por vezes provocantemente tranquilas.


 


OUVIR – Confesso que gosto de discos pop, simples e delicados, uma raridade hoje em dia, perdidos que estamos entre produtos pré-fabricados com vozes muito bem afinadinhas e corpos a condizer, feitos para a fotografia, ou o vídeo, mais que para os ouvidos. Felizmente de vez em quando aparece um disco que recupera o prazer da música popular, o prazer de partilhar a diversão, como este “Coexist”, dos XX. Depois do enorme êxito do disco inicial, “The XX”, e da respectiva digressão, o grupo esteve afastado dos palcos e entreteve-se a ir a clubes e a dançar. Parece que daí nasceu uma atracção pela música e os ritmos de dança e Jamie Smith, um dos elementos da banda, desenvolveu uma carreira paralela de DJ. “Coexist”, o novo álbum, vai buscar ambientes e inspiração por exemplo à house-music em temas como “Sunset”. Mas a essência de “Coexist” continua a ser o despojamento e a simplicidade, tão evidente e atraente em canções como “Our Song”, “Missing” ou “Tides” – onde a guitarra de Romy Madley Croft tem um simples e incontornável diálogo com o baixo de Oliver Sim, uma extensão dos diálogos vocais que ela e ele tecem canção após canção. A guitarra de Rodley Madley Croft, quase que me arrisco a dizer a evocar Vini Reilly nos Durutti Column de há anos atrás, é um ponto incontornável dos XX e é para esse tempo - dos Durutti Column, dos Young Marble Giants ou dos Cocteau Twins de então.


 


 


FOLHEAR – A revista “Wallpaper” foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, e o êxito foi tão imediato que um ano depois a estava a vender à Time Warner. Brulé continuou como editor até 2002 e, cinco anos depois, lançou a “Monocle”, que continua a dirigir. Nestes últimos anos a “Wallpaper”, sob a direcção de Tony Chambers, que sempre foi marcada pelo forte uso da imagem, dedicou-se cada vez mais ao design, à arquitectura, à moda mas também às viagens – a sua colecção de guias de cidades é célebre (alguns títulos estão editados em português). De vez em quado surge uma edição especial, quase para coleccionadores, como esta de Outubro, que tem três capas diferentes, cada um feita por um dos editores convidados: a fotógrafa Taryn Simon, o arquitecto Ole Scheeren e o pianista Lang Lang (e cada um deles tem direito a um extenso portfolio no interior). Escolhi a capa de Taryn sSiom, “The Picture Collection”, e as 16 páginas que ela criou para a revista são verdadeiramente arrebatadoras. Curiosidades adicionais: um artigo sobre novas tendências do design brasileiro, o guia dos melhores novos hotéis para viagens de trabalho, e a sugestão culinária do mês: ameijoas à Bulhão Pato, numa receita dada e preparada pelo português Pedro Cabrita Reis


 


PROVAR – Volta e meia apetece-me um bife. Um clássico, com batatas fritas. Carne bem cortada, cozinhada no ponto, obviamente com ovo a cavalo. Mão sabedora levou-me, em Aveiro, a um local que depois vim a saber tratar-se de um templo do bom bife. Adequadamente chama-se Alexandre dos Bifes e fica no nº 14 do Cais do Alboi (telefone             234 420 494       ). Que distingue este bife dos outros? Alem da qualidade da substância, a excelência do tempero: parece levemente marinado, os sabores bem entranhados na carne, não é uma coisa feita à pressa na frigideira. As batatas fritas não saíram do congelador para o óleo – são às rodelas, cortadas à mão, deliciosamente irregulares. O pão, fresquíssimo, para tratar do ovo, vem aos nacos suculentos. Ao almoço é um corrupio, mas vale a pena esperar por uma mesa.


 


BACK TO BASICS – Um fanático é alguém que não muda nem de pensamento nem de assunto – Winston Churchill




(A ESQUINA DO RIO 481 - Publicada dia 12 de Outubro no Jornal de Negócios)

outubro 09, 2012

UMA ESTUPIDEZ SEM LIMITES

Continuo estarrecido com as alterações ao trânsito no Marquês de Pombal e na Avenida. Quanto ao Marquês registo que às horas de ponta continuam os engarrafamentos no Marquês, que se repercutem pelos diversos acessos e a situação é agravada porque a temporização dos semáforos em Lisboa anda perfeitamente enlouquecida. Quem entra na rotunda do Marquês de Pombal vindo do túnel e queira subir a Duque de Loulé, não pode fazê-lo. Tudo a bem da fluidez e conforto, claro.


 


Eu fico estarrecido com a forma como funcionam os responsáveis do trânsito em Lisboa, a começar pela cabeça do vereador que inventou esta experiência. Será que depois não controlam os efeitos do que fazem? Não fazem estudos a várias horas e em vários dias dos efeitos das suas ações? Ou faz parte do estilo e do objetivo estarem-se nas tintas para os lisboetas que, apesar da perseguição e da evidente má vontade, persistem em utilizar o seu automóvel ou motociclo, pelo qual pagam aliás taxas à cidade? A Avenida da Liberdade é um engarrafamento constante no sentido ascendente, a qualquer hora.


 


A circulação nas faixas laterais é ainda pior. Um caso extraordinário é o de quem desça a Rua do Salitre e queira entrar na Avenida da Liberdade. Depois das transformações deixou de se poder prosseguir em direção aos Restauradores – a menos que se vá dar uma volta à Praça da Alegria, transformada em circuito para gincanas. Enfim , uma pequena experiência para moer a paciência e tornar a vida um pouco mais stressante e desconfortável.


 


As alterações feitas, a título experimental, custaram até agora mais de 800.000 euros. Provocam autênticas gincanas, mal sinalizadas. Os efeitos estão à vista – será que na Câmara Municipal de Lisboa a estupidez não tem limites? Será que não existiam outras prioridades para gastar o dinheiro? 


 


(Publicado no Metro de 9 de Outubro)

outubro 04, 2012

O PROBLEMA DA REMODELAÇÃO TEM NOME

PROBLEMA – Aqui há umas semanas alguns Ministros tinham-se tornado num problema potencial. Eram, na gíria corrente, remodeláveis. De repente aconteceu uma coisa extraordinária: o Primeiro Ministro tornou-se ele próprio num problema, maior que qualquer dos candidatos a remodelação. Isto coloca uma questão terrível que está, aliás, no centro da crise política clandestina – aquela que continua a existir, larvar, a desenvolver-se em surdina, sem ninguém a ver. Como remodelar o Primeiro Ministro? É este problema que está a minar o funcionamento do Governo e das instituições. As divergências públicas com o Primeiro Ministro são numerosas dentro do seu partido, são abundantes no seu parceiro de coligação e são naturalmente constantes na oposição. Por isso mesmo não falta quem defenda uma solução à italiana – arredar quem deixou de poder mandar e ir buscar alguém não eleito. É um caminho perigosíssimo, mas que vai ganhando peso até entre os mais insuspeitos. Ninguém quer eleições, ninguém vê a possibilidade de uma alternativa no actual espectro político-partidário, já poucos acreditam, inclusivamente, que Passos Coelho tenha capacidade de encontrar pessoal politico credível para uma remodelação. Basta ver a forma como os mais recentes dislates tiveram tão pouca gente, no núcleo duro do PSD e do Governo, disposta a defender a honra do convento.


A situação é agravada pelo falhanço objectivo das politicas seguidas – a despesa efectiva do Estado não foi reduzida, a receita fiscal diminuiu apesar dos aumentos de impostos, o défice não foi controlado e ultrapassou todas as previsões. As estimativas saíram furadas.  Objectivamente houve incompetência e desconhecimento da realidade, e aqui as culpas são da equipa de Vítor Gaspar.


Mas pior que isso, a actuação do Primeiro Ministro e dos seus mais próximos, que oscila entre a ocultação de factos e o insulto a quem deles discorda, minou a credibilidade do executivo. Passos Coelho começou a fazer, em matéria de ocultação, aquilo que há pouco mais de um ano criticava a Sócrates. Os dados agora conhecidos sobre a apresentação, esta semana, em Bruxelas, de um conjunto de medidas alternativas à TSU, mais uma vez baseadas no aumento da carga fiscal, veio repetir o desprezo pelo diálogo com os parceiros socais e  o líder da oposição. Ou seja, uma falta de respeito pelo país e pelas instituições. A confiança está abalada. Sabe-se que, antes do anúncio das medidas da TSU, o Primeiro Ministro falou com vários anteriores dirigentes do PSD que, maioritariamente, lhe fizeram ver os perigos do que ele preparava. Fez ouvidos de mercador e assim conseguiu que o seu Governo deixasse de ser respeitado, mesmo no seu próprio campo politico. Há Ministros e Secretários de Estado que deixaram de frequentar os seus restaurantes habituais para não serem mais hostilizados. Refugiam-se numa torre de marfim e perdem, ainda mais, o contacto com a realidade. Hoje em dia o Governo existe apenas por falta de alternativa, que é a pior das mortes lentas. No estado em que as coisas estão o Governo perdeu autoridade e resta-lhe o autoritarismo, que de resto, aqui e ali, ensaia aparecer.


 


SEMANADA – Desde Janeiro a economia portuguesa já destruíu 71 mil empregos, uma média de 858 por dia; o desemprego atingiu os15,9% e cresce quatro vezes mais rápido que na União Europeia;  a papa Nestum cresceu 7% de vendas no primeiros semestre, mais 140 toneladas; três mil advogados têm quotas em atraso à respectiva Ordem; criou-se um impasse na escolha do novo Procurador Geral da República; O Ministro das Finanças recusou mais uma vez ir ao Parlamento; o Ministro das Finanças informou a Comissão Europeia e o FMI sobre as medidas de austeridade alternativas à Taxa Social Única, antes de as comunicar a quem devia, em Portugal; Politicamente a semana que passou pode ser resumida numa frase postada no Facebook: “o novo porta-voz do Governo chama-se Durão Barroso”.


 


ARCO DA VELHA – Esta frase é de 15 de Março de 2011 e foi, nessa altura, proferida por Passos Coelho e nos últimos dias tem sido partilhada nas redes sociais: “O líder do PSD acusou hoje o Governo de «deslealdade e falta de respeito pelo país» por ter ocultado as medidas que estava a negociar com Bruxelas, considerando que isso põe em causa a confiança dos portugueses no executivo... Considero isso de uma deslealdade e de uma falta de respeito pelo país, pelos portugueses, pelas instituições, suficientemente grave para pôr em causa a confiança que o país tem em quem o governa”.


 


VER –Da nova série de exposições  que na semana passada abriu no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84), destaco a colecção de desenhos “Roger Uttama” de Joana Rosa, os trabalhos de Hugo Barata na colectiva “DIG DIG: Digging For Culture in a Crashing Economy” e, sobretudo, as obras de Inez Teixeira, Lluis Hortalà, e Pauliana Pimentel na colectiva “O Sonho De Wagner”. Nos quatro espaços do edifício vai estar até 4 de Novembro um conjunto alargado de obras que, exposição após exposição, são como um manifesto do estado da nação em matéria da criação artística contemporânea. Polémicas às vezes, surpreendentes noutras, previsíveis em algumas, as exposições da Transboavista são no entanto incontornáveis no panorama das galerias lisboetas.


 


OUVIR – Cecilia Bartoli é um caso à parte no mundo da música. Os seus últimos discos têm sido trabalhos de investigação, sobre repertórios pouco conhecidos, em vez das habituais colectâneas de árias famosas ou interpretações das óperas mais clássicas e procuradas pelos melómanos. Assim, em 2007, editou “Maria”, uma homenagem a Maria Malibran, uma soprano célebre no século XIX que se destacou a interpretar Rossini. Depois, em 2009, editou “Sacrificium”, recolhendo árias propositadamente escritas para castrati. E agora lança “Mission”, um trabalho dedicado às óperas de Agostino Steffani, uma figura enigmática do século XVII que fez nome na igreja,  na politica e na música. Como nos anteriores trabalhos a pesquisa histórica é rigorosa, o cuidado na produção musical é exemplar e o disco é apenas uma das peças de um conjunto de edições, que incluem um livro e um documentário. Bartoli, além da excelência da interpretação, impõe-se a si própria um novo patamar, de produtor multimédia. E sempre com uma qualidade intocável – e ouvindo este “Mission”, adivinha-se, com um prazer e intensidade que a música barroca de Steffani tão bem exprime. (CD Decca/Universal)


 


FOLHEAR – Na “Vanity Fair” de Outubro destaco um excelente artigo sobre os 50 anos de 007 – na realidade , como a capa da revista diz, a história inédita de como a saga de James Bond nasceu e cresceu. Outros  motivos de interesse são uma reportagem sobre os bastidores da igreja da Cientologia , uma antevisão de quem serão as próximas estrelas da economia digital de Silicon Valley e, em época de presidenciais norte-americanas, uma entrevista/ reportagem sobre Obama na casa Branca, assinada por Michael Lewis.


 


PROVAR – O Rubro é um restaurante na Praça de Touros do Campo Pequeno, onde se pode ir petiscar com a certeza de sair bem servido. Gostei muito do pica-pau de entrecôte, do revuelto de ovos com farinheira, dos espargos verdes na chapa (mesmo no ponto) e dos indispensáveis pimentos padron. A imperial é bem tirada e a lista de vinhos é interessante – nas opções a copo e à garrafa. O funcionamento é em mesas compridas com bancos corridos de um lado e outro e o serviço é atento. Para a qualidade do que se picou o preço é razoável. Telefone             210 191 191      .


 


GOSTO – Título da semana: “Eu tenho uma vida fora do facebook, só não me lembro da password”.


 


NÃO GOSTO – Nos ultimos dez anos o concelho de Lisboa continuou a perder habitantes para os concelhos vizinhos e acentuou-se a desertificação de zonas do centro da cidade.


 


BACK TO BASICS –  Por mais entusiasmante e atraente que seja uma determinada estratégia, convém de vez em quando olhar para os resultados – Winston Churchill


 


(publicado no Jornal de Negócios de 4 de Outubro)

outubro 02, 2012

AVALIAR QUEM GOVERNA A CIDADE

Mais ou menos daqui a um ano vamos ter eleições autárquicas. Inevitavelmente vai existir uma componente política, que tem a ver com a reação dos eleitores à política do Governo e é previsível que o PSD seja penalizado.


 


No entanto, se olharmos para a política autárquica, faz mais sentido ver o que o partido no poder, em cada caso, conseguiu fazer. Peguemos no caso de Lisboa. Qual o balanço de António Costa na cidade? Conseguiu estancar a hemorragia de gente que abandona Lisboa? Reduziu os impostos aos habitantes na cidade? Criou incentivos para trazer habitantes para o despovoado centro? A cidade ficou mais confortável para quem cá vive de facto? António Costa está a trabalhar para quem visita Lisboa ou para quem cá paga impostos?


 


Estas perguntas não são insignificantes  e as respostas que elas suscitarem deve nortear o voto das pessoas daqui a um ano. O sentido do voto é fazer a avaliação do mandato executado. No caso de Lisboa é o mandato de António Costa que deve ser avaliado e votado, e não o de Passos Coelho, no Governo.


 


As pessoas concordam com a prioridade dada ao investimento em  ciclovias? Estão de acordo com os custos incorridos com as alterações ao trânsito na Avenida e no Marquês? As pessoas que pagam impostos em Lisboa estão satisfeitas com o estado de limpeza das ruas? Acham que a Câmara tem velado pelos seus interesses? Acham que tem protegido o comércio de rua e fomentado o emprego na cidade? Estão de acordo com a forma como a EMEL funciona, com as multas, com os quantitativos que cobra, com a forma como atua?


 


Quem vota em Lisboa deve pensar no que tem ganho com o que se passou na cidade nestes anos em que Costa e a sua coligação têm tido o poder. Querem continuar com a política que ele desenvolveu, ou querem mudá-la? Eu gostaria de a mudar.


 


(Publicado no Metro de hoje)

setembro 28, 2012

PROMESSAS ESQUECIDAS NUM TEMPO DE MÁ MEMÓRI

PROMESSAS – Num escasso ano de Governo, Passos Coelho falhou duas formas diferentes de promessas políticas, ambas desastrosas para o funcionamento do nosso sistema. A primeira, que começou pouco tempo depois das eleições, tem a ver com o renegar do que foi prometido durante a campanha eleitoral; a segunda, ainda mais grave, tem a ver com o falhanço do cumprimento de objectivos usados para justificar as medidas de austeridade. Os indicadores da economia estão todos a piorar – o défice continua a derrapar, o desequilíbrio aumenta, o desemprego também, a colecta fiscal diminui apesar do aumento generalizado dos impostos. O Governo não falhou porque recuou em medidas que tinham sido preparadas e apresentadas à pressa e de forma amadora, falhou porque não alcançou as metas que traçou, apesar de ter podido fazer tudo o que pretendeu no orçamento de Estado actual. O balanço do exercício do primeiro orçamento elaborado, aprovado e gerido pela equipa de Passos Coelho está longe de ser brilhante . É claro que com uma prestação destas o fugitivo de Paris deve estar a rir-se, apesar dos milhões que desbaratou e da situação que criou. Quem não acha graça a isto somos nós , eleitores sempre enganados, cidadãos sempre abusados, entalados entre o que se vai descobrindo de falcatruas antigas e o que se vai vendo de políticas irrealistas falhadas.


 


FISCO - O Supremo Tribunal Administrativo deu razão a um cidadão que se queixou porque uma nota de pagamento do IMI, recebida da Autoridade Tributária, não cumpria a lei, já que não explicava como chegou ao valor que pretendia tributar. O caso, que na opinião de juristas pode fazer jurisprudência e pôr em causa cobranças efectuadas do IMI nos últimos anos, vem também colocar sob escrutínio as novas avaliações de imóveis que estão a ser efectuadas, e que devem ter incidência no futuro próximo. Por outro o caso lado comprova a displicência com que a Autoridade Tributária actua, não zelando pelo cumprimento da lei, e regendo a sua actividade sob o lema de cortar caminho, desprezando os direitos dos contribuintes. O contribuinte que moveu o processo, que persistiu até ao Supremo e que no final venceu o fisco, é uma excepção entre os milhões de contribuintes silenciados pelas ameaças constantes da Autoridade Tributária, vítimas de lapsos e de atrasos, e sem recursos para poderem protestar e levar o caso á justiça. O Provedor de Justiça faria bem em exercer a sua autoridade sobre o fisco, utilizando esta decisão do Supremo Tribunal Administrativo para defender os direitos dos cidadãos. Nenhum contribuinte alemão, desse país de que Vítor Gaspar tanto gosta,  toleraria comportamentos como os da Autoridade Tributária portuguesa.


 


SEMANADA – Em cada dia entram nas prisões portuguesas três novos detidos; um em cada três homicídios ocorre em contexto conjugal; o Procurador Geral da República afirmou numa entrevista que as polícias fazem escutas ilegais; ao primeiro dia de chuvas, de Outono, houve logo inundações em Lisboa; as exportações de ouro portuguesas aumentaram 75 por cento nos primeiros seis meses do ano; o défice real deverá chegar este ano a 6,1%, o que sai fora das previsões do Governo; o IVA caíu 2,2% em vez de ter uma subida de 11,6% prevista pelo Ministério das Finanças; a venda de raspadinhas disparou 80%;  provando que o ridículo mata, a anedota da semana veio do PS que reivindica que o abandono da TSU se deveu à sua ameaça de moção de censura; ex-ministros do PS da área das obras públicas foram alvos de buscas por causa das PPP ao fim deste tempo todo; a factura do abastecimento de água ao consumidor triplicou entre 2009 e 2011; desde 30 de Agosto que os Conselhos de Ministros terminam sem comunicado – deixou de valer a pena explicar às pessoas o que anda o Governo a tratar?


 


ARCO DA VELHA – As rações de combate da tropa, incluindo, uma feijoada à transmontana enlatada, estão a ser compradas a fabricantes espanhóis, de Alicante.


 


VER – Gosto de fotografia de rua, mesmo quando é um pouco encenada, como é o caso das “Suites Brasileiras” do francês Raphael Blum, que fotografou pessoas em vários ambientes de cidades brasileiras. Há um misto entre o instantâneo e a estética do fotógrafo “a la minute” que me atrai nestes retratos, que fazem parte de uma exposição repartida entre o Instituto Francês (Avenida Luis Bivar) e a Casa da América Latina (Av 24 de Julho 118). “Suites Brasileiras” está nestes locais durante todo o mês de Outubro.


 


OUVIR – Bill Fay é um dos segredos bem escondidos da música popular britânica, com dois álbuns quase clandestinos, do início da década de 70. Aqui há uns anos os Wilco voltaram a colocar o seu nome na ribalta com uma versão do tema “Be Not So Fearful” – Jeff Tweedy é um fã de Fay, tal como Nick Cave, por exemplo. Agora, quatro décadas depois do seu ultimo disco de originais, com sessenta e poucos anos, eis que Bill Fay reaparece com “Life Is People”, um disco denso, onde em 12 canções, grande parte delas com um simbolismo religioso, que se mistura com questões ambientais e reflexões sobre a vida nos tempos que correm, ele mostra como consegus continuar a fazer canções intensas (There Is A Valley, City Of Dreams, This World, Cosmic Concerto, The Coast No Man Can Tell). Para retribuir o apoio dado nos ultimo’s anos por Jeff Tweedy, que também colabora neste album, Fay interpreta uma das canções dos Wilco, “Jesus, Etc”. O produtor do disco é um norte-americano, Joshua Henry, que em miúdo descobriu os discos originais de Fay na discoteca do pai e se apaixonou por eles . Felizmente não descansou enquanto não o conseguiu convencer a voltar a estúdio. (CD comprado na iTunes).


 


FOLHEAR – A “Monocle” de Outubro tem andado muito exposta no Facebook lusitano e o motivo é simples. O título de capa é “Geração Lusophonia: Porque é que o português é o próximo idioma do poder e do comércio”. Lá dentro há numerosas referências ao Brasil, a Portugal (os encantos da ilha de S. Miguel e dos Açores, as maravilhas da Comporta, as vantagens da cortiça), mas também a todos os outros países que falam português – por acaso todos com costa marítima, como a revista faz questão de notar. Luanda é mostrada como uma cidade em desenvolvimento para onde os quadros portugueses querem ir, Maputo é o tema do portfolio fotográfico, e são indicados grupos financeiros, de media, de comunicações ou industriais, como o BES, a PT, a Sonangol ou a Soporcel, mas também a livraria Ler Devagar, a loja A Vida Portuguesa ou as conservas Ramirez. E são falados os nomes dos Deolinda, de Pedro Gadanho (que está no MOMA em NY), dos Buraka Som Sistema, assim como Álvaro Siza, com direito a destaque. O próprio editorial do editor, Tyler Brulé, é dedicado às nações que falam português.  As nações lusófonas têm a dispersão geográfica certa e a escala necessária para serem potencialmente mais ágeis e eficazes que outros conjuntos de nações com um idioma comum – escreve ele. Fica o recado. E, lá no meio dos textos, uma nota que faz sorrir: Portugal tem a localização certa para desenvolver a indústria naval e a vocação marítima.


 


PROVAR – Esta semana provei os efeitos da crise. O Frascati, um restaurante simples e despretensioso, de que muito gostava, situado na Rua Padre António Vieira, em Lisboa, encerrou portas. Não resistiu aos efeitos colaterais dos aumentos do IVA. Isso aconteceu porque, como tantos outros, tentou não aumentar os preços na proporção dos aumentos provocados pelo IVA nas matérias primas e no valor final a cobrar ao cliente. Tentou não penalizar as faturas, com medo que os clientes fugissem. Acabou por não resistir. Tive lá muitas boas conversas com amigos e era um daqueles sítios simpáticos onde se entrava e se encontrava sempre alguém conhecido. Estes locais estão a desaparecer, aquelas casas onde se comia bem com contas leves, estão a ficar condenados, esmagados entre as taxas do Estado e as taxas dos cartões de pagamento. Neste Outono já comecei a sentir aumentos de preços em cafés e pequenos restaurantes que até aqui não tinham mexido nos valores de forma significativa. A espiral vai girando – e não traz nada de bom.


 


GOSTO –  Do filme “Portugal- A Beleza da Simplicidade”, uma peça de promoção do país encomendada pelo Instituto do Turismo e que tem ganho vários prémios internacionais, provocando algumas invejas nacionais.


 


NÃO GOSTO – Do silêncio do Gabinete do Primeiro Ministro sobre a forma como um segurança de Passos Coelho tratou um repórter de imagem da TVI.


 


BACK TO BASICS – "Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo" – Eça de Queiroz


 

setembro 25, 2012

MAIS CORTES EM VEZ DE NOVOS IMPOSTOS

Todos os dias o Governo vem com uma nova ideia para aumentar impostos ou taxas. Mas não tem igual destreza no que toca a diminuir os custos do seu funcionamento sem ser cortar na saúde, na educação ou nas prestações sociais. Carlos Moreno, ex-Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas elencou este fim de semana, no Facebook, algumas sugestões para cortar na despesa que, com a devida vénia, aqui deixo.


 


«O governo devia apresentar e quantificar o montante que dos 1.300 milhões de euros de rendas a pagar em 2013 às concessionárias de PPP  vai cortar; o governo devia também apresentar e quantificar o montante que em 2013 vai cortar nas rendas excessivas a pagar às produtoras de energia que vivem praticamente em monopólio; o governo devia apresentar e quantificar o montante que vai cortar em 2013 às fundações, associações, institutos e outras entidades que têm atravessado a crise sem perder um cêntimo; o governo devia apresentar e quantificar o montante que vai cortar em 2013 às despesas de consultoria externa, que deviam ser reduzidas ao mínimo e substituídas pela organização de bolsas de competências compostas por técnicos do sector público; o governo devia apresentar e quantificar o montante de despesa que vai cortar em 2013 com despesas no sector público empresarial; o governo devia apresentar e quantificar o montante de despesa que prevê cortar com a obrigatoriedade, a introduzir na próxima Lei do orçamento para 2013, de subordinar todo o dispêndio público aos critérios da economia, eficiência e eficácia, sob pena de reintegração nos cofres do estado pelos que autorizassem pagamentos que não observassem aqueles critérios, incluindo os decisores políticos e os próprios membros do governo.»


 


(Publicado do diário Metro de 25 de Setembro)


 


 

setembro 21, 2012

As pessoas são um problema? - O dilema da política

 


MUNDO – Tenho para mim que muitos dos nossos queridos políticos, de todos os partidos, reconheça-se,  acordam frequentemente irritados pela existência de cidadãos, de opiniões, até do próprio mecanismo do regime que os ocupa e faz viver. Parece-me que existem dias em que acham uma grande maçada terem que se confrontar com pessoas, em vez de andarem por uma reserva protegida onde se vêem ao espelho e estão apenas rodeados por outros escolhidos, semelhantes a si próprios. Prefeririam, talvez, um mundo perfeito onde pudessem fazer tudo sem serem contrariados, onde realizassem as experiências que querem sem protestos. Estou certo que ficam muito aborrecidos por terem que dizer mentiras nas campanhas eleitorais, imagino que entrem em depressão por sistematicamente dizerem aldrabices para conseguirem votos. E todos os dias, desde há anos, vejo as suas caras arrependidas e sofridas por estarem a fazer as coisas ao contrário do que haviam prometido, argumentando sempre que a realidade era pior que imaginavam. Vivemos há décadas nesta alternância de protagonistas da aldrabice, de gente que nunca é responsabilizada pelo que faz, pelos efeitos das decisões que toma. Como vimos ainda esta semana eles próprios reconhecem que, no Governo, encomendam estudos que se revelam erros clamorosos e, com base nesses estudos, fazem contratos que delapidam milhões, como em várias parcerias público-privadas. A seguir, fazem um acto de contrição - e basta. Com um pouco de sorte encontram colocação no estrangeiro porque definitivamente não têm paciência para aturar a ingratidão dos locais. Vivemos nisto há tempo demais. Talvez por tudo isto, o PSD cai nas sondagens mas o PS não sobe.


 


MOEDA - Quanto vale de facto um euro em Portugal, depois de deduzidos todos os impostos aplicáveis – os profissionais, as taxas e impostos municipais, as alcavalas de empresas públicas, o IVA, tudo o que metodicamente vai ao bolso dos cidadãos? Para todos nós um euro, feitas as deduções, em termos reais, vale sempre menos que  50 cêntimos. E mesmo assim o Estado quer sempre, em nome do euro e da sua mãe Europa, espremer mais um bocadinho o pouco que já nos cabe. Só vejo medidas para encolher, não vejo decisões que façam crescer. Recentemente voltámos a conquistar mercados, em sectores tradicionais, pela qualidade e pelo cumprimento de prazos, mesmo com preços superiores a outros fornecedores, como a China ou a Índia. O crescimento das exportações nos últimos anos tem a ver com a capacidade de produzir diferente e melhor que a concorrência, e já se viu que os mercados percebem que a qualidade tem um preço – o mesmo preço  que, noutra escala, se paga pelo design italiano ou os automóveis alemães. O que nos faz falta é uma estratégia de crescimento económico – em vez de experiências que produzem um ciclo de empobrecimento. O que precisamos é de valor acrescentado, não é de valor diminuído. Eu estou para ver como esta crise politica acaba – no fim disto tudo ainda nos arriscamos a levar com mais uma imaginativa nova carga fiscal em cima e há-de haver uns pândegos que nos quererão convencer que tudo foi resultado de uma explosão de cidadania. Por este andar não precisamos de um Seguro no Governo, mas de um seguro contra as malfeitorias governamentais. Tinha ficado bem à Comissão Política do PSD reconhecer esta semana que a crise política teve uma origem chamada TSU, criada por Passos & Gaspar, em vez de sacudir a água do capote.


 


 


SEMANADA – O número de casais em que os dois cônjuges estão desempregados duplicou em relação ao ano passado; várias autarquias começaram a cortar  apoios a infantários; A Polícia Judiciária resolveu contratar ex-espiões envolvidos no ano passado no escândalo das secretas; dívidas do Estado a fornecedores sobem 84% para mais de 330 milhões; a Câmara de Cascais pagou subsídios mediante facturas falsas apresentadas por um juiz que dirige uma associação de coleccionadores de armas; a economia paralela já chega a 24,5% do PIB; erros de cálculo na expectativa de tráfego da PPP estabelecida com a Fertagus, no tempo de João Cravinho, provocaram pagamentos suplementares do Estado de 45 milhões de euros – o que praticamente fez duplicar os custos a suportar pelo erário público – e Cravinho acha a coisa normal; o título adequa-se que nem uma luva à situação que vivemos - “Balas & Bolinhos- O Último Capítulo”, é o nome do filme mais visto nos cinemas portugueses na última semana – uma produção nacional que vai com 80 mil espectadores.


 


ARCO DA VELHA – É mais barato comprar um iPhone 5 que uma acção da Apple


 


VER – Duas exposições imperdíveis de fotografia. A primeira está no No Bes Arte, ao devastado Marquês do Pombal, onde Paulo Nozolino mostra Usura, uma exposição comissariada por Sérgio Mah, que reúne fotografias realizadas de 1999 para cá, apresentadas como trípticos.  A segunda está no espaço Vera Cortês Art Agency, na Avenida 24 de Julho 54-1º-Esq, e mostra “Utz”, de Daniel Blaufuks, uma incursão pela evolução da imagem fotográfica.


 


OUVIR –Saíu um livro novo de Bob Dylan. Leram bem e não me enganei. Tem a forma de um disco, parece um disco, tem canções, mas conta histórias. Belíssimas histórias. É uma deliciosa colectânea de contos. Chama-se “Tempest”, um nome que naturalmente tem a ver com os tempos que vivemos – embora a canção-título conte ao longo de 14 minutos o naufrágio do Titanic. Trata-se do 35º disco de estúdio de Dylan, que aos 71 anos continua a manter-se fiel musicalmente aos blues e à country, ao mesmo tempo que continua a surpreender em canções como “Scarlet Town”, “Early Roman Kings”, “Tin Angel” ou “Roll On John”, uma evocação decente de John Lennon.


 


FOLHEAR – Se tem iPad pode fazer o download gratuito da boa edição digital da revista “Intelligent Life”, publicada bimestralmente pelo grupo “The Economist”. À medida que o tempo passa e o foco editorial se aperfeiçoa, a “Intelligent Life” está cada vez melhor, a abordar temas invulgares, a partir de uma perspectiva inesperada. A capa desta edição é dedicada a Sergei Polunin, e lá dentro conta-se como uma das estrelas em ascensão no Royal Ballet de Londres decidiu, de repente, aos 22 anos, deixar a carreira. O filme “Tabu”, do português Miguel Gomes, tem honras de destaque na secção de cinema, e a aventura de David Byrne com Annie “St. Vincent” Clark é a escolha da música. Nos livros, o destaque é para o novo Tom Wolfe, “Back To Blood”. A secção dedicada à comida e a vinhos continua deliciosa (falando de chili con carne) e um pouco à frente existe um artigo divertidíssimo sobre a tendência actual de fazer parecer as casas com quartos de hotel. Em resumo: uma bela noite na companhia do iPad.


 


PROVAR – Se são assumidamente carnívoros abriu em Lisboa um restaurante perfeito. Chama-se “Carne Alentejana” e pertence à marca homónima de produtos elaborados a partir de bovinos criados no Alentejo. Dizem-me que há dias em que se encontra essa especialidade que é rabo de boi, mas eu não tive essa sorte. A lista é extensa em carnes diversas e eu deliciei-me com um belíssimo e abundante naco de alcatra, que pode vir acompanhado de migas, batatas fritas domésticas, legumes grelhados ou salada. O couvert tem um belíssimo e escuro pão alentejano, saboroso e denso, umas azeitonas bem temperadas e azeite obviamente alentejano, como tudo o resto que ali se serve – até o vinho, claro, neste caso o honestíssimo Enjeitado. O único problema da sala é a acústica – bem lhe podiam colocar umas cortiças alentejanas, que ficava de certeza melhor. O serviço é bom, a carne é fantástica e o preço é razoável. Rua da Beneficência 229, telefone             218 237 126      .


 


GOSTO – Da fotografia da manifestante que foi abraçar um polícia frente às instalações do FMI em Lisboa.


  


NÃO GOSTO – Da crítica, com veladas insinuações pelo meio,  do Secretário de Estado Carlos Moedas aos empresários que criticaram as alterações à TSU.


 


BACK TO BASICS –  O génio dos dirigentes políticos está em conseguir que a maior parte das pessoas pague taxas e impostos elevados pelos quais recebem cada vez menos em troca - Gore Vidal

setembro 18, 2012

E AGORA?

Por falta de jeito, ou por falta de vontade, o Governo criou, com a questão da TSU, uma situação delicada e colocou-se a ele próprio numa posição fragilizada.  A legitimidade eleitoral que o Governo tem não lhe permite fazer tudo o que quiser ou entender, ao contrário do que alguns governantes querem fazer crer. Se as coisas estão pior que se pensava ou se surgiram novos problemas, e se é preciso tomar novas opções e decisões, a prudência recomenda que elas sejam estudadas por forma a que não se crie um côro de protestos que varre todo o espectro social, ideológico e partidário e que enfraquece oi Governo numa altura em que não precisamos de falhas.


 


Qual a solução para a situação criada? Derrubar o Governo, miná-lo por dentro? Não me parece que promover o inseguro Seguro a governante seja uma boa opção; não me parece que a tropa de choque ainda fiel a Sócrates queira queimar as mãos com as brasas que deixou ao lume. Assim sendo, tenho uma sugestão:  Pedro Passos Coelho pode admitir que não é infalível e que por vezes se engana; pode ter a humildade de rever decisões que – já o sabemos hoje – foram insuficientemente discutidas no Governo (com o aliado de coligação), com a oposição e com os parceiros sociais.


 


A melhor coisa que nos podia acontecer seria o Primeiro Ministro compreender isto, recuar nas precipitações e, em conjunto com quem também assinou o memorando com a troika, procurar uma nova solução.


A melhor alternativa que nós temos disponível neste momento é que um novo Passos Coelho seja a alternativa ao anterior Passos Coelho. Eu acho que ele é suficientemente inteligente e bem intencionado para se deixar de teimosias. É altura de o Primeiro Ministro  mostrar que percebe a realidade e se preocupa com o país.




(Publicado no diário Metro de 18 de Setembro)


 

setembro 14, 2012

UMA SEMANA DE POLÍTICA NA SARJETA

POLÍTICA – O que aconteceu nesta última semana foi o expoente daquilo que vinha sendo construído nos últimos meses, e que é uma subalternização da política. É curioso que esta subalternização venha de um Primeiro-Ministro que foi durante cinco anos dirigente de uma organização política de juventude (JSD) e que tem muito tempo de actividade partidária. Dá que pensar se o seu processo de aprendizagem política não terá sido essencialmente virado para dentro, para a movimentação no aparelho partidário e para a consequente intriga palaciana, tudo com o objectivo de conquistar o poder, primeiro na organização, e , depois, onde for possível. Quiseram as circunstâncias que o poder, no país, estivesse maduro para ser colhido. É um exercício de humor negro reler por estes dias o livro “Mudar”, uma espécie de manifesto que Pedro Passos Coelho lançou em Janeiro de 2010, como uma das peças da sua candidatura à liderança do PSD. Quem ler as propostas que estão no livro, ironicamente subtitulado “Passos para a Mudança”, dificilmente acreditará que o seu autor é o Primeiro Ministro actual. O que se passa é que, uma vez cumprido o objectivo de conquistar o poder, se torna evidente que não se sabe como exercê-lo, e sobretudo, se evidencia a anulação da actividade politica, entendida como um diálogo constante com a sociedade, uma gestão de expectativas e um exercício de construção de soluções. Pior que isso, existe uma insensibilidade politica e social, patente não só no tipo de medidas, mas que é também a verdadeira razão de ser daquilo a que alguns chamam “problemas de comunicação”. Esses problemas só existem porque o papel e a importância da actividade politica foram preteridos para o exercício cego do poder - que é a razão de ser do autismo, da substituição da negociação pela imposição e da ponderação pela experimentação. Um dia destes, no PSD, no meio das criticas internas cada vez mais ruidosas, alguém começará a falar da necessidade de um Congresso. O tempo da politica volta sempre – não se consegue exterminá-la.


 


SARJETA – Por um daqueles acasos do destino, no preciso momento em que António Costa mostrava à imprensa as maravilhas do novo Marquês do Pombal, um reformado da construção civil, de 74 anos, que ali passava, apontou a inexistência, na nova obra, de sarjetas - e vaticinou a inevitabilidade de ocorrência de inundações na zona em caso de chuvada. Graças a este homem, Luís Garcia, soube-se que foram feitos 750 mil euros de obras provisórias que não estavam a contar, neste inverno, com a drenagem das águas pluviais. António Costa, que assim gere os dinheiros da cidade, admitiu aliás que o investimento se destinava a experimentar algo que foi baseado em modelos teóricos e que pode até ser anulado – numa curiosa colagem ao método Vítor Gaspar. Dois dias depois da chamada de atenção do reformado começou a ser escavacado o asfalto recentemente colocado, agora para instalação de escoadouros. É uma variante do método tentativa e erro: constrói/destrói. É todo um programa politico para o futuro de Costa.


 


SEMANADA – Portugal está entre os dez países da Europa com as propinas mais altas no ensino superior; a dívida dos municípios à Águas de Portugal disparou 16% no primeiro semestre; o crédito malparado subiu de 10,3 para 15 mil milhões de euros nos primeiros sete meses de 2012, em comparação com igual período do ano passado; a venda de automóveis na China cresceu 8,3% em Agosto; Vítor Gaspar não disse uma única vez a palavra crescimento na conferência de imprensa desta semana;na mesma ocasião o Ministro considerou que não houve rotura do governo com o eleitorado e sublinhou que não lhe passaria pela cabeça fazer experiências com os portugueses; o representante do FMI assegurou que a alteração da TSU não foi uma exigência da troika; os dois últimos jogos da selecção foram antecedidos de anúncios de mais medidas de austeridade – o próximo jogo é dia 12 de Outubro; Miguel Relvas anunciou, no Brasil, que o caso RTP está resolvido mas não disse se pelo lado da privatização ou da concessão; António Barreto garantiu que existem cláusulas secretas nos contratos das PPP’s.


 


ARCO DA VELHA – Agentes da PSP identificaram e intimidaram um cidadão que fotografou um veículo da segurança do Ministro da Defesa, que estava parado em cima do passeio, obstruindo a circulação de peões, frente ao escritório de advocacia do Ministro, no Porto, num momento em que ele se encontrava no edifício.


 


VER – Eduardo Gageiro é um dos nomes incontornáveis do foto-jornalismo português. Começou a sua carreira em 1957 e as suas imagens iluminaram muitas vezes as páginas das publicações do “Século”. Nos últimos anos tem fotografado Lisboa e são essas imagens, a preto e branco, que agora foram recolhidas num livro e numa exposição, “Lisboa Amarga e Doce”. A exposição está na galeria dos Paços do Concelho até 9 de Outubro.


 


OUVIR – Um recente spot de publicidade televisiva evoca uma máquina do tempo. Podia  ter sido inspirado pelo disco evocativo dos 50 anos de  existência dos Beach Boys, “That’s Why God Made The Rádio”. Mal o disco começa a tocar somos transportados para as sonoridades que fizeram a imagem de marca da banda, nas praias da Califórnia, no início dos anos 60 – desde as melodias, aos coros, passando pelos temas sempre presentes – a praia, o sol, o amor, o tempo a passar e o desejo de solidão recorrente em Brian Wilson, no fundo o mentor desta reunião da banda – sim porque aqui estão de novo os verdadeiros Beach Boys com canções de encantar como a que dá título ao álbum , “That’s Why God Made The Rádio”, mas sobretudo verdadeiras pérolas (sem ironia e com apreço) como “Isn’t It Time”, “Pacific Coast Highway” ou a faixa que encerra o CD, inevitavelmente “Summer’s Gone”. Há 16 anos que não gravavam juntos, mas ainda conseguem fazer sorrir com canções tão inacreditavelmente nostálgicas que se tornam divertidas.


 


FOLHEAR – A edição norte-americana da revista Vogue deste mês de Setembro tem 916 páginas. Assinala os 120 anos da revista e, quando se abre a capa, vê-se logo uma outra capa de 1949 com uma fotografia de Irving Penn e, ao lado, a capa da primeira edição da Vogue, de 17 de Dezembro de 1892, baseada numa ilustração - custava então dez cêntimos, hoje está nas bancas por $5.99 e em 1949 ficava por apenas 50 cêntimos. É a economia, como dizia o outro. Por falar nisso, um bom sinal da retoma publicitária que já vai acontecendo nos Estados Unidos é visível por esta edição ter mais de metade das suas páginas - entre as quais as primeiras 200 - com publicidade. Claro que a publicidade da Vogue é especial - é um catálogo de tendências e novidades das grandes marcas e folhear esta publicidade com atenção faz parte do prazer visual que a revista proporciona. Na capa está Lady Gaga vestida por Marc Jacobs, numa evocação aliás do desenho da primeira capa da revista, de 1892. Há muito para ler e ver nesta fabulosa edição, sobretudo artigos evocativos de vários momentos da História, paralelos à própria história da Vogue.


 


PROVAR – Se um dia destes lhe apetecer uma pequena viagem a um café parisiense no centro de Lisboa, vá direito às avenidas novas e procure a cafetaria do Instituto Francês, na Avenida Luís Bívar 91. O Bistrot L’Escale par Praline, dirigido pela pasteleira Béatrice Dupasquier, gaba-se de ter o original croque-monsieur. Se nunca provou, vale a pena – e não caia na asneira de dizer que quer uma tosta mista. Não é bem a mesma coisa – a começar pelo queijo, que deve ser gruyére ou emmental, cortado fino. O presunto, também cortado fino, acompanha o queijo derretido no meio do pão. Resta dizer que o queijo derrete igualmente por cima da sanduíche, e, se descontarmos o molho, percebemos que existem algumas semelhanças com a francesinha portuense. O croque-monsieur (assim chamado por o pão ficar estaladiço quando se tosta), nasceu num café parisiense em 1910 e surgiu pela primeira vez na literatura pela mão de Marcel Proust, no segundo volume de “Em Busca Do Tempo Perdido”. Conversas à parte, o croque –monsieur do Bistrot L’Escale é recomendável. E no fim, para sobremesa, pode rematar, a acompanhar o café, com um canelé, um pequeno bolo originário da região de Bordeaux, caramelizado por fora e suave por dentro – pecaminoso, na verdade.


 


GOSTO – Da afirmação de Manuela Ferreira Leite: "Só por teimosia se insiste numa receita que não está a resultar, esta segunda dose de xarope já ninguém a consegue engolir”


 


NÃO GOSTO – Do estilo conta-gotas de ir anunciando cada vez mais impostos e novas medidas de austeridade, deixando sempre no ar novas veladas ameaças.


 


BACK TO BASICS – “A eternidade pode às vezes durar um ano. E ferir-nos, num grito calado, a vida inteira" – Manuel de Freitas, em "Marilyn Moore"


 

setembro 11, 2012

UMA SEXTA FEIRA NEGRA

Benjamim Franklin foi um dos fundadores dos Estados Unidos e uma das suas citações mais conhecidas reza mais ou menos assim: “na vida tudo é incerto, menos a morte e os impostos”. Sexta-feira passada o Primeiro Ministro português veio relembrar isto da pior forma possível numa intervenção cheia de pontos mal esclarecidos. E depois do discurso do novo imposto partiu para um concerto de Paulo de Carvalho onde esteve de cara alegre, a entoar o refrão de algumas cantigas. Para rematar, foi ao Facebook dizer ter pena das opções que tinha de tomar. Poucas coisas me espantam – mas estas deixaram-me perplexo. Nesse dia Passos Coelho divorciou-se do país.


 


Nada disto faz sentido. Até o Partido Popular, que se gabava de não aceitar mais impostos, se conformou e sucumbiu – argumentando que se trataria de uma taxa. Bagão Felix, histórico do PP e ex-Ministro das Finanças no anterior Governo de coligação, foi claro a criticar a medida: “É um verdadeiro imposto. Deixou de ser uma contribuição social para ser um imposto único”. Foi uma das muitas vozes do PSD e do PP que criticaram o rumo escolhido.


 


Os atos mostram um Governo de políticos que escolhem sempre o caminho mais simples. Como o sistema de controlo nos impostos e segurança social, criado para verificar as contribuições do trabalho, é o único que funciona, é utilizado à exaustão pelo Estado para aumentar receitas – porque é mais fácil que cortar as gorduras do Estado.


 


O melhor resumo da situação é de Fortunato Frederico, que lidera o grupo de calçado Kyaia, que faz a marca Fly London: “Estas medidas não têm pés nem cabeça. As empresas precisam é de trabalhar. Não me adianta nada que desçam a taxa social única para as empresas, se as pessoas não tem dinheiro para me comprar sapatos”.


 


(Publicado no "Metro" de 11 de Setembro)

setembro 08, 2012

Sobre os conteúdos com sugestões avulsas pelo meio

CONTEÚDOS – Durante alguns anos trabalhei directa e indirectamente com a música e a indústria discográfica e, por dever de ofício, estudei o desenvolvimento dessa indústria, que era considerada, até finais dos anos 80, como um exemplo perfeito da combinação da criatividade com um modelo de negócios eficaz. Como toda a área dos conteúdos, cada nova obra tem uma componente, digamos, de protótipo - por mais estudos de mercado que se façam nunca se tem a certeza absoluta da possibilidade de êxito e popularidade de determinada obra até o público se confrontar com ela. A história da música popular, sobretudo no pós-guerra, está cheia de exemplos de rupturas totais com o saber instituído, as quais se revelaram marcantes do ponto de vista do impacte criativo e da rentabilidade da sua edição. Mesmo alguns artistas e obras que não tiveram sucesso imediato, conseguiram, décadas depois do lançamento de determinado disco, obter um sucesso e uma persistência de vendas que acabou por tornar muito rentável um projecto que parecia condenado ao fracasso. Isto aconteceu porque nessa época as grandes editoras, mesmo as multinacionais, eram dirigidas por gente que reconhecia o talento, que tinha sensibilidade para os conteúdos e que apostava em opções arriscadas – algo que hoje em dia se encontra quase limitado às operações independentes. Quando num processo de consolidação, que ocorreu ao longo dos anos 90, as multinacionais de conteúdos musicais foram tomadas por financeiros e os gestores de conteúdos foram afastados – literalmente removidos nalguns casos - começaram os grandes problemas que levaram a indústria discográfica à crise em que hoje está mergulhada: insensibilidade a novos formatos, resistência à inovação (como no caso da internet), fim de apostas arriscadas, persistência em produtos de êxito fácil e imediato mas com reduzido retorno futuro (como hoje se constata), diminuição da procura de novos talentos. Foi assim, por exemplo, que a EMI, a casa-mãe dos Beatles e de tantos outros, se afundou no meio de disputas entre fundos, bancos e gestores sem rasgo, para chegar a uma situação terrível no início desta década. Esta história vem a propósito da gestão dos conteúdos e do cuidado que deve existir no seu desenvolvimento, sob pena de a cura matar o paciente. Uma discussão que um dia destes por certo ocorrerá por estas bandas.


 


SEMANADA – O PSD desistiu de fazer nova lei eleitoral autárquica; a empresa que vendeu blindados à PSP foi proibida de negociar armas; o mercado de venda de automóveis novos está a cair 40,4% desde Janeiro; entre Janeiro e Junho venderam-se menos 29.500 jornais por dia; vendas de telemóveis caíram 21% no segundo trimestre; em 2011 encerraram 152 agências bancárias; em dois dias desta semana ardeu o equivalente aos concelhos de Lisboa e Odivelas; prejuízos das empresas públicas duplicaram no segundo trimestre do ano e chegam aos 700 milhões; empresas públicas devem 30 mil milhões de euros; o Estado já emprestou 1,7 mil milhões de euros às empresas públicas desde o início do ano; a troika disse que os resultados do programa de ajustamento são da responsabilidade do Governo;  a balança de pagamentos esta semana teve evolução positiva graças às compras efectuadas em Portugal pelos russos do Zenit; o novo co-líder do Bloco deu a primeira entrevista para dizer que “o problema da esquerda é o PS estar poluído por concepções neoliberais”.


  


ARCO DA VELHA – As empresas do sector empresarial do Estado realizaram um conjunto de contratos de derivados financeiros avaliados em 16 mil milhões de euros, os quais em Junho registavam perdas potenciais de 2,5 mil milhões de euros – um buraco superior à derrapagem que se conhece do défice público.


 


 


VER – A exposição “Os Comedores de Batatas” da pintora Maria Beatriz inaugura um mês cheio de exposições interessantes. Na Holanda, terra de acolhimento da artista quando saíu de Portugal, em 1962, nasceu uma obra que tem muitas referências a Van Gogh – e esta série de trabalhos é precisamente inspirada por uma das obras do pintor holandês, “Os Comedores  de Batatas”. Fica até 25 de Novembro no Museu da Electrcidade, na Central Tejo. Para a semana, dia 13, no espaço BES Arte e Finança, na devastada praça Marquês do Pombal, inaugura uma exposição dedicada ao centenário de John Cage e dia 20, no mesmo local, é inaugurada a exposição “Usura”, que agrupa trípticos de Paulo Nozolino. Finalmente no fim do mês na Galeria João Esteves de Oliveira, no Chiado, Pedro Cabrita Reis apresentará novos trabalhos em papel.


 


OUVIR – Austríacos, os Sofa Surfers fazem canções envolventes, onde palavra, ritmo e música integram um todo trabalhado como uma peça de filigrana sonora, feita com cuidado, devoção e electronica comedida. Melodias subtis, ritmos persistentes e as vozes da nigeriana Many Obeya e do vienense Jonny Sass cruzam-se no oitavo album deste grupo, “Superluminal”, editado pela Rough Trade e já disponível em Portugal.  Destaque para os temas “World In a Matchbox”, “In Vain”, “Superluminal” e para o tema de abertura, “Out, Damn Light” que cria desde o início as sonoridades que marcam este disco.


 


FOLHEAR – Mais cedo ou mais tarde tinha que acontecer: a Monocle já tem oficialmente uma imitação. Trata-se de uma publicação francesa intitulada “The Good Life” e que se apresenta, cito, como “Le premier magazine masculine hybride”. Estranho? Se folhearem a coisa vão ficar ainda mais perplexes. Os curiosos de revistas, como eu, recordar-se-ão de uma revista francesa dos anos 70, chamada “Lui”. Isto é, do ponto de vista de conceito editorial e conteúdos, salvaguardadas as distâncias e as diferenças, uma espécie de “Lui”, para pior, mais confusa e com uns toques fingidos de modernidade. As semelhanças com a Monocle esgotam-se na cópia do grafismo, porque editorialmente aqui falta o rasgo que permite à revista de Tyler Brulé dedicar – com graça e saber - uma edição inteira a forças militares por esse mundo fora, como a última que está nas bancas, e aqui referida na semana passada. Um outro paradoxo desta auto-intitulada revista híbrida é o facto de em França custar cinco euros e em Portugal se vender por dez – o câmbio dentro da zona euro anda pela hora da morte.


 


PROVAR – Neste rectângulo à beira-mar plantado temos a tradição de nos queixarmos de que há poucas esplanadas e, quando existem, queixamo-nos do vento – nós e as nossas circunstâncias, como diria um filósofo; por acaso hoje em dia as esplanadas já vão existindo, algumas bem simpáticas. Uma delas é a “Portas do Sol”, no Largo com o mesmo nome, um pouco acima da Sé de Lisboa e perto do Castelo de S.Jorge. Instalada no terraço por cima do parque de estacionamento ali construído há uns anos, com uma vista magnífica sobre o Tejo e o casario de Alfama,  a “Portas do Sol” tem uma sala para os dias mais invernosos, mas é o terraço ao ar livre que verdadeiramente chama a atenção. De um lado está reservado para serviço de restaurante e do outro, o maior, funciona ao longo de todo o dia um serviço de bar onde as mesas alternam com sofás confortáveis. O restaurante é uma boa opção a considerar nestes dias de fim de verão, com as noites a boa temperatura. As propostas são variadas e muito honestas. Não se pode dizer que o local seja um templo da gastronomia, mas está várias estrelas acima da média e justifica bem uma noite bem passada com uma vista de arrasar: por exemplo o caril de frango recomenda-se e o bacalhau à Brás com gambas é uma boa surpresa. A lista de vinhos tem preços razoáveis e o serviço é simpático. Telefone             218 851 299      .


 


GOSTO – Dos resultados dos atletas paraolímpicos portugueses, infelizmente na mesma altura em que foi conhecida a intenção do Governo em retirar benefícios fiscais a cidadãos com capacidades diminuídas.


  


NÃO GOSTO – Da irresponsabilidade do Vereador do Trânsito em Lisboa, Nunes da Silva, que diz que a circulação no Marquês não está “assim tão caótica”.


 


BACK TO BASICS – A televisão possibilita termos a sala invadida por pessoas que em nenhuma circunstância quereríamos ter em nossa casa – David Frost




(Publicado no Jornal de Negócios de7 de Setembro)

setembro 04, 2012

RTP E SERVIÇO PÚBLICO

Eu acho compreensível que os funcionários da RTP estejam preocupados com o seu futuro. Se a empresa fosse governada racionalmente, um terço deles não teria lugar. Mas a verdade é que graças à forma desastrada como o tema tem sido tratado, eles conseguiram que se confunda serviço público com RTP. E essa confusão é uma das piores coisas que pode acontecer se quisermos, com seriedade, continuar a ter um serviço público de rádio e televisão.


 


Uma coisa é serviço público, outra é o universo da RTP- não podem ser confundidos e como se tem demonstrado ao longo dos anos a RTP proporciona pouco serviço público, mas em contrapartida faz mais concorrência aos privados, na televisão e na rádio. Por estes dias li, sem surpresas, que os famosos 150 milhões da contribuição para o audiovisual, que pagamos na fatura da eletricidade, chegavam para pagar o funcionamento da SIC ou da TVI. Como se sabe não tem chegado para pagar a da RTP – já que ainda recebe indemnizações compensatórios e receitas de publicidade. Aqueles que defendem um serviço público de televisão e rádio devem pensar no que é preciso fazer para que ele exista dentro desses 150 milhões.


 


Não será difícil perceber que a estrutura terá de diminuir, que o número de canais terá que ser menor, que a programação deverá ser complementar, em vez de concorrencial em relação aos privados. Não é um processo fácil e demorará uns três anos a executar. Mas é possível, e é a única forma de conseguir que daqui a alguns anos exista outra produção audiovisual, que retrate melhor o país, as pessoas, a sua cultura e os seus hábitos – quer nas notícias, quer na programação. Só mais uma coisa – no momento atual esta não é a discussão mais importante sobre o futuro de Portugal. Mas é uma questão cuja resolução sinalizará a vontade de mudança.

agosto 31, 2012

SOBRE A RTP E A SUA CONCESSÃO

RTP - O debate da última semana sobre o futuro do serviço público de rádio e televisão não começou bem e provocou reacçōes empolgadas, na maior parte dos casos presas a modelos antigos, já pouco ajustados ao presente - e ainda menos ao futuro. Nesta matéria o Governo tem sido ele próprio vítima, também, de colocar ideias feitas à frente de uma análise da realidade.
Façamos um pouco de história rápida: o modelo de serviço público europeu que os velhos do Restelo usam como argumento é algo saído de meados do século passado, numa época em que nem se pensava em operadores privados de TV numa Europa saída da guerra. Nesse tempo não havia satélites, nem distribuição por cabo, muito menos internet, tablets ou smartphones. Hoje já nada é assim, mas há quem queira manter tudo inalterado.

INOVAR NO SERVIÇO PUBLICO - Este Governo tem na mão a possibilidade de, em vez de ir atrás do rebanho, contribuir para um novo posicionamento do serviço público, com os olhos postos no futuro e não no passado, de uma forma até pioneira no panorama tradicional europeu. Mas para isto convinha que existisse uma ideia precisa do que deve ser o serviço público, baseado em conteúdos concretos e não em princípios gerais, muito intessantes, mas pouco úteis na concretização de ideias.
Cada vez mais acho que o serviço público só se justifica se oferecer aquilo que os canais privados são menos susceptíveis de proporcionar - ou seja se fôr, em termos de conteúdos, complementar em vez de alternativo, sectorial em vez de generalista. Por outro lado também me parece muito pouco lógico que continue a concorrer com os privados na captação de publicidade. Conseguirá um operador de serviço público viver com os cerca de 150 milhões da contribuição audiovisual sem esforço suplementar de financiamento do Estado? - os estudos feitos entretanto pelo próprio Governo indicam que sim, ainda mais se existir uma racionalização de meios técnicos e humanos, se existir uma reestruturação da oferta de canais em sinal aberto e no cabo, e se a própria rádio fôr encarada também num novo prisma. O serviço público é importante? Eu também acho que sim, mas não precisa de tantos canais como agora - na televisão pode bem viver com um único canal em sinal aberto, com um único internacional, sem a RTP Memória e com um canal, que substitua a RTP Informação, com características de proximidade, de informação local e de uma interacção maior com a dinâmica da sociedade e com públicos sectoriais que têm necessidades específicas. Ou seja, a oferta deve ser repensada em torno dos públicos-alvo e não dos suportes e formatos rígidos que existiam até aqui. O mesmo se pode dizer da rádio.

CONCESSÃO? - Mais do que uma concessão eu acharia interessante que o serviço público aliviasse o peso da máquina de produção interna e encomendasse mais conteúdos à produção independente, externa e privada. Dessa forma uma boa parte do valor da contribuição audiovisual seria reinvestido no sector privado, na dinamização da produção audiovisual em língua portuguesa, fundamental para mantermos uma identidade cultural no mundo digital e no consumo móvel de conteúdos. E é nesse cenário, e não no passado da família sentada frente a um televisor na sala, que é preciso pensar, porque só assim se justifica hoje em dia a manutenção do serviço público. Ou seja, um operador mais vocacionado para organizar as suas emissões e escolher os seus conteúdos do que em produzi-los: um broadcaster em vez de um producer, em suma. Um serviço público assim, já agora, devia reforçar a sua articulação com uma política sustentada de desenvolvimento do audiovisual e podia ser parte fundamental de uma política integrada de fomento das indústrias criativas, tão relevantes do ponto de vista económico. Assim o investimento da sociedade seria reprodutivo e não consumido essencialmente em estruturas sobre-dimensionadas.

SEMANADA – Em três anos só 11 alunos do ensino militar tentaram seguir carreira nas Forças Armadas;estado gasta 11 milhões por ano com encargos de funcionários públicos que estão a trabalhar no privado e acumulam remunerações; tratamentos termais desceram 10% devido ao fim das comparticipações;este ano já emigraram 1344 enfermeiros; todos os partidos parlamentares querem que o Canal Parlamento seja uma excepção e tenha um tratamento diferente dos outros canais de televisão; lucros dos casinos de Lisboa, Espinho e Póvoa do Varzim cai 92% no primeiro semestre; Vendas de carros usados caíram entre 30 a 40%; o sector da construção perde 90 postos de trabalho por hora; no último ano a dívida pública que foge ao crivo de Bruxelas aumentou 7,4 mil milhões, sobretudo devido aos empréstimos do Estado às empresas públicas; Metropolitano de Lisboa registou menos 5,9 milhões de passageiros no segundo trimestre de 2012 - ou passaram todos a andar de bicicleta nas ciclovias de Sá Fernandes, ou então é mesmo verdade que Lisboa perde habitantes.

ARCO DA VELHA – Rafael Correa, o Presidente do Equador que diz defender Julien Assange em nome da liberdade de expressão, é o mesmo que no seu país persegue jornalistas que escrevem críticas ao seu Governo.

OUVIR – uma das minhas melhores compras dos últimos tempos em matéria discográfica foi o triplo álbum "Screaming And Crying - 75 masterpieces by 35 blues guitar heroes". Aqui estão temas clássicos de nomes como BB King, Johnny Otis, Muddy Waters, T-Bone Walker, Guitar Slim, Chuck Berry, Elmore James, Albert King ou John Lee Hooker, entre outros - uma precisoidade para quem gosta de blues. Neil Slaven fez a selecção e as belíssimas notas que enquadram a evolução dos blues desde 1930 até meados dos anos 60. Triplo CD Fantastic Voyage/Future Noise Music, Amazon.

FOLHEAR – A edição de Setembro da "Monocle" é dedicada aos que se dedicam à arte da guerra. A revista mostra especialistas no fabrico de camuflagens e tem uma curiosa reportagem sobre a escola de cozinheiros do exército suiço - ond há um cozinheiro para cada 50 soldados, todos com uma ideia muito precisa sobre qual a melhor comida que se pode confeccionar para manter a tropa em bom estado.Outros temas são um clube londrino, o Frontline, exclusivo para correspondentes de guerra, um levantamento de revistas e estações de rádio militares, os uniformes dos guardas suiços que protegem o Vaticano, uma entrevista com o secretário geral da NATO e uma descrição daquilo a que se poderia chamar o soldado moderno, sempre sob o prisma de que a maior parte dos militares e dos exércitos está a fazer um grande trabalho.Ainda nesta edição, no "global travel guide" há um destaque para a pousada projectada por Gonçalo Byrne na Cidadela de Cascais e um guia do empreendedorismo que inclui o exemplo da cadeia "A Padaria Portuguesa", citando o seu CEO Nuno Carvalho.

PROVAR – Um dia destes era boa ideia que a cadeia originária do Casanostra, do Bairro Alto, trouxesse para Lisboa o conceito da hamburgueria Casavostra que abriu em Almancil, no local onde antes estava a sua pizzaria, também Casavostra, que agora se mudou para umas novas e amplas instalações, a curta distância aliás. O sítio é simpático e provei um hamburguer baptizado de "alentejano", onde pedaços de morcela são misturados na carne picada do bovino - a coisa resulta, e ainda por cima as batatas fritas são honestíssimas. Além de vários hamburgueres há saladas, pratos vegetarianos e um tártaro de salmão bem apaladado.Aberto todos os dias até às 24. Av. 5 de Outubro 364, Almancil, telefone             289391104      .

GOSTO – A edição de Setembro da Vogue norte-americana tem 916 páginas e pesa quase dois quilos - sinal da vitalidade da publicidade por aquelas bandas.

NÃO GOSTO – Das obras que vão alterar o trânsito no Marquês do Pombal e na Avenida da Liberdade.

BACK TO BASICS – Negócios e política são coisas diferentes. Se fossem a mesma coisa não havia necessidade de existirem duas palavras diferentes - Jody Baumgartner.

(Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Agosto)

agosto 24, 2012

O CANAL DOS DEPUTADOS

O TAL CANAL – Os deputados portugueses estão convencidos da sua importância para além daquilo que o bom senso recomenda. Pior: julgam que a populaça se interessa pela sua actividade e arrogam-se a pretensão de poderem educar as massas pelo seu exemplo. Vai daí decidiram estar acima das regras e decretaram que devem ter acesso privilegiado a um canal nesse aborto lusitano em que se transformou a TDT – situação a que se chegou, aliás, muito por culpa da inoperância, ignorância e desfasamento do Parlamento em relação à realidade das coisas no universo audiovisual. Querem que o povo que não tem acesso à televisão por cabo os possa seguir, em directo e diferido, nas diatribes em que passam os dias (hoje em dia aqueles que não têm acesso aos canais de cabo deverão ser menos de 30% do total de telespectadores). A populaça já é suficientemente castigada pelos políticos em funções para ter que gramar com tal frete – mas o pior é a mentalidade que isto revela: totalitária, de uns a decidirem por todos acima das leis, sem se submeterem a concurso ou escrutínio, a usarem um espaço de comunicação a que outros não têm acesso. Se fosse dado um canal na TDT, por atribuição directa, sem concurso nem avaliação, a um qualquer grupo de media dos que até têm meios e experiência para tal empreendimento, não haviam de faltar ilustres deputados a clamar pelo crime de lesa-majestade. Mas quando são eles os protagonistas do abuso, ei-los seguros de quererem ser estrelas da TV, convencidos que o povo irá deixar de ver “Dancin’ Days” para seguir os arrufos de bancadas rivais ou a verborreia de muitos debates parlamentares, mais as piadas de caserna abundantes nas respectivas Comissões especializadas. O Parlamento dá frequentemente triste imagem de si próprio, mas este é um case study de cabotinismo político.


 


O TAL PARTIDO – Francisco Louçã lá decidiu quebrar o tabu que andou a alimentar sobre a sua continuação na liderança do Bloco. Não se contentou em dizer que considerava chegado o momento de sair – o que é um direito que lhe assiste, sobretudo numa altura em que o Bloco está notoriamente em má fase e em que não consegue ter capacidade de resposta face à crise instalada – não aponta alternativas, deixou de ser oposição e nem protesto tem conseguido ser. Mas Louçã não se limitou a sair, quis delinear a sua sucessão, na forma e no conteúdo. Indicou nomes e escolheu um homem e uma mulher, justificando o dueto pela forma natural como a sociedade se organiza – uma posição um pouco homofóbica para um partido que gosta tanto de causas fracturantes. Mas incongruências à parte, o que mais assusta é a evocação dos métodos sucessórios de regimes como da Coreia do Norte, em que o grande líder decide por si só como se irá perpetuar o seu pensamento uma vez que saia de cena.


 


SEMANADA – O número de casais com ambos os cônjuges desempregados quase duplicou em Julho face a igual mês de 2011 e já atinge os 8807 casais, o valor mais alto desde que esta informação é divulgada; o número de portugueses com salários inferiores a 310 euros por mês aumentou 9,4% face a 2011; o endividamento das empresas atingiu em Junho um novo máximo histórico de 182,5% do PIB; 100 a 120 empresas de construção estão em risco de lay off; prevê-se o encerramento de mais de um milhar de empresas de construção até final do ano; 84 mil homens e 54 mil mulheres entraram no desemprego desde o início de 2011; em 2050 haverá em Portugal um trabalhador por cada reformado; quase cinco mil advogados têm em atraso as quotas devidas à sua ordem profissional; os festivais de música perderam 90 mil espectadores neste verão; os preços da gasolina e do gasóleo em Portugal, antes de impostos, são dos mais altos em toda a Europa; a diocese do Porto lançou uma aplicação iPad gratuita, com os horários das missas.


 


ARCO DA VELHA – Abundam os protestos contra a extradição de Julien Assange para ser julgado na Suécia sob a acusação de tentativa de assédio e violação a duas mulheres em Estocolmo – mas rareiam os protestos e manifestações contra a forma como decorreu o julgamento e a sentença decretada no caso do grupo punk russo Pussy Riot, que havia parodiado Putin.


 


VER – Se gostam de fotografia não deixem de visitar o site da histórica agência Magnum(www.magnumphotos.com). Por estes dias vejam a homenagem que a agência colocou on line a uma das suas fundadoras, a fotógrafa Martine Franck, que morreu na semana passada com 74 anos. Aí podem ver uma selecção das suas imagens. A revista online norte-americana Slate também se associou à homenagem com um excelente artigo que evoca a carreira da fotógrafa e mostra igualmente outras fotografias suas.




OUVIR – Nas editoras discográficas há uma categoria de discos de alto risco que geralmente resultam em enormes pepineiras e que são os projectos especiais, tratados pelos departamentos de A&R (artistas e repertório), e que andam à volta de um tema ou de um artista. O objectivo é ampliar a facturação sob a capa da homenagem ou evocação de determinado artistas ou de determinada causa. “A Tribute to Caetano Veloso” tinha tudo à partida para ser uma coisa enfadonha, uma amálgama de boas intenções sem nada mais para celebrar o 70º aniversário do cantor. Felizmente não é isso que se passa e nomes como Chrissie Hynde, os Mutantes,, Beck, Devendra Banhart, Momo, Miguel Poveda, Seu Jorge ou Ana Moura, entre outros, dão boa conta do recado, difícil que era fazerem qualquer coisa de diferente e com qualidade na reinterpretação de 16 temas marcantes da carreira de Caetano Veloso. Conseguiram, e isso não é coisa pouca.  (CD Universal)




FOLHEAR – A edição da revista Time de 27 de Agosto tem um dos melhores trabalhos que já li sobre as mudanças que a proliferação do wireless trouxe ao dia a dia das pessoas. A revista mostra as dez principais formas como a tecnologia wireless, aplicada aos smartphones, tem na nossa vida -  da política (e, neste caso, das eleições americanas) às formas der pagamento (acautelem-se os cartões de crédito), passando pelo entretenimento, o ensino ou a saúde. É um trabalho absolutamente excepcional, que vale a pena aguardar. Os estrategas das campanhas políticas digitais cá do burgo farão bem em ler as páginas sobre o que está a suceder nas eleições americanas. E de uma forma geral todos ganham em ver que todas as fotografias que ilustram estas três dezenas de páginas da revista foram feitas com smartphones – inluindo a capa que resulta de um mosaico de imagens construído a partir de 30 mil fotografias enviadas por leitores à revista via Instagram.


 


PROVAR – Agora que no fim de Agosto as enchentes já são mais pequenas, aventure-se a ter uma refeição estival que não seja de peixe grelhado e, se estiver em Lisboa, dirija-se ao Meco, direito ao restaurante Celmar e peça o arroz de lingueirão. Aguente estoicamente os 20 minutos que a iguaria demora a preparar e depois sorria quando ele chegar. Arroz no ponto, bem temperado de coentros, sem ser espapaçado, com suficientes lingueirões em boa forma (não são daqueles que têm a textura de bocados de borracha de câmara de ar). Se gostar de verde peça uma garrafa de Muralhas para acompanhar – vinho que nunca engana e sempre satisfaz. A casa tem o bom senso de usar frappés de gelo abundante e água e não as mangas raquíticas que em dias de caloraça de nada servem. Rua Central do Meco, telefone             212 683 704      . Fecha às segundas.


 


GOSTO –   Dois jovens portugueses, Andrea Luis e Telmo Moutinho, formados na Escola de Hotelaria e Turismo de Óbidos, obtêm sucesso como pasteleiros em Paris.


 


NÃO GOSTO – 50% dos jovens portugueses apenas conseguem encontrar trabalho temporário.


 


BACK TO BASICS – Um jovem promissor faz bem em ir para a política: assim pode continuar a fazer promessas durante o resto da sua vida – Robert Byrne.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Agosto)