junho 28, 2010

(publicado no Jornal de Negócios de 25 de Junho)

MEMÓRIA - Há uns anos, em 1995, António Guterres venceu as eleições legislativas baseado num programa de promessas de mais apoios sociais – como o rendimento mínimo – e de tornar gratuito o que tinha um custo para os utilizadores – como alguns troços  de estrada, vias rápidas, e, anos mais tarde, a promessa de eterna gratuidade das SCUT. Criou-se a ilusão de que os direitos aumentavam e existiriam sempre, enquanto diminuiriam os deveres de cada um – uma dolorosa mentira, como hoje já se sabe. Tudo isto custava muito dinheiro ao Estado e o défice, que já existia, começou a funcionar numa espiral sempre crescente. É certo que uma das facturas pesadas que estamos a pagar teve a ver com o grande aumento da massa salarial da administração pública decidido por Cavaco Silva nos anos 90 – em 2005, num artigo publicado no «Expresso», Miguel Cadilhe acusava Cavaco de ser pai do "monstro" do défice precisamente devido a esses aumentos. O que é certo é que sucessivos Governos fizeram crescer o peso do Estado muito para além do razoável. As promessas eleitorais, sabemos agora, foram sempre pagas à custa do aumento da carga fiscal. Quem votou na ampliação do Estado Social e da utilização gratuita de recursos é também culpado da situação em que estamos e de estarmos a pagar mais impostos directos e indirectos.


A coisa não fica por aqui: temos uma Administração Pública pesada, pouco eficiente, um sistema educativo que está perto do caos, um sistema judicial que não funciona nem garante justiça em prazos razoáveis, e um sistema de saúde com problemas crescentes. Perdemos indústrias, perdemos quase totalmente a agricultura, perdemos muita da pesca – se, por cada dez rotundas feitas no país nos últimos 20 anos, existisse uma nova traineira com possibilidades de pescar na nossa zona económica exclusiva, não teríamos ficado de costas voltadas para o mar, sobretudo não teríamos ficado com uma frota pesqueira cada vez mais pequena e menos competitiva. Temos tido muito maus Governos. Temos esbanjado sem que se vejam bons resultados. Gastámos muito para além do que devíamos, recusámos todas as evidências e no último ciclo eleitoral, no ano passado, repetiram-se as promessas que já se sabiam não poderiam ser cumpridas. Não deixa de ser irónico que o PS esteja agora a retirar o que deu irresponsavelmente há 15 anos. E o pior é o que ainda está para vir.


 


APOIOS - A carreira política de Ricardo Rodrigues é curiosa. Foi secretário regional no Governo dos Açores presidido pelo socialista Carlos César, demitiu-se na sequência da publicação de uma reportagem do Expresso e SIC sobre abuso sexual de menores. Na altura, em declarações ao «Público», Carlos César afirmou sobre Ricardo Rodrigues, de quem se confessou amigo:  "Estou convencido da sua inocência. É isso que ele me diz. Conheço-o bem, sei que é uma pessoa de bem.». A expressão é coincidente com a de Francisco Assis, no caso do roubo efectuado por Ricardo Rodrigues dos gravadores a jornalistas da revista «Sábado» que o entrevistavam. Só que aí há uma filmagem do furto e não há maneira de o visado reclamar inocência. Mas, aparentemente, sendo considerado «uma pessoa de bem» pode fazer o que lhe apetece em cargos públicos. No Parlamento tem tido um comportamento arrogante e foi um dos que contribuiu para a inutilidade prática do trabalho da Comissão de Inquérito ao caso PT/TVI. Gaba-se de ter boa ligação com José Sócrates, de ser ainda influente nos Açores e de ter muitos apoios no PS. Esta semana o Parlamento fez o inevitável e levantou-lhe a imunidade – mas o deputado optou por responder por escrito - podia mostrar coragem e ir de viva voz, mas prefere usar as prerrogativas parlamentares até ao limite do possível.


 


LER – Paul Harden foi durante anos director criativo da agência de publicidade Saatchi & Saatchi, na época áurea da empresa, autor de numerosas campanhas, como as que deram novo alento à British Airways e a do lançamento do jornal The Independent, entre outras. Paul Arden, que morreu em 2008, escreveu vários livros e um deles tornou-se num clássico - «It’s Not How Good You Are, It’s How Good You Want To Be». O livro criou fama de ser uma espécie de manual infalível para obter sucesso, baseado no processo criativo utilizado na publicidade. A Phaidon fez uma nova edição, graficamente muito cuidada, disponível nas livrarias Bulhosa.


 


VER – «And Then Again»  é uma exposição colectiva de artistas portugueses e ingleses que abriu esta semana e que é feita com o apoio do Royal College of Arts e o Centro Português de Serigrafia – a gravura como suporte da criação artística é o tema central da exposição, que tem curadoria de Ana Fonseca e Liz Collini e está no Pavilhão Preto do Museu da Cidade até 5 de Setembro. Há várias iniciativas paralelas e complementares, informações em www.andthenagain.net .


 


DESCOBRIR –A edição nº 100, de Julho, da revista britânica MOJO, tem a particularidade de ser editada por Tom Waits – que escolheu também as faixas do CD que a publicação oferece. É uma selecção de blues e de country absolutamente fantástica e só por isso vale a pena comprar esta edição da MOJO. De Hank Williams a Ray Charles, passando por Howlin’ Wolf, ali está tudo o que Tom Waits considera serem as suas influências – e uma delas é Harry Belafonte, presente no disco e numa magnífica e reveladora entrevista nesta edição.


 


OUVIR – Robert Wyatt, o vocalista dos Soft Machine, tem uma longa carreira a solo marcada por grandes canções, a maior parte da sua autoria, mas também com algumas versões como duas que estão neste disco – de «I’m A Believer» dos Monkees e de «Shipbuilding», que Elvis Costello escreveu para ele. Wyatt vive numa cadeira de rodas desde um acidente no início da década de 70 mas isso não o tem impedido de trabalhar em música. Este disco é uma compilação de alguns dos seus temas famosos, ironicamente chamada «His Greatest Misses», e foi inicialmente pensada por um fã japonês em 2004. A reedição permite redescobrir todo o encanto e energia das interpretações de Wyatt e da sua composição, como em «Sea Song» ou «Solar Flares». CD «His Greatest Misses», Robert Wyatt, edição Rykodisc, na Amazon.


 


PROVAR – É uma pena mas são raros os restaurantes de Hotel em Lisboa que conseguem ter uma vida própria sobretudo ao jantar – mesmo quando têm excelente localização. O novo Altis Avenida, nos Restauradores, tem no seu último andar um restaurante, com um belo terraço e uma belíssima vista, o Brassereie Gourmet Rossio, mas infelizmente se lá for jantar arrisca-se a estar sozinho, ou quase. Deixemos de lado o facto de o nome ser um pouco pomposo demais - há que reconhecer que a cozinha está bem entregue, melhor que o serviço de sala. Nas duas ocasiões em que lá fui gostei de tudo o que foi servido – amouse bouche de migas de bacalhau com broa, umas vieiras com puré de ervilhas como  entrada, um salmão com flor de sal e tomilho acompanhado de risotto do mar, e um bacalhau fresco com legumes ao vapor. No final os sorbet são imprevistos – maçã com poejo, melancia com gengibre e baunilha com cardamono. Confesso que das duas vezes não gostei tanto do serviço – um pouco pretensioso, a falar mais do que aquilo que é preciso, com algumas falhas graves – o insistir numa coisa que o cliente já disse não querer, o esquecer do frappé no vinho branco e ser preciso chamar a atenção para resolver a questão, e sobretudo, à noite, o inqualificável gesto de começar a colocar as mesas do pequeno almoço do dia seguinte enquanto há ainda clientes a jantar.. Resumo: se quiserem experimentar prefiram o almoço. Brasserie Gourmet Rossio, Hotel Altis Avenida, Telefone 210440000


 


 


ARCO DA VELHA – A EMEL quadriplicou os resultados líquidos em 2009. À custa de quê e de quem, Dr. António Costa? E o estacionamento em dupla fila, acabou?


 


BACK TO BASICS – Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas – Oscar Wilde

junho 22, 2010

E O PARLAMENTO?

(publicado no diário Metro de dia 22 de Junho)


 


Algumas pessoas acham que a Comissão de Inquérito Parlamentar ao caso PT/TVI não serviu para nada. Eu defendo exactamente o contrário: serviu, e muito. Serviu para provar o mau estado do sistema político e partidário português; serviu para provar o mau funcionamento do Parlamento; serviu para provar que uma comissão de inquérito pode ser manipulada; serviu para provar que deputados e partidos não olham a meios para atingir determinados fins. Em suma, serviu para mostrar que com deputados assim e um sistema destes o parlamento é uma farsa. E é justo dizer que também serviu para mostrar que as coisas não teriam de ser assim tão más se existissem mais cabeças livres, frontais e corajosas como a de Pacheco Pereira, o único deputado que se insurgiu de forma coerente contra os critérios estipulados por Mota Amaral com o evidente objectivo de abafar o caso, em conluio com o PS e perante a neutralidade do PSD.


Alguns arautos da democracia representativa ficam muito incomodados com a afirmação de que o Parlamento se está a tornar numa inutilidade – mas fariam melhor em olhar para os seus actos e perceber que os partidos, o método de funcionamento que impõem aos seus representantes, e os próprios deputados, são os principais causadores do descrédito parlamentar. Os números da abstenção eleitoral em Portugal falam por si – as pessoas já não acreditam na eficácia do sistema e colocam-se de lado e incidentes destes só agravam a situação.


Este Parlamento é inútil – é apenas cenário para acordos e negociatas partidárias, já deixou há muito de ser um fiscalizador das acções do Governo e um defensor dos eleitores – que é o que se espera da instituição parlamentar.


Este caso, por configurar um abuso de poder do executivo, era uma boa oportunidade para que o Parlamento exercesse uma actividade moralizadora e fiscalizadora. Que mostrasse independência face ao poder político e que averiguasse sem ceder a pressões. Infelizmente o que aconteceu foi o contrário disso mesmo. Muitos destes políticos que estão sentados em S. Bento e nos directórios partidários estão a dar cabo da função parlamentar e, pelo, caminho irão destruir a democracia.

QUERO LÁ SABER DO MUNDIAL - OS MISTÉRIOS

(Publicado no Record de dia 22 de Juno)


Confesso que sou um fã de policiais – mesmo aqueles que têm um bocadito de futebol  pelo meio, como os do Francisco José Viegas. Gosto de mistérios, de tentar adivinhar os culpados, de perceber a lógica das investigações. Pensando bem no assunto o futebol é um mundo de mistério – o próprio jogo é um mistério muitas vezes: porque é que uma equipa joga semanas a fio tão mal e, depois, de repente, dá uma cabazada ao adversário? Mistério!


Este Mundial, no caso português, está fértil em mistérios. Primeiro foi o Nani, que veio recambiado para Lisboa, com prazo de recuperação anunciado de uma semana, sem nunca se saber exactamente o que teve. A semana já lá vai e pouco se sabe mais do assunto – é certo que a vitória contra a Coreia faz esquecer muita coisa, mas lá que eu gostava de ver este mistério resolvido, gostava.


Outro mistério é o da lesão saltitante em parte incerta que atingiu Deco poucos dias depois de ter feito declarações que punham em causa Carlos Queiroz. O que eu sei é que primeiro a lesão era na anca direita, depois na anca esquerda e no fim parece que é na coxa. Não é preciso ser perito em anatomia para distinguir uma anca de uma coxa – e não estou a falar de bailarinas.


Feitas as contas a prestação da selecção até ao momento cifra-se em um empate, uma vitória e dois mistérios. Eu se fosse a Gilberto Madail encomendava aos Black Eyed Peas uma canção chamada «I’ve Got A Mistery»

junho 18, 2010

SERVIÇO PÚBLICO, ELEIÇÕES, LIBERDADE DE ESCOLHA

(Publicado dia 18 no Jornal de Negócios)


 


SERVIÇO PÚBLICO  –  O deputado do PSD Agostinho Branquinho veio esta semana reintroduzir o debate sobre o serviço público de televisão através de um artigo, no «Diário Económico», onde defendeu implicitamente a sua extinção. Citando alguns números, alguns dados e muito pouco benchmarking, fez algumas extrapolações, todas a partir do actual modelo existente.


Há um vício de forma em toda a argumentação de Agostinho Branquinho – ele parte do pressuposto de que a RTP faz Serviço Público e esse é o erro base. Na realidade, diz o deputado, «o cidadão português não ganha nada com a televisão pública que não possa obter num qualquer operador privado». Mas isso acontece exactamente porque a RTP cada vez se afasta mais do conceito actual, contemporâneo, de serviço público de televisão, nomeadamente dos modelos dos países onde a televisão privada é forte, como os casos da PBS norte-americana e de uma série de estações públicas europeias de países como a Holanda, a Dinamarca, a Alemanha, a Noruega e a Suécia. Convido a uma reflexão sobre estes modelos e a uma análise cuidada das suas realidades.


Para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, com um único canal nacional, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal único nacional não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, desporto incluído – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento. Existem diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos, como a «Rua Sésamo». Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. Não há razão que impeça que o serviço informativo seja contratado no exterior – há países onde isso acontece em canais de serviço público. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.


Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam ou não útil e necessário. O resto é uma questão de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado. Se é concessionado ou não é outra história e não é o mais importante.


Existe acessoriamente uma razão para a existência de um operador de serviço público: a dinamização da produção independente nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais.


Questão final, cuja responsabilidade é dos políticos: garantir que um operador de serviço público possa ser independente do poder político, com um caderno de encargos rigoroso (cujo levantamento aliás existe), fiscalizado de forma técnica e regulado de forma independente. Se os políticos não conseguirem replicar este modelo, que existe em vários países, então o melhor é demitirem-se de serem políticos.


 


POLÍTICA - Para existir liberdade de voto tem que existir liberdade de escolha. Para existir liberdade de escolha têm que existir vários candidatos. Utilizar o argumento de que não devem surgir mais candidaturas, por exemplo à Presidência da República, para que não se prejudique a reeleição de Cavaco ou as possibilidades de Alegre, é o princípio do fim da democracia – ou seja aquilo em que os partidos e muitos políticos esforçadamente andam a tentar fazer. Mão amiga fez-me chegar à memória este dado: nas eleições presidenciais francesas de 2007 existiam na primeira volta 12 candidatos, e em 2002 eram 15. Liberdade de escolha é isto – ter várias propostas, ouvir vários discursos, ter por onde escolher. De qualquer modo, à segunda volta passam sempre apenas dois candidatos e é entre eles que se decide. O que me aborrece muito é a ideia de que basta existir uma primeira volta e com quanto menos candidatos melhor. O que me anima é poder ter uma campanha onde, por exemplo, se discuta o que deve ou não mudar no nosso sistema político-partidário para que o país possa funcionar melhor e sair da crise. Utópico? Serão o voto e a escolha uma utopia?


 


MUNDIAL - Estava a ouvir Carlos Queiroz no final do jogo com a Costa do Marfim e, de repente, olhando para o seu sorriso naquelas circunstâncias, achei que ele e Sócrates são gémeos no discurso: Mau resultado? – Nada disso. Problemas? - Nenhuns, ânimo que conseguiremos. Críticas? - Devem ser influências de manobras do estrangeiro. Dificuldades? - De todo. Mudanças? - Nenhumas. Erros? – Disparate. Este é o discurso da cegueira – já se viu onde levou nas finanças nacionais, vamos a ver o resultado no Mundial. No futebol ganha quem marca golos. Ainda não percebi bem como se chama o jogo que a selecção anda a fazer.


 


LER – Nick Hornby tem uma carreira literária a contar histórias feitas no universo do rock e do pop. Este «Juliet, Naked», recentemente publicado e já traduzido aliás para português, é talvez o seu melhor livro. A história é deliciosa e conta como um mediano músico norte-americano, Tucker Crowe, se tornou num, fenómeno de culto a partir do seu desaparecimento da cena musical a meio de uma digressão, sem que nenhuma novidade a seu respeito surja durante 20 anos. Deste ponto de partida começa uma descrição das relações entre as pessoas que têm gostos comuns – no caso a música do desaparecido Tucker. A publicação de uma gravação inédita, mas de qualidade discutível, provoca uma série de reacções entre os seus fiéis e sobretudo mostra como os nossos ídolos só ganham a dimensão que projectamos a partir das fantasias que elaboramos sobre eles. Incidentalmente, uma das teorias entre os fanáticos do músico dizia que Tucker viveria isolado numa garagem em Portugal – mas episódios à parte o livro vale pela construção de personagens, pela exploração dos mecanismos de formação do gosto, e pela forma como as obsessões nos afastam da realidade. Este é o livro de Hornby de que mais gostei. «Juliet, Naked», edição de bolso Penguin, na Amazon, cerca de 10 euros. Se puderem leiam o original, em inglês, vale a pena.


 


OUVIR –  A capa do disco é uma paródia aos westerns e o conteúdo é surpreendente – tanto que se transformou num clássico pouco tempo depois da sua edição original, em 1957. «Way Out West», de Sonny Rollins, resiste de forma impecável aos 53 anos de vida que já tem. Destaque para o clássico «I’m An Old Cowhand» , para a versão de «Solitude», um original de Duke Ellington, para um «Wagon Wheels» perfeitamente cinematográfico e para o tema título, do próprio Sonny Rollins, «Way Out West». Esta nova edição da excelente série Original Jazz Classics da Universal tem remasterização digital e inclui ainda versões até aqui inéditas de três dos temas do álbum original.


 


PROVAR – A Bica do Sapato fez 11 anos esta semana e renovou a esplanada, que agora conta com um bar – muito bom para fins de tarde -  tem mais sombra e está mais protegida do vento. Além disso  introduziu novidades na lista de verão, como um novo menu de almoço onde se destacam um delicioso carpaccio de carapauzinhos marinados, um hamburguer de frango do campo e farófias como sobremesa. O menu almoço custa 21 euros e inclui vinho a copo. No resto da lista também há boas novidades, algumas a valer uma experiência. Reservas pelo telefone  218 810 320.


 


BACK TO BASICS – A prudência inscrita no livro da covardia tem o nome de senso comum – Oscar Wilde


 

junho 15, 2010

ESTOU FARTO!

(Publicado no diário Metro de dia 15)




Esta semana enchi as medidas. Estou farto de uma actividade política que é baseada na mentira, no engano, na dissimulação, estou farto de um Parlamento que é  uma câmara de horrores.


Estou farto de equilibrismos políticos em nome do mal menor. Estou até aos cabelos com comissões de inquérito parlamentares que são uma fantochada, uma pedrada mais na credibilidade dos deputados e do Parlamento. Estou farto destes consensos em nome da salvação nacional, que começam em Belém, passam pelo Rato e pala Lapa e terminam em S. Bento, com toda a gente muito interessada em garantir protecções recíprocas. Estou farto de um Parlamento que protege Ricardo Rodrigues um deputado filmado no acto de roubar.


Estou farto de figuras como Mota Amaral, um dos poucos líderes regionais derrotado sem apelo nem agravo em eleições, um dos exemplos em como se pode fazer uma carreira cheia de ineficiências mas muitos equilibrismo. Estou saturado de manobras de bastidores e de corredores que subvertem a ordem lógica das coisas.


Estou farto destes partidos, do funcionamento do sistema, do desprezo pelos eleitores, do cinismo como linha política e da falta de princípios como ideologia. Estou farto de ver os líderes eleitos darem o dito por não dito, estou farto de promessas eleitorais não cumpridas. Estou farto do aumento de impostos, dos abusos do fisco, do laxismo geral do sistema, da ineficácia da justiça e do despesismo do Governo.


Estou farto de diagnósticos que dizem que a situação é insustentável mas que depois não tomam medidas, nem acções. Estou farto dos partidos que dizem que o Primeiro Ministro é incompetente mas que depois não apresentam moções de censura e no Parlamento fazem o que podem para garantir que a coisa continue a piorar até que a podridão lhes dê  jeito.


Estou farto de votar no mal menor, de candidaturas que não avançam para não beliscar as do costume, estou farto de ter a minha liberdade de voto limitada pela ausência de candidatos, estou farto do politicamente correcto, estou farto de Bruxelas e estou farto do sistema partidário que temos – uma coisa arcaica cujo maior feito é conseguir um contínuo aumento da abstenção.


 

junho 14, 2010

SOBRE O FADO E A UNESCO

(publicado no Jornal de Negócios de 11 de Junho)


 


FADO – Na semana passada a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, por unanimidade, a candidatura do Fado a património imaterial da Humanidade, que será depois formalizada junto da Unesco. Foi feito um grande foguetório à volta deste assunto e não percebo bem porquê – que a candidatura tenha sido aprovada era de esperar, que ela tenha algum efeito prático é outra coisa, mas isso só o tempo o dirá, e cheio de boa vontade vou esperar que sim. Vale a pena dizer, no entanto, que um outro género musical com uma identidade própria parecida com a do Fado, o Tango argentino, tentou também a classificação junto da Unesco e foi repelido. Espero, sinceramente, que o destino do Fado seja diferente. Mas este sentimento de unidade nacional – que é sempre uma coisa que me irrita um bocadinho – não nos deve impedir de fazer o balanço de um episódio particularmente desagradável desta candidatura. Falo do filme «Fados», realizado por Carlos Saura, e que, a certa altura, um bizarro vereador do pelouro da Cultura que passou por Lisboa, de nome José Amaral Lopes, resolveu apoiar com um milhão de euros. Outras entidades públicas, pressionadas, diga-se, participaram também cegamente no financiamento, que apresentou um orçamento total de cerca de quatro milhões de euros. Toda a argumentação para o apoio da Câmara e do Estado ao projecto teve como base a grande importância que ele teria para a acima citada candidatura do Fado no âmbito da Unesco – que só agora vai acontecer, já ninguém se lembra do filme, que foi um flop total. Na altura escrevi, aqui mesmo neste jornal, que o financiamento do filme era um disparate e que os argumentos utilizados eram um engano terrível e caríssimo. Volto ao assunto para que as coisas não caiam no esquecimento. «Fados», diziam os seus apoiantes, teria uma grande carreira nacional e internacional e seria premiado pelo mundo inteiro, numa extraordinária operação de marketing da candidatura. Resultado? - 34.151 espectadores em Portugal, o que deu 141.181 euros de receita de bilheteira (números do Instituto do Cinema), uma pífia carreira internacional em meia dúzia de mercados não influentes, arrasos diversos da crítica, e só em Espanha (terra do realizador Carlos Saura), conseguiu um prémio, menor, relativo à banda sonora. O «enriquecimento da projecção internacional do Fado» como dizia o PSD Amaral Lopes, «em boa hora apoiado», como disse o PS António Costa, ficou-se por uma operação sem resultados. «Quem não conhece a história do fado sairá certamente decepcionado deste filme» - escreveu um crítico brasileiro, depois de, por cá, muitas pessoas terem chamado a atenção para as inexactidões que este pseudo-documentário exibia. Mas no fim, fica uma pergunta a que eu acho que alguém, na autarquia, devia responder: não teria sido mais rentável produzir, com o mesmo milhão, uma boa série documental para televisão? Ou, esse milhão não teria sido melhor empregue a criar a Film Commission Lisboa, que faz falta, tarda, e, essa sim, podia ajudar à nossa imagem internacional, fado incluído? Com a falta de financiamentos que existe na área da cultura e criatividade faz impressão ver como esta candidatura do Fado serviu para atirar à rua um milhão de euros da Autarquia em nome do apoio saloio a Carlos Saura. Para terminar: por acaso ele realizou um idêntico mau filme sobre o «Tango» (foi aliás daí que a ideia foi copiada) e o resultado na Unesco para a música de Buenos Aires já se conhece.


 


VER – Já que os poderes dominantes acabaram há uns anos com a Lisboa Photo, para vermos o trabalho de comissariado do português Sérgio Mah na área da fotografia, restam-nos duas alternativas: ou ir a Madrid, cidade que rapidamente o acolheu na PhotoEspaña, ou aproveitar o facto de o Museu Berardo, no CCB, volta e meia nos proporcionar algumas destas exposições que ele trabalhou para o evento madrileno. Na semana passada foi inaugurada «German Faces», do norte-americano Colin Schorr, um dos mais interessantes nomes da fotografia contemporânea, que se tem especializado no retrato, muitas vezes encenado em situações de evocação histórica. Tal como nas suas séries «Novos Soldados» ou «Florestas e Campos», Schorr regressa com este trabalho às evocações históricas das marcas da guerra no nosso imaginário comum. Neste caso as imagens são todas de habitantes de uma pequena cidade do sul da Alemanha, Schwabisch Gmund, retratos fortes, marcantes, quase intemporais, a assinalar apenas uma espécie de recordação da ameaça permanente do passado. As imagens de Schorr ficam no Museu Berardo até 15 de Agosto e são uma das mais interessantes exposições de fotografia apresentada este ano em Portugal.


 


LER – Os diários de viagem são um género muito peculiar e quando os seus autores são personagens fascinantes a coisa torna-se ainda mais interessante. «Diário da Bicicleta», de David Byrne, o fundador e mentor dos Talking Heads, entra nesta categoria. O que se passa é que desde o início dos anos 80 David Byrne decidiu que a bicicleta seria o seu principal meio de transporte quando está numa cidade – de maneira que, quer em Nova Iorque, onde vive, quer nas cidades por onda vai fazendo actuações, transporta sempre consigo um velocípede. Vai daí começou a escrever um livro sobre a forma como, pedalando, via metrópoles como Londres, Buenos Aires, Berlim, Istambul, Sydney e uma série de cidades norte-americanas, para além de NY, num delicioso passeio pelas suas memórias de infância e de vida. Pelo meio destes passeios fala não só do que vê, mas também do que sente, seja com a música local (de que faz muito engraçadas notas) até à arquitectura. Tudo isto é completado por fotografias escolhidas por Byrne e por muitos desenhos feitos por ele próprio em observações bem irónicas e certeiras. São 400 páginas que correm num ápice, numa bela edição da Quetzal.


 


OUVIR – O pianista Brad Mehldau gosta de arriscar - e a verdade é que misturar jazz com drum and bass pode parecer uma ideia perigosa. Acontece que o resultado é muito bom.  As primeiras experiências nesta direcção tinham sido feitas com o álbum «Largo» (de 2002), onde se ensaiou a primeira exploração neste sentido – podia ter corrido mal, mas não; e agora, em «Highway Rider» o resultado é ainda melhor, com a curiosidade de, às sonoridades mais contemporâneas, se juntar uma orquestra completa ao longo deste duplo CD, que é talvez o trabalho mais conseguido da carreira de Mehldau – conseguido e polémico já que as críticas oscilam entre o elogio e o arraso. Eu coloco-me do lado do elogio. Em «Highway Rider» está o trio habitual (Mehldau no piano, Jeff Ballard na bateria e Larry Grenadier no baixo), a que se juntaram o génio de Matt Chamberlain na percussão e o talento do saxofonista Joshua Redman (que aqui volta a demonstrar a sua técnica e sensibilidade). É certo que as culpas do que correu bem devem ser assacadas em partes iguais ao bom senso de Mehldau e do produtor que o tem acompanhado nestas explorações, Don Brion.  Ouçam o dueto entre Mehldau e Redman em «Old West», a forma como Redman intervém em «The Falcon Will Fly Again» ou o envolvente «Into The City» e deixem-se levar por este magnífico disco.


 


PROVAR – Um dia destes, por mero acaso, tive a sorte de descobrir um verde branco absolutamente fantástico, feito na região de Baião, e chamado «Cazas Novas» - fresco, vivo, verdadeiramente ideal para o fim de tarde em dias quentes, ou para acompanhar saladas, peixe e marisco. Por favor deixem-se de preconceitos e não comecem a torcer o nariz -  entre os vinhos verdes estão alguns dos nossos melhores e mais raros brancos. Este «Cazas Novas» é produzido na Quinta de Guimarães, em Santa Maria do Zêzere. Não é fácil de encontrar mas se vos passar por perto agarrem-no, que vale a pena.


 


BACK TO BASICS – Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem – Padre António Vieira


 

A INÚTIL EMEL

(publicado no Metro de 8 de Junho)


 


 


 António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, prometeu nas eleições que iria acabar com o caos nas Avenidas Novas, prometeu eliminar os carros estacionados em segunda e terceira fila – mas a realidade é que a circulação naquela zona está cada vez pior. O mais estranho de tudo é que a EMEL, que ali perto da sua sede é hiper-activa, se entretém mais a multar e bloquear carros bem estacionados, mas eventualmente fora do limite de tempo, do que a exercer uma atitude efectiva de fiscalização e prevenção do estacionamento em dupla (e às vezes terceira) fila. Pior – nalguns casos são até viaturas da EMEL que estão a empatar o trânsito em segunda fila ou mesmo em cima de passadeiras de peões. Há uns tempos enviei à empresa, e ao mail público do Presidente da Câmara, uma fotografia tirada à porta do meu escritório a uma carrinha da EMEL que ostensivamente bloqueava toda a passadeira ali existente. A resposta que os serviços me deram foi que a carrinha estava em serviço. Ora quantas vezes é que a EMEL bloqueia e multa carros de pessoas que estão em serviço? Como pode a empresa usar uma justificação destas para parar numa passagem de peões num cruzamento movimentado e depois fazer uma fantochada de uma campanha a dizer que protege a segurança dos peões. A EMEL é um serviço de multas – não é um serviço de regulação de estacionamento e este é o grande problema. Quem vive e trabalha em Lisboa sabe que os exemplos de prevaricação da EMEL sobre os contribuintes lisboetas são enormes. A EMEL é um abuso de poder, uma instituição de legalidade duvidosa na sua actuação, que segue a máxima dos cobradores de impostos – roubar onde é fácil, fechar os olhos ao que é difícil.


Caro Presidente da Cãmra, Dr. António Costa, deixe-me usar uma velha expressão popular no mês das Festas da Cidade: o Senhor não é homem não é nada se não mudar esta situação. Feche a empresa, castigue quem manda nela, faça qualquer coisa mas resolva o problema. A EMEL assim só contribui para diminuir a qualidade de vida dos lisboetas e fazer-lhes aumentar a tensão arterial.


 


 

junho 01, 2010

O ENGANO EUROPEU

(Publicado no diário Metro de 1 de Junho)


 


Durante anos gerações de políticos tentaram vender-nos a ideia de que a Europa seria a solução para todos os nossos males e o remédio para todas as nossas dificuldades. Como agora dramaticamente se verifica a Europa está no centro da origem da crise e o entendimento político foi mandado às urtigas em nome das necessidades económicas.


O grande papel da União Europeia nos últimos anos foi o de incentivar a destruição dos sistemas de produção nos países mais pequenos e periféricos, comprando-os com subsídios e estimulando a sua transformação em mercados consumidores de produtos importados, nomeadamente para as exportações alemãs e francesas. No caso português os investimentos da União Europeia foram no sentido de destruir culturas agrícolas, de limitar a actividade pesqueira, de construir infra-estruturas que facilitassem a logística do consumo. O resultado está à vista – temos a maior zona económica exclusiva da Europa em termos de orla marítima mas deixámos que as limitações que nos foram sendo impostas destruíssem a nossa frota pesqueira. A ideia Europeia crescei nestes paradoxos.


No caso português, verificamos hoje que aumentámos em muito a nossa dependência do exterior, passámos a importar o impensável – até alhos, por exemplo. As exportações foram caindo, as indústrias foram encerrando, os campos largados ao abandono. A nossa maior exportação tem sido mandar para cargos internacionais ex-primeiros ministros. É pouco.


A Europa politicamente correcta fomentou a ideia de que tudo seria sempre fácil, que os subsídios viriam sempre – criou a ilusão de que este admirável mundo novo iria durar sempre – o despesismo público, o crédito infindável, o gasto descontrolado. De certa forma a ideia do socialismo – a criação de riqueza para todos e a sua distribuição – confundiu-se com o ideal europeu. Parecia que havia dinheiro a rodos, para sempre. Mas afinal acabou por se descobrir a verdade mais antiga da História: só se deve gastar aquilo que se tem, só gera receitas o que se produz.

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 25 de Maio)

CONFUSÃO – Numa só semana várias entidades de três ministérios desdisseram-se e contradisseram-se umas às outras. No Ministério da Economia a confusão foi causada pelo esgotamento do crédito às PME’s, que provocou posições e informações desencontradas; nas Finanças a introdução das taxas agravadas de impostos provocou uma autêntica sucessão de comunicados e despachos que criaram a maior das confusões; nas Obras Públicas as declarações sobre aumentos de preços de transportes, suspensões de planos e manutenção de planos tornaram-se a regra. Economia, Finanças  e Obras Públicas não são ministérios menores – a confusão que lá reina é sinal do caos instalado no Governo.


 


FITAS - Já se percebeu que neste Governo há dois novos Ministros que são exemplos perfeitos de erros de casting: António Mendonça nas Obras Públicas e Helena André no Trabalho e Solidariedade Social. Isto, claro, para não falar de um outro erro de casting antigo que se tem vindo a acentuar – o próprio Sócrates cujo comportamento ao longo da crise foi revelador da sua instabilidade psicológica e dos seus piores defeitos – a teimosia e a dificuldade em perceber a realidade que o cerca.


 


NEXT - A corrida pela sucessão de Sócrates no PS já começou. A dúvida está em saber se vai ser uma prova de 3000 metros obstáculos ou uma meia maratona – seja como for os treinos já começaram. A agravar a instabilidade do partido do Governo está também o caso das presidenciais, com uma assinalável falta de entusiasmo no apoio à candidatura de Manuel Alegre, um osso difícil de engolir – em qualquer caso é daqueles assuntos que vai gerar crise interna pela certa.  Vamos ver o que se passa no regresso de Sócrates da Venezuela e dos conselhos que deve ter recebido do seu amigo Hugo Chávez.


 


EURO - Uma das melhores contribuições para a compreensão daquilo que se passa foi dada pela entrevista do economista João Ferreira do Amaral ao «Jornal de Negócios» na qual explicou porque é que q nossa economia tem sido destruída pelo Euro. João Ferreira do Amaral, recorde-se, ex-conselheiro para assuntos económicos do Presidente da República Jorge Sampaio, foi das poucas vozes que em tempo devido se manifestou a chamar a atenção precisamente para os perigos para a economia portuguesa que poderiam advir da adesão á moeda única. No meio do entusiasmo europeísta não foi ouvido – e muito do que dizia acabou por se confirmar.


 


 LER – O Brasil está a fazer uma gigantesca operação de comunicação que utiliza os mais diversos recursos, não descurando nem um pouco a qualidade dos meios escolhidos e a forma como se pretende mostrar a imagem de um país criativo, moderno, divertido e evoluído. Depois de ter tido um especial numa edição recente da prestigiada revista «Monocle», eis que o Brasil patrocina a edição de Junho da «Wallpaper», uma das publicações de referência em matéria de lifestyle. Para o efeito a redacção da «Wallpaper» deslocou-se por umas semanas para São Paulo e o resultado é um número em que o Brasil expõe o que tem de melhor nos negócios, na arte, no design, na arquitectura, na moda, na comida e, claro, nas praias e na paisagem. O título de capa diz tudo: «Born In Brazil – A Warm Welcome from the most exciting country on earth». A isto chama-se uma operação especial de comunicação bem conseguida.


 


OUVIR – Joe Pass foi um dos grandes guitarristas da história do Jazz e fez fama tocando ao lado de nomes como Ella Fitzgerald, Count Basie, Duke Ellington e Dizzy Gillespie, entre outros. Mas foi com o seu segundo álbum a solo, «Virtuoso», editado originalmente em 1974, que ele ganhou verdadeiramente estatuto e reconhecimento. É uma gravação extraordinária, com versões para guitarra eléctrica do próprio Joe Pass para onze temas clássicos do jazz , desde «Night And Day» de Cole Porter até «The Song Is You» de Jerome Kern, passando por outros como «Stella By Starlight», «How High The Moon» e «Round Midnight». O disco inclui ainda uma composição de Pass, «Blues For Alican». Joe Pass foi um dos reinventores da forma de tocar guitarra eléctrica no jazz, ao mesmo tempo explorando a melodia e o ritmo, usando com imaginação as possibilidades da guitarra eléctrica e com uma técnica extraordinária – daí «Virtuoso» ser mesmo um título ideal para o disco. Através da etiqueta Concord, a Universal Music promoveu a reedição do álbum, num CD remasterizado a 24 bits na magnífica série Original Jazz Classics. Em poucas ocasiões terão oportunidade de sentir a emoção única que uma guitarra é capaz de proporcionar como neste disco.


 


PROVAR – Quando li que o Chefe Vitor Sobral tinha a supervisão da cafetaria da nova livraria Babel, perto da Praça de Espanha, fiquei com curiosidade. A livraria fica no nº 148 da Avenida António Augusto de Aguiar, mesmo em frente ao Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian cujos jardins são a vista principal da zona da cafetaria. A carta felizmente é baseada em refeições leves – saladas, sanduíches, e alguns petiscos variados. Experimentei uma bela sanduíche aberta de maçã, queijo da ilha gratinado, presunto, rúcula e hortelã e dei-me por muito satisfeito. Poderia ter escolhido uma salada de bacalhau fumado, mas fica para a próxima. E, nos petiscos, houve uma empada que também me chamou a atenção. Há sumos, vinho a copo e cerveja. É na realidade uma cafetaria, com a vantagem de ter mobiliário simpático e confortável, bom serviço e uma ementa bem construída e despretensiosa. Ainda por cima a preços decentes.


 


DESCOBRIR – Uma boa maneira de nos mantermos a par do que vai surgindo de novo no mundo da música é seguir o site MyWay em www.myway.clix.pt . Aqui pode escolher entre os géneros que preferir ou pode simplesmente deixar-se levar pelas várias pré-selecções existentes – desde as novidades até às várias estações webradio dedicadas a géneros musicais específicos e até artistas. Além disso há uma área de notícias e outras dedicadas aos próximos concertos que se realizam em Portugal. É de navegação fácil e tem um catálogo de música muito alargado.


 


CITAÇÃO - «Ricardo Rodrigues foi um ladrão. Roubou objectos que não lhe pertenciam. O resto é conversa» - Miguel Esteves Cardoso, no «Público»


 


BACK TO BASICS –   «Enforcamos os criminosos vulgares e nomeamos os maiores para cargos públicos» - Ésopo

maio 28, 2010

MUNDO TV

(Publicado no diário Metro do dia 25)


 


A SEMANA DA SIC


Vai uma guerra aberta nos canais de televisão: a SIC conseguiu o seu melhor resultado semanal do ano, com um share de 25% nestes últimos oito dias, colada à TVI que teve 26,6% e a com uma confortável vantagem sobre a RTP, que teve 22,7%, apesar dos resultados conseguidos com a final da Liga dos Campeões, no sábado. O cabo, no mesmo período, atingiu 20,7% - um quinto das audiências.


A SIC, em época de fim do enredo das novelas, teve bons resultados ao longo de toda a semana e bons números na sua programação de Domingo, graças à Gala dos Globos de Ouro. O resultado é que a SIC venceu destacada a guerra deste Domingo com 30,6%.  Nem o regresso de Marcelo Rebelo de Sousa à TVI,  embora tenha tido um excelente resultado para as circunstâncias, foi suficiente para segurar a liderança nesse dia.


Se olharmos para o top tem dos programas mais vistos da semana, quatro são da TVI (um deles o Jornal da Noite de Domingo com a análise de Marcelo Rebelo de Sousa), quatro são das SIC e apenas dois da RTP – a final da Liga dos Campeões e um Especial Informação com uma entrevista a José Sócrates em pleno período de anúncio de medidas de austeridade – nada de ficção produzida em Portugal entre os êxitos do Serviço Público – a menos, é claro, que consideremos José Sócrates um caso de ficção (mas isso é outra conversa).


No cabo também há mudanças – e esta semana a Fox ultrapassou mesmo o canal infantil Panda, e conquistou pela primeira vez  a segunda posição dos canais mais vistos em sistemas de cabo e satélite, atrás da SIC Notícias.


O mais interessante é analisar o que se passa nos lares que acedem à televisão via um dos operadores de cabo, e que são a maioria nas grandes cidades, na zona litoral e no Algarve :  já só cerca de 2/3 vêem os canais abertos – RTP 1 e 2, SIC e TVI e, quase sempre, a ordem de preferências é TVI, seguida da SIC, da RTP 1, da SIC Notícias e só depois da RTP 2.


A televisão continua a ser um bem muito consumido: a média de tempo de consumo de televisão dos telespectadores portugueses esta semana foi de 3 horas, 59 minutos e 41 segundos.


 


 

maio 21, 2010

PARÁBOLA DO BALÃO E DA DÚVIDA SOCRÁTICA

José Sócrates, voando de balão, dá conta de que está perdido. Avista um GNR, aproxima-se dele e pergunta-lhe: 
 - Pode ajudar-me? Fiquei de me encontrar às duas da tarde com um amigo, já estou meia hora atrasado e não sei onde estou...
 - Claro que sim! - responde-lhe o guarda - O senhor está num balão, a 20 metros de altura, algures entre as latitudes de 40 e 43 graus norte e as longitudes 7 e 9 graus oeste.
 - Você é da GNR, não é? - interroga Sócrates
 - Sou sim senhor! Como foi que adivinhou?
 - Muito fácil: porque o que me disse está tecnicamente correcto mas é inútil na prática. Continuo perdido e vou chegar tarde ao encontro porque não sei o que fazer com a sua informação...
 - Ah! O senhor é socialista, não é? 
 - Sou! Como descobriu? 
 - Muito fácil: porque o senhor não sabe onde está nem para onde vai, assumiu um compromisso que não vai poder cumprir e está à espera de que alguém lhe resolva o problema. Com efeito, está exactamente na mesma situação em que estava antes de me encontrar só que agora, por uma estranha razão, a culpa é minha!...

(Publicado no Jornal de Negócios de 21 de Maio)

MÚSICA - No início dos anos 80 existia uma banda pop britânica chamada Fun Boy Three, que teve algum relevo na época. Um dos seus êxitos intitulava-se «The Lunatics Have Taken Over The Asylum». Na passada terça-feira, enquanto assistia à exibição de José Sócrates na RTP, esse foi o refrão que me veio à cabeça e comecei a trautear o que lembrava dessa bela canção. Por acaso ao mesmo tempo dei comigo a pensar que aquele cartaz em que o nariz de Sócrates crescia como o de Pinóquio estava cada vez mais actual.


 


DANÇA - Talvez inspirado pelo êxito do concurso da SIC «Achas Que Sabes Dançar?», Sócrates foi para Madrid dizer que gostava bastante de Passos Coelho como parceiro para o tango – citando a velha máxima de «it takes two to tango» e sublinhando a importância do entendimento entre ele e o líder da oposição. Mas os últimos dias têm mostrado uma táctica curiosa: Passos Coelho faz um acordo com Sócrates e no momento seguinte algum Ministro vem dizer o contrário do acordado ou vem tentar esticar a corda, ou alterar os termos, prazos ou conteúdo do acordo; o passo seguinte é Sócrates arredondar o combinado, deixando espaço de manobra. Fico sempre com a impressão que isto não é descoordenação inter-governamental, é expediente para ver até onde se consegue ir sem se ser topado.


 


DIFERENÇAS - Tenho estranhado muito o silêncio à volta do furto de dois gravadores no Parlamento. Os gravadores foram furtados a dois jornalistas da revista «Sábado» por um deputado do PS, Ricardo Rodrigues, há mais de duas semanas. O PS, em bloco, veio defender a atitude do seu deputado. Ora eu acho que alguém que furta, que rouba, não é uma pessoa de bem e acho que quem defende a atitude do furto não pode ser considerado pessoa de bem. Que diria Francisco Assis se o autor do furto fosse um deputado de outro partido? E, porque se calaram, em geral, os vários partidos parlamentares sobre este caso, um furto, filmado, nas instalações da própria Assembleia? Às vezes ponho-me a imaginar o que teria sido se este caso acontecesse, por exemplo, no Governo Santana Lopes, com um deputado do PSD – e fico com a sensação de que a democracia portuguesa, os políticos, os partidos, a imprensa e a opinião pública têm pesos e medidas bem diferentes conforme a cor política dos intervenientes. Ricardo Rodrigues tem fama de ser amigo de Carlos César, o líder do Governo dos Açores, que não nega a amizade. E dizem que o homem dos gravadores mantém muita influência nalgumas decisões de organismos públicos dos Açores. Toda esta situação é muito estranha – até o silêncio do também açoreano Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.


 


BANCA - No dicionário Webster há duas definições para a palavra Bank. Uma diz que é uma entidade que «se dedica a guardar, emprestar, trocar ou emitir dinheiro, podendo conceder crédito e facilitar a movimentação de quantias»; a outra é «alguém que se dedica a gerir uma casa de apostas ou de jogo». Que recorda estas definições é o editor da «Vanity Fair», Graydon Carter, sublinhando que a primeira citação corresponde à ideia geral do que as pessoas de bom senso entendem ser um banco e a segunda é a descrição da verdadeira actividade de grande parte da banca nos dias de hoje, especulativa e arriscada. Isto é mais que um jogo de palavras – é parte da explicação dos problemas que estamos a viver.


 


LER - As estrelas do mundo contemporâneo são desportistas, músicos pop e rock e actores. A mobilidade social mais evidente e mais brusca agora é feita através de carreiras nestas áreas, fortemente mediatizadas. A capa da revista «Vanity Fair» de Junho – mês do Mundial - é uma fotografia feita por Annie Leibowitz a dois futebolistas, Didier Drogba da Costa do Marfim (joga no Chelsea) e Cristiano Ronaldo de Portugal (a jogar no Real Madrid). Ambos têm apenas vestido um slip criado especialmente pela marca que patrocina cada um, estampado com a respectiva bandeira nacional. Não deixa de ser curioso que no meio de toda a crise Portugal chegue pela primeira vez à capa de uma das mais prestigiadas revistas norte-americanas com um homem em cuecas Armani verde-rubro e com uma visível boa forma física. Curiosidades à parte, o portfolio de Annie Leibowitz é excepcional e mostra uma dezena dos melhores futebolistas que vão estar no Mundial.


 


VER – Duas curiosas exposições, radicalmente diferentes: na Lx Factory, na galeria Netcast, Inês Norton evoca em «Zoom In Zoom Out» a arte africana a partir de fotografias de Pedro Norton de Matos, usando cores fortes, colagens, motivos étnicos; na Fundação das Comunicações (R D. Luis), Daniela Ribeiro faz interpretações da visão através da utilização de peças electronicas de telemóveis numa instalação intitulada «Olho Biónico» e que é a mais conseguida mostra da artista até à data.


 


OUVIR – O mais recente disco do contrabaixista Carlos Bica foi gravado ao vivo em três concertos, na Culturgest, na Casa da Música e no Museu do Oriente, todos em 2008, e é um bom exemplo dos novos caminhos que Carlos Bica procura na sua música. Acompanhado por Matthias Schriefl no trompete, por João Paulo no piano, por Mário Delgado na guitarra eléctrica e João Lobo, na bateria, Bica mostra o seu talento de solista e de arranjador percorrendo temas da sua própria autoria (destaque para o enérgico «D.C.» e também para «Canção Número Dois» e «Roses For You»), uma composição de João Paulo, outra de Marc Ribot e uma bela versão de «Paris, Texas», de Ry Cooder. É um grupo de músicos de eleição e o resultado destas três sessões de gravações ao vivo é absolutamente fora de série. CD Cleanfeed.


 


PROVAR – Se estiver perto do Conde Redondo e lhe apetecer um sabor do Líbano vá direito ao restaurante Fenícios. Rezam os livros que a cozinha libanesa tem influências árabes, turcas e francesas, um tempero delicado de grande variedade de especiarias e ervas aromáticas. Peça um sortido de entradas para começar e sentirá a diversidade dos paladares. Depois talvez um dos típicos pratos de borrego ou carneiro – peça conselho ao proprietário que ele gosta de ajudar na escolha. Para rematar prove um doce de pistáchios. A conta é razoável, o ambiente é simpático e a experiência é muito boa. Rua do Conde Redondo 141 A, telef 212448703.


 


BACK TO BASICS – Aqueles que não economizam irão ter um futuro de agonia - Confúcio

QUEM QUER CAÇAR ANGELINA JOLIE?

(Publicado no diário Metro de 18 de Maio)


 


O próximo filme com Angelina Jolie como protagonista chama-se «Salt» e é um thriller que vai ter uma campanha de publicidade muito pouco tradicional – e que abre todo um novo campo de possibilidades. Em vez de apostarem em anúncios de página inteira nos jornais, ou excertos de trailers para publicidade em televisão, os responsáveis da Sony Pictures decidiram produzir um jogo on line com abundante recurso a redes sociais, nomeadamente ao Facebook.  A campanha teve um orçamento de produção à parte, que incluiu filmagens específicas com sofisticados efeitos especiais. Intitulado «The Day X Exists», o jogo terá nove episódios diferentes, divulgados em semanas sucessivas, com cada novo episódio sempre revelado em dayxexists.com . Quando se vai a esta página salta logo um convite: torne-se num agente secreto que participa na caça à hábil fugitiva Evelyn Salt, ou seja, Angelina Jolie.


O objectivo da Sony com esta operação, que combina um jogo on line com as redes sociais, é conseguir replicar o êxito de jogos como «Mafia Wars», que arrebanhou dezenas de milhões de utilizadores do Facebook. Desta forma o filme e a sua narrativa poderão ser conhecidos em todo o mundo por muitos milhões de potenciais espectadores, numa acção de contacto pessoalizada, que faz de cada jogador um interveniente na própria história, e espera-se alguém ansioso por ir ver o filme sobre cujo argumento esteve a jogar durante nove semanas.


A empresa que produziu o jogo, a Fourth Wall Studios, diz que o objectivo é fazer com que as pessoas falem acerca do jogo e do filme, partilhem a história e se tornem divulgadores do produto. Esta nova tendência não tem a ver com as extensões de alguns filmes em jogos para consolas – estes jogos são gratuitos e após o lançamento do filme, desaparecem. Mas o mais engraçado é que o jogo foi feito por forma a poder captar a atenção das mulheres – é que os produtores de «Salt» confiam que Angelina Jolie é capaz de atrair o público masculino, mas para captar o público feminino a aposta é «The Day X Exists» - irá uma mulher derrotar a espia Angelina Jolie on line?

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 7 de Maio)

MEMÓRIA - Há sete anos, e noutro contexto, escrevi este texto: «Das duas uma: ou isto das escutas se resolve e esclarece ou vai acabar por destruir o próprio processo onde nasceram. Das duas uma: ou o segredo de justiça começa a ser levado a sério, ou da maneira como as coisas estão hoje em dia vai deixar de haver justiça de vez.


Das duas uma: Ou este processo provoca resultados, ou o povo em geral deixa mesmo de acreditar nisto tudo.» -  Como me recordaram esta semana tudo isto se mantém terrivelmente actual.


 


POLÍTICA - A absolvição no chamado processo Parque Mayer de Carmona Rodrigues e de dois dos seus vereadores, Fontão de Carvalho e Eduarda Napoleão, volta a colocar uma questão que merece resposta: pode o sistema judicial ser manobrado para atingir objectivos políticos? Tudo indica que sim e que a queixa então feita por Sá Fernandes ao Ministério Público teve apenas intuitos políticos. A sentença de absolvição afirma ser «impossível de retirar, do comportamento dos arguidos, qualquer responsabilidade criminal». É bom recordar que  a suspeição, a acusação pública e depois o processo do Ministério Público foram a causa directa da queda prematura do então Presidente da Câmara e da eleição de António Costa em sua substituição. E já agora é bom recordar que José Sá Fernandes vai somando derrotas nos Tribunais e prejuízos à Cidade – patrimoniais no caso do Túnel do Marquês e políticos neste lamentável incidente de manipulação do sistema judicial.


 


REALIDADE - A sentença agora proferida tem, ainda, outro aspecto: os juízes chamaram - e bem - a atenção para o facto de ter sido a Assembleia Municipal de Lisboa a aprovar o negócio que levantou suspeição, considerando, preto no branco, que os deputados municipais tinham tido um comportamento pouco responsável. O funcionamento das Assembleias Municipais e a sua constituição são dos aspectos que precisam de ser revistos urgentemente. Tal como estão – e falo do caso de Lisboa, que conheço-  as Assembleias Municipais são mini-parlamentos que servem apenas para fazer desfilar mini-vaidades. Os períodos de antes da ordem do dia são ridículos e penosos, o afastamento em relação ao dia a dia da autarquia e da cidade é total e os líderes partidários limitam-se a transformar a Assembleia num palco para a afirmação das posições das respectivas agremiações sem ligação alguma com a realidade. Um estudo sobre a utilidade do tempo dispendido nas assembleias Municipais havia de dar resultados interessantes – nomeadamente na de Lisboa.


 


SEMANADA –Como bem titulou o diário «Metro», o TGV segue pela via da esquerda, graças ao apoio conjunto do PCP, do BE e do PS a esta obra; O caso do patrocínio do Taguspark a Figo, que coincidiu com o apoio de Figo a Sócrates, e que há um mês todos os envolvidos juravam ser uma coisa trivial, já provocou a queda da maioria dos membros executivos do respectivo Conselho de Administração; No mesmo dia em que se soube que Portugal é considerado dos países mais eficazes a cobrar impostos, foi também noticiado que os conflitos fiscais em tribunal subiram 14% em 2009; A primeira reacção à candidatura de Manuel Alegre veio de Fernando Nobre, que sublinhou o facto de ela ser uma candidatura partidária, com o apoio do Bloco de Esquerda – acusando ainda Alegre de andar a piscar o olho ao PS;


 


A CITAÇÃO - «Trata-se de ex-Ministros que tiveram o seu tempo» - António Mendonça, Ministro das Obras Públicas, sobre os nove ex-Ministros que vão ao Presidente da República manifestar posição contra os grandes investimentos previstos pelo Governo.


 


LER – A edição de Maio da «Monocle» é um exemplo do peso crescente do Brasil. Otema de capa é a política externa de Brasília e lá dentro está uma curiosa reportagem sobre o funcionamento do Itamarati e também uma página sobre a influência de Lula . O subtítulo diz tudo – « como o amarelo e verde estão a substituir o vermelho, branco e azul na diplomacia internacional». Outro tema imperdível nesta edição: o que faz o sucesso de um museu? – um belo dossier com uma cuidada análise de algumas das melhores coisas que se fazem por esse mundo fora nesta área e a lista dos museus incontornáveis – onde não consta nenhum português.  A directora do Museu de Design da paróquia faria bem em ler todo o dossier e em especial a parte sobre o Museu de Design de Israel. Conhecer o que se passa à nossa volta, nem que seja no Mundo, ajuda-nos a ter perspectiva – a frase também se aplica ao regedor da paróquia lisboeta, António Costa – sobretudo porque lhe fazia bem seguir a série, iniciada nesta edição, sobre os desafios que se colocam às cidades e o futuro do ambiente urbano.


 


OUVIR – Aqui há semanas um disco intitulado «Muxima», feito a partir de canções do Duo Ouro Negro, despertou-me a curiosidade e fui comprá-lo. Fiquei bastante frustrado quando o ouvi – aquelas canções que eu recordava tinham perdido alma, ritmo e entusiasmo. No entanto reganhei o sorriso quando apareceu uma colectânea, «Perfil», que agrupa as versões originais, pelo Duo Ouro Negro, de 22 dos seus êxitos, como «Eliza», «Maria Rita», «Vou Levar-te Comigo», «Mucxima» ou «Kurikutela». É nas versões originais do Duo Ouro Negro que se percebe o seu talento e a genialidade dos músicos que tocavam com eles quando estas gravações foram feitas, a meio da década de 60.


 


VER – Eu não gosto particularmente da maneira como foi instalado e vive o Museu de Design – no meio de escombros, com dificuldades de circulação, de acolhimento e de iluminação. Mas a exposição que lá foi inaugurada há dias, sobre a obra do designer português António Garcia, merece ser descoberta. Desde capas para livros a mobiliário, passando por projectos de stands em feiras e logótipos de marcas, António Garcia teve uma actividade riquíssimna e polifacetada que bem merece ser descoberta. Até 4 de Julho, na Rua Augusta 24


 


VISITAR – É uma pequena exposição – meia dúzia de desenhos cuidados e misteriosos, intrigantes, atraentes. São obras de Teresa Gonçalves Lobo, expostas sob o título «Silêncios» na livraria Babel, Rua da Misericórdia 68 – até 31 de Maio.


 


 


 


ESPLANADA – Nestes dias de sol sabe bem a esplanada «Mensagem», no Altis Belém, perto da  Doca do Bom Sucesso Experimentem as várias saladas, aventurem-se no Bife Belém e deixem-se tentar pelo rosé Touriga Franca Vale das Areias. Na sobremesa não se arrependerão se escolherem o milfolhas de framboesa. Reservas pelo telefone 210400208.


 


BACK TO BASICS –   «Cada um é tratado segundo as suas obras» , da Bíblia.


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 14 de Maio)

PUBLICIDADE   – Na minha actividade, a comunicação e a publicidade, o ano de 2009 foi difícil de passar e depositavam-se algumas esperanças de normalização em 2010. Com quase meio ano percorrido já se percebeu que o grande desejo é conseguir que não existam mais quebras de investimento. Depois de um arranque de ano promissor, a instabilidade geral tem levado os anunciantes a hesitarem, compreensivelmente, no timing das suas campanhas. Adiamentos, replaneamentos, cancelamentos são actividades que hoje em dia já quase ocupam mais tempo que o desenho normal de uma acção. O resultado de toda esta instabilidade não é bom para os anunciantes:  perca de notoriedade, diminuição de eficácia, apagamento de marcas. Recuperar o que se perdeu vai ter sempre um custo – e nem sempre vai ser totalmente conseguido.


 


DESCONTOS – O mercado do espaço publicitário em Portugal vive de tabelas que não são cumpridas e de consideráveis descontos, que responsáveis de marketing de grandes contas pensam que podem sempre continuar a aumentar. Imagino que o que vou dizer não seja muito popular junto dos anunciantes, mas aqui vai: continuar a forçar descontos tem a prazo um efeito inevitável, que aliás já se está a sentir: diminuição da qualidade de conteúdos, seja na imprensa, na rádio ou na televisão. O aumento dos descontos traduz-se na diminuição da receita dos media e isto provoca inevitavelmente uma redução dos custos. Esta redução nos custos chegou ao ponto em que, a continuar a existir, compromete a qualidade dos conteúdos - e assim irá prejudicar as audiências obtidas e, finalmente, a eficácia das campanhas compradas com o desejado desconto reforçado. Quando se compra um espaço publicitário espera comprar-se contacto com audiências. Se os descontos que alguns anunciantes insistem em reivindicar aumentarem, eles poderão comprar o mesmo espaço – mas é garantido que estarão a destruir a qualidade e a quantidade da audiência. Aconselho os adeptos dos hiper-descontos a estudarem com atenção o que tem sido o êxodo de audiências – que é real e não uma previsão. A continuarem assim arriscam-se a conseguir grandes descontos e fracos resultados – ou sejam, exagerando, arriscam-se a anunciar no deserto – um deserto de que foram também responsáveis.


 


PRESSÕES – Numa altura em que quase toda a gente cede a pressões em nome da sobrevivência, é de saudar a coragem da PT em não ceder à pressão da Telefonica, de Espanha, no caso da proposta de compra da participação portuguesa no operador móvel brasileiro Viva. Mais do que pensar nos resultados imediatos, a PT está a pensar no longo prazo, a ter consciência dos limites criados pela dimensão do nosso mercado local e da necessidade de contornar esse limites,  crescendo no exterior. Se o resto do país agisse como a PT nesta matéria talvez estivéssemos em melhor posição. O curto prazo tem sido o pecado mortal de Portugal nos últimos anos.


 


REALIDADE - Das promessas eleitorais, dos fantásticos planos feitos à pressa, passámos para um governo sem ideias, ziguezagueante, incapaz de mostrar uma estratégia. Leio nos jornais que o Governo, finalmente e de semblante contrariado, se prepara para fazer um esforço maior de reduzir o défice. Mas é com surpresa que vejo que esse esforço não é feito sobretudo de poupanças, de cortes nos custos e na despesa, mas fundamentalmente através das receitas de novos impostos. Da próxima vez que cada um de nós for votar vale a pena ver quanto se cortou na despesa e quanto se foi buscar ao aumento da receita, que é como quem diz, aos nossos bolsos. A política faz-se com resultados , com símbolos e com sinais. Um Governo que não dá sinais de querer aumentar a produtividade nem reduzir custos necessariamente está a dar um péssimo sinal para toda a sociedade.


 


FACTO  - Os consumidores domésticos de electricidade em Portugal pagam hoje mais em subsídios do que em energia eléctrica propriamente dita, mostram os dados da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), nos documentos oficiais que suportam as tarifas fixadas para 2010.


 


PREVISÃO - Na situação em que estamos faz todo o sentido ler «The Next 100 Years», o livro publicado no ano passado por George Friedman, o mentor da Startfor, uma agência privada que se dedica a recolher e a estudar informação sobre as principais tendências mundiais. Do papel dos Estados Unidos na cena mundial à probabilidade de fragmentação da China, passando pelo conflito com a Al-Qaida, até ao apagamento da Europa Ocidental face a um novo bloco centrado na Polónia, o livro, escrito de forma cativante, leva-nos até ao cenário de uma terceira guerra mundial, no início da segunda metade deste século. Com base em abundantes informações e num grande conhecimento da geopolítica, Friedman descreve as próximas décadas como se estivesse a ler uma bola de cristal – mas tendo em conta o número de vezes em que ele acertou nas suas análises ao longo dos últimos anos, mais vale tomar alguma atenção ao que ele diz.  «The Next 100 Years» - George Friedman,  na Amazon.


 


OUVIR - Gil  Scott Heron, 61 anos, não gravava há década e meia mas este novo «I’m New Here» é um belíssimo regresso, mostrando uma faceta mais intimista e melancólica de um dos precursores do hip-hop, um dos autores que melhor soube conjugar música com poesia. O título, curioso porque Gil Scott Heron faz neste disco um inesperado balanço da sua vida, serve de cartão de visita para a actual digressão que aliás passa por cá nestes dias: dia 15, sábado, na Casa da Música no Porto e dia 17, segunda-feira, na Aula Magna em Lisboa. O disco é verdadeiramente fora de série e os espectáculos têm tradição de serem memoráveis.


 


PETISCAR – O Funil está a funcionar há quase 40 anos nas Avenidas Novas com uma linha clara: comida tradicional portuguesa em ambiente confortável e recatado. Nas proximidades é do melhor que se pode encontrar, na relação qualidade-preço. Das lulas recheadas a favas guisadas com entrecosto, passando por cataplanas de borrego ou garoupa, as propostas são variadas. O serviço é atencioso e a garrafeira é razoável. Bom para uma conversa sossegada ao almoço. Avenida Elias Garcia 82 A, telef 217 966 007.


 


BACK TO BASICS –   Ter dúvidas não é uma condição agradável, mas ter certeza é um absurdo - Voltaire

(Publicado no Jornal de Negócios a 30 de Abril)

XADREZ – A notação da Standard & Poor’s foi a chicotada psicológica que fez PS e PSD entrarem de repente num cenário de total pragmatismo, à moda da «realpolitik», procurando entendimentos práticos em detrimento de bases políticas. No cenário actual esta actuação, orientada a resultados, vai proclamar a sua bondade e necessidade  para assegurar interesses nacionais, requerendo que se comprometam princípios ideológicos. Até aqui tudo bem. Mas a «realpolitik» é um jogo de xadrez feroz e tenho alguma curiosidade em ver como Sócrates e Passos Coelho vão movimentar as peças. E quem no fim termina com a desejada expressão «xeque-mate».


 


PRODUZIR – Qualquer que seja o jogo de xadrez que os políticos decidam fazer, há uma curta nota na avaliação da Standard & Poor’s sobre Portugal que, sendo cínica, põe no entanto o dedo na ferida: as medidas de contenção são boas, mas correm o risco de não favorecer o desenvolvimento da economia. No fundo há um horizonte que não pode ser perdido: quando se tem dívidas tem que se produzir mais para garantir o pagamento do que se deve; o nosso problema é que o nosso crescimento económico é baixo. Temos que produzir mais, vender mais. Isto quer dizer, como sempre e em qualquer caso, estudar e definir uma estratégia, desenvolvê-la e não andar sempre aos zigue-zagues. Parece básico mas a realidade é que isto não tem sido feito.


 


CRISE –A posição da Alemanha em toda a crise europeia é muito ditada pela proximidade das eleições regionais do próximo dia 9 de Maio, em que existe o risco de se esvaziar a coligação que sustenta o Governo de Angela Merkel. A oposição acusa a chanceler de esmagar a classe média com impostos, que no fim são canalizados para outros países. O cenário de instabilidade no Reino Unido, com os Liberais Democratas a arriscarem uma votação histórica no próximo dia 6, também condiciona o desenvolvimento próximo de uma posição europeia sobre a situação grega  - que é o mesmo que dizer sobre a crise que ameaça o euro.


 


SEMANADA –  Quem não quer saber do que se passa na Grécia nem na Europa é Manuel Alegre que apresenta a sua candidatura presidencial formalmente dia 4; a Assembleia da República foi paralisada por uma greve dos funcionários de apoio; o melhor discurso das cerimónias do 25 de Abril coube a Aguiar Branco com as suas citações de Lenine a Sérgio Godinho, mas sobretudo com a forma como gozou com o preconceito e como mostrou que a liberdade deve estar acima das ideologias; a melhor citação da semana vai para Domingos Amaral, que no «Correio da Manhã», e citando o discurso de Cavaco sobre a necessidade de Portugal se virar para o mar, escreveu: «Se formos cínicos podemos sempre lembrar que já investimos no mar muito dinheiro com a compra de dois submarinos. Se calhar é esse o nosso maravilhoso destino marítimo: usar os dois novos e caríssimos periscópios à procura de um novo milagre económico…»


 


CURIOSIDADE – As Comissões de Inquérito na Assembleia da República têm servido para evidenciar uma coisa muito curiosa: pelos vistos há imensos gestores de grandes empresas que não fazem a mínima ideia do que se passa dentro das casas que são supostos administrar.


 


 


 


VER –A partir desta semana há uma nova razão para se ir ao Lux: ver as instalações que um grupo de dez artistas plásticos lá colocou e que nos próximos dez meses transformam todo o espaço. Com o título «O dia pela noite» este conjunto de dez instalações é a forma de o Lux assinalar o começo desta nova década. De entre os artistas escolhidos estão alguns dos mais promissores da nova geração. Sem querer fazer destaques deu-me especial gôzo ver a forma como Vasco Araújo trabalhou o espaço da discoteca, como Rodrigo Oliveira interveio sobre a parede do bar principal e a cabina do DJ e como João Pedro Vale cenografou  a entrada do Lux. Mas todas as dez intervenções merecem ser vistas e vividas, do fundo da discoteca, passando por todas as escadas até ao topo do terraço. O conceito foi desenvolvido pelo Lux em parceria com a Fundação EDP - e Manuel Reis está de parabéns por mais uma grande ideia bem concretizada.


 


LER – Não é absolutamente nada inútil folhear e ler a revista «Inútil». É certo que é um raio de um nome para uma publicação, mas também é certo que o título chama a atenção e dá logo vontade de pegar no objecto para descobrir o que lá está. A «Inútil» é uma daquelas revistas movidas pela paixão de fazer e editar. A sua directora, Maria Quintans, usa a revista que criou como se fosse uma galeria onde mostra palavras, desenhos, fotografias, grafismos, textos. É como se cada novo número da «Inútil» (este, dedicado ao TEMPO, é o segundo)  fosse uma exposição colectiva onde  se exploram e mostram várias ideias e vários caminhos.


 


OUVIR – Doris Day nasceu em 1922, começou como cantora numa banda de jazz e tornou-se depois uma estrela de Hollywood. Nellie McKay é bem mais nova, nasceu em 1982, e tem desenvolvido a sua carreira como cantora e como actriz, nomeadamente em stand up comedy. «Normal As Blueberry Pie» é o título do CD que agrupa 13 temas que em tempos foram interpretados por Doris Day, desde «The Very Thought Of You» a «Crazy Rhythm» passando por »Send Me No Flowers»? ou «Do Do Do». Neste disco Nelli McKay fez curiosos arranjos e orquestrações , canta, toca piano e umas percussões ocasionais. É um disco inesperado e divertido, uma bela homenagem a Doris Day..


 


PETISCAR – Volta e meia gosto de voltar aos restaurantes que só frequento ocasionalmente, como acontece com o Casanostra. Nunca fui assíduo do local, mas das vezes que lá me sentei saí sempre bem servido. Com 24 aninhos de vida completados no início de Abril, o Casanostra está na esquina da Rua da Rosa com a Travessa do Poço da Cidade, e surgiu como um restaurante que se propunha mostrar que a comida italiana não se resume às massas e à pizza. A aposta foi bem conseguida e volta e meia ainda me consigo surpreender com pratos que não tinha provado – como uns fígados de pato acompanhados de polenta que estavam absolutamente magníficos. Feitos na frigideira, com um molho consistente e saboroso, tinham um tempero irrepreensível. Casanostra, Travessa do Poço da Cidade 60, telefone 21 342 59 31.


 


 


 


BACK TO BASICS –  Numa crise tenham em conta os perigos mas estejam atentos ás oportunidades -  John F. Kennedy

maio 14, 2010

AS TRÊS DIMENSÕES

(Publicado no diário Metro de dia 11)


 


Tudo indica que este vai ser o ano em que filmes em três dimensões se tornam verdadeiramente um hábito que cativa espectadores. As grandes estreias mais recentes têm mostrado  que o público valoriza a experiência em 3D, está disposto a pagar mais por isso e, melhor ainda, a tecnologia está a ser responsável por fazer aumentar as vendas de bilhetes um pouco por todo o mundo – Hollywood espera este ano um novo recorde de receitas apesar da crise. O sucesso obtido pela projecção em três dimensões parece radicar no facto de, graças à tecnologia, se ter descoberto um novo encanto e uma nova magia no acto de ir ver um filme a um cinema.


Na realidade o cinema não mudava muito, do ponto de vista tecnológico, desde há cerca de setenta anos, quando se passou do preto e branco para a cor; o anterior salto tecnológico tinha sido a passagem dos filmes mudos para sonoros no início do século XX; agora, com a massificação da exibição 3D, verifica-se a terceira grande evolução na história do cinema.


Claro que existe ainda o lado desconfortável e pouco estético dos óculos maleáveis em gelatina – mas isso está em vias de ser ultrapassado já que a Ray Ban anunciou que irá lançar a curto prazo óculos para visionamento 3D baseados no modelo Wayfarer e que poderão receber lentes adaptadas às necessidades visuais de cada espectador.


Jerry Katzenberg, um dos sócios da Dreamworks, ao lado de David Geffen e Steven Spielberg, considera que um dos próximos grandes negócios vai ser vender óculos 3D de qualidade a cada um de nós. Dentro de pouco tempo,  diz, cada pessoa terá o seu par de óculos, personalizado e devidamente adaptado, que levará ao cinema ou usará em casa para ver cinema ou televisão em três dimensões. Nos Estados Unidos prevê-se que até final do ano sejam investidos 1,5 mil milhões de dólares na reconversão de ecrãs de cinema para 3D e os grandes fabricantes de televisões dizem que 2011 vai ser o ano da massificação dos aparelhos de televisão em três dimensões. O melhor é começar a procurar uns óculos confortáveis…


 

abril 27, 2010

TV À MEDIDA

(Publicado no diário Metro de dia 27 de Abril)


Até me faz impressão pensar nisto – o YouTube tem apenas cinco anos de existência – o aniversário foi a 23 de Abril -  e neste espaço de tempo o site fundado por três jovens em  2005 mudou substancialmente o mundo na forma como procuramos imagens. O YouTube rapidamente se tornou numa ferramenta indispensável para revelar novos talentos na música, mas também actores, realizadores, humoristas e, claro, políticos. A campanha de Obama não teria sido a mesma sem o YouTube.


Do ensino à  política, passando por programas de televisão, spots de publicidade, imagens da actualidade, o YouTube tem tudo – ainda recentemente foi o primeiro local onde apareceram imagens de catástrofes naturais e grandes acidentes, batendo as estações de televisão.


O crescimento tem sido espantoso –  no final de 2005 o YouTube já recebia 25 milhões de filmes por dia, hoje anda perto dos mil milhões de uploads diários. Um ano e poucos meses depois de ter sido fundado, a Google comprou o site por 1,6 mil milhões de dólares – e o YouTube é hoje o terceiro site mais visto na internet, logo atrás do Google e do Facebook.


Na música podemos lá encontrar quase tudo. E na política também – desde que o YouTube se popularizou ele é utilizado para fazer declarações, deixar mensagens solenes ou apenas recolher imagens divertidas da actividade dos políticos. Uma pesquisa rápida dá a situação portuguesa: a palavra «Portugal» parece em 14 700 videos; Sócrates em 5040, Paulo Portas em 1020, Francisco Louçã em 601, Jerónimo de Sousa em 440, Pedro Passos Coelho em 154. Em compensação Herman José aparece 4310 vezes e os Xutos e Pontapés 3210. Mas na política não há quem bata Obama que aparece referenciado 101.000 vezes.


Há quem diga que o YouTube caminha para ser uma estação de televisão que cada um de nós pode programar, uma televisão á medida de cada um. Hoje em dia até filmes em alta definição já se podem lá encontrar.


O YouTube, que agora nos parece um coisa corriqueira, mudou de facto a forma como podemos comunicar uns com os outros em apenas cinco anos. E ou muito me engano ou vai estar ligado a novas formas de distribuição de imagem num futuro próximo. 

abril 26, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 24 de Abril)

 


*PORTUGAL* - Quando António Guterres chegou ao Governo o peso da nossa
dívida pouco passava dos 10% do PIB. Agora anda nos 120%. 15 anos de
estímulo do consumo, de projectos megalómanos do Estado, de negócios de
interesse duvidoso para os contribuintes, ajudaram a chegar onde estamos.
Cavaco Silva deve saber bem estes números - era Primeiro Ministro até pouco
tempo antes de Guterres se sentar em S. Bento e, com a sua formação e
atenção, certamente não deixou de olhar para os números da nação. O seu
silêncio sobre o que se passa, a forma como se esquiva a tomar atitudes
neste contexto tão difícil, dão muito que pensar. Está ele mais interessado
em ser reeleito sem grandes ondas do que em encontrar uma solução para o
desgoverno, que agora é já bem visível? Era bom que em relação à situação do
país Cavaco exibisse a mesma determinação e energia de que deu mostras
quando resolveu atravessar a Europa de carro para contornar a paragem
forçada dos aviões por causa das cinzas vulcânicas. Nunca lhe terá passado
pela cabeça a necessidade de um Governo de Salvação Nacional?


*EUROPA* - A minha geração arrisca-se a sair de cena confrontada pela
falência política da ideia da União Europeia, que foi em boa parte a sua
causa central e que condicionou toda a acção política nos últimos 30 anos. O
Euro, como nos últimos dias se tornou patente, está a ser ameaçado e
Portugal tornou-se no elo mais fraco da cadeia que especuladores e o sistema
financeiro norte-americano, com a implícita concordância de Obama, estão a
querer romper para projectar de novo o dólar e voltar a posicionar os
Estados Unidos como a plataforma que permitirá servir e favorecer a nova
ordem que se desenha, entre a Índia, a China, o Brasil e, talvez, ainda, a
Rússia. Esta guerra dólar-euro pode liquidar a ideia política da Europa e
fazer entrar o nosso continente numa fase de decadência que, a acontecer, se
adivinha prolongada. O mundo da prosperidade europeia não vai voltar tão
cedo e os senhores da Europa bem podem meter no saco ideias peregrinas como
o subsídio às viagens de jovens e idosos, inacreditavelmente anunciado esta
semana. O que está para vir não vai ser bonito de se ver.


*MENTIRA* - É espantoso que nesta situação a mentira na política continue a
ser usada com desfaçatez total. Infelizmente a sucessão de casos surgidos
nos últimos tempos confirma que  cada vez mais corre-se o risco de a
política ser sinónimo de mentira; para pegar apenas em temas recentes isto é
válido no caso da TVI, é válido no caso do contrato de Figo com o Tagus
Park, é válido nas variações das contas de Lisboa apresentadas por António
Costa, nos números do deficit apresentados pelo Governo, nas negociatas de
financiamento de partidos. A mentira tornou-se habitual no dia-a-dia de um
sem número de gestos e declarações. Agentes políticos dos mais diversos
quadrantes mentem sem pudor como se mentir fosse o normal. A mentira
instalou-se na vida política, tornou-se banal. O problema é que quase já nem
gera indignação. E quando isto acontece a política apodrece e os cidadãos
afastam-se cada vez mais dela - abstêm-se deste jogo de mentiras e
conveniências. Será impossível fazer política sem fazer da mentira um
hábito?



*TELEVISÃO* - Anunciada ainda há dois anos como o remédio milagreiro para as
estações, a Televisão Digital Terrestre corre o risco de ser um grande e
caríssimo embuste. O progresso tecnológico não esteve à espera das demoradas
decisões de reguladores, das guerrinhas entre grupos de media nem de
concursos públicos várias vezes repetidos. A Anacom acaba por reconhecer
isto mesmo ao dizer, esta semana, que com 2,4 milhões de lares que já são
assinantes da tv paga (e o número vai ainda crescer um bom bocado...) apenas
1,5 milhões de lares deverão ser afectados pelo desligar do actual sistema
analógico dos canais abertos e pela passagem à TDT. Quando em meados de 2012
a TDT estiver pronta a ser instalada vai ser curioso ver quantos restam para
a utilizar. Eu aposto que menos de um milhão.


*ALQUEVA *- Esta Primavera o Alentejo promete ser uma deliciosa surpresa. As
terras estão cobertas de um tapete verde, as flores silvestres começam a
saltar e as primeiras papoilas já se vêem. A barragem do Alqueva transformou
toda a paisagem e agora do alto de Monsaraz vê-se como a planície alentejana
acolheu extensas manchas de água, numa paisagem completamente inesperada. O
meu último fim de semana foi passado ali perto, próximo de Portel,  na
Herdade do Sobroso, uma Casa de Campo instalada numa herdade perto do
Guadiana e no meio de uma vinha de 50 hectares que produz belos vinhos -
servidos nas refeições da casa - por mim destaco o rosé e o tinto de 2006. A
cozinheira, D. Josefa, tem mão sábia nos temperos e na confecção, e oferece
aos hóspedes uma sucessão de iguarias que tornam um fim de semana no Sobroso
uma experiência dos melhores petiscos da cozinha tradicional alentejana. A
Casa de Campo oferece dez quartos, fica perto da marina de Amieira, no
Alqueva, e tem à sua frente a Sofia e o Filipe, ela a comandar o acolhimento
e ele, enólogo, a organizar as vinhas. Todas as informações em
www.herdadedosobroso.pt .


 


*AGENDA* - Se puderem não percam Miguel Guilherme a ler textos de humor, de
autores portugueses, todas as terças e quartas, no Maxim, Praça da Alegria,
pelas 22h00. Fica até Junho. *Este fim de semana inauguram em Coimbra, no
âmbito do 30º aniversário dos Encontros de Fotografia, uma exposição de Jean
François Pisson, intitulada "Dessine Moi Une Voyage" e outra de Joana
Bastos, "A$T"; *Na Galeria Ratton, novas obras de Joana Rosa, sob o título
"A Bela Acordada";* No Algarve, em Estói, na casa rural da Villa Romana de
Milreu, a exposição "Pássaro Em Terra" de René Bertholo; *E finalmente em
Lisboa a  próxima semana é tempo do festival de cinema documental Indie ,
sigam a programação em www.indielisboa.com*.*


 


*OUVIR* - Este artigo foi feito ao som de "Orchestrion", a mais recente
experiência de Pat Metheny, que utilizou máquinas cuja origem remonta ao
século XVIII para criar a sua música, obviamente actualizadas e
complementadas com tecnologia digital contemporânea. Podem considerar que
Metheny toca a solo com uma orquestra de robôs, mas isto é simplificar a
coisa. O resultado é surpreendente, misturando a música popular com arranjos
sofisticados e desenhos rítmicos inesperados. Metheny no seu melhor. CD
Nonesuch, via Amazon UK.


 


*BACK TO BASICS -  A política tem a sua fonte na perversidade e não na
grandeza do espírito humano, Voltaire*

abril 20, 2010

A FORÇA DAS HABILIDADES

(Publicado no Metro de 20 de Abril)


 


Todos nós gostamos de ver outros a fazerem habilidades e todos nós temos o escondido desejo de ver alguém a espalhar-se a fazer essas habilidades. Esta realidade está na chave do grande êxito de dois concursos surgidos recentemente, «O Cubo» nas noites de sábado na RTP e «Achas Que Sabes Dançar» nas noites de Domingo na SIC.


Graças a estes dois programas, e com uma ajudinha do futebol, RTP e SIC, venceram este fim de semana a TVI, que ficou relegada para a terceira posição, apesar do bom resultado das suas novelas. Só que de facto os dois concursos são apelativos, cativam audiências e conseguem igualmente fidelizar espectadores.


Em «O Cubo» os concorrentes têm que demonstrar destreza, memória, conhecimento e até alguma estratégia. O concurso é tecnologicamente sofisticado em termos de captação de imagem – cada concorrente executa a prova dentro de um cubo transparente «vigiado» por quase seis dezenas de diversos tipos de câmaras digitais. O apresentador é Jorge Gabriel que, mais uma vez, desempenha bem o seu papel.


No lado da SIC João Manzarra prova que a solo ainda se sai melhor e conduz os espectadores ao longo do «Achas Que Sabes Dançar» - que inevitavelmente joga no ridículo de alguns concorrentes e no talento de outros.


E porque é que estes concursos alcançam tão bons resultados de audiências?  – de certa forma porque jogam na possibilidade de identificação/rejeição dos espectadores com os concorrentes, proporcionam uma interactividade emocional mais forte nos públicos mais novos – habituados a um universo visual de jogos digitais como é sugerido no «Cubo», ou habituados a concursos domésticos de disputa de talentos nas diversas consolas de jogos que o possibilitam fazer em casa.


A acção dramática das telenovelas, consegue captar outros públicos e garantir um outro tipo de fidelização – mas o que os recentes resultados demonstram é que cada vez mais é importante ter em antena vários produtos, que consigam atingir diferentes públicos. É fascinante o mundo da televisão – uma permanente caixinha de surpresas.