julho 31, 2008

A INFO PROPAGANDA

Com a devida vénia, cito o Zero de Conduta:


Publicidade enganosa


Primeiro foram as notícias que davam conta de uma nova fábrica da Intel em Portugal. Um sucesso, garantia-se, que já tinha 4 milhões de encomendas ainda antes de ser instalada a primeira pedra. Um investimento que iria criar 1000 postos de trabalho qualificados, na zona de Matosinhos, graças à diligência do Governo. A apresentação foi ontem. Com pompa e circunstância a imprensa andou dois dias a anunciar o “primeiro portátil português”. O Magalhães é um computador inspirado no navegador, diziam ontem as televisões em coro. Para dar credibilidade à coisa, o mais famoso relações públicas nacional e o presidente da Intel subiram ontem ao palco do Pavilhão Atlântico para a "apresentação mundial" deste computador de baixo custo.


 


Um único problema. Não só o computador não tem nada de novo como a única coisa portuguesa é a localização da fábrica e o capital investido.  A "novidade mundial" ontem apresentada, já tinha sido anunciada a 3 de Abril - no Intel Developer Forum, em Shangai - e foi analisada pela imprensa internacional vai agora fazer quatro meses. O tempo que tem a segunda geração do Classmate PC da Intel, que é o verdadeiro nome do Magalhães. De resto, o primeiro computador mundial para as crianças dos 6 aos 11 anos, características que foram etiquetadas pela imprensa lusa por ser resistente ao choque e ter um teclado resistente à agua, já está à venda na Índia e Inglaterra. No primeiro país com o nome de MiLeap X, no segundo como o JumpPC. O “nosso” Magalhães é isso mesmo, uma versão produzida  em Portugal sob  licença da Intel, uma história bem distinta da  habilmente "vendida" pelo governo para criar mais um caso de sucesso do Portugal tecnológico.


 


Fábrica da Intel nem vê-la e os tão falados 1000 novos postos de trabalho ainda menos, tudo se ficando por uma extensão da actual capacidade de produção da fábrica da JP Sá Couto. Serão 80 novos empregos, 250 se conseguirem exportar para os Palops. Os tais 4 milhões, que já estavam assegurados, lembram-se? Só que as 4 milhões encomendas não passam de wishfull tinking do nosso primeiro. E muito pouco credível. Em todos os países onde o computador está à venda é produzido através de licenças com empresas locais. Como explicou o presidente da Intel, a empresa continua à procura de parceiros locais para ganhar quota de mercado com o Classmate PC, não o Magalhães.


 


A guerra de Intel é outra, como se pode perceber no relato que um dos mais reputados sites tecnológicos - a Arstechnica, do grupo editorial da New Yorker - faz da apresentação da Intel e do governo português: espetar o derradeiro prego no caixão do One Laptop for Child, o projecto de Nicholas Negroponte e do MIT para destinar um computador a cada criança dos países do terceiro mundo. É essa a importância estratégica para a Intel. O resto é fogo de vista para português ver.

 


PS: Não tenho nada contra a iniciativa em si, parecendo-me meritório um projecto para garantir um contacto precoce de milhares de alunos com a informática. Mas isso não quer dizer que aceite gato por lebre. Não seria nada mau sinal se a imprensa nacional, que andou a vender uma história ficcionada, também cumprisse o seu papel. 


 

julho 29, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 25 de Julho)

PREOCUPANTE – A Entidade Reguladora da Comunicação decidiu esta semana obrigar um jornal, o «Semanário Económico», a republicar um esclarecimento que já tinha publicado há meses, mas desta feita acompanhado por uma fotografia que o reclamante anexara para ilustrar a sua rectificação e que o jornal, com razão, à época entendeu extravasar a reclamação e não ser relevante. A coisa pode parecer um acto menor, mas na verdade é a demonstração dos abusos que um organismo, como a ERC, pode cometer: de regulador quer passar a ser editor, a interferir em critérios editoriais, a dizer como se pagina uma notícia. Daqui à censura é apenas um pequeno passo. A ERC está a começar claramente a precisar de alguém que vigie a sua actuação – com este caso provou-se que os seus membros têm comportamentos de risco para a liberdade de imprensa. 

 


 


UM PAÌS ARQUIVADO - Já repararam como quase todos os casos complicados da justiça portuguesa acabam arquivados ou julgados de forma inconclusiva? Já repararam como as investigações sistematicamente não descobrem nem conseguem provas? O «caso Maddie» foi o pretexto para centenas de notícias sobre Portugal publicadas na imprensa mundial no ano passado. O arquivamento do caso e o reconhecimento da falência da investigação deu a imagem de um país que não é capaz de fazer justiça. Mais, o arquivamento é a cabal demonstração de que, à falta de provas, a Judiciária constituíu arguidos apenas para mostrar serviço. 

 


 


 


 


 


VER – Ao princípio parecem imagens do tempo das capas dos discos dos Yes. Há alguma coisa entre o místico e o psicadélico na origem dos quadros do artista norte-americano que assina sob o nome Mars-1. Mas para além das primeiras aparências, há uma recorrente influência do imaginário da ficção científica, das ilustrações tipificadas de extra-terrestres em banda desenhada. Na realidade arrisco dizer que por aqui passa a reinvenção da pop art , agora localizada no espaço, entre planetas e naves – é aliás daí que vem o nome Mars 1, originalmente uma estação interplanetária soviética lançada em direcção a Marte em 1 de Novembro de 1962, e que nunca chegou ao seu destino. O verdadeiro nome do artista é Mario Martinez, nascido no Colorado e a trabalhar e expor regularmente em S.Francisco.  Até dia 31 deste mês podem descobrir alguns dos seus trabalhos na VPF Cream art gallery, Rua da Boavista 84, 2º, em Lisboa (de segaunda  sábado entre as 14h00 e as 19h30).


 

 


OUVIR – O Esbjorn Svensson Trio afirmou-se como uma das mais interessantes formações de jazz da Europa no decurso dos últimos anos. O seu líder e mentor, o pianista Esbjorn Svensson, morreu há poucas semanas, num acidente de mergulho, e o seu legado pode bem ser descoberto e compreendido no duplo CD gravado ao vivo em Hamburgo, num concerto ali realizado em 22 de Outubro de 2006. Editado no ano seguinte, o disco foi considerado como a melhor demonstração da capacidade musical e da criatividade do trio sueco, que além de Svensson, inclui Dan Berglund no baixo e Magnus Ostrom na bateria, uma secção rítmica verdadeiramente irresistível. A energia do grupo é envolvente, a qualidade da gravação e da mistura são exemplares e na realidade, tudo junto, cria um dos melhores registos ao vivo do jazz contemporâneo que me foi dado ouvir. EST Live In Hamburg, edição ACT, distribuição Dargil. 

 


 


LER – De entre as mais recentes revistas publicadas em Portugal vale a pena destacar a Neo 2. O leque dos temas abordados vai da música ao design, passando pela moda e a arquitectura. Editada bimestralmente, a Neo 2 vai no seu oitavo número. A edição de Junho/Julho tem 148 páginas cheio de boas ideias, bom grafismo e muita descoberta. Se quando comecei o jornal Blitz, em Novembro de 2004, tivesse podido fazer uma revista, desejaria que o resultado – ressalvadas as diferenças de época – não fosse muito diferente. E por isso mesmo é com especial alegria que olho para a Neo 2 e vejo ali a diferença e a ousadia que são tão raras nos novos projectos da imprensa portuguesa contemporânea.


 


 


PETISCAR – Se gostam de um peixe bem fresco e bem assado, podem rumar a Sesimbra e experimentar o Âncora, um restaurante pequeno e simpático que fica na Rua dos Pescadores, por detrás do Hotel Sana (antigo Espadarte), a meio das escadinhas, meio esplanada, meio sala de jantar. Ali há o que é raro: matéria prima de primeira, serviço simpático, preço razoável. Mais: o responsável pela mesa teve cuidado na escolha do peixe, para o tamanho não ser demasiado grande e não quis abusar da factura. Nesta estreia foi partilhada uma dourada, fresquíssima e no ponto certo da grelha, acompanhada por umas inesperadas mas deliciosas couves cozidas, a que se juntaram cenouras, feijão verde e salada. Há muito tempo que não comia peixe tão simples e tão bem apresentado. Rua dos Pescadores 26, 21 223 54 40. 

 


 


BACK TO BASICS I – Se tivesse um martelo não estaria aqui a ver televisão, ditado popular. 

 


 


BACK TO BASICS II – Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és (na última semana Sócrates manteve amenas relações com Kadafi e Hugo Chavez). 

 

julho 23, 2008

O MUNDO É DOS TIRANOS

(publicado no diário  Meia Hora de 23 de Julho)

 


Se há coisa que estes últimos meses mostram é que o mundo passou a ser controlado pelos tiranos. Conjugando regimes onde a democracia é pouco mais que uma figura de retórica, baseados sobre fontes de energia natural de grande dimensão, muitos dos senhores do antigo terceiro mundo são agora verdadeiramente os donos do universo.


Ditam o preço do petróleo, trucidam as economias mais frágeis, atiçam a crise, fazem operações internacionais de bolsa que os tornam proprietários de grandes companhias do antigo primeiro mundo, impõem-se um pouco por todo o lado, fazem o que querem, como querem, quando querem. A sua arrogância é total, extravasa as suas fronteiras. Ditam condições, trocam negócios por apoios políticos que legitimem os seus regimes e forma de actuar.


Hoje, uma dessas figuras está de visita a Lisboa, Hugo Chavez, que nas últimas eleições no seu país usou como imagem de propaganda uma imagem sua ao lado de José Sócrates. Imagino que este périplo europeu que está a efectuar seja uma sucessão de «photo-opportunities» para uso em posteriores acções de propaganda.


Escudados na necessidade de obter vantagens económicas ou minorar os efeitos da crise onde se deixaram enredar, líderes europeus recebem (ou visitam) estas figuras, ignorando o que eles são na realidade, submetendo-se à sua chantagem, verdadeiramente aceitando fazer negócios com o Diabo.


Dentro das suas fronteiras a União Europeia exige o cumprimento de regras claras sobre os direitos do homem e o funcionamento da democracia – mas os auto-proclamados grandes defensores da Europa não se importa de fomentar regimes onde nada disso se aplica. O namoro do actual Primeiro Ministro português a figuras desta índole, as mais das vezes conotadas com uma esquerda que há muito se tornou mais reaccionária que qualquer direita europeia, é um facto que nos deve envergonhar. Não é um feito diplomático, é um ajoelhar perante tiranos – a semana passada Kadafi, esta semana Chavez.


Esta atitude, em matéria de política externa, conduz ao esvaziamento de valores fundamentais, coloca os princípios em segundo plano e, na prática, acaba por dar razão a todos os que defendem um princípio de actuação baseado num único lema: os fins justificam os meios. Não penso que seja uma boa forma de um país ser governado. A permissividade e o contorcionismo diplomático têm limites que Sócrates há muito ultrapassou. 

 

julho 21, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 18 de Julho)

 


JUSTIÇA - O retrato da justiça é dado por uma notícia de jornal: «Assaltaram um Tribunal para levar caixa Multibanco». Foi em Loures. Não vale a pena dizer mais nada. Vão ver «Tropa de Elite» do brasileiro José Padilha (vencedor do Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim) e comecem a entender como o crime e a polícia andam de mãos dadas. E não é só no Brasil.


 


POLÍCIA - Gonçalo Amaral, o primeiro responsável pela investigação do caso Maddie publicou um livro sobre o assunto. O seu comportamento ao longo da investigação é um manual do que não fazer quando se é polícia e se tem que ter uma relação com a opinião pública. O livro mostra que não aprendeu. O título, talvez auto-crítico, é «A Verdade da Mentira». Mas o livro tem uma grande vantagem: nem bom polícia, nem bom escritor. Passemos adiante.


 


TRETA - Passámos anos a dizer que era no mar que estava o nosso futuro, fizeram-se colóquios, organismos, estudos, investimentos, todos os sucessivos governos encheram a boca com o mar e o nosso destino de povo de marinheiros. Factos: desde o início de 2000 o sector da pesca em Portugal perdeu oito mil profissionais e 2113 barcos. Não vale a pena dizer mais nada sobre as maravilhas vindas da política comunitária e da subserviência dos nossos governos a Bruxelas.


 


TRAGÉDIA - O que se está a passar em redor da Direcção do Teatro Nacional D. Maria é um exemplo do que não pode acontecer: escolhem-se e discutem-se pessoas sem antes se definirem e apresentarem políticas. Isto é a fulanização da acção – o que em território público é sempre perigoso. É uma política de gosto, criticável num Ministério da Cultura. A anterior mexida na Direcção do D. Maria já tinha sido um sinal de que os projectos valem pouco. Para além de nem o Ministro ter a coragem de aparecer a explicar o que se passa, a realidade é que não há projecto conhecido mas há cabeça de cartaz auto-anunciada. O Teatro Nacional é protagonista de um romance de cordel, que qualquer dia dá em tragédia.


 


LISBOA - Uma edição recente da revista «Time» dedicava uma página inteira ao novo Museu do Oriente, sublinhando que a herança cultural da presença de Portugal na Ásia tinha finalmente encontrado um local para ser vista. Há poucos dias o «New York Times» elogiava Lisboa como destino interessante e animado e a revista «Monocle», já aqui citada, incluía-a entre as mais interessantes 25 cidades do mundo para se viver. Tudo isto não nasceu do nada – foi um somar de esforços de abertura e organização de espaços, de convites a jornalistas estrangeiros, de articulação de programação ao longo do ano. Lisboa ficou na moda no culminar de um processo que demorou quase duas dezenas de anos a fazer-se. O pior é que agora muito do que contribuiu para esta notoriedade sai da cidade ou extingue-se por completo. Nunca houve uma vereação na Câmara Municipal de Lisboa tão insensível à actividade cultural da cidade como esta. Daqui a uns anos vão estar a perguntar-se como é que Lisboa saiu de moda de repente. Depois talvez possam olhar para a Fundação Saramago, arbitrariamente mandada instalar pela vereação na Casa dos Bicos, e perceber porque o politicamente correcto nem sempre é o politicamente necessário.


 


LER – Na sempre indispensável revista «Wired» descubro um artigo que devia ser oferecido a todos os profetas da desgraça que se revoltam com o acordo ortográfico, essa tropa de velhos do Restelo que prefere ver a língua definhar pura, do que ser falada e escrita viva. Vou só fazer uma citação: «Graças à globalização, à vitória dos aliados na II Grande Guerra e ao predomínio norte-americano em ciência e tecnologia, o inglês tornou-se um idioma tão cheio de êxito que escapou às fronteiras do que os seus naturais acham que devia ser. Em 2020 aqueles que têm no inglês a língua mãe representarão apenas 15 por cento dos dois mil milhões de pessoas que utilizarão o idioma». O artigo está na «Wired» de Julho, acessível na net, e chama-se «Anyone here speaks Chinglish?». Pensem nisto, estudem o caso português, apliquem à realidade.


 


OUVIR – Um belo disco para estes dias: o maestro Claudio Abbado compilou as marchas e danças de que mais gosta – de Beethoven a Prokofiev – e reuniu-as num disco. Escolheu as melhores gravações que fez ao longo de 30 anos para a Deutsch Grammophon com intérpretes de excelência e, desde as contradanças de Mozart à «Radetzky March» de Strauss, pela «Marcha dos Contabandistas», da «Carmen» de Bizet, juntou tudo em «Marce & Danze». Fantástico.


 


PETISCAR – Bom peixe, em cima do mar, serviço simpático e português, dona da casa atenciosa e presente, preços sensatos, enfim tudo aquilo que faz a boa tradição da restauração nacional. Voltei lá esta semana e não me arrependi de jantar na esplanada, numa bela noite de verão, em cima da Boca do Inferno, com uma boa lista que inclui peixe fresquíssimo e mariscos. Uma sugestão segura é a travessa do mar, que traz robalo, dourada e gambas, tudo grelhado, acompanhado de batatas a murro. Além disso pode encontrar uns filetes de pescada com arroz de marisco ou, para os mais audazes, uma cabeça de cherne. A lista de mariscos encontra-se bem preenchida, com destaque para as famosas bruxas de cascais. A casa é comandada por D. Lurdes Tirano, encerra às quartas e está aberta entre as 12h30 e as 23h00. O telefone é o 214832218.


 


BACK TO BASICS – Toda a cooperação entre os seres humanos é baseada em primeiro lugar na confiança recíproca e só acessoriamente em instituições como os tribunais e a polícia, Albert Einstein

julho 17, 2008

LISBOA, UM ANO PERDIDO

(publicado no diário Meia Hora de 17 de Julho)

 


António Costa é Presidente da Câmara Municipal de Lisboa há um ano. Na sua campanha eleitoral prometeu mundos e fundos. Ao fim destes primeiros doze meses não se vê obra feita – nem na reestruturação de serviços, nem no saneamento financeiro, nem na vida quotidiana da cidade.


Lisboa vive num clima de cortes de despesa, que se começa a sentir no estado das ruas, na limpeza dos jardins e espaços públicos. As juntas de freguesia são desprezadas, são-lhes retiradas condições para poderem cumprir projectos e até passos importantes de anteriores executivos – como a reabilitação de Monsanto – começam a dar sinais de regressão.


Na frente cultural o desastre é total. Não há estratégia nem plano, tudo se resume a umas manifestações folclórico-propagandísticas que ocupam a Praça do Comércio aos Domingos, dificultando o trânsito e a vida normal dos lisboetas.


Organismos culturais independentes estão a entrar em crise – como os Artistas Unidos – e uma boa parte das iniciativas que marcavam Lisboa encontraram asilo em Oeiras e Cascais. Por estes dias duas prestigiadas publicações internacionais – a revista «Monocle» e o diário «New York Times» apontavam Lisboa como uma cidade a seguir – isto não nasceu de repente, foi o resultado de um trabalho de vários anos, de uma programação diversificada e internacional, da criação de pólos de atracção – quase todos destruídos - desde a Moda Lisboa até à Lisboa Photo, passando pelo Africa Festival.


A cidade vive da fama ganha nos últimos anos e daquilo que ainda consegue sobreviver. Por este andar, quando este ciclo político terminar, arriscamo-nos a ter o deserto e Lisboa será, mais uma vez, um destino ignorado. É uma pena, agora que o trabalho anterior começava a dar frutos, que tudo esteja a ser desmembrado.


Para mim é um mistério como se deixa que as coisas se degradem na área cultural ao ponto em que estão – e que na vereação municipal isto seja assunto de que não se fala. Preocupados com as suas sinecuras político-partidárias os vereadores – da maioria e da oposição – mostram em relação às políticas de desenvolvimento cultural e criativo da cidade um desprezo que mostra a sua falta de estrutura enquanto cidadãos. Da esquerda à direita é lamentável, simplesmente lamentável. 

 

julho 14, 2008

Lisboa na moda

Apesar das malfeitorias dos sucessivos autarcas, a cidade


 


resiste:


 


http://travel.nytimes.com/2008/07/13/travel/13Lisbon.html?8td&emc=tda1


 


 

Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Julho

MAU - Um desespero, a discoteca da FNAC no Chiado. Cada vez tem menos coisas, cada vez é mais difícil encontrar discos, sente-se falta de reposições, quando se quer não se encontram empregados para consultarem o sistema informático e dizerem se existe o que se pretende. No aniversário da Bossa Nova, esta semana, terça à noite, não existia um único João Gilberto e não sabiam quando viria. Nos livros a desarrumação persiste – fiquei por exemplo a saber que o portuguesíssimo João Pereira Coutinho é um autor brasileiro – pelo menos está nessa prateleira. Resultado, cheguei a casa e encomendei os discos que queria na Amazon, onde encontrei o que pretendia sem dificuldade. Acho que foi a única vez que saí da FNAC sem gastar um cêntimo. E tão cedo não volto lá. 

 


 


IRRITANTE - Amigos meus, que gostam de praia, contam-me uma história alucinante – por causa das novas regras dos parques de estacionamento acabaram os bilhetes de dia inteiro ou meio dia nos parques das praias. Contaram-me que a ASAE terá exigido que os parques da praia de S. João (na Costa da Caparica), deixassem o sistema antigo e passassem à taxação ao minuto. O resultado é que ao fim de semana há filas imensas, chega a demorar-se três quartos de hora a sair, tem havido cenas de quase violência, cancelas forçadas e má disposição geral no fim de um dia que devia ser de descontracção. Pior – as longas filas com carro a trabalhar contribuem para a poluição, fazem gastar combustível, enfim tudo o que se devia procurar evitar. Ele há leis absurdas quando aplicadas cegamente, não há? 

 


 


DESNECESSÁRIO - Estava esta semana no Aeroporto de Lisboa, na zona das chegadas, e dei com um belo quiosque da ANA que ao lado tem um cartaz sobre o museu da empresa, mostrando uma fotografia de Fidel Castro a sair de Lisboa no dia 17 de Maio de 2001. A fotografia é absolutamente anódina – não se percebe onde foi tirada, podia ser aqui ou noutro local qualquer. É irrelevante do ponto de vista documental e fotográfico. E no entanto é esta a imagem que é oferecida pela ANA a quem chega (ou a quem espera quem chega). Aguardo ansiosamente que ao lado sejam colocadas fotografias de Hugo Chávez , talvez abraçado a Mário Soares ou a José Sócrates. 

 


 


LER – Sabiam que há portugueses envolvidos na história do faroeste norte-americano? Pois há e vale a pena conhecer como fizeram parte da construção da lenda.  Dois autores norte-americanos, Donald Warrin e Geofrrey Gomes, ambos professores em universidades da Califórnia, o último de evidente ascendência lusitana, têm investigado a presença de portugueses na América.  Logo a abrir o livro, os autores citam Frederick Jackson Turner: « O verdadeiro ponto de vista da história desta nação não é a costa atlântica, é o imenso oeste». Neste livro há índios, comércio de peles, a corrida ao ouro, a contrução de linhas férreas ou a criação de gado, todos presentes em histórias protagonizadas por portugueses, muitas ligadas à  caça à baleia, actividade que trouxe a maioria dos imigrantes portugueses para a costa do Pacífico. Vale a pena destacar o excelente prefácio de Joel Neto (um dos melhores jornalistas da sua geração), que chama a atenção para a maneira como os portugueses sempre preferiram viver em comunidades fechadas, nunca se envolveram na política nem em actos cívicos relevantes, seja na Igreja ou no sindicalismo, ao contrário de irlandeses e italianos. O individualismo e a competitividade, sublinha Joel Neto, reinaram sempre – e talvez aqui, digo eu, se possa explicar muito do nosso triste fado e o enorme desalento que varre o país. Não percam este «Os Portugueses No Faroeste, Terra A Perder De Vista», de Donald Warrin e Geoffrey Gomes, edição Bertrand, 450 pgs. 

 


 


OUVIR – Confesso que uma das minhas primeiras paixões musicais foi música antiga inglesa tocada em guitarra clássica (ou guitarra espanhola como os britânicos lhe chamam). Ao longo da minha vida, ainda nos tempos do vinil, apanhei alguns discos de um intérprete lendário, Julian Bream, um autêntico menino prodígio que começou a tocar em público aos 12 anos. Especializou-se em guitarra clássica e alaúde e, especialmente, num dos grandes compositores ingleses da época Isabelina, John Dowland. Mais tarde interpretou também repertório de Bach escrito para o instrumento e foi em torno das suas interpretações destes dois compositores que ganhou fama em finais da década de 50, tinha então pouco mais de 25 anos de idade. A Deutsche Grammophon pegou agora nas gravações originais da época, tratou-as digitalmente e editou um precioso álbum em que Julian Bream interpreta precisamente Dowland e Bach. Se não conhecem, nem imaginam o que estão a perder; se gostam da sonoridade da guitarra clássica e de música antiga, nem hesitem. («Julian Bream plays Downland and Bach», duplo CD Deustsche Grammophon) 

 


 


IR – Amanhã, sábado dia 12, o quarteto de Branford Marsalis toca na Cidadela de Cascais, integrado no XXVII Estoril Jazz, um clássico que vem pela mão de Duarte Mendonça. Hoje mesmo, sexta-feira, é a vez do quarteto de Bobby Hutcherson. Para quem gosta de outras músicas, o Optimus Alive no Passeio Marítimo de Algés, uma produção dirigida por Álvaro Covões, que oferece  hoje  Bob Dylan e Nouvelle Vague e amanhã Neil Young e Ben Harper, entre muitos outros – trata-se, de longe, do melhor cartaz de todos os festivais de Verão – uma boa lição de qualidade para a miséria de elenco que tem sido o Rock in Rio em Lisboa. 

 


 


BACK TO BASICS – Quando o pessoal não sabe dançar, diz-se que a sala está torta, anónimo. 

 

julho 10, 2008

O CINEMA NA CIDADE

(Publicado no diário Meia Hora de 9 de Julho)

 


A Câmara Municipal de Lisboa anunciou recentemente a intenção de constituir uma Film Commission, como instrumento auxiliar da captação de produções audiovisuais para a cidade. É uma boa iniciativa, que pretende dotar Lisboa de um organismo que fomente o investimento estrangeiro nesta área. Aqui ao lado, em Espanha, há Film Commissions em Barcelona, Madrid, Valência e Sevilha, e Londres e Paris são outras cidades europeias com grande actividade nesta área.


Há, essencialmente, três aspectos da actuação de uma Film Commission, que se desenvolvem em planos diferentes: em primeiro lugar elaborar um guia de filmagens, com imagens de locais naturais, monumentos, etc, indicação de serviços técnicos e de produção disponíveis localmente, um guia de profissionais portugueses em regime de «free-lance» e um levantamento de tudo o que pode ajudar à actividade; em segundo lugar uma entidade que tenha capacidade de receber, analisar e despachar os pedidos de filmagem, que seja ágil e dê resposta em tempo útil e evite uma peregrinação a dez entidades diferentes; e, finalmente, a obtenção de um regime fiscal que torne competitivo a um estrangeiro vir produzir a Portugal.


Esta é a parte mais delicada de toda a questão: hoje em dia não chega ter muitas horas de sol, lindos cenários naturais e profissionais bem preparados para conquistar produções internacionais, sejam de publicidade, sejam de televisão ou de cinema. Com o IVA à taxa que temos, perdemos logo directamente em competição com a Espanha. Com a dificuldade de reembolso do IVA em algumas produções internacionais, perdemos em relação aos outros países (e Film Commissions) que obtiveram incentivos e regimes especiais que atraem o investimento estrangeiro. Convém aqui recordar que uma produção internacional investe dinheiro directamente no sector e consome (muito) em toda a cadeia turística – hotéis, restaurantes, rent a car, etc.


A Câmara Municipal de Lisboa faria bem em se aconselhar com os profissionais do sector, faria bem em articular os seus esforços com a iniciativa de construção de uma Cidade do Cinema, no Barreiro, por iniciativa de Carlos Matos, um português que tem forte actividade na área do cinema nos Estados Unidos. E faria bem em estudar os bons exemplos no estrangeiro e não se limitar a fazer uma espécie de simplex para o audiovisual.  

 

julho 07, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Julho

PÉSSIMO – Caso se confirme o arquivamento do caso Maddie essa é uma péssima notícia para a justiça portuguesa, um facto que mostra a total incapacidade da Polícia Judiciária em mais um caso de desaparecimento. A Judiciária está a criar a desagradável reputação de só conseguir provas à base de confissões em interrogatórios apertados. Quando pode apertar – talvez até abusar – obtém alguma declaração, mas mesmo aí não consegue encontrar uma prova, como aconteceu no caso de outro desaparecimento, no Algarve, de uma menina chamada Joana. Era interessante pegar em casos semelhantes – desaparecimentos de menores – ocorridos em Portugal nos últimos 20 anos – e analisar quais os solucionados, com provas descobertas pela Judiciária. Cada vez mais se gera a sensação de que a Judiciária é incapaz de investigar crimes violentos. Será ineficácia, falta de preparação, medo, ou pura e simplesmento desprezo pelas vítimas? 

 


 


MAU – Nos últimos três anos, por esta altura, realizava-se em Lisboa o África Festival, que pretendia afirmar a cidade como uma plataforma de encontro entre a cultura portuguesa e expressões culturais africanas, com destaque para as dos países de expressão portuguesa. Concertos, exposições e ciclos de cinema realizaram-se nos últimos três anos. O Festival, que se estava a implantar (com boa repercussão na imprensa estrangeira), e desempenhava um importante papel na estratégia de posicionamento cultural de Lisboa a nível internacional, desapareceu pela habitual razão, falta de verbas. Mas na folha de gastos, e nos balanços anuais, a triste realidade é que foi substituído pelas animações folclóricas de Domingo na Praça do Comércio. Se juntarmos os custos desses Domingos aos da exposição laudatória do génio do putativo candidato a sucessor do Marquês de Pombal  – estou a falar do vereador Manuel Salgado – de certeza que o Africa Festival era mais barato, tinha mais público e mais resultados em termos internacionais. Questão de prioridades, de políticas e de vaidades… 

 


 


 


BOM – A Meo passou em meados de Junho o objectivo dos 100.000 clientes, que estava previsto para Dezembro próximo. E nos últimos 12 dias desse mês conseguiu mais 17.000 novos clientes, uma média de 1400 novos clientes por dia. Zeinal Bava tem razões para se mostrar satisfeito com esta primeira grande batalha da sua nova PT. 

 


 


OUVIR – Passo os dias a ouvir o novo disco dos Coldplay, canções magníficas, ambientes sonoros (produzidos por Brian Eno), verdadeiramente exemplares. A generalidade da crítica considera o novo «Viva La Vida, Death And All His Friends» o melhor álbum da banda ,  inspirado pela obra de Frida Kahlo, diz Chris Martin o vocalista. As boas vendas obtidas pelo disco provam o estatuto que os Coldplay atingiram ,mas são também um sinal de como estratégias de marketing musical alternativas podem funcionar num mercado em crise. Downloadas gratuitos de uma canção, dois singles diferentes enviados às rádios e concertos gratuitos em grandes cidades são responsáveis pelo êxito, que inclui cerca de um terço do total de vendas feitos sob a forma de downloadas pagos na Internet. Para além do negócio, a verdade é que «Viva La Vida» é uma grande canção e que este é um magnífico álbum.  

 


 


PROVAR – Se querem saber o que é um presente saboroso e inesquecível, experimentem umas magníficas caixas de seis embalagens de conservas do fabricante «La Gôndola», um conserveiro tradicional da vila de Perafita, próxima de Matosinhos. No delicioso presente que recebi tinha polvo de caldeirada, sardinhas em tomate e azeite, ovas de bacalhau (um petisco!!!), sardinhas pequenas em azeite, sardinhas em escabeche e lulas de caldeirada. Tudo delicioso. Em Lisboa as caixas oferta podem ser encontradas no Gourmet do Jumbo das Amoreiras. 

 


 


 


 


PETISCAR – O que pode fazer o sucesso de um restaurante? – Boa comida, estacionamento fácil bom serviço, boa vista, simpatia e bom ambiente. Pois é isto mesmo que se encontra no «Spianata», um restaurante com inspiração italiana, situado na Travessa de Santa Quitéria 38, por cima de um supermercado e de um parque de estacionamento, mesmo ao pé da Av. Pedro Álvares Cabral. O dono da casa tem tradição – esteve há muitos anos no La Trattoria e depois foi um dos fundadores do Mezzaluna. Voltou agora às lides com este Spianata. Massas honestas, pizza de massa muito fina e crocante, garrafeira comedida e a preço decente. Para além de tudo o mais, o restaurante dispõe de uma grande esplanada com uma vista fantástica de Lisboa, muito simpática nestas noites de Verão. Ao almoço há um buffet despretencioso. A relação qualidade- preço devia ser um exemplo para muita gente. Telefone 213881892. 

 


 


LER – Poucos livros me deram tanto prazer nos últimos tempos como uma imaginativa edição de «The Bob Dylan Scarpbook: 1956-1966». Devo esclarecer que este não é um livro no sentido clássico, é um objecto de evocação de memória, de reconstituição de uma época ( a da fase inicial da carreira de Bob Dylan). Para quem seja devoto de Dylan – como eu confesso que sou – isto é mesmo uma delícia. O livro reúne textos de Robert Santelli e agrupa reproduções dos manuscritos de letras de canções como «Talking New York» ou «Blowin In The Wind», reproduções de documentos pessoais, fotografias, bilhetes e cartazes de concerto, memorabilia diversa, tudo paginado com um grafismo inventivo. O livro inclui ainda um CD com gravações de entrevistas dessa época. À venda na FNAC. 

 


 


Back To Basics – Não podemos regular a inovação -  senso comum não aplicado por alguns reguladores nacionais.

LISBOA, OS SEUS MUSEUS E O PAVILHÃO DE PORTUGAL

Publicado no diário Meia Hora de 2 de Julho

 


 


Por estes dias o Museu Colecção Berardo assinalou um ano de vida com 24 horas de festa. Este é um daqueles assuntos sobre os quais tenho sentimentos divididos.


Vamos primeiro ao lado positivo – o Museu tem muitos visitantes e, para além da Colecção Berardo, tem existido uma programação diversificada e de qualidade, melhor até do que seria expectável.


Lado negativo – o CCB perdeu a diversidade que tinha e a coerência de programação multidisciplinar ao perder o Centro de Exposições, que desapareceu. E, do lado negativo, está também a forma como o negócio foi montado entre o Estado e Berardo.


Mas, já que o Estado quis assegurar a Colecção Berardo e garantir a existência do respectivo Museu a qualquer preço, já que se dispôs a entregar uma parte de um edifício público, mais valia que tivesse feito o mesmo num local que estava calhado para albergar esta colecção e este Museu, o Pavilhão de Portugal.


Na última semana o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa veio a público constatar a evidência – o Pavilhão de Portugal está desaproveitado, a forma como tem sido utilizado degrada o edifício e evidentemente isto é lamentável. António Costa propõe-se resolver a situação – e isso é uma boa ideia.


Como nunca é tarde para corrigir e melhorar, proponho aqui que a colecção e o Museu Berardo lá sejam instalados – o acordo com o Estado mantém-se, a utilização de um espaço público idem e restitui-se o Pavilhão de Portugal à sua natural vocação expositiva, ao mesmo tempo que o CCB recupera uma área que lhe é preciosa para a programação.


Permito-me acrescentar um outro argumento: Lisboa é um destino turístico de «short-breaks» - férias curtas de fim de semana. Faz sentido ter um pólo cultural e de entretenimento a ocidente da cidade e outro a oriente – o perfeito para uma estada de dois dias.


Na zona ocidental estão a Torre de Belém e os Jerónimos, o Museu (actual ou futuro) dos Coches e o CCB, para além das muitas esplanadas ribeirinhas. No lado oriental, ao Museu do Azulejo, ao Casino de Lisboa e Oceanário, poder-se-ia adicionar o Museu Berardo no Pavilhão de Portugal. Lisboa ganharia em oferta, em dispersão de actividades, em acessibilidades aos equipamentos.


Nunca é tarde para melhorar as coisas, pois não? 

 

junho 29, 2008

A ARTE DE NADA FAZER

(Publicado no diário Meia Hora de 25 de Junho)

 


Uma das especialidades da acção política é conseguir parecer que se faz muito, sem nada fazer de facto. Por exemplo José Sócrates e António Costa, um no país e outro em Lisboa, são mestres desse enredo. Falam, falam, prometem, prometem, inauguram, inauguram, mas depois vai-se a ver o que mudou e a coisa é bem pouca.


Dentro do mesmo género, mas menos elaborados, são por exemplo Mário Lino no Governo e Manuel Salgado em Lisboa. Os projectos que Mário Lino empenhadamente defende já se percebeu que não avançam, da mesma forma que Manuel Salgado gasta mais energias e recursos em exposições e no encerramento do Terreiro do Paço aos Domingos, que propriamente na reforma dos serviços de urbanismo e em medidas de recuperação da cidade.


Depois, há todo um outro género, que é o que vive de fazer o menos possível de acção política nas respectivas áreas, não se vá dar o caso de alguma coisa poder acontecer – é o que se passa com a Cultura, no país e em Lisboa (e no Porto também, mas isso é um caso de terrorismo do respectivo edil). No Palácio da Ajuda, onde fica o Ministério da Cultura, basta visitar o respectivo site da Internet para se perceber a ausência de definição de políticas, estratégias, prioridades ou reformas e nota-se que a acção mais pública do respectivo titular foi a inauguração de um museu dedicado aos comboios, que nem sequer está debaixo da sua tutela. Da mesma forma, a Vereadora da Cultura de Lisboa prima pela inexistência de qualquer actividade que não seja acabar com iniciativas que existiam e não se lhe conhece um pensamento sobre como tornar Lisboa uma cidade que acolha e promova a criatividade.


Poder-se-ia dizer que é falta de capacidade de comunicação. Não creio, é inacção. É não querer aparecer a tomar medidas, é não estar convicto do que se faz, é evitar tomar posição. Em política, cada vez mais, o que está a dar é não fazer nada, dizer o menos possível, esconder projectos, evitar concretizar.


A actual retórica política destina-se a afastar os cidadãos do debate, procura  fechar o círculo da participação cívica, esforça-se por reduzir o número de protagonistas. O processo político em Portugal é cada vez mais autista, cada vez menos interessado no que fica para o futuro. Não é de estranhar que Portugal seja o mais pessismista dos 27 países da moribunda União Europeia. 

 

(publicado no Jornal de Negócios de 27 de Junho)

POIS… – A capa da revista «The Economist» desta semana era a imagem de uma ave, caída, morta, de patas para o ar, com a bandeira europeia desenhada no ventre, trespassada por uma flecha, sob o título «O Futuro da União Europeia – Agora enterrem-na!». Lá dentro o artigo começava assim: «Os eleitores atiraram mais uma seta direita ao coração do tratado da União Europeia. Desta vez foram os Irlandeses a votar não ao tratado de Lisboa no passado dia 12, por 53-47% numa votação concorrida. Eles seguem-se aos Franceses e aos Holandeses, que rejeitaram em 2005 o predecessor do tratado de Lisboa, a constituição da EU. Já em 2001 os irlandeses haviam recusado o tratado de Nice, mas na realidade foram os Dinamarqueses a iniciar este jogo quando votaram contra o tratado de Maastricht em 1992». E o mesmo artigo termina assim: «Os eleitores disseram por três vezes não a esta caldeirada confusa. Vai sendo tempo de respeitar a sua opinião». Se pudesse oferecia exemplares da revista a Sócrates, a Durão Barroso, a Cavaco Silva e aos seus seguidores no coro que reivindica a ratificação do tratado de Lisboa a todo o custo.


 


LISBOA – A edição de Julho/Agosto da imprescindível revista «Monocle» traz a sua selecção das 25 melhores cidades do mundo para viver. Lisboa entra na lista, conseguindo o 24º lugar, elogiada pela animação, os cafés, o sol, o clima, a paisagem, as praias próximas e pela vida nocturna. Ou seja, a cidade tem sobrevivido à incúria, ao desleixo, até à falta de uma estratégia de inovação e criatividade. A única conclusão é que nem o mau governo da cidade consegue eliminar as suas vantagens naturais. Imaginem que a cidade era bem governada – devia ser fantástico. Num brilhante artigo publicado na mesma edição da revista, Richard Florida propõe que o conceito de qualidade de vida seja alterado pelo de qualidade do lugar, assente em três avaliações: o que lá existe (seja natural ou construído), quem lá está (as pessoas) e o que lá se passa ( o que as pessoas fazem, a sua relação com o ambiente natural e com o espaço construído).  

 


 


 


 


MUNDO – A revista «Wired» fez 15 anos e publica uma edição especial onde mostra as previsões em que acertou e aquelas em que falhou. Dedicada ao mundo digital desde 1993, a «Wired» foi pioneira na divulgação de tecnologias, novas culturas, novas formas de expressão e criatividade, novos aparelhos e tendências. O seu slogan é «Ideas With Impact» - nada podia ser mais simples e verdadeiro. O seu site (www.wired.com) tornou-se um local de referência, para mim de consulta diária. 

 


 


MÚSICA – Duas reedições extraordinárias da editora Riverside, a partir de gravações e edições originais de finais dos anos 50, dois discos excepcionais de Bill Evans. Em 1958 Bill Evans no piano, Sam Jones no baixo e Philly Joe Jones na bateria gravavam os temas que haviam de integrar o álbum «Everybody Digs Bill Evans», o segundo álbum do pianista, com uma capa invulgar, feita de citações elogiosas a Evans, assinadas por Miles Davis, George Shearing, Ahmad Jamal e Cannonball Adderley. Um ano mais tarde, e já depois de ter participado na gravação de «Kind Of Blue» de Miles Davis, Bill Evans voltou ao estúdio com um novo trio – a seu lado estavam agora Scott Lafaro no baixo e Paul Motian na bateria. Destas sessões resultou o álbum «Portrait In Jazz», uma pequena obra prima de criatividade e frescura na abordagem de temas clássicos do jazz, além de uma revelação nos caminhos que Evans trilhava na composição. Estes dois álbuns foram remasterizados digitalmente para 24 bits e estão agora disponíveis graças a uma série de reedições da Riverside/Universal. 

 


 


VER – O fotógrafo britânico Martin Parr ganhou o prémio Photo España 2008, pelo seu percurso profissional e influência na fotografia contemporânea. É uma boa notícia porque Parr é um fotojornalista, da prestigiada agência Magnum, e não apenas um observador académico e diletante a cruzar texturas com formas. As suas fotografias são cáusticas, de ângulos inesperados, críticas, mordazes muitas vezes, irónicas com frequência. Podem ter uma bela ideia da sua obra (que inclui livros e filmes além da fotografia) no seu site www.martinparr.com . Que bom é ver um prémio de fotografia bem atribuído. 

 


 


PROVAR – Por detrás do Hotel Tivoli, da Avenida da Liberdade, fica o Hotel Tivoli-Jardim. É um hotel mais pequeno, um pouco mais modesto, mas de qualidade, que sempre teve no rés do chão um restaurante simpático, de que aliás aqui falei há tempos. Agora o Hotel decidiu concessionar o espaço a um dos mais activos chefes e restauradores da nova geração portuguesa – Olivier. A decoração foi mexida para tornar o local mais moderno e o Olivier Avenida propõe uma lista que inclui surpresas como os mini-hamburguers com foie gras fresco e cebola caramelizada em vinho do porto ou uma bela salada de vieiras. O serviço é simpático, a lista é variada, o ambiente é bom e o preço não é exagerado. Um bom local no centro de Lisboa , telefone 213174105. 

 

 


BACK TO BASICS – Em vez de dar a um político as chaves da cidade, o melhor seria mandar mudar as fechaduras - Doug Larson. 

 

junho 23, 2008

Publicado no Jornal de Negócios do dia 20 de Junho

CELEBRAR – Gosto muito de cerveja Guinness. Tem um corpo e um travo únicos, fruto de uma receita original. Criada em meados do século XVIII na Irlanda, a Guinness é daqueles produtos diferentes e com um método de fabrico inusitado ( a suavidade vem do facto de  a gaseificação ser criada com nitrogénio, além do habitual dióxido de carbono), por cima de uma preparação e mistura única dos cereais – tratados - que são fermentados. A Guinness é um produto da diversidade, para ser saboreada. Esta semana brindei várias vezes ao NÃO irlandês com cerveja Guinness. Brindei pelo direito ao voto, pelo direito ao referendo e pelo direito à diferença. Eu gosto dos irlandeses, mais do que dos franceses e dos alemães. E acho que nos devíamos entender mais com os irlandeses do que com países que têm pouco a ver connosco. Resta dizer que, acima de tudo, apreciei a independência dos eleitores irlandeses – não cederam à chantagem dos financiamentos comunitários.


 


 


EUROPA – Se há coisa que o processo do Tratado de Lisboa prova é que a Europa, tal como está, gosta pouco de votos e tem uma noção muito estranha de democracia: nesta Europa, pelos vistos, uma votação só serve se puder ser repetida até sair o resultado desejado. Se a moda pega, a coisa vai ser curiosa – imaginem esta ideia nas mãos de Sarkozy, Berlusconi ou dos gémeos polacos... Mas o pior de todos os argumentos é aquele que pretende opôr as centenas de milhões de cidadãos de vários Estados que não fizeram referendo, aos poucos milhões de Irlandeses que tiveram a coragem de, votando, dizer não a um modelo centralista. Tivesse havido referendo em mais Estados, outro galo cantaria. Houvesse mais democracia e a Europa talvez pudesse ser um ideal simpático, em vez de um poço de burocracias. Portugal, como pequeno país periférico, faria bem em ouvir os argumentos do NÃO irlandês, em vez de aceitar as falácias dos grandes países que mandam em Bruxelas. Já repararam como o «não» da França há uns anos foi tratado com simpatia e desvelo (e obrigou a repetir todo o processo) e o «não» irlandês é tratado com insultos e desprezo? Esta diferença é a matriz do poder burocrata da Europa. E é isso que muitos, como eu, não desejam que aconteça. Devia ter tido a coragem de ir a votos sobre esta matéria senhor Sócrates, em vez da cobardia de se refugiar no Parlamento. 

 


 


LER – Esse belíssimo objecto editorial que é a revista «Egoísta» fez mais um número especial, desta vez dedicado aos 120 anos de Fernando Pessoa. Para além das palavras do poeta, destaco algumas ilustrações – nomeadamente as baseadas em fotografias de Cláudio Garrudo e desenhos de Rodrigo Saias. Destaque também para as reproduções de páginas de volumes anotados da biblioteca do próprio Pessoa com algumas imagens inéditas. Belos textos de Hélia Correia, Teresa Rita Lopes e António Tabuchi (mais previsível, mas enfim…). Mas o melhor de tudo é o ensaio sobre Fernando Pessoa e as suas ligações a contemporâneos como Walt Whitman e Oscar Wilde, trazido pelo seu tradutor Richard Zenith – que também propõe uma revisitação de quatro textos de Wilde, traduzidos por Pessoa e que Zenith transcreveu e anotou. De longe esta é a melhor parte desta edição e só por si vale a pena guardá-la. Não havia era necessidade de um desajeitado texto de Inês Pedrosa, a ensaiar uma réplica a um texto do próprio Pessoa – há dias em que a ausência da noção de ridículo mata mesmo.  

 


 


OUVIR – A britânica Minnie Driver tornou-se sobretudo conhecida como actriz de cinema, mas ao longo dos últimos anos desenvolveu uma carreira musical paralela. Neste seu segundo disco as canções são todas da sua autoria, a maioria baladas com um toque de blues. A atmosfera é inesperada, as canções são ricas, os arranjos são precisos e discretos, a voz é envolvente – permitam-me destacar a faixa «Love Is Love». No disco colaboram nomes como Ryan Adams (dos Cardinals), na guitarra em «Beloved», a grande Liz Phair que faz coros em «Sorry Baby» e Rami Jaffee (dos Wallflowers) Minnie Driver, presenças de Liz Phair, Rami Jaffee dos Wallflowers em «London Skies». Belas canções tem este «Seastories» de Minnie Driver, uma edição Decca. 

 


 


 


 


SABOREAR– Confesso que sou mais partidário dos chefes que trabalham com base na tradição culinária portuguesa do que dos seguidores de modelos importados. Por isso mesmo uma casa onde volto sempre com gosto é ao «Nobre», que ao longo dos últimos anos tem tido várias vicissitudes mas que, agora, estabilizou bem no Montijo, mesmo à saída da Ponte Vasco da Gama. Num espaço amplo, com um serviço impecável (que falta em tanto sítio…), Justa Nobre continua a mostrar como é possível manter a qualidade, introduzindo pequenas e bem achadas inovações, nomeadamente na forma de trabalhar o peixe. A comandar as operações, como sempre, está o seu marido José Nobre. Avenida de Olivença, junto à praça de touros do Montijo, telefone 212317511. 

 


 


BACK TO BASICS «Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.  

O primeiro passo passou para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal é criarmos um estado de espírito de confiança - mais, de certeza, nessa regeneração.» - Fernando Pessoa, em «Teoria e Prática do Comércio».
 

 


ONDE ESTÁ O ZÉ?

(Publicado no diário «Meia Hora» do dia 18 de Junho) 

 


Nas últimas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa o Bloco de Esquerda fez campanha com o slogan «O Zé Faz Falta», para defender a eleição de José Sá Fernandes. O objectivo foi cumprido e o tal Zé foi eleito.


Vamos aqui fazer um pequeno exercício de memória: nas vereações anteriores, de que não fez parte, o Dr. Zé teve uma persistente e constante atitude de batalha jurídica contra as decisões dos então responsáveis, quer no caso do elevador para o Castelo de S. Jorge no tempo de João Soares, quer no caso do Túnel do Marquês no tempo de Santana Lopes e, mais tarde, sobre o Parque Mayer,  no tempo de Carmona Rodrigues. Em todos os casos argumentou com o interesse público e esgrimiu providências cautelares e denúncias avulsas, para impedir políticas, atrasar obras, causar prejuízos variados (o caso do Túnel do Marquês é o mais flagrante e os milhões de custos suplementares que as suas diatribes causaram deviam ser objecto de atribuição de responsabilidades).


Pois eis que agora o Senhor Vereador Zé resolveu permitir o abuso do espaço público, o incómodo dos munícipes, a diminuição dos seus direitos de movimento dentro da cidade onde pagam impostos – estou a falar do aberrante caso da cedência de uma praça no centro da cidade para uma operação privada  (o lançamento de um carro) que durante cerca de duas dezenas de dias vai prejudicar a vida de todos os que habitam ou normalmente frequentam a Praça das Flores.


Não está aqui em causa a acção em si – os responsáveis de marketing da Skoda tiveram uma ideia original e aproveitaram a fraqueza e complacência da Câmara para a porem em prática. Merecem palmas.  O que está em causa é que o Sr. Zé, dantes, nunca via vantagens nem benefícios naquilo que os outros propunham, e agora só vê vantagens e receitas na perturbação da vida dos lisboetas. Na verdade, o que fazia falta, neste caso, era alguém que tivesse interposto uma providência cautelar à ocupação da Praça das Flores, apoiada pelo tal Zé, que, vê-se agora, não era preciso para nada.


A hipocrisia é o pão nosso dos políticos, mas o tal Zé abusa. E, já agora, em todo este assunto estranha-se o diáfano silêncio do Senhor Presidente da Câmara. Quem cala, consente. Ao menos ficamos a saber do que a casa gasta. 

 

junho 16, 2008

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 12 de Junho)

ASAE I – Gostava de saber em que vão ficar as dúvidas sobre a constitucionalidade da ASAE, levantadas por alguns distintos Constitucionalistas. A quem cabe promover o esclarecimento das dúvidas? Irá o Presidente da República averiguar o que se passa? Irá o Tribunal Constitucional ter a ousdadia de agir? 

 


 


ASAE II – O inconfundível senhor Nunes, produto acabado do que pode acontecer num Governo de maioria absoluta, continua a fazer das suas: agora a responsável da ASAE no Norte foi levada a abandonar o cargo, por coincidência depois de ter criticado a forma como a ASAE por vezes actua. A ASAE não só actua de forma descricionária (e vamos ver se inconstitucional…), como não tolera discussões nem críticas. O senhor Nunes está cada vez mais parecido com um déspota muito mal iluminado. 

 


 


CRISE I – Primeiro a Europa combateu a produção agrícola nos países periféricos para satisfazer a Alemanha e a França, depois condicionou a pesca para satisfazer os países do Norte. A crise que hoje vivemos é fruto de décadas de políticas erradas dos responsáveis europeus, é fruto da obsessão pela construção de um mega-estado capaz de bater pé a americanos e russos, custasse o que custasse. O custo, vê-se agora, é altíssimo. A guerra fria continua, só que agora as armas são os sempre escalantes juros do Euribor , o preço do petróleo, o estrangulamento das especificidades nacionais. Eu não sou europeísta, eu sou contra o tratado de Lisboa, e tenho muita pena de ser obrigado a aceitá-lo por um Governo que despreza a auscultação da vontade dos seus cidadãos. 

 


 


 


 


 


CRISE II – Os juros do crédito à  habitação subiram a níveis históricos, o preço dos bens de consumo essenciais sobe como nunca nos anos mais recentes, a inflação dispara, o Estado perde receitas fiscais cada dia que passa porque em Espanha as coisas são mais baratas e quem pode vai lá abastecer-se. E é em nome da necessidade da receita fiscal que essa receita vai diminuindo, porque o  consumo está a retrair-se. É em nome da estabilização do deficit que a classe média é sufocada pelo peso do Estado. Nada disto é lógico, nada disto é produtivo, nada disto faz sentido. Vivemos num reino de faz de conta. 

 


 


 


PAÍS – Este país irrita-me, irrita-me muito. No mesmo dia em que a taxa do Euribor passa os 5%, nos restaurantes, à hora do almoço, só se ouve falar de futebol. Todos os jornais têm páginas e páginas sobre o circo do Euro. O ruído do futebol contrasta com o silêncio apurado de Sócrates, encolhido a esperar que a crise seja arredada pelo esférico rolando sobre os relvados da Suiça e Áustria.  

 


 


RESTAURANTES – A Avenida da Liberdade está de repente a ganhar uma enorme vida em matéria de restaurantes. Entre o Zeno e o Ad Lib, aparecem novas propostas. A Brasserie Flo, no Hotel Tivoli, é já um êxito e decididamente o almoço mais empresarial de Lisboa, depois de décadas de prevalência da Varanda do Ritz. Um pouco atrás, no Tivoli Jardim, está o Olivier Avenida, que vai dando que falar E agora o Terraço do Tivoli está para abrir pela mão de Luís Baena. Este é o movimento que me levanta mais dúvidas, nunca comi bem na Quinta de Catralvos, numa me senti lá bem porque o serviço era péssimo. Para mim, Luís Baena é daqueles chefes que se refugia na tecnologia – um dos grandes chefes espanhóis, Santi Santamaría, denunciou há poucos dias o abuso de químicos e aditivos para compor os pratos e preconizou o regresso à pureza das boas matérias primas locais. Até prova em contrário acho que Luís Baena tem mais ego que talento e, absolutamente, tem uma imperdoável falta de atenção ao serviço. Espero que se corrija a tempo de não estragar mais um restaurante. 

 


 


LER – A propósito disto de restaurantes, recomendo vivamente a leitura de «A Ferver – Aventuras e desventuras de um cozinheiro amador», pelo jornalista e escritor americano Bill Buford, o homem que refundou e criou a revista «Granta», célebre publicação dedicada à literatura. Este livro de Buford, nascido em 1954, é como um deliciosa sucessão entre reportagens e short-stories, todas dedicadas à cozinha – desde as peripécias como aprendiz de cozinha num restaura italiano célebre, até à aprendizagem das  massas  frescas italianas, passando pelas dificuldades em aprender a nobre arte dos talhantes. Mais do que isso, quase em cada página encontra-se um conselho, uma sugestão, um truque. Nunca a palavra DELÍCIA se aplicou tão bem a um livro como a este. 

 


 


OUVIR – Na Ópera contemporânea existe uma dupla mágica: Anna Netrebko e Rolando Villazón. Juntos cantaram «La Traviata» em Munique, depois «Roméo et Juliette» em Los Angeles, «Lélisir d’amore» em Viena, «Manon» de novo em Los Angeles. Finalmente, em 2006, interpretaram juntos «La Bohème», primeiro em São Petersburgo e depois em Nova Iorque e finalmente, em 2007, em Munique, onde a ópera foi gravada, quer para disco, quer numa versão de Cinema e noutra de televisão. É a gravação áudio dessa apresentação, com a Orquestra Sinfónica da Rádio da Bavária, dirigida por Bertrand de Billy, que agora é editada pela Deutsche Grammophon, Netrebko é Mimi e Villazón é o poeta Rodolfo. O resultado merece ser descoberto. 

 


 


BACK TO BASICS – «A minha mãe teve algumas dificuldades comigo, mas no fundo acho que gostou de as resolver» - Mark Twain.  

 

SAUDADES DA RÁDIO

(publicado no diário «Meia Hora» de 11 de Junho)

 


 


Hoje estou um bocadinho sentimental. Estou com saudades da rádio, da rádio que me acompanha desde miúdo, de ouvir emissões e programas, de sentir variedade e diferença, sem ser apenas uma enorme e monótona lista de discos que se repetem dia após dia, ou uma algazarra de conversas sem sentido nem utilidade


Lembro-me de quando ouvia rádio, ao pé da minha mãe, ela a querer que eu estudasse e fizesse os trabalhos de casa, e eu à procura das estações que tivessem música nova. Lembro-me de noites na casa dos meus avós, no Alto Alentejo, a procurar distantes rádios estrangeiras em onda curta e onda longa. Anos mais tarde lembro-me de ter gravado partes do álbum branco dos Beatles a partir de uma emissão em onda curta da BBC, no exacto dia em que ele foi apresentado em Londres.. Nesse tempo, não se espantem, não existia Internet, nem My Space. nem You Tube. As ondas curtas e longas eram o nosso terreno de exploração numa época em que o único computador que conhecíamos era o que aparecia em «2001-Odisseia No Espaço», o filme de Kubrick entretanto largamente ultrapassado pelos acontecimentos.


A rádio foi progressivamente sendo morta por programas que queriam ter graça mas não tinham nenhuma, por notícias ansiosas, por gravações de declarações a favor e contra repetidas vezes sem fim, a propósito de tudo e de nada. O estilo editorial «procura a reacção» deu cabo das notícias e, em boa parte, da rádio..A tentação de a rádio concorrer com a TV matou a própria rádio que hoje precisa de se reinventar.


Há pouco tempo voltei a ouvir rádio pela manhã para ouvir como o dia se desenha, Gosto da rádio que não se repete, que é capaz de me dar as duas primeiras horas do meu dia de forma diferente. Primeiro fartei-me das emissões de rádio que pareciam más emissões de televisão, depois fartei-me das emissões de televisão, sempre como mesmo bloco de notícias repetido vezes demais.


Acredito que a rádio se vai reinventar, acredito que é na diversidade, nos programas e nas diferenças, que a rádio vai ressurgir. Se calhar com programas mais curtos, entre os podcasts e blogs radiofónicos, utilizando redes sociais, facultando preferências  personalizadas, se calhar com maior atenção ao que é local e de interesse para as pessoas, se calhar menos presa à agenda política de Ministros e de partidos. Eu gostava que fosse assim. 

 


 

junho 09, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de dia 6 de Junho

CURIOSIDADE – A frota automóvel do município de Tavira passou a ser abastecida em Espanha porque é mais barato. Quem é que diz que as comparações com Espanha não interessam para nada? 

 


MÉDIA – Recomendo aos governantes que gostam de citar médias europeias que atentem neste subtítulo de capa um jornal desta semana: «os pescadores portugueses pagam taxas mais baixas nas lotas espanholas, recebem mais pelo mesmo peixe e atestam os barcos com combustível mais barato». 

 


 


PONTARIA – Li num jornal da semana passada que os agentes da ASAE foram os que, de entre as várias polícias, maior treino de tiro tiveram nos últimos tempos. Dá que pensar, não é? Será que vão invadir os arraiais de Lisboa com o aparato que costumam utilizar em feiras e mercados? 

 


 


FUTEBOL I – Antes que a palhaçada comece, o melhor é declarar isto desde já: embirro com Scolari, com as espertalhices e teimosias que alarda, com o patriotismo de meia tigela que fomenta, com a maneira como algumas marcas se colam a ele. Por mim passo ao lado de qualquer coisa que tenha o carimbo desse senhor. 

 


 


 


 


FUTEBOL II – Não gosto do espírito de união nacional que a participação da selecção nacional induz. Irrita-me que os responsáveis nacionais usem a selecção e o futebol para terem um interregno nos problemas. Não gosto de pensar que há quem pense que a grandeza do futebol é a solução de todos os problemas do país.  

 


 


ANÁLISE – «O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade da ironia». Escrito por Fernando Pessoa nos anos 20, imaginem este texto escrito agora e façam as necessárias adaptações às sutuações actuais. 

 


 


LER – Este certeiro e oportuno texto de Fernando Pessoa pertence a uma pequena mas muito interessantes publicação, da Editorial Nova Ática: «O Provincianismo Português», incluindo ainda um outro texto, «O Caso Mental Português . Do mesmo autor e pela mesma editora vale também a pena ler «Um Grande Português ou A Origem do Conto do Vigário». Todos são curtos ensaios originalmente publicados por Pessoa na imprensa da sua época. Ainda um dia destes vou tirar mais umas belas citações destes textos, quer-me parecer. Estes deliciosos livrinhos estão disponíveis no renovado espaço da Livraria Guimarães (Rua da Misericórdia 68, um pouco acima do Teatro da Trindade), onde se conseguem encontrar textos clássicos e algumas edições fundamentais de autores portugueses, uma raridade nos tempos que correm.  

 


 


VER – Ir até Belém e de uma assentada só ver a peça que Pedro Cabrita Reis tem no Mosteiro dos Jerónimos e dar um pulinho ao CCB para ver no Museu Berardo a exposição sobre a obra do arquitecto Le Corbusier.  

 


 


OUVIR AO FIM DA TARDE – O novo volume da série Verve/Remixed, que já vai na quarta compilação. Aqui são revisitados temas como «Cry Me A River» de Dinah Washington, «Gimme Some» e «Take Care Of Business» de Nina Simone, «There Was A Time» de James Brown, «Tea For Two» de Sarah Vaughan, «Bim Bom» de Astrud Gilberto» e «I Get A Kick Out Of You» de Ella Fitzgerald, entre outros. Ao todo doze clássicos reinventados em tantas outras remixes de outros tantos DJ’s. Um disco ideal para acompanhar estes longos fins de tarde, depois do trabalho, já na fase de descontracção. CD Verve/ Universal. 

 


 


OUVIR À  NOITE– A banda sonora do filme «Sex In The City» já está disponível e merece atenção. Mistura sons da cidade de Nova Iorque, entre o rock, o pop e o hip-hop. Destaque para «Labels Of Love» de Fergie, «Mercy» de Duffy, o remix de «The Look Of Love» a partir de uma versão de Nina Simone, uma belíssima canção - «It’s Amazing» - de Jem, uma versão de «How Deep Is Your Love» (um original dos Bee Gees), aqui interpretado por The Bird & The Bee. Há mais Bee Gees numa versão de «How Can You Mend A Broken Heart» por Al Green e Joss Stone e a coisa remata com o sempre brilhante «Walk This Way» dos Aerosmith pelos RUN DMC com a participação dos autores Steve Tyler e Joe Perry. CD Decca/Universal Music.  

 


 


PETISCAR – Pastéis de bacalhau com salada de feijão frade ou outra combinação qualquer de salgados com saladas, de entre as várias que estão disponíveis na «Versailles». Uma maneira fresca de fazer um almoço leve numa sala simpática. Mas além de saladas tem bons pratos do dia e honestíssimos bifes. Às vezes até me esqueço que a Versailles é um muito decente restaurante. Av da República 15ª, quase a chegar ao Saldanha, não é pior marcar mesa ao almoço se quiser mesmo uma refeção como deve ser. Telefone 213546340. 

 


 


BACK TO BASICS - «Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão» - Eça de Queiroz. 

 

junho 04, 2008

CRIATIVIDADE CONGELADA

(Publicado no diário Meia-Hora de 4 de Junho)


Nos últimos tempos fala-se bastante da importância de atrair e fomentar a criatividade e há poucas semanas esteve em Lisboa, para uma conferência, o economista norte-americano Richard Florida que se tornou conhecido exactamente por defender a necessidade de cidades e países se posicionarem enquanto pólos de criatividade, como factor de desenvolvimento económico e social.


Numa conjuntura destas seria de esperar que os maiores municípios do país e o Governo andassem de mãos dadas para tentar criar uma estratégia de actuação concertada. E seria natural que fossem os vereadores dos pelouros autárquicos da Cultura e o Ministro da Cultura os dinamizadores dessas acções.


Pois então não se passa nada disso. A área da Cultura continua a ser sistematicamente subalternizada, e em primeiro lugar por Presidentes de Câmara e por Primeiros Ministros, que olham para o sector e não conseguem ver mais do que a política de subsídios e a gestão de favores a grupos de interesse, para posterior utilização nos ramalhetes de apoios em épocas eleitorais.


A actividade cultural – no sentido lato do entretenimento e das indústrias criativas – é hoje em dia um factor decisivo para fazer desenvolver a economia. Duvidam? Pois ouçam estas palavras do Mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg: «O sector criativo dá à nossa cidade a sua vantagem estratégica e a margem competitiva que lhe permite ter êxito na economia globalizada. O diversificado e criativo ambiente de Nova Iorque não só atrai empresários, homens de negócio e turistas de todo o mundo, como influencia cada um dos nossos mais pequenos gestos. Na realidade este ambiente melhora permanentemente a qualidade de vida em Nova Iorque, cria empregos, atrai estudantes, contribui para manter na região empresas e negócios e ajuda a transformar e requalificar os nossos bairros. A influência das artes e da cultura na cidade é extraordinária.»


Dito isto, pensem lá um bocadinho: que andam a fazer, por exemplo, os vereadores da cultura do Porto e de Lisboa? Que anda a fazer o Ministério da Cultura? Não se sente nenhum esforço em tornar esta área uma prioridade, mas a maior responsabilidade cabe aos titulares governamentais da pasta da Cultura que nunca se bateram pela definição de uma estratégia nacional para o desenvolvimento económico do sector.

maio 31, 2008

O PÚBLICO

Leio o diário «Público» desde o primeiro dia. Já foi o melhor diário português, já há uns anos que não é. Notícias que reportam pouco e comentam muito são o pão nosso de cada dia. Mas o pior veio na edição de hoje, com a frase de abertura da chamada de capa a prpósitodo »Rock In Rio», na qual, se escreve que Amy Winehouse não desiludiu. O jornalista esteve lá? Ouviu? Viu - nem que fossoe na Sic notícias? O «Público» tem uma equipa de marketing eficaz, uma direcção comercial combativa, mas tem uma direcção editorial que se abstém de editar o jornal, entretida que está em opinar. No «Público» cada vez se lêem menos notícias.

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Maio)

COMBUSTÍVEIS I – As mudanças de posição de membros do Governo sobre a questão dos combustíveis sucederam-se ao longo da semana, à medida que os protestos dos consumidores, aqui e no resto da Europa, crescem de forma assinalável. Da inicial impossibilidade de alterações até ao pedido formal a Bruxelas para que implemente alterações, viu-se de tudo um pouco. Só falta começar pelo básico, que é acabar com a dupla tributação nos combustívies em Portugal: sabem que o IVA é aplicado não ao preço do combustível, mas à soma do preço de venda do combustível, com o Imposto sobre Produtos Petrolíferos, o que quer dizer que cerca de metade do IVA decorre da sua aplicação a uma outra receita fiscal? Quando se trata de roubar e abusar o Ministério das Finanças nunca hesita. O que é engraçado é ver quem são os defensores destas cobranças abusivas e da imutabilidade do ISPP… (já depois de publicado: a Galpa baixou um cêntimo por litro, no dia a seguir à Repsol ter aumentado para ficar próxima dos preços da GALP - ele há coincidências, não é?)


 


COMBUSTÍVEIS II – O Governo anda muito atarefado a explicar que o preço dos combustíveis em Portugal não está muito afastado da média europeia. Eu acho que a conta que interessa fazer é o afastamento existente em relação aos nossos vizinhos espanhóis. É o preço deles que nos importa em primeiro lugar  - ou estarei a ver as coisas ao contrário? E por falar em médias europeias, quando é que o Governo começa a falar dos casos em que nos afastamos de forma gritante dessas médias, e que são, cada vez mais, a maioria? 

 


 


PSD – A questão dos combustíveis e da crise que eles desencadeiam tem sido um precioso instrumento de análise dos candidatos do PSD. De um lado os que privilegiam a imutabilidade do sistema, do outro quem pensa que novas situações exigem novas soluções, como é o caso de Pedro Passos Coelho. Já que estou neste tema, e para fugir aos combustíveis, foi com algum prazer que vi que Passos Coelho é o único dos candidatos que dedicou um capítulo da sua proposta estratégica a questões culturais, colocando ainda por cima em destaque a necessidade de melhorar a Lei do Mecenato. Mais uma razão para achar que ele é o melhor candidato. 

 


 


ATRASO – Está a dar que falar a situação de atraso no pagamento dos projectos de investigação já aprovados, nomeadamente na área da investigação biológica aplicada à agronomia. Mas não é caso único – Mariano Gago começa a dar nas vistas pela incapacidade de o seu Ministério cumprir os compromissos assumidos. Há investigadores, de várias áreas, que já desesperam… 

 


 


NÃO VOU – Desde o início tenho um posição sobre o Rock In Rio – eu não vou. Acho que a Câmara de Lisboa deu mais apoios a estrangeiros para fazer um festival que a portugueses, e repugna-me a forma como utilizam a máscara da solidariedade para uma operação exclusivamente comercial. Este ano até mascararam um palco com painéis solares desligados para fazer de conta que se preocupam com o ambiente. Os obreiros desta operação de contornos e benefícios mais que duvidosos querem agora convencer o Presidente da Câmara de Lisboa a deixá-los construir, em permanência, uma cidade do rock. E pretendem muitos apoios, claro.  (Já depois de publicado: O Rock In Rio não é um festival de música, é um pot pourri em que a música é apenas um pretexto, como se viu na noite de estreia com a previsivelmente confrangedora actuação de Amy Winehouse)


LER – A capa da edição de Junho da revista «Vanity Fair» é dedicada a Robert Kennedy, assassinado em campanha eleitoral há 40 anos. Destaque para um conjunto inédito de fotografias da campanha, acompanhado de um relato do dia a dia dessa batalha política que levou à morte do candidato. Neste tempo de escolhas políticas é engraçado ver o que nessa altura era considerado renovação. Muitas lições a aprender. Ainda nesta edição um belo artigo sobre Karl Lagerfeld e fotos de Annie Leibowitz e de Bruce Weber. 

 


 


OUVIR – Gustavo Dudamel é um jovem maestro venezuelano apontado como um dos mais brilhantes da sua geração (nasceu em 1981, tem 27 anos), que se tornou notado pelas suas interpretações, gravadas, das 5ª e 7ª Sinfonia de Beethoven e da 5ª de Mahler. Agora, acompanhado pela Simon Bolívar Youth Orchestra of Venezuela, dedicou-se ao repertório popular da América Latina e o resultado é um disco cheio de ritmo, vida, arranjos orquestrais fantásticos e um ar de festa permanente. – não há-de ser por acaso que este disco se chama «Fiesta». Aqui estão temas de quatro compositores venezuelanos, dois mexicanos , um argentino e o clássico «Mambo» de Leonard Bernstein numa interpretação arrebatadora. O disco é uma surpresa, ouve-se vezes de seguida e merece ser descoberto. «Fiesta» de Gustavo Dudamel, CD Deutsche Grammophon. 

 


 


VER – Por estes dias é obrigatório ir seguindo o site da NASA (www.nasa.gov) para ver a evolução das imagens recolhidas pela sonda Phoenix e, também, para a ver em acção, filmada de cima, por um outro satélite que orbita sobre Marte. É uma emoção ver o solo de Marte, ver imagens de outros mundos. 

 


 


PETISCO – Tenho uma velha curiosidade por conservas pouco vulgares e ao longo dos anos já provei muitas codornizes de conserva. Mas confesso que nenhumas foram tão boas como as «Codornices escabechadas da Abuela Juliana», de impecável ponto e tempero. Cada lata tem duas de bom tamanho, o suficiente para fazer um delicioso petisco ao jantar, acompanhado por uma boa salada. Esta marca de conservas, espanhola, «Abuela Juliana», existe nas lojas Jumbo. 

 


 


BACK TO BASICS – «Na economia pós industrial o principal contributo são as ideias, o trabalho mental. O impulso humano para criar é a chave para a inovação económica» - Richard Florida.