
OS DADOS ESTÃO LANÇADOS - Existe um velho ditado português que descreve bem a situação que estamos a viver: “depois de casa roubada, trancas à porta”. Aos poucos vão-se sabendo razões sobre o que aconteceu. Para além da imprevisibilidade dos elementos da natureza e a descoordenação na resposta, há questões que têm a ver com o desprezo pelo ordenamento do território e a falta de atenção que se tem verificado: desde falta de vistoria e manutenção de infraestruturas em zonas problemáticas, até planos para novas obras estruturais que não têm em conta as condições do solo e dos locais, há de tudo e a síntese é esta: desleixo e incompetência do Estado. No rol de desgraças a que assistimos uma coisa salta à vista - foi a nível autárquico que se verificou maior empenho na resolução das situações mais graves e foi a nível do governo que se assistiu à maior desorganização. O Governo tem a responsabilidade de rever como, no futuro, deve ser coordenada a resposta a catástrofes e avaliar futuras obras públicas. Aquilo que sabemos fez-me lembrar como o saudoso arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles alertava contra o crescimento desordenado, os perigos da construção em linhas de água e os seus efeitos na impermeabilização dos terrenos. A força dos elementos desencadeou a situação, mas a mão do homem não é invisível nesta desgraça que nos leva a pensar se não temos andado a construir um país de papelão. Descobriram-se, entretanto, coisas extraordinárias como o facto de a futura linha de alta velocidade e a sua nova estação, em Coimbra, estarem localizadas em áreas que agora ficaram submersas. Só incompetência? Deixo duas citações a terminar. A primeira é de Carlos Fiolhais, cada vez mais lúcido: “É nossa obrigação aprender com a experiência acumulada em desastres naturais. Não apenas a curto prazo, capacitando a proteção civil para a defesa de pessoas em risco, mas também e sobretudo a médio e longo prazo, planeando o território de uma forma mais inteligente.” E a segunda é de Fernando Santos, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, sobre a dificuldade em encontrar material para a reparação dos telhados destruídos: “A União Europeia, em vez de ter andado a normalizar a maçã e a pêra de Alcobaça, tinha feito melhor se tivesse regulado calibres para produzir telhas” .
SEMANADA - Até ao final da semana passada já existiam 34 mil candidaturas ao apoio de 10 mil euros para a reconstrução de casas afectadas pelas tempestades; segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de 2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda suba mais; segundo o IPMA até final da semana passada apenas tinham existido seis dias sem registo de chuva durante os últimos dois meses; há mais de 120 edifícios históricos que sofreram estragos, entre eles o Convento de Cristo e mais de 250 bibliotecas públicas; Portugal é o segundo país europeu que mais consome medicamentos antidepressivos e o primeiro lugar é ocupado pela Islândia; entre janeiro e agosto de 2025, o país exportou cerca de 40 toneladas da planta ou de preparações e substâncias à base de canábis, quase mais do dobro de 2024, e o sector já emprega cerca de sete mil pessoas; nas prisões portuguesas estão mais de 13.000 detidos, dos quais 140 estão a cumprir mais de 25 anos de prisão; em 2023 os residentes em Portugal perderam 2,2 mil milhões de euros em jogos de azar, mais do dobro de há uma década; o plano Ferrovia 2020, apresentado pelo Governo então do PS há dez anos, e que pretendia modernizar as linhas ferroviárias em quatro anos, tem uma taxa de execução de apenas 18%; os tribunais de primeira instância declararam a insolvência de 6368 pessoas, no ano passado, o que dá uma média superior a 17 por dia e, no mesmo período, entraram também em falência 2014 empresas (cinco diariamente), o que dá um total de 8386 insolvências em 2025.
O ARCO DA VELHA - Os 10 mil preservativos distribuídos gratuitamente aos atletas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, desapareceram em apenas três dias.

OBRAS CRUZADAS - O Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva apresenta até 10 de Maio a primeira das três exposições que realizará ao longo deste ano, com obras de Arpad e Vieira em paralelo com artistas de diferentes gerações: Sara & André, Vasco Futscher, Frida Baranek, Francisco Janes, Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches são os convidados para este primeiro ciclo expositivo de 2026. No Museu a sala do piso de entrada foi renovada e apresenta agora magníficos desenhos de Arpad e Vieira da Silva. Neste e noutros locais podem ser vistos mais desenhos como os que Arpad fez de Vieira da Silva, os impressionantes desenhos anatómicos que Vieira da Silva fez no início da sua carreira e pinturas sobre papel de ambos, da década de 30 do século passado. A escultura e cerâmica são os pontos comuns de quase todos os artistas convidados: Vasco Futscher apresenta “Broken Mile”, peças de cerâmica dispostas no chão, num exercício entre a produção industrial e o trabalho manual, trabalhos deliberadamente imperfeitos que contrastam com as obras de Vieira da Silva e Arpad - é neste espaço que estão, por exemplo, os rigorosos desenhos anatómicos. Mais à frente a brasileira Frida Baranek apresenta “Desafios”, trabalhos de escultura que utilizam vidro, madeira, ferro, acrílico, pedra, tubo e fio de aço, e que surgem como desafios ao equilíbrio. Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches, também um casal de artistas, criaram um conjunto de obras surpreendentes. Esta é a primeira vez que trabalham em conjunto, a partir das esculturas em madeira de Rui Sanches e das peças de cerâmica de Teresa Segurado Pavão (na imagem). Sara & André estão no antigo atelier de Vieira da Silva, ali bem perto, e Francisco Janes apresenta uma instalação de imagens e som no espaço do auditório do Museu.

ROTEIRO - Na Galeria Balcony, Manuel Caldeira mostra novos trabalhos de escultura e desenho, intitulada “Egyptian Reggae”, inspirada na reinterpretação de artefactos do Egipto antigo relacionados com a observação do vôo das aves e que o autor apresenta como “arqueologia inventada” (na imagem). São 17 obras, quase todas feitas no último ano, incluindo um conjunto de quatro desenhos. (Rua Coronel Bento Roma 12A, até 21 de Março). No MAAT há uma nova exposição, “Turn Around”, baseada na colecção da Fundação EDP que conta com duas mil e quinhentas obras de mais de trezentos e quarenta artistas. “Turn Around - Um Olhar Sobre a Colecção de Arte da Fundação EDP” terá dois momentos este ano O primeiro, agora apresentado, inclui obras de Gabriel Abrantes, Luisa Cunha, Ana Jotta, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira e João Paulo Feliciano, entre outros.

FRAGMENTOS DE ESCRITA - “Cânone da Câmara Escura” é o novo livro do espanhol Enrique Vila-Matas. Este não é apenas um livro, é um conjunto de fragmentos de outros livros, a partir de uma situação especial: o protagonista, Vidal Escabia, recebeu de herança por morte de pessoa muito próxima uma grande biblioteca, mas sob uma condição: que do total da biblioteca seleccionasse aqueles que considerasse os seus livros predilectos com a incumbência de sobre eles refletir e escrever e elaborar o seu próprio Cânone literário. Escabia construíu um ritual, baseado em três movimentos: entrar no quarto escuro onde estava a biblioteca de obras escolhidas, escolher ao acaso um livro, ir ler e seleccionar um fragmento que lhe parecesse interessante e, depois, escrever o que entendesse sobre essa obra para futura inserção no arquivo do Cânone. Vidal Escabia, cumprindo as instruções de quem lhe deixou a biblioteca, seleccionou setenta e um livros. Escolheu fragmentos e intercalou o que anotava, com relatos do seu quotidiano, dúvidas e reflexões sobre o que se passava à sua volta. Colocou interrogações sobre a presença de androides entre os humanos, chegando ao ponto, suprema ironia, de se questionar se ele próprio, ou quem o rodeava, poderia ser um desses androides. “Cânone de Câmara Escura” é uma obra sobre a paixão pela literatura, sobre o papel que ela tem na transmissão de ideias e sobre o sentido da própria escrita. É um livro dividido em 120 intrigantes fragmentos, que culminam nesta frase:”Até no ar percebo o Mal indefinido que está para chegar”. (Edição D. Quixote, tradução de J. Teixeira de Aguilar).

MÚSICA PARA FILMES QUE NÃO EXISTEM - Bruno de Almeida, além de ser realizador de filmes e documentários, tem também uma carreira de músico, que nos últimos anos se tem consubstanciado na série “Cinema Imaginado”, agora no seu quarto volume. Nesta série de gravações Bruno de Almeida imaginou bandas sonoras para filmes que não existem, numa mistura de géneros musicais, combinando jazz e funk, por vezes com recurso a spoken word. Neste “Cinema Imaginado - Volume 4”, Bruno de Almeida esteve nos teclados e chamou para estúdio Ricardo Toscano, Mário Franco, Luís Figueiredo, Mário Delgado, Óscar Graça, José Salgueiro, Eduardo Cardinho, Miguel Bernat, André Sousa Machado, Iúri Oliveira, Graham Haynes, e uma secção de cordas composta por Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano, Ana Cláudia Serrão e Nuno Abreu. O disco inclui dez temas, que vão de incursões no jazz improvisado até baladas ao piano. Todas as composições são de Bruno de Almeida, excepto o tema “Parallax View”, que foi construído em parceria com Graham Haynes e Mário Franco, co-produtores do disco. Disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - Em Londres, a National Portrait Gallery apresenta até 4 de Maio a exposição “Lucian Freud: Drawing Into Painting” com 175 desenhos feitos por Freud, muitas vezes para se evadir da pintura, outros para recordar momentos, como os três retratos, a desenho, que fez de Francis Bacon num fim de tarde em 1951.
DIXIT - “Aberto um novo ciclo político, como quererá Montenegro passar à História? Como o hábil equilibrista, herdeiro de uma nefasta escola tacticista que vem privilegiando a gestão do curto prazo na última década, que se tem limitado a ser até aqui? Ou como um reformador pragmático, capaz de fazer consensos ao centro e de travar o crescimento dos populismos pelo qual, isso sim, parece ansiar a maioria sociológica existente no país?” - Pedro Norton, no Público.
BACK TO BASICS - “Quando alguém perde a capacidade de se rir de si próprio, é o momento em que os outros se começam a rir dele” - Thomas Szasz.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS






































