novembro 22, 2010

Rui Pereira inventa novo jogo

Está a fazer furor o novo jogo que Rui Pereira lançou no seu Ministério da Administração Interna. É baseado no popular «Onde Está Wally» e chama-se «Onde estão os blindados da PSP?».

novembro 19, 2010

Untitled

A CASA DOS SEGREDOS


 


Se eu fosse estrangeiro e estivesse em Portugal na semana passada ficaria um pouco intrigado. Deputados europeus do PS pedem a cabeça de ministros, Ministros pedem a cabeça do Governo, eternos candidatos a líder apontam novos possíveis candidatos. É como se o programa «Casa dos Segredos» fosse agora ocupado por políticos que passam a vida a fazer revelações inesperadas. O Governo, o Primeiro-Ministro e o seu círculo de fiéis tornaram-se subitamente personagens de reality show.


 


Não deixa de ser curioso que as maiores investidas contra o Governo, nesta última semana, tenham vindo de dentro do PS. Críticas a ministros, pedidos de remodelação, insinuações sobre o efeito positivo que seria o afastamento de José Sócrates, de tudo vimos um pouco. É um sinal dos tempos, da constatação do falhanço, da descrença na resolução dos problemas e, sobretudo, um claro aviso que a contagem decrescente para a noite das facas longas no Largo do Rato já começou. A lavagem da roupa suja socialista na praça pública vai chegar mais longe e vai agudizar-se à medida que as lutas pelo poder interno crescerem – é inevitável, faz parte da história das conspirações.


 


É engraçado ver como, embora muitos critiquem, poucos são os que se chegam à frente, dispostos a assumirem responsabilidades, temerosos do caos em que o Governo deixou o país cair. É curioso ver como a conjuntura torna António Costa desinteressado do poder e o leva a vaticinar apoio a Francisco Assis, baralhando assim as contas a António José Seguro. Os políticos calculistas sabem bem os riscos de pegar agora neste caldeirão, e deixarão sempre que outros avancem para queimarem as mãos a tirarem o país do braseiro. Os próximos meses vão ser de confusão e seguramente que, como escreveu Fernando Sobral, o grande problema que nesta altura deve ocupar o pensamento de muitos dirigentes do PS é que solução hão-de arranjar para José Sócrates aceitar sair de cena em recato. 


 


DICIONÁRIO DE SINÓNIMOS


Descrença : Teixeira dos Santos


 


 


ARCO DA VELHA


 Era uma vez um funcionário do PS, de 26 anos, que rescindiu, por mútuo acordo, o contrato com o seu patronato, neste caso um partido político. Passou a receber o subsídio de desemprego e depois recebeu 41.000 euros de subsídios do Instituto de Emprego e Formação Profissional, para a criação de uma empresa e do seu posto de trabalho. Já depois disto foi contratado como assessor na Câmara Municipal de Lisboa por uma vereadora do PS, tendo passado a receber 3950 euros mensais. Falta dizer que pelo meio foi candidato, derrotado, a uma junta de freguesia de Lisboa, à qual estava ligada a vereadora que o contratou, pela lista patrocinada pelo seu anterior empregador. Confuso? Não, apenas um exemplo de alguém com bons relacionamentos.


 


FOLHEAR


A mais recente edição da revista «Monocle» é dedicada às empresas de origem familiar, como são geridas, o que funciona bem, quais os problemas que surgem. É um tema muito curioso e actual e a abordagem da revista é interessante. Por exemplo é engraçado ler a história do império editorial e mediático da família Bonnier na Suécia, tanto mais que Snu Abecassis tinha ligações a essa família. O tema das empresas familiares tem vindo a ganhar actualidade e a revista mostra como a presença de um dono, e não apenas de accionistas, às vezes pode fazer a diferença. Algumas empresas portuguesas bem podiam ler esta edição com atenção.


 


LER 


 Stephen Hawking tornou-se conhecido pela forma genial como consegue abordar as mais complexas questões da física, facilitando a sua compreensão. Agora, com Leonard Mlodinow,  publicou «The Grand Design – New Answers To The Ultimate Questions Of Life». Apetece dizer que este livro foi escrito para dar resposta às perguntas que surgem sempre quando se começa a falar das origens da vida e do universo. É um livro aliciante, das obras de ciência mas fascinantes que li. Não apetece largar – é como um bom romance. Em 200 páginas «The Grand Design» traça um panorama bastante completo do Universo e do que é o nosso lugar nesta imensidão. De forma precisa, mas acessível, Stephen Hawking e Leonard Mlodinow levam-nos a encontrar respostas para as nossas dúvidas, fazendo de cada capítulo do livro uma narrativa diferente que, no final se complementam. (Bantam Press, na Amazon)


 


VER


Já se conhecia o interesse de António Barreto pela fotografia – nomeadamente como coleccionador. Também já se sabia que ele próprio há muitos anos registava imagens do seu dia-a-dia, e quem as conhecia dizia que tinha um olhar surpreendente. Agora, finalmente dispôs-se a expô-las publicamente, de maneira dupla. Editou, na Relógio de água, um álbum que recolhe 227 fotografias suas, igualmente expostas na Galeria Corrente d’Arte, avenida D. Carlos I, nº 109, em Lisboa. São fotografias feitas em vários países e vários locais de Portugal, entre 1967 e 2010, todas a preto e branco, todas com enquadramentos rigorosos, muitas a apontarem os instantes decisivos de que Cartier-Bresson falava com frequência. António Barreto, já agora, é fundador e Presidente da Associação Portuguesa de Photographia. Excertos do  texto «Ler Fotografia»,  de Angela Camila-Castelo Branco, publicado no livro, e diversas fotografias feitas por António Barreto podem ser vistas em www.apphotographia.blogspot.com .


 


OUVIR


 Em 1962 o trio de Vince Guaraldi gravava um dos primeiros discos que fazia a fusão entre o jazz e o samba. O álbum chamava-se «Jazz Impressions Of Black Orpheus» e incluía um tema que rapidamente ganhou vida própria - «Cast Your Fate To The Wind», um caso raro de uma faixa instrumental, de jazz, editada em single, e que altura foi um grande êxito popular. Mais tarde foi usada como banda sonora da série de animação baseada na banda desenhada Charlie Brown. A Universal Music fez agora, na etiqueta Concord, uma edição remasterizada digitalmente do álbum original,  que inclui 5 faixas extras inéditas, provenientes da sessão de gravação original. Os temas brasileiros  escolhidos por Vince Guaraldi eram clássicos do samba que faziam parte da banda sonora do filme «Orfeu Negro», de 1959, baseado numa peça teatral de Vinicius de Moraes, banda sonora composta por António Carlos Jobim, aqui representada pelos temas «Samba de Orfeu», «Manhã de Carnaval» e «O Nosso Amor». As interpretações do trio de Vince Guaraldi são arrebatadoras e este é um daqueles discos que, mesmo ouvido a quase 50 anos de distância, continua a ser incontornável.


 


PROVAR  


No local onde anteriormente existia o restaurante Bachus, na esquina da Rua da Misericórdia com o Largo da Trindade, está agora o Bistro 100 Maneiras, uma nova área de actuação do chefe Ljubomir Stanisic, um bósnio que há uns anos está em Portugal e que é responsável pelo já clássico 100 Maneiras. Aqui as propostas são diferentes, há uma lista apelativa que inclui maravilhas de entradas como cascas de batata com ervas aromáticas e uma curiosa secção «para Corajosos» onde está um invulgar «Maranhos como tu gostas», na verdade um delicioso arroz de maranhos enrolado como uma torta e fatiado grosso, e ainda um curioso pica pau que na realidade é uma taça de túbaros, bem bons por sinal. Para coisas mais substanciais recomendo as  Bochechas e porco preto, puré de aipo, espargos e cogumelos shitakke. Nos doces o crumble de figo com gelado liquida os mais estóicos. O serviço é atencioso e vistoso, o apoio do escanção à escolha dos vinhos é muito bom (aquele rapaz ainda vai dar que falar), pena é que garças ao efeito pladur a sala fique um bocado barulhenta. Preço médio de 40 euros por pessoa sem devaneios demasiados.


 


BACK TO BASICS –  Só os superficiais são conhecidos e só os medíocres são populares - Oscar Wilde 

novembro 16, 2010

ASSAPANDO

Este espaço não é de publicidade, mas não resisto a contar como sou fã do SAPO. É uma coisa antiga, confesso. Eu acho que devemos ter orgulho nas nossas empresas que funcionam bem. E o SAPO é uma das grandes marcas portuguesas, tecnologicamente evoluída, tecnicamente muito boa e com uma dinâmica especial – como se pôde ver no final da semana passada em mais uma edição do Codebits, um evento que juntou sete centenas de pessoas, a maior parte delas bem jovens, durante três dias, para entrarem em concursos de ideias, apresentação de projectos e desafios tecnológicos diversos.


 


Um dos participantes, já presença frequente no Codebits (que se realiza anualmente), dizia-me que o esforço de pôr de pé aquela iniciativa deve ser grande (em termos de custos e em termos de pessoas envolvidas), mas o resultado é compensador. Toda a gente que lá vai aprende qualquer coisa, conhece outras pessoas. No Codebits o SAPO rastreia talentos, observa tendências, eventualmente estuda comportamentos. Ouve feed-backs dos utilizadores mais exigentes – os geeks fanáticos por jogos, programação e pelo mundo digital.


 


Vou aqui recordar um pouco de história: o SAPO teve origem na Universidade de Aveiro, em Setembro de 1995, e o seu nome surgiu a partir da sigla SAP – serviço de Apontadores Portugueses. Em Abril de 1999 o SAPO , já nas mãos da empresa Saber & Lazer, foi renovado e tornou-se no primeiro portal de língua portuguesa. Pouco tempo depois, em Setembro do mesmo ano, a PT Multimedia adquiriu a maioria do capital e o SAPO começou o seu percurso a uma outra escala. Sobreviveu à crise de 2001 e tornou-se na marca de internet da PT.


 


O encontro Codebits, que foi a razão desta pequena história, realiza-se desde 2007 e tem sempre vindo a ter importância crescente. E este ano, no arranque do Codebits, o SAPO estreou-se noutra área e apresentou o seu primeiro telemóvel, com um sistema operativo Android. Numa altura em que tudo são más notícias resolvi dedicar esta minha coluna ao SAPO porque ele é um bom exemplo das nossas capacidades.  E da importância de não ficarmos de braços cruzados á espera que alguém resolva a crise por nós.


 


 

novembro 12, 2010

A Esquina do Rio de 12 de Novembro

ALERTA 


A mais forte tomada de posição sobre a situação a que chegou o país veio, inesperadamente, da assembleia plenária dos bispos portugueses. No discurso de abertura do encontro sublinharam: «não podemos deixar de evidenciar a nossa perplexidade pela falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública e pela ausência de vontade de solucionar os desafios actuais» . Ao mesmo tempo denunciaram «a inverdade frequentemente resultante de querelas pessoais e de jogos político-partidários pouco transparentes que aprisionam os líderes aos interesses instalados nas estruturas público-privadas». E mais à frente: «A verdade é um imperativo colocado a todos, é um acto de honestidade, sobretudo ao nível dos centros de decisão dos diversos cargos».


 


Ora nestas palavras simples e fortes reside o busílis da nossa vida recente. Discute-se muito o Orçamento e a aprovação do Orçamento – mas o que verdadeiramente é mais importante é a sua execução, é a forma como se controla e reduz a despesa. E a experiência destes últimos anos é feita de mentiras dos centros de decisão, de negação da realidade, de adiamento de decisões.


 


A resolução dos problemas portugueses, parece-me, não está na inexistência de um plano, mas na falta de vontade e coragem em executar medidas que todos já sabemos quais são. Se o Orçamento de 2011 não for executado, como não foi o de 2010 e os PECs que já foram devorados, então tudo ficará muito fora de controlo.


 


Por isso, olhando para o que se passa à nossa volta, encaro com desconfiança que a mesma equipa que não conseguiu garantir a execução de medidas anteriores, seja agora capaz de o fazer. Duvido que quem negou as evidências decida agora falar com verdade. Mais cedo ou mais tarde vamos ser confrontados com isto: aceitamos continuar a ser atirados para o abismo pelos mesmos? Ou, como dizem os Bispos, «o sentido de responsabilidade pública e de participação na vida democrática exigirá líderes com propostas novas e sérias que visem promover a equidade e a coesão da sociedade portuguesa»?


 


ARCO DA VELHA


Paulo Campos, Secretário de Estado das Obras Públicas, nomeou para a Administração dos CTT dois ex-sócios seus numa empresa apropriadamente chamada «Puro Prazer», entretanto dissolvida.


 


FOLHEAR 


O mais interessante livro publicado nos últimos tempos chama-se «Como o Estado Gere O Nosso Dinheiro», do juiz jubilado Carlos Moreno, onde o autor defende a responsabilização de quem gasta e utiliza abusivamente dinheiros públicos.


 


IR


Vale cada vez mais a pena ir a Madrid. A cidade está magnífica e apesar da crise (quase cinco milhões de desempregados – praticamente a população activa de Portugal…) tudo funciona. Os taxistas são bem dispostos e educados, nos bares de tapas há animação ao fim de tarde, os preços são simpáticos e a animação é garantida. A uma hora de avião a coisa é tentadora, mesmo com os crónicos atrasos da Easy Jet. Mas voltemos a Madrid: toda a zona central , da Atocha à Gran Via está soberba, completamente recuperada, com a estação pronta para a Alta Velocidade, as ruas cheias de gente mesmo ao fim de semana, um contraste enorme com Lisboa. O renovado Mercado de S. Miguel, muito perto da Plaza Mayor,  é um exemplo do que se pode fazer, bem feito, na recuperação de um espaço tradicional de um velho mercado, para um sítio animadíssimo de tapas, copos e compras onde há de tudo para todos os gostos em matéria de comida e bebida. Já agora – quando estive, há duas semanas, em Madrid, decorria uma Mostra Portuguesa (de programação discutível) e escassa divulgação, e em duas galerias privadas existiam exposições de artistas portugueses – uma de Helena Almeida e outra de Pedro Calapez, ambas com boas referências de imprensa.


 


OBSERVAR


Há menos de 20 anos toda a zona central de Madrid pouco mais tinha que os grandes armazéns, alguns restaurantes e os monumentos. Há 20 anos não existiam ainda nem o Museu Rainha Sofia nem o Museu Thyssen-Bornemiza (foram ambos inaugurados em 1992). Mas hoje o triângulo dos Museus agrupa o Prado, renovado (uma bela exposição de Renoir), o Thyssen (onde estão fotografias de Mario Testino) e o Reina Sofia, entretanto ampliado em 2006 por Jean Nouvel numa bela e eficaz intervenção arquitectónica (e onde está uma fantástica e supreendente exposição de Hans Peter Feldman) – isto claro, falando apenas de exposições temporárias, para além das respectivas colecções permanentes. Mas a dois passos deste triângulo está a Fundação La Caja e a Fundação MAPFRE – esta com uma bela mostra de arte americana do século XX, da Colecção Philips. Tudo está cheio de gente - espanhóis, estrangeiros também, numa festa permanente que nem os chuviscos de Outono arrefecem. É nestas alturas que me ponho a pensar em Lisboa e vejo como fomos falhando oportunidades, fazendo coisas sem plano, desbaratando recursos (como o Pavilhão de Portugal), espalhando as coisas em vez de as concentrar. Há 20 anos Madrid não tinha nada disto e hoje tem uma zona central recuperada, contenção de novas construções, equilíbrio estético, investimento na cultura como dinamizadora do turismo, obras emblemáticas de grandes arquitectos.


 


VER


A exposição de Hans Peter Feldman no Museu Rainha Sofia, de Madrid, tem um título singelo : «Uma exposição de arte». Lá dentro estão fotografias, instalações de objectos, colecções pessoais, fotocópias, capas de jornais. Mas, em todas elas, há uma ideia, uma ideia criativa. Uma das salas mais impressionantes é a «9/12», onde  estão expostas mais de centena e meia de capas de jornais de todo o mundo, todas do dia 12 de Setembro de 2001 – o atentado às Torres Gémeas visto do mundo inteiro (e lá estão jornais portugueses como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias o Público, e a extinta capital, entre outros). A sala é devastadora, a ideia é violenta, o resultado é um abanão nas nossas memórias. Nascido perto de Dusseldorf em 1941, Feldman baseia a sua actividade num espírito coleccionista que é patente nas suas séries de imagens fotográficas, mas também na fascinante instalação «Shadow Play», baseada em peças em movimento num ambiente de sombras chinesas. Só para ver esta exposição vale a pena ir a Madrid.


 


OUVIR


O contrabaixista Charlie Haden juntou de novo o seu Quartet West  (com Ernie Watts no sax tenor, Alan Broadbent no piano e Rodney Green na bteria), juntou-lhe seis vozes femininas contemporâneas (bem escolhidas) e fez uma colecção de 12 standards em torno de um tema clássico de Duke Ellington, «Sophisticated Ladies».  De certa forma este disco é um regresso à ideia de um anterior álbum de Haden e seu quarteto, «The Art Of The Song»,  igualmente dedicado a grandes canções e também com uma voz feminina, Shirley Horn. Desta vez as senhoras que dão a voz neste disco são Cassandra Wilson, Diana Krall, Melody Gardot, Norah Jones, Renée Fleming e Ruth Cameron. A qualidade da interpretação musical e dos arranjos é exemplar e gostaria de destacar o trabalho de Melody Gardot em «If I’m Lucky», a contenção de Norah Jones em «Ill Wind» e sobretudo a forma como Cassandra Wilson pegou numa letra inédita de Johnny Mercer para «Always Say Goodbye» e criou uma preciosidade. CD Emarcy, disponível em Portugal.


 


PROVAR


Se gosta de cozinha indiana e oriental e não sabe onde pode adquirir os adequados temperos, tenho uma boa notícia para si – já não precisa de ir ao Martim Moniz,  na Avenida Visconde de Valmor, no quarteirão entre a Avenida da República e a 5 de Outubro, abriu uma loja especializada, Ayur. Lá encontra especiarias diversas (e raridades como sementes de funcho, folhas de caril ou pasta de Tamarindo), especiarias goesas pré-preparadas, congelados, aperitivos, chá, doces e mesmo, a partir do próximo mês, comida feita para levar para casa. O casal que gere a loja é muito simpático e ajuda a escolher os produtos dando boas sugestões. Mais informações em www.ayur.com.pt .


 


BACK TO BASICS


O meu grande problema é fazer conciliar os meus hábitos em matéria de gastos com a realidade dos meus rendimentos – Errol Flynn 


 

MENOS ESTADO, MENOS GASTOS

(Publicado no Metro de 9 de Novembro)


 


Durante quase uma semana estive fora do país. Lá fui seguindo o que se passava graças às edições on line dos nossos jornais . Estive numa reunião, sobre o mercado publicitário, onde estavam duas dezenas de países representados – alguns deles da Europa de Leste. Nós e os gregos fomos os mais apreensivos. Os Irlandeses começam a levantar a cabeça e na generalidade dos outros territórios existe a sensação de que o pior já passou.


 


Eu gostava de sentir o mesmo , mas não consigo. Vejo toda a gente hesitante em relação às decisões a tomar. Vejo os orçamentos a decrescerem, vejo alterações muito rápidas no consumo de conteúdos e de informação. O mercado retrai-se.


 


O Orçamento que foi aprovado é apenas um mapa e uma declaração de intenções – muito mais importante é ver como ele poderá ser executado. Basta aliás ver o que aconteceu ao longo deste ano – o Orçamento era muito bonito em teoria mas a sua execução foi tão catastrófica que acelerou a queda do nosso país e a paralisia da economia.


 


O ponto que verdadeiramente interessa é ver como as linhas gerais agora são executadas. Ver se o Governo consegue fazer descer a despesa, ver se é sincero nos esforços de contenção anunciados, ver se é realista nas opções sobre os grandes investimentos.


 


Nesta reunião onde estive, a propósito dos incentivos dados por vários Estados aos grandes bancos e ao fomento de grandes obras públicas, ouvi uma curiosa opinião que me pôs a pensar:  ter-se-ia gasto menos dinheiro e conseguido maiores resultados na economia, se, em vez de subsídios a fundo perdido, fosse revista a política fiscal, por forma a permitir o nascimento e desenvolvimento de pequenas e médias empresas, que fossem mais competitivas graças à fiscalidade, reduzida, e que criariam maior emprego, proporcionariam maior consumo e dinamizariam mais a economia. No fundo trata-se de diminuir a despesa pública, permitindo assim diminuir a receita fiscal e em simultâneo proporcionar maior desenvolvimento fora da esfera do Estado.


 

A Esquina do Rio, de 5 de Novembro

HERANÇA 


Escrevo terça-feira à noite, depois de assistir a resumos do dia parlamentar. Se não tivesse visto, não acreditaria. Ninguém, em seu perfeito juízo, que olhasse para o que se passou no Parlamento, poderia achar que existia, firmado a menos de 72 horas, um acordo sobre o Orçamento de Estado. Se Louçã fez o que lhe competia, procurando tirar vantagens do facto de o Orçamento passar graças à abstenção do PSD, já se compreende menos que o próprio Sócrates se tenha dado ao desplante de atacar o seu parceiro de negociação, precisamente por ter negociado e por ter procurado ser discreto na negocição.


 


Estava sentado a ver o resumo de imagens, olhava para a cara de Sócrates e para as as suas afirmações, dos seus ministros e dos seus parlamenteres, e dei comigo a pensar que o ambiente entre os pilotos kamikaze japoneses não devia ser muito diferente. Se exceptuarmos a questão da honra e do patriotismo, que os kamikaze japoneses tinham, o comportamento de Sócrates é igual apenas em matéria de vontade suicida.


 


Procura ansiosamente o fim, procura provocá-lo - esta negociação, em boa parte, foi contra os seus planos:  No seu íntimo teria preferido romper e conseguir uma saída aparentemente honrosa para a situação.


 


Nestas últimas semanas acho que Sócrates se imaginou a conseguir seguir a tendência exportadora de alguns recentes ex-primeiro ministros portugueses: Guterres foi para ass Nações Unidas, Durão Barroso para  a Comissão Europeia, ele talvez se imaginasse nalgum cargo internacional de Atletismo, ligado ao jogging e às meias maratonas – a mais não poderia aspirar embora, no fundo, o seu sonho fosse ser um Al Gore europeu a fazer powerpoints filmados sobre as energias renováveis.


 


Olho para o que se passou nestes últimos dias e vejo um rasto de mentiras, por parte do Governo, em todo este processo negocial. Numa negociação destas quem tem de mostrar boa fé é quem tem o objecto de negociação na mão – o Orçamento. Ora foi eaxactamente isso que não se viu - o Governo nunca esteve, aparentemente, de boa fé. Teixeira dos Santos poderá ser um homem sério, mas em todo este processo não foi essa a imagem que transmitiu.


 


Estamos autenticamente em clima de fim de festa, rufam já os tambores de eleições no horizonte. Olhamos para o futuro e vemos o que Sócrates nos deixa:  um país pior, uma economia destruída, um clima de corrupção generelizado, a desconfiança dos cidadãos em relação ao Estado. Em suma, a receita para que a participação eleitoral seja menor, para que as pessoas participem menos nas grandes decisões. A imagem que


Sócrates pretende fazer passar - de infalível e insusbtituível -  ajuda muito pouco a que as novas gerações olhem para a política com, vontade. À sua volta só vêem mentira, demagogia, engano.


 


Se Sócrates cumprir o mandato legislativo até ao fim há uma geração que irá votar pela primeira vez depois de quinze anos de desgoverno de Guterres e Sócrates. Um a geração que usos Magalhães, mas que tem uma economia destruída, finanças púnblicas caóticas e possibilidade de emprego compatível com as qualificações muito difícil. É uma pesada herança. Mas é o que Sócrates levará às costas quando sair.


 


 


RESUMO DA SEMANA


Em matéria de Orçamento, Sócrates, primeiro, empatou as negociações; a seguir Sócrates engoliu as negociações; depois, Sócrates atacou as negociações.


 


ARCO DA VELHA


O processo Facer Oculta começa cada vez mais a ter caras visíveis: depois de Armando Vara, eis que Mário Lino também surge no processo. Segundo a acusação o ex-Ministro das Obras Públicas, uma das mais ridículas e penosas figuras da governação socrática, terá intercedido a favor de Godinho, procurando avolumar-lhe as negociatas, sob o argumento de que o empresário seria um «amigo do PS». Bem sei que é uma piada um bocado secante e que o homem, no fundo, é um sucateiro  - mas com amigos destes, quem precisa de inimigos?


 


REGISTO


Cavaco Silva, no twitter, no primeiro dia do debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado em que o PS acusou o PSD de ter vergonha do acordo que fez, disse vewr “com muita apreensão o desprestígio da classe política e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates”.


 


PERGUNTA


O que é feito da Ministra da Cultura e da política cultural?


 


FOLHEAR  


A edição de Novembro da revista Vanity Fair é dedicada aos diários secretos de Marilyn Monroe, ou seja, à maneira como ela encarava os Kennedys, os seus maridos e amantes e as preocupações que a atormentavam. Mas esta belíssima edição daquela que muitos consideram ser A REVISTA por excelência, tem também uma curiosa entrevista com o princípe Carlos de Edimburgo e um artigo que bem podia ser intitulado o Watergate parisense, sobre as ligações de Liliane Bettencourt, a herdeira da L’Oreal, com o Presidente Sarkozy. Picante, atrevida e aliciante – é esta a imagem de marca da Vanity Fair, uma indispensávelleitura todos os meses. Como bónus, nesta edição, a mostra, em primeira mão para os leitores da revista, das aventuras de David Hockney com o aplicção Brushes para o iPad. Deliciosas. Alguma coisa de novo está a nascer.


 


OUVIR


O que eu gosto mais em Tricky é de ele dar a ideia de que trabalha para que os ouvites da sua música se sintam parte da aventura dos sons, do ambientes, do espírito nómada e irrequieto que anima os seus discos. Desde que  se fez notado nos Massive Attack, e, depois, quando começou a sua carreira a solo, Tricky tem persistentemente explorado a capacidade de produzir sonoridades que percorrem os rimos e os ritos do encantamento. Umas vezes não consegue atingir os seus objectivos e noutras, felizmente, como acontece neste «Mixed Race», acerta em pleno no alvo. Em 2008 Tricky fez um album chamado «Knowle West Boy», que surgia um pouco como o seu regresso às origens. Este novo «Mixed Race» tem pouco mais de meia hora, as canções raramente passam os três minutes, as faixas são envolventes e intensas. Não era preciso mais tempo. É a medida certa para um grande disco. (Tricky, Mixed Race, CD Dominico)


 


PROVAR


O local é muito simpático – literalmente em cima do Tejo, no Cais do Sodré, fica mesmo ao lado do Bar do Rio. A esplanada, desde que não chova, nestes dias simpáticos de Outono, é uma possibilidade. O Ibo tem uma inspiração moçambicana, bem expressa na carta. Mas para quem não quer arriscar nessa aventura (e faz mal), tem atractivos europeus – até nos belos bifes. A decoração é sóbria, contemporânea e confortável, o serviço tenta ser atento e a cozinha é verdadeirtamente a boa razão de conhcer esta casa. Eu submeti-me com gosto ao caril de caranguejo desfeito, um prato de confecção fabulosa, com origens em Moçambique. Desta safra há mais propostas, na carta. Se quiser uma coisa mais, digamos, ocidental, prove os impecáveis filetes de polvo com arroz de feijão manteiga, ou, as vieiras salteadas com açafrão. Remate a refeição com banana crocante, acompanhada de gelado. Se conseguir peça uma mesa no primeiro andar, do lado do rio. A vista é de cortar a respiração. Pena que as obras de António Costa tenham estragado tanto a envolvente deste restarurante. Merecia bem melhor. IBO,  telefone 21 342 36 11, fica no


Armazém A, compartimento 2, Cais do Sodré, logo a seguir á estação de combois. Encerra Dopmingo ao jantar e segunda-feira todo o dia.


 


BACK TO BASICS


Ser contra o aumento de impostos é o único combate intelectual susceptível de trazer alguma recompensa – John Maynard Keynes.

novembro 02, 2010

O PIÁSSABA

(publicado no Jornal metro de 2 de Novembro)


 


Caros leitores. Proponho-vos que adiram ao movimento «Um piássaba para António Costa». Eu sou o primeiro aderente e já tenho o meu piassaba para entregar nos Paços do Concelho. É o mínimo que eu posso fazer. Vejam bem: percebo que existe crise, sei que a Câmara tem dificuldades (por isso é que aplica a taxa do subsolo à conta do gás…), e por isso mesmo, antes que me imponham uma taxa nova sobre a sola dos sapatos, comprei um belíssimo piássaba de cerdas amarelas na drogaria aqui do bairro.


 


A minha lógica é esta – se para tomar banho com água quente o Costa me impõe uma taxa, então para ter os pés secos e evitar que as sarjetas entupidas alaguem as ruas, ainda me vai fazer pagar uma taxa maior. De maneira, que bem vistas as coisas, resolvi lançar este movimento. Se formos muitos a alinhar nos piássabas, António Costa receberá ferramenta suficiente para poder evitar que se repitam as cenas de sexta-feira passada.


 


Eu, por mim, gosto das ruas assim mais ou menos sem enxurradas. Eu imagino que será pedir muito – mas também me parece que se podia fazer um esforço. Por isso me lembrei deste movimento, pode ser que ajude a limpar as sarjetas. Não me lembro, em anos da minha vida, de ver a Avenida da Liberdade transformada num ribeiro, nem um Rossio num lago. Certo, certo, é que qualquer dia temos que comprar um bote para podermos circular em Lisboa em dias de chuva.


 


Eu até percebo que pode existir aí a ideia de que importar os canais de Veneza para Lisboa pode fazer aumentar o fluxo de turismo dos países de Oriente. Estou mesmo a ver turismos japoneses em barcos de borracha com a marca Cityrama. Mas sinceramente acho é que tudo isto é desleixo, facilitismo, falta de trabalho e falta de previsão – enfim, aquilo que é o dia a dia da cidade de Lisboa nas mãos de António Costa.


 

outubro 27, 2010

JÁ ME ESTÃO A IR AO BOLSO

Aqui há cerca de um ano os eleitores de Lisboa foram a votos e António Costa foi o vencedor, por reduzida margem aliás. Fez uma campanha essencialmente pró-governamental:  por exemplo defendia que a terceira ponte tivesse utilização automóvel, trazendo mais carros para a cidade; defendia que o aeroporto saísse da Portela; defendia o contrato do novo terminal de contentores de Alcântara. Nenhuma destas medidas era favorável para a cidade, todas pioravam a qualidade de vida dos seus habitantes.


 


No geral António Costa associou-se, na sua campanha, aos projectos de grandes obras públicas, e à transformação da cidade. O maior sinal desta transformação, nestes seus anos à frente da Câmara, está plantado no feio deserto em que o Terreiro do Paço foi transformado e no funcionamento da EMEL  (abusivo e lesivo dos habitantes da cidade) e ineficaz nos resultados alcançados – quem não se lembra da promessa do fim do estacionamento em dupla fila, já lá vão quase três anos?


 


António Costa prometeu muito durante a sua campanha eleitoral, mas tem cumprido muito pouco do que tem prometido. Curiosamente, uma coisa que ele não prometeu, mas que foi rápido a fazer, foi ir ainda mais ao bolso dos lisboetas . Na semana passada os moradores de Lisboa começaram a receber nas facturas de gás a cobrança de uma taxa de ocupação de subsolo. Quer dizer, a Câmara resolveu cobrar a utilização do subsolo pela empresa que faz a distribuição do gás. Os consumidores já pagam o serviço que recebem – mas agora têm também de pagar à Câmara para poderem ter gás canalizado em casa.


 


Quem vive em Lisboa, quem aqui paga IRS, eventualmente IMI e IMT, quem paga as taxas de instalação e revisão do gás (com os abusos que se conhecem…), quem paga a própria factura do fornecimento, tem agora que pagar mais uma taxa. Aqui está o que é a governação de António Costa – ir-nos ao bolso logo que arranja pretexto. Assim se promove o repovoamento de Lisboa.

Crise & Companhia

PSD – Na página 2 do «Correio da Manhã» do passado dia 19 vinha um artigo de Ângelo Correia com o discreto título «O Orçamento de 2011», onde o autor escrevia: «O PSD deve pois abster-se e nem negociar com o PS. Por experiência própria sabe-se que não se negoceia com quem não tem boa fé e, sobretudo, deseja o voto contra de Passos Coelho. O que p PS quer é fugir e é isso que não podemos consentir». Na mesma data em que o artigo foi publicado decorreu, à noite, um Conselho Nacional do PSD de onde saíram uma série de pressupostos negociais considerados necessários pelos social-democratas para, abstendo-se, viabilizarem o orçamento. Na prática a direcção do PSD fez ouvidos de mercador à sugestão de Ângelo Correia e avançou com uma plataforma para negociação. Ora acontece que desde sempre Passos Coelho foi considerado como muito próximo de Ângelo Correia, com quem trabalhou anos, e que, objectivamente o apoiou na campanha para conquistar a liderança do PSD. O «i», perspicaz, leu o artigo do «Correio da Manhã» e foi falar com Ângelo Correia. O resultado foi uma manchete que dizia: «PSD dividido - Ângelo Correia corta com Passos Coelho». Na peça do diário é citada uma declaração de Ângelo Correia que classifica de «inutilidade» a estratégia decidida por Passos Coelho.


 


Claro que tudo isto pode apenas ser uma tempestade num copo de água – mas pode igualmente ser um sinal do acentuar de divergências em relação à estratégia de Passos Coelho em toda esta questão orçamental e do PEC. O que é certo é que, pela primeira vez desde que assumiu a liderança do PSD, verifica-se uma clivagem no núcleo duro de Passos Coelho. Fora do núcleo duro, nas últimas semanas, multiplicaram-se manifestações de desagrado pela forma como a direcção social-democrata tem gerido todo o processo.


A expectativa sobre o desenrolar da situação, agora que a votação do OE foi adiada para os primeiros dias de Novembro, é grande. Passos Coelho pôs-se mais uma vez na posição de continuar a admitir a possibilidade de votar contra o Orçamento. Há quem defenda, dentro do PS, que não ceder ao PSD e provocar um voto contra – com todas as consequências que isso trará – vai lançar o ónus de provocador do caos sobre o PSD e Passos Coelho. Estamos como num jogo de futebol arriscado – prognóstico só no final do jogo. Mas a verdade é que não se percebe, em termos políticos e em termos de comunicação, a estratégia da equipa de Passos Coelho. E a questão de saber se não seria mais eficaz deixar ficar o PS com o ónus dos disparates orçamentais cometidos e prometidos vai voltar a colocar-se. O grande problema, o maior problema, é o facto de mais uma vez – depois do PEC, depois da questão da Revisão da Constituição - o PSD aparecer hesitante, com posição indefinida durante demasiado tempo, a tornar evidentes contradições internas. Com esta clivagem pública de Ângelo Correia abre-se uma nova fase na complicada vida interna dos social-democratas. Está aberto o processo de uma nova crise e não há-de faltar muito para começarmos a assistir a novas contagens de espingardas.


 


ROUBO - Esta semana os munícipes de Lisboa começaram a receber nas contas do gás a cobrança de uma taxa de ocupação de subsolo. Quer dizer – quem vive em Lisboa, quem aqui paga IRS, eventualmente IMI e IMT, quem paga as taxas de instalação e revisão do gás (com os abusos que se conhecem…), quem paga a própria factura do fornecimento, tem agora que pagar mais uma taxa. Regulamentada a jeito pelo Governo, a nova taxa é uma forma de assalto à mão armada de que algumas autarquias se socorrem para contornar a diminuição das transferências do Estado ou para garantirem aumentos de receitas. Esta nova taxa é um abuso, é um absurdo, é um descaramento e, sobretudo, é  injusta e profundamente imoral. A taxa de ocupação do subsolo é um expediente de ladroagem pura e simples executada por quem aprova e põe em prática medidas destas. Pelos vistos é é assim que António Costa pretende repovoar a cidade.


 



NOTÍCIA – Costuma dizer-se que um cão morder um homem não é notícia, mas um homem morder um cão já o é. Sem desrespeito por ninguém, é o que aconteceu esta semana, quando foi Marcelo Rebelo de Sousa a informar da data do anúncio da candidatura à presidência de Cavaco Silva, antecipando-se ao próprio e gabando-se de um autêntico furo jornalístico em directo, na televisão. Para além da questão do absurdo tabu de Cavaco, toda esta história mostra outra coisa - tal como em algumas actividades económicas, em política, a falta de concorrência gera péssimos efeitos. É o que está a acontecer nas presidenciais .


 


ARCO DA VELHA – Muito ruidoso o silêncio de Manuel Alegre. O Bloco de Esquerda, que o propôs como candidato em primeiro lugar, já disse que vota contra o Orçamento. O PS, que depois veio também apoiá-lo, vai votar a favor. Fernando Nobre já disse que votaria contra, se fosse deputado. E Manuel Alegre está em parte incerta, evitando ter que falar. Para quem se dizia adepto da transparência é um quadro interessante de seguir. À hora a que escrevo, no seu site de candidatura não existe nem uma linha sobre o assunto e o título em destaque era: «Criar a energia necessária para uma nova esperança para Portugal». Pois….

SUGESTÕES

FOLHEAR Cada vez gosto mais de folhear a revista «The Atlantic», publicada em Washington. É uma revista sobre política, é claro, mas é também uma revista sobre o que se passa no nosso mudo, em termos de tendências, evolução de comportamentos, análise da sociedade. A edição de Outubro traz um belo artigo sobre os falhanços da geração dos Baby Boomers (os nascidos nos anos 60), uma curiosa análise da vice-presidência de Joe Biden, uma avaliação do trabalho de Schwarzenegger na Califórnia, para além de diversas colunas, e uma sempre actual selecção de livros. A edição on line é também excelente – e um case study de rentabilidade e modelo de negócio.


 



OUVIR – Para assinalar os seus 50 anos de vida musical, o guitarrista de jazz Lee Ritenour pôs de pé o projecto  «6 String Theory», chamando para o seu lado uma série de 20 guitarristas, desde John Scofield a George Benson, passando por Slash, BB King, Keb’ Mo, Robert Cray ou Andy McKee, entre outros. Discos deste género podem ser uma maçada, de exercícios virtuosos ou malabarismos sem sentido. Não é felizmente o caso – este CD é verdadeiramente uma delícia para todos os que gostam do som de uma guitarra de seis cordas a interpretar temas clássicos da música popular norte-americana. (CD Concord).


 




VER – Duas exposições bem diferentes que vale a pena visitar: na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, até 19 de Novembro) uma evocação da obra de Fernando Calhau, intitulada «Deserto»; e, noutro registo, no Instituto Português de Fotografia (Rua da Ilha Terceira, 31 A )o fotógrafo Valter Vinagre (do colectivo Kameraphoto) apresenta uma série de fotografias feitas na escola do Chapitô sobre o universo do circo, intitulada «Paixão».


 



PROVAR – Já não ía à Vela Latina há algum tempo, mas esta semana tive ocasião de me penalizar por não frequentar este restaurante mais vezes. Comi um excelente pregado frito com um arroz de grelos perfeito e ao meu lado invejei uns ovos mexidos com cogumelos. O serviço continua afectuoso, a carta é extensa em propostas culinárias e em vinhos, a localização é boa, no terraço (coberto) pode fumar-se e o bar continua simpático. Doca do Bom Sucesso, telefone 213017118.


 



BACK TO BASICS – A conversação erudita é a pose do ignorante ou a ocupação do homem mentalmente desocupado – Óscar Wilde

outubro 21, 2010

UM TRISTE DILEMA

Dei comigo a pensar que já tinha ouvido muita gente comentar a proposta de Orçamento de Estado para 2011, mas ainda não sei o que Manuel Alegre pensa sobre o assunto. Fui ao sítio oficial da candidatura e esbarrei numa espécie de exercício de ilusionismo político. Passo a explicar: lá só estão boas notícias, inaugurações de sede de campanha, relatos de apoios, manifestações de simpatia. Quem lá entrar não vislumbra crise em Portugal nem sequer sabe que anda tudo a falar sobre o Orçamento de Estado.


 


O candidato Fernando Nobre fez questão, no sábado passado, de declarar que se fosse deputado votaria contra este orçamento. Manuel Alegre continua silencioso, mais uma vez a ver se a tempestade passa. Manuel Alegre está num dilema: de um lado é apoiado pelo Bloco de Esquerda, que vai votar contra o orçamento; do outro é o candidato oficial do Partido Socialista, que propõe o orçamento e obviamente se baterá por ele. No meio fica Alegre, perdido na confusão ideológica que o caracteriza, espartilhado entre compromissos, empurrões e apoios, e sem poder dizer grande coisa evitando irritar uma das partes.


 


A política faz-se de posições sobre questões concretas. Faz-se de um programa claro, baseado em factos, medidas, objectivos. Um candidato presidencial tem que saber analisar a realidade e agir em função disso. Precisamente é isso que Manuel Alegre, por mais de uma vez, se mostra incapaz de fazer. É muito difícil querer agradar simultaneamente ao endeusado Sócrates e ao diabolizado Louçã.


Tudo isto é curioso porque até há pouco tempo Alegre acusava Cavaco de ser demasiado conivente com compromissos e de manter silêncios habilidosos – de ser pouco frontal e transparente, em suma. Vai-se a ver e é o próprio Alegre que agora está enredado numa teia tão densa que é tudo menos transparente, tudo menos frontal. Este episódio tem pelo menos uma vantagem: mostra que a candidatura de Alegre não tem programa e não tem coerência.


 

outubro 15, 2010

LUGARES COMUNS

Os dias, agora podem começar aqui

SOBRE A CRISE DA IMPRENSA

Olho para a imprensa em Portugal com preocupação. Este ano as estimativas indicam que o valor do investimento publicitário nos jornais diários generalistas vai ser menor que o investimento publicitário em canais de televisão por subscrição (cabo e satélite), menor que o investimento em rádio e muito semelhante ao do investimento em internet e meios digitais. Isto quer dizer que a imprensa está a perder simultaneamente competitividade e capacidade de atracção dos grandes investimentos publicitários geridos por agências. Ao mesmo tempo o declínio de vendas em banca da maior parte dos jornais diários generalistas é acentuado, com excepção do «Correio da Manhã». Jornais especializados, como este «Jornal de Negócios», mantém os seus leitores e até consegue reforçá-los – sem dúvida porque fala do que interessa à sua audiência e selecciona bem os temas que desenvolve. Já muitos jornais diários parecem mais preocupados com os gostos e interesses pessoais dos seus jornalistas do que com trabalhar aquilo que pode fazer aumentar o número de leitores.


 


Aquilo que a imprensa vende não é apenas espaço de publicidade, é a capacidade de comunicação com os seus leitores – o número de contactos que permite -  e é, também, a qualidade dos seus leitores. Se o número de leitores diminui, é evidente que fazer publicidade num determinado título se torna menos apelativo.


 


Do meu ponto de vista a maioria da imprensa diária está a ser penalizada por um movimento conjugado de diminuição da qualidade dos seus conteúdos e pela falta de adequação de conteúdos aos alvos que interessam Alguma imprensa diária colocou-se a ela própria numa situação de quase marginalidade, tratando mais temas de interesse minoritário do que assuntos que estabeleçam relação com os leitores.


É assustador pensar que hoje os jornais diários generalistas são em menor número do que no dia 24 de Abril de 1974, mas sobretudo têm dezenas de milhares de leitores a menos. Algures os jornais diários divorciaram-se do público e o fenómeno é anterior às edições digitais.


 


Por via de regra a maioria dos jornais diários, sobretudo os ditos de referência, abordam poucos temas portugueses, para além da política. Uma comparação com os principais jornais de referência de outros países mostra um menor número de notícias nacionais em temas como sociedade e comportamento, uma menor cobertura de áreas como a saúde e a educação, uma muito deficiente cobertura do noticiário local e regional que garantem leitores de proximidade.


 


Os jornais anglo-saxónicos, por exemplo, frequentemente fazem reportagens sobre um grande tema de garantida proximidade com os leitores, reportagens essas que são divididas por sucessivas edições diárias, quase em género folhetim, culminando depois em dossieres especiais ou portfolios relacionados com o tema nas suas revistas de domingo. Os leitores sentem-se compelidos a seguir a história, a ver os seus vários ângulos de abordagem e, sobretudo, porque os temas são bem escolhidos e têm um enfoque local, regional ou nacional, conseguem estabelecer uma relação de utilidade com o que estão a ler.


 


Um dos jornais de referência de Lisboa publicou recentemente uma série alongada de boas reportagens sobre o ambiente que se vive em aldeias mexicanas por causa dos cartéis da droga. Bem escritas, as reportagens tinham um fio condutor. Mas o mesmo jornal não publica há meses – talvez há anos – reportagens assim estruturadas sobre situações existentes em Portugal – feitas com aqueles meios, com aquele espaço de paginação, com aquela qualidade de escrita. Se o tema tivesse uma capacidade de ligação maior a leitores portugueses e se fosse bem promovido, talvez o jornal tivesse outros resultados de venda e de receitas comerciais – e sem necessidade de fazer maiores investimentos.


 


A questão do marketing dos jornais ganha, neste contexto, particular importância. Nos últimos anos os jornais têm apostado sobretudo o seu marketing na venda de produtos associados (CD’s, DVD’s, livros, brindes diversos). Essas campanhas provocam algum aumento de receita, provocam aumento pontual da circulação ( e são muito eficazes quando coincidem com o trabalho de campo da recolha de dados dos estudos de audiência da imprensa). Mas o marketing de conteúdo, que se tem mostrado eficaz nos canais de cabo e na rádio, por exemplo, quase não é utilizado na imprensa. – no fundo porque muita imprensa tem desprezado a qualidade dos seus conteúdos e a sua adequação aos seus públicos-alvo.


 


Os media só são bons suportes publicitários quando conseguem entregar a capacidade de comunicação com as audiências. E as audiências são movidas por conteúdos que lhes interessem. Eu acho que o problema de muita da imprensa portuguesa é que se esqueceu desta questão básica.

PARA OS GRAFOLOGISTAS POTENCIAIS

A revista «Egoísta» fez um delicioso número especial, extra-série, de formato reduzido, quase um livro,  a partir de um espólio de manuscritos que inclui cartas de nomes como José Régio, Fernando Pessoa, António Botto, Amadeo de Souza Cardoso e Santa-Rita Pintor, entre outros. A análise grafológica dos manuscritos e considerações gerais sobre o tema estão a cargo de Alberto Vaz da Silva, um reputado especialista no assunto.


 


O resultado é uma edição deliciosa e de colecção que merece ser guardada. Paginação excelente, textos aliciantes (os dos manuscritos e a sua interpretação). Ou seja, a revelação do ser através do seu escrever, como bem sublinha Mário Assis Ferreira, que dirige a «Egoísta».

PARA OUVIR NO GÉNERO COUNTRY MADE IN LED ZEPPELIN

Robert Plant fez carreira nos Led Zeppelin mas as suas aventuras musicais mais recentes revelam uma inesperada frescura e uma criatividade surpreendente. «Band Of Joy» é o seu mais recente registo e vai buscar o nome a uma banda de tendência psicadélica que Plant liderou ainda antes dos Led Zeppelin.


 


O disco tem uma sonoridade claramente country, que lhe é dada pelo propdutor Buddy Miller. A selecção de temas é eclética e vai de originais de Richard Thompson a clássicos de Lightin’ Hopkins, e Jimmie Rodgers, até ao rock de Los Lobos ou de Townes Van Zandt. A voz de Patty Griffin ajuda Robert Plant, mas é indiscutivelmente a ele que se devem atribuir os louros por este belíssimo disco. (CD Decca, Amazon)


 

PROVAR O MATTOS

As lulas à Mattos são o prato forte da casa – forte e bem temperado, a exigir calma e sossego posteriores. Mas as ofertas de peixe e carne grelhada como os secretos de porco preto ou as costeletinhas de borrego também fazem parte dos ex-libris da casa, que fica bem perto da Avenida de Roma, junto ao teatro Maria Matos. Já agora cabe aqui elogiar as batatas fritas, cortadas em palitos fininhos, de boa batata e boa fritura, e que são um verdadeiro pecado.


 


A garrafeira é cuidada e actual, a freguesia gosta de cozinha portuguesa e de doces conventuais – que são a guloseima do local. De modo que não é invulgar ver no local alguns clientes com, digamos, algum excesso de peso – mas com ar feliz e bem disposto. Rua Bulhão pato 2ª, telefone 218483924, encerra aos Domingos.

ARCO DA VELHA

Segunda feira passada a RTP liderou as audiências, bateu SIC e TVI, e não transmitiu futebol. O bom resultado foi-lhe dado pelos resultados do «Prós e Contras» desse dia, dedicado à crise, segundo os três ex-Presidentes da República: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.


 


 Eanes foi o mais lúcido ao dizer : «Dá impressão que os Governos têm medo da sociedade civil e por isso escondem a verdade». Enfim, não é medo da sociedade civil, é mais medo de perderem votos. Mas no fundo foi o único com coragem para afirmar: «Devíamos ter tido só um PEC, ousado, arrojado e justo». De qualquer forma as boas audiências destas figuras mostram o velho sebastianismo português.


 

BACK TO BASICS

 


A indiferença pela coisa pública leva a que sejamos governados por má gente - Platão


 


 

outubro 14, 2010

UM JOGO DE XADREZ

A situação política portuguesa está a ficar perigosamente parecida com um jogo de xadrez em que os jogadores resolveram aplicar as regras do poker e movem as peças fazendo estranhos movimentos de “bluff”.  O PSD entra com vários jogadores, que fazem movimentos dispersos, às vezes contraditórios e algumas vezes confusos. O Governo mantém a pressão e tenta não abrir brechas. Por cima, o Presidente da República sente-se irrequieto e incomodado com as complicações surgidas em cima de termo de mandato, preocupado em saber quando, no meio desta tormenta, arranjará espaço para anunciar a recandidatura que é o tabu mais idiota do país. O outro candidato presidencial já desistiu de colocar peças no tabuleiro porque a última coisa que pretende é ser chamado a comentar as medidas do PS no Governo. E, finalmente, Paulo Portas está inusitadamente sossegado, espreitando por cima dos ombros dos jogadores, para ver se surge um momento em que ele possa pegar numa peça e fazer um movimento que o coloque na posição de poder ser ele a gritar “xeque-mate”.


Os efeitos da crise na imprensa e nos comentadores também são curiosos – um jornal anunciava este fim de semana a data de demissão do primeiro Ministro, os editoriais e comentários falam todos sobre o mesmo assunto – incluindo este. O país está obcecado pela crise e Passos Coelho está enredado no seu próprio tabu – se vota contra, ou se se abstém, deixando, neste caso, passar o Orçamento.  Aposto que no seu íntimo Sócrates gostaria que o Orçamento fosse chumbado – isso permitiria que se vitimizasse, encontraria uma forma airosa de responsabilizar outros pela situação e tentaria ainda sobreviver. A ele, agora como nos últimos anos, pouco importa a situação do País. Ele conhecia os perigos que corria com as medidas que foi tomando – mas sabia que elas lhe compravam votos e apoios. Sócrates é apenas movido pelos seus objectivos pessoais, pelo Poder e pelo seu agudo instinto de sobrevivência. Se o País fosse uma preocupação para ele, há muito que teria percebido o que tinha de ser mudado.

O ALEGRE AUSENTE

Manuel Alegre foi o único candidato já anunciado às próximas eleições presidenciais que não esteve nas comemorações oficiais do Centenário da República, na Praça do Município, em Lisboa. A versão oficial diz que ele esteve em Loures e no Barreiro, onde a República terá sido proclamada ainda antes de Lisboa. A evidência no entanto é que Manuel Alegre preferiu ir para locais onde não corresse o risco de ser confrontado com a pergunta: «que acha das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo?». Se tivesse ido à Praça do Município, Manuel Alegre teria que falar aos jornais,às estações de rádio, ás estações de televisão. Seria impossível continuar com o silêncio, algo covarde, atrás do qual se tem escondido desde que Sócrates anunciou que ía mesmo ter que fazer cortes sérios. A atitude de Manuel Alegre, a forma como se esconde, diz muito sobre a sua frontalidade, sobre a sua tranaparência e, sobretudo mostra a enorme clivagem, que se há-de acentuar ainda mais, entre as medidas que o PS toma e o que o candidato propagandeia. Manuel Alegre tenta o equilíbrio entre os seus dois apoiantes – PS e Bloco de Esquerda – mas a única coisa que consegue é esconder-se.