outubro 14, 2010

UM JOGO DE XADREZ

A situação política portuguesa está a ficar perigosamente parecida com um jogo de xadrez em que os jogadores resolveram aplicar as regras do poker e movem as peças fazendo estranhos movimentos de “bluff”.  O PSD entra com vários jogadores, que fazem movimentos dispersos, às vezes contraditórios e algumas vezes confusos. O Governo mantém a pressão e tenta não abrir brechas. Por cima, o Presidente da República sente-se irrequieto e incomodado com as complicações surgidas em cima de termo de mandato, preocupado em saber quando, no meio desta tormenta, arranjará espaço para anunciar a recandidatura que é o tabu mais idiota do país. O outro candidato presidencial já desistiu de colocar peças no tabuleiro porque a última coisa que pretende é ser chamado a comentar as medidas do PS no Governo. E, finalmente, Paulo Portas está inusitadamente sossegado, espreitando por cima dos ombros dos jogadores, para ver se surge um momento em que ele possa pegar numa peça e fazer um movimento que o coloque na posição de poder ser ele a gritar “xeque-mate”.


Os efeitos da crise na imprensa e nos comentadores também são curiosos – um jornal anunciava este fim de semana a data de demissão do primeiro Ministro, os editoriais e comentários falam todos sobre o mesmo assunto – incluindo este. O país está obcecado pela crise e Passos Coelho está enredado no seu próprio tabu – se vota contra, ou se se abstém, deixando, neste caso, passar o Orçamento.  Aposto que no seu íntimo Sócrates gostaria que o Orçamento fosse chumbado – isso permitiria que se vitimizasse, encontraria uma forma airosa de responsabilizar outros pela situação e tentaria ainda sobreviver. A ele, agora como nos últimos anos, pouco importa a situação do País. Ele conhecia os perigos que corria com as medidas que foi tomando – mas sabia que elas lhe compravam votos e apoios. Sócrates é apenas movido pelos seus objectivos pessoais, pelo Poder e pelo seu agudo instinto de sobrevivência. Se o País fosse uma preocupação para ele, há muito que teria percebido o que tinha de ser mudado.