agosto 23, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Agosto)

 


LISBOA -Este ano o trânsito nas entradas e saídas de Lisboa diminuíu menos do que é costume nos meses de Agosto. A cidade tem menos gente e está mais inactiva – apesar da quantidade de turistas que se vêem em todo o lado.  A programação  de actividades de entretenimento tem outra vez maior incidência em Junho e Julho – às vezes demais – e de menos em Agosto. A cidade – a sua Câmara e os organismos a ela ligados – preferem ir de ferias no mês quente e esquecem quem fica – ou visita – a cidade. O Terreiro do Paço é um deserto deplorável que nestes dias de calor parece um grelhador. Uma praça lindíssima apresenta-se como um vazio inóspito e insuportável, fruto de incompetências variadas e do eterno deixa andar desta autarquia. A programação das actividades na cidade podia ter em conta as modificaç\oes da sua população residente e visitante – mas não faz isso por puro desleixo ou, admito, por crassa incompetência. Mesmo aquilo que existe e vale a pena conhecer está mal divulgado – a actividade de comunicação e de publicidade das entidades públicas é um exemplo de como se estraga muitas vezes o bom trabalho de concepção e programação por falta de ousadia e aposta em mostrar de facto o que existe. Lisboa tem em numerosas instituições coisas a acontecer que ficam apenas para os iniciados – o desprezo pela captação de públicos é sistemático. Ninguém perceberá que assim o investimento de produção é deitado ao lixo? Que se investiu a pôr de pé iniciativas que depois não são publicitadas devidamente?


 


PARIS - Durante este ano cerca de 20 filmes estrangeiros estão a ser rodados em Paris e a isto devem ser acrescentadas algumas séries de televisão. O facto não se deve às belezas da cidade nem à elegância dos seus habitantes. A resposta é simples: incentivos fiscais. A FilmCommission local conseguiu um desconto de 20 por cento nos impostos aplicáveis – à semelhança do que existe em algumas outras cidades europeias. Paris conseguiu assim tornar-se tão competitiva que este ano decorrrerão filmagens em 330 dias, gerando uma facturação de 100 milhões de euros em técnicos e empresas especializadas locais. O objectivo dos responsáveis é conseguir atingir 200 milhões de facturação nas equipas e empresas locais por parte dos produtores estrangeiros. A isto devem acrescentar-se todas as facturações realizadas em hoteis e restaurantes, que nem sequer são contabilizadas para este efeito. Quando dentro de meses o realizador francês Luc Besson inaugurar o seu novo estúdio de grandes dimensões, Paris ficará, em termos de facilidades técnicas, em pé de igualdade com Londres ou Berlim. Para o registo é bom que fique ditto que em Portugal tem sido sempre impossível de montar uma Film Commission que tenha para oferecer incentivos fiscais porque nos últimos 25 anos todos os titulares dos Ministérios das Finanças recusaram sequer discutir esse assunto.  Já agora Portugal tem a melhor luz, o melhor clima e tinha (porque entretanto algumas se desfizeram) grandes equipas técnicas. Portugal – e Lisboa em particular – tinha tudo para poder ser um polo de atracção para produções internacionais. Só não tem visao – na Câmara e no Governo.


 


 


ESTRANHO – De tudo o que se vai lendo e sabendo a actuação de Cândida Almeida no processo Freeport merecia ser investigada. Com os dados que existem é lícito questionar se ela manipulou e condicionou as investigações, se o fez por razões políticas, se escolheu esse caminho por instruções governamentais ou por simpatias pessoais. Cândida Almeida colocou-se a ela, e pior ainda, à justiça, na posição de não ser credível e de ser suspeita de parcialidade no seu juízo.


PETISCAR – Nestes dias quentes, se estiver em Lisboa, aventire-se ao Lumiar, perto da Alameda das Linhas de Torrres, e vá experimentar o restaurante Quinta dos Frades. A sala é acolhedora e bem fresca, o serviço é absolutamente impecável e a orientação culinária é do chefe Chakall. Destaque positivo para a qualidade do serviço dos vinhos, com os tintos à temperatura perfeita para esta altura do ano.


Num destes dias ao almoço resolvi experimentar o Bife Amália, um belo pedaço de lombo, competentemente temperado e confeccionado, serviço com um ovo de codorniz a cavalo, um pouco de presunto de boa qualidade, esparregado belíssimo e umas batatas épicas. Durante o mês de Agosto há uma oferta de degustação de champagne Gosset, acompanhado por umas tapas soberbas.  No fim a conta não é pequena, mas tendo em conta a qualidade geral, é ajustada. O Quinta dos Frades fica na Rua Luis de Freitas Branco 5D, telefone 21 759 89m80, tem área para fumadores e informações complementares em www.quintadosfrades.com


 


DESCOBRIR – A edição de verão da Monocle deixou o seu formato habitual e é um belo jornal, de 64 páginas, em bom papel, dedicado ao Mediterrâneo. Tyler Brulé, o fundador e editor da Monocle, explica que tomou a decisão de fazer ium jornal para as pessoas o poderem levar para a praia ou a piscineasem medo de lhe cair água em cima. É convenientemente agrafado, tem numerosos artigos de interesse, de sugestões de visita até gastronomia (receitas incluídas) ou até memorias históricas dos vícios das civilizações mediterrânicas. Tyler Brulé diz que com esta edição se consegue fazer o que é imposssível com um iPad – lê-lo em qualquer local ao sol, dentro de água, sem medo de estragar nada. Pelo menos ele merece um elogio pela forma como nesta época digital se agarra ao papel de jornal.


 


LER – Kjell Askildsen é um escritor norueguês que se tornou conhecido pelos seus contos, curtos, minimalistas, cheios de humor e ironia. “Um Repentino Pensamento Libertador”, é uma recolha de contos de diversas épocas da sua carreira literária e é um livro absolutamente delicioso para ler nestes dias quentes. Uma dúzia de contos, cada um deles com dez a 15 páginas, todas as histórias deliciosas. Lê-se um conto entre dois mergulhos, e vai-se para o mar sorridente.


 


OUVIR – Wynton Marsalis convidou Paco de Lucia para embarcar com ele numa experiência, partilhada com a Orquestra Jazz At The Lincoln Center , baseada na exploração das possibilidades de cruzamento do jazz com música tradicional espanhola , do flamenco ao folklore basco. Claro que podemos pensar que “Sketeches of Spain”de Miles Davis teve alguma influência nesta experiência, mas a verdade é que este “Vitoria Suite” é um disco arrebatador e um exempçlo de que o jazz continua a estar aberto a fazer experio~encias. Duplo CD com um DVD suplementar – 2Vitoria Suite”, Jazz At Lincoln Center, with Wynton Marsalis, featuring Paco de Lucia” Edição Universal/ Emarcy, na FNAC.


 


ARCO DA VELHA –nPinto da Costa defende Carlos Queiroz; O PS vai expulsar uma centena de militantes por actos praticados nas ultimas eleições; Documentos sobre o Freeeport em que aparece o nome de José Sócrates não estão no processo e encontram-se no cofre da PJ de Setubal.


 


BACK TO BASICS –  A Europa foi criada pela História; a América pela filosofia – Margaret Thatcher


 


 

agosto 06, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 6 de Agosto)

BANANAS - Em pleno ano das comemorações do centenário da regime republicano devo aqui agradecer ao Procurador-Geral Pinto Monteiro o facto de ter demonstrado cabalmente que, afinal, somos uma República das Bananas. Agora, apropriadamente, pode dizer-se que vivemos sem rei nem roque. A entrevista que o Procurador-Geral deu esta semana é elucidativa da degeneração do sistema judicial – na realidade depois desta entrevista, e sem exagerar, percebe-se que estamos perigosamente em vias de deixar de ser um Estado de Direito.


Os problemas na Procuradoria vêm de longe e são anteriores a Pinto Monteiro. Tudo o que ele descreve na referida entrevista pode ser repescado ao longo dos anos – as guerras internas de poder e de protagonismo, as fugas selectivas de informação, os conflitos com a Polícia Judiciária, a politização da justiça e a judicialização da política. Na realidade a Procuradoria tem servido para tudo isto, tem sido uma espécie de viveiro de atentados ao Estado de Direito, de desrespeito pelos cidadãos. Como se pode resumir o que tem acontecido ao longo dos anos? -  investigações longuíssimas, muitas vezes espalhafatosas demais, que numa percentagem acima do que é aceitável resultam em quase nada. O efeito disto é simples: descredibiliza a justiça, faz os cidadãos ficarem mais desconfiados e torna evidente que por detrás de tudo isto há jogos de poder e manobras políticas. Arrisco-me a dizer que este caso ainda pode vir a abrir uma crise política de contornos e consequências imprevisíveis. Num momento em que todos os actores do regime tinham decidido entrar em pausa na sucessão de crisezinhas que desde as últimas eleições marcam a política portuguesa, esta caso traz para primeiro plano a absoluta falência do sistema judicial e as interferências da política na magistratura e vice-versa. O Primeiro Ministro veio-se gabar do fim do processo Freeport. Falou cedo demais, como agora se comprova.


 


CLIENTE – Ser cliente em Portugal, de empresas em regime prático de monopólio, é uma grande maçada. Nesta semana tive ocasião de sentir a atenção que a EDP dedica aos seus estimados clientes. Por volta das cinco e meia da tarde fiquei sem energia eléctrica em casa. Do número de atendimento das avarias disseram-me que existia um corte de energia naquela zona, devido a um problema num posto de transformação, onde já estava um piquete. Afirmaram que cerca das 19h00 contavam ter a avaria resolvida. Na realidade nada disso aconteceu e, a partir de cerca das 21h30, já noite portanto, tornou-se impossível contactar o número de informações sobre avarias – um número que é anunciado estar disponível 24 horas por dia. Fiz numerosas tentativas que esbarraram sempre numa gravação  do género «este número não pode de momento ser contactado». Já passava das 23h30 quando a energia eléctrica finalmente voltou. A avaria durou sensivelmente seis horas, um terço das quais sem possibilidade de obter informação, três vezes mais que o tempo inicial estimado de reparação. Tweettei diversas vezes sobre o assunto e, um dos comentários de resposta dizia isto: o grande problema é que uma boa parte dos postos de transformação já devia ter sido substituído face aos aumentos de consumo, só que o plano de renovação é tímido para não influenciar negativamente os resultados da empresa. Pois, assim a opção é prejudicar os consumidores… Cá para mim o regulador do sector também devia analisar estas questões – forma de atender os clientes, estado de conservação dos equipamentos, exigências de cumprimento de horários e dos deveres de fornecedor.


 


CONTEÚDOS – Todas as empresas de media que se queixam de quebras em publicidade deviam olhar com cuidado para os conteúdos que estão a produzir. Todas as empresas que editam imprensa deviam pensar que os seus clientes são de facto, em primeiro lugar, os leitores e assinantes e não os anunciantes. A frase não é minha, é de Charles Townsend, CEO da Condé Nast, um dos maiores editores americanos de revistas que explicava como a missão do novo presidente da empresa, Robert Sauerberg, é fazer com que a empresa dependa menos das receitas de publicidade e mais das vendas de banca, das assinaturas digitais e, em geral, da venda de conteúdos. Os leitores são a razão de ser das publicações. Parece óbvio mas às vezes não se liga muito ao assunto.


EVITAR – O restaurante do Clube de Jornalistas dispõe de um agradável jardim , protegido do vento, que é o ideal para jantares nestas noites quentes de Lisboa. Animado e bem disposto avancei rumo ao local, de que me diziam dispor agora de uma cozinha interessante. De facto a cozinha é interessante, embora não esplendorosa. Se o balanço da noite se medisse penas pelo local e pela confecção culinária o resultado seria nota 3 num máximo de 5 e a coisa teria sido simpática. O problema é que o serviço de mesa é cada vez mais parte importante de uma refeição e esse, ali deixa muito a desejar. Comecei a suspeitar que as coisas não iriam correr bem quando percebi que o vinho não era deixado na mesa, mas sim colocado a uma considerável distância – esta finura só é possível quando existem empregados muito atentos e experientes, senão mais vale deixar o vinho convenientemente colocado junto aos comensais. A culpa não será dos jovens, certamente estagiários – os copos não eram adequados ao vinho em causa, uma nova garrafa entretanto pedida era diferente da original e encontrava-se a uma temperatura impossível. Tudo isto poderia evitar-se se os responsáveis do restaurante estivessem atentos à sala e às operações e instruíssem os estagiários. De forma que aquilo que prometia ser uma agradável noite de conversa com amigos ficou estragada pelo mau serviço. Como agora tweeto quando me aborreço, logo recebi várias mensagens a confirmar que naquele local o serviço, de facto, é para esquecer. É uma pena – o cozinheiro merecia melhor sorte. Clube de Jornalistas, Ruya das Trinas 129, telef 213977138.

LER  – Por perfeito acaso descobri uma revista sobre música que é um verdadeiro achado. Chama-se «The Believer», uma publicação originária de São Francisco. Na edição de Julho/Agosto estava incluindo um CD com uma compilação de novas bandas, desde os sul africanos BLK JKS, até rappers como Spree Wilson ou exercícios em torno da soul, dos Tendaberry e até M.I.A, por estes dias no Sudoeste. O disco vale mesmo a pena e só por si justifica a compra da revista – que por cá está á venda a 17,50€. Além do disco, outros motivos de interesse: um belo artigo sobre os diários de Nina Simone com algumas revelações curiosas, uma entrevista com Robert Forster, ex-Go-Betweens, vários artigos sobre cultura urbana e uma coluna de Nick Hornby com sugestões de leitura. Podem ter uma ideia digital da coisa em www.believermag.com e entretanto já reparei que a revista apareceu à venda noutros pontos seleccionados especializados em revistas estrangeiras.

VER – Vale a pena descobrir os cruzamentos de Andy Warhol com a imagem fotoigrafada e filmada e, em particular, com a televisão – desde filmes que ele produziu e realizou, até um episódio da série «Love Boat» em que foi actor, passando por um videclip dos Cars ou a sua passagem pelo histórico programa «Saturday Night Live». A exposição está bem montada, é ao mesmo tempo divertida e informativa e, no fundo mostra como ele era um artista do seu tempo. Um grande e descomplexado artista pop. «Warhol TV», até 14 de Novembro, no Museu Berardo, CCB.


 


ARCO DA VELHA – O PSD caiu cerca de dez por cento em duas recentes sondagens. Será que os líderes do partido vão começar a fazer propostas em função dos resultados de estudos de opinião?


 


BACK TO BASICS – As sondagens são uma colecção de estatísticas que mostram como as pessoas realmente pensam – Stephen Colbert

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de Julho)

INCERTEZAS – Neste país tudo parece incerto. Nada é dado por adquirido. Os políticos dizem uma coisa num dia e negam tudo no dia seguinte. A incoerência e a incerteza andam de mãos dadas na cartilha que os políticos aprenderam e que usam no dia a dia. A mentira tornou-se parte da relação entre políticos e cidadãos – o rol é imenso desde promessas eleitorais não cumpridas a anúncios de medidas que nunca se cumprem, passando por zigue zagues permanentes. A realidade portuguesa dos últimos anos podia sintetizar-se assim: tudo é incerto, a única coisa certa é que Sócrates, para mal dos nossos pecados, lá continua a piorar as nossas incertezas.


A nossa justiça é incerta – é tão demorada que quando termina qualquer coisa fica sempre uma desconfortável sensação de incerteza, de desconfiança. O Freeport demorou cinco anos a instruir porque teve pressões e foi manobrado, ou só porque a máquina judicial é uma porcaria? O julgamento da Casa Pia tinha mesmo que demorar cinco anos, ou foi assim para diluir as coisas no tempo?


Os nossos impostos são incertos – se a inflação fosse medida com base no aumento da carga fiscal estávamos a rebentar a escala.


A nossa produção de bens essenciais é incerta e estranha – vejam os dados estatísticos do que importamos e espantem-se em como de repente importamos tudo e mais alguma coisa em termos agrícolas – até alhos.


Aos poucos estamos a deixar de ser um país e estabelecemo-nos como mero entreposto. A incerteza não podia ser maior.


 


ESPANTO – Foi com total perplexidade que assisti ao empenho do Ministro Jorge Lacão no anúncio da criação de um canal de televisão lusófono, feito em parceria com o Brasil e com outros países, envolvendo os respectivos serviços públicos. O homem saberá do que está a falar? Imaginará a camisa de onze varas em que se coloca? Terá alguma noção do caldeirão esquizofrénico que esse hipotético canal será? No primeiro semestre deste ano a RTP recebeu a títulos diversos do Estado 142 milhões de euros, já para não falar do que cobrou nas contas da EDP aos cidadãos. O Ministro acha que isto é pouco e quer colocar ainda mais dinheiro neste sorvedouro? O Ministro achará normal colocar mais comunicação na dependência do Estado? Alguém pode explicar ao Ministro que, para defender a lusofonia, em matéria audiovisual, é mais importante promover e estimular conteúdos audiovisuais interessantes, na área do documentário e da ficção, do que financiar plataformas de distribuição de duvidosa eficácia e discutível oportunidade?


 


 


VER – A exposição retrospectiva de Ana Vidigal, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, é absolutamente imperdível. Com uma montagem muito conseguida, que permite seguir a evolução do trabalho da artista ao longo do tempo, «menina Limpa, Menina Suja», assim se chama a exposição, é um bom exemplo daquilo que se deve fazer com os artistas portugueses, por forma a divulgar a sua obra. Isabel Carlos, que agora dirige o CAM, entrou com o pé direito e com um resultado de uma força invulgar. Cheia de referências pessoais, relacionadas com o contexto da história recente portuguesa, a obra de Ana Vidigal, percebe-se bem aqui, é um belo retrato das últimas quatro décadas portuguesas. NO CAM até 26 de Setembro


 


PERCORRER – Fazer uma exposição de veículos antigos pode não ter grande graça – ou pode ser um pretexto para um exercício criativo. Foi isto que a equipa do MUDE conseguiu de forma exemplar. A partir da colecção de scooters de um particular, João Seixas, que para o efeito a cedeu ao Museu, foi feita uma montagem exemplar. No primeiro andar do MUDE a exposição foi montada com base numa cenografia que evoca as estradas e o movimento. A colecção, mostra a evolução das scooters, por marca e nacionalidade, entre o fim da Segunda Guerra e os anos 70. Não pensem que isto é só Vespas: há de tudo, desde as históricas e potentes NSU e Heinkel, passando pelas Lambrettas ou pela muito portuguesa Carina. São dezenas de scooters, impecavelmente restauradas e todas em ordem de marcha. O MUDE teve o cuidado de fazer acompanhar a evolução das máquinas ao longo do tempo por uma série de manequins com roupa desses anos, proveniente da colecção de Moda do Museu. O comissariado é do coleccionador João Seixas e de Pedro Teotónio Pereira, da equipa do MUDE, e o título da exposição, que estará patente até 24 de Outubro, é, «Lá Vai Ela, Formosa e Segura». Termino com uma citação de um poema de António Gedeão, de 1961, evocado no catálogo da exposição:  «voando para a praia, na estrada preta/ vai na brasa, de lambreta».


 


LER – Neste momento em que se fala da necessidade de reformar o Estado Social é particularmente útil ler o ensaio da autoria do historiador Luciano Amaral, «Economia Portuguesa – As Últimas Décadas», publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. São cerca de cem páginas onde se faz o retrato da evolução da economia portuguesa dos anos 50 até agora e se analisa com algum detalhe o estado providência e os reflexos no mercado de trabalho e na educação da situação geral económica do país. «Nos últimos dez anos, em comparação com os países mais ricos, perdemos um terço do caminho que havíamos recuperado até ao ano 2000». O livro está escrito de forma acessível e a experiência de Luciano Amaral na investigação da história da economia proporciona enquadramentos fundamentais. Uma leitura absolutamente indispensável no contexto em que estamos.


 


OUVIR –Um dos melhores discos da carreira do saxofonista Art Pepper foi gravado numa sessão de estúdio inesperada, pouco depois de ter saído da prisão por consumo de droga, e num período muito conturbado da sua vida. A gravação decorreu em 19 de Janeiro de 1957 e Pepper foi acompanhado por Red Garland no piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria, três músicos que na época tocavam regularmente com Miles Davis e que eram uma das melhores secções rítmicas da época – daí o nome do disco: «Art Pepper meets The Rhythm Section». Destaque para uma versão arrebatadora de um tema de Cole Porter, «You’d Be So Nice To Come Home To» e para os temas «Jazz Me Blues» e «Tin Tin Deo», onde se sente a extraordinária sintonia dos músicos. A reedição do disco está incluída na série «Original Jazz Classics Remasters» da Concord- Universal Music e aqui surge uma registo até agora inédito, feito na mesma sessão, do tema «The Man I Love». CD disponível na FNAC.


 


PETISCAR – É sempre um prazer regressar ao La Moneda, um restaurante que combina um ar «trendy», com uma cozinha e ambiente despretensioso e preços acessíveis. Desta vez optei pelo prato do dia, que eram filetes com molho de amêndoa, e que estavam  fantásticos de estaladiço e de sabor. A sobremesa foi um inusitado mas muito agradável gelado de manjericão e a acompanhar o vinho branco da casa, um belo arinto Casal D’Além. Tudo junto somou 12,75€. Rua da Moeda 1C, telefone 213 908 012.


 


ARCO DA VELHA – Apesar da contenção o troço Poceirão-Caia do TGV arranca afinal em Setembro, anunciou esta semana o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça.


 


BACK TO BASICS – O mais importante é nunca deixarmos de nos interrogarmos – Albert Einstein


 

julho 29, 2010

VELHA ARMADILHA


 




Com a devida vénia transcrevo o excelente artigo de Luciano Amaral no diário «Metro de Hoje» - onde explica como, no caso da Constituição, a direita portuguesa caíu numa velha armadilha:



«Uma semana bastou para acalmar o
fur
or causado pela proposta de revisão


constitucional do PSD. Mas talvez valha
a pena voltar a ela mais um bocadinho.
O PSD caiu, ou quis-nos fazer cair, na
velha armadilha da direita portuguesa:
atirar-se à Constituição. Cães de Pavlov há-os para
todos os gostos: assim como a esquerda ladra logo
a quem se propõe tocar na Constituição, a direita
não deixa de babar quando alguém diz que vai
mudar a Constituição. Mas atirar-se à Constituição
é a melhor maneira de mostrar atitude reformista
sem fazer grande coisa. As constituições têm muito
de valor histórico, cristalizando o momento da
redacção. A Constituição da Irlanda, por exemplo,
o país de sucesso com quem gostávamos de nos
comparar há uns anos, foi escrita “em Nome da
Santíssima Trindade, de Quem toda a autoridade
deriva”. E está cheia de “directivas sociais”, contra
a “exploração injusta” resultante da “livre competição”.
Isto para além de belos preceitos antiquados,
como o de que “a permanência da mulher no lar
contribui para o Bem Comum”. As constituições
ocidentais estão cheias de bizarrias históricas.
A Constituição da Noruega consagra a religião
Evangélica-Luterana como religião de Estado.
A da Dinamarca consagra a Igreja Luterana
Dinamarquesa como a igreja oficial. Embora ambos
os países sejam famosos pelos “Estados Sociais”,
as respectivas constituições são omissas a esse
respeito. A 21ª emenda à Constituição dos EUA proíbe
“o transporte e a importação de bebidas alcoólicas”.
Apesar de a nossa Constituição estabelecer que
estamos a “abrir caminho para uma sociedade socialista”,
somos dos países com menor proporção de
propriedade pública. E embora a Constituição seja
muito estrita na legislação laboral, temos um mercado
de trabalho bastante flexível (embora dual:
uns protegidos de tudo, outros pelo contrário). Atirar-
se à Constituição é fácil, porque nunca resulta
em nada. Difícil é mudar certos hábitos de governação
que conduziram ao ponto em que estamos.»


Luciano Amaral

julho 27, 2010

AS LEIS E A JUSTIÇA

(Publicado no jornal Metro de 27 de Julho)


 


A agenda política dos últimos dias tem sido dominada pela questão da eventual revisão da Constituição. A questão em si é um pouco bizantina porque, em bom rigor, não é necessário de facto mexer no texto constitucional para fazer uma série de coisas que se têm anunciado - as taxas moderadoras foram introduzidas no sector da saúde sem que a questão Constitucional se colocasse. Os exemplos são numerosos. As grandes reformas que são necessárias podem ser introduzidas amanhã – se existir vontade política para tal.


O que falta em Portugal não são Leis – o que falta é cumpri-las e fazê-las cumprir. A nossa legislação é numerosa, abundante e faz as delícias dos legisladores. Mas depois muita dela fica pelo caminho – ou porque não é regulamentada, ou porque fica esquecida, ou porque pura e simplesmente ignorar as leis é uma actividade tão frequente como elaborá-las.


Isto, é claro, revela o estado do país: a prioridade devia ser pôr o sistema a funcionar, o que quer dizer, de forma muito prosaica, pôr a justiça a funcionar. O nosso maior problema é que a justiça funciona muito mal e isso condiciona tudo. Os custos sociais e económicos do mau funcionamento da justiça são a factura mais pesada que temos pela frente.


Em vez de gastar energias a fazer novas leis, sugiro aos políticos que se concentrem em fazer funcionar o que existe - até porque seria um desafio curioso para eles: por uma vez mostrariam se são capazes de conseguirem fazer alguma coisa de concreto, por alguma vez teriam a oportunidade de fazer uma reforma visível, por uma vez nós, os eleitores, poderíamos ver se eles sabem de facto trabalhar e fazer ou se se limitam a falar. É que a situação do país deve-se muito ao facto de os políticos falarem muito mas concretizarem e fazerem muito pouco. Melhorem a justiça – ela está tão mal que não há-de ser muito difícil obter alguns resultados.


Falar da revisão Constitucional é um acto meramente simbólico. Tratar da reforma da justiça seria uma acção prática de enormes e rápidos efeitos.


 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Julho)

CONSTITUIÇÃO – O principal mérito do projecto de revisão constitucional que anda a ser preparado pelo PSD é o de ter colocado à discussão uma série de questões, algumas delicadas, não tendo medo de ser politicamente incorrecto e não fazendo o péssimo truque, habitual na política portuguesa, de só tomar as medidas polémicas ou falar da necessidade de fazer cortes ou reduções depois de eleições. Este é claramente um ponto a favor, como é também um ponto a favor a abertura da discussão sobre o que todos podemos esperar do Estado Social. Depois há questões, do ponto de vista da reforma do sistema político, em que não se entende bem a prioridade estabelecida, relativa às competências do Presidente da República. Fazia mais sentido, acho eu, debater questões como o funcionamento do sistema partidário, a reforma das eleições para tentar maior participação (por exemplo facilitando candidaturas independentes),  e uma abordagem séria das actualizações impostas pela evolução enorme de comunicação e das novas  possibilidades de participação desenvolvidas tecnologicamente nos últimos dez anos. Faz-me impressão que se encare como imutável o papel dos partidos e dos seus aparelhos e que se trave a abertura da política e da participação cívica a independentes – de que os partidos apenas têm uma visão utilitária em véspera de eleições. E, claro, não se entende como se fala da educação e da saúde e não se aborda de frente a questão da degradação cada vez maior do funcionamento da justiça. Mas regressemos à questão das obrigações do Estado em matéria social – o sistema inevitavelmente tem de ser revisto: não é suportável pagar ainda mais impostos em nome de um modelo que penaliza as gerações futuras e que no fundo se está a deteriorar. E não se pode falar de diminuir o Estado Social sem mostrar que ao mesmo tempo descerão os impostos – se não for assim, ninguém percebe. Não é por acaso que são os arautos da brigada do reumático, que nunca fizeram contas e que são muito responsáveis pelo estado das finanças públicas, que aparecem a gritar contra as mudanças nestas áreas. Mas é também certo que a forma como foram comunicadas as propostas do PSD – a conta-gotas, de forma desconexa, parcelar, e muitas vezes incompleta, deram azo a que a gritaria dos que nunca querem mudar nada se amplificasse. A última coisa que a reforma do Estado social precisa é que se alimente uma frente unida da velha esquerda e que se comprometa o apoio da zona central do eleitorado ás mudanças necessárias. E este ressuscitar da frente unida de esquerda poderia ser evitado se o assunto fosse bem comunicado e de forma dirigida ao alvo mais interessado na mudança – todos os que começam agora a sua actividade profissional. Espero sinceramente que a má comunicação não comprometa as boas propostas e que haja ainda o bom senso de repensar o que é mesmo importante na reforma do sistema político-partidário.


 


CRISE – O episódio da Ministra do Emprego a anunciar o que não lhe competia é apenas o sinal mais recente do desnorte e descoordenação do executivo. A realidade é esta: o Governo não está a gerir a crise, está apenas a aumentá-la e, assim sendo, mais valia pensar se em matéria de instabilidade não será mais grave manter as coisas como estão ou procurar soluções alternativas. O pretexto da estabilidade, como os números e os factos mais recentes mostram, serve apenas para deteriorar ainda mais a situação. O Governo ziguezagueia – uma coisa é o que Teixeira dos Santos diz em Bruxelas, outra é o que Ministros avulsos vão prometendo pelo país às diversas corporações de interesses. E a nova batalha pelo “Estado Social” ainda vai fazer degradar mais as coisas.


 


VER – Se por estes dias passarem por Coimbra entrem no centro da cidade, no Pátio da Inquisição, e vão descobrir o Centro de Artes Visuais, uma das consequências dos Encontros de Fotografia de Coimbra, criados e dinamizados por Albano da Silva Pereira desde os anos 80. Durante o verão podem lá descobrir a exposição «Imaginário da Paisagem», montada a partir de fotografias da colecção do BES, de nomes como Gérard Castello Lopes, Andreas Gursky, John Baldessari, Josef Koudelka ou Nuno Cera, entre outros.


 


LER – Cada crise, para além das dificuldades que provoca, é também uma fonte de oportunidades, desde novos padrões de consumo, até à criação de novas formas de trabalho frequentemente inovadoras, passando por novas infraestruturas e uma reorganização do território em função do desenvolvimento de novas actividades – este é o ponto de partida para o novo livro do norte-americano Richard Florida, «The Great Reset – How New Ways Of Living And Working Drive Post-Crash Prosperity». Editado há poucos meses este livro bem que podia ser lido por vários políticos da praça. Como Richard Florida diz, « paremos de tratar os sintomas, deixemos de confundir nostalgia com solução». Edição Harper, na Amazon.


 


OUVIR – Ao longo da sua carreira Laurie Anderson tem sido cáustica com a América, e este é assumidamente um disco político, um disco motivado pela crise do subprime e pelo colapso financeiro que se seguiu. Anderson continua com um sentido de humor apurado, que se vê logo na capa do CD, com ela mascarada, a evocar o Chaplin de «Tempos Modernos». Mas, ao mesmo tempo, Laurie Anderson continua também musicalmente a arriscar e a experimentar, sempre com o seu violino como base, recorrendo à manipulação de sons electrónicos mas também aos instrumentos primitivos de um grupo de músicos étnicos e ao talento de produtor de Lou Reed, que é casado com Anderson. Das 12 faixas há, na minha opinião, duas que se distinguem: «Only An Expert», uma composição que agarra o ouvinte do princípio ao fim, e o épico «Another Day In America», envolvente, em crescendo. «Homeland» inclui ainda o DVD «The Story Of The Lark», que aborda o processo criativo da artista e deste disco em particular. CD e DVD Nonesuch, via Amazon.


 


PETISCAR – A nova Frutalmeidas nas Avenidas Novas, em Lisboa, tem espaço amplo mas a mesma qualidade nas grandes tradições da casa que há umas quatro dezenas de anos nasceu na Avenida de Roma: os pastéis de massa tenra, as empadas de galinha, as tartes de maçã e os sumos naturais. Redescobri o prazer daqueles pastéis de massa tenra há poucos dias quando fui experimentar esta nova loja, que fica na Rua Pedro Nunes 25, esquina com a Latino Coelho.


 


ARCO DA VELHA – Apesar dos PEC’s, promessas e juras de contenção, a despesa do Estado nos primeiros seis meses do ano cresceu 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado – em números redondos mais mil milhões de euros. Em política, o que parece é: aumentam os impostos e aumenta a receita, mas a despesa não diminui, em vez disso cresce. Chama-se a isto cavar ainda mais a crise.


 


BACK TO BASICS – Ganho algum dinheiro a criticar as políticas do Governo, e depois dou-lhe boa parte do que ganho em impostos para ele continuar a fazer o mesmo – George Bernard Shaw


 

julho 20, 2010

QUAL CRISE? - UM GOVERNO EM CRISE

(Publicado no diário Metro de 20 de Julho)


 


José Sócrates gosta de se iludir a si próprio e de iludir os outros: não se cansa de dizer alto e bom som que «o país precisa de tudo menos de uma crise política», mesmo quando ela está à sua frente. O grande problema é que os seus Ministros não acreditam no seu conselho e fazem tudo, mas mesmo tudo, para tornar a crise evidente.


Querem ver o que é sinal de crise? Enquanto o Ministro das Finanças se esforça para ver onde reduz a despesa, a Ministra da Cultura vem dizer que José Sócrates a deixa gastar sem fazer cortes; Mariano Gago, Ministro do Ensino Superior, garante que o Primeiro Ministro lhe prometeu não fazer passar as Universidades por apertos orçamentais; a Ministra do Trabalho anunciou por sua conta e risco que a Função Pública teria aumentos iguais à inflação; e o Ministro das Obras Públicas tornou-se o maior trapalhão do executivo, desdizendo-se a toda a hora sobre o romance das portagens e os grandes investimentos. Quando a coisa aperta todos eles se viram para o mesmo sítio – o Ministro das Finanças que se arranje para resolver o problema.


Nas últimas semanas tornou-se evidente que há duas políticas financeiras no Governo – a que o Ministro das Finanças explica a Bruxelas e aos mercados internacionais; e a que o Primeiro Ministro atribui aos seus Ministros, rateando promessas e mais promessas sem cuidar como as cumprir.


A realidade é que vivemos numa crise política que passa pelo facto de o Governo actual ter sido eleito com um programa que é o oposto daquele que está a colocar em prática. Os eleitores não votaram nestas políticas, votaram em promessas que foram já abandonada. José Sócrates foi eleito porque mentiu prometendo o que não podia cumprir, e fez isso porque está agarrado ao poder, que quer manter a todo o custo, mesmo chefiando um Governo cujos Ministros estão em roda livre e completamente desorientados. Na realidade este Governo deixou de ter legitimidade eleitoral. Ao PS resta convencer José Sócrates que o melhor será sair, precisamente em nome de resolver a crise política que se instalou.

julho 16, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 16 de Julho)

A BILHETEIRA – O novo Director Geral das Artes, soube-se por estes dias, vai também coordenar a rede dos cineteatros sem que se saiba exactamente o que isto quer dizer, já que estas salas estão na dependência das autarquias onde estão situadas. Mas neste sector existe, em geral, uma  questão que se prende com a forma como a bilheteira destas salas é maioritariamente encarada. Um dos grandes problemas que existe vem da grande percentagem de bilhetes oferecidos, que as salas do Ministério da Cultura e  das autarquias, disponibilizam em muitas das suas actividades. A medida, que em si pode parecer bondosa, acaba por ser perversa – contratam-se espectáculos sem ter em conta o seu potencial de cativar públicos e sem os fazer passar pelo teste da bilheteira de forma real e efectiva. Na realidade a oferta de bilhetes não incentiva a formação de públicos – arranjar um bilhete à borla, para tudo e mais alguma coisa, é um desporto nacional. A consequência deste vício na borla é que, muitas vezes, é insuficientemente valorizado o acto de ir a um espectáculo e pagar por isso, percebendo que assim se está a contribuir para os custos da produção e do trabalho de todos os envolvidos, de actores e criativos a técnicos. Era curioso fazer um estudo sério, nas salas geridas pelo Estado ou pelas autarquias, que comparasse a percentagem dos bilhetes vendidos com a percentagem dos bilhetes oferecidos. Em Lisboa o caso é particularmente grave – valia a pena que no Maria Matos, no S. Luis e, de uma forma geral, nos espaços geridos pela Câmara ou a sua empresa EGEAC, se fizesse um estudo sério sobre esta matéria. Uma coisa é subsidiar os bilhetes, tentar atrair novos públicos, promover o trabalho de artistas e grupos, outra coisa é programar sem olhar à capacidade de atracção e criação de públicos. Por detrás de tudo isto ainda existe uma outra questão: o investimento e o esforço de divulgação, promoção e publicidade dos espectáculos é muitas vezes insuficiente, precisamente porque o critério billheteira é subvalorizado – a sala acaba por se encher, muitas vezes, à pressa, com recurso a bilhetes oferecidos, e o marketing cultural, na generalidade dos casos, é incipiente e frequentemente mal feito. Na realidade, é bom recordá-lo, não há bilhetes gratuitos – somos todos nós, contribuintes, que os pagamos. E a programação de todas estas salas, que deve viver do equilíbrio entre novos artistas e a manutenção de companhias e grupos existentes, e que deve ser uma das componentes de uma política de financiamento do Estado – mais que os subsídios sem contrapartidas – acaba por ser desvalorizada e secundarizada. Avançar sem conhecer a realidade da bilheteira é sempre de eficácia duvidosa. Em todas as áreas.


 


TV – Só para fazer notar que este foi o primeiro campeonato do Mundo de futebol cujas imagens puderam ser seguidas no telemóvel e em sites pelo computador e cujos resultados, protestos pelos erros de arbitragem e comentários puderam ser vistos no twitter e no facebook. Também foi o primeiro que teve transmissões mais ou menos generalizadas em alta definição e algumas em 3D e foi, ainda, aquele com maiores provas técnicas dos erros da arbitragem, com maior número de estatísticas do jogo (posse de bola, remates, etc) em tempo real. Há quatro anos quase nenhuma destas opções existia, mas agora elas tornaram-se vulgares. Muito provavelmente daqui a quatro anos, em 2014, olharemos para o que experimentámos em 2010 como agora olhamos para as nossas recordações de 2006. A televisão está a mudar e o desporto é o prato forte da mudança na lista dos conteúdos, como aqui se escrevia há umas semanas.


 


LER – É engraçado como um livro sobre o medo de voar se tornou numa atracção mediática nos últimos dias – é sinal que o problema afecta muita gente e que causa angústias variadas nos mais diversos meios. O engraçado de «Voar Sem Medo» é que está escrito quase como se fosse as instruções de um jogo, nas suas várias etapas. Às vezes um pouco técnico demais, aqui e ali a dirigir-se em simultâneo ao público em geral e a especialistas (o que não é uma boa ideia), é justo reconhecer que as indicações, sugestões, dicas e truques diversos apontados neste livro serão certamente da maior utilidade para aqueles que se sentem desconfortáveis quando entram num avião – e existe até um teste, fácil e rápido, para avaliar o grau de à vontade e desconforto de cada um face à perspectiva de um voo. Cristina Albuquerque, psicóloga de formação, tem-se especializado na área do tratamento de aerofóbicos e há duas décadas que se interessa por este problema. Quer-me parecer que este bem pode ser um inesperado best-seller. «Voar Sem Medo», de Cristina Albuquerque, edição Gradiva.


 


OUVIR -  Pensei um bom bocado antes de escrever sobre este disco – à partida tem tudo o que me desagrada (uma junção de estrelas, uma colectânea de canções óbvias, um ar de campanha «num esforço para mostrar o poder e a beleza da colaboração a nível global como um caminho radioso para a paz», citação das notas de capa). Mas no fim decidi dizer-vos que vale a pena conhecer a mais recente aventura de Herbie Hancock, que já vai nos seus 70 anos. O disco chama-se «Imagine Project» e conta com numerosas colaborações, de Seal a Jeff Beck, passando por Pink, Los Lobos, The Chieftains e Dave Matthews, entre outros. A minha escolha vai para algumas versões brilhantes, de que destaco «Space Captain», uma canção popularizada por de Joe Cocker, «Don’t Give Up», de Peter Gabriel, «Tempo de Amor», de Baden Powell e Vinicius, «The Times They Are A Changin» de Bob Dylan e «Exodus» de Bob Marley.  «Imagine Project», de Herbie Hancock, CD Sony Music, na FNAC.


 


VER – Já aqui falei uma vez da revista portuguesa «The Scope», um dos mais interessantes e arriscados projectos editoriais surgidos nos últimos tempos. É certo que é uma revista de segmento, que é um objecto quase de luxo, muito bem impresso e editado. Tem distribuição internacional, publicidade internacional e direcção de Tiago Machado. A revista sai quatro vezes por ano, a par com as estações, e este número de Verão oferece motivos de interesse que vão de textos de Brad Mehldau sobre os seus heróis na música até uma entrevista com o arquitecto Rem Koolhaas ou uma viagem pelo mundo do vinho tinto da região de Burgundy, pelo autor do filme «Mondovino», Jonathan Nossiter E, depois, claro, como pano de fundo há a paixão pela fotografia e pela imagem que é o DNA desta revista.


 


PROVAR – Esplanada da semana: em dias quentes provar uma Conchanata, na geladaria do mesmo nome, na Avenida da Igreja 28 A. Fecha às segundas.


 


ARCO DA VELHA – A senhora Ministra da Cultura emitiu um comunicado onde manifestou a sua grande satisfação pela demissão de um director geral. Depois disse que a satisfação era devida a não ter que lhe pagar indemnização. A seguir anunciou que o buraco orçamental que abriu na Cultura será resolvido pelo Ministro das Finanças como ele achar melhor.


 


BACK TO BASICS – As circunstâncias nunca devem alterar os princípios – Oscar Wilde


 

julho 14, 2010

UMA MINISTRA INCAPAZ

(Publicado no diário Metro de dia 13 de Julho)


 


A senhora Ministra da Cultura anunciou no final da semana passada que é incompetente para afastar dirigentes do seu Ministério, preferindo que eles se demitam. Isto parece-vos estranho? Eu também acho que é um pouco bizarro, mas a realidade é que a Ministra fez um comunicado onde está escrito, preto no branco: « A Ministra da Cultura confirma o pedido de demissão do Director-Geral das Artes. O Ministério da Cultura manifesta a sua grande satisfação por esta decisão, que vem permitir finalmente que a DGArtes se liberte de constrangimentos vários que têm vindo a dificultar a sua acção.»


 


Este comunicado mostra bem o estado a que se chegou na área da Cultura: uma Ministra incapaz de governar o seu próprio Ministério, que prefere deixar apodrecer uma situação a intervir, e que ao longo de meses vai deliberadamente agravando o funcionamento de um sector na esperança de que alguém se farte e resolva sair daquela casa – que foi exactamente o que acabou por acontecer.


 


Independentemente do fraco retrato que dá de si própria e da sua capacidade de decisão e de acção, o comunicado é mais grave – porque lança suspeitas, graves, sobre uma pessoa séria – Jorge Barreto Xavier, o citado Director Geral das Artes que se fartou e foi embora. E é exactamente o carácter rasca de todo o comunicado, que pode ser lido no site do Ministério da Cultura, que traça o melhor retrato do que é a actuação do Ministério da Cultura sob a gestão Gabriela Canavilhas – uma casa onde se diz hoje uma coisa e amanhã outra, apenas capaz de funcionar por impulsos externos, sem linha estratégica nem programa de acção.


 


O balanço do consulado Sócrates em matéria de Cultura é verdadeiramente desastroso – decisões de impulso, mal pensadas, falta do mínimo de coerência, inexistência de qualquer linha programática, cedência a gostos e modas, instabilidade no sector, negócios pouco claros na relação entre o Estado e grandes coleccionadores, obras faraónicas e polémicas, como o novo Museu dos Coches, desperdiçando o parco dinheiro que cronicamente existe na área da Cultura.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

julho 09, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 9 de Julho)

CULTURA – Vai um grande burburinho na área dos agentes culturais – em boa medida graças à inabilidade política da Ministra, mas também em boa parte devido a erros e vícios acumulados no sector. Deixemos a inabilidade política de lado. O problema central da política cultural é que ela vive sem estratégia há muitos anos, basicamente desde que Carrilho foi para o Ministério com uma linha programática que se resumia a isto: subsidiar, subsidiar, subsidiar. Com os planos de recuperação de teatros, património e museus muito avançados quando chegou ao Governo, Carrilho concentrou-se em montar uma complexa teia de modelos de financiamento, para as mais diversas organizações e formas de expressão. Ao longo dos anos o efeito da estratégia clientelar criada por Carrilho entre 1995 e 2001 multiplicou-se. Não é de admirar que os agentes artísticos elogiem este seu consulado – ele limitou-se a aumentar o investimento do Estado em subsídios, dando uma falsa imagem de crescimento do investimento público na área da Cultura. Rui Vieira Nery, que foi seu Secretário de Estado, demitiu-se acusando-o de gestão danosa na Cultura e António Barreto, depois do conflito que manteve com o Ministro a propósito da Sociedade Porto 2001, escreveu um artigo que ficou célebre intitulado «Um Homem sem Qualidades». O modelo da criação de dependência aos subsídios foi exponenciado nessa época e o Estado assumiu então – e continuou a assumir depois – muito mais compromissos fixos em estruturas, de festivais a associações culturais, passando por grupos de teatro ou empresas de produção. O resultado é que o dinheiro claramente não chega para tudo. Não é certo que todo o dinheiro atribuído em subsídios seja um bom investimento e não é certo que ele seja eficazmente reprodutivo, do ponto de vista de resultado artístico e criativo – eu sei que os subsidiados não gostam de ouvir isto mas é uma facto que têm de encarar de frente. O que os Governos não fizeram foi encontrar formas de captar e incentivar o investimento privado nas artes, preferindo manter um modelo de benefícios fiscais duvidoso. E menos ainda fizeram na articulação com as autarquias, que replicaram elas próprias os piores exemplos da administração central - como está bem patente em Lisboa aliás. O resultado está à vista e, desta vez, quem trabalha no sector tem que puxar pela cabeça para construir e reivindicar um modelo sustentado, em vez de promover apenas mais protestos e a manutenção dos subsídios existentes. É simples: acabou-se o dinheiro fácil, o mundo mudou mesmo e não vai ser como dantes.


 


PT – Se o comportamento dos sucessivos Governos ao longo dos anos, em relação à Portugal Telecom, fosse menos político, se não tivesse havido todo o caso da forma como a PT andou a negociar a compra da TVI com o já assumido conhecimento – e aparente incentivo - de homens de confiança do PS, de membros do Governo e do próprio Primeiro-Ministro, talvez a utilização das acções especiais que o Estado detém na Portugal Telecom não tivesse provocado tanto burburinho. Mas a verdade é que o veto da golden share foi utilizado no culminar de um processo onde a existência de pressões políticas à margem dos accionistas se tornou patente. Também não deixa de ser curioso que esses mesmos accionistas não se tenham mostrado muito incomodados com o clima de interferência política baseado nas acções especiais, mas que se tenham agastado quando a sua utilização redundou num veto a um negócio de grande dimensão. Fica-me a sensação de que do lado de Sócrates não se dedicou tempo e atenção suficientes a juntar os seus confessos amigos Zapatero e Lula da Silva para, a três, e já que dizem ter tão boa relação e tanto em comum, se conseguir atingir uma acordo que não descambasse na situação actual.


 


EXTERIOR – É sabido que existe uma curiosa tradição de que as declarações importantes dos políticos portugueses sobre Portugal sejam feitas em entrevistas ou declarações a jornais estrangeiros. Presidentes da República e Primeiros Ministros tornaram-se useiros e vezeiros nesse método. Sócrates lembrou-se disso e fez uma jogada de comunicação brilhante quando decidiu explicar a posição do Governo sobre a utilização das acções especiais da PT precisamente numa entrevista ao «El Pais». Embora Marcelo Rebelo de Sousa tenha toda a razão sobre a falta de cuidado que houve na preparação e negociação do tema da compra da Vivo pelos espanhóis, a verdade é que uma vez usada a bomba atómica os conselheiros de Sócrates tudo fizeram para amortecer a explosão – primeiro com o artigo no «Público» e depois com a entrevista no «El Pais». Em termos de política de comunicação de crise foi uma belíssima jogada.


 


RTP – A série de dois artigos que Guilherme Costa, o Presidente da RTP, escreveu  no Público no início desta semana tem um sabor a balanço do trabalho feito. Pelo meio dos artigos percebia-se que o cenário de alguma forma de privatização anda no ar . Estes artigos vieram reforçar a convicção, expressa em círculos governamentais, de que seria melhor privatizar antes das próximas eleições – não só para moldar a privatização, mas também para poder haver ainda alguma palavra na escolha de quem possa vir a ficar com o sector ou sectores da RTP que forem privatizados. Quer-me parecer que ainda vamos assistir a algumas surpresas, nesta matéria, nesta legislatura.


 


OUVIR- Em 1957 Thelonius Monk e John Coltrane, durante alguns meses, tocavam juntos num dos históricos locais do jazz em Nova York, o Five Spot Café. Nessa altura foram a estúdio e gravaram uma série dos temas que tocavam em conjunto habitualmente.  Estas gravações  ficaram por editar até 1961, ano em que foi lançado «Thelonius Monk With John Coltrane», considerado um dos melhores discos de jazz de sempre. O piano de Monk e o saxofone tenor de Coltrane encontraram-se de forma explosiva, num entendimento musical perfeito. É essa gravação histórica que a Universal agora reeditou na sua belíssima série Original Jazz Classics Remastered. Fantástico para ouvir nestas noites quentes.


 


LER- António Pinto Ribeiro, programador, investigador, responsável pelos ciclos «Próximo Futuro» na Gulbenkian, tem uma já numerosa obra publicada, predominantemente de ensaios. O seu novo livro, algo inesperado, chama-se «É Março E É Natal Em Ouagandougou» e apresenta-se como um «livro de viagens». É mais exacto dizer que é um diário de viagens  sem organização cronológica, e que evoca outros livros de viagem e outras literaturas, quase como um guia de locais acompanhado de bibliografia para cada circunstância. É, acima de tudo, um livro sobre memórias de locais, impressões de momentos, às vezes quase instantâneos escritos em vez de fotografados. É um bom retrato de sensações – desde a paixão evidente por África à sensualidade de Buenos Aires. A última página é de Lisboa, numa passagem de ano, no Lux, a fazer lembrar o esplendor de Veneza no século XVI.


 


DESCOBRIR- A única forma possível de descobrir o que se passa na capa da edição 43 da revista «Egoísta», que tem por tema a «Liberdade», é colocar a revista dentro de um forno micro-ondas a 500 watts durante 10 segundos. Só aí aparece a imagem de capa – verdadeiramente esta é uma capa que precisa de ser descoberta. Se não tiver micro-ondas contente-se com o interior e não fica anda mal – gosto muito da história desenhada sobre a Mongólia de Rodrigo Prazeres Saias, do texto de Francisco José Viegas «O Navegador Que Morreu À Espera da Primavera», da «Metamorfose» de Rui Zink e das fotografias de João Carvalho Pina. A «Egoísta», cujo Director é Mário Assis Ferreira, deu uma bela festa esta semana para assinalar o seu décimo aniversário, com um concerto de Al Green no Casino Estoril - «Soul» tocada por grandes músicos.


 


PROVAR – Nestes dias de calor intenso fazem falta locais em Lisboa com boas saladas e sanduíches leves e frescas. Não é tempo de bifanas, menos ainda de tostas mistas, e as saladas de farrapos de frango com retalhos de alface salpicados com grãos de milho acabados de sair das latas também são muito pouco convincentes. Por isso mesmo venho aqui louvar a belíssima salada de peixe fria, sobre cama de feijão verde e bem rodeada de outros legumes, disponível na Bica do Sapato, apenas na renovada esplanada, agora bem protegida do vento e do sol. Esta salada é exactamente o modelo do que se pode fazer com bons ingredientes num dia de grande calor.


 


ARCO DA VELHA – Esta semana o país descobriu que em Alcochete o Sporting tinha um pomar de macieiras atacado por alguma praga de bichos – de tal forma que o respectivo presidente se reivindica especialista no tratamento de maçãs podres.


 


BACK TO BASICS – Razões fortes determinam acções fortes – William Shakespeare


 

NO TAMARIZ

(Publicado no diário Metro de dia 6 de Julho)


 


O espírito inventivo dos portugueses é extraordinário: logo que se soube dos distúrbios na praia do Tamariz houve logo quem se propusesse desenvolver um protector anti-cacetada com intensidade 40. A coisa terá a forma de um escudo que se pode também utilizar como guarda sol e como lança. Cada vez que começa a pancadaria usa-se o escudo para protecção e o cabo do dito como lança para repelir os mais afoitos.


A avaliar pelo estado do policiamento a nova invenção vai ter grande saída e não me espantava se ela começasse a aparecer de repente nas lojas chinesas da região, sempre tão rápidas a duplicar os produtos que têm grande procura do público.


Consta até que o Ministro Rui Pereira se vai colocar vestido de nadador salvador no meio da praia, acompanhado daquela comissária da PSP que faz de porta-voz da organização e que vai aparecer com o fato das miúdas da série marés vivas. Juntos vão fazer demonstrações de utilização do escudo protector. Está a decorrer uma reunião na presidência do Conselho de Ministros porque há alguns colegas de Rui Pereira que também querem participar na acção – supõe-se que querem também experimentar a sensação de uma luta corpo a corpo para se treinarem para as próximas reuniões do Conselho de Ministros, que se prevêem mais renhidas que o habitual, a propósito da elaboração do próximo Orçamento de Estado.


Quem já disse que não precisava do escudo para nada foi José Sócrates: optou por uma guarda pretoriana composta por Silva Pereira e Jorge Lacão, com apoio militarizado especial fornecido por Santos Silva, que para o efeito já escalou uma divisão de paraquedistas.


É de facto extraordinário como um incidente de fim de semana teve consequências tão vastas no Governo – sabemos de fonte segura que o caso perturbou vários membros do executivo quando estavam quase afundados dentro de água em diversas localidades do país, no meio de sessões de esclarecimento junto de bases do PS a propósito das SCUTs.


Sobre o assunto sabe-se que o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, se limitou a perguntar - «querem que mande o Ricardo Rodrigues já para o Tamariz?».


 


 


 


 

julho 05, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 2 de Julho)

FUTEBOL – Agora que já não temos o espectro do resultado da selecção portuguesa,
falemos do Mundial como um negócio que alimenta outros negócios. Acima de qualquer
outra coisa, hoje em dia, uma prova como o Mundial de Futebol é um espectáculo que
fornece um conteúdo audiovisual precioso – aliás as grandes provas desportivas são
conteúdos audiovisuais de excelência. Existem algumas razões para isto. Em primeiro
lugar uma transmissão desportiva é o directo por excelência – vive do directo, do instante
em que acontece. Por mais graça que tenha ver resumos dos jogos, o interesse é saber
qual o resultado no exacto instante final de uma prova. Depois de se saber quem ganhou,
rever um jogo é um exercício de nostalgia, não é uma emoção. E, é pelo enorme peso
de emoção e de paixão que transporta, que uma grande prova desportiva é tão disputada
pelas televisões, e em breve por canais digitais e por aí fora.
Isto é verdade para o futebol, mas é também verdade, como nos Estados Unidos, para o
baseball ou para o basketball e - imagine-se – nalguns casos (os grandes torneios), até
para o golfe. Nos Estados Unidos há modalidades cujo desenrolar de jogo está quase
feito de forma perfeita para televisão – com pausas a tempos certos para emissão de
publicidade, com um ritmo que tem picos permanentes. O futebol ainda não é assim,
mas se analisarmos o que se tem passado neste Mundial percebe-se que algumas coisas
irão ter que mudar. Por exemplo não faz sentido que existam erros de arbitragem em
clara contradição com o que os espectadores vêem em casa nas repetições – sobretudo
quando há vastas regiões do mundo, na Ásia nomeadamente, onde o futebol começa a
ser popular. Os novos telespectadores – seja em idade, seja em adesão à modalidade –
terão dificuldade em perceber que podem ver um jogo em alta definição ou em 3D, mas
que os resultados do jogo podem ser falseados pela não utilização de meios técnicos pela
arbitragem. Não faz sentido que a FIFA esteja atenta às possibilidades de negócio das
novidades tecnológicas mas que continue a usar meios de arbitragem da primeira metade
do século XX.
A globalização do futebol tem efeitos curiosos. Basta ver como algumas grandes equipas
(Inglaterra, França, Itália e até Portugal) foram eliminadas nas primeiras fases do
Campeonato. Há uma série de países ainda em competição que seria impensável estarem
onde estão há uns anos atrás. Isto tem a ver com a globalização dos jogadores e o caso
da selecção portuguesa é bem elucidativo: muitos jogadores já não jogam em clubes
portugueses, muitos têm agendas próprias e o conceito de selecção nacional acaba por
ser um pouco forçado. Nem que seja do ponto de vista psicológico não deve ser fácil
a um português jogar contra a Espanha quando vive em Madrid e é pago por um clube
espanhol. Em contrapartida, países com poucas tradições no futebol e poucas grandes
estrelas internacionais, têm maior facilidade em montar equipas para as respectivas
selecções e em fazê-las jogar de forma mais coerente e eficaz.
O facto de o futebol ter alargado nos últimos 10 anos a sua capacidade de atracção de
públicos (como nos Estados Unidos e China), tem consequências directas numa série de
áreas que só podem existir porque a televisão leva o jogo a todo o lado: os patrocínios de
equipas e de jogadores, os patrocínios oficiais da própria FIFA, a publicidade a marcas
ligadas ao desporto, as próprias apostas online. O futebol deixou de ser um negócio
apenas da Europa e da América do Sul, passou a ser global, é um conteúdo cada vez
mais disputado e um veículo publicitário valioso. Tudo isto só funciona enquanto houver
emoção, disputa, resultados e vitórias claras. O futebol não é só um jogo: é espectáculo e
a sua gestão tem que ter isto em conta. Lá fora e, também, cá dentro de portas. Só que cá
dentro ainda há quem pense que o futebol deve ser encarado como uma negociata, em vez
de ser show business.



LER – Onde preferiria viver? Numa capital confortável ou numa cidade cosmopolita e
caótica? – a pergunta é o tema de capa da edição de Julho/Agosto da revista «Monocle»,
que inclui o relatório sobre a qualidade de vida nas 25 cidades que a revista coloca
entre as melhores. Lisboa aparece pelo segundo ano na 25ª posição, Madrid subiu para
a décima posição e Barcelona desceu duas posições para o 17º lugar. Um bom artigo
para qualquer autarca ler é a entrevista a Raymond Rybak, o mayor de Minneapolis, que
vai no seu terceiro mandato e é um exemplo de boas ideias e boas práticas. Outro artigo
muito interessante é sobre uma estação de rádio de Nova York, a Air, exclusivamente
dedicada ao mundo da cultura e do entretenimento. Finalmente assinale-se que a
produção de moda é fotografada no Porto, parte dela na casa de chá desenhada por Siza
Vieira e que existem belos portfolios fotográficos sobre Beirute, Istambul, Nápoles ,
Rio de Janeiro e Taipé – porquê? Porque não estão no top 25 mas porque têm tudo para
brevemente integrarem a lista.



VER – Há de tudo um pouco no novo ciclo de exposições inaugurado na semana passada
no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84). O novo primeiro piso, a extensão da
Platafroma Revólver, continua a afirmar-se como um espaço cheio de potencialidades
e a colectiva «De Heróis Está o Inferno Cheio», ali exposta, é na minha opinião pessoal
a mostra mais interessante de entre o conjunto agora apresentado. Na Rock Gallery
está «Australia » de Joana da Conceição e na VPF Cream art gallery está «Nude» de Inês
Pais. No piso 3 a Plataforma Revólver apresenta a colectiva «If I Can’t Dance, I Don’t
Want to be part of your Revolution».



OUVIR – Um dos melhores discos que me foi dado ouvir nos últimos tempos é «The
Bamboos – 4». Este belíssimo exemplo de soul, bem pontuado por sinais de funk, vem
da Austrália e é arrebatador. O melhor de tudo é que é um disco muito bem tocado,
feito com calor e paixão – sente-se que os músicos se estão a divertir e a passar um bom
bocado com a música que fazem e isso é obviamente contagiante. A energia e alegria que
este registo de estúdio dos Bamboos transmite é de facto inusitado nos dias que correm.
E o facto de a execução e interpretação serem brilhantes claro que ajuda – assim como a
bela voz de Kylie Auldist. CD Tru Thoughts, na Amazon.



IR – Estou aqui para um alerta: façam uma marcação nas vossas agendas – na sexta feira
da semana que vem, dia 9, a grande e única Dee Dee Bridgewater actua no Estoril Jazz,
com o seu espectáculo de homengem a Billie Holiday. Outros pontos altos do Festival:
sábado dia 3 o quinteto do trompetista Wallace Roney, no Domingo dia 4 o Quarteto
de Charles Loyd e no Domingo 11 de Julho o quarteto da saxofonista e contrabaixista
Esperanza Spalding.



PROVAR – Existem bastantes restaurantes italianos em Lisboa, mas poucos como
o Bella Lisa, na Visconde de Valmor 65 A. O destaque vai para as massas frescas
(disponíveis ao jantar) e, em especial para o spaghetti com gambas e rúcula, para o
spaghetti vongole (com amêijoas) e para o tagliatelli com açafrão e gambas. Os risottos
– uma prova difícil para a generalidade dos restaurantes lisboetas – também sobrevivem
neste local. A salada caprese é uma entrada generosa que pode ser dividida, há um
belíssimo e fresco prosecco da casa que se recomenda. O restaurante tem zona de
fumadores, a sala é atraente e colorida q.b., o serviço é bom e vê-se que na cozinha
existe mão italiana. Ao almoço vale a pena ver as sugestões do dia, que também incluem
algumas especialidades pouco usuais como involtini de peixe. Reservas pelo tel. 217 979
026.



ARCO DA VELHA – Depois de afirmar querer cobrar portagens nas SCUTs o governo
apresentou um plano para isentar de portagens 46 concelhos – gostava de perceber que
percentagem isto representa nas receitas iniciais previstas.



BACK TO BASICS – «O homem que vê os dois lados de uma questão é um homem
que não vê absolutamente nada» - Oscar Wilde



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junho 28, 2010

(publicado no Jornal de Negócios de 25 de Junho)

MEMÓRIA - Há uns anos, em 1995, António Guterres venceu as eleições legislativas baseado num programa de promessas de mais apoios sociais – como o rendimento mínimo – e de tornar gratuito o que tinha um custo para os utilizadores – como alguns troços  de estrada, vias rápidas, e, anos mais tarde, a promessa de eterna gratuidade das SCUT. Criou-se a ilusão de que os direitos aumentavam e existiriam sempre, enquanto diminuiriam os deveres de cada um – uma dolorosa mentira, como hoje já se sabe. Tudo isto custava muito dinheiro ao Estado e o défice, que já existia, começou a funcionar numa espiral sempre crescente. É certo que uma das facturas pesadas que estamos a pagar teve a ver com o grande aumento da massa salarial da administração pública decidido por Cavaco Silva nos anos 90 – em 2005, num artigo publicado no «Expresso», Miguel Cadilhe acusava Cavaco de ser pai do "monstro" do défice precisamente devido a esses aumentos. O que é certo é que sucessivos Governos fizeram crescer o peso do Estado muito para além do razoável. As promessas eleitorais, sabemos agora, foram sempre pagas à custa do aumento da carga fiscal. Quem votou na ampliação do Estado Social e da utilização gratuita de recursos é também culpado da situação em que estamos e de estarmos a pagar mais impostos directos e indirectos.


A coisa não fica por aqui: temos uma Administração Pública pesada, pouco eficiente, um sistema educativo que está perto do caos, um sistema judicial que não funciona nem garante justiça em prazos razoáveis, e um sistema de saúde com problemas crescentes. Perdemos indústrias, perdemos quase totalmente a agricultura, perdemos muita da pesca – se, por cada dez rotundas feitas no país nos últimos 20 anos, existisse uma nova traineira com possibilidades de pescar na nossa zona económica exclusiva, não teríamos ficado de costas voltadas para o mar, sobretudo não teríamos ficado com uma frota pesqueira cada vez mais pequena e menos competitiva. Temos tido muito maus Governos. Temos esbanjado sem que se vejam bons resultados. Gastámos muito para além do que devíamos, recusámos todas as evidências e no último ciclo eleitoral, no ano passado, repetiram-se as promessas que já se sabiam não poderiam ser cumpridas. Não deixa de ser irónico que o PS esteja agora a retirar o que deu irresponsavelmente há 15 anos. E o pior é o que ainda está para vir.


 


APOIOS - A carreira política de Ricardo Rodrigues é curiosa. Foi secretário regional no Governo dos Açores presidido pelo socialista Carlos César, demitiu-se na sequência da publicação de uma reportagem do Expresso e SIC sobre abuso sexual de menores. Na altura, em declarações ao «Público», Carlos César afirmou sobre Ricardo Rodrigues, de quem se confessou amigo:  "Estou convencido da sua inocência. É isso que ele me diz. Conheço-o bem, sei que é uma pessoa de bem.». A expressão é coincidente com a de Francisco Assis, no caso do roubo efectuado por Ricardo Rodrigues dos gravadores a jornalistas da revista «Sábado» que o entrevistavam. Só que aí há uma filmagem do furto e não há maneira de o visado reclamar inocência. Mas, aparentemente, sendo considerado «uma pessoa de bem» pode fazer o que lhe apetece em cargos públicos. No Parlamento tem tido um comportamento arrogante e foi um dos que contribuiu para a inutilidade prática do trabalho da Comissão de Inquérito ao caso PT/TVI. Gaba-se de ter boa ligação com José Sócrates, de ser ainda influente nos Açores e de ter muitos apoios no PS. Esta semana o Parlamento fez o inevitável e levantou-lhe a imunidade – mas o deputado optou por responder por escrito - podia mostrar coragem e ir de viva voz, mas prefere usar as prerrogativas parlamentares até ao limite do possível.


 


LER – Paul Harden foi durante anos director criativo da agência de publicidade Saatchi & Saatchi, na época áurea da empresa, autor de numerosas campanhas, como as que deram novo alento à British Airways e a do lançamento do jornal The Independent, entre outras. Paul Arden, que morreu em 2008, escreveu vários livros e um deles tornou-se num clássico - «It’s Not How Good You Are, It’s How Good You Want To Be». O livro criou fama de ser uma espécie de manual infalível para obter sucesso, baseado no processo criativo utilizado na publicidade. A Phaidon fez uma nova edição, graficamente muito cuidada, disponível nas livrarias Bulhosa.


 


VER – «And Then Again»  é uma exposição colectiva de artistas portugueses e ingleses que abriu esta semana e que é feita com o apoio do Royal College of Arts e o Centro Português de Serigrafia – a gravura como suporte da criação artística é o tema central da exposição, que tem curadoria de Ana Fonseca e Liz Collini e está no Pavilhão Preto do Museu da Cidade até 5 de Setembro. Há várias iniciativas paralelas e complementares, informações em www.andthenagain.net .


 


DESCOBRIR –A edição nº 100, de Julho, da revista britânica MOJO, tem a particularidade de ser editada por Tom Waits – que escolheu também as faixas do CD que a publicação oferece. É uma selecção de blues e de country absolutamente fantástica e só por isso vale a pena comprar esta edição da MOJO. De Hank Williams a Ray Charles, passando por Howlin’ Wolf, ali está tudo o que Tom Waits considera serem as suas influências – e uma delas é Harry Belafonte, presente no disco e numa magnífica e reveladora entrevista nesta edição.


 


OUVIR – Robert Wyatt, o vocalista dos Soft Machine, tem uma longa carreira a solo marcada por grandes canções, a maior parte da sua autoria, mas também com algumas versões como duas que estão neste disco – de «I’m A Believer» dos Monkees e de «Shipbuilding», que Elvis Costello escreveu para ele. Wyatt vive numa cadeira de rodas desde um acidente no início da década de 70 mas isso não o tem impedido de trabalhar em música. Este disco é uma compilação de alguns dos seus temas famosos, ironicamente chamada «His Greatest Misses», e foi inicialmente pensada por um fã japonês em 2004. A reedição permite redescobrir todo o encanto e energia das interpretações de Wyatt e da sua composição, como em «Sea Song» ou «Solar Flares». CD «His Greatest Misses», Robert Wyatt, edição Rykodisc, na Amazon.


 


PROVAR – É uma pena mas são raros os restaurantes de Hotel em Lisboa que conseguem ter uma vida própria sobretudo ao jantar – mesmo quando têm excelente localização. O novo Altis Avenida, nos Restauradores, tem no seu último andar um restaurante, com um belo terraço e uma belíssima vista, o Brassereie Gourmet Rossio, mas infelizmente se lá for jantar arrisca-se a estar sozinho, ou quase. Deixemos de lado o facto de o nome ser um pouco pomposo demais - há que reconhecer que a cozinha está bem entregue, melhor que o serviço de sala. Nas duas ocasiões em que lá fui gostei de tudo o que foi servido – amouse bouche de migas de bacalhau com broa, umas vieiras com puré de ervilhas como  entrada, um salmão com flor de sal e tomilho acompanhado de risotto do mar, e um bacalhau fresco com legumes ao vapor. No final os sorbet são imprevistos – maçã com poejo, melancia com gengibre e baunilha com cardamono. Confesso que das duas vezes não gostei tanto do serviço – um pouco pretensioso, a falar mais do que aquilo que é preciso, com algumas falhas graves – o insistir numa coisa que o cliente já disse não querer, o esquecer do frappé no vinho branco e ser preciso chamar a atenção para resolver a questão, e sobretudo, à noite, o inqualificável gesto de começar a colocar as mesas do pequeno almoço do dia seguinte enquanto há ainda clientes a jantar.. Resumo: se quiserem experimentar prefiram o almoço. Brasserie Gourmet Rossio, Hotel Altis Avenida, Telefone 210440000


 


 


ARCO DA VELHA – A EMEL quadriplicou os resultados líquidos em 2009. À custa de quê e de quem, Dr. António Costa? E o estacionamento em dupla fila, acabou?


 


BACK TO BASICS – Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas – Oscar Wilde

junho 22, 2010

E O PARLAMENTO?

(publicado no diário Metro de dia 22 de Junho)


 


Algumas pessoas acham que a Comissão de Inquérito Parlamentar ao caso PT/TVI não serviu para nada. Eu defendo exactamente o contrário: serviu, e muito. Serviu para provar o mau estado do sistema político e partidário português; serviu para provar o mau funcionamento do Parlamento; serviu para provar que uma comissão de inquérito pode ser manipulada; serviu para provar que deputados e partidos não olham a meios para atingir determinados fins. Em suma, serviu para mostrar que com deputados assim e um sistema destes o parlamento é uma farsa. E é justo dizer que também serviu para mostrar que as coisas não teriam de ser assim tão más se existissem mais cabeças livres, frontais e corajosas como a de Pacheco Pereira, o único deputado que se insurgiu de forma coerente contra os critérios estipulados por Mota Amaral com o evidente objectivo de abafar o caso, em conluio com o PS e perante a neutralidade do PSD.


Alguns arautos da democracia representativa ficam muito incomodados com a afirmação de que o Parlamento se está a tornar numa inutilidade – mas fariam melhor em olhar para os seus actos e perceber que os partidos, o método de funcionamento que impõem aos seus representantes, e os próprios deputados, são os principais causadores do descrédito parlamentar. Os números da abstenção eleitoral em Portugal falam por si – as pessoas já não acreditam na eficácia do sistema e colocam-se de lado e incidentes destes só agravam a situação.


Este Parlamento é inútil – é apenas cenário para acordos e negociatas partidárias, já deixou há muito de ser um fiscalizador das acções do Governo e um defensor dos eleitores – que é o que se espera da instituição parlamentar.


Este caso, por configurar um abuso de poder do executivo, era uma boa oportunidade para que o Parlamento exercesse uma actividade moralizadora e fiscalizadora. Que mostrasse independência face ao poder político e que averiguasse sem ceder a pressões. Infelizmente o que aconteceu foi o contrário disso mesmo. Muitos destes políticos que estão sentados em S. Bento e nos directórios partidários estão a dar cabo da função parlamentar e, pelo, caminho irão destruir a democracia.

QUERO LÁ SABER DO MUNDIAL - OS MISTÉRIOS

(Publicado no Record de dia 22 de Juno)


Confesso que sou um fã de policiais – mesmo aqueles que têm um bocadito de futebol  pelo meio, como os do Francisco José Viegas. Gosto de mistérios, de tentar adivinhar os culpados, de perceber a lógica das investigações. Pensando bem no assunto o futebol é um mundo de mistério – o próprio jogo é um mistério muitas vezes: porque é que uma equipa joga semanas a fio tão mal e, depois, de repente, dá uma cabazada ao adversário? Mistério!


Este Mundial, no caso português, está fértil em mistérios. Primeiro foi o Nani, que veio recambiado para Lisboa, com prazo de recuperação anunciado de uma semana, sem nunca se saber exactamente o que teve. A semana já lá vai e pouco se sabe mais do assunto – é certo que a vitória contra a Coreia faz esquecer muita coisa, mas lá que eu gostava de ver este mistério resolvido, gostava.


Outro mistério é o da lesão saltitante em parte incerta que atingiu Deco poucos dias depois de ter feito declarações que punham em causa Carlos Queiroz. O que eu sei é que primeiro a lesão era na anca direita, depois na anca esquerda e no fim parece que é na coxa. Não é preciso ser perito em anatomia para distinguir uma anca de uma coxa – e não estou a falar de bailarinas.


Feitas as contas a prestação da selecção até ao momento cifra-se em um empate, uma vitória e dois mistérios. Eu se fosse a Gilberto Madail encomendava aos Black Eyed Peas uma canção chamada «I’ve Got A Mistery»

junho 18, 2010

SERVIÇO PÚBLICO, ELEIÇÕES, LIBERDADE DE ESCOLHA

(Publicado dia 18 no Jornal de Negócios)


 


SERVIÇO PÚBLICO  –  O deputado do PSD Agostinho Branquinho veio esta semana reintroduzir o debate sobre o serviço público de televisão através de um artigo, no «Diário Económico», onde defendeu implicitamente a sua extinção. Citando alguns números, alguns dados e muito pouco benchmarking, fez algumas extrapolações, todas a partir do actual modelo existente.


Há um vício de forma em toda a argumentação de Agostinho Branquinho – ele parte do pressuposto de que a RTP faz Serviço Público e esse é o erro base. Na realidade, diz o deputado, «o cidadão português não ganha nada com a televisão pública que não possa obter num qualquer operador privado». Mas isso acontece exactamente porque a RTP cada vez se afasta mais do conceito actual, contemporâneo, de serviço público de televisão, nomeadamente dos modelos dos países onde a televisão privada é forte, como os casos da PBS norte-americana e de uma série de estações públicas europeias de países como a Holanda, a Dinamarca, a Alemanha, a Noruega e a Suécia. Convido a uma reflexão sobre estes modelos e a uma análise cuidada das suas realidades.


Para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, com um único canal nacional, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal único nacional não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, desporto incluído – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento. Existem diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos, como a «Rua Sésamo». Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. Não há razão que impeça que o serviço informativo seja contratado no exterior – há países onde isso acontece em canais de serviço público. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.


Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam ou não útil e necessário. O resto é uma questão de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado. Se é concessionado ou não é outra história e não é o mais importante.


Existe acessoriamente uma razão para a existência de um operador de serviço público: a dinamização da produção independente nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais.


Questão final, cuja responsabilidade é dos políticos: garantir que um operador de serviço público possa ser independente do poder político, com um caderno de encargos rigoroso (cujo levantamento aliás existe), fiscalizado de forma técnica e regulado de forma independente. Se os políticos não conseguirem replicar este modelo, que existe em vários países, então o melhor é demitirem-se de serem políticos.


 


POLÍTICA - Para existir liberdade de voto tem que existir liberdade de escolha. Para existir liberdade de escolha têm que existir vários candidatos. Utilizar o argumento de que não devem surgir mais candidaturas, por exemplo à Presidência da República, para que não se prejudique a reeleição de Cavaco ou as possibilidades de Alegre, é o princípio do fim da democracia – ou seja aquilo em que os partidos e muitos políticos esforçadamente andam a tentar fazer. Mão amiga fez-me chegar à memória este dado: nas eleições presidenciais francesas de 2007 existiam na primeira volta 12 candidatos, e em 2002 eram 15. Liberdade de escolha é isto – ter várias propostas, ouvir vários discursos, ter por onde escolher. De qualquer modo, à segunda volta passam sempre apenas dois candidatos e é entre eles que se decide. O que me aborrece muito é a ideia de que basta existir uma primeira volta e com quanto menos candidatos melhor. O que me anima é poder ter uma campanha onde, por exemplo, se discuta o que deve ou não mudar no nosso sistema político-partidário para que o país possa funcionar melhor e sair da crise. Utópico? Serão o voto e a escolha uma utopia?


 


MUNDIAL - Estava a ouvir Carlos Queiroz no final do jogo com a Costa do Marfim e, de repente, olhando para o seu sorriso naquelas circunstâncias, achei que ele e Sócrates são gémeos no discurso: Mau resultado? – Nada disso. Problemas? - Nenhuns, ânimo que conseguiremos. Críticas? - Devem ser influências de manobras do estrangeiro. Dificuldades? - De todo. Mudanças? - Nenhumas. Erros? – Disparate. Este é o discurso da cegueira – já se viu onde levou nas finanças nacionais, vamos a ver o resultado no Mundial. No futebol ganha quem marca golos. Ainda não percebi bem como se chama o jogo que a selecção anda a fazer.


 


LER – Nick Hornby tem uma carreira literária a contar histórias feitas no universo do rock e do pop. Este «Juliet, Naked», recentemente publicado e já traduzido aliás para português, é talvez o seu melhor livro. A história é deliciosa e conta como um mediano músico norte-americano, Tucker Crowe, se tornou num, fenómeno de culto a partir do seu desaparecimento da cena musical a meio de uma digressão, sem que nenhuma novidade a seu respeito surja durante 20 anos. Deste ponto de partida começa uma descrição das relações entre as pessoas que têm gostos comuns – no caso a música do desaparecido Tucker. A publicação de uma gravação inédita, mas de qualidade discutível, provoca uma série de reacções entre os seus fiéis e sobretudo mostra como os nossos ídolos só ganham a dimensão que projectamos a partir das fantasias que elaboramos sobre eles. Incidentalmente, uma das teorias entre os fanáticos do músico dizia que Tucker viveria isolado numa garagem em Portugal – mas episódios à parte o livro vale pela construção de personagens, pela exploração dos mecanismos de formação do gosto, e pela forma como as obsessões nos afastam da realidade. Este é o livro de Hornby de que mais gostei. «Juliet, Naked», edição de bolso Penguin, na Amazon, cerca de 10 euros. Se puderem leiam o original, em inglês, vale a pena.


 


OUVIR –  A capa do disco é uma paródia aos westerns e o conteúdo é surpreendente – tanto que se transformou num clássico pouco tempo depois da sua edição original, em 1957. «Way Out West», de Sonny Rollins, resiste de forma impecável aos 53 anos de vida que já tem. Destaque para o clássico «I’m An Old Cowhand» , para a versão de «Solitude», um original de Duke Ellington, para um «Wagon Wheels» perfeitamente cinematográfico e para o tema título, do próprio Sonny Rollins, «Way Out West». Esta nova edição da excelente série Original Jazz Classics da Universal tem remasterização digital e inclui ainda versões até aqui inéditas de três dos temas do álbum original.


 


PROVAR – A Bica do Sapato fez 11 anos esta semana e renovou a esplanada, que agora conta com um bar – muito bom para fins de tarde -  tem mais sombra e está mais protegida do vento. Além disso  introduziu novidades na lista de verão, como um novo menu de almoço onde se destacam um delicioso carpaccio de carapauzinhos marinados, um hamburguer de frango do campo e farófias como sobremesa. O menu almoço custa 21 euros e inclui vinho a copo. No resto da lista também há boas novidades, algumas a valer uma experiência. Reservas pelo telefone  218 810 320.


 


BACK TO BASICS – A prudência inscrita no livro da covardia tem o nome de senso comum – Oscar Wilde


 

junho 15, 2010

ESTOU FARTO!

(Publicado no diário Metro de dia 15)




Esta semana enchi as medidas. Estou farto de uma actividade política que é baseada na mentira, no engano, na dissimulação, estou farto de um Parlamento que é  uma câmara de horrores.


Estou farto de equilibrismos políticos em nome do mal menor. Estou até aos cabelos com comissões de inquérito parlamentares que são uma fantochada, uma pedrada mais na credibilidade dos deputados e do Parlamento. Estou farto destes consensos em nome da salvação nacional, que começam em Belém, passam pelo Rato e pala Lapa e terminam em S. Bento, com toda a gente muito interessada em garantir protecções recíprocas. Estou farto de um Parlamento que protege Ricardo Rodrigues um deputado filmado no acto de roubar.


Estou farto de figuras como Mota Amaral, um dos poucos líderes regionais derrotado sem apelo nem agravo em eleições, um dos exemplos em como se pode fazer uma carreira cheia de ineficiências mas muitos equilibrismo. Estou saturado de manobras de bastidores e de corredores que subvertem a ordem lógica das coisas.


Estou farto destes partidos, do funcionamento do sistema, do desprezo pelos eleitores, do cinismo como linha política e da falta de princípios como ideologia. Estou farto de ver os líderes eleitos darem o dito por não dito, estou farto de promessas eleitorais não cumpridas. Estou farto do aumento de impostos, dos abusos do fisco, do laxismo geral do sistema, da ineficácia da justiça e do despesismo do Governo.


Estou farto de diagnósticos que dizem que a situação é insustentável mas que depois não tomam medidas, nem acções. Estou farto dos partidos que dizem que o Primeiro Ministro é incompetente mas que depois não apresentam moções de censura e no Parlamento fazem o que podem para garantir que a coisa continue a piorar até que a podridão lhes dê  jeito.


Estou farto de votar no mal menor, de candidaturas que não avançam para não beliscar as do costume, estou farto de ter a minha liberdade de voto limitada pela ausência de candidatos, estou farto do politicamente correcto, estou farto de Bruxelas e estou farto do sistema partidário que temos – uma coisa arcaica cujo maior feito é conseguir um contínuo aumento da abstenção.