dezembro 17, 2008

UM CLIMA CENSÓRIO

(Publicado no diário Meia Hora de 16 de Dezembro)




Já se tornou corriqueiro dizer que o actual Governo é o que melhor tem conseguido condicionar a informação, gerir a sua agenda mediática, criar permanentes oportunidades de comunicação. Na realidade este procedimento faz parte dos rudimentos da actividade política contemporânea. Até Sócrates se tornar Primeiro Ministro a coisa também acontecia, embora não de forma sistemática e tão profissional como agora acontece.


A Comunicação do Governo tem duas facetas – uma, natural, que se destina a ocupar espaço, a anunciar medidas positivas, a mostrar obras feitas, a prometer obras futuras – desta encarrega-se normalmente José Sócrates; a outra faceta, arruaceira, de atacar a oposição e evitar que surja informação. está normalmente atribuída a nomes como Santos Silva, Vitalino Canas, Silva Pereira ou António Vitorino.


Acontece que esta segunda faceta, sempre feita mais à bruta e com menos jeito, é a que provoca um efeito de multiplicação no aparelho de Estado, sempre muito pressuroso a seguir os líderes. Na generalidade os efeitos de imitação geralmente manifestam-se sobre a forma de tentar silenciar o que não agrada, muitas vezes de forma fanatizada, na ânsia de agradarem ao Chefe. Na semana que passou tivemos dois exemplos deste formato censório.


O primeiro veio da Administração do Porto de Lisboa, APL, que mandou remover um cartaz de um partido político, no caso o PP, que punha em causa a ampliação do terminal de contentores de Alcântara. A medida, que me parece um abuso de poder, faz-me dizer que, nos actos, neste particular, a APL segue a escola de uma organização de extrema direita, meio nazi, que há uns meses atacou uns cartazes dos Gato Fedorento contra a discriminação racial. O princípio é o mesmo: ataca-se e destrói-se aquilo de que não se gosta.


O outro caso vem da Ministra da Saúde, que teve a lata de dizer a uma jornalista que as perguntas que pretendia fazer não estavam combinadas e que – como a jornalista era da RTP – ainda mais estranho era que tal insubordinação ao arranjinho estabelecido viesse da estação de serviço público. As duas observações – a do arranjinho e a da origem da pergunta - dizem tudo sobre a noção de liberdade de imprensa que a senhora Ministra da Saúde tem.


Estes dois casos levantam muitas preocupações a quem ainda se importa com isto. Política de comunicação não pode ser confundida com política de censura – mas isso é o que infelizmente está a acontecer. O Partido Socialista acha isto bem? 

 

dezembro 15, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Dezembro)

ORIGEM - Volta e meia os políticos falam dos jornalistas, queixando-se da forma como são tratados e como é tratada a política em Portugal. Eu acho que infelizmente há demasiada parcialidade em muitas redacções, existe uma proliferação de agendas escondidas e objectivos camuflados, mistura-se demais a opinião com a informação e, sobretudo, relata-se mal o que efectivamente aconteceu e imagina-se demais o que poderá acontecer (ou poderia acontecer). No entanto, uma boa parte do ambiente de futurologia política que é a doença infantil da imprensa portuguesa nesta área, tem origem e é fomentado pelos próprios políticos, sempre desejosos de manter boas relações, contarem pormenores internos, às vezes inventarem intrigas, tudo para serem considerados fontes a contactar – uma fonte estável tem um enorme poder de influência e a classe política-partidária está cheio de exemplares destes. 

 


 


RIDÍCULO - Se a opinião que os cidadãos têm dos políticos já não é estimável, então o caso ocorrido na última semana, em que se verificou que o PS estava em minoria e só não foi derrotado no Parlamento por ausência física da oposição, é verdadeiramente escandaloso. Parece – diz-se agora – que é hábito à sexta o plenário estar depauperado; parece que há deputados que picam o ponto mas se evaporam de seguida; parece que na realidade a Assembleia da República tolera o laxismo. O mais ridículo, nos últimos dias, foi ouvir uma ilustre cabeça da política à portuguesa defender que a resolução para a desagradável situação criada poderia ser a de não fazer sessões plenárias à sexta – assim todas as ausências poderiam passar despercebidas. Imaginem que por essas empresas todas se deixava de fazer o que quer que fosse às sextas…  

 


 


ENTUBADO - Barack Obama dirige-se ao país, na qualidade de Presidente eleito, através do You Tube. Ciente de que este período de três meses e tal entre eleição e tomada de posse podia ser devastador, sobretudo no contexto de crise financeira, Obama estabeleceu uma agenda mediática que passa por gerir ele próprio a comunicação através das ferramentas digitais hoje disponibilizadas – assim passa toda a mensagem que quer, sem edição, nem intermediação. Muito interessante de seguir – como será quando estiver sentado na sala oval? 

 


 


AZAR - Tive a pouca sorte de ver «Liberdade 21» um dia destes na RTP. Há muito que não via uma série portuguesa tão má – sobretudo ao nível da realização, casting e guião. Situações inverosímeis, personagens mal definidos, uma confusão de situações – tudo isto torna «Liberdade 21» num sério retrocesso a nível da produção para televisão em Portugal. Não é por acaso que na TVI coisas de tão fraca qualidade não vão para o ar – José Eduardo Moniz e a sua equipa seguem e controlam o guião, o casting e a forma da realização. Os resultados estão à vista: há uma diferença quando uma equipa de produção trabalha para a TVI e quando trabalha para a RTP ou a SIC. Discutir a produção não é apenas discutir orçamentos, é saber ver conteúdos.  

 


 


VER - Em vez de uma exposição sugiro que dediquem um pouco do vosso tempo a ver o mais recente número da revista «Egoísta», inteiramente dedicado à imagem e praticamente sem texto. Produzida na altura em que a Sociedade Estoril-Sol completa 50 anos, a «Egoísta» de Dezembro deste ano surge sob o título «Rostos». A capa, magnífica, com efeito tridimensional, tem uma cara marcada e incontornável do portfolio de Andrea Martinnelli. Destaco ainda os retratos de Augusto Brázio, o trabalho cada vez mais consistente e envolvente de Pedro Cláudio, e ainda os portfolios de José Pedro Santa Bárbara, João Carvalho Pina, Nicolas Guerin e Sandra Rocha, as imagens do Fundo da Cadeia da Relação do Porto e as ilustrações de Rodrigo Saias. Um número de colecção, como sempre com a edição de Patrícia Reis.


 

 


ESCUTAR - A pianista francesa Hélène Grimaud tem vindo a construir uma carreira sólida e este ano foi a escolhida para a noite de encerramento dos concertos Promenade, da BBC. A lenda conta que divide o seu tempo entre o estudo do piano e a criação de lobos, na Suíça, onde vive. Este ano, pela primeira vez, decidiu gravar as suas interpretações de Bach, mas fê-lo da forma mais curiosa: gravou primeiro a versão original escrita por Bach e, de seguida, os arranjos posteriormente feitos por Busoni, Liszt e Rachmaninov para as mesmas obras. Bach versus Bach – como ela chama ao conceito, proporciona novas e interessantes leituras. CD Deutsche Grammophon. 

 


 


PROVAR - Já imaginaram o que é cozinhar uma dourada à Bulhão Pato, como se faz às amêijoas? Parece estranho? Experimentam provar que não se arrependerão. A proposta foi-me feita no restaurante «Mar do Peixe», Aldeia do Meco, na estrada que desce para a praia. A vista do restaurante, mesmo de dentro da sala, é fantástica e o local tem uma coisa muito boa: sendo a maior parte do interior em madeira e os tectos inclinados, mesmo com sala cheia não há demasiado barulho nem aquele ruído incómodo fruto da reverberação do pladur , que infelizmente está por todo o lado. Mas voltemos ao assunto: a dourada é feita com azeite, alho, muitos coentros é claro, e uma pinga de vinho branco - tal como as amêijoas, coze num instante e depois é servida já arranjada, os lombos separados, apuradíssimos. A carne do peixe ganha um sabor fantástico e é uma excelente alternativa aos grelhados do costume. O peixe era fresquíssimo e suculento, acompanhavam umas primorosas batatas fritas às rodelas muito finas e estaladiças. «Mar do Peixe», telefone 212 684 034.  

 


 


BACK TO BASICS – A internet é viciante e acentua os comportamentos – se é um solitário pode estar mais sozinho, se quer conhecer gente torna mais fácil entrar em novos círculos – Esther Dyson. 

 

 

dezembro 10, 2008

O DEFINHAR DE LISBOA

(Publicado no diário «Meia Hora» de 9 de Dezembro)

 


Um amigo meu, português mas que não vive em Portugal há muitos anos, tem um projecto, visto no seu país de residência, que gostaria de adaptar e trazer para Portugal. Lá fora o caso é um sucesso no centro de uma grande cidade, onde há consumidores que procuram produtos naturais e de qualidade. A conversa surgiu num jantar, com mais amigos, todos eles com alguma experiência.


Quando começámos a analisar a possibilidade de importar o conceito, surgiram logo várias questões prévias. Em primeiro lugar, em Lisboa, a proliferação de centros comerciais e de grandes superfícies dentro da malha urbana tornou qualquer aventura de comércio de rua arriscadíssima.


Depois, no que toca à desertificação, Lisboa é o pior de todos os exemplos. As sucessivas lideranças da autarquia continuam a privilegiar políticas urbanísticas que levam a que cada vez menos gente viva dentro da cidade. Depois, quem vive é castigado por taxas, burocracias, a Emel, várias agremiações oficiais de malfeitores ao serviço do Estado ou da Autarquia que têm por missão perseguir os cidadãos. Viver em Lisboa, no centro de Lisboa, é uma atitude de masoquismo  - ruas fechadas ao fim de semana porque há festas, ou manobras publicitárias de carros ou simplesmente porque alguém na Câmara se lembrou de chatear os moradores e comerciantes – que por acaso são quem pagam os impostos que alimentam a voracidade da autarquia.


A cidade, ao longo dos últimos 20 anos, militantemente criou políticas urbanísticas – que aliás continuam – que atiram os habitantes para os subúrbios, que envelhecem a população residente, que proporcionam o encerramento do comércio de rua e das manufacturas. Lisboa deixou de ser uma cidade para se viver, é apenas um local onde se vai trabalhar. O resultado está à vista: Lisboa definha.


Quem abre estabelecimento comercial nas ruas de Lisboa tem que viver com a falta de estacionamento na maior parte dos locais e arrisca-se a levar em cima com as constantes obras do metropolitano que esventram a cidade anos a anos para além dos prazos estabelecidos (veja-se a pouca vergonha a que o metropolitano e seus empreiteiros sujeitam a Avenida Duque de Ávila).


A ideia do meu amigo é boa. Lisboa é que não tem uma política de acolhimento de boas ideias. 

 

dezembro 06, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 5 de Dezembro)

RESUMINDO – O conflito com os professores continua, o Governo salvou mais um banco que até há pouco tempo era elogiadíssimo, José Sá Fernandes está cada vez mais ao colo de António Costa, a concretização das medidas do plano de Durão Barroso para salvar a Europa leva negas de todo o lado, o PS entrou definitivamente em choque com o Presidente da República e o guarda redes do Benfica deixou entrar 30 golos em 21 partidas. São assim os tempos que correm… 

 


 


 


 


 


VENDO – Na revista virtual «Arte Capital» (www.artecapital.net) vale a pena ler o habitual artigo de Augusto M. Seabra, desta vez sobre a actuação do Ministro da Cultura, que acaba assim: « É inteiramente legítimo que José António Pinto Ribeiro aspirasse a ser ministro. Para mal geral, num sector já em tão grave situação financeira, o seu desempenho na Cultura é um mero exercício de mundanidade e vanitas.».


 


OUVINDO - Está encontrado o disco – ou melhor, o par de discos – para esta quadra natalícia: Verve Christmas, Remixed e Unmixed. São dois CD’s, ambos baseados em standards do catálogo de jazz Verve, com alguma ligação ao Natal, de nomes como Nina Simone, Mel Tormé, Ella Fitzgerald ou Jimmy Smith, entre outros – 11 temas ao todo. A versão Unmixed tem as gravações originais. A versão Remixed tem as misturas propostas para os diversos temas por nomes contemporâneos. Por exemplo «’Zat You Santa Claus?» de Louis Armstrong é remisturado por The Heavy; «What Are You Doing New Years Eve?» de Ella Fitzgerald é remisturado por Mangini vs. Palin; «I’ve Got My Love To Keep Me Warm» é trabalhado por Yesking, «What a Wonderful World» de Louis Armstrong por The Orb, «Silent Night» por Dinah Washington com remix das Brazilian Girls e «The Christmas Song» por Mel Tormé, trabalhada por Sonny J, entre outras. Os dois discos são mesmo uma maneira divertida – e variada – para bandas sonoras de natal para todas as coasiões. Sugerem-se as remixes para depois da meia noite e as versões clássicas para os aperitivios da ceia. (CD’s  Verve, Universal Music). 

 


 


VIBRANDO – Onde é que coexistem o apito dourado, Elvis Presley, Doors, David Bowie, as Doce e «Sympathy For The Devil» dos Rolling Stones? Se disser que é num concerto de Rui Reininho acerta em cheio. Na noite de quarta-feira, no palco do Cinema S. Jorge, em Lisboa, ele esteve no seu melhor – algo refinado até – e rodeou-se de uma sonoridade diferente dos tempos do GNR, sob a batuta de Armando «Balla» Teixeira. Até ver aqui está um exemplo de como entrar numa nova fase da carreira sem cair na lamechice. No final do concerto, Helena Coelho, das Doce, mostrou boa forma vocal ao lado de um Reininho entusiasmado, a cantar «Bem Bom». Delirante – mas era isso mesmo que se esperava. O disco estreia de Reininho a solo sai para a semana, chama-se «Companhia das Índias» e tem originais de nomes como Rodrigo Leão, Legendary Tiger Man, Armando Teixeira, J.P. Coimbra (Mesa) e Margarida Pinto (Coldfinger), entre outros. (Parabéns aos organizadores do Super Bock em Stock, a Avenida da Liberdade estava uma festa).


 

 


DIVERTINDO - O jornal mais divertido que se edita em Portugal nos dias de hoje é gratuito, mensal, chama-se «LuxFrágil», é dirigido por Manuel Reis e aborda temas que vão do sexo à música, passando por receitas, horóscopos (de Anamar), textos inéditos para peças de teatro, desvarios vários – destaque para Quim Albergaria  e para Hugo Gonçalves que exploram o complexo campo das relações, da pornografia, da mentira e da atracção. Têm que ler – encontram exemplares disponíveis na Bica do Sapato e no próprio Lux. E, claro, o jornal traz toda a programação da casa – destaque este mês para o encontro de Zé Pedro Moura com João Peste no sábado 20. Para termonar: a capa é a reprodução de uma factura de um santeiro, datada de 1853, relativa a trabalhos de reparação efectuados nas capelas do Bom Jesus de Braga. Imperdível. 

 


 


 


FOLHEANDO - A Magnética Magazine é algo de diferente de tudo o que por cá havia sido feito – é uma publicação mensal, gratuita, de distribuição exclusiva na internet. É uma publicação de lifestyle, mas também de moda e tendências, de consumos e luxos. Pode ser consultada em www.magneticamagazine.com e tem um daqueles curiosos sistemas electrónicos que permite passar páginas como se estivéssemos a folhear uma edição em papel. Em destaque neste primeiro número a voz da cantora Maria João e a música dos Buraka Som Sistema por via de Kalaf, o paladar do chocolate (com um texto de Álvaro de Campos) e muitas e belas páginas sobre design. Parabéns a quem desenhou e editou a revista. É um belo objecto virtual. 

 


 


PIZZANDO - Permanecendo na pesquisa das pizzas, recomendo as da cadeia Capricciosa, hoje em dia com presença em Alcântara, na zona da Expo, em Carcavelos e também na Doca de Santo. Para o caso a experiência foi feita em Alcântara, na Rua João de Oliveira Miguéns nº 48, onde em tempos foi um restaurante cubano. Sala ampla, serviço rápido e simpático, preços razoáveis, bom aquecimento nestes dias fresquinhos. Cada vez que vou a uma destas pizzarias espanto-me como nos últimos anos se avançou tanto na matéria – na confecção das massas, finas, estaladiças, na proposta de ingredientes, nas muitas possibilidades que se abrem. Para além de pizzas a Capricciosa tem massas e saladas e se quiserem uma sobremesa experimentem a cassatta, que é mesmo boa. Telef 213955977.


 

 


BACK TO BASICS - A liberdade significa responsabilidade, é por isso que a maior parte das pessoas a temem – George Bernard Shaw. 

 

dezembro 02, 2008

A NOVA REALIDADE

(Publicado no diário Meia Hora de 2 de Dezembro)

 


Daqui a um mês vai começar o ano de todas as eleições: legislativas, europeias e autárquicas. E vai ser um teste ao plano que José Sócrates vem pacientemente construindo, desde que assumiu o poder no PS, e começou uma persistente e bem sucedida estratégia de se tornar, sozinho, o partido do Bloco Central. Claro que nisto foi ajudado pelas permanentes fracturas do PSD e sobretudo por uma total falta de rumo na direita portuguesa.


De uma forma simples, mas eficaz, o PS adoptou posições liberais, empreendeu reformas (anunciou-as com alarde mesmo que efectivamente não tenha conseguido finalizar muitas delas) e, sobretudo, fez alianças com sectores sociais e económicos (cedo percebeu que na sociedade portuguesa são estas alianças, mais que as partidárias, as que trazem retorno eleitoral futuro e alguma base de apoio no presente). Pelo caminho atacou bandeiras tradicionais da esquerda – por exemplo na área da saúde – mas teve sempre o cuidado de procurar novas bandeiras – na sociedade de informação, nas tecnologias, em programas especiais de formação.


Sócrates atacou grupos profissionais que eram base importante do seu eleitorado – os professores – procurando que o Ministério da Educação se preocupasse mais com os alunos do que com reivindicações sindicais. Não é a primeira vez que na Europa um partido socialista, ou social-democrata , troca os sindicatos que são a sua base natural de apoio, pelos cidadãos utentes dos serviços do Estado – é este caminho que o PS procura percorrer hoje em dia.


Os próximos meses são decisivos para ver até que ponto a estratégia resulta – mas os tempos jogam a  favor de Sócrates: a crise obrigou a Europa a aliviar a pressão sobre os deficits orçamentais, o seu Governo tem alguma margem de manobra para introduzir medidas de apoio social e a aposta nas obras públicas intensivas é sempre útil em termos de votos. Se neste contexto Manuel Alegre decidir romper, acompanhado por alguns históricos, e face à situação do PSD, pode bem acontecer que o PS chegue mais depressa a partido único do Bloco Central do que aquilo que Sócrates alguma vez pensou. Se a estratégia resultar os votos perdiso à esquerda serão compensados pelos ganhos ao centro e à direita. Mais do que o PS, quem corre o risco de extinção prática, neste contexto, é o PSD.  

 

(Publicado No Jornal de Negócios de 28 de Novembro)

O ZÉ - Como já imaginava o vereador Sá Fernandes revela-se de dúbios princípios – o que lhe interessou foi ser eleito, o cumprimento das promessas ficaria para depois. Mal se viu vereador sentou-se ao colo de António Costa e agora não quer de lá sair. O Bloco de Esquerda entretanto já anunciou que, curiosamente, o Zé não faz falta nenhuma – a pequena política é assim – feita de grandes oportunismos que vivem à conta da manipulação dos eleitores. O delito do Zé não é de opinião, como o PS quer fazer crer, é de ética. 

 


 


OS CIFRÕES - Depois da entrevista ao Expresso queixando-se da falta de orçamento, o Ministro da Cultura parece desaparecido. Não se vê, não se sente, não se ouve. Há um ano atrás entrou fulgurante no Ministério a dizer que o dinheiro chegava, tinha que se trabalhar com os meios que existiam. Agora já se queixa – nada como o confronto com a realidade para a prosápia esmorecer. Ultimamente já nem se vê em ocasiões como a inauguração da  exposição da bela colecção de fotografias do BES no CCB. Quem não perde pitada de acontecimentos do género é Manuel Pinho, já considerado o Ministro-Sombra da Cultura.  

 


 


DESCOBRIR - Gostei muito das fotografias de Tatiana Macedo na Rock Gallery, uma das partes do Art Edifício, Rua da Boavista 84, ao Cais do Sodré. Na VPF Cream Art Gallery o brasileiro Tiago Carneiro da Cunha propõe uma interpretação contemporânea das porcelanas italianas do período barroco, a Plataforma Revólver apresenta uma colectiva com enfoque no desenho e seus derivados, e na Rock Gallery está um conjunto de fotografias de Tatiana Macedo sob o título «Boys Need Yoga Too», imagens feitas numa viagem à China no Verão passado e que revelam uma observação atenta para além do registo do óbvio que se tornou numa (nefasta) tendência em parte da fotografia actual. 

 


 


COLECCIONAR - A colecção de fotografia do Banco Espírito Santo reúne um conjunto invulgarmente eclético de imagens fotográficas desde meados do século XX até agora, de autores de diversas nacionalidades. A colecção (pelo menos na mostra agora apresentada), tem uma predominância de autores contemporâneos sobre os nomes mais consagrados da fotografia, o que provoca também desiguais descobertas. A exposição «O Presente: Uma Dimensão Infinita» está patente até 25 de Janeiro no Museu Berardo (CCB) e beneficia de uma montagem muito conseguida da responsabilidade das curadoras da mostra, Maria de Corral  e Lorena Martínez de Corral, que conseguiram mostrar, como elas próprias sublinham,  «o meio através do qual vemos tudo». 

 


 


VER - O filme «Amália», ante-estreado esta semana, vai fazer correr alguma tinta. A opção por uma narrativa – chamemos-lhe tablóide – da vida da fadista não é pacífica, assim como não é pacífica a subalternização da componente artística e criativa em detrimento de uma aproximação baseada nos conflitos (alguns pessoalíssimos e íntimos), traumas e suas origens que percorreram a vida de Amália Rodrigues. O argumento tem fragilidades técnicas (demasiadas referências, demasiados saltos no tempo, demasiadas personagens colocadas ao mesmo nível, dispersão da acção e da narrativa, abuso de momentos de tensão dramática) e a realização sofre, para um filme de longa metragem, da conotação demasiado televisiva do Carlos Coelho da Silva e da sua predilecção por um estilo, digamos, brejeiro, que já vem desde «O Crime do Padre Amaro». Regra geral o desempenho dos actores é escorreito e Sandra Barata Belo consegue uma boa recriação de Amália. É provável que a bilheteira seja boa, mas é certo que a história de Amália Rodrigues merecia melhor tratamento. Destruir a imagem pública de um mito tem o seu preço… 

 

 


LER - A edição de Dezembro da revista «Vanity Fair»é absolutamente extraordinária. Já nem falo da capa e da sessão fotográfica de Kate Winslett, limito-me a chamar a atenção para o melhor artigo que até agora li sobre as origens da actual crise financeira, «Wall Street Lays Another Egg», escrito por um historiador de economia, Niall Ferguson. Outros destaques vão para uma viagem ao interior da Bloomberg, que já é a maior fonte de notícias utilizada em todo o mundo. Ainda no reino dos media, a mesma edição oferece uma viagem ao império de Murdoch e à corrida pela sua sucessão na News Corporation e ainda a história exemplar do que é a persistência de um grande jornal, o «New York Times», numa situação de guerra, no caso o Iraque. Leitura recomendada para os editores cá do burgo. 

 


 


OUVIR – Se gostam de blues não hesitem: o disco que precisam de conhecer é «No Regrets», onde Randy Crawford canta standards, acompanhada pelo grande pianista Joe Sample . Em temas como «Everyday I Have The Blues», «Respect Yourself», «Me, Myself And I», «Starting All Over Again», »Lead Me On» e «Angel In The Morning», entre outros, Crawford e Sample mostram um entendimento perfeito e conseguiram um registo absolutamente exemplar. CD Emmarcy, Universal Music. 

 


 


PIZZAR - A Maritaca é um restaurante acabado de abrir na 24 de Julho, em Lisboa, mesmo ao lado da discoteca Kapital. Na realidade a Mariataca é um bocadinho mais que um restaurante – é daqueles locais a meio caminho entre sala de estar, ponto de encontro de amigos e casa de pasto despretenciosa e contemporânea. Espaço amplo, área para fumadores, enfoque na comida italiana (pizzas, risottos, lasagnas, raviolis), desvio para bifes se necessário. As pizzas são como deve ser – massa muito fina e estaladiça, a preços honestos. Vinho a copo, sem mácula. Serviço simpático, muito bom para resolver um daqueles jantares ou ceias que não se sabe onde podem ser. Encerra aos Domingos, nos outros dias está aberto aos almoços e à noite até às duas. Av 24 de Julho  68F, telef 213939409. 

 


 


BACK TO BASICS – Se os meus filmes fizerem uma pessoa que seja mais infeliz, cumpri o meu trabalho – Woody Allen. 

 

O CRIME COMPENSA?

(Publicado no diário Meia Hora de 25 de Novembro)

 


Cresci e tenho vivido a saber que correr riscos pode trazer proveitos mas pode também trazer prejuízos. Tenho corrido a minha dose de riscos e, quer ganhe quer perca, não me tenho arrependido. Mesmo quando se perde, aprende-se sempre qualquer coisa e isso já é bom.


A crise que vai no mercado financeiro, nomeadamente nos bancos, tem-me mostrado uma coisa que me surpreende: há quem corra riscos – riscos grandes – com o dinheiro dos outros e que, para resolver os problemas surgidos por riscos muito mal calculados que resultaram em grande prejuízos, pedem a ajuda do Estado para serem salvos.


A especulação tornou-se na principal actividade de boa parte do sistema financeiro – ou do sistema financeiro moderno, como alguns eufemísticamente lhe preferem chamar. Só que a especulação não é produtiva e quando corre mal suga tudo à sua volta.


A situação que se está a criar nos últimos tempos tem contornos que não consigo compreender. Como é que se está quase a tornar natural que quem se enganou a analisar, que quem geriu mal, que quem abusou dos poderes que tinha, seja no final beneficiado face aos que tiveram sentido de realidade e fizeram trabalho diligente?


Como podemos aceitar que quem especulou e nada criou receba apoios que são negados a quem arriscou, criou postos de trabalho e produziu riqueza à moda antiga: com trabalho e esforço?


Alguma coisa está mal num mundo onde a ética não conta nos balanços, onde a honestidade de processos é um bem descartável, onde o bom senso é um estorvo.


Quando esta crise se atenuar o balanço que vai ser feito não honrará muita gente – mas espero que sirva para no futuro se exigir mais rigor a analistas impreparados que sobrevalorizaram activos, que estimularam negócios exclusivamente especulativos, que não desenvolveram nem produziram nada . E espero que isto obrigue também a rever a forma como as autoridades reguladoras seguem a actividade dos bancos, como analisam os riscos e como encaram actividades exclusivamente especulativas ou métodos de gestão muito pouco transparentes.


O que eu sei é que o fisco é capaz de colocar milhares de cartas no correio atrás de cidadãos com dívidas pequenas, mas que o Estado é tolerante e paciente em excesso em muitas outras situações, bem mais graves. 

 

 

novembro 23, 2008

Untitled

SEMESTRE – Com uma candura extraordinária Manuela Ferreira Leite sugeriu que não seria má ideia a interrupção da democracia durante uns seis meses para se fazerem umas reformas. Por mais voltas que a sua equipa do PSD dê, o que ela disse foi isto mesmo – admitir o princípio de que uma suspensão da democracia seria útil em certas circunstâncias. No mínimo foi um pensamento de mau gosto, se quiserem um acto falhado, desgraçadamente revelador de estados de alma desnecessários. A direita portuguesa tem, infelizmente um problema: convive mal com protestos e gosta de apelar ao exercício da autoridade, embora na realidade seja muito mais suave nessa matéria que o actual PS. Na realidade, como hoje se vê, em termos práticos, a direita portuguesa é um menino de fraldas ao pé das atitudes de José Sócrates, Santos Silva ou Vitalino Canas em matéria de reacção a protestos ou da forma de lidar com a contestação. Só que os fantasmas do passado ainda castigam a direita e beneficiam a esquerda. Na realidade posições como a tomada por Manuela Ferreira Leite apenas penalizam o PSD e a área política onde se insere- ao PSD não basta parecer que gosta do regime, tem que mostrar todos os dias e a todas as horas que gosta e o honra e não lhe fica bem distrair-se; ao PS, que já não sei bem se é de direita se de esquerda, basta parecer conformar-.se com o regime – mesmo que pelo meio faça as tropelias que entende ou mesmo que Vitalino Canas a falar dos professores e estudantes pareça um Ministro do Interior do passado. É injusto, mas é assim. Manuela Ferreira Leite acabou de dar mais uma vantagem a José Sócrates – ajudou-o a parecer ser mais à esquerda do que é, numa altura em que bem precisa dessa camuflagem. 


LISBOA – Era muito boa ideia que no programa das candidaturas às próximas autárquicas, em Lisboa, constassem as medidas que os candidatos propõem, a nível fiscal, de benefícios e práticas (circulação, estacionamento, etc), para os residentes na cidade. Na realidade os residentes são prejudicados face aos não residentes que se deslocam para a capital, os residentes são penalizados em questões que vão desde os impostos ao IMI, passando por limitações de circulação durante festividades diversas ao fim de semana. Candidato que não proteja e estimule os lisboetas e a cidade não deveria merecer o voto de ninguém. 


VER – Este é o fim-de-semana em que vale a pena ir à FIL, para ver mais uma Arte Lisboa. Vão estar presentes 70 Galerias, das quais 45 portuguesas e 25 estrangeiras. Até segunda à noite (entre as 16h00 e as 23h00) pode visitar e descobrir o panorama de novas obras, algumas aqui em primeira apresentação, e também o acervo de galeristas. Além disso tem um ciclo de debates com temas como o coleccionismo de fotografia, a actividade das feiras de arte e o investimento em arte, entre outros temas. Informação em www.artelisboa.fil.pt . 


OUVIR – A britânica «Mojo» é sempre, de entre as revistas dedicadas à música, uma publicação a seguir com atenção. Na edição de Dezembro o destaque vai para Leonard Cohen, a propósito da grande digressão mundial que está a fazer, e que já passou por Lisboa no Verão.  Para além de uma análise de toda a sua discografia, existe um extenso e magnífico artigo sobre este artista que diz durante anos ter seguido uma dieta rigorosa baseada em «vinho, mulheres, canções e religião». Mas o melhor de tudo é que a «Mojo» oferece um CD com uma colectânea de canções de Cohen interpretadas por outros artistas – 15 ao todo, entre as quais «Suzanne» por Ian McCulloch, «Joan Of Arc» por Allison Crowe, «Avalanche» por Nick Cave ou «Song For Bernardette» por Judy Collins. O meu exemplar foi comprado nas revistas do El Corte Inglês esta semana e ainda lá ficaram alguns. 


FOLHEAR – Continuo a folhear a magnífica edição especial da «Newsweek» que mostra um portfolio da campanha eleitoral norte-americana e da vitória de Obama. Imagens magníficas, óptimo foto-jornalismo, boa reportagem, boa escrita. Um exemplar de colecção que mostra como as revistas e a imprensa servem outro compasso da informação – reflectindo, comparando, mostrando, muito para além da notícia instantânea. Intitulada «Obama’s American Dream», este «Special Commemorative Issue» estará à venda até Fevereiro de 2009. 


ENGRAÇADO – Com um bocadinho de jeito Al Gore e seus derivados podiam quase ser considerados os inspiradores do ecologista hábil em negociatas que faz de vilão em «Quantum Of Solace». O filme coloca 007 em luta contra um grupo de empresários e políticos que querem dominar as fontes energéticas, às vezes em consonância com governos de insuspeitos países e seus serviços secretos. É a imagem dos que aproveitam a ecologia para encher os bolsos – há muito disso por aí. Faz tempo que um filme do agente secreto de sua majestade não era tão oportuno. 


PETISCAR – O nome deste restaurante é de si um episódio - «Ultralento». O serviço no entanto é eficaz, cortez, e despachado e as influências culinárias são variadas, com destaque para a Índia. O caril de galinha e os bojés estavam muito bons, assim como uma sopa de abóbora com laranja e uma inesperada mas agradável maçã com chévre; nas entradas destaque para um puré de manga com vinho do Porto. Por falar em vinhos, a lista é razoável, mas o vinho da casa é do Dão, honestíssimo, e servido a copo. A decoração é contemporânea e cuidada, aqui está um simpático restaurante de bairro em Campolide onde dá gosto ir ao fim do dia – Rua General Taborda 47, tel 213 879 186. Mais informações em www.ultralento.com . 


BACK TO BASICS - "Não há nada de bom ou ruim, mas o pensamento o faz assim" -


William Shakespeare

novembro 18, 2008

A INTOLERÁVEL EMEL

(Publicado no Meia Hora de 18 de Novembro)


 

Na semana passada aconteceu-me ter uma reunião perto da sede da EMEL, a Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa. Eu confesso que não gosto da EMEL, dos poderes policiais que lhe foram dados (e que alguns juristas consideram de duvidosa legalidade), não gosto da atitude dos seus funcionários mas, sobretudo, não gosto do abuso que é a EMEL obrigar a pagar novo estacionamento cada vez que se sai da zona onde se pagou, mesmo que ainda reste tempo.

À porta da sede da EMEL há muitos dos seus fiscais a fumar, mas é difícil encontrar uma caixa de pagamento perto do local onde existem mais estacionamentos disponíveis. Um cidadão tem que dar uma bela caminhada até à esquina onde há uma máquina – apetece logo nem pagar. A colocação de máquinas em locais distantes é uma das provas da atitude que rege a empresa, de desprezo por quem a financia.

Vamos por partes: quem anda de automóvel em Lisboa é CLIENTE da EMEL, não é um malfeitor encartado atrás do qual devem ser lançados cães de fila. A EMEL tem que aprender aquela coisa básica que é tratar as pessoas como clientes, que são. Eu até sou dos cumpridores, lá vou pondo as moedinhas – mas não me coíbo de dizer que acho um roubo a forma como o sistema está organizado – e cada vez que digo isso a um Fiscal ele fica com cara de quem me quer dar voz de prisão. Há uns que olham para mim a ver se me fixam a cara e vão apontar a matrícula do carro. Revelador, não é?

Quem anda de carro em Lisboa por razões profissionais tem várias vezes que parar numa série de locais relativamente próximos, mas pertencentes a várias zonas de cobrança da EMEL . Já mais que uma vez me aconteceu chegar ao meu carro, com um selo ainda dentro do limite de tempo, mas oriundo de outra zona – e ter que aturar um fiscal a perseguir-me verbalmente sem sequer lhe passar pela cabeça que está a falar com um cliente e não com um assaltante. As criaturas da EMEL são formadas para perseguir, punir e abusar da autoridade – não são formadas para servir os clientes – não admira, a EMEL é filha da Câmara Municipal de Lisboa que tem uma persistente atitude de afastar moradores e castigar quem tem a mania de querer viver na cidade.

Nas próximas autárquicas só voto num candidato que proteja os moradores de Lisboa, que os beneficie em vez de penalizar. E que diga que vai pôr a EMEL na ordem.

 

PUBLICADO NO JORNAL DE NEGÓCIOS DE 14 NOVEMBRO

TENDÊNCIAS - Imperdível o artigo de Paul Boutin na «Wired» de Novembro – anuncia o fim da era dos blogs e decreta que ferramentas como o Facebook são o novo meio de fazer circular opiniões e ideias (procurem em www.wired.com na zona da revista).


Um pouco mais à frente, na mesma edição, explica-se como o Facebook também pode ser usado como instrumento de acção política. Ainda no mesmo número um belo artigo, «How To Google Better», e, depois, o guia mais completo sobre novos gadgets para esta época de Natal e a história de capa - uma investigação sobre o futuro dos produtos agrícolas, como a tecnologia está a revolucionar a área. A «Wired» já fez 15 anos, mas continua cheia de vivacidade.

 

BOM SENSO - Muito bom o artigo de Augusto M. Seabra sobre alguns acontecimentos recentes no mundo da arte, cá e lá fora (Joana Vasconcelos por cá, Damien Hirst lá fora). O artigo está na revista digital ArteCapital (www.artecapital.net) , na secção «O Estado da Arte» e chama-se «Gosto e Ostentação».

 

IMAGEM - Na situação que vivemos é preciso coragem para lançar novos produtos editoriais. A nova revista mensal iMAG apresenta-se como um magazine dedicado ao fotojornalismo, pretendendo testemunhar as notícias pela imagem. O primeiro número já está na rua, dirigido por Mafalda Lopes da Costa, que já dirigiu também a «Ler» e se tornou conhecida pelas suas crónicas sobre livros na TSF. A editora desta aventura é a Multipublicações, comandada por Ricardo Florêncio e Paulo Carmona, que há bem pouco tempo retomou o projecto da revista sobre cinema «Premiere».

 

FOTOGRAFIA - A galeria «Pente 10» dedica-se à fotografia contemporânea e tem um belíssimo espaço junto ao Jardim das Amoreiras, na Travessa da Fábrica dos Pentes nº10 (www.pente10.com) . Até 10 de Janeiro (de 3ª a sábado entre as 15 e as 20h00) podem ver «Presença da Ausência», a nova exposição da fotógrafa Rita Barros, há muito tempo a viver em Nova Iorque, autora de um livro e exposição sobre o mítico Chelsea Hotel, onde aliás ainda vive. Rita Barros, que se tornou conhecida com as suas reportagens fotográficas para o «Expresso», percorre nesta mostra outros rumos para além do fotojornalismo. Como Jorge Calado sublinha o texto do catálogo sobre estas «naturezas mortas domésticas», a verdade é que «a viagem mais extraordinária está na imaginação de cada um». Jogando com as cores e os enquadramentos, Rita Barros exibe as provas da sua imaginação.

 

IMPRESSÃO - Fez-me um bocado de impressão conhecer a nova versão da Madredeus com a Banda Cósmica exactamente no mesmo local, o Teatro Ibérico, onde há quase vinte anos, em 1987, assisti aos primeiros ensaios dos então ainda desconhecidos Madredeus. Na altura a surpresa foi total, pela positiva – uma sonoridade nova, arranjos que combinavam violoncelo com acordeão e sintetizador e, acima de tudo isso, a voz de Teresa Salgueiro a cantar poemas que eram pequenas histórias da vida portuguesa. Agora, confesso que a desilusão foi a primeira reacção. Vamos por partes: alguns arranjos são interessantes, a conjugação da harpa com o violino, guitarra eléctrica, baixo, bateria e percussão tem muitos momentos curiosos – mas às vezes tocam no enfadonho, talvez por excesso de procura do virtuosismo. O problema maior reside nas vozes – na tentativa de colagem desnecessária aos ambientes de Teresa Salgueiro que acabaram por constituir a imagem de marca do grupo. Se nos arranjos e no novo conceito musical se vislumbra algum caminho possível, os arranjos vocais são terríveis e a excessiva teatralidade da interpretação de Mariana Abrunheiro é frequentemente incómoda e a roçar o kitsch. A certa altura dei por mim a pensar se, neste novo caminho, não seria melhor usar uma voz masculina, em vez de querer manter o registo vocal feminino que vai sempre ter, bem ou mal, o ponto de comparação com Teresa Salgueiro.

 

SUPER - Gosto de Sonny Rollins, gosto de gravações de jazz efectuadas ao vivo, em concerto. Rollins, actualmente com 78 anos, continua a ser um dos nomes grandes do saxofone e este «Road Shows Vol. 1» mostra isso mesmo. As gravações foram efectuadas no ano passado, no Canadá e, de um muito elogiado concerto realizado no Carnegie Hall em Setembro de 2007, está uma grande interpretação de «Some Enchanted Evening» com Rollins no sax tenor, Christian McBride no baixo e Roy Haynes na bateria). O disco tem a curiosidade de incluir três inéditos da autoria do próprio Rollins e que nunca haviam sido antes gravados – e o mais fascinante deste registo é a capacidade de improvisação que se sente permanentemente nas faixas canadianas – em que Rollins é acompanhado por Clifton Anderson no trombone, Mark Soskin no piano, Bobby Broom na guitarra, Jerome Harris no baixo eléctrico e Al Foster na bateria. (CD Sonny Rollins «Road Shows Vol 1», Universal Music).

 

LEVEZA - Nos últimos tempos, para refeições rápidas, tornei-me fã da Go Natural, e acho que é a melhor oferta em Lisboa dentro deste tipo de restaurantes. Dois destaques recentes na loja das Amoreiras e na loja do Saldanha: uma salada de camarão com couve que passou todas as reservas iniciais e uma sanduíche de pão integral com queijo de cabra, beringela e tomate seco. Um reparo apenas – as sanduíches mereciam melhor embalagem, como por exemplo a das melhores sanduíches do mundo que são as da cadeia britânica «Prêt-A-Manger» - incomparáveis em frescura e sabor. Mas a Go Natural para lá caminha – melhorem um pouco mais por favor.

 

BACK TO BASICS – Pobres daqueles que não têm paciência , Shakespeare

 

novembro 14, 2008

A ESTRATÉGIA DE LISBOA

 


(Publicado no diário «Meia Hora» do dia 11 de Novembro)

 


A polémica recente em torno do alargamento do terminal de contentores de Alcântara vem trazer à baila uma outra questão – independente do impacto desse alargamento ou da forma como ele tem sido feito: Lisboa quer ser uma cidade portuária? Deve ser uma cidade terminal de contentores? Qual o posicionamento da cidade? Qual a sua estrágia de desenvolvimento?


Pressuroso de facilitar um negócio privado, o Governo impôs que se pusesse o carro à frente dos bois e – como tem sido desgraçadamente hábito – não cuidou em pensar no assunto.


A questão é esta: se o terminal de Alcântara avançar com a dimensão pretendida Lisboa ficará para sempre com uma marcada vocação de carga portuária – e eu tenho as maiores dúvidas de que isso seja benéfico para a cidade.


Vamos por partes: Portugal tem uma costa de centenas de quilómetros, com uma meia dúzia de cidades com características para poderem ter intensa actividade portuária de contentores. Algumas delas têm até já boas instalações portuárias, nalguns casos subaproveitadas. Lisboa não é portanto a única solução possível e num raio de cem quilómetros existem mesmo várias outras opções.


Lisboa, por outro lado, é uma das raras cidades capitais da Europa que conjuga a proximidade ao mar com um clima excelente e uma riqueza de património invulgares. Nos últimos anos Lisboa tem sido cada vez mais reconhecida como um destino turístico apreciado, muito graças à boa actuação do Turismo de Lisboa. Por outro lado, também nos últimos anos, a cidade tem sido cada vez mais um ponto de passagem de grandes navios de cruzeiros que garantem uma utilização do Porto de Lisboa consentânea com a estratégia de desenvolvimento turístico da cidade.


Qual das actividades beneficia mais a cidade, o seu posicionamento e a qualidade de vida do seus residentes: ser essencialmente um terminal de carga ou ser um destino turístico?  É bom recordar que as duas coisas não são compatíveis – uma cidade terminal de carga (e existem várias na Europa a provar o que digo), não coexiste como destino turístico Premium.  Valia a pena parar para estudar e pensar se queremos uma cidade de carga ou uma cidade de serviços sofisticados. A um ano de eleições uma decisão destas é uma péssima herança deixada para o futuro – é a tentativa de criar um facto consumado. 

 

novembro 10, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 7 de Novembro)

 


APRENDER – Al Ries, o grande mestre norte-americano do marketing e relações públicas , escreveu um fantástico artigo sobre a campanha eleitoral norte-americana no site da revista «Advertising Age»  intitulado «What Marketeers Can Learn From Obama’s Campaign» (http://adage.com/columns/article?article_id=132237) . Começa assim: «Imaginem um homem relativamente desconhecido. Mais novo que os seus rivais. Negro. Com um nome difícil e de má sonoridade. Agora tenham em consideração o seu primeiro rival: a mulher mais conhecida na América, ligada a um dos políticos que maior êxito obteve na História. Tenham também em consideração o seu segundo rival: um herói de guerra bem conhecido e com uma longa carreira, bem sucedida, como Senador. Nada disto teve significado. Barack Obama teve uma estratégia de marketing melhor que a de qualquer deles: Change». O artigo de Al Ries é muito bom, recorda a importância de manter mensagens claras e constantes, compara as campanhas de Hillary Clinton e John McCain com a de Obama, estabelece comparações com campanhas de produtos de consumo e termina sublinhando a importância que teve a consistência da mensagem de mudança, como se criou uma rede em torno do conceito e como essa rede foi montada por forma a que fosse muito fácil entrar nela e participar.

 

ARRISCAR - A campanha de Obama, dirigida por David Axelrod, foi o resultado de muito profissionalismo e de uma dose abundante de sentido de risco. Um grande amigo meu costuma dizer que, se ao longo da vida não tivesse insistindo em fazer as coisas de forma diferente e em estabelecer objectivos elevados, não teria chegado onde chegou. Felizmente chegou longe. Os grandes líderes, na realidade, gostam de desafios que parecem impossíveis e não têm receio em fazer as coisas de forma diferente. Foi este o enorme trunfo de Obama para vencer as eleições. Reparem – o autor dos seus poderosos e surpreendentes discursos é Jon Favreau, que agora tem 26 anos mas que começou a trabalhar com Obama quando tinha apenas 23. Outra das armas de Obama foi a internet – permitiu-lhe recrutar voluntários, organizar um processo de recolha de donativos que obteve os melhores resultados de sempre, criar uma base de dados de votantes que até ao último minuto foi estimulada para exercer o voto. Todos os observadores concordam que do ponto de vista tecnológico a campanha de Obama, baseada em jovens voluntários da área de engenharia informática, apresentou soluções novas, aproveitou as potencialidades do «social networking» e foi, verdadeiramente, uma campanha digna do século XXI. Esta campanha é um verdadeiro ‘case study» de como se deve fazer política hoje em dia.

 

MUDAR - Há duas semanas a revista «Newsweek» pediu a Michael Bloomberg, entre outros, para escrever uma carta ao futuro presidente, com sugestões concretas para a sua acção. O artigo merece ser lido (http://www.newsweek.com/id/165642) porque sai fora dos cânones dos conselhos políticos mais habituais. Um dos pontos fortes do artigo é a forma de conseguir efectivamente fazer reformas, ganhando apoios noutros sectores políticos: a nomeação de um gabinete bipartidário, fazer nomeações tendo apenas em consideração quem é melhor e não quem é da mesma cor, dar a mão aos seus opositores, por forma a que eles tenham dificuldade em romper, fazer as negociações legislativas deixando que toda a gente possa sentir o sabor da vitória em vez de tentar compromissos que acabam por impedir as mudanças – aproveitar as melhores ideias, independentemente de onde elas vêm. Bloomberg deve saber do que fala – trabalhou tão bem que teve uma autorização especial para concorrer a um terceiro mandato para Mayor de Nova York (o limite são dois mas os representantes da cidade decidiram dar-lhe mais uma oportunidade). E em Nova York, gente de todos os partidos e tendências, concorda que a cidade mudou e está melhor com Bloomberg. Aqui está um artigo que os nossos queridos políticos locais deviam ler. E, se possível, seguir.

 

PORTUGAL - O grande problema da lei das nacionalizações é saber como se distingue o interesse público do interesse político – já que os governos gostam de classificar todas as medidas políticas que tomam em nome do tal interesse público. Este é o caminho mais certo para arbitrariedades. Cá para mim na origem da nacionalização do BPN esteve a inveja: o Ministro Teixeira dos Santos devia andar com inveja dos seus colegas nacionalizadores britânico, alemão e norte-americano e vai daí decidiu que não lhes queria ficar atrás. O mais curioso, no entanto, no caso português, é que na origem da decisão não está a actual crise do sistema financeiro, mas sim actos de gestão ocorridos há anos, já denunciados pela actual administração do Banco e sobre os quais o Banco de Portugal nada fez.

 

VER – Agora no rescaldo das eleições norte-americanas ainda é mais divertido ver «Destruir Depois de Ler», o filme dos irmãos Ethan e Joel Cohen que parodia os serviços secretos dos Estados Unidos e as obsessões dos americanos com interpretações deliciosamente cabotinas de John Malkovich, George Clooney e Brad Pitt.

 

OUVIR - «Night & The Music», o refrescante CD do trio do pianista Fred Hersch, provavelmente o melhor novo disco de jazz que ouvi nos últimos meses. Com base na mais clássica das formações de jazz, o trio, Hersch aventura-se na exploração de novas sonoridades. Descobri-o na discoteca Trem Azul, Rua do Alecrim 21 A.

 

PROVAR – Sempre deliciosas a muqueca de camarão e a feijoada à brasileira do restaurante «Barra do Quanza», uma boa alternativa para quem quer ir ao fim de semana ver o rio e já está fartinho de peixe grelhado. Preços razoáveis, bom vinho branco da casa, caipirinha excelente sem açúcar a mais. Clube Naval de Lisboa, Doca de Belém, Av de Brasília, tel. 213620697.

 

BACK TO BASICS – Nunca voto em ninguém, voto sempre contra alguma coisa, W.C. Fields.

LISBOA DESPREZADA

 


(Publicado no diário Meia Hora de 3 de Novembro)

 

 

Governar o que quer que seja não é fácil, governar uma grande cidade ainda menos. Lisboa é um exemplo das dificuldades que toda a gente tem, sem excepção. Quando António Costa foi eleito fez uma série de promessas. Para além das de gestão corrente, garantiu que queria uma cidade mais humana, que queria uma cidade mais habitada, que queria uma cidade mais virada para o rio, onde fosse mais agradável viver. É um programa comum que poderia ser subscrito por muita gente. No entanto, nas últimas semanas, os factos têm contrariado as boas intenções, as boas declarações, as promessas eleitorais.

Comecemos pelo caso do alargamento do terminal dos contentores – qualquer pessoa que se preocupe com a qualidade de vida na cidade preocupa-se com a decisão que o Governo impôs à Câmara, e que António Costa aceitou. O assunto é este: «A ampliação da capacidade do terminal de contentores de Alcântara que o Governo inoportunamente se propõe levar por diante implicará a criação de uma muralha com cerca de 1,5 quilómetros com 12 a 15 metros de altura entre a Cidade de Lisboa e o Rio Tejo. A zona de Alcântara estará sujeita a obras durante um período previsto de 6 anos, impossibilitando assim a população de aceder ao rio pelas “Docas”, levando ao fecho de toda a actividade lúdica desta zona, pondo em risco 700 postos de trabalho. Os terminais de contentores existentes nos portos de Portugal no final de 2006 tinham o dobro da capacidade necessária para satisfazer a procura do mercado.»

Como se isto não chegasse fiquei a saber pelos jornais de fim-de-semana que a Câmara se prepara para abandonar o projecto de uma zona residencial em Entrecampos, sobretudo destinada aos mais jovens, e em seu lugar quer construir mais escritórios. Eu trabalho nas Avenidas Novas e vejo a quantidade de escritórios que ali estão vazios, há anos, sem encontrarem ocupante. O cenário repete-se por toda a cidade. Lisboa não tem falta de escritórios, tem é falta de pessoas, de residentes. Não há emprego para tanta área de escritórios – mas é certo que eles são potencialmente mais rentáveis que habitações para arrendamento a preços não especulativos.

No fim a conversa é sempre a mesma: promove-se o que é mais rentável para interesses particulares, abandona-se o que é mais importante para fazer reviver a cidade e dar conforto a quem a habita.

 

novembro 03, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Outubro de 2008

 


FAZER - Um país que não produz vale pouco por mais auto-estradas, aeroportos e linhas de TGV que se construam. Numa apresentação realizada na semana passada pela Associação Empresarial Portuguesa em Lisboa, o seu dinâmico Vice-Presidente, Paulo Nunes de Almeida, chamou a atenção para um dado pouco falado: nos primeiros seis meses do ano o déficit externo português subiu 36% em relação a período homólogo do ano passado - quer dizer, produz-se menos, importa-se mais. E fiquei a pensar: quilómetros de alcatrão não são exportáveis - a qualidade da manufactura é. Num período em que muitas empresas começam a desconfiar da qualidade chinesa, há uma oportunidade para os produtos de qualidade feitos em Portugal. O futuro passa por aí, mais do que por gigantescas obras públicas que podem ter efeitos no curto prazo mas não são feitas a pensar no futuro.  

 


 


CRIAR - Fiquei fã de Aníbal Campos, Presidente da Silampos, que numa entrevista recente não poupou nas palavras - e com razão: «Bruxelas tornou-se um Kremlin, uma instituição de burocratas que venderam a ideia de que era possível viver sem produzir». E mais adiante: «Sou a favor da globalização, mas com regras. (...) Os produtos que vêm da China não têm de cumprir regras e ninguém fiscaliza. A questão da marca CE é uma questão muito interessante - é divulgada como sendo China Export». E, ainda: Se um europeu exporta para a América do Sul «pagam-se taxas absurdas de 60 a 70%, o caso do Brasil é um escândalo porque os produtos brasileiros entram na Europa com taxas de 4%».  

 


 


MUDAR - Cá para mim quem tem razão é José Miguel Júdice na análise que faz do Estado da Nação: segundo ele Portugal está como os Estados Unidos -  precisa de reforçar a classe média, de garantir  maior justiça fiscal e de conseguir renovar o sonho de uma vida melhor. Só que eu não vejo maneira de isso acontecer. Estamos na recta final de um mandato de quatro anos de maioria absoluta onde as promessas cumpridas foram poucas e as reformas cheias de zigue-zagues. Quando o Primeiro Ministro pede uma nova maioria absoluta para poder governar tenho as minhas dúvidas de que o cheque em branco seja merecido. Mas também percebo que, com a oposição que existe, dificilmente se conseguirá fazer melhor. 

 


 


VER – Gostei do documentário de Bruno de Almeida que ganhou uma menção honrosa no Doc Lisboa deste ano, «Homeostéticos b=0». Partindo de um belíssimo trabalho de recolha de arquivos e de depoimentos, de um guião muito bem construído e de uma montagem sóbria e eficaz, o documentário, de uma hora, ajuda a perceber o percurso de artistas que deixaram um marca para além do período em que se tornaram conhecidos: Pedro Portugal, Ivo, Manuel João Vieira, Xana, Pedro Proença e Fernando Brito. Parabéns à voz que faz a narração, de forma exemplar e à produção da Midas Filmes. Deixo uma frase tirada do filme: «Estamos sem porcos a quem darmos as pérolas».  

 

 


LER -   Bem sei que isto se está a tornar repetitivo, mas cada nova edição da revista «Monocle» é um motivo de recomendação. Neste número de Novembro o tema de capa é a forma como o design pode ajudar a diplomacia – e faz-se um levantamento de embaixadas por esse mundo fora que são amostras das culturas e talentos dos países que representam. Também nesta edição é muito interessante ver como o organismo britânico de comércio externo, «UK Trade & Investment» chama a atenção em duas páginas editoriais para o sector criativo no Reino Unido. A terminar uma belo ensaio fotográfico acompanhado por um informativo artigo sobre a arte milenar do Sumo japonês, essa antiga forma de luta que privilegia a táctica e a sabedoria sobre a força.  

 

 

 


DESCOBRIR – Os desenhos e esboços de Cruzeiro Seixas, feitos em pedaços de papel, expostos até dia 8 de Novembro na Galeria Arque, Avenida Miguel Bombarda 120 A. É uma colecção invulgar, de rabiscos ocasionais, mas que no entanto ganham sentidos quando expostos desta forma.    

 


PETISCAR - O Nobre voltou a Lisboa e está no Campo Pequeno. Mesmo coisas simples podem ser surpreendentes, como a salada de polvo, servida de entrada. Bom pão, bom azeite para acompanhar, vinho a copo honesto e de preço aceitável. Nos pratos do dia havia uma miscelânea de peixe fino com gambas, em molho de côco com puré de coentros e um  bacalhau à Spazio, com espinafres, amêndoas torradas, lascas de bom bacalhau e umas batatas ao redor. Serviço exemplar. Avc. Sacadura Cabral 53 B, tel 217 970 760. 

 


 


OUVIR – Inesperado, arrebatador, surpreendente – bastam três palavras para descrever o novo disco de Charlie Haden, um divertido projecto nascido de explorações de sonoridades tradicionais, dos blues ao country, em que participam nomes como Rosanne Cash, Elvis Costello, Pat Metheny, Bruce Hornsby e Vince Gill, entre outros. Também alguns familiares de Haden dão uma ajuda num disco apropriadamente intitulado «Family & Friends». É um disco despretencioso e divertido, cheio de pequenas descobertas, como o próprio Haden a cantar. 

 

 


BACK TO BASICS – Penso sobre os aviões a mesma coisa que sobre as dietas – são óptimos para outras pessoas experimentarem – Jean Kerr 

 

 

O MAU CHEIRO DA GASOLINA NA AVENIDA

 


(Publicado no diário Meia Hora de 28 de Outubro de 2008)

 

Sinceramente não consigo perceber o que pode passar pela cabeça de um Presidente da Câmara para deixar transformar a mais prestigiada e importante avenida da sua cidade num misto de stand de automóveis com uma pista de corridas.

Sinceramente não percebo nem compreendo porque é que António Costa permitiu que a Avenida da Liberdade fosse encerrada ao trânsito durante dois dias para servir de palco a uma manobra publicitária algo terceiro-mundista de uma marca de automóveis.

Sinceramente não entendo como o tão ecologista António Costa, conhecido em tempos eleitorais por correr em cima de um burro contra um Ferrari, permitiu a dose de poluição sonora e atmosférica que um motor de Fórmula Um provoca no meio de uma cidade.

Por muito que me esforce não consigo compreender de onde vem esta arrogância, este desrespeito pelos munícipes, pelos comerciantes que pagam taxas elevadas, por quem vive e trabalha na cidade. A decisão de deixar fazer o que aconteceu neste passado fim-de-semana na Avenida da Liberdade é próprio de basbaques deslumbrados e algo provincianos, que se encantam com pouco e acham que podem usar o espaço público em seu benefício, sob o pretexto de dar um bocadinho de espectáculo ao povoléu – a maior parte não votante em Lisboa, aposto. Costa deve ter-se inspirado no cheiro a gasolina que ilumina outro autarca do género, Rui Rio, que transformou as margens do Douro numa pista de corridas para aviões. Bem sei que os dois, Costa e Rio, são dados a acordos privados em matéria politiqueira, mas agora ficámos a saber que ambos partilham também do gosto em poluir as suas cidades e em abusarem do poder que têm.

Acham que a marca de automóveis que fez este dislate, francesa de origem, conseguiria fazer tamanha arruaça em Paris, nos Champs Elysées? Estão a ver isto acontecer em Londres ou Nova York nas ruas onde as lojas das marcas de prestígio se encontram?

A questão de fundo é a de saber até que ponto é legítimo deixar usar espaço público de uma cidade desta forma, que incomoda, perturba, prejudica e polui. No dia das eleições autárquicas em Lisboa lembrem-se disto - esteja Costa sózinho ou coligado.

(Já agora, estranhei que o sempre diligente José Sá Fernandes não tivesse interposto uma providência cautelar para impedir o evento).

 

Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Outubro de 2008

 


DEBATE – Aguardo com expectativa que a ERC emita as suas instruções editoriais sobre a forma como devem ser montados os debates que envolvam Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino. É que no Domingo passado, no debate em directo a propósito das eleições nos Açores, Marcelo arrasou de tal forma Vitorino que tão cedo ele não deve querer outra vez um frente a frente destes. De modo que resta à ERC regulamentar o tempo de antena de Vitorino para ele brilhar sozinho, que é como brilha melhor.

 

OPORTUNIDADE – É inegável que o Primeiro Ministro geriu com sentido de oportunidade e eficácia a resposta do Governo à situação desencadeada pela crise dos mercados financeiros. Conseguiu responder a dois níveis – por um lado com medidas imediatas para diminuir os riscos em Portugal; e, por outro, aproveitou bem o momento para lançar uma série de medidas no Orçamento de Estado do próximo ano que o vão ajudar bastante no ciclo eleitoral que aí vem. O contraste com o apagamento da oposição foi dramático. Por este andar Sócrates ganha o jogo por falta de comparência do adversário.

 

ELEIÇÕES – Resumo das eleições nos Açores: maior abstenção, menos votantes, o PS reforçou a maioria absoluta mas com menor número de votos que na eleição anterior. Quer-me parecer que o início do ciclo eleitoral não trouxe boas notícias em termos da saúde do sistema democrático e partidário. E não me surpreendo se nas eleições gerais, autárquicas e europeias do próximo ano este cenário de alheamento dos cidadãos voltar a ocorrer. Tudo caminha nesse sentido…

 

VER – Vale a pena ir a Coimbra, à Quinta das Lágrimas, ver a exposição que o colectivo de artistas «Laboratório Afectos» lá montou, por iniciativa da dinâmica Galeria Sete, um espaço coimbrão de arte contemporânea. O desafio proposto aos 11 artistas convidados foi o de explorarem o tema dos afectos à sombra da história do amor de D. Pedro e de Inês de Castro. Destaco as obras de Pedro Valdez Cardoso, de Maria Pia Oliveira, de Ana Fonseca e de Cristina Ataíde, todas elas surpreendentes no conceito, na forma e no resultado final obtido. Desde a alcova secreta do encontro de amantes interpretado por Maria Pia Oliveira, até à violência da História mostrada por Pedro Valdez Cardoso, passando pelo labirinto de desejos que compõem a paixão de Cristina Ataíde ou a permanente provocação que alimenta as fantasias, mostrada por Ana Fonseca, a exposição invadiu os jardins da Quinta das Lágrimas dando oportunidade aos visitantes de se confrontarem com a arte contemporânea em cruzamento com um local histórico.

 

PENAR – Quando se sai da Quinta das Lágrimas em direcção a Lisboa o mais natural é perderem-se se não conhecerem os cantos às cidades. Eu sei que as cidades de província são ciosas em guardar os seus visitantes, mas Coimbra faz penar um suplício com a falta de sinalização, a sua diminuta dimensão, a dificuldade de visualização. Este problema, no entanto, não afecta só Coimbra. Os responsáveis pela colocação de sinalização dentro de cidades devem achar que toda a gente conhece os caminhos e vai daí desprezam os incautos viajantes que apenas procuram direcções para seguirem para outro destino. É muito irritante.

 

LER – Fareed Zakaria, editor internacional da Newsweek, tem-se destacado pela sua análise da actual crise. Um livro que editou este ano, «O Mundo Pós-Americano» é uma obra fundamental para compreender o que se passa, como o Mundo se está a transformar. Com uma forma de escrita cativante, Zakaria junta factos e números, sugere interpretações, propõe hipóteses. Com uma simplicidade fascinante o autor descreve o que se passa nas novas grandes potências, aborda o peso das diferentes culturas e religiões, analisa o que se passa no ensino, na indústria e nas alterações geoestratégicas. Muito provavelmente este é o mais fascinante livro que este ano me passou pelas mãos. «O Mundo Pós-Americano», Fareed Zakaria, 251 pgs, editado pela Gradiva.

 

PETISCAR – Querem uma sugestão para um petisco de meio da tarde num fim de semana ou para uma entrada fria? Experimentem as «Enguias de Portugal em Molho de Escabeche» produzidas pela fábrica de conservas da Murtosa (Comur), numa inconfundível embalagem verde e amarela. A receita é a tradicional da região – as enguias, depois de fritas, são temperadas num escabeche e assim ficam à nossa espera até que a lata se abra. Com um bom pão e rabanetes às rodelas para ir alternando, o sucesso é garantido.

 

OUVIR – A prestigiada editora de Jazz Verve está a reeditar algumas das suas gravações clássicas numa série que tem o nome de «Originals» que inclui várias gravações feitas sob a influência da descoberta da bossa nova pelos norte-americanos. Recomendo «Big Band Bossa Nova» com Stan Getz e a orquestra de Gary McFarland (1962), «Piano, Strings And Bossa Nova» pelo pianista Lalo Schifrin (1962) e «Bossa Nova» do cantor brasileiro Luiz Bonfa, com Lalo Schifrin e Oscar Castro Neves, gravado em Nova York a 30 e 31 de Dezembro de 1962 – um ano de descobertas.

 

BACK TO BASICS – A vida sem datas marcantes tinha menos graça – Prixarde D.

 

outubro 22, 2008

POBRE CULTURA

(Publicado no diário MeiaHora de 21 de Outubro)


 


A estimativa de execução orçamental do Ministério da Cultura para 2008 é de 217,7 milhões de euros. Na proposta de Orçamento de Estado para 2009 a despesa prevista no Ministério da Cultura é de 212,6 milhões de euros, cerca de cinco milhões de euros a menos, um decréscimo, de facto, de 2,3 por cento. No programa do actual executivo, aprovado na Assembleia da República, dizia-se: «O compromisso do Governo, em matéria de financiamento público da cultura, é claro: reafirmar o sector como prioridade na afectação dos recursos disponíveis. Neste sentido, a meta de 1% do Orçamento de Estado dedicada à despesa cultural continua a servir-nos de referência de médio prazo». Na realidade, como apontava em Setembro a Deputada Ana Drago na Assembleia da República, a percentagem do investimento na Cultura no Orçamento de Estado tem sempre vindo a diminuir e não a aumentar – em 2001 era de 0,7% e em 2008 já tinha caído para 0,2%. Este ano, pelos vistos, mantém-se o pobre panorama. O mesmo Programa de Governo afirmava que uma das prioridades do executivo PS seria «retirar o sector da cultura da asfixia financeira». Não é isso que se tem passado – o sector hoje está mais débil, as estruturas independentes existentes vivem com maiores dificuldades, continua a não se fazerem investimentos necessários na internacionalização de criadores portugueses e a conservação do Património foi várias vezes notícia ao longo deste ano pelas piores razões – falta de verbas. No meio deste panorama o Ministro da Cultura faz uma habilidade para defender politicamente o Governo: em vez de comparar a estimativa de execução orçamental com o orçamento proposto para o próximo ano, pega no valor que estava indicado na primeira versão do Orçamento para 2008 para encontrar forma de dizer que o sector cresce – feitas as contas dessa estranha maneira (ai que mal vai o ensino da matemática…) o Ministro encontrou um crescimento de 0,4 por cento. Já agora vale a pena comparar esta afirmação do Ministro Pinto Ribeiro, com a da sua antecessora, Isabel Pires de Lima, há um ano: nessa altura reivindicava ela um aumento de 9,2 por cento no Orçamento da Cultura. A ser assim só se pode concluir que, seja qual fôr a forma de fazer as contas, o peso político e a importância dada pelo Governo á Cultura está em queda livre.

Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Outubro

ELEIÇÕES – A notícia do arranque formal da campanha eleitoral do Governo foi dada com a proposta de Orçamento de Estado para 2009, que contempla o catálogo de medidas eleitoralistas a aplicar no decurso da campanha. Na mesma semana o Primeiro Ministro sublinhou a importância da manutenção do calendário das grandes obras públicas previstas e mereceu logo um significativo coro de aplausos daqueles empresários portugueses que gostam mais de trabalhar para o Estado do que de procurar clientes no mercado. É engraçado comparar o esforço do Estado nessas obras com incentivos à exportação ou estímulos à criação de novas empresas. Recordo aqui que ainda há pouco tempo o Presidente da República chamou a atenção para o facto de os empresários deverem ter em conta o mercado real dos consumidores e não o mercado manipulado das encomendas do Estado e das obras públicas. O desenvolvimento de um país é o resultado não da capacidade de lobby no aparelho de Estado, mas sim do êxito no mercado. Confundir Estado com mercado é um vício penoso que se tornou numa praga em Portugal.


 


CRISE – Nestas semanas de crise a mais completa e elucidativa cobertura, entre as revistas generalistas, tem sido a da «Newsweek», e isto porque procura perceber as razões do que sucedeu e avançar pistas para o futuro. Na edição de dia 13 a revista publicava um artigo do historiador Francis Fukuyama, «The Fall of America Inc» (pode ser visto em http://www.newsweek.com/id/162401 ), que analisava o que ao longo dos anos levou à situação actual, em que uma certa forma de capitalismo colapsou. Será possível restaurar a confiança na marca «América»? - pergunta Fukuyama provocatoriamente. Vale a pena ler o artigo, é absolutamente brilhante. Também imperdíveis têm sido os artigos do redactor-estrela da revista, Fareed Zakaria, cheios de dados, recordando a sucessão de factos que levaram ao colapso do sistema financeiro, mas também sugerindo soluções para ultrapassar a crise e mostrando que todas as crises têm um lado positivo.


 


BOATARIA – Passadas duas semanas, vale a pena lembrar que, segundo o «Expresso», a primeira referência sobre problemas «em dois pequenos bancos» terá sido criada a partir de uma declaração do Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, numa reunião com os cinco maiores bancos portugueses. O mais curioso é que na semana seguinte foi o mesmo Vítor Constâncio quem veio atacar a boataria sobre problemas na Banca portuguesa. É de mim ou isto é tudo um bocadinho esquisito?


 


PETISCAR – As reconciliações são sempre momentos felizes. Foi o que me aconteceu um destes dias quando me reconciliei com o Salsa e Coentros, um restaurante marcado pela gastronomia alentejana e que, há uns largos meses, me tinha desiludido no serviço, na forma como os clientes eram tratados, no ambiente geral. Passado um patamar médio da qualidade da cozinha, a forma como um restaurante recebe, a simpatia no atendimento de marcações, a forma como se processa o serviço na refeição, são tudo coisas que contam. Comer fora não é encher o bandulho, é suposto ser um momento de prazer e não um castigo ou sacrifício. Alguns restaurantes portugueses gostam de tratar os clientes como uns meros maçadores e assumem uma postura arrogante. Deste mal me queixava eu em relação ao Salsa e Coentros, mas a situação mudou e desta vez senti-me bem e comi melhor. A escolha foi uma perdiz de fricassé que estava perfeita. Roubando uma garfada ao vizinho do lado conatatei que a empada de perdiz estava igualmente boa. As batatas fritas às rodelas, finíssimas e no ponto, estavam perfeitas. Aqui está um sítio onde terei gosto em voltar. Rua Coronel Marques Leitão nº12 (perto da Avenida Rio de Janeiro, Alvalade). O telefone é o218410990.


 


OUVIR – David Oistrakh (1908-1974) foi um dos mais extraordinários violinistas de sempre. Por ocasião do centenário do seu nascimento a Deutsche Grammophon juntou algumas das suas gravações mais representativas, interpretações emocionantes de obras de Mendhelsson, Bruch, Prokofiev, Chausson, Ravel, Glazunov e Kabalevski, registadas entre 1948 e 1961, numa selecção cuidada de registos de origens e épocas muito diversas. A edição inclui ainda um CD extra, com gravações raras, de 1952, em que Oistrakh é acompanhado ao piano por Vladimir Yampolsky. Triplo CD «Concertos And Encores», Deutsche Grammophon.


 


LER – Os conflitos religiosos, a condição humana, a fé, as guerras em que os Estados Unidos se envolvem no exterior e, claro, o conflito entre a moral e o sexo, são os temas do novo livro de Philip Roth, «Indignation», a sua 29ª obra. Considerado com um dos grandes escritores contemporâneos, Roth localiza a acção em 1951, na época da Guerra da Coreia e num jovem estudante universitário, Marcus Messner, proveniente de uma família judia ortodoxa, em conflito com a religião, inadaptado no ambiente que descobre na universidade. O livro contém descrições brilhantes de lugares e de situações – à mistura com considerações e formas de ver o mundo - e desenrola-se num ambiente de crescentes conflitos, que culmina numa irreversível ruptura – com a vida. «Indignation», 233 páginas, edição Houghton Mifflin, comprado na Amazon.


 


BACK TO BASICS – Um político pensa apenas no seu próximo acto eleitoral, um estadista pensa na próxima geração (James Clark).

ESQUECIMENTOS

 


(Publicado no diário Meia Hora de 14 de Outubro)

 

Ele há dias em que não se sabe muito bem o que se passa neste estimado rectângulo à beira-mar plantado. Dizem-se umas coisas, atribuem-se umas responsabilidades, clamam-se por louros, mas depois nada se passa e ninguém gosta de exercitar a memória. Querem exemplos? Aí vai.

Durante meses e meses falou-se do Tratado de Lisboa como se o mundo dele dependesse. Há um ano o Governo considerava o documento uma importante vitória diplomática portuguesa. O Tratado esvaíu-se, ninguém fala dele - muito menos no meio desta crise – e o mais certo é que dele não fique rasto na História.

Durante os primeiros dois anos deste Governo a Cultura andou em bolandas sem se perceber o que a Ministra fazia no Palácio da Ajuda. Depois mudou-se o inquilino mas ele só dá sinal de vida em algumas cerimónias oficiais. Para uma série de efeitos práticos o Ministro que desenvolve acções na área da Cultura é o da Economia. Exemplos? Basta ver o que está agendado para Serralves, um programa em torno da Criatividade, em que o protagonista governamental é Manuel Pinho.

O campeão do jogo de cintura é no entanto Mário Lino, o homem que garante que tudo vai avançar e se tornou especializado em guiar em marcha-atrás. Confrontado com a necessidade de dar trabalho aos empreiteiros, desdobra-se em projectos que vão sendo adiados, modificados, e lá vai permanecendo com um ar bonacheirão a estreitar a influência francófona em Portugal, marcando as suas mais bombásticas declarações com palavras francesas – para todos os efeitos ele ficará conhecido como Monsieur Jamais.

Outro sector que sofre de amnésia galopante e tem esquecimentos frequentes é o Ministério da Educação. Se confrontarmos as intenções anunciadas com as realidades actuais, as diferenças são enormes. Pelo meio esqueceu-se de fazer avaliações rigorosas aos alunos, optando por nivelar por baixo, e abandonou as avaliações aos professores. Mas o campeão do esquecimento é Sócrates, o mais legítimo herdeiro do cognome «O Promessas», surgido nos últimos anos. Das dezenas de promessas de reformas anunciadas vai chegar ao fim da legislatura com uma taxa de execução pobre e percentualmente diminuta. Espero que alguém lhe lembre, nessa altura, aquilo que ele vai ter tendência em esquecer – tudo o que falhou.

 

PUBLICADO NO JORNAL DE NEGÓCIOS DE 10 DE OUTUBRO

 


POLÍTICA - É muito curioso ver como os norte-americanos encaram e debatem as eleições presidenciais. Mesmo publicações científicas não hesitam em dar conselhos aos seus leitores sobre a forma como devem analisar os candidatos. A edição de 26 de Setembro da prestigiada «Science» sugere que cada leitor faça a sua análise a partir deste raciocínio: « como encara cada um dos candidatos a Ciência? Quais são as suas prováveis nomeações para os cargos científicos de designação presidencial?» E vai mais longe: é bom aconselhar os candidatos, questioná-los em debates com perguntas concretas sobre políticas concretas na área da ciência. E o circunspecto «New England Journal Of Medicine», de 2 de Outubro, não hesita: «Devemos ver quais os pensamentos dos candidatos sobre políticas de saúde, sobre a reforma do sistema e que soluções criativas trazem para esta área». Que bom seria se em Portugal as instituições e as pessoas começassem a pensar e a agir assim.

 

SARAMAGO – Curioso e educativo o comunicado da Federação dos Invisuais dos Estados Unidos sobre o filme «Blindness», baseado no romance «Ensaio Sobre a Cegueira», do Nobel José Saramago. Excertos: «Condenamos e deploramos este filme, mau para a causa dos invisuais. Os invisuais, neste filme, são retratados como incompetentes, sujos, viciosos e depravados. Aparecem retratados como sendo incapazes de fazer as coisas mais simples como vestirem-se e tomarem banho ou até encontrarem o WC. A verdade é que os invisuais geralmente podem fazer quase tudo o que as pessoas com visão fazem». Ora que dirá Saramago desta politicamente correctíssima análise do seu romance?

 

COISAS - Pragmatismo, pragmatismo é o Estado encomendar milhares de computadores a um fabricante que anda às voltas com um processo de incumprimento fiscal. Esta semana soube-se que os fabricantes do «Classmate» da Intel em Portugal, baptizado como «Magalhães» pelo Governo, têm sérios problemas com o fisco e assistiu-se a uma muralha de silêncio do Eng Sócrates, que até aqui tem sempre elogiado fartamente a empresa. Ora aqui está o caso de um fabricante que gosta de ter o Estado como principal cliente…e pelos vistos financiador…

 

TELEVISÃO - Olho para os últimos números de audiências dos três principais canais e constato a persistência da SIC no terceiro lugar. Olho para a programação destes três canais e vejo demasiados pontos de contacto e falta de uma oferta diversificada. Olho para os resultados e vejo uma TVI triunfante, a aumentar a sua distância na liderança. Ponho-me a olhar para a Impresa e os seus sinas de instabilidade (por exemplo na área comercial) e começo a pensar: será que o total dos leitores da «Visão» e do «Expresso» - um total de 1,3 milhões de pessoas - se revêem na programação da televisão do grupo? Poderá existir um canal generalista para públicos mais exigentes em termos de conteúdos? Como é que o futuro 5º canal se irá implantar, em termos de tipologia de programação, neste universo saturado de novelas, concursos e entretenimento corriqueiro? Num mundo que começa a questionar a eficácia dos sistemas tradicionais de planeamento publicitário e compra de espaço comercial em televisão -. o que quer dizer começar a pôr em dúvida o critério único dos GRP’s - a questão da qualidade das audiências volta a estar em cima da mesa. Fará sentido anunciar em simultâneo o mesmo produto, por exemplo, na «Visão», «Expresso» e «Sic»? Uma metodologia relativamente recente, que analisa os pontos de contacto dos públicos com os media, defende que esse tipo de planeamento é um desperdício numa sociedade em que o consumo da comunicação é cada vez mais fragmentado.

 

LER – Mais um debate lançado na edição de Outubro da revista »Monocle», cada vez mais indispensável para pensar o futuro das cidades. A revista defende que não basta ser criativo, é preciso ser produtivo e sublinha a importância das pequenas indústrias, das pequenas manufacturas e do comércio especializado para dinamizar e tornar únicos os centros urbanos. Quem se passeia nas animadas ruas de cidades como Nova Iorque é isso mesmo que constata – comércio diversificado sempre aberto, abundante escolha, pequenas oficinas ou ateliers um pouco por todo o lado mesmo no centro de Manhattan. É isso que faz a vida de uma cidade. Qualquer candidato às próximas autárquicas numa cidade devia folhear com atenção as edições deste ano da «Monocle» - poderia fazer um manifesto eleitoral diferente e bastante mais inteligente que o habitual somatório de lugares comuns. Nesta edição por acaso a revista recomenda cinco locais lisboetas: o Hotel Heritage Solar no Castelo de S. Jorge, o restaurante Galito, a loja «A Vida Portuguesa» (abundante sortido de galos de Barcelos com decorações inesperadas), os gelados de «A Veneziana» e o terraço do Bairro Alto Hotel. Boas escolhas.

 

OUVIR – O disco é surpreendente: mistura interpretações orquestrais com duetos entre guitarra e plano, recupera as vozes de James Taylor ou Renée Fleming em temas tradicionais e clássicos. A ideia veio de dois músicos de jazz, do pianista Dave Grusin e do guitarrista Lee Ritenour e inclui originais dos próprios e versões de obras de Fauré, António Carlos Jobim, Ravel ou Handel, entre outros. «Amparo» é dos discos mais surpreendentes e excitantes deste ano. CD edição Decca/Universal Music.

 

COMER – Regresso ao velho «Pote», no número7 D da Avenida João XXI, já a chegar ao Areeiro. Ao jantar, a meio da semana, sala meio cheia, serviço simpático – algumas caras que me lembram rostos de há uns 30 anos. O «Pote» é um clássico da zona da Avenida de Roma e mantém-se em grande forma – tal como as favas que nesse dia me serviram. Do outro lado da mesa o salmão grelhado estava suculento e no final um pudim flan à fatia, sem ar sintético, e um melão honesto, tudo a preços simpáticos. Telefone 218 486 397.

 

BACK TO BASICS – Num mundo cheio de opiniões em segunda mão, o importante é conhecer os factos em primeiro lugar – lema do «New York Times».