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novembro 14, 2008

A ESTRATÉGIA DE LISBOA

 


(Publicado no diário «Meia Hora» do dia 11 de Novembro)

 


A polémica recente em torno do alargamento do terminal de contentores de Alcântara vem trazer à baila uma outra questão – independente do impacto desse alargamento ou da forma como ele tem sido feito: Lisboa quer ser uma cidade portuária? Deve ser uma cidade terminal de contentores? Qual o posicionamento da cidade? Qual a sua estrágia de desenvolvimento?


Pressuroso de facilitar um negócio privado, o Governo impôs que se pusesse o carro à frente dos bois e – como tem sido desgraçadamente hábito – não cuidou em pensar no assunto.


A questão é esta: se o terminal de Alcântara avançar com a dimensão pretendida Lisboa ficará para sempre com uma marcada vocação de carga portuária – e eu tenho as maiores dúvidas de que isso seja benéfico para a cidade.


Vamos por partes: Portugal tem uma costa de centenas de quilómetros, com uma meia dúzia de cidades com características para poderem ter intensa actividade portuária de contentores. Algumas delas têm até já boas instalações portuárias, nalguns casos subaproveitadas. Lisboa não é portanto a única solução possível e num raio de cem quilómetros existem mesmo várias outras opções.


Lisboa, por outro lado, é uma das raras cidades capitais da Europa que conjuga a proximidade ao mar com um clima excelente e uma riqueza de património invulgares. Nos últimos anos Lisboa tem sido cada vez mais reconhecida como um destino turístico apreciado, muito graças à boa actuação do Turismo de Lisboa. Por outro lado, também nos últimos anos, a cidade tem sido cada vez mais um ponto de passagem de grandes navios de cruzeiros que garantem uma utilização do Porto de Lisboa consentânea com a estratégia de desenvolvimento turístico da cidade.


Qual das actividades beneficia mais a cidade, o seu posicionamento e a qualidade de vida do seus residentes: ser essencialmente um terminal de carga ou ser um destino turístico?  É bom recordar que as duas coisas não são compatíveis – uma cidade terminal de carga (e existem várias na Europa a provar o que digo), não coexiste como destino turístico Premium.  Valia a pena parar para estudar e pensar se queremos uma cidade de carga ou uma cidade de serviços sofisticados. A um ano de eleições uma decisão destas é uma péssima herança deixada para o futuro – é a tentativa de criar um facto consumado. 

 

novembro 10, 2008

LISBOA DESPREZADA

 


(Publicado no diário Meia Hora de 3 de Novembro)

 

 

Governar o que quer que seja não é fácil, governar uma grande cidade ainda menos. Lisboa é um exemplo das dificuldades que toda a gente tem, sem excepção. Quando António Costa foi eleito fez uma série de promessas. Para além das de gestão corrente, garantiu que queria uma cidade mais humana, que queria uma cidade mais habitada, que queria uma cidade mais virada para o rio, onde fosse mais agradável viver. É um programa comum que poderia ser subscrito por muita gente. No entanto, nas últimas semanas, os factos têm contrariado as boas intenções, as boas declarações, as promessas eleitorais.

Comecemos pelo caso do alargamento do terminal dos contentores – qualquer pessoa que se preocupe com a qualidade de vida na cidade preocupa-se com a decisão que o Governo impôs à Câmara, e que António Costa aceitou. O assunto é este: «A ampliação da capacidade do terminal de contentores de Alcântara que o Governo inoportunamente se propõe levar por diante implicará a criação de uma muralha com cerca de 1,5 quilómetros com 12 a 15 metros de altura entre a Cidade de Lisboa e o Rio Tejo. A zona de Alcântara estará sujeita a obras durante um período previsto de 6 anos, impossibilitando assim a população de aceder ao rio pelas “Docas”, levando ao fecho de toda a actividade lúdica desta zona, pondo em risco 700 postos de trabalho. Os terminais de contentores existentes nos portos de Portugal no final de 2006 tinham o dobro da capacidade necessária para satisfazer a procura do mercado.»

Como se isto não chegasse fiquei a saber pelos jornais de fim-de-semana que a Câmara se prepara para abandonar o projecto de uma zona residencial em Entrecampos, sobretudo destinada aos mais jovens, e em seu lugar quer construir mais escritórios. Eu trabalho nas Avenidas Novas e vejo a quantidade de escritórios que ali estão vazios, há anos, sem encontrarem ocupante. O cenário repete-se por toda a cidade. Lisboa não tem falta de escritórios, tem é falta de pessoas, de residentes. Não há emprego para tanta área de escritórios – mas é certo que eles são potencialmente mais rentáveis que habitações para arrendamento a preços não especulativos.

No fim a conversa é sempre a mesma: promove-se o que é mais rentável para interesses particulares, abandona-se o que é mais importante para fazer reviver a cidade e dar conforto a quem a habita.