dezembro 02, 2008

A NOVA REALIDADE

(Publicado no diário Meia Hora de 2 de Dezembro)

 


Daqui a um mês vai começar o ano de todas as eleições: legislativas, europeias e autárquicas. E vai ser um teste ao plano que José Sócrates vem pacientemente construindo, desde que assumiu o poder no PS, e começou uma persistente e bem sucedida estratégia de se tornar, sozinho, o partido do Bloco Central. Claro que nisto foi ajudado pelas permanentes fracturas do PSD e sobretudo por uma total falta de rumo na direita portuguesa.


De uma forma simples, mas eficaz, o PS adoptou posições liberais, empreendeu reformas (anunciou-as com alarde mesmo que efectivamente não tenha conseguido finalizar muitas delas) e, sobretudo, fez alianças com sectores sociais e económicos (cedo percebeu que na sociedade portuguesa são estas alianças, mais que as partidárias, as que trazem retorno eleitoral futuro e alguma base de apoio no presente). Pelo caminho atacou bandeiras tradicionais da esquerda – por exemplo na área da saúde – mas teve sempre o cuidado de procurar novas bandeiras – na sociedade de informação, nas tecnologias, em programas especiais de formação.


Sócrates atacou grupos profissionais que eram base importante do seu eleitorado – os professores – procurando que o Ministério da Educação se preocupasse mais com os alunos do que com reivindicações sindicais. Não é a primeira vez que na Europa um partido socialista, ou social-democrata , troca os sindicatos que são a sua base natural de apoio, pelos cidadãos utentes dos serviços do Estado – é este caminho que o PS procura percorrer hoje em dia.


Os próximos meses são decisivos para ver até que ponto a estratégia resulta – mas os tempos jogam a  favor de Sócrates: a crise obrigou a Europa a aliviar a pressão sobre os deficits orçamentais, o seu Governo tem alguma margem de manobra para introduzir medidas de apoio social e a aposta nas obras públicas intensivas é sempre útil em termos de votos. Se neste contexto Manuel Alegre decidir romper, acompanhado por alguns históricos, e face à situação do PSD, pode bem acontecer que o PS chegue mais depressa a partido único do Bloco Central do que aquilo que Sócrates alguma vez pensou. Se a estratégia resultar os votos perdiso à esquerda serão compensados pelos ganhos ao centro e à direita. Mais do que o PS, quem corre o risco de extinção prática, neste contexto, é o PSD.