maio 05, 2008

O SEXO E MAIO DE 68

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 2 de Maio)




AGORA - Se pensam que Maio de 68 mudou o mundo, o melhor é olharem para estes últimos anos, desde o 11 de Setembro de 2001: emergência do fanatismo religioso, escalada no preço do petróleo, instabilidade bolsista, o crescimento da China e Índia e os reflexos no resto do planeta, a derrocada do sistema financeiro, o descontrolo no preço dos alimentos: estes dez primeiros anos do último milénio prometem deixar mais marcas que os últimos 32 do milénio passado.


 
ANTES - E, no entanto, 1968 foi um ano marcante: A Primavera de Praga e a chegada de Dubcek ao poder levaram à invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, desencaderam a crise na heterodoxia comunista e significaram o princípio do fim do império soviético.  No mesmo ano, nos Estados Unidos, foram assassinados em atentados Martin Luther King e Robert Kennedy Jr. Para além da França, manifestações diversas, mas significativas, ocorreram na Itália, na Alemanha, no Brasil e no México, quase sempre a partir das universidades – eram jovens nascidos por volta de 1950, frutos dos casamentos do pós guerra e da súbita evolução da sociedade e dos costumes. Em 1967 os hippies, acabados de surgir, tinham lançado ao mundo o slogan « Make Love, Not War».


Nesse tempo, as notícias chegavam mais pela rádio e pela imprensa que pela televisão, e as imagens do que se passavam no mundo vinham nas revistas. O meu Maio de 1968 foi marcado pelas edições especiais do «Paris-Match» e do «L’Express» que cá chegavam, e que mostravam o que de outra maneira não se conseguia ver. 


A ORIGEM  - Maio de 1968 não foi um fenómeno súbito, teve a ver com dois movimentos essenciais que se cruzaram: em primeiro lugar o pacifismo, alimentado nos protestos contra a guerra do Vietname; e, em segundo lugar, a reivindicação de liberdade sexual e a recusa da autoridade.


É curioso recordar como tudo começou, em França, nesse ano de 1968: Paris-Nanterre era uma Universidade periférica, para onde eram arredados os que não haviam conseguido ingressar na Sorbonne ou em outras prestigiadas escolas superiores do centro de Paris. Era o que se podia dizer uma universidade contestatária: tinha-se indignado com a morte de Che Guevara em finais de 67, protestava regularmente contra a guerra do Vietname e devorava com avidez as notícias da Revolução Cultural que Mao Tse Tung dirigia na longínqua e enigmática China.


Mas na realidade o rastilho dos primeiros incidentes da Universidade de Paris-Nanterre (que foi onde tudo se iniciou) foi inflamado pela proibição, em Março de 1968, pelas autoridades académicas, de uma conferência sobre a obra de Wilhelm Reich, um psicanalista de origem austríaca que preconizava que os adolescentes deviam viver livremente a sua sexualidade e, de uma forma geral, defendia a liberdade sexual. A revolta começa contra as autoridades académicas, conservadoras, que não viam nas teorias de Reich nada que merecesse ser discutido numa Universidade. No centro das suas teorias estava o «orgónio», uma forma de energia que derivaria directamente do acto sexual e do prazer nele obtido. Reich morreu, só e desacreditado, em 1957, nos Estados Unidos, mas em meados dos anos 60 as suas principais obras foram reeditadas e ganharam uma súbita segunda vida. Foi, em parte, o mentor involuntário do célebre Verão do Amor, na Califórnia, em 1967. A originalidade e liberdade do  Festival de Monterrey e os slogans «Make Love Not War», chegaram à Europa com uns meses de atraso. Mas chegaram com força. 




A UTOPIA - Foi também esse o tempo suficiente para que em Paris se desse pela obra de Herbert Marcuse, o livro «O Fim da Utopia», publicado em 1967 nos Estados Unidos. Ao contrário de Engels, que defendia que o socialismo avançava a partir do utópico para uma análise científica da sociedade, Marcuse desejava resgatar o valor mobilizador das utopias – o slogan «A Imaginação Ao Poder», que inundou as paredes de Paris nesse Maio, tinha aqui as suas verdadeiras origens. Marcuse, que vivia nos Estados Unidos, estava na vanguarda dos teóricos da nova esquerda, que renegavam o papel do proletariado das sociedades industriais na revolução, acusando-o, com muita justeza, de estar acomodado ao consumismo. Para ele os agentes da transformação social deveriam ser os que estavam fora dos compromissos sociais estabelecidos, os estudantes, as minorias étnicas, os intelectuais que continuavam a ser livre pensadores. Aqui não havia uma ideologia, apenas um protesto, e desses grupos sociais é que, ainda que inconscientemente, partiria a contestação ao sistema capitalista e à ordem autoritária. Para os estudantes e intelectuais franceses isto era música celestial. Estava legitimada teoricamente a acção, coisa que como se sabe é sempre útil em França. Se a proibição da discussão da obra de Wilhelm Reich foi o pretexto, o resto nasceu pura e simplesmente do combate à autoridade e aos valores estabelecidos. E o resto foi uma enorme roda livre, uma explosão de tensões, que provocou forte susto à autoridade, mas que no entanto rapidamente se restabeleceu, como a estrondosa vitória eleitoral do General De Gaulle em finais de Julho, dois meses depois das barricadas, deixou bem claro.


Nesses meses, deu-se o declínio da esquerda tradicional, completamente ultrapassada pelos acontecimentos – o caso havia de lançar socialistas e comunistas franceses numa longa crise. O PSF era já quase inexistente e o Partido Comunista Francês demarcou-se sempre das manifestações estudantis, o que levou Jean Paul Sartre a dizer, com uma ingénua evidência: «Os comunistas temem a revolução ». Uns anos depois, seis para ser mais exacto, o mesmo aconteceu por cá. Uma parte do pós 25 de Abril foi o nosso Maio de 68, com o atraso do costume. E, como em França, no fim, a autoridade foi restabelecida. 
 

LISBOA GOVERNAMENTALIZADA

(Publicado no diário «Meia Hora» de 30 de Abril)


 


Nesta semana o Primeiro Ministro anunciou oficialmente um conjunto de importantes obras em Lisboa, que vão ter repercussões na vida dos lisboetas e que vão provocar grandes transformações numa das zonas mais importantes da cidade, Alcântara.


O mais curioso de tudo é que Sócrates fez o anúncio sozinho, sem a presença de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-membro do actual Governo. A ausência, por mais justificações que sejam dadas, é sintomática. Existe uma corrida a protagonismo nas grandes obras públicas e existe alguma precipitação no anúncio de soluções que ainda não recolheram consenso de todas as partes envolvidas. Este Governo tem tratado Lisboa como um feudo seu – diz onde quer o aeroporto que serve a cidade, onde quer a ponte, onde vai fazer obras. O problema de ter na Câmara de Lisboa um aliado do Primeiro Ministro é mesmo este: Lisboa deixou de ser governada pela sua autarquia, o centro de decisão passou da Praça do Município para S. Bento, como aliás já se tinha visto na questão da sociedade que vai gerir a frente ribeirinha, estratégica para a cidade, mas dependente exclusivamente do Governo.


Sócrates entrou oficialmente no ciclo eleitoral. Após anos de paralisia das obras públicas, agora, como que por acaso, a ano e meio das eleições, vai entrar-se numa época de grande fartura de obras fantásticas – linhas de comboios, mais auto-estradas, barragens, hospitais, nova ponte, novo aeroporto, gigantescas reformulações urbanísticas.


Desde há um século os grandes debates nacionais são em torno dos mesmos temas – que obras fazer, onde as fazer. Raramente alguém pergunta para quê fazê-las, raramente se desenhou alguma estratégia coerente de desenvolvimento sustentado. Na realidade,


sem obras nada parece funcionar, sem obras quase nem há debate político – se virmos bem, o novo aeroporto e a nova ponte foram os dois grandes momentos de polémica da sociedade portuguesa do último ano. É triste, mas é assim. A política portuguesa vive há demasiados anos enredada nos negócios em torno das obras públicas. Seja qual for o partido no poder, esta é uma sina imutável. E como os interesses em jogo são imensos, ele há momentos em que as coisas se agitam de alguma forma mais intensa, digamos.


Na realidade, o vislumbre de grandes obras públicas no horizonte pode acelerar fortes convulsões no sistema político. Estamos a viver um desses períodos. 

abril 27, 2008

UM DOMINGO EM LISBOA

TERRÍVEL – Alguns empresários portugueses gostam de enaltecer a sociedade civil. É uma coisa que só lhes fica bem. O pior é quando o fazem e são inconsequentes, como aconteceu no projecto da revista «Atlântico», deixado cair por muitos dos que  diziam que a iriam apoiar. A «Atlântico» era um espaço de debate, plural, aberto, editorialmente único em Portugal. Por mais voltas que dê não consigo deixar de pensar que a «Atlântico» acabou porque tinha aquela mania de se meter todos os meses com o senhor Sócrates e os senhores empresários não quiseram ficar mal vistos ao pé do senhor engenheiro, numa altura em que vai haver tanta obra para fazer. Cá para mim este é dos casos que mostra como em Portugal a iniciativa privada está demasiado dependente dos senhores que controlam o orçamento de Estado. Muitos dos nossos empresários são ainda muito público-dependentes, 24 anos depois de 25 de Abril de 1974. O fecho da «Atlântico» é o sinal do estado das coisas nestes tempos que vivemos.




VER – Muitas exposições para visitar. Vamos começar pela fotografia, Na K Galeria, «Estrada de Água», de Pedro Azevedo, Rua da Vinha 43 A. Outras fotografias, diferentes, encenadas (podiam ser como que colagens tridimensionais, a meio caminho com instalações do quotidiano, convenientemente preservadas com registo fotográfico) são as propostas de Manuel Botelho em «Confidencial/Desclassificado II: ração de combate», na Fundação EDP, Museu da Electricidade, Av. Brasília. Depois há a arte robótica de Leonel Moura, melhor dizendo do robot RAP que está estacionado no Museu de História Natural de Nova Iorque – as composições automáticas podem ser vistas na Leonel Moura Arte, rua das Janelas Verdes 76. Mais à frente, na Galeria Filomena Soares, «Murder Letters» é uma exposição colectiva que apresenta onze jovens artistas naturais de Nova Iorque: Carol Bove, Dan Colen, Gardar Eide Einarsson, Hanna Liden, Nate Lowman, Adam McEwen, Josh Smith, Dash Snow, Agathe Snow, Banks Violette, e Aaron Young, em diversos suportes, da fotografia à escultura, passando por colagens e pintura. 



O PIORO grande problema para os lisboetas, se decidirem fazer este aliciante percurso artístico ao Domingo, será encontrarem paciência suficiente para passarem do lado do Cais do Sodré, para o lado de Santa Apolónia. Numa daqueles raros momentos em que decidi sair de casa ao Domingo apanhei uma carga de fúria por ver que há mais polícias municipais envolvidos no desvio de trânsito do Terreiro do Paço do que propriamente visitantes. Esta interdição do Terreiro do Paço aos Domingos é daquelas baboseiras demagógicas rasteiras que me fazem chorar cada um dos euros que a Câmara Municipal de Lisboa me obriga a pagar em impostos. Na cabeça de António Costa existirá uma réstea de bom senso que lhe permita perceber o ridículo da situação, ou vai persistir nisto e gastar mais uns milhares largos de euros em animações forçadas, sabe-se lá com recurso a quem, para lhe servir de capote estético? 


PETISCAR – Depois de ter dado mil voltas e ter conseguido passar esse Bojador dos domingos lisboetas que é o Terreiro do Paço, em má hora tentei o Deli Delux. Nada a fazer: mau serviço, arrogância insuportável, lentidão geral. Que pena que os sítios bonitos tenham gente tão feia a explorá-los e incompetente a dirigi-los. Mandei as modas às urtigas e rumei ao sempre fiel Cervejanário (Marina falhada da Expo, Passeio de Neptuno), onde tudo é melhor: belas pataniscas de bacalhau (das achatadas!) e  alheira de caça com grelos. Excelente vista, excelente companhia, um descanso para me redimir das malfeitorias dea empresa de animação «Costa & Salgado United Against Lisbon Incorporated».. Ora ali estava um sítio acolhedor, vista desafogada frente ao rio, serviço simpático, cerveja espectacular. Era pena que o rapaz atrás de mim tivesse uma T Shirt onde a letras garrafais de podia ler «Vagina Lover», mas pronto, é o que há ao Domingo em Lisboa. Enfim, não se pode ter tudo, este cidadão deve ter votado no Bloco de Esquerda, pensei eu com os meus botões, imaginando-o a conversar sobre torres eólicas com o senhor vereador Sá Fernandes. 



LER – Pois, a «Ler». Não, não é trocadilho. A «Ler» renasceu, por obra e graça de Francisco José Viegas e do Círculo de Leitores – Bertelsmann (que aos poucos vai comprando mais editoras e está a tornar-se, aqui, um discreto e poderoso grupo editorial e de distribuição…). Mas voltemos a esta «Ler», magnífica, com uma bela paginação, fotografia bem pensada., um belíssimo dossier sobre os 50 autores mais influentes do século XX, uma entrevista com António Lobo Antunes e uma conversa com Paulo Teixeira Pinto onde ele explica como vai ser a sua editora. 


OUVIR – Ora aqui está uma bela altura do ano para ouvir «Amor Profano», um conjunto de onze árias de Vivaldi, interpretadas pela soprano Simone Kermes, acompanhada pela Orquestra Barroca de Veneza, dirigida por Andrea Marcon. Enérgico, excitante, arrebatador. Com discos assim ,mais vale ficar em casa ao Domingo que ir aturar os desvarios de Costa & Salgado ao Terreiro do Paço (já sei, já falei do tema, mas a bacoquice da coisa irrita-me mesmo…). CD Archiv/Deutsche Grammophon. 



REVELADOR – De partido sem direcção o PSD está a passar a partido com excesso de candidatos a dirigentes. Que falta faz o bom senso… 


BACK TO BASICS –  A função do socialismo é aumentar o sofrimento para um nível superior – Norman Mailer. 
 

abril 23, 2008

A TEORIA DO CAOS

(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 23 de Maio)


Em pouco mais de uma semana o PSD passou de partido sem direcção nem rumo para um partido com excesso de candidatos a dirigentes. É aquela velha coisa portuguesa de passar da fome à fartura sem se saber bem porquê nem como.


Vamos ver esta coisa singela: para um partido de oposição a questão principal nas próximas eleições não será, de forma realista, derrotar Sócrates, mas sim retirar-lhe a maioria absoluta e garantir um grupo parlamentar oposicionista capaz, bem constituído, e com algum peso parlamentar.


Ora, se as coisas continuassem como até aqui, tudo indica que o próximo grupo parlamentar do PSD teria uma composição à medida de Luís Felipe Menezes e Ribau Esteves, o que anda próximo do grau zero da política. A semana passada foi farta em episódios demonstrativos da incapacidade política desse pessoal, que nem percebeu o que lhe estava a acontecer quando um grupo rival  resolveu fazer umas graçolas em Lisboa enquanto o líder andava perdido no pais profundo – é o célebre episódio Câncio.


Por um lado, é bom que isto tenha acontecido. Na realidade, se nada se passasse no PSD, tudo indica que o próximo grupo parlamentar seria ainda pior e menor que este – o que quer dizer nomeadamente perca de influência. Dificilmente o PSD conseguiria reaver o seu estatuto de partido de poder nessas condições.


Cá para mim, este emaranhado de candidatos destina-se sobretudo a garantir notoriedade para umas quantas personalidades, assegurar presença em futuro grupo parlamentar e, quiçá, em algum Governo futuro que o PSD venha a formar. Na cabeça de muitos putativos candidatos é este o raciocínio em vigor: levantar a bandeira, conquistar território, ocupar espaço.


Eu, por acaso, gostava que as coisas não se resumissem a isto, que fosse possível criar uma alternativa política ao PS, o que quer dizer propostas políticas diferentes, e não uma réplica das políticas orçamentais do Governo de Sócrates.


O pior que pode acontecer ao PSD é transformar-se num PS mais radical em matéria orçamental, um pouco género Rui Rio no Porto, que promoveu uma política tipo «vale tudo, mesmo arrancar olhos».


Aparentemente vamos ter uns dias muito animados pela frente. Talvez nem Rui Gomes da Silva imaginasse que o seu bater de asas num fim de noite lisboeta provocasse tamanha convulsão no mundo da política portuguesa. É a teoria do caos, já se sabe. 

abril 19, 2008

Sobre os problemas da imprensa

(publicado no Jornal de Negócios de 18 de Abril)



PÉSSIMO – A total falta de bom senso do PSD, os disparates que alguns dos seus dirigentes dizem quando falam de comunicação, a completa falta de pudor em querer manipular e interferir em processos de decisão editoriais, fazendo de questões pessoais factos políticos. Muito maus factos políticos. 


MAU – O panorama geral que o mais recente estudo sobre audiência de imprensa apresenta é o da quase generalizada descida de influência da imprensa de circulação paga, nomeadamente dos chamados jornais de referência generalistas. Independentemente dos efeitos do desenvolvimento tecnológico e da repercussão das edições digitais, existe um problema editorial que leva a que as audiências não se fixem nestes jornais, apesar do esforço de marketing que fazem. Um jornal é suposto ser como uma pessoa que nos é próxima, com personalidade definida, que ofereça algo de diferente, que surpreenda. Quando as agendas político-partidárias continuam a ocupar grande parte dos recursos humanos e técnicos das redacções (em conferências de imprensa, palestras, inaugurações fictícias, cerimónias de lançamento e outras basbaquices diversas), o resultado é que grande parte do noticiário é forçosamente igual; depois entra-se num círculo fechado em que o mesmo facto gera as mesmas notícias e, ainda por cima, um surto de comentários sobre o mesmo assunto. É o jornalismo umbilical, apenas suplantado pelo que é feito, sentado à secretária, a atender telefonemas, com recados e supostas notícias – esta semana é disso bom exemplo o lamentável caso da edição digital do «Expresso» sobre Pinto da Costa. Esta redução de facto do universo da realidade é um condicionamento da informação que vem alegremente sendo feito pelos agentes políticos (Governo, órgãos de soberania, partidos, etc) e que vem sendo suicidariamente aceite pelos responsáveis editoriais. Os casos de sucesso, que escapam à descida ou menos a sofrem, são os que se especializam, criam agendas próprias, contextualizam a informação, procuram noticiário de proximidade, não misturam noticiário com opinião e sabem separar a influência dos lobbies e das fontes, do trabalho de reportagem e de edição. Não são as pessoas que não querem ler jornais – há é jornais que oferecem pouco de interessante para as pessoas lerem. Enquanto a questão não fôr encarada de frente as audiências continuarão a cair e as receitas, de publicidade e da venda, continuarão igualmente a cair. 



OUVIR – Mari Boine é uma norueguesa que conseguiu encontrar uma forma de misturar o jazz com a música popular da sua terra natal, a Lapónia, criando ambientes misteriosos e envolventes. O seu mais recente disco, o segundo volume de remisturas, chama-se «It Ain’t Necessarily Evil» e inclui o tema do filme « The Kautokeiko Rebellion». Boine é vocalista e baterista e a sua música parte de uma base rítmica forte com vocalizações onde as palavras entrm pouco mas os sons e expressões contam muito. É uma ponto de encontro de influências étnicas, jazzisticas e até rock. CD Universal Music. 


LER – Na edição de Abril da revista «Monocle» um óptimo artigo sobre Cabo Verde e a cidade da Praia. Na mesma edição um excelente artigo sobre a proliferação de canais noticiosos de televisão levanta a questão de saber se estes canais são de facto de informação ou, se se destinam a fazer propaganda dos seus financiadores. Muito oportuno. 



VER – Até 8 de Junho, uma exposição imperdível no Centro de Artes Visuais de Coimbra, do artista belga Michael Borremans, que tem explorado o desenho, a pintura, a fotografia e o vídeo. Intitulada «Weight» esta mostra é surpreendente e inquietante, resulta de uma colaboração entre o Centro de Artes Visuais e o De Appel Arts Centre de Amesterdão, e pode ser vista nas instalações do CAV, Pátio da Inquisição 10, Coimbra, de terça a Domingo entre as 14 e as 19h00. 


PETISCAR – O restaurante Praia da Luz, no Porto, em plena Avenida do Brasil. Uma boa esplanada com serviço simpático e descontraído, com ofertas que incluem um rosbife honestíssimo e uma simpática lasanha de legumes. www.praiadaluz.pt , 226173234. Tudo se passa em frente ao mar, em frente ao mar a sério, sem outro horizonte à vista que não seja água. 



PENSAR – O prémio de fotografia do BES está em risco de se tornar numa anedota que tem pouco a ver com a fotografia. Alexandre Pomar, no seu blogue (www.alexandrepomar.typepad.com), ataca a questão de frente: «O que foram defeitos iniciais do BES Photo (presença no júri de selecção dos programadores dos artistas nomeados, junção de veteranos e novos) e outros defeitos não corrigidos (amálgama de fotógrafos-artistas com artistas que se servem da fotografia, velha e difícil questão que se deve usar com prudência; sucessivas recusas de participação) deu lugar à ausência  de justificação para as nomeações e, por consequência, uma confrangedora inanidade.» Leiam que vale a pena. 


BACK TO BASICS – Os jornais não devem ter amigos – Joseph Pulitzer. 

POIS, NÃO TEMOS UMA ESQUERDA «SALEROSA»

(publicado no diário Meia Hora de quarta feira 16 de Abril)


Por estes dias a imagem mais marcante é a da posse do novo Governo Espanhol, maioritariamente feminino e com uma ministra da Defesa em gravidez avançada a


passar revista às tropas. As imagens da cerimónia transpiram «salero», confiança e entusiasmo. São uma afirmação de energia positiva, são um símbolo de modernidade e valem mais do que mil declarações sobre a igualdade ou quinhentas comissões contra a descriminação sexual. Temos que reconhecer: nós não temos uma esquerda assim, não temos, no poder, uma esquerda descomplexada, de cabelos longos, guarda roupa elegante nas cores da moda, maquilhagem cuidada e saltos altos. Em vez disso a nossa esquerda é feita do Dr. Louçã a atacar tudo e todos ou do Dr. António Vitorino mascarado de comentador a servir de trombeta do regime, pronto sempre a encontrar elaboradas desculpas para tudo.


A enorme diferença entre a maneira de funcionar em Espanha e em Portugal está naquelas imagens, na maneira de encarar as coisas, de arriscar, de surpreender. Zapatero ganhou mais apoios com estas escolhas que nos últimos anos de Governo. A verdade é que nós não temos uma esquerda assim. A nossa é cinzenta e, quanto à que está no poder, distingue-se pouco, no cinzentismo e na prática, da direita que a precedeu. 




NOTAS À MARGEM:



  1. Jorge Coelho anda a servir de bode expiatório da hipocrisia nacional, graças à inveja, que é o carburante mor da pátria desde há muito, muito tempo. Querer transformar a política num sacerdócio é a maneira mais certa de acabar com ela e de perder quem queira ter intervenções cívicas. Jorge Coelho poderá eventualmente ter muitos defeitos e estou longe de pensar em muitas coisas como ele, mas cumpriu a Lei, foi transparente e não se escondeu atrás de um biombo. Nem todos podem dizer o mesmo.

  2. Eu acho que deve haver um problema de poluição grave na Lapa, perto da sede do PSD. Só isso explica que – certamente por falta de oxigénio – do cérebro dos dirigentes sociais democratas surjam coisas como as acusações a Fernanda Câncio. Se eu ainda estivesse, como há três anos, na RTP 2, e se quisesse um documentário sobre bairros degradados, ela seria uma boa escolha – conhece o tema e sabe de televisão. É preciso mais alguma coisa?


 

abril 14, 2008

ÍNTIMA FRACÇÃO, A BEM DO PAÍS, UMA BRASSERIE

MAU – Algumas entidades – como a ASAE – utilizam a mediatização para procurarem induzir legitimidade na sua acção. O processo mediatização/ legitimação tem coisas que fazem lembrar o conceito de justiça popular – infelizmente uma forma de actuação que a ASAE mimetiza (os seus agentes actuam de forma discricionária, de acordo com decisões do momento, invocando interpretações e aplicações da Lei por vezes discutíveis, sem validação do poder judicial). É cada vez mais urgente que ao Provedor de Justiça sejam dados meios e poderes para poder fiscalizar a acção de todas estas entidades, autoridades e polícias que pululam e constroem um modo de actuação que perturba os direitos de cidadãos e de entidades privadas. Razão tem Pacheco Pereira quando afirma que, à falta de justiça, saúde e educação, sobram-nos polícias e autoridades que todos os dias aumentam, têm mais poderes e competências – sem que isso se traduza em maior segurança, maior justicça ou em maiores e melhores garantias.  


 


PÉSSIMO – A pior raça de políticos é a que esgrima com o argumento de que tudo o que fazem é a bem da pátria, quando no fim se vai a ver e o bem que procuram tem mais a ver com eles próprios do que com os cidadãos e o país. 



BOM – A «Íntima Fracção» está no site do Expresso, acessível a todos. A criteriosa escolha musical e as palavras contidas de Francisco Amaral estão assim mais disponíveis e podem ser descobertas por mais gente. Antigo programa de rádio, a «Íntima Fracção» tornou-se uma referência que passou por várias estações, da Antena Um à Rádio Comercial, passando pela Rádio Universidade de Coimbra ou a TSF. É o testemunho de uma forma pessoal, criativa e esteticamente empenhada de fazer rádio, uma rádio onde a palavra não é inimiga da música. Agora, todas as semanas, nos blogues do Expresso, a prova de que a beleza tem um som – «Íntima Fracção». Eu costumo dizer que o Francisco Amaral é o meu herói radiofónico que me mantém ligado ao mundo do que vale a pena ouvir e descobrir. 


DIDÁCTICO – Espero que todos os que têm responsabilidade na gestão de espaços culturais, ou da cultura de modo mais lato, tenham lido a entrevista («Actual» da semana passada) que Jorge Calado fez a Peter Gelb, o Director da Matropolitan Opera de Nova Iorque, ex-presidente da editora discográfica Sony Classical. Além da entrevista propriamente dita, ali está enunciado o rol de transformações que Gelb promoveu no ano e meio que leva de funções numa casa que não recebe um cêntimo de subsídios públicos ou do Estado – coisa que só é possível porque existe uma cultura de Mecenato, fundada numa atitude aberta em termos de incentivos fiscais efectivos. A questão não é tanto fazer omoletas sem ovos, é mais ir à procura de bons ovos para grandes omoletas, para enveredar pelo léxico actual da política cultural à portuguesa.




IR – No terceiro aniversário da Casa da Música, destaque amanhã, sábado, para a apresentação da banda rock alternativa The Kills e para a pop electrónica dos The Whip, vindos directamente de Manchester. Domingo às 18h00 a estreia de Maria João Pires na Casa da Música e, à noite, o trio de jazz do pianista norueguês Tord Gustavsen. Um programa atraente e diversificado, à imagem do que tem sido a mais recente gestão deste espaço. 


 


OUVIR – O Concerto para piano nº5 (também conhecido como Concerto do Imperador), numa interpretação de Mikhail Pletnev, um pianista russo que nos últimos anos se tem distinguido no seu trabalho sobre as obras de Beethoven. Nesta gravação, da Deustche Grammophon, Pletnev é acompanhado pela Orquestra Nacional da Rússia, dirigida por Christian Gansch. Esta obra de Beethoven, estreada em Novembro de 1811, foi pensada pelo seu autor como uma prova do seu próprio virtuosismo enquanto pianist. Pletnev ensaiou uma abordagem diferente da mais usual, modificando o tempo, e propondo uma nova leitura da obra. Há quem considere que o tempo é demasiado rápido, mas a verdade é que Pletnev conseguiu assim recriar a vivacidade que Beethoven desde o início definiu como a matriz deste Concerto. 


 


LER – A edição nº19 da revista «Attitude», com o foco na cidade marroquina de Tânger. A «Attitude» é uma das mais interessantes revistas editadas em Portugal, essencialmente dedicada ao design, arquietctura e decoração de interiores. 




PETISCAR – No piso térreo do Hotel Tivoli, em Lisboa, nasceu há poucas semanas uma réplica da célebre Brasserie Flo, de Paris. Decorada como a casa-mãe, confortável, de serviço intocável, esta Brasserie fazia falta na Avenida da Liberdade. É belíssima a chucrute, com carne fumada, salsicha, tempero impecável, mostarda como deve ser. Do outro lado da mesa os elogios ao bife tártaro eram veementes, as ostras de entrada estavam perfeitas. Atendendo ao local e à qualidade, o preço é mais que razoável. Que assim se mantenha, pode ser que se tenha ganho finalmente uma Brasserie em Lisboa. 


 


CONSUMOS – As gelatinas Royal que se vendem feitas em embalagens individuais são bem boas. O problema está que muitas vezes elas esquecem que deviam ter abertura fácil e revelam-se bem difíceis de provar. Hão-de convir que aberturas difíceis é um daqueles problemas que irrita quem faz incursões ao frigorífico. ~


BACK TO BASICS – A moda é uma forma de fealdade tão insuportável que somos forçados a alterá-la de seis em seis meses, Oscar Wilde. 

abril 13, 2008

OS LOUCOS TOMARAM CONTA DO HOSPÍCIO

A insanidade percorre o país e conquistou os líderes partidários que deixaram de ter cuidado com as palavras e os actos. Desde os ataques de Louçã a Jorge Coelho, passando pelo apelo à censura da destacada socialista que (mal) dirige a Direcção Geral da Educação do Norte, terminando agora nas acusações do deputado social democrata Rui Gomes da Silva a Fernanda Cãncio. Ela não precisa de defesa, mas que me lembre já escrevia e reportava antes de Rui Gomes da Silva ter a notoriedade que lhe deram. Quando os ataques pessoais são matéria para guerra política vai tudo mal - e está tudo mal no amplo espectro partidário português. Esta gente está a dar cabo dos partidos e do sitema político. E como bem diz Francisco José Viegas no seu blog, Fernanda Cãncio é muito melhor jornalista que Rui Gomes da Silva político.

abril 12, 2008

CHAMEM A POLÍCIA...

Desta vez não vi o Presidente do Benfica, Luis Filipe Vieira, a chamar a polícia nem a atirar as culpas para os árbitros.... e a cabazada foi bem grande...


 

ASAE NO SNOB

A ASAE esteve ontem à noite no Snob e parece que a coisa foi divertida. Vejam como em http://atlantico.blogs.sapo.pt/  . Parece que houve agentes que perderam as estribeiras com os comentários dos jornalistas que habitualmente frequentam este bar...

JORGE COELHO E A POLÍTICA

Quero aqui deixar a minha solideriedade para com Jorge Coelho. Temos opiniões muito diversas sobre muitas coisas. Mas há um ponto básico: participar na política e em causas cívicas não pode ser argumento para castigos nem para limitações a não ser as baseadas na Lei e na ética. E ele não feriu nem Lei nem ética.


Algumas vozes que se levantam nesta altura bem poderiam também pensar nas limitações que deveriam existir entre o desempenho de cargos políticos e o exercício de comentário político em media. Essa sim é uma questão bem pertinente.


 

CHAVEZ NA DREN

O efeito Chavez atacou de novo na DREN. A senhora que a dirige, e que há uns meses ganhou notoriedade pública por promover a perseguição a quem emitia opiniões políticas contrárias à sua, veio agora pretender perseguir os jornais que relataram a existência de violência dentro das escolas, na área de acção da sua Direcção Regional de Educação deo Norte. Percebe-se que a senhora Directora preferisse que os casos continuassem abafados. Azarinho dela - poderá perseguir nos seus serviços, mas ,mesmo que ela não goste, não pode impedir notícias que lhe são desagradáveis.


A senhora argumenta que os media violaram o direito à privacidade. - há aqui um enorme equívoco : os media inforramarm uma situação que é matéria de interesse público, como aliás o Procurador e o Presidente da República fizeram questão de sublinhar. O Eng Sócrates acha bem este comportamento de um alto quadro público, ainda por cima do seu partido?

INCOMPATIBILIDADES

E se o Bloco pedisse para verificar que ambientalistas, pagos por grandes empresas para afzerem grandes estudos, estão permanentemente a pressionar, enquanto militantes ambientalistas, para que mais e mais estudos e avaliações sejam executados por consultores da especialidade?


 

O EFEITO MARCELO

(publicado no diário «Meia Hora» de Quarta-Feira)


Nota: depois deste texto estar escrito e publicado, novos desenvolvimentos no sector PSD, basicamente em torno das preocupações expressas por Ângelo Correia, reforçam o clima de desconfiança em relação a Luis Filipe Menezes.



Nos últimos dias uma série de figuras, com prestígio e peso político, começaram a sugerir que talvez conviesse considerar a hipótese de Marcelo Rebelo de Sousa se decidir a ir tomar conta do PSD. Para além do mito sebastianista que varre ciclicamente a sociedade portuguesa, esta questão merece alguma atenção.


Na realidade a desilusão com a incapacidade de liderança de Menezes, o desapontamento com a sua actuação política tacticista, volátil, ziguezagueante e inconsequente, atingem sectores cada vez mais vastos daquilo a que designarei por área de influência natural do PSD. Estes sectores olham para o futuro, percebem o afastamento do PSD da realidade e vêem o espectro de um partido único em regime democrático, com o PS a continuar a ganhar eleições, a reboque do poder que Sócrates impõe, e toda a oposição destroçada, excepção feita ao PCP.


Para a oposição interna do PSD a questão é a de saber quando precipitar a mudança de Menezes, sendo que a maioria, entre comodismo, conveniência e algum receio, se inclinam para deixar o actual líder ser derrotado nas sucessivas etapas do próximo ciclo eleitoral, para depois ser afastado sem apelo nem agravo, daqui a uns dois anos. Isto parece muito certinho, mas arrisca-se, à velocidade a que a situação se degrada, a deixar o PSD num estado de anemia profunda e reduzida expressão e peso políticos. Daqui a dois anos, por este caminho, o PSD está moribundo. Provavelmente nessa altura fará mais sentido criar um novo partido que reanimar um tão degradado.


Por isso, para o PSD, talvez valesse a pena que, se Marcelo se decidir a avançar, o faça antes do calendário eleitoral, sabendo de antemão que irá ter uma vida difícil. Eu acho que, quanto mais cedo começar a mudança e começarem a ser mandados sinais claros para a sociedade de que as coisas vão mudar, melhor.


Há uns meses atrás dificilmente diria isto: que venha Marcelo, que regresse à política activa, que se rodei de uma boa equipa e que mostre que também ele pode ter aprendido com os erros que cometeu no passado: menos intriga palaciana, menos atitudes de analista, mais atitudes de líder político. Se isso acontecer, a vida democrática em Portugal poderá melhorar, poderá haver mais debate e alternativa credível.


Na realidade uma reforma do PSD no sentido de recuperar as elites terá efeitos para além das suas margens partidárias – provavelmente terá repercussão entre o PP e sectores liberais não organizados. Será que Marcelo e os seus apoiantes conseguem avançar? 

abril 08, 2008

APITOS, NOMEAÇÕES E PRAZERES

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Abril)


 


VARRIDELA – Há quem diga que os últimos desenvolvimentos do Apito Dourado desprestigiam e põem em causa a imagem do Futebol. Eu acho é que põem em causa o mundo do velho futebol, das negociatas e das influências de poder, dos não olham a meios para atingir objectivos, de dirigentes mais preocupados com o poder e vantagens pessoais do que com o desporto. Era bom que isto fosse o princípio de uma varridela de mudança de mentalidades, métodos e funcionamento. De cima a baixo, a começar pela Federação, a passar pela forma como a Selecção é dirigida e a terminar nas SAD’s dos clubes. 


SIMPATIA - Nas últimas semanas o Ministério da Cultura anunciou duas nomeações interessantes: Pedro Mexia para subdirector da Cinemateca e Jorge Barreto Xavier para Director-Geral das Artes. São boas escolhas, inesperadas q.b., com aquele toque de alargamento do espectro de apoio que às vezes os políticos gostam de usar quando chegam a um cargo novo. Só espero que este Ministro se decida a falar um pouco das políticas e prioridades que pretende implementar, e não se reduza a escolhas, sempre importantes, de pessoas para dirigir áreas sensíveis do seu Ministério. É que boas pessoas sem políticas definidas não fazem milagres, e, a avaliar por duas citações da semana passada na imprensa, a única linha política defendida publicamente pelo Ministro nas suas conversas sobre o tema é a de insistir em «fazer omoletas sem ovos». O problema é que essa tem sido a linha política deste Governo na Cultura e o resultado está à vista. Se não mudar a mentalidade do Primeiro Ministro sobre este assunto e se este Ministro não conseguir ter peso político para influenciar as decisões orçamentais, então não poderá fazer muito mais que nomeações simpáticas. 


BOM – Serralves continua a ser um exemplo de bom funcionamento na área das instituições culturais. Sábado passado casa cheia para o final da exposição de Robert Rauschenberg, que levou mais de 120.000 visitantes a descobrir um dos mais provocadores e marcantes artistas contemporâneos, numa mostra que permanentemente colocava questões.  À noite, no Auditório, um dos nomes de referência da dança contemporânea norte americana, a companhia de Trisha Brown. Em paralelo pode continuar a ser vista uma exposição de Alexandre Pomar, mostrando uma faceta pouco conhecida do artista e uma autêntica revelação, a de um português radicado há décadas em Paris, Alvess, que apresenta uma obra de uma diversidade e originalidade muito curiosas – ambas até 20 de Abril. 


REVELADOR – Aqui vai mais uma prova de como o mundo da comunicação está a mudar rapidamente. Em meados de Março, Barack Obama fez um discurso, em Filadélfia, acerca do relacionamento entre diferentes raças. Transmitido pela televisão, esse discurso teve, em directo, quatro milhões de espectadores. No espaço de uma semana o vídeo do mesmo discurso, no You Tube, registou 3,8 milhões de visionamentos, praticamente a mesma audiência da TV. Nestas eleições o You Tube é o local onde surgem as imagens que moldam a campanha, não só dos candidatos, mas também de acontecimentos que eles referem nos seus discursos ou até os seus spots publicitários. Mas o pior aconteceu a Hillary Clinton, quando uma das pessoas utilizadas na sua campanha, com base em imagens de arquivo, apareceu no You Tube a apoiar Obama e a criticar a forma de actuar da senadora. Por cá, já se sabe, o You Tube foi o responsável por, de repente, toda a gente ter percebido que alguma coisa vai muito mal dentro das escolas. 


PARABÉNS – As Produções Fictícias, fundadas por Nuno Artur Silva, fizeram quinze anos e provaram como é possível trabalhar de forma continuada na área da escrita para televisão, do humor e, mais recentemente, na publicidade. Mas a maior prova do sucesso da incubadora de talentos em que as Produções Fictícias se tornou veio no dia a seguir, quando um dos produtos lá nascidos, os Gato Fedorento, fizeram um simultâneo nos três canais comerciais de sinal aberto para lançamento do novo serviço de televisão por assinatura da PT, o Meo. É a melhor prenda que as Produções Fictícias podiam ter. E uma ideia brilhante da PT. 


OUVIR – O CD de estreia do grupo Rita Red Shoes é verdadeiramennte surpreendente no panorama das edições nacionais. Canções pop deliciosas, arranjos imaginativos, ritmos constantes e, claro, a voz de Rita, limpída, modulada, envolvente e, acima de tudo, interpretativa e sensível. Temos pois cantora, autora de canções, criadora de conceito, co-produtora, música sobretudo - é que Rita tornou-se conhecida como a pianista da banda de David Fonseca e vocalista do tema «Dream On Girl», mas antes disso foi baterista num grupo de teatro em 1996 e depois baixista dos Rebel Red Dog. «Golden Era», o seu disco de estreia, é uma compilação de experiências, muito cuidado do ponto de vista musical e de conceito visual. Uma obra bem pop que pode ser vista em www.myspace.com/ritaredshoes. CD IPlay-Valentim de Carvalho. 


PETISCAR – Gosto de petiscar nos bares dos hotéis, geralmente trazem boas surpresas. Esta semana experimentei, pela primeira vez, um petisco chamado prego do lombo em bolo de caco, o delicioso pão redondo e achatado, de massa muito leve, originário da Madeira e dos Açores. A coisa passou-se no Poivron Rouge, o bar do Tiara-Park Atlantic (ex-Meridien), no Porto. A carne era deliciosa, a mistura com o paladar invulgar do bolo do caco resulta mesmo bem, fica um prego verdadeiramente inesperado. A grande vantagem dos bares dos hotéis reside, regra geral, na qualidade do serviço e no conforto das instalações. E o preço não é muito diferente de outros bares. Este Poivron Rouge convence: Avenida da Boavista 1446, Porto. 


BACK TO BASICS – Somos aquilo que repetidamente fazemos, Aristóteles. 

TURBO VEREADOR

(publicado no diário «Meia Hora» de 2 de Abril)


 


José Sá Fernandes foi eleito vereador na Câmara Municipal de Lisboa pelo Bloco de Esquerda sob o slogan «O Zé Faz Falta». Como se viu logo no dia seguinte às eleições, na realidade ele faz falta essencialmente ao PS e a António Costa, que sem ele não teriam a maioria que lhes permite desprezar o consenso e esquecer a importância do diálogo com as outras forças políticas.


O que se passou na semana passada com a questão da instalação de turbinas eólicas é bem sintomático do estado das coisas: como existe maioria, a coisa faz-se, a bem ou a mal, se necessário fôr, sem discutir. José Sá Fernandes junto com os votos do PS garante a viabilidade da instalação das turbinas.


A peregrina ideia da instalação de um conjunto de turbinas eólicas no meio da cidade partiu do vereador José Sá Fernandes e permite evidenciar de forma clara as contradições em que ele se deixa cair e a falta de coerência da sua actuação.


Vamos buscar um exemplo que mostra bem como as coisas são: aqui há uns anos, o então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, João Soares, quis construir um elevador que partia da zona do Martim Moniz até ao nível do Castelo De S. Jorge. O elevador tinha uma utilidade incontestável - acesso de visitantes ao Castelo, possibilidade de captar novos moradores para a zona e assim promover a reabilitação urbana do local, ao mesmo tempo fomentar a viabilidade de actividades económicas na área do turismo e restauração numa zona histórica de Lisboa. Acontece no entanto que o elevador era feio e teria um impacto visual considerável naquela colina de Lisboa. Estas razões, estéticas, patrimoniais, ditaram um movimento de contestação à iniciativa onde José Sá Fernandes esteve pessoalmente empenhado, fazendo até uma das suas mediáticas intervenções para impossibilitar que as obras se iniciassem no local de onde o elevador vertical nasceria.


Agora, uns anos depois, é o mesmo José Sá Fernandes que aparece a defender a instalação de meia–dúzia de turbinas eólicas, cujo impacto visual é bem maior do que o do elevador que ele impediu.


Em nome de uma acção de propaganda das indústrias ligadas ao muito politicamente correcto ambientalismo, José Sá Fernandes deitou às urtigas as suas preocupações com a poluição visual de Lisboa. Nada que espante. Quando a linha política é feita de oportunidades mediáticas tudo se explica. Só não se percebe é porque é que o Zé faz falta a Lisboa. Só se for para a estragar ainda mais.


 

março 31, 2008

SUGESTÕES AVULSAS

(publicado no »Jornal de Negócios» de 28 de Março)



MAU – A intrusão do Fisco na vida das pessoas, impondo, sob a ameaça de multas, informações pormenorizadas sobre aquisições de bens e serviços, obrigando particulares ao demorado preenchimento de questionários e ao envio de cópias de facturas (ao abrigo de que Lei?) . Já se percebeu que o folclore pré-redução de impostos já está em marcha – e será de saudar – mas tão importante como isto é acabar com os abusos de poder da máquina fiscal. 




PÉSSIMO – A utilização, em material audiovisual do PS, de imagens e voz de um jornalista, José Rodrigues dos Santos, sem autorização do próprio e ainda por cima num contexto de montagem e de edição que pode levar a pensar que ele estava a corroborar as opiniões expressas no resto do vídeo.  




BOM – O blog do jornalista e crítico cultural A.M. Seabra, intitulado Letra de Forma e pode ser consultado em www.letradeforma.blogs.sapo.pt . A.M. Seabra, recordo, também escreve uma coluna regular no artecapital (www.artecapital.net )  e o tema da mais recente é a Fundação de Serralves. 



VER – Até este Domingo ainda tem oportunidade de ver as «Variações à Beira de Um Lago» de David Mamet, pela Companhia do Teatro de Almada, com encenação de Carlos Pimenta, na bela sala do Teatro Municipal de Almada. Hoje e Sábado as representações são às 21h30, Domingo é às 16h00. Vale a pena destacar o trabalho dos dois actores, que à beira de um lago, e usando os patos que o povoam como pretexto, acabam a falar da condição humana. André Gomes e João Ricardo têm bons desempenhos, bem auxiliados pela cenografia aberta de João Mendes Ribeiro. Destaque ainda para a música original de Mário Laginha. E já que estamos a falar de um trabalho em que participa André Gomes, aqui fica uma outra indicação – fora da pele de actor, André Gomes tem realizado de forma sistemática ensaios com base fotográfica recorrendo a Polaroids, e o mais recente está exposto no Museu da Electricidade, Fundação EDP. Intitulada «Era Na Velha Casa», a exposição é a interpretação visual do autor sobre dois fragmentos da Ode Marítima de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa. Até 27 de Abril, de terça a Domingo, das 10 às 18h00. 


DESCOBRIR – «VPF Rock Gallery» é o novo espaço acabado de nascer na Rua da Boavista 84, em ligação com a VPF Cream Art Gallery e a Plataforma Revólver. Este novo espaço, também concebido e dirigido por Victor Pinto da Fonseca, tem por objectivo divulgar o trabalho de novos artistas, no princípio de carreira. A honra da estreia da nova galeria coube à fotógrafa Marta Sicurella. Na VPF Cream Art está uma exposição de pintura e desenho de Jorge Feijão e na Plataforma Revólver uma instalação de Armanda Duarte.  De terça a sábado, das 14 às 19h30. 



OUVIR – A banda sonora do filme « Juno», com deliciosas canções pop de Kimya Dwason ( a voz dos Moldy Peaches), melodias de uma simplicidade desarmante. O filme, como alguns saberão, conta a história da gravidez acidental de uma adolescente e as canções reflectem o espírito dos dias, desde as originais de Dawson, até clássicos como «A Well Respected Man» da banda britânica dos anos 60 The Kinks, passando por «Dearest» de Buddy Holly, «Expectations» de Belle & Sebastian , «Superstar» dos Sonic Youth, o sempre magnífico «All The Young Dudes» pelos Mott The Hoople ou uma versão arrebatadora do clássico «Sea Of Love»  por Cat Power. Aqui está uma banda sonora absolutamente imprevista, variada, adequada ao filme e fascinante de um modo geral. CD Rhino, comprado na Amazon. 


LER – A edição de Março da revista trimestral «Egoísta» é uma espécie de número especial (até na paginação), dedicado ao mar, intitulado «Atlântico» e com uma magnífica fotografia de capa  de João Carvalho Pina, aliás repetida num portfolio do autor publicado nesta mesma edição. Outros portfolios em destaque são de Augusto Brázio e de Pedro Cláudio, este último cada vez mais interessante nos caminhos que está a percorrer com as suas imagens. Nos textos destaques para o ensaio «Portugal E o Mar» de Ernâni Rodrigues Lopes, para o relato da partida da corte portuguesa para o Brasil por Margarida Magalhães Ramalho e, sobretudo, à «Confissão do Sinaleiro», de Ondjaki. 



DIREITO DO CONSUMIDOR – A coisa que mais irrita é ler «abertura fácil» numa embalagem manifestamente difícil e incómoda de abrir. Embora já tenha tentado melhorar várias vezes o processo, a verdade é que a Compal ainda não conseguiu atinar com a embalagem dos sumos «Essencial», cuja abertura continua sem ser nada fácil. O mais grave é que os sumos são bons – há quem adore o de banana, eu prefiro o de ananás e o de maçã – mas o mais terrível de tudo é que começar uma manhã a tentar abrir um frasco daqueles arrisca-se logo a estragar um belo dia primaveril. 


PETISCAR – Tenho para mim que o bitoque tradicional português é coisa para derrotar 10 a zero qualquer hamburguer industrial. O bitoque – esse pequeno bife, fino mas não demais, feito em tacho de barro com banha e louro, acompanhado de batatas fritas e uns pickles e cavalgado por um ovo estrelado – é a dose ideal de comida para saciar a fome sem a deixar esmagada pela quantidade. Eu sou fã de bitoques e acho graça a que exista um estabelecimento exactamente com esse nome. «O Bitoque» fica no número 59 da Rua Ferreira Borges, em Campo de Ourique e por 6,40 euros oferece o prato que lhe dá o nome. Resta dizer que a casa se esmera para honrar o petisco. 



BACK TO BASICS - «A adição de emoção é uma tentativa de comprar o público» - David Mamet.

OS ABUSADORES DESCONTROLADOS

(publicado no diário «Meia Hora» de 26 de Março)


 


Uma destas noites, a ouvir um telejornal, dei com o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, a propósito dos interrogatórios enviados aos noivos sobre as despesas da boda, a dizer que o Governo iria rapidamente remediar os excessos. No entanto, foi necessário que a imprensa relatasse os factos para alguém no executivo reconhecer que existiam excessos – e recordo que neste caso as primeiras reacções da máquina fiscal foram a defender o que tinham feito e que alguns disseram que continuariam a fazer.


Sabe-se que estes interrogatórios aos noivos começaram a ser feitos há cerca de dois anos. Nos últimos dias vários fiscalistas e juristas vieram dizer o que o bom senso e a evidência mandam: que os inquéritos invadiam a esfera da privacidade, que não se devia obrigar ninguém a ser denunciante e que seria totalmente ilegal aplicar multas com base no não fornecimento de informações sobre terceiros, como é o caso presente.


Este caso mostra os exageros que as autoridades fiscais têm cometido: repare-se que aqui se exige aos compradores de determinados bens e serviços que comuniquem as compras que efectuaram, que preencham um extenso questionário, que juntem facturas e comprovativos, em resumo que percam umas horas a prestar informações em resposta a uma intimação cuja legitimidade é mais que discutível.


Na realidade que obrigação tenho eu de guardar o comprovativo de um serviço? Tenho uma obrigação moral de a pedir, mas posso deitar a factura fora no minuto seguinte – que eu saiba o Estado não se propôs restituir o IVA das despesas do casamento aos noivos como prenda do enlace. O fisco acha que devemos guardar as facturas de todos os bens e serviços que compramos? E baseado em quê? E qual a obrigação que qualquer cidadão tem, de facto, em reportar os seus gastos pessoais?


Esta intromissão inadmissível cria precedentes gravíssimos – e o mais extraordinário de tudo é que ouvi um porta voz do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Fiscal a elogiar e justificar o inquérito e o método seguido. Esta máquina fiscal – e pelos vistos os seus agentes - têm um problema de falta de respeito pelas pessoas, de querer utilizar todos os meios para atingir os seus objectivos, mesmo que esses meios sejam baseados no abuso de poder e na ilegalidade. Pelos vistos é esta a cultura de funcionamento da máquina fiscal que nestes últimos anos se criou. Aqui está uma coisa para o Governo remediar. De forma simplex, de preferência.


 

março 24, 2008

Untitled

MAU – Uma provável suspensão da revista «Atlântico» é das piores notícias que podia  surgir. Trata-se da única revista mensal assumidamente de debate social, político e cultural existente na sociedade portuguesa. Embora tendo por base um núcleo fundador essencialmente liberal, nela têm colaborado pessoas de muitos sectores e a revista, muito bem dirigida editorialmente por Paulo Pinto de Mascarenhas, tornou-se o veículo privilegiado para a intervenção política de muitas figuras que se retiraram da primeira linha da actividade partidária ou que pura e simplesmente hoje em dia não têm partido. Mas é também uma revista que procura ajudar a interpretar a História, nomeadamente a portuguesa, e ao mesmo tempo aborda temas de política internacional pouco tratados por cá. Provocadora, iconoclasta, a «Atlântico» é uma leitura mensal obrigatória. As dificuldades com que se debate para sobreviver são a prova da fragilidade de uma sociedade civil que gosta de dizer que existe, mas que tem muita dificuldade em agir e concretizar projectos fora da zona da actividade empresarial em que algumas das suas figuras principais se distinguiram. Noutros países os grandes líderes empresariais empenham-se em garantir possibilidades de fomentar o debate de ideias e a análise das situações, certos de que assim estão a contribuir para o progresso da sociedade e, em última análise, para o crescimento e consolidação dos mercados. Promovem «think tanks», são patrocinadores empenhados. Aqui está um exemplo de boas práticas que podia ser mais seguido. 




PÉSSIMO – Já lá vai um mês e meio desde que Isabel Pires de Lima saíu do Ministério da Cultura e ainda não se ouviu uma palavra do seu sucessor sobre o que pretende fazer. Entretanto, para além das recorrentes notícias sobre falta de meios para salvaguardar o património e do encerramento das visitas em alguns monumentos, na semana passada foi divulgada a posição de 28 directores de museus e palácios nacionais, que, dizem, estão sob risco de «iminente colapso». É certo que as culpas vêm do orçamento deixado por Isabel Pires de Lima e pela falta de atenção do Governo ao sector, mas a realidade é que a ausência de capacidade política e uma errática actuação pública são as características da actividade do Ministério da Cultura de Sócrates. Será este Ministro capaz de ganhar carta de alforria? 




OUVIR – Pierre-Laurent Aimard é um pianista francês com uma carreira curiosa, que oscila entre o contemporâneo e a música antiga. No início da sua carreira foi convidado por Pierre Boulez para integrar o núcleo fundador do Ensemble InterContemporain. As suas interpretações da música de Boulez, Stockhausen e Ligeti são consideradas referências. Mas ao mesmo tempo tem desenvolvido uma actividade exemplar na música antiga, colaborando com nomes como Nikolaus Harnoncourt, com cuja Orquestra de Câmara Europeia gravou os cinco concertos para piano de Beethoven. O motivo desta nota é no entanto a sua mais recente gravação, a primeira para a Deuscthe Grammophon. Trata-se de «A Arte da Fuga» de Bach, uma peça inacabada cuja composição Bach começou cerca de 1742 e que demonstra o seu enorme domínio técnico de uma das mais complexas formas de expressão da música europeia desse tempo, conhecida como o contraponto. A interpretação agora gravada por Aimard mostra a sua técnica, a sua capacidade, mas também a inteligência e sensibilidade da sua interpretação. 



LER – Durante alguns anos assinei – e li – religiosamente a «Granta», uma revista literária fundada em 1979 por estudantes de Cambridge e que deu a conhecer ao mundo, e a mim em particular, alguns dos novos escritores da época, como Martin Amis, Ian McEwan, Richard Ford e Angela Carter. Mas a «Granta» foi também o paraíso de deliciosas short-stories de proveniências diversas, de portfolios fotográficos inesperados e de numerosas peças de literatura de viagem que me fizeram dar mais atenção ao género. Pois a «Granta» chegou agora ao seu número 100 – são feitas quatro edições por ano, uma em cada estação, e debaixo do título lá continua a frase mágica «The Magazine Of New Writing». Esta edição (350 páginas) é verdadeiramente uma peça de colecção que inclui, por exemplo, um poema de Harold Pinter , um libretto de Ian mcEwan, uma short-strory de Hanif Kureishi, um ensaio ( «The Unknown Known») de Martin Amis e uma curiosa nota sobre a construção de personagens por Mário Vargas Llosa, além de um belíssimo ensaio fotográfico sobre Nova York de Bruce Frankel.


Por cá encontram a «Granta» 100 nas boas lojas de revistas e nalgumas livrarias com edições inglesas. 



PETISCAR – A coisa não é bem sushi tradicional, digamos que é sushi tropical, Japão com influência do Brasil, há quem lhe chame sushi-fusão. O resultado pode desagradar aos puristas mas o final é bom. Experimentem o Hot Salmon ou o Spicy Tuna e vão ver que têm uma boa surpresa. O serviço é simpático mas às vezes é preciso combater a distracção e o olhar vago no horizonte dos empregados – a coisa percebe-se, a vista é deslumbrante, com o rio ali ao pé. O «Sushi no Rio» fica por cima da esplanada dos «Meninos do Rio», na zona de Santos, para lá da linha de comboio, na Rua da Cintura do Porto de Lisboa, armazém 255, edifício Steak House, telefone 213220070. 


BACK TO BASICS – Abrir a porta da rua pode ser uma actividade perigosa – J.R.R. Tolkien 

E ISTO FOI COM MAIORIA ABSOLUTA...

(publicado no diário «Meia Hora» de dia 19 de Março)


 


O grande problema do Primeiro Ministro é que as suas palavras coincidem muito pouco com as acções. Ele promete uma coisa e faz outra, estabelece uns objectivos e alcança resultados bem diferentes e estes três anos são prova disso. Daí não viria mal ao mundo se ele aceitasse a realidade e não quisesse convencer toda a gente que se vive no melhor dos mundos.


Peguemos nas reformas: a da saúde está adoentada e não se sabe ainda o diagnóstico, a educação começa a ser duvidosa, a da diminuição da administração pública já se percebeu que apenas existe de forma muito marginal, a da justiça é por enquanto apenas um novo mapa judiciário. O Governo até pode ter vontade reformista, mas na realidade não tem conseguido concretizar reformas e obter resultados em questões como a criação de emprego.


Já repararam no que os cidadãos têm dado? -  pagam mais impostos, têm diminuições nos sistemas sociais que existiam, vêem o poder de compra a baixar, sentem que Portugal se atrasa em relação à maioria dos outros países europeus. E, em troca que recebem?


Quando vão corridos três quartos do mandato deste Governo, a contabilidade do deve e haver não é favorável aos cidadãos. E isto passa-se, note-se, numa situação em que o eleitorado deu a um partido uma maioria absoluta, baseado em promessas e num programa eleitoral que tem sido cumprido de forma muito diminuta. A maioria absoluta foi pedida- e ganha – em nome da capacidade de fazer obra. A realidade é que a obra feita é insuficiente para o que foi prometido.


Mas enquanto o cumprimento das promessas eleitorais é insuficiente, o aumento do poder do Estado sobre os cidadãos é grande, as atitudes autoritárias tornaram-se mais frequentes, a forma como o fisco abusa dos seus poderes generalizou-se, e o Estado dá sinas de se querer começar a intrometer em questões do foro privado.


O quadro geral mostra que a maioria absoluta não resolveu os problemas, mas serviu para evitar debates e para fugir a preparar medidas de forma mais cuidada. O grande problema de José Sócrates é que tem um estilo autoritário, em vez de conseguir ganhar autoridade pelo acerto das posições que toma. Por isso, mais vale que a maioria absoluta não se repita. Esse é o único balanço que consigo fazer dos três anos deste Governo.