(publicado no diário «Meia Hora» de 2 de Abril)
José Sá Fernandes foi eleito vereador na Câmara Municipal de Lisboa pelo Bloco de Esquerda sob o slogan «O Zé Faz Falta». Como se viu logo no dia seguinte às eleições, na realidade ele faz falta essencialmente ao PS e a António Costa, que sem ele não teriam a maioria que lhes permite desprezar o consenso e esquecer a importância do diálogo com as outras forças políticas.
O que se passou na semana passada com a questão da instalação de turbinas eólicas é bem sintomático do estado das coisas: como existe maioria, a coisa faz-se, a bem ou a mal, se necessário fôr, sem discutir. José Sá Fernandes junto com os votos do PS garante a viabilidade da instalação das turbinas.
A peregrina ideia da instalação de um conjunto de turbinas eólicas no meio da cidade partiu do vereador José Sá Fernandes e permite evidenciar de forma clara as contradições em que ele se deixa cair e a falta de coerência da sua actuação.
Vamos buscar um exemplo que mostra bem como as coisas são: aqui há uns anos, o então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, João Soares, quis construir um elevador que partia da zona do Martim Moniz até ao nível do Castelo De S. Jorge. O elevador tinha uma utilidade incontestável - acesso de visitantes ao Castelo, possibilidade de captar novos moradores para a zona e assim promover a reabilitação urbana do local, ao mesmo tempo fomentar a viabilidade de actividades económicas na área do turismo e restauração numa zona histórica de Lisboa. Acontece no entanto que o elevador era feio e teria um impacto visual considerável naquela colina de Lisboa. Estas razões, estéticas, patrimoniais, ditaram um movimento de contestação à iniciativa onde José Sá Fernandes esteve pessoalmente empenhado, fazendo até uma das suas mediáticas intervenções para impossibilitar que as obras se iniciassem no local de onde o elevador vertical nasceria.
Agora, uns anos depois, é o mesmo José Sá Fernandes que aparece a defender a instalação de meia–dúzia de turbinas eólicas, cujo impacto visual é bem maior do que o do elevador que ele impediu.
Em nome de uma acção de propaganda das indústrias ligadas ao muito politicamente correcto ambientalismo, José Sá Fernandes deitou às urtigas as suas preocupações com a poluição visual de Lisboa. Nada que espante. Quando a linha política é feita de oportunidades mediáticas tudo se explica. Só não se percebe é porque é que o Zé faz falta a Lisboa. Só se for para a estragar ainda mais.