
A INSEGURANÇA DE QUE NÃO SE FALA - Há um problema grave de segurança nas nossas cidades e pouca gente fala dele no meio dos ruídos da política: até 15 de dezembro a PSP registou, só no distrito de Lisboa, mais de 15 mil acidentes de trânsito, que provocaram 16 mortes, 166 feridos graves e 6264 sem gravidade; no mesmo período registaram-se em Lisboa quase 500 atropelamentos. São números alarmantes e vejo pouca gente a preocupar-se com eles. A realidade é que os hábitos de circulação e a mera obediência ao código da estrada, foi-se desvanecendo. A utilização de pisca-pisca ou de outros sinais de mudança de direcção são uma espécie em vias de extinção. A inversão de marcha em locais proibidos ou a realização de manobras perigosas podem ser vistas por todo o lado. Bicicletas e trotinetas continuam a circular nos passeios afligindo os peões. Nas cidades aumentou muito o número de condutores estrangeiros que têm outros hábitos culturais e outros hábitos de condução e não abdicam deles. Pessoalmente tenho dúvidas que no processo de conversão das suas cartas de condução para documentos portugueses exista uma séria fiscalização sobre a veracidade dos documentos que apresentam e sobre a sua capacidade como condutores. Quem os vê a guiar, seja de que nacionalidade for, tem dúvidas sobre se passariam num exame sério em Portugal. Há 50 mil estafetas de entrega de refeições inscritos nas várias aplicações que existem, conduzem automóveis, motociclos e bicicletas e muitos deles passam sinais vermelhos como quem respira. O mesmo em relação a condutores de TVDE’s. Há dias um amigo meu, que ía na sua mão num motociclo, foi abalroado por um TVDE que mudou de direcção e entrou na sua faixa sem nenhum aviso prévio. O meu amigo ficou em estado grave, o condutor do TVDE, estrangeiro, achou que ele tinha só uma ferida ligeira e encolheu os ombros. Mas o problema não é só com os estrangeiros. A recente morte de Pedro Sobral, que seguia na faixa de velocípedes e foi atropelado mortalmente por um carro de jovens portugueses que regressavam de uma noitada, deve obrigar-nos a todos a repensar a forma como se circula, como se concedem cartas de condução, como se detectam e punem os infratores. As mortes provocadas por condutores que não respeitam as regras de circulação são o mais grave problema de segurança das cidades portuguesas. E as autoridades têm a obrigação de encarar o assunto de frente.
SEMANADA - Este ano já foram feitos mais de 70 mil pedidos de trocas de cartas de condução estrangeiras, a maioria do Brasil e de emigrantes indianos; a nível nacional, em seis anos, morreram pelo menos 111 pessoas em acidentes com bicicletas; registam-se anualmente cerca de 35 mil acidentes rodoviários por ano; nos últimos dez anos duplicou a escuta de rádio através de telemóvel; a utilização da internet por pessoas com mais de 64 anos duplicou desde 2019; existem em Portugal 888 publicações periódicas; apenas 7,4% das famílias vê televisão exclusivamente através da plataforma de TDT e 89,9% vê televisão por cabo; os Serviços e Administração Pública são o segundo sector mais reclamado no Portal da Queixa e somam quase 15 mil reclamações ao longo de 2024, um crescimento de 6%, face a 2023; os Institutos Públicos são os mais visados, somando 59% dos casos; o sector que origina mais queixas é o das telecomunicações e a operadora DIGI, que entrou no mercado português em novembro, já soma mais de 400 reclamações com a qualidade do serviço e as falhas técnicas a liderarem as insatisfações dos consumidores, enquanto o serviço de Internet é o principal foco das queixas, representando 56,9% dos casos reportados; 21 % da população portuguesa admite não ter dinheiro para aquecer convenientemente as suas casas, o valor mais alto entre os 27 países da UE; segundo o INE o preço médio de uma casa é de 220 mil euros, mas se forem consideradas só as casas novas sobe para 300 mil.
O ARCO DA VELHA - O número de novas músicas lançadas por dia em serviços de streaming em 2024 é de 120.000, mais do que no ano inteiro de 1989.

POESIA EXPOSTA - Para encerrar o ano o destaque vai para a exposição “No Reino de O’Neill”, patente na Biblioteca Nacional e que, inaugurada no passado dia 19 de Dezembro, data em que O’Neill teria feito 100 anos, ficará patente até 8 de Março. A exposição, que tem comissariado de Joana Meirim, mostra a evolução do percurso de O’Neill, um dos mais importantes vultos da cultura portuguesa do século XX, através de seis núcleos que vão desde a sua infância e juventude, à descoberta do surrealismo e, depois, à produção nas décadas de 50, 60, 70 e 80 em áreas que vão da poesia à crónica, passando pela publicidade, a televisão e os vários programas que fez e em que participou (como o Zip-Zip), a música, o cinema e o teatro. Desde o seu “Reino da Dinamarca” (1958) e um dos seus mais famosos poemas, “Adeus Português”, incluído nesse livro, até à edição de “Poesias Completas”, em 1981 e o seu derradeiro livro, de 1986, “O Princípio de Utopia, o Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Português e Vários Outros Poemas”. O’Neill tinha sentido de humor e saudável espírito crítico, e também com uma melancolia que foi crescendo ao longo da vida, bem patente na maneira como descreve o amor e a paixão, no já citado “Um Adeus Português”. A exposição é enriquecida por uma série de fotografias (algumas do próprio O’Neill, que gostava de mostrar o seu olhar) e esta aqui reproduzida, de Jaime Casimiro, assim como por um conjunto de textos sobre a sua obra e vida, valendo a pena destacar a biografia escrita por Ana Maria Pereirinha.

ROTEIRO - O Museu da Música Mecânica celebrou em Setembro passado oito anos. Localizado em Pinhal Novo, tem mais de 600 peças que se movimentam por sistemas exclusivamente mecânicos, e abrangem fundamentalmente o período de finais do Séc. XIX até à década de 30 do século XX, todas em estado de funcionamento, de grafonolas a pianolas, caixas de música ou jukeboxes, como esta que está na imagem. Todos os objectos pertencem à colecção de Luís Cangueiro cuja actividade profissional está ligada à publicidade. O Museu da Música Mecânica fica na Rua das Alegrias, Quinta do Rei, Pinhal Novo, pode ser visitado aos sábados, domingos e feriados das 15 às 18 e realiza-se uma visita guiada nesses dias às 15h30. Mais a norte, em Serralves, pode ver uma exposição evocativa do centenário de Mário Soares, “O Sal da Democracia”, outra de desenhos de Álvaro Siza e um destaque final para uma mostra de trabalhos de Devendra Banhart, um artista norte-americano conhecido sobretudo pelas suas canções, que pinta e desenha grande parte das capas dos seus discos, e apresenta em Serralves sobretudo desenhos, numa exposição que mostra também excertos da sua poesia. E em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga poderá ver até abril uma exposição sobre desenhos europeus dos séculos XVI a XVIII, da colecção do Museu sob o título “Seres e Animais Fantásticos”, que mostra como eram imaginados na época dragões, centauros, grifos, sereias e tritões.

UMA VIAGEM NA HISTÓRIA - Michael Wood é um historiador inglês, escritor, jornalista e autor de documentários de televisão, membro da Royal Society for the Arts e professor na Universidade de Manchester. Depois de ter escrito uma História da China (editada em Portugal), foi à descoberta de Du Fu, considerado o maior poeta da China, que viveu entre os anos 712 e 770. Wood descreve a vida, a época e a obra de Du Fu, atravessando tempos de guerra, fome e migração interna, que foram vividos há quase 1300 anos. Wood fez simultaneamente um documentário para a BBC, “Du Fu: China’s Greatest Poet”, visitou os locais chave da vida do poeta, descrevendo-os. Du Fu era um grande observador da sua época, relatando como o imperador Xuanzong fez prosperar o país durante a dinastia Tang, até ser deposto por um dos seus generais numa rebelião que durou oito anos e durante a qual morreram 13 milhões de chineses, de uma população total de 50 milhões à época. Du Fu escreve sobre esta catástrofe, fazendo de cada poema também uma narrativa. O livro “O Maior Poeta da China - Nos Passos de Du Fu” não é uma recolha de poemas, mas sim uma biografia onde Wood intercala desenhos, mapas, ilustrações e descrições dos principais locais que marcaram a vida do poeta e nos faz compreender a sua obra. O livro, editado pela Temas e Debates, foi traduzido por Magda Barbeita, uma portuguesa que se tem dedicado ao estudo da língua e cultura chinesas.

BONS RITMOS PARA O NOVO ANO - Para quem quiser começar o ano com bons ritmos recomendo um disco de Setembro de 2024, “Dance, No One’s Watching”, do quinteto britânico Ezra Collective, que apresenta uma incursão pelo jazz com passagens por ritmos latinos, afrobeat, hip-hop e funk, tudo impulsionado por uma secção de metais de trompete e saxofone e uma secção rítmica que junta um pianista a um baixo e um baterista e que conseguem manter um pano de fundo irresistível que se desenvolve ao longo de 19 temas e uma hora. Os Ezra Collective são produto de uma organização britânica de educação musical, Tomorrow Warriors, que tem tido um papel activo no renascimento do jazz no Reino Unido. “Dance, No One’s Watching” tem ainda colaboração de duas vocalistas com clara inspiração soul, Yasmin Lacey e Olivia Dean - ouçam a primeira no arrebatador “God Gave Me Feet For Dancing” e a segunda em “No One’s Watching Me”. Outros temas a reter são “Everybody” e “Streets Is Calling”, com a participação de M.anifest e Moonchild Sanelly. Disponível em streaming.
ALMANAQUE - Apontem nas agendas: em Londres a Tate Modern assinala no início de Maio 25 anos de existência e o programa é aliciante. O destaque vai para o regresso de 25 obras da colecção do museu que ali não são mostradas há algum tempo, nomeadamente o regresso à galeria principal da obra “Maman”, a gigantesca aranha de bronze com dez metros de altura feita por Louise Bourgeois, e também os murais “Seagram” de Mark Rothko. A exposição “A Year in Art: 2050” mostrará como artistas convidados imaginam o futuro e “Gathering Ground” mostrará o trabalho de artistas contemporâneos de diversos países.
DIXIT - “A digitalização do Estado não pode ser a digitalização da burocracia” - Adolfo Mesquita Nunes
BACK TO BASICS - “A única coisa que nos salva da burocracia é a ineficiência. Uma burocracia eficiente é a maior ameaça à liberdade” - Eugene McCarthy
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS




































