novembro 13, 2012

O TRABALHO EXEMPLAR DO BANCO ALIMENTAR

A melhor forma de resumir o caso criado em torno das declarações de Isabel Jonet numa estação de televisão foi feita por Pedro Rolo Duarte, no seu blogue. Com a devida vénia aqui vai uma citação: “Aqueles minutos de televisão são gotas de água no oceano de solidariedade que o Banco Alimentar Contra a Fome tem constituído. E também são gotas de água nos anos de entrega e empenho que Isabel Jonet tem dedicado a quem efectivamente  precisa de apoio e ajuda. Destruir o nome da pessoa, e da instituição, por causa de um momento infeliz de televisão, é admitir que o circo mediático tem mais poder do que a causa, o trabalho, e o valor, que os anos foram demonstrando, provando, e mais do que isso: fazendo. Fazer ainda vale mais do que só falar, digo eu. Deixemos o Banco Alimentar fazer, com a Isabel Jonet, e admitamos que errar quando se fala é bem menos grave do que errar porque nada se faz.”.


 


No essencial Isabel Jonet disse que o país tem vivido acima das suas possibilidades. Isto não é uma novidade – o endividamento particular e do Estado mostra isto mesmo: gastámos mais do que podíamos e devíamos durante tempo demais. Dizê-lo, agora, é ajudar a perceber aquilo que nos está a acontecer mas, sobretudo, é procurar evitar que no futuro se repita. Pode custar ouvir que não soubemos fazer contas, mas é a mais pura das verdades.


 


O Banco Alimentar é das poucas expressões da sociedade civil em Portugal. É um exemplo de rigor e de organização e mobiliza gente de todas as opiniões e de todas as idades. Dentro de dias vai haver nova recolha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar e essa é uma boa ocasião para todos mostrarmos como somos capazes de nos ajudarmos uns aos outros e como sabemos distinguir o fundamental do acessório.


 


(Publicado no Metro de dia 13 de Novembro)

novembro 09, 2012

o silêncio na política, a campanha americana e semanada variada

SILÊNCIO – Uma das coisas mais fascinantes na nossa atividade politica tem a ver com a gestão do silêncio de algumas figuras do Estado que têm por função mediar conflitos, encontrar pontos comuns, descobrir soluções, aconselhar uns e dar uma palavra de estímulo a quase todos nestes difíceis momentos. Estou a falar do Presidente da República – e deste singular fenómeno que é o facto de vários órgãos de comunicação, quando de repente ele fala, optarem por dizer “Cavaco rompeu o silêncio”, antes de explicarem o que ele disse. É a prova de que este Presidente da República criou uma nova forma de posicionamento - que é o seu silêncio – que se torna a notícia principal quando é rompido. É a subversão da ordem lógica das coisas mas é , também, o sinal mais preocupante, do declínio de um regime construído de tabus e conspirações. Quando um dia se fizer a crónica destes dias muito haverá para contar sobre a utilização dos silêncios como arma politica.


 


CAMPANHA – Na noite das eleições presidenciais norte-americanas o site do New York Times afirmava que estava para começar o mais fantástico programa de televisão dos últimos anos. Acertou – e o que aconteceu foi o culminar de uma campanha que se caracterizou por ser a mais cara de sempre.  O Center For Responsive Politics calcula que cerca de seis mil milhões de dólares tenham sido gastos em publicidade, nos vários media, nesta campanha presidencial em 2012. É certo que este valor é manos do que a industria automóvel norte-americana gasta em publicidade de televisão num único ano. Mas mesmo assim foi um valor enorme. Os canais de Cabo da Time Warner tiveram que deixar de fazer auto-promoções dos seus programas alguns dias antes das eleições para poderem acomodar no seu espaço de emissão os spots publicitários que as campanhas políticas queriam colocar no ar – houve nalguns casos mais procura que oferta. Mas voltando às televisões, a NBC foi a primeira a prever – e anunciar – a vitória de Obama. A Fox seguiu-se-lhe, criando alguma tensão interna entre os convidados republicanos que estavam no estúdio da estação. A CNN foi a mais cautelosa, mas a que criou a imagem mais fantástica – uma iluminação especial no Empire State Building, que reflectia o avanço dos resultados eleitorais através de colunas de luz azul (democratas) e vermelha (republicanos). Mas a estrela da noite não estava nas televisões, e sim no New York Times, escrevendo o seu blog “Five Thirty Eight”. Nate Silver, um economista que desenvolveu um algoritmo que lhe permitiu fazer previsões certeiras desde os primeiros momentos do dia da eleição, chegou ao fim da maratona eleitoral com mais de 360.000  seguidores no seu twitter e tornou-se no oráculo da politica norte-americana.


 


 


SEMANADA – Tribunais têm 1,7 milhões de processos parados; comércio, construção e imobiliário lideram os sectores empresariais nos pedidos de insolvência; este ano 5322 empresas já foram declaradas insolventes, mais 45,33% que em 2011; o número de desempregados que anulou a inscrição nos centros de emprego para emigrar entre Janeiro e Setembro disparou 45,4% face a igual período do ano passado; dívida publica cresceu 20 vezes desde1974 e assim cada português deve em média 20 mil euros; o Plano de Emergência Alimentar já está a fornecer 34 mil refeições por dia; a lista negra de devedores envolve mais de 31 mil pessoas e empresas e os valores em dívida ao Estado atingem 434 milhões; as vendas de automóveis caíram 41% até outubro; o dinheiro gasto na campanha presidencial norte americana resolvia o deficit português; já foram feitas apreensões de cocaína este ano no valor de 95 milhões de euros.


 


 


ARCO DA VELHA –Os cemitérios também pagam taxa audiovisual na fatura de eletricidade, assim como os semáforos e os postes de iluminação pública.


 


OUVIR- Kurt Elling é considerado um dos melhores vocalistas de jazz contemporâneos e sábado dia 10 actuará no Grande Auditório do CCB. Natural de Chicago, o seu primeiro disco data de 1995. Na sua carreira já ganhou um Grammy e os leitores e cíticos da revista norte-americana Down Beat consideraram-no como o melhor vocalista de jazz de 2012. No CCB irá basear a sua actuação no seu novo álbum,  “1619 Broadway – The Brill Building Project”. O disco é uma homenagem àquele que é considerado como o berço de muitas das melhores canções. O Brill Building é um edifício de escritórios onde estão empresas ligadas à actividade musical e alguns estúdios de som e de ensaio. Em tempos foi descrito como “o mais importante gerador de canções populares no mundo ocidental” e fica exactamente no número 1619 da Broadway. Neste disco estão grandes clássicos como “On Broadway”, “Come Fly With Me”, “I’m Satisfied” , “American Tune” ou “So Far Away”, e outras de nomes que vão de Paul Simon a Carole King, passando por Sam Cooke ou Burt Bacharach. Em comum todas têm alguma ligação ao Brill Building e Elling interpreta-as com a sua forma muito própria, brincando com o ritmo e o fraseado das canções. Se não for ao CCB, compre o disco e não se irá arrepender.


 


 


VER – O panóptico do Hospital Miguel Bombarda é uma construção arquitectónica invulgar que tinha por finalidade providenciar a detenção para doentes mentais considerados perigosos. Não é um sítio agradável e imagina-se o que seria viver dentro das suas pequenas celas, dispostas de forma circular, sobre um amplo relvado central. As celas, hoje vazias, são a memória que resta da construção criada pelo arquitecto José Maria Nepomuceno e que se manteve em funcionamento até 2000. Em 2001 foi classificado como imóvel de interesse público e transformado em museu hospitalar. Luís Campos, um médico que tem desenvolvido assinalável trabalho na fotografia, teve a ideia de convidar uma série de outros fotógrafos para uma exposição integrada nas actividades do 4º Congresso Internacional dos Hospitais. Dos 24 convidados destaco os trabalhos de Augusto Brázio, Valter Vinagre, Inês d’Orey, Catarina Botelho, Augusto Alves da Silva, João Paulo Serafim, Luís Ferreira, Pedro Letria, José Maçãs de Carvalho e do próprio Luís Campos. É um local que vale a pena descobrir e uma exposição que vale a pena conhecer. Pode ser visitada de terça a Sábado, das 12 às 18, até final de Janeiro.


 


FOLHEAR – José Manuel Fernandes, jornalista, ex-director do “Público”, meteu ombros a uma tarefa não muito popular, mas corajosa, que é reflectir sobre a sua actividade politica na juventude, entre os 15 e os 23 anos, que coincidiu com os anos antes e imediatamente seguintes ao 25 de Abril de 1974. Com o sugestivo título “Era Uma Vez... A Revolução”, José Manuel Fernandes conta episódios que viveu de perto, relata sem floreados os primeiros tempos da UDP e como se formou como jornalista na “Voz do Povo”, onde aliás nos conhecemos e trabalhámos juntos, onde vivemos ilusões e onde descobrimos desilusões. E é sobre a forma como, dentro de uma organização radical, se vai ganhando consciência do que não está bem e daquilo que surge em contradição com os idealismos, que o livro se desenvolve – e é esta viagem à percepção da “fatal ilusão”, como o autor lhe chama, referindo-se à  “ ratoeira ideológica do merxismo e dessa sua declinação extrema, o maoísmo”, que torna o livro simultaneamente incómodo para alguns e exemplar para outros. Escrito como um relato de memórias, “Era Uma Vez... A Revolução”, nunca é acrítico nem distanciado, é muitas vezes empolgante e é certamente muito pouco saudosista. O que é aliás a sua principal qualidade.


 


 


PROVAR – Nesta época do ano há uma fruta que me tira do sério – os dióspiros. O nome tem origem grega e quer dizer a fruta dos deuses. É um nome bem posto. Confesso que foi para mim uma descoberta tardia, mas hoje em dia suspiro que chegue o Outono e que, com ele, venham os dióspiros, bem maduros. Abro-os com uma colher, a polpa quase líquida, que gosto de polvilhar com canela, com umas nozes ao lado. Se puder acompanhar com um moscatel roxo da casa agrícola Horácio Simões, da Quinta do Anjo, Palmela, ainda melhor. É uma combinação perfeita, uma sobremesa absolutamente excepcional.


 


 


GOSTO –  60% dos portugueses já acede à internet e um em cada cinco utilizadores acede a partir do telemóvel


 


NÃO GOSTO – O sporting tem as piores classificações, pontuação e quantidade de golos marcados de sempre depois de oito jogos na Liga.


 


BACK TO BASICS – Não é de admirar que entre os cidadãos cresça uma descrença na política, quando em todas as eleições ouvem os políticos fazer promessas que não cumprem nem nunca tencionaram cumprir. Fantasias de campanha eleitoral servem para ganhar eleições mas não melhoram a vida de ninguém – Bill Clinton




(Publicado dia 9 de Novembro no Jornal de Negócios)

novembro 06, 2012

BOM SENSO E AUSÊNCIAS

O país anda suspenso da palavra “refundação”. Há políticos que discutem o seu significado, há líderes da oposição que se opõem à palavra – mas até hoje ninguém explicou o que ela quer dizer de facto - como muito bem notou o Professor Adriano Moreira,  que sugeriu que fosse Passos Coelho a dizer o que entende ser a tal “refundação”. De uma forma simples, Adriano Moreira veio chamar atenção para o ridículo da situação – um Primeiro Ministro que proclama um objetivo que não detalha e uma classe política que não faz o óbvio, que é perguntar-lhe o que quer dizer. O episódio da refundação teve dois efeitos colaterais: acentuou o silêncio de Cavaco Silva e mostrou que o líder da oposição é do contra por princípio, mesmo sem saber, como nesta caso, aquilo que está a contrariar. Temos portanto o caldo entornado porque a refundação evidenciou que o PS deixou de querer fazer parte da solução e colocou-se do lado do problema, que aliás ajudou substancialmente a criar.


 


No meio disto, há uma pergunta que se repete com persistência: onde anda Cavaco? No Facebook, um dos seus locais de eleição, anda desaparecido desde o dia 13 do mês passado,  o dia em que invocou o estudo do FMI sobre os efeitos das medidas de austeridade. No resto, não se sente nem se ouve, num momento em que o PS diz que se vai embora do sistema, em que o estado de paz podre da coligação faz aumentar os sinais de crise política, em que o orçamento é o que se sabe, e, finalmente, num tempo em que as eleições autárquicas e o romance dos candidatos que transitam de círculo eleitoral são matéria que promete. Entre um governo que criou a imagem de ser uma correia de transmissão da senhora Merkel e  uma oposição suicida seria desejável existir um árbitro, alguém com bom senso. O bom senso que Adriano Moreira tem e que falta tanto noutras paragens.


 


(Publicado no Diário Metro de 6 de Novembro)

novembro 02, 2012

MANUAL DE REFUNDAÇÃO DO PALAVREADO E SUGESTÕES AVULSAS

PALAVRAS – Em política as palavras são como símbolos. Utilizam-se sem ninguém se preocupar com o seu verdadeiro conteúdo, mas apenas porque podem ser úteis para gerar movimentos e provocar reações. Há poucos dias o léxico político indígena ganhou uma nova palavra – “refundação”. Ninguém sabe verdadeiramente o que isto quer dizer: se é uma mudança, será em que sentido? se é uma reforma, será em que áreas? se é uma redefinição, parte de onde? Em tudo isto não existe um ponto de partida claro mas, pior ainda, não existe um objetivo evidente enunciado, não se sabe onde se quer chegar. No estado em que as coisas estão a refundação é uma tática que não serve nenhuma estratégia, a não ser manter a ilusão de que é o Governo, e não a troika, quem governa. A tal “refundação” é a maior declaração de incapacidade política de que tenho memória. É uma espécie de bandeira branca que se levanta a meio da batalha, pedindo tréguas e cessar-fogo. O Governo tem agido à vista – num enredo de enganos de previsões, de medidas que se anunciam e se anulam, sem rumo nem destino.  Ao fim de um ano e meio chegou-se aqui sem que de facto tenha sido feita uma reforma que se veja, apesar de o PSD ter sido eleito por dizer que iria fazer reformas. Não existem nem se vislumbram onde eram necessárias, como na justiça ou no peso do Estado. Mas existem onde é mais fácil – nos aumentos de taxas e impostos. Assim sendo a palavra “reforma” esgotou o seu sentido e houve que ir buscar outra – apareceu a “refundação”. Para se refundar alguma coisa era preciso que, antes, se tivesse fundado algo. Do rol de atividades deste Governo não consta que tal tenha sucedido. É pena – porque as promessas eleitorais eram outras e mais uma vez quem votou foi enganado. O persistente uso do bibe na idade adulta e o à vontade no manejar da folha de excel não são os principais atributos desejáveis num político. O que precisamos é de pessoas sensatas que sejam capazes de argumentar e negociar com a rapaziada que por essa Europa fora vive fechada no universo das folhas de cálculo. Vivemos na época digital mas temos instituições, partidos e políticos analógicos. O resultado está à vista.


           


SEMANADA – Desemprego subiu 40% na construção e já atinge cerca de 100 mil pessoas; quase 60% das grandes empresas foram alvo de ações judiciais nos últimos 12 meses; Portugal gasta mais em defesa e educação que a média dos países da zona euro e, também em média, gasta menos em saúde e prestações sociais que os outros países; a administração fiscal penhora mais de 2800 contribuintes por dia; num inquérito da Associação de Comércio de Lisboa os responsáveis de 3000 empresas queixam-se mais da Justiça do que da falta de crédito; o indicador de confiança dos consumidores atingiu, em Outubro, um novo mínimo histórico desde o início da série do INE em 1997 e as perspetivas das famílias sobre a economia e a sua própria situação financeira são as piores de sempre; Passos Coelho admitiu no Parlamento que em 2013 pode haver quebra da receita fiscal apesar do aumento de impostos – e que o orçamento pode não ser cumprido; o orçamento comunitário para o período de 2014 a 2020 vai reduzir em cerca de 10% e para Portugal a quebra será de pelo menos 2500 milhões de euros.


 


ARCO DA VELHA – O Autódromo do Algarve pediu o perdão de 40 milhões de euros de dívidas e o Estado vai demorar mais de dez anos a receber mais de 600 mil euros que a empresa lhe deve. O Autódromo foi inaugurado há quatro anos pelo então ministro Manuel Pinho que, na cerimónia, afirmou: "Todos os equipamentos que aqui vão crescer são uma mais-valia para evitar que o autódromo se transforme num elefante branco".


 


 


VER – Várias sugestões de fotografia. Começo por Coimbra, duas exposições, ambas promovidas pelo Centro de Artes Visuais. A primeira é de Daniel Malhão e mostra um conjunto de obras selecionadas do autor; a segunda é intitulada “O Amor de Alcibíades”, de Eduardo Guerra. Ambas estão nas instalações do CAV, no Pátio da Inquisição.


A segunda sugestão, bem diferente: até 9 de Novembro podem ser vistas as 20 melhores fotografias do II Prémio de Arte Grünenthal, subordinado ao tema “Que a Dor não seja mais do que uma recordação”. Estão na sede do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Avenida da Liberdade, 270. O prémio foi ganho pelo espanhol Miguel Ángel Tornero com o trabalho “Pain Killers”.


A terceira sugestão: Neil Lochery, que escreveu um belo livro sobre Lisboa no tempo da guerra, procurou imagens dessa época, mostrando a cidade entre 1939 e 1945, em diversos arquivos internacionais e nacionais. Muitas destas imagens eram inéditas até agora. Até dia 9 de Novembro nos Paços do Concelho.


 


 


OUVIR E VER – Nada como recordar os sons que uma cidade como New York evoca através da gravação de um concerto de Paul Simon no Webster Hall, em 6 de Junho de 2011. Paul Simon é acompanhado por oito músicos de exceção e percorre diversas fases da sua carreira, desde “The Sounds Of Silence” até “Diamonds On The Soles Of Her Shoes”, passando por “50 Ways To Leave Your Lover ou “Still Crazy After All These Years”. Ao todo são 20 temas, num belo DVD realizado por Martyn Atkins. Algumas destas canções há muito não eram tocadas ao vivo por Paul Simon, que agora vai nos seus 70 anos – como “Mother And Chilkd Reunion” ou “Kodachrome”, mas elas estão talvez entre os melhores momentos do registo.O que gostei mais neste DVD foi o ar de concerto intimista, de uma atuação para amigos. Por vezes, quando o DVD está a tocar, até se tem a sensação que ele está ali, a tocar só para nós.


 


FOLHEAR –  A edição de Novembro da Monocle vem tocar um tema que está na ordem do dia em todo o mundo e que é a qualidade da assistência de saúde que cada país pode proporcionar aos seus cidadãos. O trabalho tem a diversidade e o inesperado que são a imagem de marca da Monocle – e pelo meio surgem muitas informações curiosas. As reportagens incluem uma viagem ao serviço Royal Flying Doctor da Austrália, uma espécie de 112 aéreo, um balanço da atividade das principais editoras de publicações médicas ou arquitectura de instalações hospitalares. Neste tempo de eleições há um belo artigo sobre os negócios à volta das presidenciais norte-americanas, desde pesquisas de opinião até eventos de angariação de fundos - boas ideias para os nossos assessores políticos. Nas viagens fiquei com vontade de conhecer Lucca, na Toscânia e umas comidas peruanas, em Lima. Enfim, nestes dias de crise a Monocle é cada vez mais preciosa – dá-nos a ilusão de conhecer o mundo sem sair de casa. E então se ouvirmos a sua webradio Monocle24 isso é ainda mais acentuado. Eu, estou fã das web rádios e desta da Monocle em particular.


 


PROVAR –Se gostam de comida japonesa podem ter um contacto próximo com os seus ingredientes e com alguns produtos preparados nas lojas Goyo-Ya. Existe uma em Cascais (no Centro Comercial Orion, Rua D. Francisco Avilez) e outra em Lisboa, às Picoas  (na Rua Filipe Folque nº30). Para além de utensílios culinários poderá lá encontrar produtos naturais, diversos ingredientes, molhos mas também congelados, como umas maravilhosas gyosas de camarão e outras de vegetais. Na loja são todos muito prestáveis e dispostos a esclarecer as dúvidas dos ocidentais.


 


GOSTO –   Que “Desfado”, o novo CD de Ana Moura, tenho sido o primeiro disco português a ter uma masterização de som própria para o iTunes.


 


NÃO GOSTO – Que o Sporting esteja há seis jogos seguidos sem ganhar e que vá já no oitavo treinador em três anos.


 


BACK TO BASICS – Quando me fazem uma pergunta, a minha resposta não tem por objectivo agradar a quem a fez – William Shakespeare


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 2 de Novembro)

outubro 30, 2012

UM EPISÓDIO DE ABUSO

Aqui há umas semanas recebi uma notificação, oriunda de um departamento do DIAP,  para ser testemunha num processo, que é identificado apenas por uma referência numérica e não tem nenhuma indicação nem sobre os envolvidos nem sobre o assunto em causa. Enviei, no próprio dia que recebi a carta, por email, para o endereço eletrónico apontado na notificação, um pedido de informação que permitisse esclarecer minimamente ao que ía. Passadas duas semanas recebi, paradoxalmente por correio tradicional e não por email, uma nova carta, com uma fotocópia anexada, que reproduzia um despacho, de assinatura ilegível e sem referência à qualidade de quem proferia o dito despacho, que dizia isto: “Informo que o requerente assume a qualidade de testemunha e no momento da inquirição será informado dos factos em investigação”.


 


Parece uma anedota, parece um absurdo, mas na realidade é um exemplo do triste estado do funcionamento da nossa justiça e do total desprezo pelos cidadãos. Eu tenho o direito de ser informado ao que vou sem ser por um despacho absurdo como este. E o pior é que nem sei quem foi o responsável por isto – porque se esconde atrás de uma fotocópia sem assinatura ou cargo legível.


 


Isto é o abuso do Estado e o absurdo da Justiça, tudo em simultâneo. Indicam-me uma hora e um dia em que tenho de me deslocar, sob ameaça de multa e outras punições, e não me explicam minimamente o que pretendem de mim. Quem emite a notificação julga-se dono de um poder absoluto, isento de dar explicações e senhor do destino dos outros. Tem funcionários ao seu serviço que fazem fotocópias e enviam cartas por correio, em vez de ser o próprio a responder a um mail. É neste momento que temos a certeza de que falta fazer muito em matéria de reforma do Estado – e, já agora, de reforma da Justiça.


 


(Publicado na edição do Metro de dia 30 de Outubro) 

outubro 26, 2012

Sobre o carácter de Gaspar e outros temas candentes

PROVOCAÇÕES - Vítor Gaspar notoriamente é um homem informado, atento e estudioso; e é igualmente teimoso, insistente e orgulhoso. Todos sabemos como se tem enganado nas previsões (até as agências de rating o fizeram notar), como insiste em receitas rígidas e como nunca vê nem ouve o que não lhe interessa. A teimosia em demasia é muitas vezes confundida com estupidez; no caso de Vitor Gaspar, a teimosia parece ser também uma forma de provocação. Escolhe as palavras que ficam na memória, como o célebre “enorme aumento”. Conhece o peso político das palavras e frases que utiliza em momentos mediatizados. É o maior especialista em sound-bytes deste Governo. Nas últimas semanas fez, com uma regularidade espantosa, sucessivas provocações, sempre com o ar mais tranquilo do mundo – ao parceiro da coligação, ao Parlamento, a colegas seus Ministros. Até a declaração sobre a nota de Cavaco Silva no Facebook tem um travo incontornável de humor negro. Eu acho que o homem é um exímio provocador que tem prazer em pisar o risco com as palavras – vê-se- lhe isso nos olhos, na expressão. Ao princípio ainda se dizia que Gaspar era politicamente ingénuo; agora já se percebeu que é intencionalmente provocador. Por exemplo, esta semana anunciou que os portugueses querem mais do Estado do que os impostos que pagam, mas esqueceu-se de referir que o Estado é especialista em tirar aos contribuintes aquilo que eles já pagaram – nas reformas e pensões, para as quais descontaram durante a sua vida profissional. Já se sabe que o Estado não é pessoa de bem – e nessa matéria fica muito bem representado por Vitor Gaspar. Os burocratas, como cada vez mais se constata, acham sempre que baixar na despesa é difícil e que só se pode mexer nos apoios sociais – nem pensar em reduzir o peso do Estado já que é a sua enorme dimensão que garante o poder dos burocratas. Mas o mais aflitivo no Governo, e creio que o problema começa em Vitor Gaspar porque faz parte do seu perfil provocador, é o desprezo pela negociação – internamente e com a Comissão Europeia. Vitor Gaspar saberá o que é negociar? Terá ideia de que há outros países que têm conseguido negociar – nos prazos, nos juros, nos apoios, na flexibilização de algumas metas e que mesmo assim têm continuado abrangidos pelos auxílios da Troika? Mais valia Vitor Gaspar dizer que não gosta - ou não sabe – negociar e que prefere provocar. Negociar obriga a alterar modelos e dogmas – e provocar, não. Já me ocorreu que pode ser que Vitor Gaspar não saiba negociar ou que se incomode a pedir descontos. No dia a dia pedir descontos e ajustes faz parte da negociação. Eu gostava de ter um Governo que negociasse, em vez de ter um Governo que obedecesse. Preferia um Governo flexível, inteligente e hábil a um Governo marrão, inflexível e sem raciocínio.


 


COLIGAÇÃO - Nestas últimas semanas tenho estado inquieto com as pessoas que integram um Conselho de Coordenação da Coligação. Será que estão acamados e não têm podido agir, trabalhar, enfim, coordenar? Desde que esse Conselho foi criado há notícia de uma reunião inócua – aquilo a que se chama uma photo opportunity. Mas o Conselho conseguiu a proeza de passar invisível sobre toda novela orçamental, com as medidas anunciadas e retiradas, com os cortes e contra-cortes, com declarações públicas contraditórias de dirigentes e o rol de descoordenação a que se tem podido assistir nos últimos dias. Tenho uma ideia para esclarecer este assunto: de facto a Coligação já é apenas virtual, uma espécie de holograma político, e por isso nem faz sentido coordená-la.


 


SEMANADA – Um espião do SIS foi apanhado numa rede de lavagem de dinheiro; agências de rating duvidam dos números do orçamento de Vitor Gaspar; a receita com impostos recuou 4,7% entre Janeiro e Setembro; a contribuição per capita do IRS subiu 54% em dez anos; no final de Junho as contas da segurança social registaram o primeiro défice desde 2002; a dívida pública continua a crescer e aproxima-se dos 200 mil milhões de euros; o número de famílias que pediu insolvência aumentou 500% entre 2007 e este ano; mais de 200 famílias de guardas da GNR pediram insolvência; o número de portugueses que emigram deverá ultrapassar os 100 mil este ano; No espaço de dois dias o Governo cortou o subsídio mínimo de desemprego e depois recuou no corte; a receita com impostos recuou quase 4,7% entre Janeiro e Setembro, cerca de 1240 milhões de euros; o Banco de Portugal investiu mais de 40 milhões de euros em obras na sua sede, incluindo a criação do Museu do Dinheiro; uma manifestação contra o FMI em Lisboa registou mais polícias do que manifestantes junto aos escritórios da representação daquele organismo;


 


ARCO DA VELHA – Eis o regresso aos mercados: a banca portuguesa cortou o financiamento às empresas em 6,8 mil milhões de euros este ano, mas investiu, no mesmo período, 7,4 mil milhões em dívida pública. Como dizia o outro, o dinheiro não chega para tudo…


 


VER – Três sugestões esta semana: a primeira é uma visita à Carpe Diem (Rua Do Século 79) onde gostei especialmente de ver os desenhos “Lar Doce Lar…” de Cristina Ataíde, o vídeo “Cruzada” de Cinthia Marcelle, a instalação “Variações da Fé” de Hélène Vieira Gomes e Carlos Gomese a “Pintura Descolada” de Rosana Ricalde e Filipoe Barbosa; a segunda é a exposição de Maria Beatriz que assinala os 25 anos da Galeria Ratton (Rua da Academia das Ci~encias 2C), e que recolhe obras do final dos anos 70 e princípio dos anos 80 – desenhos e um belíssimo painel de azulejos – sob o título genérico “Um Lugar À Mesa”; finalmente até Domingo não percam a oportunidade de ver a exposição Blind Date, inserida na Lisbon Week, e que permite também descobrir o espaço, supreendente, da Biblioteca dos Paulistas - Igreja de Santa Catarina - Calçada do Combro, 82 - além de proporcionar um jogo de adivinhas sobre quem é o autor de cada obra exposta, todas do mesmo formato, mas não identificadas.


 


OUVIR – A carreira discográfica de Tori Amos começou há 20 anos com “Little Earthquakes”, na altura um disco surpreendente. Depois de incursões em várias áreas, da electronica à dança e até, pontualmente, ao hip-hop, Tori Amos como que fecha um círculo com “Gold Dust”, o seu novo álbum, agora editado pela Deutsch Grammophon – é uma revisitação de 14 temas feitos ao longo da sua carreira, provenientes de 10 dos seus 12 discos, aqui com novos arranjos e com o acompanhamento da holandesa Metropole Orchestra. Este não é um “best of”, no sentido que não são as canções mais conhecidas de Amos que ela escolheu – mas aquelas que por alguma razão são mais autobiográficas ou marcantes do seu ponto de vista pessoal. Na realidade este é um belíssimo cartão de visita para quem quiser conhecer ou revisitar a obra de Tori Amos.


 


FOLHEAR – Já aqui tenho dito que sou fã e colecionador do “Próximo Futuro”, um jornal editado pelo programa, do mesmo nome, criado pela Fundação Gulbenkian. A edição agora distribuída (nº11, Outubro/Novembro) – e que pode ser recolhida gratuitamente na Fundação e numa série de locais em Lisboa – tem um excelente artigo de António Pinto Ribeiro (que é o programador da iniciativa) intitulado “O Choque Civilizacional É No Interior De Cada País”, um bom portfolio fotográfico de Adonis Flores, uma ilustração com o traço inconfundível de Pedro Zamith e uma série de poemas de Fairdooz Tamini. Mais informações em www.proximofuturo.gulbenkian.pt.


 


PROVAR – Aqui e ali começam a ser reinventadas as padarias – que além de venderem pão, proporcionam pequenas refeições. Uma das mais recentes é “ O Pão Nosso”, que fica na Rua Marquês Sá da Bandeira 46B, perto da Fundação Gulbenkian. Lá provei um destes dias uma belíssima e tradicional tiborna de presunto e uma broa de mel que me trouxe sabores da infância. Na mesma ocasião levei para casa uns belos bagels, e fiquei com olho num bolo levedo, na broa de milho e na broa de avintes. Muito território a explorar. Mais informações e www.opaonosso.pt.


 


GOSTO – Da iniciativa de Zeinal Bava, na PT, que vai trazer a Portugal alguns dos maiores investidores mundiais para lhes apresentar soluções tecnológicas portuguesas.


 


NÃO GOSTO – De saber que a EMEL remunera os seus fiscais em função da quantidade de multas passadas.


 


BACK TO BASICS – Em Portugal a emigração não é a transbordação de uma população que sobra, mas a fuga de uma população que sofre” – Eça de Queiroz.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 26 de Outubro)

outubro 23, 2012

A PRODUTIVIDADE DAS MULTAS

Por estes dias ficámos a saber que os fiscais da EMEL ganham à multa. A administração da empresa chama-lhe incentivos à produtividade e elogia o bom desempenho dos funcionários que conseguem melhores resultados. Ora acontece que o bom desempenho dos funcionários da EMEL não se verifica na diminuição de carros estacionados em segunda fila nem em outras anomalias que prejudicam de facto a circulação. É sabido que há locais em que os funcionários estão praticamente escondidos à espera que algum incauto se coloque em posição de ser multado – ou porque foi trocar dinheiro, ou porque parou numa situação de urgência ou alguns outros motivos relevantes. Estes zelosos funcionários são pepe rápidos – aparecem, multam e fogem do local para não terem que ouvir os protestos dos cidadãos.


O problema é que a missão da EMEL evoluiu de um regulador do estacionamento para uma empresa caçadora de multas – não lhe interessando grande coisa resolver os problemas mas sim aumentar as receitas das coimas.


Era curioso que a EMEL disponibilizasse uma tipologia de multas aplicadas: quantas correspondem a segunda fila; quantas correspondem a estacionamento em zonas proibidas; quantos correspondem a ausência de ticket de parqueamento e quantas correspondem a estacionamento para além do tempo pago. A resposta a estas questões permitiria avaliar a natureza do serviço prestado pela EMEL. E já agora, qual o tempo médio de resposta a pedidos de desbloqueamentos – para se avaliar se é proporcional ao tempo que demora a bloquear.


A escandaleira é tal que até o atual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa veio recentemente admitir que havia muita coisa no funcionamento da empresa que o preocupava. Talvez pudesse, em ações, ser coerente com o que diz. Nós, lisboetas, agradecíamos.




(Publicado no Metro de 23 de Outubro)

outubro 16, 2012

O NOVO RITMO DO TEMPO

O mundo agora anda muito depressa. Tudo muda mais rápido que há uns anos. Vou dar um exemplo: no passado dia 5 de Outubro o Presidente da República tinha duas preocupações: fazer as celebrações da implantação da República à porta fechada; e evitar falar da situação do país. Escolheu falar da educação, louvando as suas qualidades. Fugiu assim de temas mais abrangentes e prementes, como a austeridade e os impostos.


 


No entanto, apenas poucos dias depois, de repente, no fim-de-semana passado, resolveu colocar no seu Facebook, o local onde passou a fazer as declarações verdadeiramente importantes, uma crítica à forma como a austeridade e  a política fiscal do Governo têm sido conduzidas.


 


Sabendo-se que Jorge Sampaio ía falar do assunto numa entrevista à SIC Notícias, onde iria abordar o tema da austeridade e dos impostos, restam duas possibilidades: ou combinaram ambos ter um discurso sincronizado, ou Cavaco – que já tinha ouvido palavras críticas em relação à situação, vindas de Ramalho Eanes e Mário Soares – resolveu alinhar no discurso para não estragar a festa – e para não parecer ser o único que não entendia a gravidade da situação.


 


Este modernismo facebookiano de Cavaco Silva é coisa recente – por exemplo no tempo que que tolerou que Sócrates fizesse as malfeitorias que se conhecem, nunca o Presidente da República deu pública nota de estar atento e vigilante. É certo que nessa época estava mais preocupado em não fazer nada que pudesse prejudicar a sua reeleição.


 


Aqueles que se habituaram à velocidade de resposta e evolução na internet e nas redes sociais olham com desconfiança para políticos que não reagem e – como Edson Athayde fazia bem notar esta semana – não entendem ciclos de tempo tão longos como legislaturas de quatro anos. Dá que pensar.


 


(Publicado no Metro de 16 de Outubro)

outubro 12, 2012

AS IMAGENS DE GASPAR

RETRATOS - Esta semana fiquei impressionado com duas fotografias de Vítor Gaspar: a primeira, na conferência de imprensa, do enorme aumento de impostos, de olhar alucinado; na segunda, no Eurogrupo, de sorriso satisfeito e matreiro, entre os seus pares. As duas imagens são o retrato perturbante de um homem que se tem enganado em todas as suas previsões, que tem falhado a maioria dos objectivos que estabeleceu para justificar as medidas que tomou, e que até agora nunca teve a capacidade de reconhecer que se enganou. Passei a semana à espera que ele dissesse que tinha errado, que algures se tinha enganado. Nada. Não justifica sequer porque é que calculou tão mal o efeito das medidas que tomou, sem restrições – note-se -  no decurso do último ano. Até o FMI já veio dizer que calculou mal o impacto da austeridade e mesmo Catroga veio distanciar-se das novas medidas fiscais anunciadas. E para onde vai todo o dinheiro dos impostos? De tudo o que é colectado, nada vai para pagar a dívida, mas no Governo não se fala disto. Continuamos, como se sabe, a acumular défices. Continua a ser tudo para o Estado gastar e mesmo assim não chega. Todo o esforço não é suficiente para equilibrar as contas. O que se passa no Governo é o retrato do país: Só o Ministro das Finanças pode falhar e nada lhe acontece; mas contribuinte que falhe, é executado.


Há dias, no Facebook, li um relato que me fez pensar: “Hoje, em conversa com uma alemã comum, perguntei-lhe como olham os alemães comuns para Portugal. Esperando uma resposta do tipo "passam o tempo na praia" obtive " o que vemos é sobretudo um país com muita corrupção, parece ser o vosso maior problema". É verdade: temos um monte de PPP’s, de escândalos como o BPN, de negócios sucateiros, que são a face evidente da pior das ineficiências, que é a falência de uma justiça que favorece objectivamente a corrupção porque, ao não funcionar, garante a impunidade. Portugal é, aos olhos de quem nos visita, uma república das bananas onde os habilidosos se safam e o Estado continua sem nada fazer a não ser gastar o que não tem.


 


 


SEMANADA – A quebra de receita do Estado provocada pelos efeitos da subida do IVA na restauração é estimada em 947 milhões de euros; 11 mil policias estão em trabalhos de secretaria, fora de funções operacionais, o que significa cerca de 25% dos agentes da autoridade; nos primeiros seis meses do ano aumentaram 33% os casos de assassinato que já ultrapassam a centena até final do mês passado; no hospital da Guarda os vivos dormem com os mortos nas enfermarias porque a morgue fecha durante a noite; uma das razões da perca de competitividade das nossas empresas reside nisto: o financiamento das pequenas empresas na banca em Portugal é o mais caro da zona euro – 7,79% contra 4,15% ; o crédito malparado atinge 15,6 mil milhões de euros; o desemprego de longa duração sobe 14%; 300 mil inscritos nos centros de emprego não estão a receber qualquer subsidio; os impostos pagos sobre a gasolina e o gasóleo já são praticamente o dobro do custo do combustível propriamente dito; o Governo quer aumentar tabaco de enrolar em 30%; Portugal está em segundo lugar, a seguir à Argentina, na lista dos países com maiores subidas de impostos; figuras do PS lançaram o nome de José Luís Judas para candidato à Câmara Municipal de Cascais; no 5 de Outubro António Costa parecia já o líder da oposição e não o Presidente da Câmara de Lisboa.


 


ARCO DA VELHA – Um livro de poesia para adultos, de Alice Vieira, sobre o amor, foi incluído numa lista de leituras recomendadas para alunos do 2º ano de escolaridade e foi preciso a autora vir alertar para o facto.


 


GOSTO – A Universidade de Limerick, na Irlanda, vai organizar uma conferência, intitulada “Strange Fascination”, para estudar o impacto cultural da obra de David Bowie.


 


NÃO GOSTO - No final do terceiro ano do programa de ajustamento, Portugal terá menos 500 mil empregos do que tinha quando pediu ajuda externa.


 


VER – Pedro Cabrita Reis inspirou-se em coisas simples da terra para uma nova série de desenhos que expõe na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, ao Chiado). Com o título “D’Après Nature (possibly...)” estão reunidas obras em que, entre os materiais usados nestes desenhos sobre papel, estão café, azeite, vinho, beterraba ou mel, alem, claro de grafite. Os produtos são maioritariamente oriundos da quinta que Cabrita Reis tem perto de Tavira –  as paisagens locais têm aparecido por diversas vezes na sua obra mais recente. “Trago-vos ainda o mutismo das árvores que aos poucos apaziguamos em febre dourada,  sanguínea e, por fim, negra, que verte dos cachos e flui, purificando os sentidos dessa outra inútil pureza, a do pensamento” – escreve o artista no texto que acompanha a exposição. São cores do Outono estas que percorrem as imagens da natureza assim desenhadas por Cabrita Reis – tranquilas, por vezes provocantemente tranquilas.


 


OUVIR – Confesso que gosto de discos pop, simples e delicados, uma raridade hoje em dia, perdidos que estamos entre produtos pré-fabricados com vozes muito bem afinadinhas e corpos a condizer, feitos para a fotografia, ou o vídeo, mais que para os ouvidos. Felizmente de vez em quando aparece um disco que recupera o prazer da música popular, o prazer de partilhar a diversão, como este “Coexist”, dos XX. Depois do enorme êxito do disco inicial, “The XX”, e da respectiva digressão, o grupo esteve afastado dos palcos e entreteve-se a ir a clubes e a dançar. Parece que daí nasceu uma atracção pela música e os ritmos de dança e Jamie Smith, um dos elementos da banda, desenvolveu uma carreira paralela de DJ. “Coexist”, o novo álbum, vai buscar ambientes e inspiração por exemplo à house-music em temas como “Sunset”. Mas a essência de “Coexist” continua a ser o despojamento e a simplicidade, tão evidente e atraente em canções como “Our Song”, “Missing” ou “Tides” – onde a guitarra de Romy Madley Croft tem um simples e incontornável diálogo com o baixo de Oliver Sim, uma extensão dos diálogos vocais que ela e ele tecem canção após canção. A guitarra de Rodley Madley Croft, quase que me arrisco a dizer a evocar Vini Reilly nos Durutti Column de há anos atrás, é um ponto incontornável dos XX e é para esse tempo - dos Durutti Column, dos Young Marble Giants ou dos Cocteau Twins de então.


 


 


FOLHEAR – A revista “Wallpaper” foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, e o êxito foi tão imediato que um ano depois a estava a vender à Time Warner. Brulé continuou como editor até 2002 e, cinco anos depois, lançou a “Monocle”, que continua a dirigir. Nestes últimos anos a “Wallpaper”, sob a direcção de Tony Chambers, que sempre foi marcada pelo forte uso da imagem, dedicou-se cada vez mais ao design, à arquitectura, à moda mas também às viagens – a sua colecção de guias de cidades é célebre (alguns títulos estão editados em português). De vez em quado surge uma edição especial, quase para coleccionadores, como esta de Outubro, que tem três capas diferentes, cada um feita por um dos editores convidados: a fotógrafa Taryn Simon, o arquitecto Ole Scheeren e o pianista Lang Lang (e cada um deles tem direito a um extenso portfolio no interior). Escolhi a capa de Taryn sSiom, “The Picture Collection”, e as 16 páginas que ela criou para a revista são verdadeiramente arrebatadoras. Curiosidades adicionais: um artigo sobre novas tendências do design brasileiro, o guia dos melhores novos hotéis para viagens de trabalho, e a sugestão culinária do mês: ameijoas à Bulhão Pato, numa receita dada e preparada pelo português Pedro Cabrita Reis


 


PROVAR – Volta e meia apetece-me um bife. Um clássico, com batatas fritas. Carne bem cortada, cozinhada no ponto, obviamente com ovo a cavalo. Mão sabedora levou-me, em Aveiro, a um local que depois vim a saber tratar-se de um templo do bom bife. Adequadamente chama-se Alexandre dos Bifes e fica no nº 14 do Cais do Alboi (telefone             234 420 494       ). Que distingue este bife dos outros? Alem da qualidade da substância, a excelência do tempero: parece levemente marinado, os sabores bem entranhados na carne, não é uma coisa feita à pressa na frigideira. As batatas fritas não saíram do congelador para o óleo – são às rodelas, cortadas à mão, deliciosamente irregulares. O pão, fresquíssimo, para tratar do ovo, vem aos nacos suculentos. Ao almoço é um corrupio, mas vale a pena esperar por uma mesa.


 


BACK TO BASICS – Um fanático é alguém que não muda nem de pensamento nem de assunto – Winston Churchill




(A ESQUINA DO RIO 481 - Publicada dia 12 de Outubro no Jornal de Negócios)

outubro 09, 2012

UMA ESTUPIDEZ SEM LIMITES

Continuo estarrecido com as alterações ao trânsito no Marquês de Pombal e na Avenida. Quanto ao Marquês registo que às horas de ponta continuam os engarrafamentos no Marquês, que se repercutem pelos diversos acessos e a situação é agravada porque a temporização dos semáforos em Lisboa anda perfeitamente enlouquecida. Quem entra na rotunda do Marquês de Pombal vindo do túnel e queira subir a Duque de Loulé, não pode fazê-lo. Tudo a bem da fluidez e conforto, claro.


 


Eu fico estarrecido com a forma como funcionam os responsáveis do trânsito em Lisboa, a começar pela cabeça do vereador que inventou esta experiência. Será que depois não controlam os efeitos do que fazem? Não fazem estudos a várias horas e em vários dias dos efeitos das suas ações? Ou faz parte do estilo e do objetivo estarem-se nas tintas para os lisboetas que, apesar da perseguição e da evidente má vontade, persistem em utilizar o seu automóvel ou motociclo, pelo qual pagam aliás taxas à cidade? A Avenida da Liberdade é um engarrafamento constante no sentido ascendente, a qualquer hora.


 


A circulação nas faixas laterais é ainda pior. Um caso extraordinário é o de quem desça a Rua do Salitre e queira entrar na Avenida da Liberdade. Depois das transformações deixou de se poder prosseguir em direção aos Restauradores – a menos que se vá dar uma volta à Praça da Alegria, transformada em circuito para gincanas. Enfim , uma pequena experiência para moer a paciência e tornar a vida um pouco mais stressante e desconfortável.


 


As alterações feitas, a título experimental, custaram até agora mais de 800.000 euros. Provocam autênticas gincanas, mal sinalizadas. Os efeitos estão à vista – será que na Câmara Municipal de Lisboa a estupidez não tem limites? Será que não existiam outras prioridades para gastar o dinheiro? 


 


(Publicado no Metro de 9 de Outubro)

outubro 04, 2012

O PROBLEMA DA REMODELAÇÃO TEM NOME

PROBLEMA – Aqui há umas semanas alguns Ministros tinham-se tornado num problema potencial. Eram, na gíria corrente, remodeláveis. De repente aconteceu uma coisa extraordinária: o Primeiro Ministro tornou-se ele próprio num problema, maior que qualquer dos candidatos a remodelação. Isto coloca uma questão terrível que está, aliás, no centro da crise política clandestina – aquela que continua a existir, larvar, a desenvolver-se em surdina, sem ninguém a ver. Como remodelar o Primeiro Ministro? É este problema que está a minar o funcionamento do Governo e das instituições. As divergências públicas com o Primeiro Ministro são numerosas dentro do seu partido, são abundantes no seu parceiro de coligação e são naturalmente constantes na oposição. Por isso mesmo não falta quem defenda uma solução à italiana – arredar quem deixou de poder mandar e ir buscar alguém não eleito. É um caminho perigosíssimo, mas que vai ganhando peso até entre os mais insuspeitos. Ninguém quer eleições, ninguém vê a possibilidade de uma alternativa no actual espectro político-partidário, já poucos acreditam, inclusivamente, que Passos Coelho tenha capacidade de encontrar pessoal politico credível para uma remodelação. Basta ver a forma como os mais recentes dislates tiveram tão pouca gente, no núcleo duro do PSD e do Governo, disposta a defender a honra do convento.


A situação é agravada pelo falhanço objectivo das politicas seguidas – a despesa efectiva do Estado não foi reduzida, a receita fiscal diminuiu apesar dos aumentos de impostos, o défice não foi controlado e ultrapassou todas as previsões. As estimativas saíram furadas.  Objectivamente houve incompetência e desconhecimento da realidade, e aqui as culpas são da equipa de Vítor Gaspar.


Mas pior que isso, a actuação do Primeiro Ministro e dos seus mais próximos, que oscila entre a ocultação de factos e o insulto a quem deles discorda, minou a credibilidade do executivo. Passos Coelho começou a fazer, em matéria de ocultação, aquilo que há pouco mais de um ano criticava a Sócrates. Os dados agora conhecidos sobre a apresentação, esta semana, em Bruxelas, de um conjunto de medidas alternativas à TSU, mais uma vez baseadas no aumento da carga fiscal, veio repetir o desprezo pelo diálogo com os parceiros socais e  o líder da oposição. Ou seja, uma falta de respeito pelo país e pelas instituições. A confiança está abalada. Sabe-se que, antes do anúncio das medidas da TSU, o Primeiro Ministro falou com vários anteriores dirigentes do PSD que, maioritariamente, lhe fizeram ver os perigos do que ele preparava. Fez ouvidos de mercador e assim conseguiu que o seu Governo deixasse de ser respeitado, mesmo no seu próprio campo politico. Há Ministros e Secretários de Estado que deixaram de frequentar os seus restaurantes habituais para não serem mais hostilizados. Refugiam-se numa torre de marfim e perdem, ainda mais, o contacto com a realidade. Hoje em dia o Governo existe apenas por falta de alternativa, que é a pior das mortes lentas. No estado em que as coisas estão o Governo perdeu autoridade e resta-lhe o autoritarismo, que de resto, aqui e ali, ensaia aparecer.


 


SEMANADA – Desde Janeiro a economia portuguesa já destruíu 71 mil empregos, uma média de 858 por dia; o desemprego atingiu os15,9% e cresce quatro vezes mais rápido que na União Europeia;  a papa Nestum cresceu 7% de vendas no primeiros semestre, mais 140 toneladas; três mil advogados têm quotas em atraso à respectiva Ordem; criou-se um impasse na escolha do novo Procurador Geral da República; O Ministro das Finanças recusou mais uma vez ir ao Parlamento; o Ministro das Finanças informou a Comissão Europeia e o FMI sobre as medidas de austeridade alternativas à Taxa Social Única, antes de as comunicar a quem devia, em Portugal; Politicamente a semana que passou pode ser resumida numa frase postada no Facebook: “o novo porta-voz do Governo chama-se Durão Barroso”.


 


ARCO DA VELHA – Esta frase é de 15 de Março de 2011 e foi, nessa altura, proferida por Passos Coelho e nos últimos dias tem sido partilhada nas redes sociais: “O líder do PSD acusou hoje o Governo de «deslealdade e falta de respeito pelo país» por ter ocultado as medidas que estava a negociar com Bruxelas, considerando que isso põe em causa a confiança dos portugueses no executivo... Considero isso de uma deslealdade e de uma falta de respeito pelo país, pelos portugueses, pelas instituições, suficientemente grave para pôr em causa a confiança que o país tem em quem o governa”.


 


VER –Da nova série de exposições  que na semana passada abriu no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84), destaco a colecção de desenhos “Roger Uttama” de Joana Rosa, os trabalhos de Hugo Barata na colectiva “DIG DIG: Digging For Culture in a Crashing Economy” e, sobretudo, as obras de Inez Teixeira, Lluis Hortalà, e Pauliana Pimentel na colectiva “O Sonho De Wagner”. Nos quatro espaços do edifício vai estar até 4 de Novembro um conjunto alargado de obras que, exposição após exposição, são como um manifesto do estado da nação em matéria da criação artística contemporânea. Polémicas às vezes, surpreendentes noutras, previsíveis em algumas, as exposições da Transboavista são no entanto incontornáveis no panorama das galerias lisboetas.


 


OUVIR – Cecilia Bartoli é um caso à parte no mundo da música. Os seus últimos discos têm sido trabalhos de investigação, sobre repertórios pouco conhecidos, em vez das habituais colectâneas de árias famosas ou interpretações das óperas mais clássicas e procuradas pelos melómanos. Assim, em 2007, editou “Maria”, uma homenagem a Maria Malibran, uma soprano célebre no século XIX que se destacou a interpretar Rossini. Depois, em 2009, editou “Sacrificium”, recolhendo árias propositadamente escritas para castrati. E agora lança “Mission”, um trabalho dedicado às óperas de Agostino Steffani, uma figura enigmática do século XVII que fez nome na igreja,  na politica e na música. Como nos anteriores trabalhos a pesquisa histórica é rigorosa, o cuidado na produção musical é exemplar e o disco é apenas uma das peças de um conjunto de edições, que incluem um livro e um documentário. Bartoli, além da excelência da interpretação, impõe-se a si própria um novo patamar, de produtor multimédia. E sempre com uma qualidade intocável – e ouvindo este “Mission”, adivinha-se, com um prazer e intensidade que a música barroca de Steffani tão bem exprime. (CD Decca/Universal)


 


FOLHEAR – Na “Vanity Fair” de Outubro destaco um excelente artigo sobre os 50 anos de 007 – na realidade , como a capa da revista diz, a história inédita de como a saga de James Bond nasceu e cresceu. Outros  motivos de interesse são uma reportagem sobre os bastidores da igreja da Cientologia , uma antevisão de quem serão as próximas estrelas da economia digital de Silicon Valley e, em época de presidenciais norte-americanas, uma entrevista/ reportagem sobre Obama na casa Branca, assinada por Michael Lewis.


 


PROVAR – O Rubro é um restaurante na Praça de Touros do Campo Pequeno, onde se pode ir petiscar com a certeza de sair bem servido. Gostei muito do pica-pau de entrecôte, do revuelto de ovos com farinheira, dos espargos verdes na chapa (mesmo no ponto) e dos indispensáveis pimentos padron. A imperial é bem tirada e a lista de vinhos é interessante – nas opções a copo e à garrafa. O funcionamento é em mesas compridas com bancos corridos de um lado e outro e o serviço é atento. Para a qualidade do que se picou o preço é razoável. Telefone             210 191 191      .


 


GOSTO – Título da semana: “Eu tenho uma vida fora do facebook, só não me lembro da password”.


 


NÃO GOSTO – Nos ultimos dez anos o concelho de Lisboa continuou a perder habitantes para os concelhos vizinhos e acentuou-se a desertificação de zonas do centro da cidade.


 


BACK TO BASICS –  Por mais entusiasmante e atraente que seja uma determinada estratégia, convém de vez em quando olhar para os resultados – Winston Churchill


 


(publicado no Jornal de Negócios de 4 de Outubro)

outubro 02, 2012

AVALIAR QUEM GOVERNA A CIDADE

Mais ou menos daqui a um ano vamos ter eleições autárquicas. Inevitavelmente vai existir uma componente política, que tem a ver com a reação dos eleitores à política do Governo e é previsível que o PSD seja penalizado.


 


No entanto, se olharmos para a política autárquica, faz mais sentido ver o que o partido no poder, em cada caso, conseguiu fazer. Peguemos no caso de Lisboa. Qual o balanço de António Costa na cidade? Conseguiu estancar a hemorragia de gente que abandona Lisboa? Reduziu os impostos aos habitantes na cidade? Criou incentivos para trazer habitantes para o despovoado centro? A cidade ficou mais confortável para quem cá vive de facto? António Costa está a trabalhar para quem visita Lisboa ou para quem cá paga impostos?


 


Estas perguntas não são insignificantes  e as respostas que elas suscitarem deve nortear o voto das pessoas daqui a um ano. O sentido do voto é fazer a avaliação do mandato executado. No caso de Lisboa é o mandato de António Costa que deve ser avaliado e votado, e não o de Passos Coelho, no Governo.


 


As pessoas concordam com a prioridade dada ao investimento em  ciclovias? Estão de acordo com os custos incorridos com as alterações ao trânsito na Avenida e no Marquês? As pessoas que pagam impostos em Lisboa estão satisfeitas com o estado de limpeza das ruas? Acham que a Câmara tem velado pelos seus interesses? Acham que tem protegido o comércio de rua e fomentado o emprego na cidade? Estão de acordo com a forma como a EMEL funciona, com as multas, com os quantitativos que cobra, com a forma como atua?


 


Quem vota em Lisboa deve pensar no que tem ganho com o que se passou na cidade nestes anos em que Costa e a sua coligação têm tido o poder. Querem continuar com a política que ele desenvolveu, ou querem mudá-la? Eu gostaria de a mudar.


 


(Publicado no Metro de hoje)

setembro 28, 2012

PROMESSAS ESQUECIDAS NUM TEMPO DE MÁ MEMÓRI

PROMESSAS – Num escasso ano de Governo, Passos Coelho falhou duas formas diferentes de promessas políticas, ambas desastrosas para o funcionamento do nosso sistema. A primeira, que começou pouco tempo depois das eleições, tem a ver com o renegar do que foi prometido durante a campanha eleitoral; a segunda, ainda mais grave, tem a ver com o falhanço do cumprimento de objectivos usados para justificar as medidas de austeridade. Os indicadores da economia estão todos a piorar – o défice continua a derrapar, o desequilíbrio aumenta, o desemprego também, a colecta fiscal diminui apesar do aumento generalizado dos impostos. O Governo não falhou porque recuou em medidas que tinham sido preparadas e apresentadas à pressa e de forma amadora, falhou porque não alcançou as metas que traçou, apesar de ter podido fazer tudo o que pretendeu no orçamento de Estado actual. O balanço do exercício do primeiro orçamento elaborado, aprovado e gerido pela equipa de Passos Coelho está longe de ser brilhante . É claro que com uma prestação destas o fugitivo de Paris deve estar a rir-se, apesar dos milhões que desbaratou e da situação que criou. Quem não acha graça a isto somos nós , eleitores sempre enganados, cidadãos sempre abusados, entalados entre o que se vai descobrindo de falcatruas antigas e o que se vai vendo de políticas irrealistas falhadas.


 


FISCO - O Supremo Tribunal Administrativo deu razão a um cidadão que se queixou porque uma nota de pagamento do IMI, recebida da Autoridade Tributária, não cumpria a lei, já que não explicava como chegou ao valor que pretendia tributar. O caso, que na opinião de juristas pode fazer jurisprudência e pôr em causa cobranças efectuadas do IMI nos últimos anos, vem também colocar sob escrutínio as novas avaliações de imóveis que estão a ser efectuadas, e que devem ter incidência no futuro próximo. Por outro o caso lado comprova a displicência com que a Autoridade Tributária actua, não zelando pelo cumprimento da lei, e regendo a sua actividade sob o lema de cortar caminho, desprezando os direitos dos contribuintes. O contribuinte que moveu o processo, que persistiu até ao Supremo e que no final venceu o fisco, é uma excepção entre os milhões de contribuintes silenciados pelas ameaças constantes da Autoridade Tributária, vítimas de lapsos e de atrasos, e sem recursos para poderem protestar e levar o caso á justiça. O Provedor de Justiça faria bem em exercer a sua autoridade sobre o fisco, utilizando esta decisão do Supremo Tribunal Administrativo para defender os direitos dos cidadãos. Nenhum contribuinte alemão, desse país de que Vítor Gaspar tanto gosta,  toleraria comportamentos como os da Autoridade Tributária portuguesa.


 


SEMANADA – Em cada dia entram nas prisões portuguesas três novos detidos; um em cada três homicídios ocorre em contexto conjugal; o Procurador Geral da República afirmou numa entrevista que as polícias fazem escutas ilegais; ao primeiro dia de chuvas, de Outono, houve logo inundações em Lisboa; as exportações de ouro portuguesas aumentaram 75 por cento nos primeiros seis meses do ano; o défice real deverá chegar este ano a 6,1%, o que sai fora das previsões do Governo; o IVA caíu 2,2% em vez de ter uma subida de 11,6% prevista pelo Ministério das Finanças; a venda de raspadinhas disparou 80%;  provando que o ridículo mata, a anedota da semana veio do PS que reivindica que o abandono da TSU se deveu à sua ameaça de moção de censura; ex-ministros do PS da área das obras públicas foram alvos de buscas por causa das PPP ao fim deste tempo todo; a factura do abastecimento de água ao consumidor triplicou entre 2009 e 2011; desde 30 de Agosto que os Conselhos de Ministros terminam sem comunicado – deixou de valer a pena explicar às pessoas o que anda o Governo a tratar?


 


ARCO DA VELHA – As rações de combate da tropa, incluindo, uma feijoada à transmontana enlatada, estão a ser compradas a fabricantes espanhóis, de Alicante.


 


VER – Gosto de fotografia de rua, mesmo quando é um pouco encenada, como é o caso das “Suites Brasileiras” do francês Raphael Blum, que fotografou pessoas em vários ambientes de cidades brasileiras. Há um misto entre o instantâneo e a estética do fotógrafo “a la minute” que me atrai nestes retratos, que fazem parte de uma exposição repartida entre o Instituto Francês (Avenida Luis Bivar) e a Casa da América Latina (Av 24 de Julho 118). “Suites Brasileiras” está nestes locais durante todo o mês de Outubro.


 


OUVIR – Bill Fay é um dos segredos bem escondidos da música popular britânica, com dois álbuns quase clandestinos, do início da década de 70. Aqui há uns anos os Wilco voltaram a colocar o seu nome na ribalta com uma versão do tema “Be Not So Fearful” – Jeff Tweedy é um fã de Fay, tal como Nick Cave, por exemplo. Agora, quatro décadas depois do seu ultimo disco de originais, com sessenta e poucos anos, eis que Bill Fay reaparece com “Life Is People”, um disco denso, onde em 12 canções, grande parte delas com um simbolismo religioso, que se mistura com questões ambientais e reflexões sobre a vida nos tempos que correm, ele mostra como consegus continuar a fazer canções intensas (There Is A Valley, City Of Dreams, This World, Cosmic Concerto, The Coast No Man Can Tell). Para retribuir o apoio dado nos ultimo’s anos por Jeff Tweedy, que também colabora neste album, Fay interpreta uma das canções dos Wilco, “Jesus, Etc”. O produtor do disco é um norte-americano, Joshua Henry, que em miúdo descobriu os discos originais de Fay na discoteca do pai e se apaixonou por eles . Felizmente não descansou enquanto não o conseguiu convencer a voltar a estúdio. (CD comprado na iTunes).


 


FOLHEAR – A “Monocle” de Outubro tem andado muito exposta no Facebook lusitano e o motivo é simples. O título de capa é “Geração Lusophonia: Porque é que o português é o próximo idioma do poder e do comércio”. Lá dentro há numerosas referências ao Brasil, a Portugal (os encantos da ilha de S. Miguel e dos Açores, as maravilhas da Comporta, as vantagens da cortiça), mas também a todos os outros países que falam português – por acaso todos com costa marítima, como a revista faz questão de notar. Luanda é mostrada como uma cidade em desenvolvimento para onde os quadros portugueses querem ir, Maputo é o tema do portfolio fotográfico, e são indicados grupos financeiros, de media, de comunicações ou industriais, como o BES, a PT, a Sonangol ou a Soporcel, mas também a livraria Ler Devagar, a loja A Vida Portuguesa ou as conservas Ramirez. E são falados os nomes dos Deolinda, de Pedro Gadanho (que está no MOMA em NY), dos Buraka Som Sistema, assim como Álvaro Siza, com direito a destaque. O próprio editorial do editor, Tyler Brulé, é dedicado às nações que falam português.  As nações lusófonas têm a dispersão geográfica certa e a escala necessária para serem potencialmente mais ágeis e eficazes que outros conjuntos de nações com um idioma comum – escreve ele. Fica o recado. E, lá no meio dos textos, uma nota que faz sorrir: Portugal tem a localização certa para desenvolver a indústria naval e a vocação marítima.


 


PROVAR – Esta semana provei os efeitos da crise. O Frascati, um restaurante simples e despretensioso, de que muito gostava, situado na Rua Padre António Vieira, em Lisboa, encerrou portas. Não resistiu aos efeitos colaterais dos aumentos do IVA. Isso aconteceu porque, como tantos outros, tentou não aumentar os preços na proporção dos aumentos provocados pelo IVA nas matérias primas e no valor final a cobrar ao cliente. Tentou não penalizar as faturas, com medo que os clientes fugissem. Acabou por não resistir. Tive lá muitas boas conversas com amigos e era um daqueles sítios simpáticos onde se entrava e se encontrava sempre alguém conhecido. Estes locais estão a desaparecer, aquelas casas onde se comia bem com contas leves, estão a ficar condenados, esmagados entre as taxas do Estado e as taxas dos cartões de pagamento. Neste Outono já comecei a sentir aumentos de preços em cafés e pequenos restaurantes que até aqui não tinham mexido nos valores de forma significativa. A espiral vai girando – e não traz nada de bom.


 


GOSTO –  Do filme “Portugal- A Beleza da Simplicidade”, uma peça de promoção do país encomendada pelo Instituto do Turismo e que tem ganho vários prémios internacionais, provocando algumas invejas nacionais.


 


NÃO GOSTO – Do silêncio do Gabinete do Primeiro Ministro sobre a forma como um segurança de Passos Coelho tratou um repórter de imagem da TVI.


 


BACK TO BASICS – "Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo" – Eça de Queiroz


 

setembro 25, 2012

MAIS CORTES EM VEZ DE NOVOS IMPOSTOS

Todos os dias o Governo vem com uma nova ideia para aumentar impostos ou taxas. Mas não tem igual destreza no que toca a diminuir os custos do seu funcionamento sem ser cortar na saúde, na educação ou nas prestações sociais. Carlos Moreno, ex-Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas elencou este fim de semana, no Facebook, algumas sugestões para cortar na despesa que, com a devida vénia, aqui deixo.


 


«O governo devia apresentar e quantificar o montante que dos 1.300 milhões de euros de rendas a pagar em 2013 às concessionárias de PPP  vai cortar; o governo devia também apresentar e quantificar o montante que em 2013 vai cortar nas rendas excessivas a pagar às produtoras de energia que vivem praticamente em monopólio; o governo devia apresentar e quantificar o montante que vai cortar em 2013 às fundações, associações, institutos e outras entidades que têm atravessado a crise sem perder um cêntimo; o governo devia apresentar e quantificar o montante que vai cortar em 2013 às despesas de consultoria externa, que deviam ser reduzidas ao mínimo e substituídas pela organização de bolsas de competências compostas por técnicos do sector público; o governo devia apresentar e quantificar o montante de despesa que vai cortar em 2013 com despesas no sector público empresarial; o governo devia apresentar e quantificar o montante de despesa que prevê cortar com a obrigatoriedade, a introduzir na próxima Lei do orçamento para 2013, de subordinar todo o dispêndio público aos critérios da economia, eficiência e eficácia, sob pena de reintegração nos cofres do estado pelos que autorizassem pagamentos que não observassem aqueles critérios, incluindo os decisores políticos e os próprios membros do governo.»


 


(Publicado do diário Metro de 25 de Setembro)


 


 

setembro 21, 2012

As pessoas são um problema? - O dilema da política

 


MUNDO – Tenho para mim que muitos dos nossos queridos políticos, de todos os partidos, reconheça-se,  acordam frequentemente irritados pela existência de cidadãos, de opiniões, até do próprio mecanismo do regime que os ocupa e faz viver. Parece-me que existem dias em que acham uma grande maçada terem que se confrontar com pessoas, em vez de andarem por uma reserva protegida onde se vêem ao espelho e estão apenas rodeados por outros escolhidos, semelhantes a si próprios. Prefeririam, talvez, um mundo perfeito onde pudessem fazer tudo sem serem contrariados, onde realizassem as experiências que querem sem protestos. Estou certo que ficam muito aborrecidos por terem que dizer mentiras nas campanhas eleitorais, imagino que entrem em depressão por sistematicamente dizerem aldrabices para conseguirem votos. E todos os dias, desde há anos, vejo as suas caras arrependidas e sofridas por estarem a fazer as coisas ao contrário do que haviam prometido, argumentando sempre que a realidade era pior que imaginavam. Vivemos há décadas nesta alternância de protagonistas da aldrabice, de gente que nunca é responsabilizada pelo que faz, pelos efeitos das decisões que toma. Como vimos ainda esta semana eles próprios reconhecem que, no Governo, encomendam estudos que se revelam erros clamorosos e, com base nesses estudos, fazem contratos que delapidam milhões, como em várias parcerias público-privadas. A seguir, fazem um acto de contrição - e basta. Com um pouco de sorte encontram colocação no estrangeiro porque definitivamente não têm paciência para aturar a ingratidão dos locais. Vivemos nisto há tempo demais. Talvez por tudo isto, o PSD cai nas sondagens mas o PS não sobe.


 


MOEDA - Quanto vale de facto um euro em Portugal, depois de deduzidos todos os impostos aplicáveis – os profissionais, as taxas e impostos municipais, as alcavalas de empresas públicas, o IVA, tudo o que metodicamente vai ao bolso dos cidadãos? Para todos nós um euro, feitas as deduções, em termos reais, vale sempre menos que  50 cêntimos. E mesmo assim o Estado quer sempre, em nome do euro e da sua mãe Europa, espremer mais um bocadinho o pouco que já nos cabe. Só vejo medidas para encolher, não vejo decisões que façam crescer. Recentemente voltámos a conquistar mercados, em sectores tradicionais, pela qualidade e pelo cumprimento de prazos, mesmo com preços superiores a outros fornecedores, como a China ou a Índia. O crescimento das exportações nos últimos anos tem a ver com a capacidade de produzir diferente e melhor que a concorrência, e já se viu que os mercados percebem que a qualidade tem um preço – o mesmo preço  que, noutra escala, se paga pelo design italiano ou os automóveis alemães. O que nos faz falta é uma estratégia de crescimento económico – em vez de experiências que produzem um ciclo de empobrecimento. O que precisamos é de valor acrescentado, não é de valor diminuído. Eu estou para ver como esta crise politica acaba – no fim disto tudo ainda nos arriscamos a levar com mais uma imaginativa nova carga fiscal em cima e há-de haver uns pândegos que nos quererão convencer que tudo foi resultado de uma explosão de cidadania. Por este andar não precisamos de um Seguro no Governo, mas de um seguro contra as malfeitorias governamentais. Tinha ficado bem à Comissão Política do PSD reconhecer esta semana que a crise política teve uma origem chamada TSU, criada por Passos & Gaspar, em vez de sacudir a água do capote.


 


 


SEMANADA – O número de casais em que os dois cônjuges estão desempregados duplicou em relação ao ano passado; várias autarquias começaram a cortar  apoios a infantários; A Polícia Judiciária resolveu contratar ex-espiões envolvidos no ano passado no escândalo das secretas; dívidas do Estado a fornecedores sobem 84% para mais de 330 milhões; a Câmara de Cascais pagou subsídios mediante facturas falsas apresentadas por um juiz que dirige uma associação de coleccionadores de armas; a economia paralela já chega a 24,5% do PIB; erros de cálculo na expectativa de tráfego da PPP estabelecida com a Fertagus, no tempo de João Cravinho, provocaram pagamentos suplementares do Estado de 45 milhões de euros – o que praticamente fez duplicar os custos a suportar pelo erário público – e Cravinho acha a coisa normal; o título adequa-se que nem uma luva à situação que vivemos - “Balas & Bolinhos- O Último Capítulo”, é o nome do filme mais visto nos cinemas portugueses na última semana – uma produção nacional que vai com 80 mil espectadores.


 


ARCO DA VELHA – É mais barato comprar um iPhone 5 que uma acção da Apple


 


VER – Duas exposições imperdíveis de fotografia. A primeira está no No Bes Arte, ao devastado Marquês do Pombal, onde Paulo Nozolino mostra Usura, uma exposição comissariada por Sérgio Mah, que reúne fotografias realizadas de 1999 para cá, apresentadas como trípticos.  A segunda está no espaço Vera Cortês Art Agency, na Avenida 24 de Julho 54-1º-Esq, e mostra “Utz”, de Daniel Blaufuks, uma incursão pela evolução da imagem fotográfica.


 


OUVIR –Saíu um livro novo de Bob Dylan. Leram bem e não me enganei. Tem a forma de um disco, parece um disco, tem canções, mas conta histórias. Belíssimas histórias. É uma deliciosa colectânea de contos. Chama-se “Tempest”, um nome que naturalmente tem a ver com os tempos que vivemos – embora a canção-título conte ao longo de 14 minutos o naufrágio do Titanic. Trata-se do 35º disco de estúdio de Dylan, que aos 71 anos continua a manter-se fiel musicalmente aos blues e à country, ao mesmo tempo que continua a surpreender em canções como “Scarlet Town”, “Early Roman Kings”, “Tin Angel” ou “Roll On John”, uma evocação decente de John Lennon.


 


FOLHEAR – Se tem iPad pode fazer o download gratuito da boa edição digital da revista “Intelligent Life”, publicada bimestralmente pelo grupo “The Economist”. À medida que o tempo passa e o foco editorial se aperfeiçoa, a “Intelligent Life” está cada vez melhor, a abordar temas invulgares, a partir de uma perspectiva inesperada. A capa desta edição é dedicada a Sergei Polunin, e lá dentro conta-se como uma das estrelas em ascensão no Royal Ballet de Londres decidiu, de repente, aos 22 anos, deixar a carreira. O filme “Tabu”, do português Miguel Gomes, tem honras de destaque na secção de cinema, e a aventura de David Byrne com Annie “St. Vincent” Clark é a escolha da música. Nos livros, o destaque é para o novo Tom Wolfe, “Back To Blood”. A secção dedicada à comida e a vinhos continua deliciosa (falando de chili con carne) e um pouco à frente existe um artigo divertidíssimo sobre a tendência actual de fazer parecer as casas com quartos de hotel. Em resumo: uma bela noite na companhia do iPad.


 


PROVAR – Se são assumidamente carnívoros abriu em Lisboa um restaurante perfeito. Chama-se “Carne Alentejana” e pertence à marca homónima de produtos elaborados a partir de bovinos criados no Alentejo. Dizem-me que há dias em que se encontra essa especialidade que é rabo de boi, mas eu não tive essa sorte. A lista é extensa em carnes diversas e eu deliciei-me com um belíssimo e abundante naco de alcatra, que pode vir acompanhado de migas, batatas fritas domésticas, legumes grelhados ou salada. O couvert tem um belíssimo e escuro pão alentejano, saboroso e denso, umas azeitonas bem temperadas e azeite obviamente alentejano, como tudo o resto que ali se serve – até o vinho, claro, neste caso o honestíssimo Enjeitado. O único problema da sala é a acústica – bem lhe podiam colocar umas cortiças alentejanas, que ficava de certeza melhor. O serviço é bom, a carne é fantástica e o preço é razoável. Rua da Beneficência 229, telefone             218 237 126      .


 


GOSTO – Da fotografia da manifestante que foi abraçar um polícia frente às instalações do FMI em Lisboa.


  


NÃO GOSTO – Da crítica, com veladas insinuações pelo meio,  do Secretário de Estado Carlos Moedas aos empresários que criticaram as alterações à TSU.


 


BACK TO BASICS –  O génio dos dirigentes políticos está em conseguir que a maior parte das pessoas pague taxas e impostos elevados pelos quais recebem cada vez menos em troca - Gore Vidal

setembro 18, 2012

E AGORA?

Por falta de jeito, ou por falta de vontade, o Governo criou, com a questão da TSU, uma situação delicada e colocou-se a ele próprio numa posição fragilizada.  A legitimidade eleitoral que o Governo tem não lhe permite fazer tudo o que quiser ou entender, ao contrário do que alguns governantes querem fazer crer. Se as coisas estão pior que se pensava ou se surgiram novos problemas, e se é preciso tomar novas opções e decisões, a prudência recomenda que elas sejam estudadas por forma a que não se crie um côro de protestos que varre todo o espectro social, ideológico e partidário e que enfraquece oi Governo numa altura em que não precisamos de falhas.


 


Qual a solução para a situação criada? Derrubar o Governo, miná-lo por dentro? Não me parece que promover o inseguro Seguro a governante seja uma boa opção; não me parece que a tropa de choque ainda fiel a Sócrates queira queimar as mãos com as brasas que deixou ao lume. Assim sendo, tenho uma sugestão:  Pedro Passos Coelho pode admitir que não é infalível e que por vezes se engana; pode ter a humildade de rever decisões que – já o sabemos hoje – foram insuficientemente discutidas no Governo (com o aliado de coligação), com a oposição e com os parceiros sociais.


 


A melhor coisa que nos podia acontecer seria o Primeiro Ministro compreender isto, recuar nas precipitações e, em conjunto com quem também assinou o memorando com a troika, procurar uma nova solução.


A melhor alternativa que nós temos disponível neste momento é que um novo Passos Coelho seja a alternativa ao anterior Passos Coelho. Eu acho que ele é suficientemente inteligente e bem intencionado para se deixar de teimosias. É altura de o Primeiro Ministro  mostrar que percebe a realidade e se preocupa com o país.




(Publicado no diário Metro de 18 de Setembro)


 

setembro 14, 2012

UMA SEMANA DE POLÍTICA NA SARJETA

POLÍTICA – O que aconteceu nesta última semana foi o expoente daquilo que vinha sendo construído nos últimos meses, e que é uma subalternização da política. É curioso que esta subalternização venha de um Primeiro-Ministro que foi durante cinco anos dirigente de uma organização política de juventude (JSD) e que tem muito tempo de actividade partidária. Dá que pensar se o seu processo de aprendizagem política não terá sido essencialmente virado para dentro, para a movimentação no aparelho partidário e para a consequente intriga palaciana, tudo com o objectivo de conquistar o poder, primeiro na organização, e , depois, onde for possível. Quiseram as circunstâncias que o poder, no país, estivesse maduro para ser colhido. É um exercício de humor negro reler por estes dias o livro “Mudar”, uma espécie de manifesto que Pedro Passos Coelho lançou em Janeiro de 2010, como uma das peças da sua candidatura à liderança do PSD. Quem ler as propostas que estão no livro, ironicamente subtitulado “Passos para a Mudança”, dificilmente acreditará que o seu autor é o Primeiro Ministro actual. O que se passa é que, uma vez cumprido o objectivo de conquistar o poder, se torna evidente que não se sabe como exercê-lo, e sobretudo, se evidencia a anulação da actividade politica, entendida como um diálogo constante com a sociedade, uma gestão de expectativas e um exercício de construção de soluções. Pior que isso, existe uma insensibilidade politica e social, patente não só no tipo de medidas, mas que é também a verdadeira razão de ser daquilo a que alguns chamam “problemas de comunicação”. Esses problemas só existem porque o papel e a importância da actividade politica foram preteridos para o exercício cego do poder - que é a razão de ser do autismo, da substituição da negociação pela imposição e da ponderação pela experimentação. Um dia destes, no PSD, no meio das criticas internas cada vez mais ruidosas, alguém começará a falar da necessidade de um Congresso. O tempo da politica volta sempre – não se consegue exterminá-la.


 


SARJETA – Por um daqueles acasos do destino, no preciso momento em que António Costa mostrava à imprensa as maravilhas do novo Marquês do Pombal, um reformado da construção civil, de 74 anos, que ali passava, apontou a inexistência, na nova obra, de sarjetas - e vaticinou a inevitabilidade de ocorrência de inundações na zona em caso de chuvada. Graças a este homem, Luís Garcia, soube-se que foram feitos 750 mil euros de obras provisórias que não estavam a contar, neste inverno, com a drenagem das águas pluviais. António Costa, que assim gere os dinheiros da cidade, admitiu aliás que o investimento se destinava a experimentar algo que foi baseado em modelos teóricos e que pode até ser anulado – numa curiosa colagem ao método Vítor Gaspar. Dois dias depois da chamada de atenção do reformado começou a ser escavacado o asfalto recentemente colocado, agora para instalação de escoadouros. É uma variante do método tentativa e erro: constrói/destrói. É todo um programa politico para o futuro de Costa.


 


SEMANADA – Portugal está entre os dez países da Europa com as propinas mais altas no ensino superior; a dívida dos municípios à Águas de Portugal disparou 16% no primeiro semestre; o crédito malparado subiu de 10,3 para 15 mil milhões de euros nos primeiros sete meses de 2012, em comparação com igual período do ano passado; a venda de automóveis na China cresceu 8,3% em Agosto; Vítor Gaspar não disse uma única vez a palavra crescimento na conferência de imprensa desta semana;na mesma ocasião o Ministro considerou que não houve rotura do governo com o eleitorado e sublinhou que não lhe passaria pela cabeça fazer experiências com os portugueses; o representante do FMI assegurou que a alteração da TSU não foi uma exigência da troika; os dois últimos jogos da selecção foram antecedidos de anúncios de mais medidas de austeridade – o próximo jogo é dia 12 de Outubro; Miguel Relvas anunciou, no Brasil, que o caso RTP está resolvido mas não disse se pelo lado da privatização ou da concessão; António Barreto garantiu que existem cláusulas secretas nos contratos das PPP’s.


 


ARCO DA VELHA – Agentes da PSP identificaram e intimidaram um cidadão que fotografou um veículo da segurança do Ministro da Defesa, que estava parado em cima do passeio, obstruindo a circulação de peões, frente ao escritório de advocacia do Ministro, no Porto, num momento em que ele se encontrava no edifício.


 


VER – Eduardo Gageiro é um dos nomes incontornáveis do foto-jornalismo português. Começou a sua carreira em 1957 e as suas imagens iluminaram muitas vezes as páginas das publicações do “Século”. Nos últimos anos tem fotografado Lisboa e são essas imagens, a preto e branco, que agora foram recolhidas num livro e numa exposição, “Lisboa Amarga e Doce”. A exposição está na galeria dos Paços do Concelho até 9 de Outubro.


 


OUVIR – Um recente spot de publicidade televisiva evoca uma máquina do tempo. Podia  ter sido inspirado pelo disco evocativo dos 50 anos de  existência dos Beach Boys, “That’s Why God Made The Rádio”. Mal o disco começa a tocar somos transportados para as sonoridades que fizeram a imagem de marca da banda, nas praias da Califórnia, no início dos anos 60 – desde as melodias, aos coros, passando pelos temas sempre presentes – a praia, o sol, o amor, o tempo a passar e o desejo de solidão recorrente em Brian Wilson, no fundo o mentor desta reunião da banda – sim porque aqui estão de novo os verdadeiros Beach Boys com canções de encantar como a que dá título ao álbum , “That’s Why God Made The Rádio”, mas sobretudo verdadeiras pérolas (sem ironia e com apreço) como “Isn’t It Time”, “Pacific Coast Highway” ou a faixa que encerra o CD, inevitavelmente “Summer’s Gone”. Há 16 anos que não gravavam juntos, mas ainda conseguem fazer sorrir com canções tão inacreditavelmente nostálgicas que se tornam divertidas.


 


FOLHEAR – A edição norte-americana da revista Vogue deste mês de Setembro tem 916 páginas. Assinala os 120 anos da revista e, quando se abre a capa, vê-se logo uma outra capa de 1949 com uma fotografia de Irving Penn e, ao lado, a capa da primeira edição da Vogue, de 17 de Dezembro de 1892, baseada numa ilustração - custava então dez cêntimos, hoje está nas bancas por $5.99 e em 1949 ficava por apenas 50 cêntimos. É a economia, como dizia o outro. Por falar nisso, um bom sinal da retoma publicitária que já vai acontecendo nos Estados Unidos é visível por esta edição ter mais de metade das suas páginas - entre as quais as primeiras 200 - com publicidade. Claro que a publicidade da Vogue é especial - é um catálogo de tendências e novidades das grandes marcas e folhear esta publicidade com atenção faz parte do prazer visual que a revista proporciona. Na capa está Lady Gaga vestida por Marc Jacobs, numa evocação aliás do desenho da primeira capa da revista, de 1892. Há muito para ler e ver nesta fabulosa edição, sobretudo artigos evocativos de vários momentos da História, paralelos à própria história da Vogue.


 


PROVAR – Se um dia destes lhe apetecer uma pequena viagem a um café parisiense no centro de Lisboa, vá direito às avenidas novas e procure a cafetaria do Instituto Francês, na Avenida Luís Bívar 91. O Bistrot L’Escale par Praline, dirigido pela pasteleira Béatrice Dupasquier, gaba-se de ter o original croque-monsieur. Se nunca provou, vale a pena – e não caia na asneira de dizer que quer uma tosta mista. Não é bem a mesma coisa – a começar pelo queijo, que deve ser gruyére ou emmental, cortado fino. O presunto, também cortado fino, acompanha o queijo derretido no meio do pão. Resta dizer que o queijo derrete igualmente por cima da sanduíche, e, se descontarmos o molho, percebemos que existem algumas semelhanças com a francesinha portuense. O croque-monsieur (assim chamado por o pão ficar estaladiço quando se tosta), nasceu num café parisiense em 1910 e surgiu pela primeira vez na literatura pela mão de Marcel Proust, no segundo volume de “Em Busca Do Tempo Perdido”. Conversas à parte, o croque –monsieur do Bistrot L’Escale é recomendável. E no fim, para sobremesa, pode rematar, a acompanhar o café, com um canelé, um pequeno bolo originário da região de Bordeaux, caramelizado por fora e suave por dentro – pecaminoso, na verdade.


 


GOSTO – Da afirmação de Manuela Ferreira Leite: "Só por teimosia se insiste numa receita que não está a resultar, esta segunda dose de xarope já ninguém a consegue engolir”


 


NÃO GOSTO – Do estilo conta-gotas de ir anunciando cada vez mais impostos e novas medidas de austeridade, deixando sempre no ar novas veladas ameaças.


 


BACK TO BASICS – “A eternidade pode às vezes durar um ano. E ferir-nos, num grito calado, a vida inteira" – Manuel de Freitas, em "Marilyn Moore"


 

setembro 11, 2012

UMA SEXTA FEIRA NEGRA

Benjamim Franklin foi um dos fundadores dos Estados Unidos e uma das suas citações mais conhecidas reza mais ou menos assim: “na vida tudo é incerto, menos a morte e os impostos”. Sexta-feira passada o Primeiro Ministro português veio relembrar isto da pior forma possível numa intervenção cheia de pontos mal esclarecidos. E depois do discurso do novo imposto partiu para um concerto de Paulo de Carvalho onde esteve de cara alegre, a entoar o refrão de algumas cantigas. Para rematar, foi ao Facebook dizer ter pena das opções que tinha de tomar. Poucas coisas me espantam – mas estas deixaram-me perplexo. Nesse dia Passos Coelho divorciou-se do país.


 


Nada disto faz sentido. Até o Partido Popular, que se gabava de não aceitar mais impostos, se conformou e sucumbiu – argumentando que se trataria de uma taxa. Bagão Felix, histórico do PP e ex-Ministro das Finanças no anterior Governo de coligação, foi claro a criticar a medida: “É um verdadeiro imposto. Deixou de ser uma contribuição social para ser um imposto único”. Foi uma das muitas vozes do PSD e do PP que criticaram o rumo escolhido.


 


Os atos mostram um Governo de políticos que escolhem sempre o caminho mais simples. Como o sistema de controlo nos impostos e segurança social, criado para verificar as contribuições do trabalho, é o único que funciona, é utilizado à exaustão pelo Estado para aumentar receitas – porque é mais fácil que cortar as gorduras do Estado.


 


O melhor resumo da situação é de Fortunato Frederico, que lidera o grupo de calçado Kyaia, que faz a marca Fly London: “Estas medidas não têm pés nem cabeça. As empresas precisam é de trabalhar. Não me adianta nada que desçam a taxa social única para as empresas, se as pessoas não tem dinheiro para me comprar sapatos”.


 


(Publicado no "Metro" de 11 de Setembro)