maio 09, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Maio)

DILEMA–  Qual é a margem que existe para os programas políticos dos partidos, uma vez conhecido o cadernos de encargos da Troika e da Comunidade Europeia? O cenário de enquadramento será tão apertado que, realisticamente, os partidos terão que fazer apenas exercícios tácticos , em vez de proclamarem grandes desígnios estratégicos. O único programa para  a próxima legislatura é a salvação do país e o início da recuperação da economia e das finanças. Quem disser o contrário está a enganar – como Sócrates quis fazer ao evitar dizer quais as medidas efectivas do programa. Aqueles que falarem verdade, analisarem bem a situação existente e elencarem medidas exequíveis serão os melhor colocados para discutir votos.


 


Mas não vale a pena ter ilusões: a 5 de Junho, no arco do poder, vamos estar divididos entre os que rejeitam encarar a realidade e aqueles que partem da situação que existe e a querem modificar. E, claro que, fora do arco do poder, existirão ainda os que dizem que não interessa a realidade e apenas devem contar os princípios. De certa forma estas vão ser eleições difíceis – porque exigirão que os eleitores façam eles próprios uma ruptura assumida a afinidades eleitorais passadas e consigam ser parte do processo de transformação, que é absolutamente necessário. O grande risco que corremos é que não seja perceptível, a sectores do eleitorado, que precisamos de facto de mudar de vida, de mudar de hábitos, de mudar de funcionamento. É nesta dúvida – da efectiva necessidade de mudança radical – que o PS vai jogar  e é aqui, com remédios menores e camuflagens diversas, que vai tentar manter o eleitorado - como bem se viu na declaração de José Sócrates de terça-feira em quando anunciou gloriosamente o que não vai acontecer, mas escondeu cobardemente o que também sabe que irá ser feito.


 


Um amigo meu dizia-me há dias que, fora das grandes cidades, o voto iria ser conservador, no sentido de o eleitorado poder não ver necessidades de grandes mudanças. É este o terreno, é esta a dúvida que o PS vai explorar.


 


SEMANADA – Agora tudo indica que PS e PSD souberam cedo as linhas gerais do acordo com a troika. Sócrates aproveitou o que sabia e disse o que lhe convinha, montando um festival de propaganda. O PSD ficou apenas a ver e a comentar, dando espaço a Sócrates. Mais uma semana eleitoral perdida.


 


ARCO DA VELHA – A RTP N apresenta como comentador convidado regular Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que roubou os gravadores de jornalistas da revista «Sábado» que lhe faziam perguntas incómodas e que, por isso mesmo, foi acusado pelo Ministério Público da prática de crime de atentado à liberdade de imprensa. Estranhos são os critérios de escolha de uma estação de serviço público…


 


AGENDA – No Museu Berardo já pode ver o resultado da colaboração de Orla Barry e Rui Chafes, «Five Rings». Até 15 de Maio está em acção o Indie Lisboa, com curtas e longas metragens e outras iniciativas – pode saber tudo em www.indielisboa.com. no Parque Eduardo VII continua a Feira do Livro e vale a pena ver o esforço que editoras como a Leya e, noutro plano, a Babel, fizeram para se apresentarem de forma diferente. Até 22 de Maio continua a exposição do World Press Photo no Museu da Electricidade; ainda na fotografia a K Galeria inaugurou a exposição «Processo» de Jordi Burch, centrada na imagem feminina - a K Galeria fica na Rua da Vinha 43, no Bairro Alto e pode ser visitada das 10 às 18 de segunda a sexta.


 


LER –  A edição de Maio da «Monocle» tem como tema principal a reconstrução do Japão – o que o país tem que fazer para recuperar do terramoto e o que poderá fazer para ficar ainda melhor que antes. Claro que Tyler Brulé, o fundador e director da revista, é um apaixonado pelo Japão, e portanto a sua observação sobre os dez sectores mais afectados é muito certeira. Outros artigos interessantes são sobre a cadeia de televisão árabe Al Jazeera, sobre a estação de televisão japonesa NHK, e sobre a forma como a Finlândia está a tentar recuperar das quebras verificadas pela Nokia. Na área das experiências há um artigo curioso sobre os princípios de gestão de Andrew Cogan, CEO da Knoll e sobre a forma como se pode gerir uma galeria de arte, por Harry Blain. Finalmente os lisboetas ficarão muito contentes com as quatro páginas dedicadas ao bairro da Lapa, em Lisboa – embora o prato forte em matéria de viagens seja o suplemento de 24 páginas dedicado a Barcelona.


 


VER – Ao longo dos anos Sofia Areal construiu uma imagem de marca e um estilo muito próprios e bem identificável. Começou a expor em 1982 e a sua primeira exposição individual data de 1990, estando representada em diversas colecções nacionais, institucionais e particulares. Agora Sofia Areal agrupou um conjunto de obras, de pintura e desenho, feitas entre 2000 e 2011 e deu o nome de «SIM» a esta mostra de 11 anos de trabalho. A exposição está no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional até 26 de Junho, com montagem (bem pensada) de Emília Ferreira, a mostrar a evolução da obra ao longo das várias fases que atravessou nesta década, desde as formas orgânicas iniciais, ao desenho mais intimista, até ao regresso à pintura dos últimos anos. A exposição é feita por iniciativa dos Artistas Unidos, com quem Sofia Areal trabalhou – e expôs – em diversas ocasiões. No catálogo da exposição Jorge Silva Melo escreve que estes dez anos de Sofia Areal são «uma visão que se afirma, que se intensifica, que se recria, simplificando».


 


OUVIR –  Paul Simon vai fazer 70 anos no próximo mês de Outubro e desde 1964, há 47 anos, que continua a ser um nome incontornável na música popular contemporânea. Primeiro ao lado de Art Garfunkel e, depois, a solo, foi construindo uma carreira erguida sobre canções de uma intensidade e criatividade pouco usuais, na quantidade e qualidade que conhecemos. Custa a crer que tenha passado tanto tempo desde que ele gravou «The Sound Of Silence» e quando se ouve pela primeira vez o seu novo disco «So Beautiful Or So What», acabado de lançar, tem-se a mesma sensação inicial de frescura e originalidade que é a sua imagem de marca desde o princípio da sua carreira. Nas notas introdutórias do disco Elvis Costello não hesita em dizer que o novo disco é uma das melhores obras de toda a carreira de Paul Simon, e tem razão.


 


Nos dez novos temas aqui incluídos, Paul Simon continua a descrever a vida à sua volta, citando a guerra no Iraque, as suas dúvidas pessoais mais profundas, sobre a fé ou a vida, o permanente encontro com o amor, a redescoberta da escrita e as dúvidas permanentes que povoam o universo dos homens. A produção do disco esteve a cargo do próprio Paul Simon e de Phil Ramone (que faz um soberbo trabalho). Dois destaques – para a forma como as percussões são utilizadas e para o arranjo de Gil Goldstein numa das faixas mais simbólicas do disco, «Love And Hard Times». E um elogio para a subtileza envolvente da guitarra de Paul Simon e para a forma viva e divertida como ele continua a cantar. Este é um disco fora de modas. Mas terrivelmente actual. CD Hear Music/ Universal Music


 


PROVAR – Quando lhe apetecer um restaurante pacato, com ambiente familiar e boa comida caseira pode experimentar dirigir-se para os lados da Infante Santo, no cruzamento com a Rua do Sacramento a Alcântara (que depois se transforma na Rua das Janelas Verdes). Aí fica o Restaurante Tirsense, cuja lista é estabelecida em função das disponibilidades da praça. Mas não é invulgar encontrar fantásticos jaquinzinhos ou uns bem preparados filetes de polvo, acompanhados de arroz de grelos, bem malandro e saboroso. Se tiver dúvidas nas escolhas peça sugestões à D. Lia, que ela há-de ter prazer em ajudar. Para começar, a sopa de hortaliça é um regalo e, para terminar, o arroz doce é imperdível. A acompanhar o café vem um daqueles pequenos bombons antigos, embrulhado em prata colorida. As mesas são confortáveis e bem postas, os guardanapos são de pano e duas pessoas fazem a festa por pouco mais de trinta euros, incluindo sopa, sobremesa e vinho da casa. O Tirsense fica no nº48 da Rua do Sacramento a Alcântara, é preciso descer umas escadinhas do nível da rua para o passeio inferior, onde está a porta. O telefone é 213 977 246.


 


BACK TO BASICS – A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano (Voltaire)

maio 03, 2011

A tanga do programa

(Publicado no diário Metro de 3 de Maio)


 


O candidato do PS a Primeiro Ministro, José Sócrates, usa a táctica da cassette: gosta de repetir uma frase vezes sem fim, na esperança de que, de tanto ser repetida, as pessoas se convençam. É o que tem feito em relação à questão do programa eleitoral, procurando convencer os eleitores que o PSD não terá programa a apresentar e que ele, despachado como é, já  apresentou o do PS.


 


Não é preciso ser especialista em política, nem ter os dons do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, para perceber que não serve de muito apresentar um programa eleitoral que, depois, entre em choque com o conjunto de medidas que a Troika do FMI e União Europeia estão quase a apresentar para viabilizar a ajuda financeira a Portugal.


 


Na realidade o bom senso manda que as negociações fiquem completadas e que os principais partidos cheguem a acordo com a troika sobre as medidas que estão dispostos a subscrever, para que, depois, cada um, apresente as suas melhores propostas, baseadas no quadro do que será possível fazer, e não daquilo que se gostaria de fazer mas provavelmente, em muitas áreas, não se poderá concretizar.


 


O candidato do PS, convém recordar, é useiro nesta táctica: já nas duas eleições anteriores fez programas eleitorais e promessas diversas – em matéria fiscal, de emprego, de apoios sociais – que depois teve de retirar à pressa mal se sentou na cadeira de Primeiro- Ministro. De maneira que de uma coisa temos a certeza: o candidato Sócrates do PS promete umas coisas que depois o Primeiro Ministro Sócrates não cumpre.


 


Como Primeiro Ministro José Sócrates foi o que mais distante ficou dos programas eleitorais que tinha traçado e, já agora, o que piores resultados apresentou em matéria de agravamento das contas públicas – de facto as suas promessas dizem uma coisa e os seus actos mostram outra, bem diferente. Quem quiser continuar a acreditar em promessas que não têm nada  a  ver com a realidade tem Sócrates do seu lado.  E já sabemos aquilo que ele faz.

abril 29, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 29 de Abril)

PESADELO – Quando olho para o que se passa no país pergunto-me se o PSD já percebeu que existe uma campanha eleitoral a decorrer e eleições marcadas para 5 de Junho.  É raro o dia em que alguém próximo do PSD não avança com uma proposta que depois tem de ser rectificada. Está a ser demasiado frequente que existam oscilações de posições em questões cruciais. O problema não é apenas de eficácia de comunicação – começa a ser perceptível que existe um problema, maior, de conteúdo e de coordenação de propostas. Sinceramente espero que seja resolvido. Seria lamentável que estas eleições entregassem o ouro ao bandido por falta de comparência do adversário. É certo que os discursos do Pátio dos Bichos sublinharam que os partidos políticos em Portugal funcionam mal e que o país não se esgota nos partidos. É certo que a maior prova de que o sistema político funciona mal é a falta de espírito auto-crítico por falta dos oradores do Pátio dos Bichos: quem os ouvisse acharia que eles nunca tiveram responsabilidades aqui na terrinha. Quando chegar o dia das eleições pensem nisto: não estão satisfeitos com o estado das coisas, com os efeitos das anteriores eleições? Então usem o voto para punir quem nos levou até aqui. É para isso que ele serve.


 


GASTADOR  – António Costa mudou-se para o Intendente. As obras de recuperação do local onde se instalou custaram à Câmara Municipal cerca de 670.000 euros. Costa diz que vai ficar ali – na antiga fábrica Viúva Lamego – durante dois anos. A CML pagou o arrendamento por 10 anos, justificando que assim recuperava o edifício. Não se sabe o que lá vai acontecer a seguir a Costa sair. Gostava de saber quanto vai custar – em custos directos e indirectos – esta mudança, mas admitamos que dizer um milhão não será muito exagero e se calhar até peca por defeito. António Costa diz que o investimento se justifica para recuperar o Intendente e eliminar o estigma de zona de prostituição e droga. Eu acho que com este milhão, basicamente destinado a uma operação de propaganda política do Presidente da Câmara, se conseguia fazer bem mais pela recuperação do Intendente do que com o simbolismo de uma instalação artificial e forçada. E assim se vai gastando o pouco dinheiro que resta – de qualquer forma quem vier a seguir é que há-de pagar a factura.


 


ARCO DA VELHA – José Lello, do PS, chamou «foleiro» a Cavaco Silva no Facebook, por causa da forma como decorreram as comemorações do 25 de Abril no Palácio de Belém. Depois de ter sido zurzido por todo o lado, incluindo o PS, apareceu a dizer que se tinha enganado na tecla e que queria dizer apenas que o Presidente «não tinha sido suficientemente abrangente». Ainda não tinha percebido que foleiro queria dizer com falta de abrangência. Sempre a aprender…


 


SEMANADA – Segunda-feira Sócrates disse que Teixeira dos Santos não tinha estado no Palácio de Belém porque estava a negociar com a troika. Terça-feira soube-se que Teixeira dos Santos passou o feriado em sua casa, no norte, não tendo levado consigo nenhum membro da troika; terça-feira à noite, na entrevista à TVI, Sócrates disse que ele e Teixeira dos Santos eram muito amigos e que não havia problema algum entre ambos.


 


LER –  A edição de Maio da «Vanity Fair» traz na capa Rob Lowe, tronco nu, olhar decidido e músculos realçados. O estilo da capa tem a assinatura de Annie Leibowitz e serve de apresentação aos excertos da auto-biografia de Lowe, intitulada «Stories I Only Tell My Friends», que será publicada em breve e onde ele conta aquilo por que passou em Hollywood até ganhar fama. Outro motivo de interesse desta edição é a história da relação, longa e intensa (50 anos quase), de Picasso com a sua amante Marie Therése Walker, que inspirou muitas das suas obras e que está presente em quadros como a Guernica. Finalmente uma razão suplementar para ler esta «Vanity Fair» é o excelente artigo de Joseph E. Stiglitz (Prémio Nobel da Economia em 2001) sobre o aprofundamento do fosso social nos Estados Unidos e as consequências desse aprofundamento de diferenças no funcionamento das sociedades. Chama-.se «Of the 1%, by the 1%, for the 1%» e devem poder encontrá-lo no site da revista.


 


VER – Em pouco tempo eis a segunda exposição de Pedro Calapez em Lisboa, desta vez na Fundação PLMJ, Rua Rodrigues Sampaio 29. Comissariada por Miguel Amado, integrada na programação OFF da PLMJ, destinada a artistas portugueses e da CPLP,  a exposição “Kickflip” vai buscar inspiração aos desportos radicais e à cultura urbana contemporânea. Nesta mostra estão quatro obras feitas para a ocasião, de pintura e escultura, assim como duas outras obras inéditas em Lisboa. “Kickflip” ficará patente até 9 de Junho, de quarta a sábado, entre as 15 e as 19 horas. É um contraste interessante com a outra exposição, desenhos recentes sobre papel, que continua na Galeria João Esteves de Oliveira, Rua Ivens 38, até 6 de Maio (de terça a sábado entre as 11 e as 19h30). Bom programa para a tarde deste sábado – ver ambas as exposições de Calapez e sentir as várias formas do seu olhar.


 


OUVIR –  Em 1964, estava Ray Charles a fazer 34 anos, gravou num auditório de Los Angeles um dos seus espectáculos. Um ano depois foi editado o LP “Ray Charles Live in Concert” , que durante muitos anos foi a gravação ao vivo de referência na obra do cantor, em excelente forma vocal, acompanhado por um grupo de músicos com os quais tinha um entendimento perfeito. Também a forma de Ray Charles tocar piano e órgão está em evidência nesta gravação, que foi agora integralmente remasterizada, ganhando brilho e qualidade sonora. Este registo nunca tinha sido editado em CD, de forma que há muito que o original era uma raridade. A nova edição inclui sete temas que não tinham sido incluídos na edição original, entre os quais uma bela versão de «Georgia On My Mind». Além disso o disco original incluía, e aqui mantém-se a única garvação que Ray Charles fez de «Makin’ Whoopee», um improviso em que intervêm apenas Ray, um baixista e um baterista. O novo CD, editado pela Concord para a Universal, inclui 17 temas, o início e o o fim do concerto, assim como notas de edição que ajudam a enquadrar esta gravação no seu tempo. Um disco absolutamente fantástico e surpreendente.


 


PROVAR – Ainda não é desta que fiquei cliente das casas de comida patrocinadas por Vitor Sobral. Curioso com o sururu comunicacional criado a propósito da abertura da Cervejaria da Esquina lá me dirigi numa destas noites, sozinho, para experimentar se isto seria verdadeiramente uma cervejaria. Pois não é – é um local que quer ser uma cervejaria mas está disfarçado de outra coisa qualquer. Para cervejaria falta-lhe uma boa diversidade da bebida que a devia inspirar, limitada que está ao patrocínio da Sociedade Central de Cervejas, o que é pena. E falta-lhe simplicidade básica, o que é ainda pior – sobretudo porque o que falta  sobra em pretensão. Já agora, também lhe falta ambiente e clima e sobra-lhe preço. Situada em Campo de Ourique, numa esquina da Rua Correia Teles, onde antes existia a Pastelaria Bonina (cuja fachada foi em parte mantida), a decoração do interior é sem história e, na minha opinião pessoal, sem grande gosto. Pode ser que tenha tido azar, mas os camarões da costa, pequeninos, vieram cozidos demais – ou então estavam naturalmente moles em demasia, o que ainda é pior. O bife do lombo era de boa qualidade, mas nadava num molho excessivamente intenso e que tinha um travo estranho, prejudicando a experiência de um bom e tradicional bife frito. As batatas fritas eram boas. Por 150 gramas de camarão da costa recozido e um bife que tirava o curso de nadador salvador em molho cremoso, mais duas imperiais daquela marca de que não gosto, paguei 34,75 euros. Conheço várias cervejarias em Lisboa onde se come melhor por bastante menos. E com melhor ambiente até – que o daqui era apenas o de seguidores de modas passageiras e devotos de guias da cidade para turistas. Tel. 213 874 644.


 


BACK TO BASICS – Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura. Eça de Queiroz, 1891


 

The Future's So Bright You Gotta Wear Shades

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O título desta nota é extraído de  uma canção brilhante dos Timbuk 3, já com uns anos,mas que reflecte bem a situação em que nos encontramos.


 


Uma das coisas que me deixa surpreendido é que o PSD esteja sistematicamente a confundir dois planos: o estratégico e o táctico.


 


Como bem disse aqui o meu blogmate LPM, o pano de fundo da actual campanha está condicionado pelas regras que forem ditadas por quem nos vai prestar ajuda financeira.


 


Por isso se percebe mal que o PS tenha apresentado um programa que ignora esta circunstância, dias antes de as conclusões da troika serem conhecidas, e que o PSD se desdobre em iniciativas que estão fora do estreito corredor onde a acção política efectiva se poderá processar, como parecem muitas das ideias surgidas da iniciativa «Mais Sociedade».


 


Eu, se fosse aos promotores da iniciativa «Mais Sociedade», tinha pura e simplesmente arrumado as coisas até depois das eleições - porque a missão de pensamento estratégico deste think-tank ficou irremediavelmente comprometida pela convocação súbita de eleições e pelas circunstâncias em que elas vão decorrer - com o pano de fundo do acordo que a troika financiadora pretende obter dos principais partidos.


 


Ainda por cima, mesmo que não existisse troika, dificilmente as reflexões estratégicas a médio longo prazo que a «Mais Sociedade» pretende produzir seriam úteis e eficazes do ponto de vista táctico face à conjuntura existente.


 


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Quarta-feira, no «Negócios da Semana» (SIC Notícias), José Gomes Ferreira teve a presença de António Carrapatoso e João Duque e tivemos ali um bom exemplo de como estes dois promotores da iniciativa (mais João Duque que Carrapatoso) não compreendem que estão a falar num tempo diferente daquele em que estão a reflectir - o que provoca que as suas reflexões, nesta altura, e não sendo para acção imediata, como ambos acabaram por dizer, sejam absolutamente contraproducentes do ponto de vista objectivo quanto à clareza da mensagem de uma oposição ao PS.


 


João Duque, por exemplo, quando abordou a questão das formas de o Estado intervir no desemprego, passou sempre ao lado do facto de actualmente estarmos perante um crescente desemprego qualificado, que cada vez atinge mais pessoas acima dos 45 anos, com experiência e formação, e que não encontram apoio na reconversão profissional por parte dos organismos do Estado (preparados basicamente para o desemprego desqualificado), organismos que não estão minimamente preparados para lidar com estas novas situações - e que são as que vão crescer a curto-médio prazo. Como passou por cima desta realidade preconizou medidas gerais que só podem causar perplexidade aos novos desempregados - antagonizando-os.


 


Na sequência desta conversa de ontem na SIC Notícias fui ver o site do «Mais Sociedade» e a primeira impressão, dos documentos e de alguns papers que lá se encontram, é que basicamente apanham generalidades e pecam por falta de atenção ao detalhe - o que é natural porque a convocação de eleições veio encurtar o tempo previsto para a reflexão. Por exemplo na área da cultura o vazio de ideias é confrangedor face à realidade e existe até, paradoxalmente, um espírito predominantemente estatista e burocrático, em aparente contradição com outras áreas da iniciativa. Assim, no meio desta confusão, faria talvez mais sentido parar o processo e retomá-lo mais à frente, fora da pressão eleitoral.


 


É que, a continuar, a confusão das mensagens apenas penaliza aqueles a quem era suposto fornecer inputs. E, salvo erro, o objectivo da acção política é ganhar o poder para depois tomar medidas. Claro que convém saber o que se vai fazer em termos imediatos - mas isso, infelizmente está condicionado. E não estamos portanto a falar de estratégia a longo prazo, devemos falar de táctica para ganhar o poder e executar da melhor forma um programa que em grande parte é ditado pelas circunstãncias sem grande margem para fugas. O futuro imediato não será brilhante. É escusado pintá-lo ainda mais de negro.


 


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abril 26, 2011

Como utilizar a Democracia? - Despedir quem governa mal!

(Publicado no Metro de 26 de Abril)


 


37 anos depois do 25 de Abril vivemos um dos piores momentos da nossa democracia. Anos de alheamento da realidade e de incompetência pura e simples conduziram-nos a um ponto de endividamento, público e privado, terrível. Passámos décadas a fazer construções, com betão, cimento e asfalto, como se fossemos todos meninos a construir Legos sem querer saber do dia de amanhã. Demos todos os direitos por adquiridos, mas fugimos quando ao longe ouvimos dizer que também há deveres. A pesadíssima factura está aí e vai ser dura de pagar.



Os políticos cá da terra seguiram exactamente o mesmo rumo que os demais: irresponsabilidade regada com um despudorado apego ao poder. Com os aparelhos partidários e as campanhas eleitorais sustentados durante anos pelas grandes construtoras (no pais) e até pelas médias e pequenas (nas autarquias), os políticos da praça comprometeram o futuro em troca de licenças e adjudicações de obras.


Fizeram-se auto-estradas paralelas umas às outras, imaginaram-se projectos gigantescos mas não se cuidou de mais nada. Pelo contrario, aceitaram-se, em troca dos dinheiros comunitários para as auto-estradas, imposições que liquidaram a nossa agricultura e a nossa pesca. Como sempre os empregos criados nas grandes obras foram voláteis e desapareceram. A indústria portuguesa tornou-se menos competitiva e centenas de fábricas fecharam. Hoje em dia produzimos muito menos e estamos muito mais dependentes do exterior. Portugal tornou-se um país de serviços subalternos e não tratou de cuidar do futuro – este é o legado da classe política ao fim de quase quatro décadas.


 


Talvez fosse altura de olharmos bem para os candidatos e ver o que fizeram. Talvez fosse bom olhar para estes seis anos de Sócrates e ver como era o pais antes, e como é agora. Talvez fosse bom recordar todas as promessas que Sócrates fez e que negou logo a seguir às eleições. E talvez fosse bom dar-lhe uma pesada derrota eleitoral. É a única paga possível para o que ele nos fez. A democracia serve para usar o voto para pôr na rua quem governou mal.


 

abril 23, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de 21 de Abril)

VOTAR – O conservadorismo do nosso sistema político e partidário é também aferido pela posição dos partidos face aos debates na televisão. A SIC propôs uma pequena variação do modelo existente, muito na linha do que se faz nos outros países, para permitir que os líderes partidários possam ser confrontados com perguntas directas dos espectadores/eleitores. Pois os partidos recusaram e impuseram o modelo vigente de A debate com B e por aí fora. Eu não percebo como é que os responsáveis partidários querem atrair votantes se não se esforçam por descer à terra e se continuam a mostrar a maior insensibilidade pela necessidade de fazer uma comunicação que seja atraente, em vez da propaganda antiga em que persistem e que tão maus resultados tem dado – em termos de participação eleitoral. Se calhar temos que perceber que os partidos não querem atrair votantes e estão contentes com os elevados níveis de abstencionismo, desde que consigam os seus pedaços de poder. Não é o sentido mais profundo da democracia que lhes interessa, mas apenas a forma de maximizar a utilização do sistema em proveito e poder próprios. Por falar nisto acho que devia existir uma campanha para convencer a «geração à rasca» que o voto pode ser uma forma de manifestarem opinião – se votarem mesmo serão muito mais eficazes do que se estiverem apenas limitados ao Facebook, por muito importante que ele seja hoje em dia – e é, mas não conta votos. Finalmente – espero que a Comissão Nacional de Eleições faça uma campanha de apelo ao voto para ir buscar novos eleitores e aumentar a participação eleitoral. Algo me diz que desse ponto de vista a coisa não vai correr bem.


 


REALIDADE – Manuel Villaverde Cabral, numa entrevista ao «Correio da Manhã», recordou uma realidade que às vezes escapa às memórias mais distraídas: nos últimos 40 anos o FMI já foi chamado três vezes e sempre pela mão do PS. Claro que desta vez o descalabro é maior e os remédios que virão na receita serão bem mais difíceis de tragar. Mas isso não impede que todos devamos fixar o facto de os governos liderados por socialistas terem uma grande tendência para darem cabo das contas públicas e de ignorarem as chamadas de atenção à realidade. Para além deste facto há outro, muito grave, que se traduz nisto: nos últimos anos aumentou de forma brutal em Portugal o fosso entre os mais pobres e os mais ricos. Há uma década o nosso país era mais equilibrado e menos injusto – anos e anos de PS no poder provocaram de facto um agravar das injustiças sociais e da diferença entre quem mais recebe e quem menos tem. Este fosso é o legado que Sócrates nos deixa e é uma das principais razões para não se votar nele.


 


LISBOA – Enquanto António Costa vai vendo como consegue passar sem grandes danos no meio da crise do PS, Lisboa, a cidade que ele devia governar, está cada vez mais velha e vazia, ao contrario do resto da região. De acordo com um estudo do Observatório Regional de Lisboa e Vale do Tejo, acontece que Sintra, Seixal, Vila Franca de Xira, Moita e Mafra são os concelhos mais jovens e dinâmicos da região. Lisboa é um conselho que tem envelhecido e perdido gente, incapaz de atrair os mais novos. No país, entre 2000 e 2009 a população cresceu 3,73%, na grande Lisboa a população cresceu 6,3%, mas o concelho de Lisboa perdeu no mesmo período 15,58%. Os habitantes de Lisboa são punidos no dia-a-dia por persistirem em viver numa cidade que é mais governada para quem a visita do que para quem nela vive – apesar de serem os seus habitantes que pagam as taxas, os impostos, as multas da EMEL, a sobranceria das obras eternas e da degradação. Lisboa pode ser uma cidade fantástica para os turistas que nos visitam, mas para quem cá vive é uma metrópole cara, desconfortável e incómoda: não há outra explicação para que perca tanta população numa década.


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que roubou os gravadores a jornalistas da «Sábado», e que é alvo de um processo por crime contra a liberdade de impresa, instaurado pelo ministério Público, foi de novo escolhido por Sócrates para integrar as listas do PS nos Açores.


 


SEMANADA – O bastonário da Ordem dos Advogados apelou a que os eleitores não votem; Mário Soares percebeu finalmente que a Europa está em desagregação; Freitas do Amaral afirmou que não votará em Sócrates, mas está indeciso entre PSD e PP; Mário Soares critica o comportamento do PS e PSD na pré-campanha eleitoral e elogia a posição que o PP tem mantido; Fernando Nobre disse uma coisa e o seu contrário no espaço de 48 horas – da entrevista ao «Expresso» até à entrevista na televisão.


 


FRASE - «Fernando Nobre é o perpétuo desmentido de si próprio» - Fernando Sobral, no «Pulo do Gato», deste jornal.


 


LER – Eis um tema melindroso: «a intenção é o Animal e  a tentação descai para o Homem», assim escreve Mário Assis Ferreira nesta edição da revista «Egoísta», que dirige,  cujo tema é exactamente o ser animal. Não sei se diga que este número da Egoísta é mais para ler ou mais para ver, já que as opções de edição fotográfica da revista estão cada vez mais apelativas. A edição deste trimestre, datada de Março abre bem com José Luís Peixoto, e o seu texto “Trabalhos Sensíveis”, que começa assim: “ Se há uma coisa que tenho aprendido com os bichos-da-seda é que o ódio não faz falta neste mundo”. Há nomes a escrever, bem, nesta edição: Filipa Leal. Maria Manuel Viana ou Henrique Botequilha – e há clássicos, como Hélia Correia, simplesmente genial. Na fotografia há imagens superiores de Augusto Brázio, de Céu Guarda e de Valter Vinagre.


 


VER – Na Fundação de Serralves está desde esta semana uma exposição imperdível - «In Intinere», de José Barrias, um artista português que vive em Milão e que durante alguns anos preparou minuciosamente esta sua mostra. É uma exposição invulgar porque trabalha sobre o próprio espaço, quer usando as paredes como suporte de textos escolhidos, de citações a breves notas, quer alterando a arquitectura das salas. Em qualquer caso coloca o espectador como participante numa viagem onde as referências à história da arte se misturam com referências pessoalíssimas do autor, algumas íntimas, como na sala que evoca a vida de Barrias. Mas em todos os casos está patente a imaginação e a criatividade – seja na encenação dos espaços, seja nos desenhos e na pintura. É uma exposição cheia de pormenores, pensadíssima, e que desafia quem a visita a tornar-se cúmplice do autor. A exposição está pensada e montada como uma narrativa que vai levantado aos poucos o véu sobre o trabalho do artista e que culmina na apoteose final da perspectiva que nos conduz de novo à origem das coisas. É quase uma encenação teatral que faz de cada visitante um actor, que percorre o universo proposto por José Barrias. Em Serralves, até 3 de Julho.


 


OUVIR –  Daniel Hope é um dos mais aplaudidos violinistas contemporâneos e «The Romantic Violinist» é o seu mais recente disco, pensado como uma homenagem a Joseph Joachin, um dos maiores violinistas do século XIX.  O disco, que inclui repertório do próprio Joseph Joachin e de outros compositores marcantes como Bruch, Brahms, Schubert ou Dvorak. Acompanhado pela Real Orquestra Filarmónica de Estocolmo, dirigida por Sakari Oramo, Daniel Hope tem também a companhia do pianista Sebastian Kramer numa interpretação exemplar das «Romanze» de Joseph Joachin e da soprano Anne Sofie von Otter numa canção de Brahms. CD Deutsche Grammophon.


 


PROVAR – Numa das mais prestigiadas listas dos melhores restaurantes do mundo, divulgada esta semana, aparece um único português – o Vila Joya, dirigido pelo chefe Dieter Koschina, colocado na 79ª posição. O Vila Joya, localizado na Galé, no Algarve, é o único restaurante português com duas estrelas Michelin – mas seria injusto dizer apenas isto. Trata-se de um local único, de uma cozinha verdadeiramente de excepção, baseada na extrema qualidade dos ingredientes e na criatividade na forma de os tratar, sem exageros nem modernices gratuitas. Ir lá jantar é uma experiência e uma aventura na descoberta de paladares. O jantar consta de sete pratos, da entrada à sobremesa, mas não se pense que é um exagero impossível – a qualidade da cozinha faz com que a refeição se passe de descoberta em descoberta e sem qualquer sensação de enfado. A reserva é obrigatória, o  jantar fica em  135 euros por pessoa, mais os vinhos, escolhidos de uma carta que inclui muitas preciosidades. O serviço é absolutamente inexcedível. Telef 289 591 795.


 


BACK TO BASICS – «O socialismo terá valor simplesmente porque levará ao individualismo» - Oscar Wilde

abril 21, 2011

Esvaziar Lisboa

(publicado no diário Metro de 19 de Abril)


 


Cada vez que um empreiteiro abre um buraco numa rua de Lisboa a reparação provoca um solavanco. Não há tampas de esgoto niveladas com o resto do pavimento e cada nova  vala resulta num buraco ou numa lomba - cada remendo é uma armadilha.


 


Quem por estas dias descer a Marquês da Fronteira, frente ao El Corte Ingles, depara-se com buracos onde estavam postes de obras, com bocados de cimento no pavimento, com uma anarquia  que se prolonga pela Duque de Ávila. Nesta última artéria o caos está instalado quase há uma década, graças à arrogância do Metropolitano de Lisboa e ao deixa-andar da Câmara Municipal – o fim das obras já vai atrasado mais de três anos sobre o prazo original e o  desrespeito das autoridades que governam a cidade pelos seus habitantes é total.


 


A Câmara Municipal de Lisboa, sobretudo com António Costa, encara os munícipes apenas como fonte de rendimento – impostos, taxas, multas da EMEL; mas não encara os munícipes com o pessoas que têm direitos.


 


O troço de rua entre o Jardim de S. Pedro de Alcântara e o Cais do Sodré quase tem mais obstáculos e buracos que uma pista de motocross. A situação repete-se nas zonas mais antigas de Lisboa onde a deterioração do pavimento e as armadilhas são totais.


 


Os peões também têm razão de queixa – passeios ondulados, sujos, que não são lavados e se tornam uma armadilha escorregadia, buracos na calçada pensados para fazer tropeçar quem vai a pé.


 


Lisboa é uma cidade tão bonita para os estrangeiros que cá vêm passar um fim de semana, como pouco confortável e desagradável para quem cá vive.


 


O resultado disto está á vista: a cidade perde cada vez mais habitantes, a sua população está envelhecida. Quem opta por viver em Lisboa pode contar com uma perseguição bem organizada por parte da Câmara Municipal, mas escusa de pensar que os impostos que paga lhe podem valer alguma coisa. As autoridades da cidade preferiam que Lisboa não tivesse habitantes – assim teriam menos incómodo e ouviriam menos queixas. Pelos vistos trabalham com esse objectivo.


 

abril 18, 2011

(Publicado No Jornal de Negócios de 15 de Abril)

ILUSIONISMO – Os próximos meses vão mostrar como o Governo, em vez de governar, ser sério e encarar os problemas de frente, transformou o poder num exercício quotidiano de ilusionismo. Estamos a meio de Abril e já é patente que a redução de custos na administração pública se está a fazer na base de uma orçamentação irrealista – tudo foi sub-orçamentado para caber nesta politica do esconde-esconde. Já se percebeu que faltam coisas básicas nos hospitais, que nas forças de segurança e no exército as contas foram muito mal feitas e desconfio que os próximos meses vão trazer dolorosas surpresas – não pela mão do FMI, mas pelo que se tornará patente do malabarismo que a equipa de Teixeira dos Santos e Sócrates andou a fazer. Tudo o que está a acontecer – e o que aí vem – tornará mais claro que chegámos  à situação em que estamos por causa da acção do executivo ao longo dos últimos seis anos e não por causa do derrube do Governo.


 


Já percebemos que este vai ser um ano terrível – para muita gente o  subsidio de desemprego está a acabar; os preços vão aumentar, sobretudo o dos alimentos; é inevitável que aumente o preço dos transportes. A fome e a miséria vão tocar a muitas portas que as não conhecem. O país, que se transformou num gigantesco hipermercado onde comprar se tornou mais importante que produzir,  resume-se a isto: temos uma agricultura e um sector das pescas destroçados e uma indústria sufocada e, nalguns sectores, em vias de extinção. De Madrid chegam notícias de que a Espanha está a sair da crise e nos supermercados portugueses só encontro alhos e fruta espanhola.


 


Organismos internacionais dizem que Portugal vai ser o único pais europeu em recessão em 2012. Batemos no fundo – e a única vantagem de bater no fundo é que daqui para a frente é mais fácil fazer coisas bem feitas, até porque é difícil fazer pior. A negociação com o FMI tem um único grande desafio pela frente: como aplicar os remédios, dando ao mesmo tempo as vitaminas necessárias para começarmos a crescer?


 


 


ARCO DA VELHA – Os descontos efectuados para o IRS, Caixa Geral de Aposentações e Segurança Social a cerca de 50.000 agentes de forças de segurança não foram pagos pelo patrão Estado ao cobrador Estado. Se um empresário fizer isto arrisca-se a ir preso, por reter dinheiro que foi cobrado aos seus funcionários. E quem vai preso no Estado?


 


 


SEMANADA – O PS mostrou-se unido; o PSD apareceu partido; Manuela Ferreira leite recusou integrar as listas do PSD; Luis Filipe Menezes recusou integrar as listas do PSD; Marques Mendes recusou integrar as listas do PSD; António Capucho recusou integrar as listas do PSD; Fernando Nobre aceitou integrar as listas de deputados do PSD; Fernando Nobre fez saber que se não chegar a ser Presidente da assembleia da República também não quer ser deputado.


 


 


AGENDA – Na edição desta semana da “Newsweek” não perder o belíssimo e oportuno artigo sobre Francis Fukuyama – o que ele tem feito, as suas preocupações actuais em Stanford, o modo como vê o mundo hoje em dia – e ele, Fukuyama, mudou, percebe-se logo. Ainda por cima as cinco páginas que a revista lhe dedica são acompanhadas por excelentes fotografias, numa demonstração do que, de forma simples, pode ainda ser feito na imprensa.


 


 


LER –  Infelizmente a VASP resolveu aumentar em Portugal o preço de venda da edição norte-americana da Wired para 10,20€ - escandaloso se pensarmos que o PVP original nos Estados Unidos é de 4.99 US$. Assim, para evitar alimentar a especulação da VASP, resolvi passar a ler a Wired no iPad, onde cada edição custa apenas 2.99€ e tem, ainda por cima, muito mais conteúdos. Está feito o aviso à navegação, passemos ao conteúdo. A edição de Abril é dedicada à criatividade, sobretudo aplicada a novos projectos – ideias interessantes que se podem tornar negócio – desde cortadores de relva a mobiliário, passando por roupa. E como arranjar fundos para desenvolver estes projectos – a Wired relata a experiência do Kickstarter, um site originalmente pensado para angariar fundos para projectos artísticos, mas que agora também proporciona captação de investimento inicial para projectos empresariais. Vejam o site www.kickstarter.com que vale a pena. E é uma bela ideia para tempos como os que vivemos.


 


 


VER – Manuel João Vieira é músico, cantor, ex-candidato à Presidência da República e artista plástico – e com um bocadinho de esforço ainda lhe encontrava outras actividades. Mais conhecido como músico nos Ena Pá 2000, nos Irmãos Catita ou nos Corações de Atum, Manuel João Vieira é um bom pintor, que traz às suas obras o humor que atravessa a sua carreira musical. Nos seus desenhos e quadros, cheios de pequenos pormenores e com um traço minucioso, vê-se como ele é um observador implacável, que retrata o ridículo e interpreta de uma forma muito peculiar a realidade à sua volta.


 


Tem um desenho característico e uma utilização das cores também muito marcada e pessoal. O universo das suas obras vive no domínio do fantástico e da manipulação dos corpos e constrói situações complexas, e surreais, com uma aparência de simplicidade. A Galeria Valbom apresenta aquela que deve ser a sua maior exposição de sempre e que, além das pinturas e desenhos, inclui algumas esculturas, uma instalação e um vídeo. No actual panorama lisboeta é uma exposição imperdível, cáustica mas onde o talento e a transbordante criatividade do autor são bem patentes. A exposição tem o título «A mão esquerda contra a mão direita» e vem assinada por Manuel Vieira como Orgasmo Carlos como Manuel Vieira. Avenida Conde Valbom 89-A, de segunda a sábado das 13 às 19h30.


 


OUVIR –  Bill Frisell é um guitarrista norte-americano de 60 anos com uma longa carreira no jazz. Vinicius Cantuária é um músico e cantor brasileiro, também com 60 anos, com longa carreira mas pouco conhecido entre nós. Ambos juntaram-se para fazer «Lágrimas Mexicanas», um disco inesperado e irresistível, onde o calor e  ritmo tropicais transmitidos por Vinicius Cantuária se conjugam na perfeição com as sonoridades oriundas dos blues, do jazz e do country da guitarra de Bill Frisell.


 


Aqui e ali há aromas de outros ritmos, como no «Cafezinho», a atirar para o rockabilly ou o pop de «Lágrimas de Amor» ou, ainda, as referências a Scott Joplin em «Briga de Namorados». A faixa que dá o nome ao álbum, “Lágrimas Mexicanas” é uma esp explosão de ritmos e de energia num e, finalmente, «Calle 7» é a melhor síntese do que ambos conseguiram, uma evocação de um passeio na Sétima Avenida numa mistura de culturas que é a essência da Nova Iorque.


 


Este dueto é deliciosamente bizarro porque está baseado naquilo que pode tornar um dueto uma coisa séria: a sintonia entre os dois músicos que conseguem combinar a criatividade de cada um de forma natural. Vinicius Cantuária tem estabelecido uma reputação sólida como um dos grandes herdeiros do tropicalismo e tem enveredado por um experimentalismo que nunca abandona as referências populares, mas que aproveita tudo o que pode ser feito com a sua guitarra, voz e percussão e Bill Frisell é um dos magos da guitarra, acústica e eléctrica, e que crescentemente recorre à electrónica para trabalhar as sonoridades e acentuar a improvisação.


 


É certo que a forma como Vinicius Cantuária canta é irresistível, mas neste disco a qualidade da execução instrumental, a sua riqueza e variedade, é verdadeiramente invulgar. E muito melhor que a maior parte das brasileiradas da moda que por aí aparecem. CD Naive, via Amazon.


 


PROVAR – Com este calorzinho só apetece um gelado, Se não quiserem ir ao Santini, ao Chiado, podem experimentar as propostas de sabores do Artisani – que tem uma bela esplanada na Doca de Santo e uma loja simpática na Pedro Álvares Cabral 65, ao pé da Estrela (esta nas noites de sexta e sábado está aberta até às onze), Entre as especialidades da casa há uma espécie de bolos gelados, como os Pinguins ou a revisitação do clássico esquimó fresquinho. A Artisani, recordo os amnésicos, foi a casa que no Natal passado teve a ideia de fazer um gelado de Bolo Rei e que tem cupcakes gelados. Imaginação é o mote desta gelataria que apresenta sabores como canela e mel.


 


BACK TO BASICS Toda a nossa ciência, confrontada com a realidade, é primitiva e infantil – Albert Einstein


 


 

abril 12, 2011

TRÊS QUESTÕES PRÉ-ELEITORAIS

1 – Não sei bem se hei-de dizer que os Congressos partidários hoje em dia se aproximam mais de um comício, se de uma missa. Se calhar são uma mistura das duas coisas – oportunidade mediática com horas de directos de televisão, em conjunto com  a catarse de uma reunião de fiéis, deliciados com a homilia do pregador de serviço. Seja como for Sócrates mostrou que é um belo pregador e disposto a partir em cruzada contra os infiéis. Conseguiu impor-se como factor de unidade – o que não é obra pouca. Parte para a contenda com um partido unido – e tenho impressão que não se pode dizer exactamente o mesmo sobre o PSD.


2 - Eu acho que é normal que o pensamento de cada um vá mudando e evoluindo. E também acho que apoiar-se um partido deve ser cada vez menos uma questão de fé, e sim de razão – baseado num programa, em medidas concretas, num objectivo.  Mais do que nunca, o voto é táctico. Confesso que não sou grande simpatizante de Fernando Nobre e escrevi aqui, na altura das presidenciais, que desconfio sempre de quem a certa altura usa  o protagonismo alcançado em ONG’s para se dedicar à política sem grande programa próprio. Não vou sequer falar de incoerências – mas por mais voltas que dê à cabeça, não consigo perceber o estranho caso de Fernando Nobre - nem do lado dele, nem do lado do PSD. Não me parece que seja grande ideia candidatar a Presidente da Assembleia da República alguém que nunca foi deputado – o cargo, tem sido tradicionalmente reservado a quem tem uma longa e activa vida parlamentar e política, que culmina naturalmente naquele lugar. Assim, parece uma convenção de ilusionistas: Sócrates tirou Ferro Rodrigues da cartola e Passos Coelho sacou Fernando Nobre. Lá está: uma escolha entre pessoas, à frente de uma escolha de ideias, propostas e programas.

3 – Em todo o caso no dia 5 de Junho, para mim, o voto será feito tendo em conta a melhor forma de garantir que será necessária uma coligação, que a decisão de tudo não ficará na mão de um só partido. Acho que só assim existirá alguma salvaguarda futura.


 


(Publicado no diário Metro de 12 de Abril)

(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Abril)

A ENTREVISTA – Quando a RTP 1 programou uma entrevista com José Sócrates para segunda-feira passada, a nova Direcção de Informação da estação estava a correr um risco. Nuno Santos pensou que o tema lhe traria boas audiências – como aconteceu (a entrevista foi, no global de todos os canais, o terceiro programa mais visto do dia), e quis inaugurar o seu mandato a dar que falar. O risco vinha do comportamento de Sócrates, habitualmente arrogante com os jornalistas, e que tem, fruto de muito treino, o hábito de não responder a perguntas concretas e dizer apenas o que lhe interessa. No entanto, nesta entrevista, ele passou das marcas e claramente tentou intimidar os jornalistas – desde as expressões faciais de enfado e desagrado com algumas perguntas, até proferir observações, que não lhe ficam bem, sobre as razões de algumas questões. Acontece que com comportamentos destes Sócrates só dá trunfos aos defensores da privatização da RTP e aos que clamam que o serviço público está sempre em riscos de servir de porta voz governamental. Tivesse Sócrates respondido às perguntas e não fosse tão arrogante para com jornalistas, outra coisa seria. Quando um Primeiro Ministro se comporta, numa entrevista à RTP, como se estivesse num tempo de antena, dá argumentos para quem acha que o serviço público não faz falta. Eu acho que faz falta. Este foi o risco que a estação correu.


 


SEMANADA – No rescaldo da entrevista, Bagão Felix chamou mentiroso a José Sócrates, a propósito de este ter garantido que a questão da ajuda externa não foi discutida no Conselho de Estado; Campos e Cunha disse que «estamos a viver um filme de terror em que o Drácula culpa a vítima»; Manuel Maria Carrilho diz que Sócrates está a trair o interesse nacional e que segue a “estratégia de Xerazade” – com referência à história de As Mil e Uma Noites: enquanto  fôr capaz de contar uma história por noite, a sua vida não estará em risco. Tudo isto foi dito a propósito da entrevista de José Sócrates à RTP 1 na segunda-feira passada.


 


ARCO DA VELHA - «Não tenho o talento e as qualidades que um Primeiro Ministro deve ter» – José Sócrates em entrevista ao DNA, de 16 de Setembro de 2000.


 


O PRESENTE - O pedido de ajuda externa não vem atrasado  os 15 dias desde o chumbo do PEC IV, vem atrasado muitos meses e só o facto de os banqueiros terem levantado a voz a dizer que os cofres estão vazios fez Sócrates agir. Nada mais. O grande problema dos tempos que aí vêm é conseguir passar esta fase, até às eleições antecipadas, sem que o país seja submetido a um saque generalizado pelo Governo e seus organismos periféricos, nesta fase de saída de poder. O comportamento geral do executivo ao longo deste último ano, e sobretudo nas últimas semanas, é o pior dos prenúncios nessa matéria. Em ocasiões destas torna-se especialmente importante que o Presidente da República consiga gerir esta transição sem que o desmando se torne na regra de funcionamento e sem que o Governo deixe deliberadamente agravar a situação do país, refugiando-se numa interpretação minimalista da capacidade do executivo, como se está já a ver no caso das SCUTs


 


O FUTURO - Quanto mais tempo passa mais me convenço que a solução para a delicada situação política não é reforçar a bipolarização PS-PSD, e sim dar possibilidade a forças mais pequenas, à esquerda e direita, para que se possam constituir coligações  equilibradas e saudáveis. É a existência de dois grandes partidos, hoje em dia sem diferenças evidentes entre si, que é responsável pela confusão que se foi instalando aos longo dos anos. A reforma do sistema político não é para agora – mas vai ser impossível continuar a viver com normas e funcionamentos que podiam estar certíssimos há meio século, mas que hoje não se adaptam nem à velocidade da mudança nem à forma como os cidadãos seguem o mundo, a actualidade e percepcionam os acontecimentos. Estamos na segunda década do século XXI com procedimentos do início da segunda metade do século XX. A continuar assim a coisa não pode dar bom resultado.


 


LISBOA – Já que António Costa quer ficar em Lisboa e continuar a ser Presidente da Câmara, ofereço-me para o levar numa voltinha de scooter pelas ruas do centro da cidade para ele sentir, no corpinho, os buracos, o mau estado do pavimento, as armadilhas que existem por todo o lado. Este singelo convite foi, nesta semana, o post que publiquei no Facebook e que gerou maior número de comentários de apoio. É elucidativo da forma como os lisboetas se sentem. Lisboa está a ficar uma cidade complicada. Qualquer dia é óptima para os turistas, mas péssima para quem cá quer continuar a viver. Já agora: repararam como nos dois dias de greve de Metro desta semana os fiscais da EMEL andaram tão zelosos logo pela manhã?


 


AGENDA - No Museu da Electricidade a nova exposição de fotografias de Paulo Catrica intitulada «A Prospectus Archive» e que é baseada nos bastidores do Teatro de S. Carlos; Ainda na fotografia, destaque para a exposição que assinala o 6º aniversário da KGaleria, agora com o seu espaço renovado, na Rua das Vinhas 43 A . Trata-se de uma exposição dos fotógrafos do colectivo Kameraphoto intitualda «Schadenfreude», apresentada como «uma denúncia da compartimentação dos géneros fotográficos».


 


VER – Por iniciativa da Experimenta Design, a exposição «Ordem de Compra» reúne cerca de duas centenas de exemplos de bom design, com aplicação industrial, vindos de 75 empresas nacionais, em sectores de referência como a porcelana, o vidro, a cortiça e o calçado, bem como produtos que usam tecnologias avançadas, destinados a nichos de mercado ou à exportação. A exposição está no Palácio Quintela, ao Chiado, e pode ser vista de terça a Domingo, das 10h00 às 20h00, com entrada gratuita e até 3 de Julho.


 


LER –  Na edição da revista «Monocle» deste mês de Abril, destaco a reportagem sobre uma série de actividades económicas que, em vários locais do mundo, estão a gerar pequenas bolsas de emprego, apostando na qualidade, na manufactura de objectos invulgares, no regresso ao fabrico em pequenas séries, na criação de pequenas e médias empresas, como exemplo de criatividade e desenvolvimento – e se olharmos para a exposição «Ordem de Compra», acima referida, não posso deixar de pensar nisto . Outros artigos interessantes abordam o que é a rádio hoje em dia,  oferecem um olhar sobre Sidney e um guia destacável sobre Madrid, muito bem feito, óptimo para guardar – para quando um assim, sobre Lisboa?


 


OUVIR –  Para mim esta é uma das mais importantes edições discográficas dos últimos anos – o conjunto de quatro CD’s intitulado «Twelve Nights in Hollywood», que recolhe as gravações feitas em 1961, por Ella Fitzgerald, no Crescendo, um pequeno clube de jazz em Los Angeles. Estas gravações, inéditas até agora, foram feitas pelo fundador da Verve e na época agente da cantora,  Norman Granz. Foram remasterizadas digitalmente a partir das fitas originais – e a gravação original era já muito boa. Ao todo estão aqui editadas 76 canções, que recolhem a generalidade dos temas que tornaram Ella Fitzgerald célebre. Ainda por cima ela estava no pico da sua carreira quando estas gravações foram feitas, tinha 45 anos, e cantou de forma solta, com um swing e alegria extraordinários e com uma criatividade invulgar – que deve muito também á qualidade dos músicos que a acompanharam e à ligação que a cantora tinha com eles. Em Portugal estes quatro discos estão distribuídos pela Universal sob a forma de dois CDs duplos, «12 Nights in Hollywood», volumes I e II. Absolutamente imperdível.


 


PROVAR – Por menos de seis euros pode escolher um belo petisco: uma das magníficas conservas da Tricana, acompanhada por bom pão e um copo de vinho. A coisa passa-se todos os dias, ao almoço ou ao lanche, no 128 da Avenida Conde de Valbom, quase a chegar à Fundação Gulbenkian. Há várias outras sanduíches e petiscos e uma oferta vasta de produtos nacionais – de conservas  a azeites, passando por doces – incluindo uma caixa de sardinhas…. de chocolate.


 


BACK TO BASICS – A única coisa que tem valor na vida é aquilo que não conseguimos dizer – Wittgenstein.


 

abril 05, 2011

QUEM ABRIU O BURACO?

(publicado no diário Metro de 5 de Abril)


 


Neste fim de semana descobri uma coisa extraordinária: o país chegou ao buraco em que está e a culpa não é de ninguém. Sócrates diz que a culpa é toda da oposição; Guterres quando se pronunciou há dias sobre a situação portuguesa omitiu qualquer responsabilidade no gasto generalizado, que ganhou razoável incremento no seu tempo; Cavaco Silva não quer nem ouvir falar nisso, esquecendo-se quem iniciou o ciclo de aumentos de custos no funcionamento da função pública; Durão Barroso, apesar de ter estado pouco tempo, também faz como se não tivesse sido primeiro-ministro. Este país só tem autores de boas ideias, todos eles aliás tão bons que são sistematicamente exportados para altos cargos internacionais em reconhecimento dos altos feitos praticados.


 


Nos últimos 15 anos assistimos alegremente a uma espiral de aumento da despesa pública que nos conduziu onde estamos agora. A obsessão pelo contínuo alargamento do Estado Social e pelas grandes obras, e a ilusão do dinheiro fácil e sempre disponível, criou um monstro que imagina auto-estradas paralelas, muitas delas vazias, apenas para alimentar as obras públicas que são a principal fonte de financiamento dos partidos no poder. Vivemos governados por um monstro que criou tantos apoios que acabou por comprometer aqueles que deviam ser básicos: a saúde, a educação, a protecção no desemprego. E vivemos com Governos que, para obterem financiamentos de Bruxelas, aceitaram deixar acabar a agricultura e as pescas e preferiram ver a indústria  reduzir-se à expressão mais simples.


 


E, no entanto, a receita para um bom Governo  é simples e Marco Túlio Cícero, um dos grandes filósofos e políticos da Roma antiga, que se distinguiu pelo sua defesa da rectidão nas contas públicas, sintetizou desta forma o que pensava: «As finanças públicas devem ser saudáveis. O orçamento deve ser equilibrado. A dívida pública deve ser reduzida. A arrogância da administração deve ser combatida e controlada. A população deve trabalhar em lugar de viver da ajuda pública».

(publicado no Jornal de Negócios de dia 1 de Abril)

CRISE – No dia 28 de Janeiro, logo a seguir às eleições presidenciais, escrevi nestas páginas: “Como se percebeu o núcleo duro da direcção do PS reagiu rapidamente – convocando eleições internas (em que Sócrates se recandidata), anunciando novas iniciativas viradas para fora do partido, e dando a entender que controlará o timing de uma remodelação governamental. O PS, que foi o grande derrotado das eleições, tinha o contra-ataque preparado.”


 


Agora jé é claríssimo que Sócrates planeou ao minuto o que iria fazer uma vez resolvidos os problemas das presidenciais. Reposicionou-se no PS, calou a oposição interna, conseguiu o apoio de todos os notáveis do seu Partido e depois geriu bem o momento e criou uma situação de ruptura na semana das eleições directas no PS. Foi levado num andor de unanimidade, transportado pelos três talibãs que são o seu núcleo duro: Santos Silva, Silva Pereira e Jorge Lacão; o quarto canto do andor foi seguro pelo pagador de promessas em exercício, Teixeira dos Santos. Os filmes neo-realistas brasileiros dos anos 60 não teriam melhor cena – e já não vou ao ponto de dizer que a presença de Lula & Dilma foi planeada para coroar a manutenção de Sócrates no PS (embora não descure a coincidència das datas). Preservemos a Universidade de Coimbra de tais aleivosias.


 


Como uma imagem vale mais que mil palavras, retive uma extrordinária fotografia, salvo erro do “Público”, em que Sócrates aparece à chegada a Castelo Branco, para votar nas directas do PS. O seu corpo está meio saído do carro, mas já de pé, a sua cara é de determinação e levanta o braço – não exactamente fechando o punho mas dobrando a mão numa moderada evocação do punho fechado. A imagem é feita escassas 48 horas depois da demissão e mostra a evidência: ele estava preparado para ir à luta e geriu o calendário de todos os acontecimentos. Caíu quem quis, neste jogo de xadrez.


 


SPORTING – O que se passou no final do processo eleitoral do Sporting é também um sinal dos tempos. Tensões artificialmente criadas, ligações obscuras, promessas a eito, falta de respeito pelas pessoas e pelos resultados. O comportamento da madrugada eleitoral é um retrato do que deve ser evitado e daquilo que não é preciso em nenhuma área da sociedade, muito menos no desporto e espectáculo. Nestes tempos difíceis, do ponto de vista político e económico, há uma tendência para que o futebol se torne numa válvula de escape de frustrações e que se crie um autêntico barril de pólvora. Os sinais abundam. Esperemos que o pior seja evitado.


 


ARCO DA VELHA – Já conheciam esta descrição de Sócrates publicada no diário espanhol «ABC»? - «El primer ministro portugués se parece a un conductor que avanza a toda velocidad por la autopista en dirección contraria, convencido que son todos los demás automovilistas los que se equivocan».


 


LER –  A «Tinta da China» é actualmente uma das editoras livreiras com uma actividade mais interessante. As suas colecções são bem pensadas, as suas edições são feitas com cuidados na concepção das capas, na escolha do papel e do tipo de letra. E os livros são bem escolhidos – sejam de viagens, de ficção ou de entretenimento. Até dá gosto. A mais recente aventura da «Pó dos Livros» é uma bem humorada e divertida colecção chamada «Livros Licenciosos», coordenada por António Ventura.


Estão já editados três volumes, todos com títulos deliciosos: ««Entre lençóis – Episódios Inocentes Para Educação e Recreio de Pessoas Casadoiras», de Cândido de Figueiredo; «O Pauzinho do Matrimónio» de autor desconhecido, ilustrado por Rafael Bordallo Pinheiro; e «O Vício em Lisboa – Antigo e Moderno», de Fernando Schwalbach. Estas linhas são dedicadas a este último. Schwalbach era um homem ligado ao teatro, autor de alguns monólogos da época, bon-vivant confesso, especialista nas noitadas lisboetas. A certa altura emendou-se e este seu texto faz parte do processo de redenção – é datado de 1912 e ali descreve bordéis, casas de meninas mais sofisticadas, aborda o vício e o jogo e tece numerosas considerações sobre os usos e costumes da época, as mais das vezes com um pendor moralista sobre o seu passado licencioso. A edição é completada pelo «Regulamento Policial das meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa», de 1865 e por um posfácio do autor da colecção sobre a Lisboa subterrânea de então.


 


VER – O novo ciclo de exposições no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84, de terça a sábado, das 14 às 19h30) tem o atractivo de uma exposição de originais de Inez Teixeira intitulada «Time Is On My Side». Retomando algumas pistas deixadas na sua anterior exposição de pequenos desenhos, Inez Teixeira aborda agora o universo do fantástico com um conjunto de obras, cada uma a evocar o universo da fantasia, todas baseadas num desenho minucioso e na criação de imagens que parecem criadas para a ilustração de fábulas passadas em bosques imaginários. É um conjunto de desenhos, de grande formato, que apela à permanente descoberta dos detalhes. Este ciclo de exposições, que estará patente até 4 de Maio, completa-se com duas mostras colectivas da Plataforma Revólver da qual destaco um belíssimo e invulgar trabalho de Ana Rito.


 


OUVIR –  Para assinalar o centenário de Gustav Mahler a editora discográfica Deutsche Grammophon teve a ideia de fazer uma votação online num site que propositadamente criou para o efeito e onde era possível ouvir as 148 gravações das dez sinfonias de Mahler, nas diversas versões gravadas  entre 1952 e 2008. Cerca de 5000 votantes escolheram de entre as diversas interpretações as que consideraram melhores e o resultado está numa caixa de 13 CD’s que recolhe o registo mais votado de cada uma das sinfonias. «Mahler – The People’s Edition» é o nome desta edição especial que proporciona a obra sinfónica completa do compositor austríaco, em gravações dirigidas por nomes como Karajan, Abbado, Mehta, Solti ou Bernstein, entre outros. A edição inclui ainda um pequeno livro com uma biografia de Gustav Mahler, onde são destacados os pontos altos da sua actividade musical. E o preço é uma agradável surpresa para uma edição com esta qualidade e dimensão, já disponível em Portugal.


 


AGENDA – A Galeria Antiks (Rua Mouzinho da Silveira2, esquina com a Barata Salgueiro), celebra o seu 15º aniversário com uma exposição baseada nos seu riquíssimo acervo, certamente um dos mais importantes entre as galerias de arte portuguesas – vale a pena visitar esta exposição que apresenta trabalhos de 15 mulheres que cruzam épocas bem diferentes, de Josefa de Óbidos a Paula Rego, passando por Sarah Affonso, Sonia Delaunay, Lourdes Castro, Ana Fonseca e Etsuko Koyashi, entre outras.


 


PROVAR – É sempre um prazer regressar ao restaurante Gemelli, seja nos seus menus executivos de almoço (agora com a variante de um prato único de tradição italiana a 16 euros, acompanhado de um copo de vinho), passando pelas degustações do jantar e, sobretudo, pelos deliciosos almoços de sexta-feira que por 32 euros oferecem uma entrada, um primeiro prato baseado numa massa fresca, um prato principal e uma sobremesa surpresa, tudo acompanhado por vinhos escolhidos. Desde há uns anos que tenho para mim que este é o melhor restaurante italiano de Lisboa e certamente um dos melhores restaurantes da cidade em termos absolutos. O chefe Augusto Gemelli continua a variar a sua carta conforme as estações do ano e os produtos de cada época e continua também com os seus cursos de cozinha – em Abril há aulas sobre doces, massas recheadas e um menu de Páscoa alternativo. Todas as informações estão disponíveis em www.augustogemelli.com . O Gemelli fica por cima do mercado de S. bento, na Rua Nova da piedade 99, esquina com a Rua de S. Bento. O telefone para reservas é o 213 952 552. Não se assuste: ali bem perto tem o parque de estacionamento do Clube Nacional de Natação.


 


BACK TO BASICS – As finanças públicas devem ser saudáveis. O orçamento deve ser equilibrado. A dívida pública deve ser reduzida. A arrogância da administração deve ser combatida e controlada... A população deve trabalhar em lugar de viver da ajuda pública - Marco Túlio Cícero (106 aC - 43 aC)


 

março 29, 2011

DISPERSAR EM VEZ DE CONCENTRAR

(Publicado no diário Metro de dia 29)


 


Não é preciso ser bruxo para adivinhar que estamos todos metidos numa considerável complicação. O Governo que está em funções vai abaixo e o próximo é uma incógnita. Os dados existentes permitem concluir que o PSD terá dificuldades em ter uma maioria clara sozinho, e existe a possibilidade de Sócrates conseguir um resultado eleitoral acima daquilo que há uns tempos atrás se pensava ser possível.


 


Incúrias várias, de parte a parte, entre partidos e Presidência da República, algum desprezo pela opinião dos portugueses, e a degradação do sistema político criaram uma situação complicada. A coisa acentua-se porque já se percebeu que José Sócrates controla completamente o aparelho do PS e faz o que bem entende – e será ele a liderar as listas socialistas nas próximas eleições.


 


Estão a vê-lo ser número dois de alguém numa eventual coligação? Isto quer dizer que, do resultado das eleições, sairá sempre um PS pouco disposto a fazer acordos, pouco disponível para negociar, mais interessado em alimentar uma guerrilha contra o vencedor do que em encontrar uma solução de consenso.


 


Quem rever o que têm sido os últimos dois anos perceberá rapidamente que o padrão de comportamento do PS é fomentar o desacordo em vez de procurar o consenso. Num quadro destes cada vez acho mais complicado defender um sistema de bipolarização, entre PS e PSD – o que faz sentido é que haja maior atenção aos partidos mais pequenos e que o peso dos votos expressos seja mais diluído que o habitual.


 


Na verdade acredito que só isso possibilitará encontrar soluções equilibradas de alianças parlamentares, sempre mais difíceis quando a diferença entre votos é enorme. Vamos ter pela frente meses difíceis, com um Governo que não inspira confiança, e do qual se pode, legitimamente face à sua actuação ao longo dos últimos anos, pensar que se prepara para aproveitar o tempo que lhe resta para pôr o país ainda mais a saque. Estes meses vão ser um desafio para o funcionamento do regime.

março 28, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 25 de Março)

A FILA – Nos últimos dias assistimos ao surgimento de uma bicha de ex-dirigentes e responsáveis do PS, pedindo aos partidos da oposição que continuassem a perdoar as trapalhadas que José Sócrates tem montado. Até Mário Soares, que na semana passada tinha dito que a forma de apresentação do PEC IV tinha sido um erro grave, avisando que iria descambar numa crise séria, apareceu esta semana a desejar que ninguém ligasse àquilo que, há uma semana atrás, achava criticável. Também Jorge Sampaio, João Soares, Manuel Alegre, António Costa e muitos outros vieram falar no mesmo sentido – o de os outros partidos deverem atender aos apelos do Partido Socialista que, num clima destes, insistiu sempre em dizer que a culpa não era sua, mas sim dos outros. O inefável Jorge Sampaio, algures no Dubai, confessou-se muito preocupado com a estabilidade – sem querer recordar-se que toda esta instabilidade, em boa parte, está directamente ligada à forma como ele próprio, então Presidente da República, geriu as consequências da saída de Durão Barroso para a Presidência Europeia. Noutras ocasiões a estabilidade não lhe interessou – agora, nas Arábias, está arreliadíssimo com o que se passa.


 


Mas o mais curioso nesta bicha de opiniões de notáveis socialistas é que não há quem veja a evidência: para que se concretize o entendimento alargado que todos pedem é fundamental que Sócrates saia de cena. Se ele se recandidatar em legislativas antecipadas será muito difícil conseguir esse acordo alargado que dizem defender: do ponto de vista político Sócrates mentiu demais, ameaçou demais, chantageou demais, foi arrogante demais. Perdeu a credibilidade – não só nos actos (que nos conduziram onde estamos), como nas palavras que revelaram um sistemático desfoque da realidade. De facto não foi a economia que nos tramou, foi a política seguida por Sócrates, de desprezar a realidade, que nos levou onde hoje estamos. Com Sócrates no PS o entendimento alargado torna-se virtualmente impossível. Era com isto que os guardiões da estabilidade se deviam preocupar. E em vez de pedirem aos outros para mudarem, mais valia que Mário Soares, Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Francisco Assis, António Costa e tantos outros pusessem, mãos à obra para mudarem o que tão mal tem funcionado no Partido Socialista. Já que pertencem ao PS tratem do seu partido em vez de se preocuparem tanto com os outros.


 


E, se o PS não conseguir internamente, com todos estes notáveis, resolver o problema que de facto existe – e que algumas corajosas vozes dissonantes sublinham – de facto o resultado pode ser bem complicado. Qualquer que seja o desenrolar desta situação já se percebeu que Sócrates não pode fazer parte da solução, porque ele esteve na raiz do problema. E é sobre isto que eu gostava de ouvir que têm a dizer tantos notáveis.


 


ARCO DA VELHA – Não consigo perceber porque é que tanta gente que apoiou Manuel Alegre apelou nesta semana a Cavaco Silva para intervir em defesa de Sócrates. Como blogou um amigo meu, se os portugueses quisessem que o Presidente da República atendesse aos apelos do PS, teriam votado Manuel Alegre.


 


LER –  Sérgio Henriques Coimbra é um jornalista português de quem muito gosto e com quem tenho tido o prazer de trabalhar. Ainda por cima escreve muito bem – literariamente falando, e só descobri isso agora. Por estes dias, inspirado por uma ideia de John Steinbeck, editou um delicioso livro intitulado «Passeios com Moby». O Moby é o cão do Sérgio, que o acompanha num passeio por Portugal, uma jornada que é apenas um pretexto para um passeio pela própria vida do autor, para uma descrição ácida (mas lúcida) das vicissitudes de Portugal nos últimos anos.


 


Não é um livro de viagens no sentido tradicional do termo, é um livro que relata a viagem do Sérgio por este mundo e pelo nosso tempo – desde as memórias de Moçambique às reflexões sobre os dislates feitos à paisagem portuguesa, passando pelo apelo à contínua descoberta de novos mundos e novos lugares. De facto há muito que não tinha tanto prazer a ler um livro que, inesperadamente, é sobre a vida e o destino – incluindo o rejeitar as conveniências. «Passeios com Moby», 124 páginas, edição Aletheia.


 


VER – Até dia 6 de Maio vale a pena visitar a exposição de novos trabalhos sobre papel de Pedro Calapez, que inaugurou esta semana na Galeria João Esteves de Oliveira, na Rua Ivens 38. Chama-se «Suave Paisagem» e agrupa 34 novas obras, feitas em 2010 e algumas já em 2011. É um conjunto surpreendente, pela intensidade, pela diversidade de técnicas, mas também pelo lado de novidade das obras mais recentes – a série «Paisagens», desenhos feitos a pastel de óleo sobre papel que criam imagens a partir da junção de vários elementos apenas aparentemente dispersos. A série que dá o nome à exposição , «Suaves Paisagens», recorre a acrílico e aguarela sobre papel e é inesperada na forma como mostra um regresso à pintura unidimensional, depois dos trabalhos mais recentes do artista explorando formas, relevos e instalações tridimensionais. Pedro Calapez tem tido nos últimos anos uma actividade internacional assinalável e tem procurado explorar novos caminhos – como esta exposição bem mostra, até na pequena mas muito curiosa série «Estudos para Construção».


 


OUVER –  Não é gralha, quis mesmo escrever ouver porque vou falar de um misto de ouvir com ver – isto tudo a propósito da edição especial de «The Wall- Live In Berlim». Quem se escapou à missa rezada esta semana no Pavilhão Atlântico por Roger Waters, pode aqui ver e ouvir a liturgia original, do verão de 1990, gravada em Berlim. Além do concerto – com nomes que incluem Van Morrison, Sinead O’Connor, Ute Lemper, The Band, Thomas Dolby e vários outros, esta edição inclui ainda um documentário sobre tudo o que rodeou a produção do primeiro mega-concerto da década de 90 e diversos outros extras  como animações usadas em palco assim como os projectos de todo o cenário. Nesta nova edição especial da Universal - «The Wall Live in Berlin– Limited De Luxe Tour Edition» -  estão incluídos o DVD com as imagens já referidas e dois CD’s que reproduzem integralmente o concerto que de facto simbolizou o fim do Muro. É uma belíssima edição, já disponível em Portugal, e que é o testemunho de uma das maiores produções de sempre na história da música popular.


 


PROVAR – O conflito de Lisboa com as esplanadas é coisa que sempre me intrigou. Será do vento? Será do ar pálido cultivado por tantos cidadãos? Eu por mim gosto das esplanadas, e fico sempre contente quando abre mais uma. Esta semana, aproveitando o primeiro dia da primavera, fui até uma das esplanadas do Jardim de S. Pedro de Alcântara e por lá fiz um almoço ligeiro e tardio. Vista magnífica, o Tejo a espreitar ao fundo, ao lado do Castelo de S. Jorge, local abrigado, sem ventania.


 


Esplanada limpa e asseada, serviço simpático, boas surpresas. As tostas mistas felizmente evitam aquele pão de forma inspirado na borracha, que se tornou demasiado frequente, e usam umas cacetinhos saborosos, aquecidos quanto baste, sem ficarem espalmados e desinteressantes. Cada tosta mista é composta por dois desses pequenos cacetinhos. No meu caso escolhi a de presunto, queijo e rúcula - e não me arrependi. O presunto veio cortado fino, fácil de trincar, sem ser aquelas lascas grossas e secas que infelizmente são a matéria prima da maior parte das sanduíches de presunto locais – que as mais das vezes se assemelham a maus couratos. O queijo também vinha no ponto, aquecido, sem vir transformado em pastilha elástica escaldante. Na mesa ao lado estava uma idêntica tosta, mas de salmão fumado com queijo Filadélfia, com muito bom aspecto – fica para a próxima incursão. Dizem-me que ao fim da tarde vale a pena provar o gin tónico do local. Tenho impressão que ali voltarei mais vezes. Ali e ao outro quiosque –esplanada que fica na parte debaixo do jardim de S. Pedro de Alcântara, ainda mais abrigado, e que acolhe desde o ano passado os célebres cachorros-quentes que dantes só existiam no Guincho.


 


BACK TO BASICS – Uma vida dedicada à política é uma nobre carreira, um jogo hábil ou uma grande calamidade (Oscar Wilde)

março 23, 2011

O PARQUE DE DIVERSÕES DE SÓCRATES

(publicado no diário Metro de 22 de Março)


 


Na noite de Domingo coloquei no Facebook e Twitter esta pergunta: «Estou aqui com uma dúvida: se em Portugal não votámos em Angela Merkel porque é que é ela que manda?».


 


A melhor resposta veio de um conhecido publicitário e tinha a forma de outra pergunta: «porque paga?».


 


Este é o busílis da questão: colocámo-nos numa posição em que desbaratámos todas as ajudas que a Europa foi concedendo ao logo dos anos, diminuímos, por imposição europeia a nossa capacidade de produção – nas pescas, na indústria e na agricultura – e tornámo-nos num país que vive apenas de serviços. Portugal transformou-se num imenso centro comercial que compra tudo ao estrangeiro e se endivida para depois pagar o que consome.


 


Dizer que o país tem sido governado como uma mercearia é uma ofensa para o pequeno comércio. Na verdade os nossos governantes geriram Portugal como um parque de diversões, sem pensar em nada mais que o gôzo imediato e a satisfação de todas as vontades.


 


A Alemanha, pelo seu lado, produz cada vez mais, exporta cada vez mais, e vive das vendas no mercado europeu que ajudou a construir na forma que ele tem hoje. Com grande sentido de missão, a Alemanha financiou o desenvolvimento de mercados periféricos na Europa, para onde passou a vender os seus produtos, as suas marcas, a actividade das suas empresas.


 


Como se tem escrito várias vezes ao longo desta crise, a Alemanha conseguiu, pela economia aquilo que foi incapaz de fazer através da guerra: dominou a Europa. Uma das respostas ao meu post era o clássico «É a economia, estúpido». E esta é a verdade. A força da economia alemã fez com que as decisões dos Estados que não se souberam governar fossem tomadas em Berlim. Foi à senhora Merkel que Sócrates apresentou mais um capítulo do seu PEC – não foi ao presidente português. O episódio ilustra o estado da nação.


 


Que José Sócrates venha agora dizer que a instabilidade não é provocada por ele, mas por outros, é apenas mais um número de circo, dentro do parque de diversões que ele desgraçadamente montou em Portugal ao longo dos últimos anos.

março 18, 2011

A Esquina de 18 de Março no Jornal de Negócios

IMPUNIDADE - Uma das razões do êxito das manifestações de Sábado passado tem a ver com a sensação, que se instala, de em Portugal não existir quem exerça de facto um poder de fiscalização sobre a acção dos políticos em geral, e dos governantes em particular. Não existe quem faça o papel de um Provedor do Eleitor com poderes para suspender políticos incumpridores e punir partidos que os acolhem - imaginem que o PS era multado por cada promessa falsa de Sócrates. A impunidade dos políticos e dos partidos em Portugal é total. Ninguém é responsabilizado pelos seus actos.


 


O Parlamento, a quem caberia fiscalizar a acção do Governo, está bloqueado na lógica que se instalou do bipartidarismo. Os 230 deputados existentes de facto não têm voz própria, são apenas abono das respectivas direcções parlamentares. E a reflexão sobre o bloqueio que o bipartidarismo está a causar é urgente. Mais do que reforçar maiorias parlamentares, estou convicto que a solução passa por uma profunda reforma no sistema politico e eleitoral, que o adapte ao tempo presente, quer em matéria de comunicação, quer de campanha eleitoral, quer de votação, quer em matéria da constituição de novos partidos e movimentos. Quanto mais diversificada  e próxima dos cidadãos for a constituição partidária do parlamento, maior é a probabilidade de sair fora da lógica da alternância entre PS e PSD e forçar a existência de coligações e alianças, que provoquem um Parlamento mais dinâmico, interveniente e com poderes mais efectivos, roubando-os às cúpulas dos grandes partidos.


 


Da maneira como estamos os partidos grandes apenas geram deputados dóceis, conformistas e, na esmagadora maioria dos casos, perfeitamente inúteis. Fragmentar em vez de concentrar pode ser a solução nesta fase – e aliás isso corresponde à evolução do que acontece em tantos aspectos da sociedade contemporânea.


 


 


CRISE - Agora estamos oficialmente em crise – uma crise que se prolongou demasiado porque as tácticas parlamentares e a táctica do Presidente da República assim o quiseram. A reacção de José Sócrates foi a de um cavalo selvagem que não quer ser domado: depois do discurso de posse de Cavaco, pôs-se aos coices. A sua declaração da passada segunda-feira foi uma espécie de denúncia de que o rei vai nu – só que se esqueceu que, neste caso, o rei é ele próprio. A entrevista que deu na quarta-feira na SIC Notícias mostra a escalada em que está empenhado e evidenciou que não vai desistir. Entrou em braço de ferro e é um sobrevivente. No seu partido tem as questões arrumadas – António Costa já mostrou que não se quer meter na confusão e prefere continuar por Lisboa e António José Seguro sente que ainda não tem apoios. Sócrates avisou que vai continuar em cena e mesmo com todas as manifestações que se viram, subestimar a sua capacidade é um erro grave – também ele já percebeu que, sendo impossível resolver a crise em pouco tempo, provavelmente o que mais lhe convém é ir a eleições o mais rapidamente possível. No meio disto existe a possibilidade real de, no quadro actual, sair de eleições um panorama que obrigue a coligações. E com Sócrates ainda em palco. A coisa promete.


 


SEMANADA – No passado dia 12 de Março completaram-se seis anos sobre a tomada de posse do primeiro governo liderado por José Sócrates. Nos últimos cinco anos a divida pública portuguesa passou de 80 mil milhões de euros para cerca de 150 mil milhões de euros. Apenas há um mês o Primeiro Ministro dizia que existia uma folga de 800 milhões no orçamento, para agora ter descoberto que afinal faltam 1,4 mil milhões – a justificação utilizada para o novo plano de austeridade. O bem humorado e perspicaz blogue “31 da Armada” fez notar que em Portugal já há mais PEC’s em funcionamento que automóveis eléctricos a circular – quatro PEC’s e dois automóveis. O aniversário do Governo foi evocado com manifestações que tiveram um aspecto curioso – foram transgeracionais e mobilizaram pessoas de todo o espectro político.


 


ARCO DA VELHA – Se existirem eleições antecipadas, Sócrates recandidata-se sem oposição interna visível no PS. Ele próprio o garantiu. Quem diria, há meia dúzia de meses, que isto podia acontecer, que ele não seria corrido pelos seus pares?


 


LER –  Comecei a seguir a carreira de Tina Brown quando percebi o que ela tinha feito na tradicionalíssima revista britânica “Tatler” no início dos anos 80. Como prémio, foi chamada em 1984 a dirigir a “Vanity Fair” e transformou a histórica revista naquilo que ela é hoje. A seguir, em 1992, tornou a “New Yorker” mais contemporânea. E em 1999 criou a revista “Talk”, talvez um projecto à frente do seu tempo. Em Outubro de 2008 iniciou-se no mundo da internet  e criou o site “The Daily Beast”, que cedo deu que falar . No início deste ano aceitou reformular o newsmagazine “Newsweek” .


Depois de duas edições já publicadas sob a direcção de Tina Brown, percebe-se o que mudou: a fotografia voltou a ganhar importância, o grafismo foi completamente remodelado e novos nomes começaram a assinar nas páginas da Newsweek. O resultado é que a revista saiu da letargia dos últimos anos, em que estava enfadonha, desligada da actualidade e  desinteressante. A edição mais recente, desta semana, tem a melhor capa que até agora vi sobre a catástrofe no Japão e mostra o que uma boa edição fotográfica, que use imagens com espaço e respiração, permite fazer a uma revista. Na última página escreve P.J. O’Rourke, um dos meus heróis. Tina Brown mostra mais uma vez como é importante não só ter bons conteúdos, como apresentá-los de forma superior. Quem disse que não valia a pena fazer nada na imprensa?


 


VER – A edição deste ano do prémio BES Photo 2011 evidencia uma significativa mudança de critério do júri de selecção, em relação ao que tem sido a prática – pouco interessante e muito conservadora – dos últimos anos. Até agora o júri tem privilegiado o domínio da estética politicamente correcta, mas finalmente parece ter resolvido deixar preconceitos e amarras de parte. Esta é talvez a melhor selecção dos últimos anos e conta com trabalhos de Kiluanji Kia Henda (Angola), Carlos Lobo (Portugal), Mário Macilau (Moçambique), Manuela Marques (Portugal) e Mauro Restiffe (Brasil). Fiquei surpreendido pela intensidade das imagens de Mário Macilau, pelos enquadramentos de Kiluanji Kia Henda, pelo olhar de Carlos Lobo e pela interpretação de Mauro Restiffe. Todos acrescentam alguma coisa à evidência, mas todos reflectem o tempo em que vivem – o que nem sempre aconteceu nas seis edições anteriores do prémio. Esta exposição vale francamente a pena ver – tem menos exercícios de estilo, menos jogos florais e maior criatividade e formas de ver – que no fundo é a essência da fotografia. Em exposição no Museu Berardo até 13 de Junho.


 


AGENDA – Na galeria Vera Cortês (Av 24 de Julho, 54, 1º), inaugura Sábado “Forking Paths”, fotografias de Gabriela Albergaria; Na galeria Baginski (Rua Capitão Leitão 51-53), dois projectos em confronto – “Máquina de Chilrear” de Cecília Costa e “De tempos a tempos a terra treme”, de Joana Escoval; no Espaço Arte Tranquilidade (Rua Rodrigues Sampaio 95) está a exposição colectiva “O consolo da pintura” com obras de Ana Jotta, Carlos Correia, João Paulo Serafim, Freek Wambaco, João Pedro Vale, Miguel Ângelo Rocha e Rodrigo Oliveira.


 


OUVIR – Loreena McKennitt é uma cantora e harpista canadiana com uma carreira de já duas dezenas de anos. O seu novo disco, “The Wind That Shakes The Barley” é um claro retorno às suas origens folk, que aliás lhe deram fama e notoriedade. O resultado é o seu melhor disco dos últimos anos, integralmente baseado em sonoridades celtas e em versões de temas tradicionais, vários deles da Irlanda e Escócia. O nome do disco aliás é o mesmo de um filme de Ken Loach, sobre a Irlanda, premiado em Cannes em 2006. A voz etérea de Loreena McKennitt ajusta-se na perfeição a estas canções e continua a surpreender como em “As I Roved Out” ou “The Star Of The County Down”.


 


BACK TO BASICS – Em política lembre-se o que convém e esqueça-se o que já não interessa (anónimo)

Em defesa dos cidadãos

(Publicado no diário Metro, 15 MAR 2011)


 


Ao longo de décadas o nosso sistema político desenvolveu-se em benefício dos intervenientes e não dos cidadãos. Nos últimos anos a situação agravou-se: à medida que aumentava o divórcio entre os partidos políticos e os eleitores, os dirigentes partidários ficaram sentados a olhar para os próprios umbigos. Como consequência o sistema começou a funcionar em circuito fechado, de forma cada vez mais evidente. Os resultados de todos os mais recentes actos eleitorais mostram que a abstenção aumenta e que o número efectivo de votantes vai diminuindo.


 


As duas últimas eleições legislativas ficaram marcadas por promessas que foram negadas e contrariadas nos dias e meses seguintes à votação. Tornou-se habitual que os eleitores votem numa promessa que só lá está por táctica eleitoral e que verdadeiramente não é para ser cumprida. O resultado é o descrédito generalizado nos políticos e na classe política. Pelos erros de alguns acabam todos por pagar


 


Alguma classe política vive da impunidade de saber que as promessas não cumpridas, tornou-se inimputável. Gera desconfiança e descrédito. «A política é a única profissão no país que goza da mais completa impunidade» - escreveu, com razão, Vasco Pulido Valente na semana passada.


 


Por mais estranho que isto seja o nosso sistema político funciona sem fiscalização efectiva. A Assembleia da República deixou há muito de ter a função de vigiar o Governo – é apenas uma corrente de transmissão do executivo.


 


O Presidente da República tem teoricamente um papel de arbitragem, mas há muito deixou de exercer o papel de fiscal e zelador. O Presidente da República, sobretudo no seu primeiro mandato, não serve para defender o interesse dos eleitores, preocupado que está com a sua reeleição.


 


Mais valia que houvesse um provedor dos eleitores, alguém com poder para punir políticos incumpridores, alguém que pudesse sancionar partidos que não cumprem programas eleitorais e penalizasse a sua actividade.

março 11, 2011

A Esquina de dia 11 de Março no Jornal de Negócios

ELEIÇÕES – Estou inclinado a achar que, no início do segundo mandato, os Presidentes da República abusam de Viagra ou de alguma outra substância semelhante. No segundo mandato os presidentes, como Cavaco Silva bem mostrou no seu discurso desta semana, dizem o que antes achariam desestabilizador e passam a agir de forma diferente. Como se toda a vida tivesse pensado e dito o mesmo, Cavaco Silva apelou a que a sociedade civil se levantasse contra o estado das coisas em que o país anda  - «é altura de os portugueses despertarem da letargia em que têm vivido», avisando que «há limites aos sacrifícios» e apelando aos jovens para fazerem ouvir a sua voz.


 


É uma mudança extraordinária de quem, para além do razoável, tolerou, em silêncio, o degradar da situação económica, o degradar do funcionamento das instituições, o degradar do funcionamento do sistema político- partidário, algo que culminou com todos as anomalias eleitorais no próprio dia da sua reeleição e com a elevada abstenção que se estabeleceu no país. Agora, depois de um mês a ouvir opiniões do focus group de notáveis que chamou a Belém, vestiu um camuflado e partiu, diferente e aguerrido, com alma guerreira. Mais vale tarde que nunca? – é verdade – mas escusávamos de ter perdido tanto tempo a deixar o Governo em roda livre só para garantir a reeleição.


 


O problema, aliás, não é só de Cavaco Silva – os Presidentes anteriores fizeram sempre isto – um pouco como se durante o primeiro mandato andassem alimentados a Valiums, acalmando-se à força para garantirem a reeleição, para, depois, no segundo mandato, usarem estimulantes como carburante. É uma situação que se está a tornar ridícula e que é sintomática da forma como os Presidentes governam em função dos seus interesses políticos e pouco mais.


 


Quando olho para este fenómeno penso se não seria mais útil limitar o mandato do Presidente da República a um único, mesmo que um ano mais longo. Assim se evitariam estes tristes episódios em que assistimos à negação das evidências durante metade do seu ciclo de vida político em Belém.


 


Já que os Presidentes governam em função da obtenção do seu segundo mandato, melhor seria tornar esse segundo mandato inexistente. Podia ser que assim tomassem decisões, em vez de viverem de equilibrismos.


 


INVESTIMENTOS – Olhar para a evolução dos investimentos publicitários é sempre curioso. Os números agora conhecidos do mês de Janeiro mostram um ténue sinal de retoma, é certo que muito baseado na publicidade das grandes cadeias de distribuição. No sempre difícil mês de Janeiro o investimento cresceu um pouco mais do que 2% , saindo do ciclo de queda dos últimos meses do ano passado. O investimento publicitário nos canais de cabo continua a crescer a bom ritmo – mas o investimento nos canais de sinal aberto caiu – o mesmo sucedendo, embora de forma mais acentuada, na imprensa diária e semanal. O maior crescimento, claro, continua a ser o investimento publicitário nos meios online, que aumentou cerca de 70% em relação ao mês de Janeiro do ano passado, ultrapassando já, em valores reais, o investimento na rádio e na imprensa diária.


 


SEMANADA – Angolanos compraram mais 5% do BCP; Durão Barroso afirma que Portugal não deve pedir ajuda externa; Portugal subiu ao 5ºlugar da lista dos países que correm maior risco de bancarrota; os juros da dívida pública portuguesa atingiram valores recorde; os Homens na Luta ganharam o Festival RTP da canção; o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, horas antes do discurso de Cavaco Silva, considerou que o Governo «tem todas as condições políticas para alcançar os objectivos a que se propôs e superar a crise que o país enfrenta».


 


FRASE DA SEMANA - «Tudo depende de o PSD continuar escondido atrás da sua táctica de caça aos patos ou mostrar que não tem medo de ir a jogo» - António Nogueira Leite, no Facebook


 


ARCO DA VELHA – Dois terços dos carros da Polícia Judiciária estão inoperacionais ou com problemas de manutenção e, segundo relata a imprensa, a principal polícia de investigação portuguesa está em falência técnica. Nada de novo no universo da Justiça.


 


VER – A galeria Appleton Square é um agradável espaço na antiga zona industrial de Alvalade, por detrás da Avenida da Igreja, que se tem dedicado a arte contemporânea. Agora expõe seis novas obras de Jorge Humberto (JOH), um pintor que se tem destacado pela forma como experimenta técnicas que criam texturas complexas. O título genérico da exposição é «Tradutor», um nome bem escolhido para sublinhar a forma como JOH nos faz ver outras realidades além das evidências. O artista gosta de explorar os sentidos, provocando a imaginação. Usa a cor de uma forma particular, moldando-lhe tonalidades com texturas, às vezes quase como se quisesse criar uma terceira dimensão na sua pintura. Até 26 deMarço, Rua Acácio Paiva 27, aberto das 15 às 20, de terça a sábado.


 


AGENDA – No Teatro Municipal de Almada uma exposição-leilão, que agrupa obras de vários artistas (de Pedro Calapez a Cristina Ataíde, passando por André Gomes, Rui Chafes, Pedro Proença, Jorge Martins, Graça Sarsfield ou Egas Vieira, entre outros) – até dia 17 de Abril.


 


FOTOGRAFIA – Até 15 de Junho, no Museu Colecção Berardo, no CCB, as sempre polémicas escolhas do prémio BES Photo, este ano com trabalhos de Carlos Lobo, Kiluanji Kia Henda, Manuela Marques, Mário Macilau e Mauro Restiffe; no Centro de Artes Visuais, em Coimbra, duas exposições: «2011», de André Cepeda; e «arquivo#0» de José Maçãs de Carvalho.


 


LER –  O novo livro de José Eduardo Agualusa é um divertido exercício de usurpação de estilo. O escritor vestiu a pele de 25 autores já desaparecidos e escreve, sobre temas, factos, pessoas, músicas e tendências actuais como os próprios o fariam, replicando o estilo e, aqui e ali,  os tiques de discurso literário. É um belo exercício de imaginação e bom humor, que resulta em 25 histórias curtas que traçam um bom retrato dos tempos actuais, recorrendo à inspiração de nomes como Eça de Queiroz, Nabokov, Senghor, Bertrand Russell, Bruce Chatwin, Sophia de Mello Breyner, Camilo Castelo Branco ou Nelson Rodrigues, entre outros. Delicioso. José Eduardo Agualusa, «O Lugar do Morto», Edição Tinta da China 157 péginas.


 


OUVIR – Alguns discos são tão belos e perfeitos que se torna muito difícil escrever sobre eles. Logo à primeira audição mostram-se irresistíveis. É o que acontece com o novo trabalho dos norte-americanos The Decemberists, «The King Is Dead», o seu sexto álbum. Normalmente associados a influências do folk britânico, este novo disco é no entanto aquele que mais marcadamente revive a tradição musical norte-americana, com momentos onde se notam influências de nomes como Neil Young, dos REM (Peter Buck colabora aliás no disco). Outra das colaborações vem de Gillian Welch, essa extraordinária intérprete americana que foi às raízes musicais dos Estados Unidos buscar inspiração e que aqui se destaca. Elegante, criativo, inspirado, este disco viveria mesmo que não tivesse estas duas colaborações excepcionais. The Decemberists, The King is Dead, CD Rough Trade


 


PROVAR – Nos anos 60 o restaurante Arraial era um dos locais incontornáveis na zona da Avenida de Roma. Decoração típica portuguesa à moda da época, cozinha tradicional. Com o andar dos anos foi decaindo, e no ano passado sofre uma remodelação total. A decoração ficou mais leve, o espaço mais luminoso, com zona para fumadores. Confortável, boa garrafeira, serviço atento, o Arraial voltou aos seus melhores tempos, mantendo a fidelidade à cozinha portuguesa. Por estes dias provei um bacalhau à Brás e um Choco Frito à moda de Setúbal, ambos a corresponderem às expectativas. Preços razoáveis, boa qualidade, bom serviço. Restaurante Arraial, Travessa Conde de Sabugosa 13 A e 13 C, Telefone 218 400 089.


 


BACK TO BASICS – A palavra foi dada ao homem para esconder o seu pensamento - Stendhal