1 – Não sei bem se hei-de dizer que os Congressos partidários hoje em dia se aproximam mais de um comício, se de uma missa. Se calhar são uma mistura das duas coisas – oportunidade mediática com horas de directos de televisão, em conjunto com a catarse de uma reunião de fiéis, deliciados com a homilia do pregador de serviço. Seja como for Sócrates mostrou que é um belo pregador e disposto a partir em cruzada contra os infiéis. Conseguiu impor-se como factor de unidade – o que não é obra pouca. Parte para a contenda com um partido unido – e tenho impressão que não se pode dizer exactamente o mesmo sobre o PSD.
2 - Eu acho que é normal que o pensamento de cada um vá mudando e evoluindo. E também acho que apoiar-se um partido deve ser cada vez menos uma questão de fé, e sim de razão – baseado num programa, em medidas concretas, num objectivo. Mais do que nunca, o voto é táctico. Confesso que não sou grande simpatizante de Fernando Nobre e escrevi aqui, na altura das presidenciais, que desconfio sempre de quem a certa altura usa o protagonismo alcançado em ONG’s para se dedicar à política sem grande programa próprio. Não vou sequer falar de incoerências – mas por mais voltas que dê à cabeça, não consigo perceber o estranho caso de Fernando Nobre - nem do lado dele, nem do lado do PSD. Não me parece que seja grande ideia candidatar a Presidente da Assembleia da República alguém que nunca foi deputado – o cargo, tem sido tradicionalmente reservado a quem tem uma longa e activa vida parlamentar e política, que culmina naturalmente naquele lugar. Assim, parece uma convenção de ilusionistas: Sócrates tirou Ferro Rodrigues da cartola e Passos Coelho sacou Fernando Nobre. Lá está: uma escolha entre pessoas, à frente de uma escolha de ideias, propostas e programas.
3 – Em todo o caso no dia 5 de Junho, para mim, o voto será feito tendo em conta a melhor forma de garantir que será necessária uma coligação, que a decisão de tudo não ficará na mão de um só partido. Acho que só assim existirá alguma salvaguarda futura.
(Publicado no diário Metro de 12 de Abril)