O título desta nota é extraído de uma canção brilhante dos Timbuk 3, já com uns anos,mas que reflecte bem a situação em que nos encontramos.
Uma das coisas que me deixa surpreendido é que o PSD esteja sistematicamente a confundir dois planos: o estratégico e o táctico.
Como bem disse aqui o meu blogmate LPM, o pano de fundo da actual campanha está condicionado pelas regras que forem ditadas por quem nos vai prestar ajuda financeira.
Por isso se percebe mal que o PS tenha apresentado um programa que ignora esta circunstância, dias antes de as conclusões da troika serem conhecidas, e que o PSD se desdobre em iniciativas que estão fora do estreito corredor onde a acção política efectiva se poderá processar, como parecem muitas das ideias surgidas da iniciativa «Mais Sociedade».
Eu, se fosse aos promotores da iniciativa «Mais Sociedade», tinha pura e simplesmente arrumado as coisas até depois das eleições - porque a missão de pensamento estratégico deste think-tank ficou irremediavelmente comprometida pela convocação súbita de eleições e pelas circunstâncias em que elas vão decorrer - com o pano de fundo do acordo que a troika financiadora pretende obter dos principais partidos.
Ainda por cima, mesmo que não existisse troika, dificilmente as reflexões estratégicas a médio longo prazo que a «Mais Sociedade» pretende produzir seriam úteis e eficazes do ponto de vista táctico face à conjuntura existente.
Quarta-feira, no «Negócios da Semana» (SIC Notícias), José Gomes Ferreira teve a presença de António Carrapatoso e João Duque e tivemos ali um bom exemplo de como estes dois promotores da iniciativa (mais João Duque que Carrapatoso) não compreendem que estão a falar num tempo diferente daquele em que estão a reflectir - o que provoca que as suas reflexões, nesta altura, e não sendo para acção imediata, como ambos acabaram por dizer, sejam absolutamente contraproducentes do ponto de vista objectivo quanto à clareza da mensagem de uma oposição ao PS.
João Duque, por exemplo, quando abordou a questão das formas de o Estado intervir no desemprego, passou sempre ao lado do facto de actualmente estarmos perante um crescente desemprego qualificado, que cada vez atinge mais pessoas acima dos 45 anos, com experiência e formação, e que não encontram apoio na reconversão profissional por parte dos organismos do Estado (preparados basicamente para o desemprego desqualificado), organismos que não estão minimamente preparados para lidar com estas novas situações - e que são as que vão crescer a curto-médio prazo. Como passou por cima desta realidade preconizou medidas gerais que só podem causar perplexidade aos novos desempregados - antagonizando-os.
Na sequência desta conversa de ontem na SIC Notícias fui ver o site do «Mais Sociedade» e a primeira impressão, dos documentos e de alguns papers que lá se encontram, é que basicamente apanham generalidades e pecam por falta de atenção ao detalhe - o que é natural porque a convocação de eleições veio encurtar o tempo previsto para a reflexão. Por exemplo na área da cultura o vazio de ideias é confrangedor face à realidade e existe até, paradoxalmente, um espírito predominantemente estatista e burocrático, em aparente contradição com outras áreas da iniciativa. Assim, no meio desta confusão, faria talvez mais sentido parar o processo e retomá-lo mais à frente, fora da pressão eleitoral.
É que, a continuar, a confusão das mensagens apenas penaliza aqueles a quem era suposto fornecer inputs. E, salvo erro, o objectivo da acção política é ganhar o poder para depois tomar medidas. Claro que convém saber o que se vai fazer em termos imediatos - mas isso, infelizmente está condicionado. E não estamos portanto a falar de estratégia a longo prazo, devemos falar de táctica para ganhar o poder e executar da melhor forma um programa que em grande parte é ditado pelas circunstãncias sem grande margem para fugas. O futuro imediato não será brilhante. É escusado pintá-lo ainda mais de negro.