março 23, 2011

O PARQUE DE DIVERSÕES DE SÓCRATES

(publicado no diário Metro de 22 de Março)


 


Na noite de Domingo coloquei no Facebook e Twitter esta pergunta: «Estou aqui com uma dúvida: se em Portugal não votámos em Angela Merkel porque é que é ela que manda?».


 


A melhor resposta veio de um conhecido publicitário e tinha a forma de outra pergunta: «porque paga?».


 


Este é o busílis da questão: colocámo-nos numa posição em que desbaratámos todas as ajudas que a Europa foi concedendo ao logo dos anos, diminuímos, por imposição europeia a nossa capacidade de produção – nas pescas, na indústria e na agricultura – e tornámo-nos num país que vive apenas de serviços. Portugal transformou-se num imenso centro comercial que compra tudo ao estrangeiro e se endivida para depois pagar o que consome.


 


Dizer que o país tem sido governado como uma mercearia é uma ofensa para o pequeno comércio. Na verdade os nossos governantes geriram Portugal como um parque de diversões, sem pensar em nada mais que o gôzo imediato e a satisfação de todas as vontades.


 


A Alemanha, pelo seu lado, produz cada vez mais, exporta cada vez mais, e vive das vendas no mercado europeu que ajudou a construir na forma que ele tem hoje. Com grande sentido de missão, a Alemanha financiou o desenvolvimento de mercados periféricos na Europa, para onde passou a vender os seus produtos, as suas marcas, a actividade das suas empresas.


 


Como se tem escrito várias vezes ao longo desta crise, a Alemanha conseguiu, pela economia aquilo que foi incapaz de fazer através da guerra: dominou a Europa. Uma das respostas ao meu post era o clássico «É a economia, estúpido». E esta é a verdade. A força da economia alemã fez com que as decisões dos Estados que não se souberam governar fossem tomadas em Berlim. Foi à senhora Merkel que Sócrates apresentou mais um capítulo do seu PEC – não foi ao presidente português. O episódio ilustra o estado da nação.


 


Que José Sócrates venha agora dizer que a instabilidade não é provocada por ele, mas por outros, é apenas mais um número de circo, dentro do parque de diversões que ele desgraçadamente montou em Portugal ao longo dos últimos anos.