novembro 19, 2010

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A CASA DOS SEGREDOS


 


Se eu fosse estrangeiro e estivesse em Portugal na semana passada ficaria um pouco intrigado. Deputados europeus do PS pedem a cabeça de ministros, Ministros pedem a cabeça do Governo, eternos candidatos a líder apontam novos possíveis candidatos. É como se o programa «Casa dos Segredos» fosse agora ocupado por políticos que passam a vida a fazer revelações inesperadas. O Governo, o Primeiro-Ministro e o seu círculo de fiéis tornaram-se subitamente personagens de reality show.


 


Não deixa de ser curioso que as maiores investidas contra o Governo, nesta última semana, tenham vindo de dentro do PS. Críticas a ministros, pedidos de remodelação, insinuações sobre o efeito positivo que seria o afastamento de José Sócrates, de tudo vimos um pouco. É um sinal dos tempos, da constatação do falhanço, da descrença na resolução dos problemas e, sobretudo, um claro aviso que a contagem decrescente para a noite das facas longas no Largo do Rato já começou. A lavagem da roupa suja socialista na praça pública vai chegar mais longe e vai agudizar-se à medida que as lutas pelo poder interno crescerem – é inevitável, faz parte da história das conspirações.


 


É engraçado ver como, embora muitos critiquem, poucos são os que se chegam à frente, dispostos a assumirem responsabilidades, temerosos do caos em que o Governo deixou o país cair. É curioso ver como a conjuntura torna António Costa desinteressado do poder e o leva a vaticinar apoio a Francisco Assis, baralhando assim as contas a António José Seguro. Os políticos calculistas sabem bem os riscos de pegar agora neste caldeirão, e deixarão sempre que outros avancem para queimarem as mãos a tirarem o país do braseiro. Os próximos meses vão ser de confusão e seguramente que, como escreveu Fernando Sobral, o grande problema que nesta altura deve ocupar o pensamento de muitos dirigentes do PS é que solução hão-de arranjar para José Sócrates aceitar sair de cena em recato. 


 


DICIONÁRIO DE SINÓNIMOS


Descrença : Teixeira dos Santos


 


 


ARCO DA VELHA


 Era uma vez um funcionário do PS, de 26 anos, que rescindiu, por mútuo acordo, o contrato com o seu patronato, neste caso um partido político. Passou a receber o subsídio de desemprego e depois recebeu 41.000 euros de subsídios do Instituto de Emprego e Formação Profissional, para a criação de uma empresa e do seu posto de trabalho. Já depois disto foi contratado como assessor na Câmara Municipal de Lisboa por uma vereadora do PS, tendo passado a receber 3950 euros mensais. Falta dizer que pelo meio foi candidato, derrotado, a uma junta de freguesia de Lisboa, à qual estava ligada a vereadora que o contratou, pela lista patrocinada pelo seu anterior empregador. Confuso? Não, apenas um exemplo de alguém com bons relacionamentos.


 


FOLHEAR


A mais recente edição da revista «Monocle» é dedicada às empresas de origem familiar, como são geridas, o que funciona bem, quais os problemas que surgem. É um tema muito curioso e actual e a abordagem da revista é interessante. Por exemplo é engraçado ler a história do império editorial e mediático da família Bonnier na Suécia, tanto mais que Snu Abecassis tinha ligações a essa família. O tema das empresas familiares tem vindo a ganhar actualidade e a revista mostra como a presença de um dono, e não apenas de accionistas, às vezes pode fazer a diferença. Algumas empresas portuguesas bem podiam ler esta edição com atenção.


 


LER 


 Stephen Hawking tornou-se conhecido pela forma genial como consegue abordar as mais complexas questões da física, facilitando a sua compreensão. Agora, com Leonard Mlodinow,  publicou «The Grand Design – New Answers To The Ultimate Questions Of Life». Apetece dizer que este livro foi escrito para dar resposta às perguntas que surgem sempre quando se começa a falar das origens da vida e do universo. É um livro aliciante, das obras de ciência mas fascinantes que li. Não apetece largar – é como um bom romance. Em 200 páginas «The Grand Design» traça um panorama bastante completo do Universo e do que é o nosso lugar nesta imensidão. De forma precisa, mas acessível, Stephen Hawking e Leonard Mlodinow levam-nos a encontrar respostas para as nossas dúvidas, fazendo de cada capítulo do livro uma narrativa diferente que, no final se complementam. (Bantam Press, na Amazon)


 


VER


Já se conhecia o interesse de António Barreto pela fotografia – nomeadamente como coleccionador. Também já se sabia que ele próprio há muitos anos registava imagens do seu dia-a-dia, e quem as conhecia dizia que tinha um olhar surpreendente. Agora, finalmente dispôs-se a expô-las publicamente, de maneira dupla. Editou, na Relógio de água, um álbum que recolhe 227 fotografias suas, igualmente expostas na Galeria Corrente d’Arte, avenida D. Carlos I, nº 109, em Lisboa. São fotografias feitas em vários países e vários locais de Portugal, entre 1967 e 2010, todas a preto e branco, todas com enquadramentos rigorosos, muitas a apontarem os instantes decisivos de que Cartier-Bresson falava com frequência. António Barreto, já agora, é fundador e Presidente da Associação Portuguesa de Photographia. Excertos do  texto «Ler Fotografia»,  de Angela Camila-Castelo Branco, publicado no livro, e diversas fotografias feitas por António Barreto podem ser vistas em www.apphotographia.blogspot.com .


 


OUVIR


 Em 1962 o trio de Vince Guaraldi gravava um dos primeiros discos que fazia a fusão entre o jazz e o samba. O álbum chamava-se «Jazz Impressions Of Black Orpheus» e incluía um tema que rapidamente ganhou vida própria - «Cast Your Fate To The Wind», um caso raro de uma faixa instrumental, de jazz, editada em single, e que altura foi um grande êxito popular. Mais tarde foi usada como banda sonora da série de animação baseada na banda desenhada Charlie Brown. A Universal Music fez agora, na etiqueta Concord, uma edição remasterizada digitalmente do álbum original,  que inclui 5 faixas extras inéditas, provenientes da sessão de gravação original. Os temas brasileiros  escolhidos por Vince Guaraldi eram clássicos do samba que faziam parte da banda sonora do filme «Orfeu Negro», de 1959, baseado numa peça teatral de Vinicius de Moraes, banda sonora composta por António Carlos Jobim, aqui representada pelos temas «Samba de Orfeu», «Manhã de Carnaval» e «O Nosso Amor». As interpretações do trio de Vince Guaraldi são arrebatadoras e este é um daqueles discos que, mesmo ouvido a quase 50 anos de distância, continua a ser incontornável.


 


PROVAR  


No local onde anteriormente existia o restaurante Bachus, na esquina da Rua da Misericórdia com o Largo da Trindade, está agora o Bistro 100 Maneiras, uma nova área de actuação do chefe Ljubomir Stanisic, um bósnio que há uns anos está em Portugal e que é responsável pelo já clássico 100 Maneiras. Aqui as propostas são diferentes, há uma lista apelativa que inclui maravilhas de entradas como cascas de batata com ervas aromáticas e uma curiosa secção «para Corajosos» onde está um invulgar «Maranhos como tu gostas», na verdade um delicioso arroz de maranhos enrolado como uma torta e fatiado grosso, e ainda um curioso pica pau que na realidade é uma taça de túbaros, bem bons por sinal. Para coisas mais substanciais recomendo as  Bochechas e porco preto, puré de aipo, espargos e cogumelos shitakke. Nos doces o crumble de figo com gelado liquida os mais estóicos. O serviço é atencioso e vistoso, o apoio do escanção à escolha dos vinhos é muito bom (aquele rapaz ainda vai dar que falar), pena é que garças ao efeito pladur a sala fique um bocado barulhenta. Preço médio de 40 euros por pessoa sem devaneios demasiados.


 


BACK TO BASICS –  Só os superficiais são conhecidos e só os medíocres são populares - Oscar Wilde 

novembro 16, 2010

ASSAPANDO

Este espaço não é de publicidade, mas não resisto a contar como sou fã do SAPO. É uma coisa antiga, confesso. Eu acho que devemos ter orgulho nas nossas empresas que funcionam bem. E o SAPO é uma das grandes marcas portuguesas, tecnologicamente evoluída, tecnicamente muito boa e com uma dinâmica especial – como se pôde ver no final da semana passada em mais uma edição do Codebits, um evento que juntou sete centenas de pessoas, a maior parte delas bem jovens, durante três dias, para entrarem em concursos de ideias, apresentação de projectos e desafios tecnológicos diversos.


 


Um dos participantes, já presença frequente no Codebits (que se realiza anualmente), dizia-me que o esforço de pôr de pé aquela iniciativa deve ser grande (em termos de custos e em termos de pessoas envolvidas), mas o resultado é compensador. Toda a gente que lá vai aprende qualquer coisa, conhece outras pessoas. No Codebits o SAPO rastreia talentos, observa tendências, eventualmente estuda comportamentos. Ouve feed-backs dos utilizadores mais exigentes – os geeks fanáticos por jogos, programação e pelo mundo digital.


 


Vou aqui recordar um pouco de história: o SAPO teve origem na Universidade de Aveiro, em Setembro de 1995, e o seu nome surgiu a partir da sigla SAP – serviço de Apontadores Portugueses. Em Abril de 1999 o SAPO , já nas mãos da empresa Saber & Lazer, foi renovado e tornou-se no primeiro portal de língua portuguesa. Pouco tempo depois, em Setembro do mesmo ano, a PT Multimedia adquiriu a maioria do capital e o SAPO começou o seu percurso a uma outra escala. Sobreviveu à crise de 2001 e tornou-se na marca de internet da PT.


 


O encontro Codebits, que foi a razão desta pequena história, realiza-se desde 2007 e tem sempre vindo a ter importância crescente. E este ano, no arranque do Codebits, o SAPO estreou-se noutra área e apresentou o seu primeiro telemóvel, com um sistema operativo Android. Numa altura em que tudo são más notícias resolvi dedicar esta minha coluna ao SAPO porque ele é um bom exemplo das nossas capacidades.  E da importância de não ficarmos de braços cruzados á espera que alguém resolva a crise por nós.


 


 

novembro 12, 2010

A Esquina do Rio de 12 de Novembro

ALERTA 


A mais forte tomada de posição sobre a situação a que chegou o país veio, inesperadamente, da assembleia plenária dos bispos portugueses. No discurso de abertura do encontro sublinharam: «não podemos deixar de evidenciar a nossa perplexidade pela falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública e pela ausência de vontade de solucionar os desafios actuais» . Ao mesmo tempo denunciaram «a inverdade frequentemente resultante de querelas pessoais e de jogos político-partidários pouco transparentes que aprisionam os líderes aos interesses instalados nas estruturas público-privadas». E mais à frente: «A verdade é um imperativo colocado a todos, é um acto de honestidade, sobretudo ao nível dos centros de decisão dos diversos cargos».


 


Ora nestas palavras simples e fortes reside o busílis da nossa vida recente. Discute-se muito o Orçamento e a aprovação do Orçamento – mas o que verdadeiramente é mais importante é a sua execução, é a forma como se controla e reduz a despesa. E a experiência destes últimos anos é feita de mentiras dos centros de decisão, de negação da realidade, de adiamento de decisões.


 


A resolução dos problemas portugueses, parece-me, não está na inexistência de um plano, mas na falta de vontade e coragem em executar medidas que todos já sabemos quais são. Se o Orçamento de 2011 não for executado, como não foi o de 2010 e os PECs que já foram devorados, então tudo ficará muito fora de controlo.


 


Por isso, olhando para o que se passa à nossa volta, encaro com desconfiança que a mesma equipa que não conseguiu garantir a execução de medidas anteriores, seja agora capaz de o fazer. Duvido que quem negou as evidências decida agora falar com verdade. Mais cedo ou mais tarde vamos ser confrontados com isto: aceitamos continuar a ser atirados para o abismo pelos mesmos? Ou, como dizem os Bispos, «o sentido de responsabilidade pública e de participação na vida democrática exigirá líderes com propostas novas e sérias que visem promover a equidade e a coesão da sociedade portuguesa»?


 


ARCO DA VELHA


Paulo Campos, Secretário de Estado das Obras Públicas, nomeou para a Administração dos CTT dois ex-sócios seus numa empresa apropriadamente chamada «Puro Prazer», entretanto dissolvida.


 


FOLHEAR 


O mais interessante livro publicado nos últimos tempos chama-se «Como o Estado Gere O Nosso Dinheiro», do juiz jubilado Carlos Moreno, onde o autor defende a responsabilização de quem gasta e utiliza abusivamente dinheiros públicos.


 


IR


Vale cada vez mais a pena ir a Madrid. A cidade está magnífica e apesar da crise (quase cinco milhões de desempregados – praticamente a população activa de Portugal…) tudo funciona. Os taxistas são bem dispostos e educados, nos bares de tapas há animação ao fim de tarde, os preços são simpáticos e a animação é garantida. A uma hora de avião a coisa é tentadora, mesmo com os crónicos atrasos da Easy Jet. Mas voltemos a Madrid: toda a zona central , da Atocha à Gran Via está soberba, completamente recuperada, com a estação pronta para a Alta Velocidade, as ruas cheias de gente mesmo ao fim de semana, um contraste enorme com Lisboa. O renovado Mercado de S. Miguel, muito perto da Plaza Mayor,  é um exemplo do que se pode fazer, bem feito, na recuperação de um espaço tradicional de um velho mercado, para um sítio animadíssimo de tapas, copos e compras onde há de tudo para todos os gostos em matéria de comida e bebida. Já agora – quando estive, há duas semanas, em Madrid, decorria uma Mostra Portuguesa (de programação discutível) e escassa divulgação, e em duas galerias privadas existiam exposições de artistas portugueses – uma de Helena Almeida e outra de Pedro Calapez, ambas com boas referências de imprensa.


 


OBSERVAR


Há menos de 20 anos toda a zona central de Madrid pouco mais tinha que os grandes armazéns, alguns restaurantes e os monumentos. Há 20 anos não existiam ainda nem o Museu Rainha Sofia nem o Museu Thyssen-Bornemiza (foram ambos inaugurados em 1992). Mas hoje o triângulo dos Museus agrupa o Prado, renovado (uma bela exposição de Renoir), o Thyssen (onde estão fotografias de Mario Testino) e o Reina Sofia, entretanto ampliado em 2006 por Jean Nouvel numa bela e eficaz intervenção arquitectónica (e onde está uma fantástica e supreendente exposição de Hans Peter Feldman) – isto claro, falando apenas de exposições temporárias, para além das respectivas colecções permanentes. Mas a dois passos deste triângulo está a Fundação La Caja e a Fundação MAPFRE – esta com uma bela mostra de arte americana do século XX, da Colecção Philips. Tudo está cheio de gente - espanhóis, estrangeiros também, numa festa permanente que nem os chuviscos de Outono arrefecem. É nestas alturas que me ponho a pensar em Lisboa e vejo como fomos falhando oportunidades, fazendo coisas sem plano, desbaratando recursos (como o Pavilhão de Portugal), espalhando as coisas em vez de as concentrar. Há 20 anos Madrid não tinha nada disto e hoje tem uma zona central recuperada, contenção de novas construções, equilíbrio estético, investimento na cultura como dinamizadora do turismo, obras emblemáticas de grandes arquitectos.


 


VER


A exposição de Hans Peter Feldman no Museu Rainha Sofia, de Madrid, tem um título singelo : «Uma exposição de arte». Lá dentro estão fotografias, instalações de objectos, colecções pessoais, fotocópias, capas de jornais. Mas, em todas elas, há uma ideia, uma ideia criativa. Uma das salas mais impressionantes é a «9/12», onde  estão expostas mais de centena e meia de capas de jornais de todo o mundo, todas do dia 12 de Setembro de 2001 – o atentado às Torres Gémeas visto do mundo inteiro (e lá estão jornais portugueses como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias o Público, e a extinta capital, entre outros). A sala é devastadora, a ideia é violenta, o resultado é um abanão nas nossas memórias. Nascido perto de Dusseldorf em 1941, Feldman baseia a sua actividade num espírito coleccionista que é patente nas suas séries de imagens fotográficas, mas também na fascinante instalação «Shadow Play», baseada em peças em movimento num ambiente de sombras chinesas. Só para ver esta exposição vale a pena ir a Madrid.


 


OUVIR


O contrabaixista Charlie Haden juntou de novo o seu Quartet West  (com Ernie Watts no sax tenor, Alan Broadbent no piano e Rodney Green na bteria), juntou-lhe seis vozes femininas contemporâneas (bem escolhidas) e fez uma colecção de 12 standards em torno de um tema clássico de Duke Ellington, «Sophisticated Ladies».  De certa forma este disco é um regresso à ideia de um anterior álbum de Haden e seu quarteto, «The Art Of The Song»,  igualmente dedicado a grandes canções e também com uma voz feminina, Shirley Horn. Desta vez as senhoras que dão a voz neste disco são Cassandra Wilson, Diana Krall, Melody Gardot, Norah Jones, Renée Fleming e Ruth Cameron. A qualidade da interpretação musical e dos arranjos é exemplar e gostaria de destacar o trabalho de Melody Gardot em «If I’m Lucky», a contenção de Norah Jones em «Ill Wind» e sobretudo a forma como Cassandra Wilson pegou numa letra inédita de Johnny Mercer para «Always Say Goodbye» e criou uma preciosidade. CD Emarcy, disponível em Portugal.


 


PROVAR


Se gosta de cozinha indiana e oriental e não sabe onde pode adquirir os adequados temperos, tenho uma boa notícia para si – já não precisa de ir ao Martim Moniz,  na Avenida Visconde de Valmor, no quarteirão entre a Avenida da República e a 5 de Outubro, abriu uma loja especializada, Ayur. Lá encontra especiarias diversas (e raridades como sementes de funcho, folhas de caril ou pasta de Tamarindo), especiarias goesas pré-preparadas, congelados, aperitivos, chá, doces e mesmo, a partir do próximo mês, comida feita para levar para casa. O casal que gere a loja é muito simpático e ajuda a escolher os produtos dando boas sugestões. Mais informações em www.ayur.com.pt .


 


BACK TO BASICS


O meu grande problema é fazer conciliar os meus hábitos em matéria de gastos com a realidade dos meus rendimentos – Errol Flynn 


 

MENOS ESTADO, MENOS GASTOS

(Publicado no Metro de 9 de Novembro)


 


Durante quase uma semana estive fora do país. Lá fui seguindo o que se passava graças às edições on line dos nossos jornais . Estive numa reunião, sobre o mercado publicitário, onde estavam duas dezenas de países representados – alguns deles da Europa de Leste. Nós e os gregos fomos os mais apreensivos. Os Irlandeses começam a levantar a cabeça e na generalidade dos outros territórios existe a sensação de que o pior já passou.


 


Eu gostava de sentir o mesmo , mas não consigo. Vejo toda a gente hesitante em relação às decisões a tomar. Vejo os orçamentos a decrescerem, vejo alterações muito rápidas no consumo de conteúdos e de informação. O mercado retrai-se.


 


O Orçamento que foi aprovado é apenas um mapa e uma declaração de intenções – muito mais importante é ver como ele poderá ser executado. Basta aliás ver o que aconteceu ao longo deste ano – o Orçamento era muito bonito em teoria mas a sua execução foi tão catastrófica que acelerou a queda do nosso país e a paralisia da economia.


 


O ponto que verdadeiramente interessa é ver como as linhas gerais agora são executadas. Ver se o Governo consegue fazer descer a despesa, ver se é sincero nos esforços de contenção anunciados, ver se é realista nas opções sobre os grandes investimentos.


 


Nesta reunião onde estive, a propósito dos incentivos dados por vários Estados aos grandes bancos e ao fomento de grandes obras públicas, ouvi uma curiosa opinião que me pôs a pensar:  ter-se-ia gasto menos dinheiro e conseguido maiores resultados na economia, se, em vez de subsídios a fundo perdido, fosse revista a política fiscal, por forma a permitir o nascimento e desenvolvimento de pequenas e médias empresas, que fossem mais competitivas graças à fiscalidade, reduzida, e que criariam maior emprego, proporcionariam maior consumo e dinamizariam mais a economia. No fundo trata-se de diminuir a despesa pública, permitindo assim diminuir a receita fiscal e em simultâneo proporcionar maior desenvolvimento fora da esfera do Estado.


 

A Esquina do Rio, de 5 de Novembro

HERANÇA 


Escrevo terça-feira à noite, depois de assistir a resumos do dia parlamentar. Se não tivesse visto, não acreditaria. Ninguém, em seu perfeito juízo, que olhasse para o que se passou no Parlamento, poderia achar que existia, firmado a menos de 72 horas, um acordo sobre o Orçamento de Estado. Se Louçã fez o que lhe competia, procurando tirar vantagens do facto de o Orçamento passar graças à abstenção do PSD, já se compreende menos que o próprio Sócrates se tenha dado ao desplante de atacar o seu parceiro de negociação, precisamente por ter negociado e por ter procurado ser discreto na negocição.


 


Estava sentado a ver o resumo de imagens, olhava para a cara de Sócrates e para as as suas afirmações, dos seus ministros e dos seus parlamenteres, e dei comigo a pensar que o ambiente entre os pilotos kamikaze japoneses não devia ser muito diferente. Se exceptuarmos a questão da honra e do patriotismo, que os kamikaze japoneses tinham, o comportamento de Sócrates é igual apenas em matéria de vontade suicida.


 


Procura ansiosamente o fim, procura provocá-lo - esta negociação, em boa parte, foi contra os seus planos:  No seu íntimo teria preferido romper e conseguir uma saída aparentemente honrosa para a situação.


 


Nestas últimas semanas acho que Sócrates se imaginou a conseguir seguir a tendência exportadora de alguns recentes ex-primeiro ministros portugueses: Guterres foi para ass Nações Unidas, Durão Barroso para  a Comissão Europeia, ele talvez se imaginasse nalgum cargo internacional de Atletismo, ligado ao jogging e às meias maratonas – a mais não poderia aspirar embora, no fundo, o seu sonho fosse ser um Al Gore europeu a fazer powerpoints filmados sobre as energias renováveis.


 


Olho para o que se passou nestes últimos dias e vejo um rasto de mentiras, por parte do Governo, em todo este processo negocial. Numa negociação destas quem tem de mostrar boa fé é quem tem o objecto de negociação na mão – o Orçamento. Ora foi eaxactamente isso que não se viu - o Governo nunca esteve, aparentemente, de boa fé. Teixeira dos Santos poderá ser um homem sério, mas em todo este processo não foi essa a imagem que transmitiu.


 


Estamos autenticamente em clima de fim de festa, rufam já os tambores de eleições no horizonte. Olhamos para o futuro e vemos o que Sócrates nos deixa:  um país pior, uma economia destruída, um clima de corrupção generelizado, a desconfiança dos cidadãos em relação ao Estado. Em suma, a receita para que a participação eleitoral seja menor, para que as pessoas participem menos nas grandes decisões. A imagem que


Sócrates pretende fazer passar - de infalível e insusbtituível -  ajuda muito pouco a que as novas gerações olhem para a política com, vontade. À sua volta só vêem mentira, demagogia, engano.


 


Se Sócrates cumprir o mandato legislativo até ao fim há uma geração que irá votar pela primeira vez depois de quinze anos de desgoverno de Guterres e Sócrates. Um a geração que usos Magalhães, mas que tem uma economia destruída, finanças púnblicas caóticas e possibilidade de emprego compatível com as qualificações muito difícil. É uma pesada herança. Mas é o que Sócrates levará às costas quando sair.


 


 


RESUMO DA SEMANA


Em matéria de Orçamento, Sócrates, primeiro, empatou as negociações; a seguir Sócrates engoliu as negociações; depois, Sócrates atacou as negociações.


 


ARCO DA VELHA


O processo Facer Oculta começa cada vez mais a ter caras visíveis: depois de Armando Vara, eis que Mário Lino também surge no processo. Segundo a acusação o ex-Ministro das Obras Públicas, uma das mais ridículas e penosas figuras da governação socrática, terá intercedido a favor de Godinho, procurando avolumar-lhe as negociatas, sob o argumento de que o empresário seria um «amigo do PS». Bem sei que é uma piada um bocado secante e que o homem, no fundo, é um sucateiro  - mas com amigos destes, quem precisa de inimigos?


 


REGISTO


Cavaco Silva, no twitter, no primeiro dia do debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado em que o PS acusou o PSD de ter vergonha do acordo que fez, disse vewr “com muita apreensão o desprestígio da classe política e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates”.


 


PERGUNTA


O que é feito da Ministra da Cultura e da política cultural?


 


FOLHEAR  


A edição de Novembro da revista Vanity Fair é dedicada aos diários secretos de Marilyn Monroe, ou seja, à maneira como ela encarava os Kennedys, os seus maridos e amantes e as preocupações que a atormentavam. Mas esta belíssima edição daquela que muitos consideram ser A REVISTA por excelência, tem também uma curiosa entrevista com o princípe Carlos de Edimburgo e um artigo que bem podia ser intitulado o Watergate parisense, sobre as ligações de Liliane Bettencourt, a herdeira da L’Oreal, com o Presidente Sarkozy. Picante, atrevida e aliciante – é esta a imagem de marca da Vanity Fair, uma indispensávelleitura todos os meses. Como bónus, nesta edição, a mostra, em primeira mão para os leitores da revista, das aventuras de David Hockney com o aplicção Brushes para o iPad. Deliciosas. Alguma coisa de novo está a nascer.


 


OUVIR


O que eu gosto mais em Tricky é de ele dar a ideia de que trabalha para que os ouvites da sua música se sintam parte da aventura dos sons, do ambientes, do espírito nómada e irrequieto que anima os seus discos. Desde que  se fez notado nos Massive Attack, e, depois, quando começou a sua carreira a solo, Tricky tem persistentemente explorado a capacidade de produzir sonoridades que percorrem os rimos e os ritos do encantamento. Umas vezes não consegue atingir os seus objectivos e noutras, felizmente, como acontece neste «Mixed Race», acerta em pleno no alvo. Em 2008 Tricky fez um album chamado «Knowle West Boy», que surgia um pouco como o seu regresso às origens. Este novo «Mixed Race» tem pouco mais de meia hora, as canções raramente passam os três minutes, as faixas são envolventes e intensas. Não era preciso mais tempo. É a medida certa para um grande disco. (Tricky, Mixed Race, CD Dominico)


 


PROVAR


O local é muito simpático – literalmente em cima do Tejo, no Cais do Sodré, fica mesmo ao lado do Bar do Rio. A esplanada, desde que não chova, nestes dias simpáticos de Outono, é uma possibilidade. O Ibo tem uma inspiração moçambicana, bem expressa na carta. Mas para quem não quer arriscar nessa aventura (e faz mal), tem atractivos europeus – até nos belos bifes. A decoração é sóbria, contemporânea e confortável, o serviço tenta ser atento e a cozinha é verdadeirtamente a boa razão de conhcer esta casa. Eu submeti-me com gosto ao caril de caranguejo desfeito, um prato de confecção fabulosa, com origens em Moçambique. Desta safra há mais propostas, na carta. Se quiser uma coisa mais, digamos, ocidental, prove os impecáveis filetes de polvo com arroz de feijão manteiga, ou, as vieiras salteadas com açafrão. Remate a refeição com banana crocante, acompanhada de gelado. Se conseguir peça uma mesa no primeiro andar, do lado do rio. A vista é de cortar a respiração. Pena que as obras de António Costa tenham estragado tanto a envolvente deste restarurante. Merecia bem melhor. IBO,  telefone 21 342 36 11, fica no


Armazém A, compartimento 2, Cais do Sodré, logo a seguir á estação de combois. Encerra Dopmingo ao jantar e segunda-feira todo o dia.


 


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Ser contra o aumento de impostos é o único combate intelectual susceptível de trazer alguma recompensa – John Maynard Keynes.

novembro 02, 2010

O PIÁSSABA

(publicado no Jornal metro de 2 de Novembro)


 


Caros leitores. Proponho-vos que adiram ao movimento «Um piássaba para António Costa». Eu sou o primeiro aderente e já tenho o meu piassaba para entregar nos Paços do Concelho. É o mínimo que eu posso fazer. Vejam bem: percebo que existe crise, sei que a Câmara tem dificuldades (por isso é que aplica a taxa do subsolo à conta do gás…), e por isso mesmo, antes que me imponham uma taxa nova sobre a sola dos sapatos, comprei um belíssimo piássaba de cerdas amarelas na drogaria aqui do bairro.


 


A minha lógica é esta – se para tomar banho com água quente o Costa me impõe uma taxa, então para ter os pés secos e evitar que as sarjetas entupidas alaguem as ruas, ainda me vai fazer pagar uma taxa maior. De maneira, que bem vistas as coisas, resolvi lançar este movimento. Se formos muitos a alinhar nos piássabas, António Costa receberá ferramenta suficiente para poder evitar que se repitam as cenas de sexta-feira passada.


 


Eu, por mim, gosto das ruas assim mais ou menos sem enxurradas. Eu imagino que será pedir muito – mas também me parece que se podia fazer um esforço. Por isso me lembrei deste movimento, pode ser que ajude a limpar as sarjetas. Não me lembro, em anos da minha vida, de ver a Avenida da Liberdade transformada num ribeiro, nem um Rossio num lago. Certo, certo, é que qualquer dia temos que comprar um bote para podermos circular em Lisboa em dias de chuva.


 


Eu até percebo que pode existir aí a ideia de que importar os canais de Veneza para Lisboa pode fazer aumentar o fluxo de turismo dos países de Oriente. Estou mesmo a ver turismos japoneses em barcos de borracha com a marca Cityrama. Mas sinceramente acho é que tudo isto é desleixo, facilitismo, falta de trabalho e falta de previsão – enfim, aquilo que é o dia a dia da cidade de Lisboa nas mãos de António Costa.


 

outubro 27, 2010

JÁ ME ESTÃO A IR AO BOLSO

Aqui há cerca de um ano os eleitores de Lisboa foram a votos e António Costa foi o vencedor, por reduzida margem aliás. Fez uma campanha essencialmente pró-governamental:  por exemplo defendia que a terceira ponte tivesse utilização automóvel, trazendo mais carros para a cidade; defendia que o aeroporto saísse da Portela; defendia o contrato do novo terminal de contentores de Alcântara. Nenhuma destas medidas era favorável para a cidade, todas pioravam a qualidade de vida dos seus habitantes.


 


No geral António Costa associou-se, na sua campanha, aos projectos de grandes obras públicas, e à transformação da cidade. O maior sinal desta transformação, nestes seus anos à frente da Câmara, está plantado no feio deserto em que o Terreiro do Paço foi transformado e no funcionamento da EMEL  (abusivo e lesivo dos habitantes da cidade) e ineficaz nos resultados alcançados – quem não se lembra da promessa do fim do estacionamento em dupla fila, já lá vão quase três anos?


 


António Costa prometeu muito durante a sua campanha eleitoral, mas tem cumprido muito pouco do que tem prometido. Curiosamente, uma coisa que ele não prometeu, mas que foi rápido a fazer, foi ir ainda mais ao bolso dos lisboetas . Na semana passada os moradores de Lisboa começaram a receber nas facturas de gás a cobrança de uma taxa de ocupação de subsolo. Quer dizer, a Câmara resolveu cobrar a utilização do subsolo pela empresa que faz a distribuição do gás. Os consumidores já pagam o serviço que recebem – mas agora têm também de pagar à Câmara para poderem ter gás canalizado em casa.


 


Quem vive em Lisboa, quem aqui paga IRS, eventualmente IMI e IMT, quem paga as taxas de instalação e revisão do gás (com os abusos que se conhecem…), quem paga a própria factura do fornecimento, tem agora que pagar mais uma taxa. Aqui está o que é a governação de António Costa – ir-nos ao bolso logo que arranja pretexto. Assim se promove o repovoamento de Lisboa.

Crise & Companhia

PSD – Na página 2 do «Correio da Manhã» do passado dia 19 vinha um artigo de Ângelo Correia com o discreto título «O Orçamento de 2011», onde o autor escrevia: «O PSD deve pois abster-se e nem negociar com o PS. Por experiência própria sabe-se que não se negoceia com quem não tem boa fé e, sobretudo, deseja o voto contra de Passos Coelho. O que p PS quer é fugir e é isso que não podemos consentir». Na mesma data em que o artigo foi publicado decorreu, à noite, um Conselho Nacional do PSD de onde saíram uma série de pressupostos negociais considerados necessários pelos social-democratas para, abstendo-se, viabilizarem o orçamento. Na prática a direcção do PSD fez ouvidos de mercador à sugestão de Ângelo Correia e avançou com uma plataforma para negociação. Ora acontece que desde sempre Passos Coelho foi considerado como muito próximo de Ângelo Correia, com quem trabalhou anos, e que, objectivamente o apoiou na campanha para conquistar a liderança do PSD. O «i», perspicaz, leu o artigo do «Correio da Manhã» e foi falar com Ângelo Correia. O resultado foi uma manchete que dizia: «PSD dividido - Ângelo Correia corta com Passos Coelho». Na peça do diário é citada uma declaração de Ângelo Correia que classifica de «inutilidade» a estratégia decidida por Passos Coelho.


 


Claro que tudo isto pode apenas ser uma tempestade num copo de água – mas pode igualmente ser um sinal do acentuar de divergências em relação à estratégia de Passos Coelho em toda esta questão orçamental e do PEC. O que é certo é que, pela primeira vez desde que assumiu a liderança do PSD, verifica-se uma clivagem no núcleo duro de Passos Coelho. Fora do núcleo duro, nas últimas semanas, multiplicaram-se manifestações de desagrado pela forma como a direcção social-democrata tem gerido todo o processo.


A expectativa sobre o desenrolar da situação, agora que a votação do OE foi adiada para os primeiros dias de Novembro, é grande. Passos Coelho pôs-se mais uma vez na posição de continuar a admitir a possibilidade de votar contra o Orçamento. Há quem defenda, dentro do PS, que não ceder ao PSD e provocar um voto contra – com todas as consequências que isso trará – vai lançar o ónus de provocador do caos sobre o PSD e Passos Coelho. Estamos como num jogo de futebol arriscado – prognóstico só no final do jogo. Mas a verdade é que não se percebe, em termos políticos e em termos de comunicação, a estratégia da equipa de Passos Coelho. E a questão de saber se não seria mais eficaz deixar ficar o PS com o ónus dos disparates orçamentais cometidos e prometidos vai voltar a colocar-se. O grande problema, o maior problema, é o facto de mais uma vez – depois do PEC, depois da questão da Revisão da Constituição - o PSD aparecer hesitante, com posição indefinida durante demasiado tempo, a tornar evidentes contradições internas. Com esta clivagem pública de Ângelo Correia abre-se uma nova fase na complicada vida interna dos social-democratas. Está aberto o processo de uma nova crise e não há-de faltar muito para começarmos a assistir a novas contagens de espingardas.


 


ROUBO - Esta semana os munícipes de Lisboa começaram a receber nas contas do gás a cobrança de uma taxa de ocupação de subsolo. Quer dizer – quem vive em Lisboa, quem aqui paga IRS, eventualmente IMI e IMT, quem paga as taxas de instalação e revisão do gás (com os abusos que se conhecem…), quem paga a própria factura do fornecimento, tem agora que pagar mais uma taxa. Regulamentada a jeito pelo Governo, a nova taxa é uma forma de assalto à mão armada de que algumas autarquias se socorrem para contornar a diminuição das transferências do Estado ou para garantirem aumentos de receitas. Esta nova taxa é um abuso, é um absurdo, é um descaramento e, sobretudo, é  injusta e profundamente imoral. A taxa de ocupação do subsolo é um expediente de ladroagem pura e simples executada por quem aprova e põe em prática medidas destas. Pelos vistos é é assim que António Costa pretende repovoar a cidade.


 



NOTÍCIA – Costuma dizer-se que um cão morder um homem não é notícia, mas um homem morder um cão já o é. Sem desrespeito por ninguém, é o que aconteceu esta semana, quando foi Marcelo Rebelo de Sousa a informar da data do anúncio da candidatura à presidência de Cavaco Silva, antecipando-se ao próprio e gabando-se de um autêntico furo jornalístico em directo, na televisão. Para além da questão do absurdo tabu de Cavaco, toda esta história mostra outra coisa - tal como em algumas actividades económicas, em política, a falta de concorrência gera péssimos efeitos. É o que está a acontecer nas presidenciais .


 


ARCO DA VELHA – Muito ruidoso o silêncio de Manuel Alegre. O Bloco de Esquerda, que o propôs como candidato em primeiro lugar, já disse que vota contra o Orçamento. O PS, que depois veio também apoiá-lo, vai votar a favor. Fernando Nobre já disse que votaria contra, se fosse deputado. E Manuel Alegre está em parte incerta, evitando ter que falar. Para quem se dizia adepto da transparência é um quadro interessante de seguir. À hora a que escrevo, no seu site de candidatura não existe nem uma linha sobre o assunto e o título em destaque era: «Criar a energia necessária para uma nova esperança para Portugal». Pois….

SUGESTÕES

FOLHEAR Cada vez gosto mais de folhear a revista «The Atlantic», publicada em Washington. É uma revista sobre política, é claro, mas é também uma revista sobre o que se passa no nosso mudo, em termos de tendências, evolução de comportamentos, análise da sociedade. A edição de Outubro traz um belo artigo sobre os falhanços da geração dos Baby Boomers (os nascidos nos anos 60), uma curiosa análise da vice-presidência de Joe Biden, uma avaliação do trabalho de Schwarzenegger na Califórnia, para além de diversas colunas, e uma sempre actual selecção de livros. A edição on line é também excelente – e um case study de rentabilidade e modelo de negócio.


 



OUVIR – Para assinalar os seus 50 anos de vida musical, o guitarrista de jazz Lee Ritenour pôs de pé o projecto  «6 String Theory», chamando para o seu lado uma série de 20 guitarristas, desde John Scofield a George Benson, passando por Slash, BB King, Keb’ Mo, Robert Cray ou Andy McKee, entre outros. Discos deste género podem ser uma maçada, de exercícios virtuosos ou malabarismos sem sentido. Não é felizmente o caso – este CD é verdadeiramente uma delícia para todos os que gostam do som de uma guitarra de seis cordas a interpretar temas clássicos da música popular norte-americana. (CD Concord).


 




VER – Duas exposições bem diferentes que vale a pena visitar: na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, até 19 de Novembro) uma evocação da obra de Fernando Calhau, intitulada «Deserto»; e, noutro registo, no Instituto Português de Fotografia (Rua da Ilha Terceira, 31 A )o fotógrafo Valter Vinagre (do colectivo Kameraphoto) apresenta uma série de fotografias feitas na escola do Chapitô sobre o universo do circo, intitulada «Paixão».


 



PROVAR – Já não ía à Vela Latina há algum tempo, mas esta semana tive ocasião de me penalizar por não frequentar este restaurante mais vezes. Comi um excelente pregado frito com um arroz de grelos perfeito e ao meu lado invejei uns ovos mexidos com cogumelos. O serviço continua afectuoso, a carta é extensa em propostas culinárias e em vinhos, a localização é boa, no terraço (coberto) pode fumar-se e o bar continua simpático. Doca do Bom Sucesso, telefone 213017118.


 



BACK TO BASICS – A conversação erudita é a pose do ignorante ou a ocupação do homem mentalmente desocupado – Óscar Wilde

outubro 21, 2010

UM TRISTE DILEMA

Dei comigo a pensar que já tinha ouvido muita gente comentar a proposta de Orçamento de Estado para 2011, mas ainda não sei o que Manuel Alegre pensa sobre o assunto. Fui ao sítio oficial da candidatura e esbarrei numa espécie de exercício de ilusionismo político. Passo a explicar: lá só estão boas notícias, inaugurações de sede de campanha, relatos de apoios, manifestações de simpatia. Quem lá entrar não vislumbra crise em Portugal nem sequer sabe que anda tudo a falar sobre o Orçamento de Estado.


 


O candidato Fernando Nobre fez questão, no sábado passado, de declarar que se fosse deputado votaria contra este orçamento. Manuel Alegre continua silencioso, mais uma vez a ver se a tempestade passa. Manuel Alegre está num dilema: de um lado é apoiado pelo Bloco de Esquerda, que vai votar contra o orçamento; do outro é o candidato oficial do Partido Socialista, que propõe o orçamento e obviamente se baterá por ele. No meio fica Alegre, perdido na confusão ideológica que o caracteriza, espartilhado entre compromissos, empurrões e apoios, e sem poder dizer grande coisa evitando irritar uma das partes.


 


A política faz-se de posições sobre questões concretas. Faz-se de um programa claro, baseado em factos, medidas, objectivos. Um candidato presidencial tem que saber analisar a realidade e agir em função disso. Precisamente é isso que Manuel Alegre, por mais de uma vez, se mostra incapaz de fazer. É muito difícil querer agradar simultaneamente ao endeusado Sócrates e ao diabolizado Louçã.


Tudo isto é curioso porque até há pouco tempo Alegre acusava Cavaco de ser demasiado conivente com compromissos e de manter silêncios habilidosos – de ser pouco frontal e transparente, em suma. Vai-se a ver e é o próprio Alegre que agora está enredado numa teia tão densa que é tudo menos transparente, tudo menos frontal. Este episódio tem pelo menos uma vantagem: mostra que a candidatura de Alegre não tem programa e não tem coerência.


 

outubro 15, 2010

LUGARES COMUNS

Os dias, agora podem começar aqui

SOBRE A CRISE DA IMPRENSA

Olho para a imprensa em Portugal com preocupação. Este ano as estimativas indicam que o valor do investimento publicitário nos jornais diários generalistas vai ser menor que o investimento publicitário em canais de televisão por subscrição (cabo e satélite), menor que o investimento em rádio e muito semelhante ao do investimento em internet e meios digitais. Isto quer dizer que a imprensa está a perder simultaneamente competitividade e capacidade de atracção dos grandes investimentos publicitários geridos por agências. Ao mesmo tempo o declínio de vendas em banca da maior parte dos jornais diários generalistas é acentuado, com excepção do «Correio da Manhã». Jornais especializados, como este «Jornal de Negócios», mantém os seus leitores e até consegue reforçá-los – sem dúvida porque fala do que interessa à sua audiência e selecciona bem os temas que desenvolve. Já muitos jornais diários parecem mais preocupados com os gostos e interesses pessoais dos seus jornalistas do que com trabalhar aquilo que pode fazer aumentar o número de leitores.


 


Aquilo que a imprensa vende não é apenas espaço de publicidade, é a capacidade de comunicação com os seus leitores – o número de contactos que permite -  e é, também, a qualidade dos seus leitores. Se o número de leitores diminui, é evidente que fazer publicidade num determinado título se torna menos apelativo.


 


Do meu ponto de vista a maioria da imprensa diária está a ser penalizada por um movimento conjugado de diminuição da qualidade dos seus conteúdos e pela falta de adequação de conteúdos aos alvos que interessam Alguma imprensa diária colocou-se a ela própria numa situação de quase marginalidade, tratando mais temas de interesse minoritário do que assuntos que estabeleçam relação com os leitores.


É assustador pensar que hoje os jornais diários generalistas são em menor número do que no dia 24 de Abril de 1974, mas sobretudo têm dezenas de milhares de leitores a menos. Algures os jornais diários divorciaram-se do público e o fenómeno é anterior às edições digitais.


 


Por via de regra a maioria dos jornais diários, sobretudo os ditos de referência, abordam poucos temas portugueses, para além da política. Uma comparação com os principais jornais de referência de outros países mostra um menor número de notícias nacionais em temas como sociedade e comportamento, uma menor cobertura de áreas como a saúde e a educação, uma muito deficiente cobertura do noticiário local e regional que garantem leitores de proximidade.


 


Os jornais anglo-saxónicos, por exemplo, frequentemente fazem reportagens sobre um grande tema de garantida proximidade com os leitores, reportagens essas que são divididas por sucessivas edições diárias, quase em género folhetim, culminando depois em dossieres especiais ou portfolios relacionados com o tema nas suas revistas de domingo. Os leitores sentem-se compelidos a seguir a história, a ver os seus vários ângulos de abordagem e, sobretudo, porque os temas são bem escolhidos e têm um enfoque local, regional ou nacional, conseguem estabelecer uma relação de utilidade com o que estão a ler.


 


Um dos jornais de referência de Lisboa publicou recentemente uma série alongada de boas reportagens sobre o ambiente que se vive em aldeias mexicanas por causa dos cartéis da droga. Bem escritas, as reportagens tinham um fio condutor. Mas o mesmo jornal não publica há meses – talvez há anos – reportagens assim estruturadas sobre situações existentes em Portugal – feitas com aqueles meios, com aquele espaço de paginação, com aquela qualidade de escrita. Se o tema tivesse uma capacidade de ligação maior a leitores portugueses e se fosse bem promovido, talvez o jornal tivesse outros resultados de venda e de receitas comerciais – e sem necessidade de fazer maiores investimentos.


 


A questão do marketing dos jornais ganha, neste contexto, particular importância. Nos últimos anos os jornais têm apostado sobretudo o seu marketing na venda de produtos associados (CD’s, DVD’s, livros, brindes diversos). Essas campanhas provocam algum aumento de receita, provocam aumento pontual da circulação ( e são muito eficazes quando coincidem com o trabalho de campo da recolha de dados dos estudos de audiência da imprensa). Mas o marketing de conteúdo, que se tem mostrado eficaz nos canais de cabo e na rádio, por exemplo, quase não é utilizado na imprensa. – no fundo porque muita imprensa tem desprezado a qualidade dos seus conteúdos e a sua adequação aos seus públicos-alvo.


 


Os media só são bons suportes publicitários quando conseguem entregar a capacidade de comunicação com as audiências. E as audiências são movidas por conteúdos que lhes interessem. Eu acho que o problema de muita da imprensa portuguesa é que se esqueceu desta questão básica.

PARA OS GRAFOLOGISTAS POTENCIAIS

A revista «Egoísta» fez um delicioso número especial, extra-série, de formato reduzido, quase um livro,  a partir de um espólio de manuscritos que inclui cartas de nomes como José Régio, Fernando Pessoa, António Botto, Amadeo de Souza Cardoso e Santa-Rita Pintor, entre outros. A análise grafológica dos manuscritos e considerações gerais sobre o tema estão a cargo de Alberto Vaz da Silva, um reputado especialista no assunto.


 


O resultado é uma edição deliciosa e de colecção que merece ser guardada. Paginação excelente, textos aliciantes (os dos manuscritos e a sua interpretação). Ou seja, a revelação do ser através do seu escrever, como bem sublinha Mário Assis Ferreira, que dirige a «Egoísta».

PARA OUVIR NO GÉNERO COUNTRY MADE IN LED ZEPPELIN

Robert Plant fez carreira nos Led Zeppelin mas as suas aventuras musicais mais recentes revelam uma inesperada frescura e uma criatividade surpreendente. «Band Of Joy» é o seu mais recente registo e vai buscar o nome a uma banda de tendência psicadélica que Plant liderou ainda antes dos Led Zeppelin.


 


O disco tem uma sonoridade claramente country, que lhe é dada pelo propdutor Buddy Miller. A selecção de temas é eclética e vai de originais de Richard Thompson a clássicos de Lightin’ Hopkins, e Jimmie Rodgers, até ao rock de Los Lobos ou de Townes Van Zandt. A voz de Patty Griffin ajuda Robert Plant, mas é indiscutivelmente a ele que se devem atribuir os louros por este belíssimo disco. (CD Decca, Amazon)


 

PROVAR O MATTOS

As lulas à Mattos são o prato forte da casa – forte e bem temperado, a exigir calma e sossego posteriores. Mas as ofertas de peixe e carne grelhada como os secretos de porco preto ou as costeletinhas de borrego também fazem parte dos ex-libris da casa, que fica bem perto da Avenida de Roma, junto ao teatro Maria Matos. Já agora cabe aqui elogiar as batatas fritas, cortadas em palitos fininhos, de boa batata e boa fritura, e que são um verdadeiro pecado.


 


A garrafeira é cuidada e actual, a freguesia gosta de cozinha portuguesa e de doces conventuais – que são a guloseima do local. De modo que não é invulgar ver no local alguns clientes com, digamos, algum excesso de peso – mas com ar feliz e bem disposto. Rua Bulhão pato 2ª, telefone 218483924, encerra aos Domingos.

ARCO DA VELHA

Segunda feira passada a RTP liderou as audiências, bateu SIC e TVI, e não transmitiu futebol. O bom resultado foi-lhe dado pelos resultados do «Prós e Contras» desse dia, dedicado à crise, segundo os três ex-Presidentes da República: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.


 


 Eanes foi o mais lúcido ao dizer : «Dá impressão que os Governos têm medo da sociedade civil e por isso escondem a verdade». Enfim, não é medo da sociedade civil, é mais medo de perderem votos. Mas no fundo foi o único com coragem para afirmar: «Devíamos ter tido só um PEC, ousado, arrojado e justo». De qualquer forma as boas audiências destas figuras mostram o velho sebastianismo português.


 

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A indiferença pela coisa pública leva a que sejamos governados por má gente - Platão


 


 

outubro 14, 2010

UM JOGO DE XADREZ

A situação política portuguesa está a ficar perigosamente parecida com um jogo de xadrez em que os jogadores resolveram aplicar as regras do poker e movem as peças fazendo estranhos movimentos de “bluff”.  O PSD entra com vários jogadores, que fazem movimentos dispersos, às vezes contraditórios e algumas vezes confusos. O Governo mantém a pressão e tenta não abrir brechas. Por cima, o Presidente da República sente-se irrequieto e incomodado com as complicações surgidas em cima de termo de mandato, preocupado em saber quando, no meio desta tormenta, arranjará espaço para anunciar a recandidatura que é o tabu mais idiota do país. O outro candidato presidencial já desistiu de colocar peças no tabuleiro porque a última coisa que pretende é ser chamado a comentar as medidas do PS no Governo. E, finalmente, Paulo Portas está inusitadamente sossegado, espreitando por cima dos ombros dos jogadores, para ver se surge um momento em que ele possa pegar numa peça e fazer um movimento que o coloque na posição de poder ser ele a gritar “xeque-mate”.


Os efeitos da crise na imprensa e nos comentadores também são curiosos – um jornal anunciava este fim de semana a data de demissão do primeiro Ministro, os editoriais e comentários falam todos sobre o mesmo assunto – incluindo este. O país está obcecado pela crise e Passos Coelho está enredado no seu próprio tabu – se vota contra, ou se se abstém, deixando, neste caso, passar o Orçamento.  Aposto que no seu íntimo Sócrates gostaria que o Orçamento fosse chumbado – isso permitiria que se vitimizasse, encontraria uma forma airosa de responsabilizar outros pela situação e tentaria ainda sobreviver. A ele, agora como nos últimos anos, pouco importa a situação do País. Ele conhecia os perigos que corria com as medidas que foi tomando – mas sabia que elas lhe compravam votos e apoios. Sócrates é apenas movido pelos seus objectivos pessoais, pelo Poder e pelo seu agudo instinto de sobrevivência. Se o País fosse uma preocupação para ele, há muito que teria percebido o que tinha de ser mudado.

O ALEGRE AUSENTE

Manuel Alegre foi o único candidato já anunciado às próximas eleições presidenciais que não esteve nas comemorações oficiais do Centenário da República, na Praça do Município, em Lisboa. A versão oficial diz que ele esteve em Loures e no Barreiro, onde a República terá sido proclamada ainda antes de Lisboa. A evidência no entanto é que Manuel Alegre preferiu ir para locais onde não corresse o risco de ser confrontado com a pergunta: «que acha das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo?». Se tivesse ido à Praça do Município, Manuel Alegre teria que falar aos jornais,às estações de rádio, ás estações de televisão. Seria impossível continuar com o silêncio, algo covarde, atrás do qual se tem escondido desde que Sócrates anunciou que ía mesmo ter que fazer cortes sérios. A atitude de Manuel Alegre, a forma como se esconde, diz muito sobre a sua frontalidade, sobre a sua tranaparência e, sobretudo mostra a enorme clivagem, que se há-de acentuar ainda mais, entre as medidas que o PS toma e o que o candidato propagandeia. Manuel Alegre tenta o equilíbrio entre os seus dois apoiantes – PS e Bloco de Esquerda – mas a única coisa que consegue é esconder-se.

TOLERÂNCIA REPUBLICANA

No dia das comemorações do centenário da República um grupo de simpatizantes monárquicos, na maioria alinhados com o blogue  “31 da Armada”, estava perto da Praça do Município e os participantes colocaram máscaras de Darth Vader, personagem da ”Guerra das Estrtelas” que tem sido a imagem de marca daquele blogue. O curioso é que foram abordados por polícias à paisana, vários deles de cabelos rapados e óculos escuros, que lhes quiseram tirar as máscaras, não se sabe bem por que razão nem por qual autoridade. Noutra rua ali próxima um conhecido humorista da TV, Jel, dos Homens na Luta, fazia uma das suas habituais intervenções, proclamando que na sua opinião estamos numa república das bananas - e por esse facto foi detido e levado para identificação pela polícia. Num regime que se quer expoente da Liberdade, estes comportamentos são curiosos . Mais elucidativo ainda é o relativo e dominante silêncio dos media sobre estas atitudes - e já agora também sobre as cerimónias evocativas da Monarquia que na mesma data ocorreram em Guimarães, sem dignatários do regime nem usufrutuários dos dez milhões de euros das festividades republicanas, mas com largas centenas de pessoas, que lá se deslocaram de propósito a expensas próprias, num ambiente de festa popular em contraste com o cinzentismo da Praça do Município.

RETOCAR A MÚSICA

Nestes dias outonais nada como um bom disco de jazz, feito por um trio com uma formação intocável- piano, baixo e bateria. No piano está Jason Moran, no baixo está Tarus Mateen e na bateria está Nasheet Waits. Este trio completou dez anos de existência, já que o seu disco estreia foi “Facing Left”, de 2000. Matematicamente, este novo registo chama-se ”Ten” e reafirma como o talento de Moran está em conseguir fundiar a sua sensibilidade clássica com a intensidade da inspiração afro-americana dos músicos que o acompanham. Grande parte dos temas são da autoria do próprio Jason Moran, mas vale a pena ouvir com atenção as suas versões de “Crepuscle With nellie” de Thelonius Monk e de “Big Stuff”, de Leonard Bernstein. “Ten”, CD Blue Note, na Amazon. Chama-se a isto retocar a música. Bem retocada.


AGATHA CHRISTIE DESCOBRE A SÍRIA

Agatha Christie está no nosso imaginário como a autora de numerosos policiais de trama aliciante e desfecho inesperado. Mas confesso que conhecia muito pouco da sua vida pessoal. “Na Síria” não é bem um livro de viagens no sentido tradicional do termo - é mais o relato de experiências vividas num país, recordações de uma época, recordações assumidas com prazer. Agatha Christie, e isto eu também não sabia, casou-se com um arqueólogo britânico que conheceu nas suas experições. E antes da Guerra, durante uma década a partir de 1930, acompanhou o seu marido em sucessivas explorações e investigações na Síria. Este livrirelata essas viagens, as descobertas e facetas desconhecidas da escritora. Após as expedições á Síria, ela voltou para Londres onde viveu nos anos da II Grande Guerra. E foi só com o fim do conflito que terminou este livro, agora publicado em Portugal. É um deliciso relato de uma viagem para descobrir a Agatha Christie que desconhecemos. “Na Síria”, Edição Tinta da China, na Pó dos Livros. 285 páginas.

TRABALHO COLECTIVO

A nova proposta da Plataforma Revólver é uma exposição colectiva intitulada “Tough Love, Uma Série de Promessas”, que agrupa trabalhos de 12 artistas em diferentes fases da carreira criativa e provenientes de diversos países. O objectivo é “explorar o uso da arte em fornecer complementos exteriores para a noção de amor – uma jornada pessoal efémera composta por outras emoções mais provocatórias, incluindo o ódio, o desejo, a inveja e o destino”. Destaco os trabalhos de Cecília Costa, Agathe de Bailliencourt, Samira Abbasy, K.P. Reiji, Isabel Ribeiro , Greg LeFevre Marc Bijl e Zak Ové . A exposição estará patente até 20 de Novembro na Rua da Boavista 84-1º, Lisboa.

UMA REVISTA FANTÁSTICA - EXCESSIVAMENTE ENORME

Um bom excesso, na realidade: a coisa começa logo na capa - uma fotografia que chama a atenção e um título que diz tudo - «90 anos de excessos». É a edição especial de aniversário da Vogue francesa, que assinala os 90 anos da revista que é a bíblia da moda. São 626 páginas, a maioria de publicidade deslumbrante, muita dela feita de propósito para esta edição. Só a publicidade, de facto, é por si própria um conteúdo editorial. Para além da publicidade e da moda há artigos sobre o escritor Raimond Carver, uma bela evocação de Yul Brynner, outra da super,modelo Dorian Leigh, que foi seis vezes capa da Vogue em 1946 – veja, essas imagens fascinantes. Mas há mais: um álbum com reproduções de artigos antigos sobre Brigitte Bardot, Françoise Sagan, Romy Schneider, Jeanne Moreau, Annie Girardot, Catherine Deneuve, e  Marilyn Monroe, a descrição que Richard Burton fez há anos para a a Vogue da sua vida com Elisabeth Taylor e várias páginas de fotografias de alguns das grandes modelos que posaram para a revista nestes 90 anos. Imperdível – e pode ser comprada em Portugal ou vista em iPad ou em www.vogue.fr.

PARA ALCÁCER, EM FORÇA!

Esta semana inauguro um novo género de recomendações. Assim, aqui vai – eu ainda não fui lá, estou com vontade de ir, mas dois amigos meus, de reconhecido paladar, a Ana e o Carlos já lá foram e insistem que eu não posso deixar de descobrir o local. Chama-se Porto Santana, fica em Alcácer do Sal, do lado direito depois da ponte velha, onde Dantas era a Tasca do Gino, perto do local de onde partem as embarcações de recreio para passeios no Sado. A boa reputação da casa é feita pela sopa de cação, pelo ensopado de enguias, pela canja de amêijoas, migas à alentejana, lombo de porco preto. Pratica boa cozinha a preços moderados e tem uma boa garrafeira. Encerra ao jantar de segunda-feira e toda a terça-feira. Telefone 265 613 454

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A administração é uma questão de habilidades, e não depende da técnica ou experiência. Mas é preciso antes de tudo saber o que se quer - Sócrates (469-399 a.C.)

ARCO DA VELHA

Nunca me tinha passado pela cabeça ouvir Mário Soares elogiar Cavaco Silva, mas foi isso mesmo que ouvi no dia da celebração do centenário da República. Ora aqui está a verdadeira união nacional. Quem deve ter ficado a ferver é Manuel Alegre.


 

outubro 06, 2010

REGIME

No exacto dia em que começaram as celebrações oficiais do Centenário da República a imprensa diária informa que o défice disparou, que as empresas do Estado têm a dívida descontrolada, que o preço dos medicamentos sobe e que o Estado continua sem cortar na despesa. O balanço do regime no seu centenário é o maior desemprego das últimas décadas, uma justiça que não funciona,  e problemas que se agravam na saúde e na educação. O endividamento externo de Portugal está a níveis nunca vistos, todos os dias há novos sinais de falta de confiança internacional no país, há uma crise política latente há meses - em boa parte culpada de toda a situação a que se chegou – um Presidente da República hesitante, um Governo autista, oposições oscilantes. Ao fim de cem anos de República os cidadãos desconfiam de políticos e de partidos, os números da abstenção em actos eleitorais continuam a crescer, o afastamento das pessoas da participação activa na política é cada vez maior. O país político é cada vez mais diferente do país real.


Vivemos há cem anos em República – os 16 primeiros anos foram de confusão e descalabro (com algumas semelhanças aos tempos actuais em matéria das finanças públicas), os 48 anos seguintes foram de ditadura e os 36 mais recentes foram ora de festa, ora de esperança, ora de desilusão – até aqui chegarmos. Se olharmos para o que se passava há cem anos atrás veremos que os principais males de que o país padecia continuam a existir. O regime mudou, mas não resolveu problemas nem melhorou, de facto, a vida política. O regime republicano em si poucas responsabilidades tem nos progressos que se verificaram - são fruto dos tempos, como aliás as monarquias do norte da Europa bem mostram. As comemorações a que agora iremos assistir são uma espécie de propaganda dos poderes instituídos, com gastos mais que discutíveis nos tempos que correm, e com uma alarvidade de expressões públicas que roça o indecoroso. Na realidade tudo se passa como se estes 100 anos fossem um mar de rosas, numa leitura acrítica e idílica do descalabro em que o país está a ser republicanamente governado. O descaramento é tanto que o Governo pretende aproveitar o 5 de Outubro para, nesse dia, inaugurar 100 escolas, depois de, ao longo dos últimos meses, ter imposto o encerramento de quase 4000 escolas. Mais do que uma celebração de um regime, as comemorações actuais são uma manobra de propaganda pura, que o actual Governo manipula em seu proveito, perante a complacência habitual do Chefe do Estado. A República não é uma ideologia, por muito que alguns pretendam. É apenas uma forma de organização do poder e por cá não tem dado grandes resultados.


 

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 BACK TO BASICS –  Deixe quem desejaria mudar o mundo mudar-se primeiro a si mesmo , Sócrates (469-399 a.C.)


 

ARCO DA VELHA

«O relatório da EFTA não pode ser pessimista até porque foi negociado com o Governo»  – afirmou Silva Lopes. «Um verdadeiro tratado de má economia» - foi assim que António Nogueira Leite classificou este relatório.  E sobre o carteiro mexicano que veio fazer belos  cenários para Teixeira dos Santos, nogueira Leite desabafou no Facebook: «O ex ministro do Partido Revolucionário Institucional do México veio dizer a barbaridade de que há pouca margem para cortar despesa. E o senhor até parafraseou Trotsky no comentário imbecil que fez sobre a injustiça dos juros que nos cobram os credores».

COMER NO CORTE

A decoração é insípida, a vista é boa, o serviço é muito bom e a comida é acima do razoável. Feitas as contas o balanço final é positivo. O Restaurante do El Corte Ingles (não confundir com a Cafetaria que é mauzota e tem fraco serviço), fica no último piso do edifício, o sétimo. Aviso à navegação – só serve almoços, mas acontece que é um local central e simpático para uma conversa tranquila – as mesas são amplas e espaçadas umas das outras, a cozinha é atenta, a garrafeira é simpática e há boas propostas de vinho a copo. Vale a pena reservar, frequentemente está com a lotação completa. Para além das propostas diárias e de algumas semanas dedicadas a tradições culinárias específicas, a casa orgulha-se de um arroz caldoso de lavagante que é sempre muito elogiado, de um lombo de porco ibérico com cogumelos e de um tamboril salteado com amêijoas e molho verde. Telefone 213711724.

Uma exposição, Um disco, Um livro

VER – «Desordem Comum» é o bom título da nova exposição de Pedro Calapez, na Galeria Miguel Nabinho, em Campo de Ourique, na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B. Até 16 de Novembro podem ser vistos trabalhos recentes e inéditos do autor. Cores luminosas, combinações de formas, por vezes a sugerir  meio caminho entre a pintura e a escultura, perspectivas invulgares, sugestões de movimento que nos prendem o olhar. Quadros animados, quase poderia dizer.


 


OUVIR – Aos 71 anos Mavis Staples conseguiu fazer um dos mais interessantes discos da sua já longa carreira, iniciada  nas célebres Staples Sisters que ganharam fama nos anos 50 e 60 com um repertório baseado em gospels. Há três anos Mavis Staples revisitou alguns dos espirituais do tempo das Staple Singers, da época das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Agora, neste novo disco, «You Are Not Alone», é acompanhada pelo líder dos Wilco, Jeff Tweedy, que produziu, fez arranjos e ainda compôs dois originais que Mavis aqui canta. Neste CD estão também dois originais do seu pai, Pops Staples , responsável por boa parte dos grandes êxitos das Staple Sisters – nomeadamente o arrebatador «Don’t Knock», que abre o disco. Vários tradicionais e temas de outros autores como Randy Newman ou John Fogerty (ouça-se a interpretação emocionante de «Wrote A Song For Everyone») completam este disco que tem na voz e interpretação de Mavis Staples um excelente contraponto para o tratamento que Jeff Tweedy deu aos arranjos – inventivos,   e obviamente com um ar de country contemporâneo. Curioso este cruzamento de talentos entre uma lenda dos espirituais, que chegou a trabalhar com nomes grandes do jazz, da soul e com Prince, com um dos expoentes das bandas rock independentes dos últimos anos, os Wilco. Para se perceber como a voz de Mavis Staples continua em excelente forma basta ouvir «Wonderful Savior», um tema tradicional cantado «a capella» de forma superior.


(CD Anti, via Amazon).


 


LER – Não sou propriamente um devorador dos chamados romances históricos, mas confesso que me entusiasmei com «The Thousand Autums Of Jacob de Zoet», a mais recente novela de David Mitchell, que conta a história de um jovem funcionário holandês, em busca de fortuna num entreposto comercial estabelecido pelo seu país no Japão, perto de Nagasaki, em 1799. A escrita de Mitchell é, tradicionalmente, um manual de como definir personagens, de como cruzar narrativas. Às vezes Mitchell, um britânico que viveu muitos anos no Japão, é de uma minúcia descritiva – de locais, pessoas, ambientes, tradições ou conversas - que pode parecer exasperante. Mas esta é a técnica que utiliza para – literalmente - nos fazer viver dentro das histórias que inventa. Esta é fantástica e cruza a ganância dos homens com as tradições milenares do Oriente, uma  paixão não consumada, a moral da época e formas pouco ortodoxas de compensar a vida monástica. Edição Sceptre, via Amazon.

setembro 29, 2010

PAGAR PARA ENTRAR EM CASA

(Publicado no jornal Metro de dia 28 de Setembro)


 


O discurso oficial de António Costa e de alguns seus estrategas é o de voltar a trazer moradores para Lisboa, promover a reabilitação em vez de construção e conseguir impedir a desertificação das zonas do centro histórico da cidade. A realidade é bem diferente - um regulamento de circulação e estacionamento nessas zonas históricas que penaliza os seus residentes. Um grupo de moradores da Costa do Castelo, indignados com que se está a passar, elaborou um documento, protestando contra as imposições da EMEL em matéria de estacionamento e da Câmara em matéria de circulação. Excertos (e declaro desde já que não resido no local nem lá costumo ir):


«A proposta de regulamento em discussão não mostra qualquer respeito pelas preocupações e interesses dos moradores, que assim se vêem cada vez mais isolados e onerados pelos custos de acesso ao bairro. De facto, esta proposta de regulamento baseia-se no princípio geral, que entendemos absurdo, de que todas as pessoas ou instituições com quem os moradores tenham relacionamento pessoal ou profissional, são obrigadas a comprar cartões de acesso temporário, e, no caso de necessitarem justificadamente de permanecer mais do que 30 minutos na Zona, estão sujeitas ao pagamento de tarifas de estacionamento extorsivas (30 euros por 2 horas de estacionamento, até 90 euros por 4h!) ou para a realização de cargas e descargas, sujeitarem-se a obrigações kafkianas para a prévia obtenção de cartão de acesso, deixando de lado todas as necessidades de apoio quotidiano esporádico que tantas vezes são necessárias. Permite-se (naturalmente) a quem tem garagens particulares que deixe estacionar veículos de visitantes nos seus lugares, quando os mesmos estejam disponíveis, mas obriga-se a que os mesmos sejam pagos e o interessado vá ao início da rua receber os visitantes com um cartão de acesso a garagem... Genericamente não faz sentido que paguemos para ter acesso às nossas casas, muito menos ainda ter que pagar um título de estacionamento para estacionar na nossa propriedade.»


Então Sr. Costa – isto é que é defender os lisboetas e combater a desertificação do centro histórico da cidade?


 

setembro 27, 2010

O CHÃO DE LISBOA

(Publicado no diário Metro de 21 de Setembro)


 


No dia 29 de Agosto de 2009, há cerca de um ano portanto, foram inauguradas as novas estações do metropolitano de São Sebastião e do Saldanha, depois de anos de obras e de corte de trânsito em quase toda a extensão da Avenida Duque de Ávila. A inauguração foi convenientemente feita para dar palco ao Dr. António Costa, associando-o à conclusão dos trabalhos, a mês e meio das eleições autárquicas.


Mas será que os trabalhos estão concluídos? A verdade, um ano depois das inaugurações e das eleições, é que  a Duque de Ávila continua em boa parte da sua extensão com circulação condicionada, com estaleiros ainda montados, com o pavimento ainda por reparar. Uma das principais artérias comerciais das Avenidas Novas está votada ao abandono pela Câmara, tornando-se num dramático emblema do que tem sido a actividade do executivo camarário desde que foi eleito a 11 de Outubro do ano passado. É uma vergonha – um ano depois da inauguração das estações subterrâneas, continua  à superfície o caos que durante anos ali se instalou.


O estado em que a Duque de Ávila está é a demonstração da incapacidade e do imobilismo do executivo de António Costa, é a prova do desrespeito pelos lisboetas, é a prova de como as actividades económicas da cidade não lhe interessam para nada – já para não falar do bem estar ou do conforto dos habitantes da cidade.


O estado de sujidade e de porcaria em que andam as ruas de Lisboa é de bradar aos céus – na semana passada bastou uma leva chuvinha para que os passeios se transformassem em perigosas pistas de patinagem – porque o efeito da chuva sobre a porcaria incrustada no chão é desagradavelmente escorregadio.


Desafio-vos a um passatempo – andem de olhos bem focados no chão que pisam nas ruas de Lisboa e verão se não se assustam com o que vêem, com as porcarias que estão por todo o lado, com a falta de limpeza, com a alteração da cor dos passeios por força da sujidade. Eu acho que Lisboa nunca esteve assim, nunca esteve tão mal, tão votada ao abandono.

(publicado no Jornal de Negócios de 17 de Setembro)

LISBOA – Esta semana a EMEL decidiu lançar uma campanha para captar a simpatia dos lisboetas que, queixa-se a empresa, a olham com antipatia. Custa-me um pouco que uma empresa, que para todos os efeitos é de inspiração municipal, invista em campanhas desta natureza. Talvez fosse mais útil perceber as razões da antipatia –  se telefonarem para o call centre da EMEL depois de terem sido bloqueados perceberão um pouco as razões desse sentimento. Com automatismos a mais e respostas a menos, o call centre é desesperante quando se tem um carro bloqueado e não se consegue perceber quando será desbloqueado. Talvez fosse também mais interessante, para combater a antipatia, que a empresa estabelecesse um prazo máximo para o desbloqueamento, depois de solicitado. Talvez também contribuísse para diminuir a antipatia que os fiscais da EMEL tivessem critérios uniformes, e se em vez de multarem quem excedeu a validade do talão de estacionamento por pouco tempo perseguissem as duplas filas. A mim um funcionário da EMEL já me disse que tendo eu sido bloqueado não tinha que refilar pela demora, insinuando que fazia parte da punição. E já nem vou falar da forma como os próprios veículos da EMEL estacionam – por vezes até em passagens de peões.


Se a EMEL tem disponibilidade para fazer investimentos como os da campanha acima referida, mais valia que o fizesse na formação dos seus funcionários, num call centre útil, na melhoria de processos, num serviço capaz aos seus clientes e no estender da acção em defesa dos moradores da cidade.


Por razões que me escapam, a EMEL não actua numa série de zonas residenciais, transformadas em parques de estacionamento de stands de automóveis usados e de visitantes da cidade, que nela não vivem.


Não iludamos a questão: Lisboa tem um problema de despovoamento e os que ainda persistem em viver na cidade são de facto prejudicados pela acção da EMEL. Quem vive em Lisboa paga aqui os seus impostos, quem tem carro registado em Lisboa paga aqui o seu Imposto de Circulação. Uma lógica de serviço aos munícipes devia fazer criar um sistema que trate de forma preferencial quem vive na cidade. E por muito que queiramos, o serviço de transportes públicos em Lisboa funciona de forma deficiente – o Presidente da Câmara, António Costa, critica ele próprio com frequência  a Carris e o Metropolitano pelas opções que tomam e que não servem aos lisboetas.


A nível automóvel o grande problema é evitar a entrada de carros de não residentes – o que a EMEL e a autarquia não têm conseguido. Por isso defendo que os residentes em Lisboa devem ter liberdade de estacionamento em toda a área municipal, mediante um sistema de controlo eficaz, e que os não residentes devem ter taxas de estacionamento fortemente dissuasoras. Essa é a única forma de defender os residentes da cidade e de evitar que os bairros residenciais sejam invadidos por viaturas de fora. Por outro lado a autarquia devia regulamentar a questão dos estacionamentos em massa – nomeadamente os relativos a stands de automóveis e estacionamentos de longa duração em bairros residenciais. Um dístico de residente, um único por contribuinte e eleitor registado no município,  seria uma solução possível. Era curioso que a EMEL fizesse um estudo sobre as situações de incumprimento – provêem mais de lisboetas ou de pessoas que vivem fora da cidade?


O que se deseja é que menos carros entrem na cidade, é que os cidadãos de Lisboa tenham direitos que são uma extensão da forma como contribuem para a cidade – e que por isso mesmo não podem ser vistos em pé de igualdade com os outros. Viver em Lisboa não pode ser um castigo.


Por isso a EMEL, nos termos em que existe, não tem razão de ser. É feita para punir cegamente, e não para proteger a cidade – o que quer dizer proteger quem a habita de facto. E ou se modifica, ou as suas campanhas para granjear simpatia serão apenas um desperdício de dinheiro, que afinal é de todos os que vivem em Lisboa.


 


ESTADO – Uma ex-esperança do PS, Francisco Assis, insurgiu-se esta semana contra o que designou por ataques do PSD ao Estado Social. Deixemos de lado o facto de o processo de revisão constitucional lançado pela actual direcção do PSD ter sido um gigantesco tiro no pé que parece um trabalho de contra-espionagem do PS. Passemos à substância da argumentação do PS sobre o Estado Social, mas tenhamos em conta dois períodos: os Governos Guterres entre 1995 e 2002 (sete anos) e os Governos Sócrates entre 2005 e a actualidade (quase seis anos). Nos Governos Guterres foi alargado de forma significativa o conjunto de apoios sociais do Estado, muito para além do que era razoável. O resultado foi um brutal aumento da despesa, que não foi compensado por cortes noutros sectores ou por mais receitas. A má gestão de Guterres, feita de boas intenções, mas cheia de deficientes cálculos, já se sabe que foi culpada em grande parte pela situação actual de desequilíbrio das contas públicas. E nos dois – três primeiros anos de Sócrates a imprudência nesta matéria continuou. Em contrapartida, como se tem visto no último ano e meio, quem está a cortar no Estado Social, e de forma abundante, é o próprio PS e não o PSD. A questão é clara: o PS atabalhoadamente instituíu medidas que desequilibraram o sistema – e agora – Bruxelas dixit - é o primeiro a fazer cortes, às vezes cegos como na educação e saúde, mas sendo incapaz de noutras áreas controlar o aumento da despesa pública. Por isso o palavreado socialista sobre o Estado Social é de uma enorme demagogia. Na realidade, pelo que fez e pelo que não fez, o PS tem sido o seu principal coveiro.


 


ARCO DA VELHA – O Secretário de Estado Laurentino Dias é acusado de ter instigado o imbróglio Queiroz; O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado, disse que o assunto prejudicava a imagem do país; O Ministro Pedro Silva Pereira, que tutela Laurentino Dias, acha que a polémica não prejudica nada Portugal. Ninguém se entende numa casa destas?


 


VER – Imagens fotográficas de André Gomes e de Duarte Amaral Netto estão, a partir desta semana ,na Galeria Baginski, mostrando duas formas bem diferentes de encarar a utilização deste meio. Duarte Amaral Netto percorre memórias pessoais e André Gomes explora a forma como os espelhos reflectem imagens à sua volta, questionando a simplicidade do olhar . É um contraste curioso. Rua Capitão Leitão 51 e 53, no Beato.


 


LER – «Instruções Para o Cozinheiro Zen» é um texto de um monge japonês, Tenzo Kyôkun, escrito na primavera de 1237. Não se iludam sobre o título – na realidade é uma lição de vida, de organização de trabalho, de forma de pensar e agir, e é também uma delicada introdução ao pensamento Zen. A edição, da Assírio e Alvim, colecção Gato Maltês, é completada por um interessantíssimo texto de Yves Shoshin Crettaz, um monge suíço que é responsável pelo Dojo Zen, de Lisboa e que nos ajuda a enquadrar a obra original.


 


OUVIR – Belíssimo o novo CD do pianista de jazz belga Jef Neve, acompanhado pelo cantor norte-americano José James. Juntos  percorrem clássicos como «Autumn in New York», «Embraceable You», «Body And Soul» ou «For All We Know», entre outros. Neve é um pianista sensível e James é um cantor felizmente atrevido, nascido no hip-hop e que evoluiu para os blues e o jazz.


 


PROVAR – No Guarda Mor há duas coisas imbatíveis: a simpatia de Sofia Carvalho, a comandar o restaurante, e a arte da cozinheira Matilde Campos em clássicos como peixinhos da horta ou pataniscas de bacalhau. Mas tudo o resto é bom – do patê de pato com chutney que está no couvert, aos filetes de peixe galo com arroz de grelos. Ao longo dos anos o Guarda Mor tem sabido manter a qualidade, o que nem sempre acontece nesta Lisboa.   Rua do Guarda Mor 8, em Santos O Velho,  telefone 213 978 663.


 


BACK TO BASICS – A maneira de se conseguir boa reputação reside no esforço em se ser aquilo que se deseja parecer – Sócrates (469-399 a.C.)


 

setembro 14, 2010

UM ANO EM INTERVALO

(Publicado no diário Metro de dia 14 de Setembro)


 


Há um ano, a 27 de Setembro, José Sócrates venceu pela segunda vez as eleições legislativas. Lembram-se das promessas que então fez? Lembram-se do programa do PS? Lembram-se dos discursos de campanha dos socialistas? Lembram-se do horizonte radioso prometido para o país?


Um ano depois a realidade é sombria – aumentou o desemprego, diminuem os apoios sociais,  aumentam os impostos e continua a crescer a despesa pública – apesar da série de cortes no estado social que o PS já foi fazendo.


Tudo indica que os próximos 12 meses vão ser um período de vazio, um intervalo onde se irá fazer muito pouco,  num governo ainda recente mas já desgastado e incapaz de promover as reformas necessárias, incapaz de definir uma estratégia, um Governo que irá continuar mero seguidor das imposições orçamentais da União Europeia.


O pretexto para este dramático interlúdio de inacção é a próxima eleição do Presidente da República, que acabou por servir de tampão para a crise. Graças às normas constitucionais entrou-se naquele período em que,  por pior que o Governo governe, nada se pode fazer. Na prática durante um ano Sócrates tem um seguro de vida garantido pelos prazos constitucionais. Na apresentação do Orçamento de Estado de 2012, que se fará daqui a um ano, veremos qual o estado do país.


Estes 12 meses que aí vêm não vão ser fáceis. Quase de certeza existirá um agravamento – directo ou indirecto – de impostos, a classe média será mais uma vez penalizada, a despesa pública continuará a aumentar, e o Estado terá cada vez maior dificuldade em se financiar.


Em Setembro de2011 estaremos pior. Viveremos pior. Teremos menos perspectivas. O Governo, a continuar assim, continuará cada vez mais autista, incapaz de perceber a necessidade de fazer um pacto de regime claro e transparente, com objectivos, que garanta uma efectiva estabilidade, em vez desta paz poder que consome os nossos recursos e a nossa paciência. Não ter utilizado os mecanismos possíveis para assegurar um pacto de regime e um governo de maioria alargada, é uma herança que este Presidente deixa e que sairá caríssima.

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 10 de Setembro)

PRESIDENCIAIS- Cavaco Silva entreteve a última semana em que podia pôr o Governo na ordem com recados à oposição. Fez uma espécie de conselho político a Passos Coelho, em matéria de orçamento, e um conselho táctico ao relembrar que o desemprego é o tema que deve ser falado e combatido na acção política. Sugeriu, portanto, uma espécie de um manual de instruções ao PSD. Pelo caminho deixou cair a dúvida sobre a não redução dos valores salariais dos gabinetes do Primeiro Ministro e do Presidente da Assembleia da República, que não foram incluídos entre aqueles que iriam sofrer cortes; depressa os visados vieram aceder ao desejo Presidencial.


No entretanto vê-se de forma cada vez mais clara que a direita não tem candidato – e não me interessam nada os motivos de origem religiosa invocados por alguns. Cavaco, como os tempos, mesmo os mais recentes, têm mostrado, é o melhor Presidente da República para Sócrates, apesar das divergências pontuais e da alguma acrimónia pontual entre os dois . E Sócrates é o Primeiro Ministro que Cavaco estima, porque lhe dá oportunidade de tomar umas posições e o poupa a recomendações impopulares.


Cada vez mais se observa como Cavaco é, de facto, o candidato do regime. Por exemplo, se fosse Alegre a estar em Belém o Plano de Estabilidade e Crescimento seria mais difícil e Sócrates começaria rapidamente a arrancar cabelos. Na realidade, não havendo candidato de direita, Cavaco Silva parece ao senso comum da grande massa central do eleitorado como o menos mau – pelo menos tendo em conta o resto do folclore indígena. Manuel Alegre é um conservador com paleio social e um lunático em matéria prática, que na verdade é o candidato do Bloco de Esquerda levemente apoiado pelo PS. Fernando Nobre foi lançado às feras, não tem programa nem bases, apenas umas vagas promessas de notáveis que muito provavelmente não se cumprirão. Na realidade Fernando Nobre é o candidato soarista sem apoio do PS nem de nenhum partido e não se percebe porque não se retira enquanto é tempo. Neste cenário Cavaco Silva está perigosamente perto de ser o candidato  que Sócrates quererá suportar , mesmo que tenha o apoio do PSD e PP. Estas presidenciais vão ser um jogo de aparências e uma prova mais da falência do regime em matéria de clareza de opções. E, claro, com Cavaco eleito Sócrates espera que o eleitorado não vote nas próximas legislativas naqueles que o levaram a Belém.


 


FUTEBOL – O caso Queiroz é um mistério que dava para escrever um policial dos bons. A Selecção Nacional foi abatida na praça pública para servir os interesses e as guerrilhas de órgãos institucionais, apadrinhados pelo Governo, caso da Federação Portuguesa de Futebol. Em vez de tomarem decisões e serem frontais, escolheram o método da conspiração como forma de actuação. Quem manda no Futebol destruíu neste último mês o pouco que restava da Selecção. Tudo isto é um espectáculo triste de mentira, hipocrisia e cobardia – nada daquilo que se espera do desporto.


 


PUBLICIDADE – Neste momento existe uma elevada probabilidade de que, no final deste ano, os valores globais do investimento publicitário em meios digitais se aproximem muito dos valores do investimento na imprensa diária. As estimativas actuais apontam para que a publicidade em canais de cabo e na rádio já tenha ultrapassado o montante dos jornais diários e a internet está muito mais próxima do que na mesma altura do ano passado. O panorama geral dos estudos e estimativas actuais é este: as estações de televisão RTP, SIC e TVI captam ligeiramente acima de metade do total do investimento e não sofrem grande alteração, os canais de cabo sobem quase 30%, os meios digitais também andam num crescimento de 30% e a imprensa diária cai cerca de 15%, depois de já ter caído no ano passado cerca de 28% em relação a 2008. Vamos ver o que os números do último trimestre do ano trazem, mas tudo indica que a paisagem do investimento publicitário no final de 2010 será bastante diferente, na repartição de volume pelos vários media, que no ano passado.


 


ARCO DA VELHA – Invocando um grande apoio a boas práticas ecológicas, a EMEL colocou 12 bicicletas para alugar que, no entanto, só podem ser usadas pelos assinantes dos seus parques e mesmo assim mediante pagamento suplementar. Sá Fernandes já pode dizer que há 12 bicicletas de aluguer em Lisboa. O ridículo mata e a EMEL cada vez se assume mais como uma empresa de fretes ao executivo camarário, cuja missão é penalizar os lisboetas.


 


VER – A retrospectiva da obra do pintor  inglês Victor Willing inaugurou esta semana na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, em simultâneo com outra exposição da pintora, «Paula Rego Anos 70 – Contos Populares e outras histórias». Willing foi casado com Paula Rego e tem uma importante e curiosa obra. Morreu em 1988 e a sua pintura tem vindo a ganhar progressivo reconhecimento. Se ainda não conhecem a casa das Histórias não percam esta oportunidade – até porque ficarão surpreendidos pelo trabalho de Victor Willing – que ficará exposto até ao dia 2 de Janeiro.


 


LER – Fantástico o número de Setembro da edição americana da revista Wired (já disponível em Portugal e no site da revista). O título de capa é uma deliciosa provocação: «The Web Is Dead» - mas lá dentro explica-se em detalhe que isto quer dizer que a Internet está bem viva. Paradoxo? – nem por isso. Levanto uma ponta do véu – a vida da internet baseia-se na tendência para cada vez existirem mais aplicações e serem elas de facto que são utilizadas e geram movimento – a Web aberta está a ser trocada por serviços mais simples e direccionados que cumprem de forma eficaz o seu objectivo  e que aliciam milhões de utilizadores. Acessoriamente existe um excelente artigo sobre a evolução provável da televisão nos próximos anos – a questão não é tanto o que se pode ver, mas como os espectadores vão ver o que quiserem. E, aqui, a internet, aposta a Wired, vai ter um papel decisivo. São dois artigos imperdíveis.


 


OUVIR – Surpreendente e inesperado o novo disco de Lloyd Cole, «Broken Record», é cheio de influências norte-americanas já que é nos Estados Unidos que ele vive hoje em dia. Longe vão os tempos de «Rattlesnakes» o álbum que em 1984 colocou no mapa Lloyd Cole e os seus Commotions. Com forte inspiração da «country» americana, Broken Record assume de forma clara o lado pop que fez a fama e a fortuna de Cole. Boas canções, produção cuidada, uma voz inesperadamente fresca. Aqui está um bom momento discográfico.


 


PROVAR – No regresso à cidade um restaurante popular com uma qualidade inesperada e uma dimensão apreciável. Fica nas traseiras da Avenida de Roma, no Largo Machado de Assis, ao fundo da Conde de Sabugosa – o Dom Feijão localiza-se no pátio de uma série de prédios novos que ali foram construídos nos últimos anos. O destaque vai para a qualidade do peixe, que permite grelhados recomendáveis e algumas boas frituras. Nas carnes umas honestas iscas e um bom cabrito assado são opções recomendáveis. Ao sábado há cozido. O restaurante tem 100 lugares, o preço é comedido, a garrafeira é extensa. É bom local para juntar vários amigos numa mesa.


Dom Feijão, Largo Machado de Assis 7D, telefone 218464038, fecha aos domingos.


 


BACK TO BASICS – Aqueles que não fazem nada estão sempre dispostos a criticar os que fazem algo – Oscar Wilde

setembro 07, 2010

SENHOR COSTA EXTINGA A EMEL!

(Publicado hoje no diário Metro)


 


O semanário «Expresso» noticiava esta semana que Lisboa é a cidade europeia onde é mais caro estacionar um automóvel nos parquímetros de rua. Ou seja, é mais caro que Londres, Madrid, Milão ou Amesterdão. Os automobilistas lisboetas, que vivem na cidade, pagam os seus impostos na cidade e trabalham na cidade, são penalizados e perseguidos.


A EMEL, uma entidade que a Câmara Municipal de Lisboa devia ter a coragem de extinguir, gaba-se de ir ter lucros record, à custa dessas tarifas altas e de abusos de poder sistemáticos – que passam por ser rápida e muitas vezes abusiva a bloquear e a multar e muito lenta a desbloquear ou a responder a queixas e protestos dos utentes. A EMEL é uma empresa que maltrata os clientes, que despreza os  munícipes e que faz campanhas de publicidade absolutamente enganosas sobre os seus métodos e fins. Basta olhar para o recente devaneio de José Sá Fernandes, que queria à viva força introduzir bicicletas de aluguer em Lisboa, talvez na tentativa de ter alguém a circular nas ciclovias que construíu de forma absurda. Quem lhe satisfez o capricho? A EMEL, claro, que lançou com parangonas o existência de doze – reparem bem no astronómico número – DOZE bicicletas para os utentes dos parques de estacionamento. E que utentes são esses? Apenas os clientes dos parques com assinatura mensal. Se isto não fosse risível seria um dramático sinal de incompetência e saloice.


Na zona onde trabalho, nas Avenidas Novas, é frequente ver os esbirros da EMEL a bloquearem carros que não estão mal estacionados, apenas excederam o tempo, enquanto assobiam perante as duplas filas. E com alguma frequência os carros da EMEL estão mal estacionados em cima de passagens de peões. Uma vez enviei uma foto de uma situação destas para a própria EMEL, protestando, e explicaram-me que os infractores estavam apenas a trabalhar e tinha sido por pouco tempo. Senhor António Costa, e não se pode extinguir esta empresa parasita? Vá lá, faça alguma coisa por Lisboa, já que tão pouco tem feito.


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Setembro)

MUDAR – Uma das coisas que mais estraga a imagem de um político (e de um partido), é a sucessiva alteração de propostas, é a falta de uma linha clara. Modificações em relação ao que é inicialmente apresentado, confusão na explicação de ideias, atropelos e zigue-zagues na respectiva comunicação, são tudo factores que levam à desconfiança e, pior, ao descrédito. José Sócrates tem sido vítima disto mesmo – prometeu muito, fez pouco, todos os dias dá o dito por não dito e apregoa o contrário se necessário for. A simples análise do percurso do actual Primeiro Ministro devia levar futuros candidatos ao lugar a terem os maiores cuidados nestas questões. Como Confúcio dizia, «estudem o passado se querem saber definir o futuro» - eis um ensinamento que os aspirantes ao poder deviam ter sempre em conta.


Contrariamente às expectativas, a nova direcção do PSD tem tido, nesta matéria,  um percurso sinuoso e que tem prejudicado a sua imagem. Primeiro, na forma como acordou com o PS  o seu apoio ao plano de restrições económicas; depois, na questão da revisão constitucional – anunciando o que se pretendia fazer para depois ir recuando numa série de pontos; e agora no tema da viabilização do orçamento – entre o discurso do Pontal e os discursos da Universidade de Verão sobre esta matéria há diferenças sensíveis.


É sempre interessante fazer testes utilizando focus groups bem estruturados para avaliar a reacção a algumas propostas e, eventualmente, face aos resultados, afiná-las. Só que o jogo de utilizar a opinião pública e o eleitorado em geral para testes pode ser fatal. Ninguém gosta de indecisos e o PSD está perigosamente a repetir a indefinição, o ajuste,  a correcção.


O fundamental seria ter uma estratégia linear simples, feita de pontos fundamentais, claros e perceptíveis, com medidas claras e exequíveis, que não tivessem que ser demasiado explicadas nem alteradas conforme a situação. Assim dá ideia de que se está a disparar um bocado à toa em diversas direcções. Este não é certamente o caminho mais seguro para construir uma alternativa credível a um Governo que, desde o primeiro dia, fez da demagogia a sua forma de comunicar: O PS prometeu mais emprego e deu mais desemprego, prometeu menos impostos e aumentou a carga fiscal, prometeu reduzir a despesa pública e aumentou-a – tudo, sempre, com o argumento de se adequar à realidade e às circunstâncias. Quem quer ser Governo, como o PSD, não devia correr o risco de, em matéria de adequação às circunstâncias, se parecer com o PS na flutuação e variação de declarações e objectivos


 


REGIME – Armindo Monteiro, que tem trabalho feito no associativismo empresarial e que dirige a Compta, deu esta semana uma entrevista a este jornal onde disse uma das coisas mais importantes colocadas na praça pública desde há muitos meses: «Gostava que em Portugal não existissem empresas de regime». Por outras palavras Armindo Monteiro veio dizer que em Portugal há empresas que se vão encostando aos partidos, e depois aos Governos, para em troca de apoios e favores, terem facilidade nas adjudicações, nos contratos e nas encomendas. Todos sabemos as numerosas histórias que sobre esta matéria se têm passado em sucessivos Governos, mas com grande peso nestes últimos anos. Cada vez que o poder está em vias de mudar de mãos, como acontecerá a médio prazo, vê-se logo uma procissão de futuros apoiantes, que vão facilitando tudo na expectativa de que mais à frente possam fazer parte do círculo dos eleitos para os bons contratos. Estas são as empresa do regime de que fala Armindo Monteiro. São uma praga, favorecida pela forma como os partidos continuam a ser financiados, como as suas campanhas, estudos e actividades se desenrolam. Quando Armindo Monteiro diz que gostava que o Estado escolhesse em função da competitividade, e não dos apoios de regime, diz uma coisa mais importante que qualquer proposta de revisão constitucional. Estas são as mudanças que interessam.


 


INCÊNDIOS – Seguindo com alguma atenção o que se passou este ano em matéria de incêndios chega-se a uma conclusão quase cristalina: bombeiros, Protecção Civil e autarcas esforçaram-se em todas as circunstâncias, estiveram na primeira linha da acção e concentraram todos os meios que podiam. É justo reconhecer que o Ministro da Administração Interna se envolveu ele próprio nos casos mais complicados e desbloqueou meios e apoios. Mas também se nota como em todo este processo os Governos Civis são de uma total inutilidade, que culminou com a extraordinária reacção do Governador Civil de Vila Real aos protestos de autarcas sobre o que estava a acontecer no incêndio que esta semana consumiu a zona do Gardunho, Boticas e Ribeira da Pena. Alexandre Chaves, o Governador Civil de Vila Real, disse em declarações à rádio, que os autarcas não tinham razão porque haviam de compreender que à noite, não se conseguia fazer trabalho de coordenação – ou seja, que à noite era impossível trabalhar e cumprir a sua missão. Os Governadores Civis são hoje meros cargos honoríficos, que se limitam a cobrar umas taxas e a estar presentes em cerimónias oficiais. A sua utilidade é mais que discutível. Extingui-los, passar muitas das suas competências para as autarquias, era uma boa forma de contribuir para diminuir a despesa pública. E não me parece que seja preciso fazer uma revisão constitucional para isso – embora possa afectar a distribuição das benesses partidárias…


 


EXEMPLO – Num recente artigo Tyler Brulé, colunista do« Financial Times» e editor da revista «Monocle», disse mais ou menos isto: As empresas de energia e telecomunicações no Brasil podem ser o motor para a economia do país, mas são coisas como a música, a moda, a hotelaria e o design que fazem com que a marca Brasil seja cada vez mais apelativa e sexy, comparando com os outros países BRIC – China, Rússia e Índia. O resumo é simples: criatividade, criatividade, criatividade; ligação da indústria com os criadores; cultura contemporânea e popular – é  isto que faz a marca de um país. Brulé tem razão.  A imagem de um país hoje passa por estes pontos – a política cultural contemporânea é isto que deve estudar, é isto que deve procurar incentivar. Quem ficar nas rotinas e burocracias antigas acaba a morder o pó.


 


ARCO DA VELHA – O caso Queiroz é todo ele um bruxedo do princípio ao fim. Mas uma coisa é certa: Ricardo Araújo Pereira é quem melhor resumiu a situação, comentando que Carlos Queiroz só joga ao ataque em entrevistas e declarações a órgãos de comunicação.


 


LER – A edição de Setembro da «Monocle» tem como tema de capa o rebranding que a revista entende ser necessário fazer à Grã-Bretanha. Vale a pena ler porque muito do que lá está escrito se podia aplicar a outros locais, Portugal incluído. Só por curiosidade esta edição da revista tem artigos sobre o Brasil, Angola,  Moçambique e  Macau, mas a única referência a Portugal , meio lateral, vem do elogio ao novo disco dos Walkmen, intitulado «Lisbon».


 


OUVIR – A mais recente criação de Keith Jarrett com Charlie Haden é o CD «Jasmine», por acaso o primeiro disco de ambos que é exclusivamente para piano e baixo. O disco é também o primeiro registo de estúdio de Jarrett nos últimos 12 anos. O repertório para este duo piano/baixo é baseado em standards norte-americanos e baladas, de diferentes épocas. O entendimento entre os dois músicos, cuja ultima gravação em conjunto tinha sido há cerca de três décadas, é perfeito mas nada rotineiro – na realidade a improvisação joga um papel importante e há momentos em que se torna evidente o gôzo que os dois estavam a sentir com a música que estavam a tocar. (CD ECM, na FNAC).


 


BACK TO BASICS – O único encanto do passado é que já passou – Oscar Wilde