janeiro 19, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 16 de Janeiro)

 


FONTES - Existe há muitos anos uma forma muito curiosa de fazer contra-informação: atribuir a origem de uma determinada notícia a uma fonte que efectivamente não disse nada, mas que faz parte do círculo envolvido na notícia. Não sou dado a demasiadas teorias conspirativas, mas tem-me passado pela cabeça que algumas fontes políticas referidas como sendo «fontes de Belém» se calhar poderão conjunturalmente estar a provar pastéis em Belém mas são mais oriundas da zona de S.Bento ou da Rua Gomes Teixeira do que de outro sítio qualquer.

 

MUNDIAL – Tudo indica que começou a campanha para semear ilusões e criar despesa com o pretexto do Mundial de Futebol e uma hipotética candidatura conjunta de Portugal e Espanha como organizadores. Eu sei que os Governos gostam de utilizar o futebol para gáudio e engano da populaça, mas a verdade é que todo o dinheiro que delapidam no futebol é dinheiro que não vai para apoiar a criação de postos de trabalho, para apoiar indústrias que exportam, para apoiar manufacturas em extinção e que, no futuro, podem fazer a diferença. Já o mesmo não se pode dizer do que se gastou na construção de Estádios para o Europeu…

 

PENA – É uma pena que empresas tradicionais de cerâmica estejam nas dificuldades em que estão. É triste ver que fecham empresas produtivas, que diminui ainda mais o nosso tecido fabril. Quando olho para o se passa com a fábrica responsável pelas criações de Rafael Bordalo Pinheiro, quando olho para cerâmicas que encerram, quando olho para as ameaças que pairam sobre a Vista Alegre, reconheço que é urgente rever as formas de apoio – a todas estas empresas faz falta comunicação, faz falta publicidade, faz falta investimento na comercialização, mais do que até na produção. Na realidade, por melhores que sejam as peças, se ninguém percepcionar as marcas nem o seu valor dificilmente elas terão possibilidades de sobreviver. Faz falta uma análise do que se passa neste capítulo – a gestão e a divulgação das marcas portuguesas, um acompanhamento e aconselhamento na forma de fazer uma comunicação comercial continuada e eficaz, que se reflicta em vendas. Numa conjuntura como a que estamos a viver, com retracção do investimento publicitário, existe a oportunidade de, com volumes de investimento menores, conseguir uma notoriedade mais rápida e maior que noutras épocas. Aqui está uma coisa em que Manuel Pinho e a sai equipa poderiam pensar.

 

VAZIO – Um mandato inteiro de Governo a impôr sacrifícios para resultados bem escassos – a posição global de Portugal não melhorou, uma entidade tão credível como a Standard & Poor’s alerta para o aumento da despesa e diz que a Reforma da Função Pública ficou aquém do esperado. O relatório da Standard & Poor’s é qa confirmação de que continuamos um país adiado.

 

COISAS DE QUE EU GOSTO – A escolha de Isabel Carlos para dirigir o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, ouvir a «Íntima Fracção», de Francisco Amaral, na internet, saber que os Xutos & Pontapés estão «alive and kicking» ao fim de 30 anos, poder ler o Miguel Esteves Cardoso todos os dias, saber que o Fernando Sobral aqui escreve, neste jornal, diariamente, coisas tão lúcidas como esta citação: « Ronaldo ilude num país desiludido. É um fogo de artifício».

 

VER – A exposição «Bone Lonely» de Paulo Nozolino na Galeria Quadrado Azul (Largo Stephens 4, entre o Chiado e o Cais do Sodré). São 32 fotografias, todas deliberadamente em enquadramento vertical, feitas ao longo de vários anos, todas a preto e branco, impressas em laboratório, tiragem de prova única. É uma bofetada de luva branca no exibicionismo das ampliações gigantes de imagens a cores, banais, que vivem de deificar o óbvio e é uma demarcação do mau gosto e da vulgaridade, dominantes na fotografia nos últimos anos. A exposição estará patente até 21 de Fevereiro e em Maio será publicado um livro que reproduz estas imagens, acompanhadas por poemas de Rui Baião.

 

LER – Recomendo que leiam a «Ler», a revista mensal editada pelo Círculo de Leitores, dirigida por Francisco José Viegas. Em Dezembro fiquei a perceber que estes números de fim de ano são para guardar – resenha de livros, tendências, coisas, que marcam. Todos os meses há ideias novas, alguns colunistas interessantes (Agualusa, Pedro Mexia, Filipe Nunes Vicente), outros nem por isso, mas sempre um lúcido editorial do Director e boas entrevistas. A edição de Janeiro tem Agustina Bessa-Luís na capa e já está por aí ao módico preço de cinco euros.

 

PROVAR – No espaço de restauração do Teatro de S.Luiz abriu há pouco tempo o «Spot S.Luiz», que faz parelha com outro espaço de igual designação que existe no Casino de Lisboa. A direcção culinária é de Fausto Airoldi, mas no caso do S.Luiz, a batuta efectiva da cozinha está na mão de António Latas, que sai muito bem da aventura. Nas entradas recomendo as cascas de batata brava e confesso que só encontrei razões para elogiar o bacalhau fresco escalfado com um «à Braz» contemporâneo e o risotto de lima. Vinhos simpáticos a copo, serviço a precisar de ser afinado. Telefone – 213430253.

 

OUVIR - «Amoureuses», o disco da soprano Patrícia Petibon, acompanhada pela Concerto Koln dirigida por Daniel Harding, a interpretar árias de Haydn, Mozart e Gluck, todas em torno do amor. Petibon tem um notável controlo vocal, uma técnica flexível e uma voz cristalina.

 

ADIVINHA – Qual é a distância entre fazer fretes em entrevistas e criticar a afirmação de opiniões em editoriais?

 

BACK TO BASICS - «O luxo não se baseia nem na riqueza nem na ornamentação mas na ausência de vulgaridade. A vulgaridade é a pior palavra que existe e todo o meu trabalho visa combatê-la» - Coco Chanel.

SERVIÇO CÍVICO

 


(Publicad0o no Diário Meia Hora de 13 de Janeiro)

 

Num tempo em que tantos Institutos e Observatórios são criados por todo o lado eu gostava que fosse criado um Observatório da Política. A missão deste Observatório seria comparar os actos dos políticos eleitos com as promessas feitas quando se apresentaram a votos, comparar a acção dos políticos na oposição com o que prometeram nas respectivas campanhas, avaliar o desempenho de partidos, de dirigentes partidários, e dos titulares de cargos públicos.

Vou um bocadinho mais longe: não é só o partido vencedor das eleições que merece ser escrutinado face às suas promessas – também os derrotados devem depois passar pelo crivo da comparação entre os programas eleitorais e promessas avulsas realizadas e a verdade dos factos no dia a dia da acção política.

Infelizmente a demagogia e a mentira tornaram-se no mal maior da política contemporânea. Ganham-se eleições a prometer reduzir impostos, quando se chega ao Governo aumentam-se logo; e, inversamente, defende-se o aumento dos impostos quando se é Governo e depois a redução quando se passa à oposição.

A falta de seriedade dos políticos é a maior causa para o desinteresse dos cidadãos. É triste mas os chamados partidos de Governo comportam-se todos da mesma forma: quando pedem um voto, na prática estão a pedir um cheque em branco – não interessa o que os seus programas eleitorais dizem, não interessa o que os dirigentes prometem, a passagem das ilusões, utopias e sonhos a promessas descartáveis acontece no exacto momento das tomadas de posse.

Este Instituto da Política devia ser criado com declaração de urgência por forma a ainda poder servir de alguma coisa neste ano eleitoral: que fizeram os deputados europeus eleitos em Portugal? Como se comportaram eles? Quem sabe se cumpriram programas? Que balanço fazer dos deputados à Assembleia da República? Que dizer dos membros do Governo que em eleições prometeram uma coisa e depois passaram o mandato a fazer o contrário? Que dizer dos líderes de oposição que também não se lembram do que garantiam ser o melhor para o país? Que dizer dos autarcas que deixaram as cidades e vilas pior do que as encontraram e que não respeitam o bem estar de quem lá vive?. O fundamental é que cada um de nós analise o que se passa à sua volta e retenha na memória as promessas para as comparar com a realidade.

 

janeiro 12, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 9 de Janeiro)

TRAPALHADAS - Primeiro foi José Sócrates a admitir que podia, afinal, existir recessão. Como por milagre, no dia seguinte, Vítor Constâncio, o Governador do Banco de Portugal que se está a especializar em desdizer-se, confirmou o cenário de recessão. Depois o Ministro das Finanças apareceu a dizer que o Orçamento de Estado necessitava de ser actualizado e corrigido, confirmando as dúvidas levantadas pelo Presidente da República, mas contradizendo declarações oficiais do Governo e do Grupo Parlamentar do PS sobre esta matéria. Pelo meio José Sócrates admitiu que antecipar as legislativas podia ser uma boa ideia de ajuste do Calendário Eleitoral aos seus interesses, contrariando também o enorme sururu que uma análise feita nesse sentido, há semanas, por Pedro Santana Lopes, levantou nas hostes socialistas. Afinal o país está em recessão, afinal o PS quer eleições legislativas mais cedo, afinal o Orçamento de Estado contém erros e é insuficiente. Quer dizer – tudo o que o PS e o Governo andaram a dizer no último mês e meio que não existia veio a confirmar-se verdadeiro. É um cenário de enormes trabalhadas, mentiras e grande impreparação. Se Jorge Sampaio fosse ainda Presidente da República se calhar Sócrates era despedido.  

 


COMPADRIOS - A decisão do Governo de permitir obras públicas até cinco milhões de euros sem concurso público, por simples ajuste directo, é um escândalo, sobretudo num ano de eleições legislativas e autárquicas. São medidas destas, que favorecem compadrios, que tornam o Estado menos transparente, são medidas destas que fazem crescer a desconfiança nos Partidos e nos políticos, são medidas destas que delapidam o erário público em obras de fachada. João Cravinho, que aqui queria combater a corrupção, que dirá deste assunto sentado no gabinete para onde foi despachado, em Londres? 

 


 


GERAÇÃO - Há uma geração, que situo entre os vinte e muitos e os trinta e poucos anos, nascida e criada depois de 1974, que tem uma posição de enorme pragmatismo sobre a sociedade, a política, a participação cívica, os partidos, a ética e a responsabilidade. No geral são individualistas em extremo, sem ideologias nem causas, e desejam apenas que «isto ande». São a grande base eleitoral de José Sócrates, algures entre a social-democracia e o liberalismo, definitivamente longe da esquerda e da direita tradicionais. Este é o novo centrão, que olha para Sócrates como um dos seus e espera que ele se mantenha no seu posto. Não é uma imagem tranquilizadora… 

 


 


CITAÇÃO 1 - «Para não dar azo a muitas especulações vou sintetizar: quero que Israel ganhe a guerra contra o Hamas, o Hezbollah, o Irão e os fundamentalistas árabes. Que os palestinianos tenham uma pátria. Que em Israel e na Palestina os moderados consigam impor uma negociação.» (Luís Januário, blogue «A Natureza do Mal»). 

 


 


CITAÇÃO 2 - «Sócrates é uma melancia nascida no jardim de Maquiavel, de todas as cores por fora desde que o centro seja comestível» - Fernando Sobral, neste «Jornal de Negócios». 

 


 


CITAÇÃO 3 - «Eu não me dou com ninguém que tenha apontado uma arma de plástico a um professor, mas quase toda a gente que conheço já fez comentários desagradáveis, ou até insultuosos, sobre o Primeiro-Ministro. Se os primeiros são os brincalhões e os segundos os delinquentes, está claro que preciso de arranjar urgentemente novos amigos» - Ricardo Araújo Pereira, na «Visão», comentando a posição da Directora Regional de Educação do Norte, que há meses suspendeu um professor por ter tido graçolas sobre o Chefe do Governo mas considerou uma brincadeira de mau gosto a ameaça a um professor com uma arama de plástico por um grupo de alunos que exigiam melhores notas. 

 


 


MEDIA - Neste ano que agora começa vai surgir um novo jornal diário, vai ser escolhido (enfim, designado, melhor dizendo) o novo operador de um canal nacional generalista de televisão, as guerras de audiências entre os três canais comerciais já existentes vão aquecer e no meio de um cenário de quebra de publicidade na imprensa o Estado decidiu que as publicidades obrigatórias – fonte de preciosas receitas em jornais nacionais e sobretudo locais e regionais – iria desaparecer para passar imediatamente para a internet. Não houve sequer o cuidado de propor uma diminuição faseada, ainda por cima num ano em que o mercado publicitário vai sofrer as inevitáveis ondas de choque da crise económica. 

 


 


OBRA – Insensível à crise continua o jornal «Lux Frágil», de distribuição gratuita e fruto da iniciativa nocturna e privada. Sob o lema «A Vida É Toda Para Diante», o jornal é um oásis de humor e de negação do pessismismo reinante, desta vez com a reprodução de uma bela gravura de Ana Jotta na capa, muito oportuna nos tempos que correm, construída à volta da frase: « La gente dice que me paso el dia de compras, pêro intento trabajar». Esta edição e números anteriores felizmente disponíveis em www.blog.luxfragil.com . 

 


 


CLÁSSICO – Um restaurante a que se volta sempre é «A Isaura», Avenida de Paris, 4B, telef 218480838. As opções de pratos do dia são frequentemente fantásticas e muito bem confeccionadas, a lista de vinhos é um manual de como escolher o melhor vinho para a refeição e uma fonte de sabedoria. O serviço é um pouco «deixa lá que a comida é boa e o preço dos vinhos não é mau e eles acabam sempre por cá voltar». Mas a minha lebre com feijão branco estava bem boa.  

 


 


BACK TO BASICS – Deus criou os homens mas são eles que se escolhem uns aos outros – Maquiavel. 

 

janeiro 08, 2009

política reality show

Trazer para uma lista eleitoral um nome como o do ex-inspector Gonçalo Amaral é reduzir a política a uma espécie de reality show que vai a votos. A escolha do PSD para Olhão vai ao contrário do que os partidos precisam para conseguirem ser credíveis.

janeiro 07, 2009

É FARTAR VILANAGEM

(Publicado no diário MEIA HORA de 6 de Janeiro de 2009)



 


Há poucos dias o Governo decidiu autorizar a realização de obras públicas, por ajuste directo, sem concurso público, até ao montante de cinco milhões de euros. A crise e a necessidade de agilizar a execução de novas obras, como contributo para a dinamização da economia, foram as justificações apresentadas. Cinco milhões de euros? - Estamos aqui a falar de obras de uma dimensão razoável, um milhão de contos em moeda antiga.


Como que por feliz acaso esta decisão surge em ano de eleições legislativas e autárquicas – e já se sabe como as obras são sempre um bom argumento eleitoral. Na realidade eu fico completamente espantado com o descaramento da decisão e, também, com o silêncio cúmplice de toda a oposição.


Está visto que vai ser um ano farto em rotundas, obras e obrinhas, arranjos e arranjinhos. O bom senso diz que muito provavelmente, em vez de algumas obras estruturais, mais caras, mais importantes em termos de futuro, mas mais difíceis de autorizar, vão ser malbaratados milhões de euros por esse país fora para satisfazer interesses locais, interesses políticos, interesses partidários.


Uma questão de bom senso e realismo obriga a dizer que, para além dos trunfos políticos que estas obras podem significar, elas podem também auxiliar a encher os cofres das campanhas partidárias graças a generosas e agradecidas contribuições daqueles que forem escolhidos por ajuste directo para tantas obras. Não vai faltar quem queira contribuir e não há-de ser difícil encontrar quem se disponha a receber. É neste pântano que cresce a corrupção.


Gostava de ouvir mais pessoas pronunciarem-se sobre isto, no meio de tanto apelo à moderação, no meio de tanta hipocrisia a propósito de contenção, no meio de uma carga fiscal que não para de aumentar e que atingiu o maior valor de sempre no ano passado. 


Se havia dúvidas de que o regime estava podre e que os partidos que o sustentam para lá caminham, a prova final está aqui. É fartar, vilanagem.


Bem podem os estrategas dos programas dos partidos, a nível nacional e local, desdobrarem-se em promessas de rigor, em juras de honestidade, em declarações de respeito pelo dinheiro dos contribuintes. Os protagonistas desta farsa são os coveiros da confiança dos cidadãos. Não peçam, depois, que as pessoas participem e vão votar. 

 

janeiro 01, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 31 de Dezembro de 2008)

 


EMEL - Vou relatar uma situação real ocorrida esta semana, numa tarde de chuva, com uma amiga minha. Foi ao notário tratar de um assunto e no regresso o carro estava com bloqueadores da EMEL. Ligou para um call center muito moderno e dizem que os desbloqueadores vão a caminho. Factos: o estacionamento foi feito às 11h20, a saída do notário foi às 13h20, o bloqueamento foi feito às 12h05, o primeiro pedido de desbloqueamento foi às 13h25, mas só foi concretizado três horas e meia depois, às 16h50. Pelo meio foram feitos vários telefonemas sempre com a informação de que o assunto estava a ser tratado – com o irritante automatismo dos call centers que efectivamente são um atentado aos clientes. Eu sei que a EMEL é uma organização, patrocinada pela Câmara Municipal de Lisboa, para abusar da paciência dos munícipes. A legalidade da sua plena actuação é questionável, o bom senso dos seus agentes é quase nulo, a eficácia na caça à multa e o abuso de autoridade é directamente proporcional à ineficácia da sua acção quando são chamados a resolver situações. O Dr. António Costa acha três horas e meia um tempo aceitável para desbloquear um carro? Eu por mim sugiro que na próxima campanha autárquica os eleitores castiguem quem não apresentar medidas de reforma da actuação da EMEL.

 

EUROPA - Estou cheio de curiosidade sobre o futuro do Tratado de Lisboa – aliás tenho alguma curiosidade em ver como a União Europeia vai sair da embrulhada em que está no meio da crise financeira. Quis o destino que a próxima presidência da União caiba à Checoslováquia – que por acaso ainda não ratificou o tratado e cujo presidente Vaclav Klaus se tem recusado a hastear a bandeira da Comunidade no alto do Castelo de Praga, a sua residência oficial. Depois do frenesim de Sarkozy vai ser curioso seguir a evolução de uma Europa em roda livre.

 

EUA - A «Newsweek» desta semana resume numa frase curta o que é a missão de Baracak Obama para a História: «O novo Presidente dos Estados Unidos será julgado com base no que conseguir fazer para salvar o capitalismo». Ora aqui está uma coisa que as mentes simplórias devem ter sempre presente.

 

PORTUGAL - No regime português pós 25 de Abril existem dois «golpes de Estado», chamemos-lhes assim: o primeiro foi a dissolução da Assembleia da República por Jorge Sampaio (o pior Presidente do regime), numa sucessão ainda mal explicada de acontecimentos; e o segundo foi a alteração irrevogável dos poderes presidenciais expressos na Constituição, no caso do Estatuto dos Açores. Não certamente por acaso os dois golpes foram protagonizados por socialistas: Jorge Sampaio e José Sócrates. Vale a pena registar a forma como o Partido Socialista trata o regime e os expedientes a que recorre em seu interesse exclusivo.

 

FUTURO - Algo me diz que em 2009 a demagogia vai subir de tom, algo me diz que o populismo vai comandar, algo me diz que o PS vai tentar abusar da sua autoridade, utilizar a maioria absoluta para promover mais abusos. A situação é tanto mais complicada quanto a oposição é fraca, tem pouca capacidade e iniciativa. Nem o básico dos básicos consegue: confrontar o PS com o que faltou fazer em relação a promessas eleitorais e programa de Governo. A situação provoca o desinteresse dos cidadãos, o PS agradece e está a transformar o Estado no seu parque de diversões privativo. Sem a participação dos cidadãos o futuro vai ser dos tiranetes justificados por maiorias absolutas. Nos meus piores sonhos vejo uma junta militar presidida por Sócrates, ladeado por António Vitorino e Santos Silva a acolherem Hugo Chávez com honras nacionais.

 

ALMANAQUE - A revista do ano é sem dúvida a «Monocle», a revista que se tornou uma leitura obrigatória no que diz respeito ás tendências, à evolução das cidades, á forma de pensar e de encarar o Mundo. A edição de Dezembro/Janeiro dedica-se a fazer previsões sobre 2009 e a indicar pistas a seguir, em pessoas, em artistas, em cidades e regiões. No meio, um português surge entre os 20 heróis do futuro próximo,

João Fazenda, ilustrador com trabalhos publicados no «Sol», «Visão» e «Público», além de vários jornais e revistas internacionais. Saibam mais sobre ele em www.joaofazenda.com . A «Monocle» é um verdadeiro almanaque dos tempos que correm.

 

CLÁSSICO - Nestes tempos difíceis nada como regressar aos clássicos. Michael Feinstein é um intérprete pouco conhecido em Portugal, mas reconhecido e apreciado nos Estados Unidos. Tem uma carreira dedicada a estudar e interpretar os clássicos da canção popular norte-americana e é colaborador frequente da «Library Of Congress» nesta área. O seu trabalho mais recente é uma homenagem a Sinatra. Além da capacidade vocal e de interpretação, os arranjos e toda a produção deste disco ( a cargo de Bill Elliott) são absolutamente exemplares. De longe esta é a mais fascinante homenagem a Frank Sinatra feita nos últimos anos. «The Sinatra Project», Michael Feinstein, CD Concord, comprado na Amazon.

 

BACK TO BASICS – «A melhor forma de prever o Futuro é inventá-lo», Alan Kay.

 

dezembro 30, 2008

ABUSOS E PREGUIÇA DA EMEL

Vou relatar uma situação real ocorrida esta semana, numa tarde de chuva, com uma amiga minha. Foi ao notário tratar de um assunto e no regresso o carro estava com bloqueadores da EMEL. Ligou para um call center muito moderno e dizem que os desbloqueadores vão a caminho. Factos: o estacionamento foi feito às 11h20, a saída do notário foi às 13h20, o bloqueamento foi feito às 12h05, o primeiro pedido de desbloqueamento foi às 13h25, mas só foi concretizado três horas e meia depois, às 16h50. Pelo meio foram feitos vários telefonemas sempre com a informação de que o assunto estava a ser tratado – com o irritante automatismo dos call centers que efectivamente são um atentado aos clientes. Eu sei que a EMEL é uma organização, patrocinada pela Câmara Municipal de Lisboa, para abusar da paciência dos munícipes. A legalidade da sua plena actuação é questionável, o bom senso dos seus agentes é quase nulo, a eficácia na caça à multa e o abuso de autoridade é directamente proporcional à ineficácia da sua acção quando são chamados a resolver situações. O Dr. António Costa acha três horas e meia um tempo aceitável para desbloquear um carro? Eu por mim sugiro que na próxima campanha autárquica os eleitores castiguem quem não apresentar medidas de reforma da actuação da EMEL.E ao fim das tr~es horas e meia nem um pedido de desculpa, nem uma justificação - paguem e calem-se. Se fosse comigo tinha-lhes pedido a identificação e solicitado que fizessem um teste do alcóol.

dezembro 28, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Dezembro)

ESCANDALOSO - O que se tem andado a passar na agência Lusa está a começar a ser um escândalo. Uma agência noticiosa é suposta ser uma difusora imparcial e equilibrada de notícias, é suposta ser uma referência de isenção, insensível a manobras e pressões. Isto não é uma utopia, e embora a perfeição não exista, em algumas agências noticiosas ela está próxima. Durante uns anos ( e não foram poucos) , em Portugal, isso também aconteceu, nas diversas encarnações que a Agência Noticiosa nacional teve. Eu orgulho-me de ter estado mais de seis anos na Notícias de Portugal e, depois, no início da Lusa, e sei como existia um corpo de profissionais que defendia o respeito pelo Livro de Estilo, trabalhado a partir dos melhores exemplos internacionais. O que hoje se lê sobre o que se passa na Agência Lusa relata um cenário de pressões e manipulações e é espelho de uma sociedade e de um Estado que perdeu a noção da decência e não olha a meios para atingir os seus fins. No cerne da questão, quem está? O Ministro Santos Silva, claro. 

 


 


HABILIDOSO - Quando eu andava na faculdade lembro-me de ouvir colegas mais velhos a relatarem como Jaime Gama se tinha notabilizado, enquanto dirigente associativo, a condicionar o funcionamento de Assembleias de Estudantes, guardando umas propostas, seleccionado o que iria pôr à votação, fazendo malabarismos na condução dos trabalhos e tentando influenciar, pela via de habilidades processuais, os resultados finais. Talvez por me lembrar dessas histórias nunca tive simpatia pelo personagem. A forma como se comportou, enquanto Presidente da Assembleia da República, na votação do Estatuto dos Açores, veio confirmar que não perdeu a mão nem a imaginação na forma de interpretar os problemas e encontrar as soluções que mais lhe convêm a ele e ao seu partido. 

 


 


APAGADO - O Senhor Nunes, da ASAE, abriu o ano a prevaricar, fumando em recinto público, e fechou-o discreto. As ordens de apagamento a que teve de se sujeitar, as instruções para acabar com os raides á cowboy, a revisão nos processos de actuação e nalgumas leis mostraram afinal aquilo que muitos diziam: ele abusava do poder que tinha, gostava de se mostrar, preferir reprimir e esclarecer. Agora quase ninguém ou vê ou ouve e o mundo continua a girar. Mais um espalha-brasas que sucumbiu à sensibilidade do Governo pelos criadores de problemas mediáticos.

 


 


 


 


 


MAL - Coisas que correram muito mal este ano: a propaganda e as mentiras em torno do computador «Magalhães» e sua distribuição, os recuos nas reformas que enchiam a boca do Governo, o divórcio, cada vez maior, entre cidadãos e política, o Estado querer introduzir o pensamento único na análise da crise, a demagogia permanente de anúncios de obras que não se fazem e de medidas que não se tomam. 

 


 


BEM - Coisas que correram  muito bem este ano: a existência de protestos de cidadãos, de importante dimensão, em casos como o encerramento de centros de saúde, do alargamento da zona de contentores no Porto de Lisboa e também contra os abusos da ASAE.


 


 


 


LISBOA - Neste ano Lisboa estragou-se ainda mais como cidade perante um executivo camarário imóvel e apagado, cujas principais notícias foram a submissão a ordens do Governo (no caso do Porto de Lisboa), a falta de projectos, a inexistência de políticas sectoriais, o desaparecimento cada vez mais acentuado do vereador do Urbanismo ou a extraordinária mutação de Sá Fernandes que de arauto do Bloco de Esquerda se passou para escudeiro às ordens de António Costa, uma permanente desilusão enquanto Presidente da Câmara.

 


OUVIR – O novo disco do sexteto de Dave Holland é uma lufada de ar fresco para ajudar a passar estes dias entre o Natal e o Ano Novo. Depois de ter deixado para trás a Dave Holland Big Band, este sexteto evoca na realidade uma pequena orquestra, factor para o qual muito influi a forma como o piano de Mulgrew Miller serve de ponte entre os vários músicos, quase como se fosse quem comanda os arranjos, onde o saxofone de António Hart é incontronável.Seis dos nove temas vêm de discos anteriores de Holland, três são inéditos. O que cativa neste registo é a simplicidade e a elegância da interpretação, uma estilização cada vez mais acentuada nestes últimos tempos da longa e variada carreira do contrabaixista Dave Holland. Um dos grandes discos de jazz do ano. (Pass It On, The Dave Holland Sextet, CD Emarcy/ Universal). 

 


LER – Boa surpresa a edição portuguesa da revista «Foreign Policy» (que pertence ao grupo «Washington Post»), e que se edita de dois em dois meses, indo no seu sétimo número. Confesso que não a conhecia e fiquei cliente. Nesta edição, de Dezembro-Janeiro, temos um belíssimo artigo de João César das Neves sobre a crise financeira e um ranking das 60 cidades mais globais do planeta, apara além de uma série de bons artigos sobre religião,  a Europa ou a Guerra do Iraque. A edição portuguesa é dirigida por José Nunes Pereira e Luís Fonseca.

 


 


 


NOVIDADE – Na Bica do Sapato agora há cozido à portuguesa todos os dias. Quem já provou gosta, destaca a qualidade dos enchidos e das carnes e a vistosa sobriedade dos acompanhamentos. A lista tem mais algumas novidades como um belo pato confitado e uns filetes com legumes, ambos comprovadamente a merecerem elogios. Nas sobremesas prove a finíssima tarte de maçã com gelado de alfarroba, é uma combinação irresistível. Cais da Pedra, Junto a Santa Apolónia, telefone 218810320. 


 


BACK TO BASICS – O Presente é a única coisa que não tem fim – Erwin Schrodinger. 

 

dezembro 23, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de Dezembro)

ABSURDO - Por muito que me esforce não consigo compreender como foi possível que grandes bancos, conceituados analistas, consultores de prestígio e especialistas em avaliações, fossem ludibriados ao longo de anos pelos fundos de Bernard Madoff. A única explicação é uma enorme ingenuidade, uma crença acrítica nas possibilidades de gerar mais valias milagrosas, um desfasamento total da economia e do mundo real, e, sobretudo, uma vida passada no universo das ilusões financeiras, de produtos especulativos e não produtivos, de previsões e não de realidades. Madoff é afinal apenas o retrato do absurdo que nas últimas décadas moveu a economia: especulação, especulação, especulação e produtividade zero.


 


 


 


 


 


MISTERIOSO - Existe um curso do INDEG que me chamou a atenção: «Pós Graduação em Empreendedorismo Cultural e Criativo», feito em colaboração entre essa Universidade e o Ministério da Cultura. Um amigo meu, que esteve na sessão de apresentação do curso aos putativos candidatos disse-me uma coisa extraordinária: num curso desta natureza ainda não se sabe quem constitui o corpo docente precisamente das disciplinas nucleares  de Gestão da Cultura e Gestão de Organizações Culturais. Um dos responsáveis do curso, Luís Martins, afirmou na ocasião que seria o Ministério da Cultura a indicá-los (o que é estranho e pouco tranquilizante), mas não deu mostras de achar o conhecimento desses nomes relevante para a decisão dos candidatos – convenhamos que isto é um mistério. Na apresentação do curso que está na Internet também nada consta – e tão pouco uma linha que seja sobre questões tão cruciais nos dias de hoje como gestão de direitos de autor, negociação de royalties, utilizações multimédia de eventos ou gestão de patrocínios, para só citar algumas áreas que em matéria de empreendedorismo podem fazer alguma diferença. A menos que o curso não seja para empreendedores da área mas sim para candidatos a burocratas… 

 


 


FRÁGIL -  Logo à noite ainda pode assistir ao último concerto que Rodrigo Leão dá no Frágil, Rua da Atalaia 126. Celina da Piedade, Viviena Tupikova, Marco Pereira e Miguel Fernandes acompanham Rodrigo Leão. Enquanto o concerto decorre pode ser vista a exposição «Tacto» de Filipa Sottomayor. Ver e ouvir Rodrigo Leão ao vivo num espaço como aquele é uma raridade a não perder. 

 


 


LER - Gonçalo M. Tavares tem uma abundante (e genericamente interessante) produção literária. Uma das facetas mais curiosas desta produção é a série a que chama «Cadernos» e em que  simula delirantes e irresistíveis conversas com figuras da literatura mundial – Paul Valéry, André Breton, Bertolt Brecht ou Ítalo Calvino, entre outros. Nesta série acabei de me deliciar a ler «O Senhor Breton», uma entrevista imaginária,  muito oportuna dada a circunstância de vivermos numa época completamente surrealista nos mais variados aspectos. A escrita de Gonçalo M. Tavares trabalha as palavras, usa-as com gôzo e manobra-as de forma hábil – na realidade torna-se um prazer lê-lo. O livro tem ainda um atractivo suplementar: os desenhos de Rachel Caiano.. Edição Caminho, 56 páginas. 

 


 


VER - Por estes dias pode valer a pena uma visita à Galeria Antiks onde está desde ontem uma nova exposição de fotografias de  Gundula Friese, incluindo uma remontagem da série «O Segredo» , que inclui 13 obras, apresentadas em conjunto, e ainda uma rara série de pinturas «a quatro mãos» da dupla «Combinatione Arrabbiatica», dos artistas Axel Heil e Uwe Lindau. Ao mesmo tempo estão patentes obras representativas da arte portuguesa nos anos 60 e 70, da cuidada colecção da Galeri Antiks Design (Rua Mouzinho da Silveira 2, frente à Cinemateca Portuguesa). Mais informações em www.antiksdesign.com 

 


 


ESCUTAR - Uma das boas surpresas deste Natal é o primeiro disco de Rui Reininho a solo, um sopro de frescura nas edições portuguesas deste ano. O início de carreiras a solo, nesta fase da vida, de membros de grupos que foram históricos, é sempre um risco, mas a verdade é que Reininho se sai muito bem da expedição. É de bom tom reconhecer que Armando Teixeira, dos Balla, nos comandos da produção musical, foi uma inteligente escolha – e eficaz porque é sem dúvida dos mais versáteis e eficazes músicos contemporâneos portugueses. Reininho assina todas as letras , deliciosas, desde «O Estranho Caso do Amante Preguiçoso», até «Dr. Optimista» e «Yoko Mono», passando por «Turbina & Moça», e sobretudo por um tema que – aposto – vai virar clássico: «Al Fakir». O disco inclui versões (Bem Bom», das Doce e «Faz Parte do Meu Show» do romântico brasileiro Cazuza, e temas inéditos, para além de Armando Teixeira, de Slimmy, Margarida Pinto (Coldfinger), Legendary Tiger Man, New Max, Alexandre Soares e Rodrigo Leão. Melhor leque era quse impossível. E o resultado é, de facto, muito bom. Rui Reininho, «Companhia das Índias», CD Sony Music. 

 


 


PROVAR - Ao longo dos últimos meses tenho visto numerosas referências ao restaurante Bocca, que abriu em Lisboa há uns meses, na Rua Rodrigo da Fonseca nº87-D, no local onde durante anos existiu o Chester. A decoração é completamente nova e muito conseguida, há zona de fumadores e não fumadores, o ambiente e a luz são agradáveis. O aspecto geral é melhor que o resultado culinário, simpático mas sem grande história, um pouco pretencioso demais na apresentação em carta e em prato. Num jantar foram provados uns filetes de peixe galo e um risotto que não ultrapassaram a mediania. A carta de vinhos é curta mas com propostas equilibradas e de boa relação qualidade-preço. Resumo – local simpático mas longe de ser um templo da gastronomia. Tel. 213808383. 

 


 


BACK TO BASICS – A verdade é aquilo que passa o teste da experiência – Albert Einstein. 

 

dezembro 17, 2008

UM CLIMA CENSÓRIO

(Publicado no diário Meia Hora de 16 de Dezembro)




Já se tornou corriqueiro dizer que o actual Governo é o que melhor tem conseguido condicionar a informação, gerir a sua agenda mediática, criar permanentes oportunidades de comunicação. Na realidade este procedimento faz parte dos rudimentos da actividade política contemporânea. Até Sócrates se tornar Primeiro Ministro a coisa também acontecia, embora não de forma sistemática e tão profissional como agora acontece.


A Comunicação do Governo tem duas facetas – uma, natural, que se destina a ocupar espaço, a anunciar medidas positivas, a mostrar obras feitas, a prometer obras futuras – desta encarrega-se normalmente José Sócrates; a outra faceta, arruaceira, de atacar a oposição e evitar que surja informação. está normalmente atribuída a nomes como Santos Silva, Vitalino Canas, Silva Pereira ou António Vitorino.


Acontece que esta segunda faceta, sempre feita mais à bruta e com menos jeito, é a que provoca um efeito de multiplicação no aparelho de Estado, sempre muito pressuroso a seguir os líderes. Na generalidade os efeitos de imitação geralmente manifestam-se sobre a forma de tentar silenciar o que não agrada, muitas vezes de forma fanatizada, na ânsia de agradarem ao Chefe. Na semana que passou tivemos dois exemplos deste formato censório.


O primeiro veio da Administração do Porto de Lisboa, APL, que mandou remover um cartaz de um partido político, no caso o PP, que punha em causa a ampliação do terminal de contentores de Alcântara. A medida, que me parece um abuso de poder, faz-me dizer que, nos actos, neste particular, a APL segue a escola de uma organização de extrema direita, meio nazi, que há uns meses atacou uns cartazes dos Gato Fedorento contra a discriminação racial. O princípio é o mesmo: ataca-se e destrói-se aquilo de que não se gosta.


O outro caso vem da Ministra da Saúde, que teve a lata de dizer a uma jornalista que as perguntas que pretendia fazer não estavam combinadas e que – como a jornalista era da RTP – ainda mais estranho era que tal insubordinação ao arranjinho estabelecido viesse da estação de serviço público. As duas observações – a do arranjinho e a da origem da pergunta - dizem tudo sobre a noção de liberdade de imprensa que a senhora Ministra da Saúde tem.


Estes dois casos levantam muitas preocupações a quem ainda se importa com isto. Política de comunicação não pode ser confundida com política de censura – mas isso é o que infelizmente está a acontecer. O Partido Socialista acha isto bem? 

 

dezembro 15, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Dezembro)

ORIGEM - Volta e meia os políticos falam dos jornalistas, queixando-se da forma como são tratados e como é tratada a política em Portugal. Eu acho que infelizmente há demasiada parcialidade em muitas redacções, existe uma proliferação de agendas escondidas e objectivos camuflados, mistura-se demais a opinião com a informação e, sobretudo, relata-se mal o que efectivamente aconteceu e imagina-se demais o que poderá acontecer (ou poderia acontecer). No entanto, uma boa parte do ambiente de futurologia política que é a doença infantil da imprensa portuguesa nesta área, tem origem e é fomentado pelos próprios políticos, sempre desejosos de manter boas relações, contarem pormenores internos, às vezes inventarem intrigas, tudo para serem considerados fontes a contactar – uma fonte estável tem um enorme poder de influência e a classe política-partidária está cheio de exemplares destes. 

 


 


RIDÍCULO - Se a opinião que os cidadãos têm dos políticos já não é estimável, então o caso ocorrido na última semana, em que se verificou que o PS estava em minoria e só não foi derrotado no Parlamento por ausência física da oposição, é verdadeiramente escandaloso. Parece – diz-se agora – que é hábito à sexta o plenário estar depauperado; parece que há deputados que picam o ponto mas se evaporam de seguida; parece que na realidade a Assembleia da República tolera o laxismo. O mais ridículo, nos últimos dias, foi ouvir uma ilustre cabeça da política à portuguesa defender que a resolução para a desagradável situação criada poderia ser a de não fazer sessões plenárias à sexta – assim todas as ausências poderiam passar despercebidas. Imaginem que por essas empresas todas se deixava de fazer o que quer que fosse às sextas…  

 


 


ENTUBADO - Barack Obama dirige-se ao país, na qualidade de Presidente eleito, através do You Tube. Ciente de que este período de três meses e tal entre eleição e tomada de posse podia ser devastador, sobretudo no contexto de crise financeira, Obama estabeleceu uma agenda mediática que passa por gerir ele próprio a comunicação através das ferramentas digitais hoje disponibilizadas – assim passa toda a mensagem que quer, sem edição, nem intermediação. Muito interessante de seguir – como será quando estiver sentado na sala oval? 

 


 


AZAR - Tive a pouca sorte de ver «Liberdade 21» um dia destes na RTP. Há muito que não via uma série portuguesa tão má – sobretudo ao nível da realização, casting e guião. Situações inverosímeis, personagens mal definidos, uma confusão de situações – tudo isto torna «Liberdade 21» num sério retrocesso a nível da produção para televisão em Portugal. Não é por acaso que na TVI coisas de tão fraca qualidade não vão para o ar – José Eduardo Moniz e a sua equipa seguem e controlam o guião, o casting e a forma da realização. Os resultados estão à vista: há uma diferença quando uma equipa de produção trabalha para a TVI e quando trabalha para a RTP ou a SIC. Discutir a produção não é apenas discutir orçamentos, é saber ver conteúdos.  

 


 


VER - Em vez de uma exposição sugiro que dediquem um pouco do vosso tempo a ver o mais recente número da revista «Egoísta», inteiramente dedicado à imagem e praticamente sem texto. Produzida na altura em que a Sociedade Estoril-Sol completa 50 anos, a «Egoísta» de Dezembro deste ano surge sob o título «Rostos». A capa, magnífica, com efeito tridimensional, tem uma cara marcada e incontornável do portfolio de Andrea Martinnelli. Destaco ainda os retratos de Augusto Brázio, o trabalho cada vez mais consistente e envolvente de Pedro Cláudio, e ainda os portfolios de José Pedro Santa Bárbara, João Carvalho Pina, Nicolas Guerin e Sandra Rocha, as imagens do Fundo da Cadeia da Relação do Porto e as ilustrações de Rodrigo Saias. Um número de colecção, como sempre com a edição de Patrícia Reis.


 

 


ESCUTAR - A pianista francesa Hélène Grimaud tem vindo a construir uma carreira sólida e este ano foi a escolhida para a noite de encerramento dos concertos Promenade, da BBC. A lenda conta que divide o seu tempo entre o estudo do piano e a criação de lobos, na Suíça, onde vive. Este ano, pela primeira vez, decidiu gravar as suas interpretações de Bach, mas fê-lo da forma mais curiosa: gravou primeiro a versão original escrita por Bach e, de seguida, os arranjos posteriormente feitos por Busoni, Liszt e Rachmaninov para as mesmas obras. Bach versus Bach – como ela chama ao conceito, proporciona novas e interessantes leituras. CD Deutsche Grammophon. 

 


 


PROVAR - Já imaginaram o que é cozinhar uma dourada à Bulhão Pato, como se faz às amêijoas? Parece estranho? Experimentam provar que não se arrependerão. A proposta foi-me feita no restaurante «Mar do Peixe», Aldeia do Meco, na estrada que desce para a praia. A vista do restaurante, mesmo de dentro da sala, é fantástica e o local tem uma coisa muito boa: sendo a maior parte do interior em madeira e os tectos inclinados, mesmo com sala cheia não há demasiado barulho nem aquele ruído incómodo fruto da reverberação do pladur , que infelizmente está por todo o lado. Mas voltemos ao assunto: a dourada é feita com azeite, alho, muitos coentros é claro, e uma pinga de vinho branco - tal como as amêijoas, coze num instante e depois é servida já arranjada, os lombos separados, apuradíssimos. A carne do peixe ganha um sabor fantástico e é uma excelente alternativa aos grelhados do costume. O peixe era fresquíssimo e suculento, acompanhavam umas primorosas batatas fritas às rodelas muito finas e estaladiças. «Mar do Peixe», telefone 212 684 034.  

 


 


BACK TO BASICS – A internet é viciante e acentua os comportamentos – se é um solitário pode estar mais sozinho, se quer conhecer gente torna mais fácil entrar em novos círculos – Esther Dyson. 

 

 

dezembro 10, 2008

O DEFINHAR DE LISBOA

(Publicado no diário «Meia Hora» de 9 de Dezembro)

 


Um amigo meu, português mas que não vive em Portugal há muitos anos, tem um projecto, visto no seu país de residência, que gostaria de adaptar e trazer para Portugal. Lá fora o caso é um sucesso no centro de uma grande cidade, onde há consumidores que procuram produtos naturais e de qualidade. A conversa surgiu num jantar, com mais amigos, todos eles com alguma experiência.


Quando começámos a analisar a possibilidade de importar o conceito, surgiram logo várias questões prévias. Em primeiro lugar, em Lisboa, a proliferação de centros comerciais e de grandes superfícies dentro da malha urbana tornou qualquer aventura de comércio de rua arriscadíssima.


Depois, no que toca à desertificação, Lisboa é o pior de todos os exemplos. As sucessivas lideranças da autarquia continuam a privilegiar políticas urbanísticas que levam a que cada vez menos gente viva dentro da cidade. Depois, quem vive é castigado por taxas, burocracias, a Emel, várias agremiações oficiais de malfeitores ao serviço do Estado ou da Autarquia que têm por missão perseguir os cidadãos. Viver em Lisboa, no centro de Lisboa, é uma atitude de masoquismo  - ruas fechadas ao fim de semana porque há festas, ou manobras publicitárias de carros ou simplesmente porque alguém na Câmara se lembrou de chatear os moradores e comerciantes – que por acaso são quem pagam os impostos que alimentam a voracidade da autarquia.


A cidade, ao longo dos últimos 20 anos, militantemente criou políticas urbanísticas – que aliás continuam – que atiram os habitantes para os subúrbios, que envelhecem a população residente, que proporcionam o encerramento do comércio de rua e das manufacturas. Lisboa deixou de ser uma cidade para se viver, é apenas um local onde se vai trabalhar. O resultado está à vista: Lisboa definha.


Quem abre estabelecimento comercial nas ruas de Lisboa tem que viver com a falta de estacionamento na maior parte dos locais e arrisca-se a levar em cima com as constantes obras do metropolitano que esventram a cidade anos a anos para além dos prazos estabelecidos (veja-se a pouca vergonha a que o metropolitano e seus empreiteiros sujeitam a Avenida Duque de Ávila).


A ideia do meu amigo é boa. Lisboa é que não tem uma política de acolhimento de boas ideias. 

 

dezembro 06, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 5 de Dezembro)

RESUMINDO – O conflito com os professores continua, o Governo salvou mais um banco que até há pouco tempo era elogiadíssimo, José Sá Fernandes está cada vez mais ao colo de António Costa, a concretização das medidas do plano de Durão Barroso para salvar a Europa leva negas de todo o lado, o PS entrou definitivamente em choque com o Presidente da República e o guarda redes do Benfica deixou entrar 30 golos em 21 partidas. São assim os tempos que correm… 

 


 


 


 


 


VENDO – Na revista virtual «Arte Capital» (www.artecapital.net) vale a pena ler o habitual artigo de Augusto M. Seabra, desta vez sobre a actuação do Ministro da Cultura, que acaba assim: « É inteiramente legítimo que José António Pinto Ribeiro aspirasse a ser ministro. Para mal geral, num sector já em tão grave situação financeira, o seu desempenho na Cultura é um mero exercício de mundanidade e vanitas.».


 


OUVINDO - Está encontrado o disco – ou melhor, o par de discos – para esta quadra natalícia: Verve Christmas, Remixed e Unmixed. São dois CD’s, ambos baseados em standards do catálogo de jazz Verve, com alguma ligação ao Natal, de nomes como Nina Simone, Mel Tormé, Ella Fitzgerald ou Jimmy Smith, entre outros – 11 temas ao todo. A versão Unmixed tem as gravações originais. A versão Remixed tem as misturas propostas para os diversos temas por nomes contemporâneos. Por exemplo «’Zat You Santa Claus?» de Louis Armstrong é remisturado por The Heavy; «What Are You Doing New Years Eve?» de Ella Fitzgerald é remisturado por Mangini vs. Palin; «I’ve Got My Love To Keep Me Warm» é trabalhado por Yesking, «What a Wonderful World» de Louis Armstrong por The Orb, «Silent Night» por Dinah Washington com remix das Brazilian Girls e «The Christmas Song» por Mel Tormé, trabalhada por Sonny J, entre outras. Os dois discos são mesmo uma maneira divertida – e variada – para bandas sonoras de natal para todas as coasiões. Sugerem-se as remixes para depois da meia noite e as versões clássicas para os aperitivios da ceia. (CD’s  Verve, Universal Music). 

 


 


VIBRANDO – Onde é que coexistem o apito dourado, Elvis Presley, Doors, David Bowie, as Doce e «Sympathy For The Devil» dos Rolling Stones? Se disser que é num concerto de Rui Reininho acerta em cheio. Na noite de quarta-feira, no palco do Cinema S. Jorge, em Lisboa, ele esteve no seu melhor – algo refinado até – e rodeou-se de uma sonoridade diferente dos tempos do GNR, sob a batuta de Armando «Balla» Teixeira. Até ver aqui está um exemplo de como entrar numa nova fase da carreira sem cair na lamechice. No final do concerto, Helena Coelho, das Doce, mostrou boa forma vocal ao lado de um Reininho entusiasmado, a cantar «Bem Bom». Delirante – mas era isso mesmo que se esperava. O disco estreia de Reininho a solo sai para a semana, chama-se «Companhia das Índias» e tem originais de nomes como Rodrigo Leão, Legendary Tiger Man, Armando Teixeira, J.P. Coimbra (Mesa) e Margarida Pinto (Coldfinger), entre outros. (Parabéns aos organizadores do Super Bock em Stock, a Avenida da Liberdade estava uma festa).


 

 


DIVERTINDO - O jornal mais divertido que se edita em Portugal nos dias de hoje é gratuito, mensal, chama-se «LuxFrágil», é dirigido por Manuel Reis e aborda temas que vão do sexo à música, passando por receitas, horóscopos (de Anamar), textos inéditos para peças de teatro, desvarios vários – destaque para Quim Albergaria  e para Hugo Gonçalves que exploram o complexo campo das relações, da pornografia, da mentira e da atracção. Têm que ler – encontram exemplares disponíveis na Bica do Sapato e no próprio Lux. E, claro, o jornal traz toda a programação da casa – destaque este mês para o encontro de Zé Pedro Moura com João Peste no sábado 20. Para termonar: a capa é a reprodução de uma factura de um santeiro, datada de 1853, relativa a trabalhos de reparação efectuados nas capelas do Bom Jesus de Braga. Imperdível. 

 


 


 


FOLHEANDO - A Magnética Magazine é algo de diferente de tudo o que por cá havia sido feito – é uma publicação mensal, gratuita, de distribuição exclusiva na internet. É uma publicação de lifestyle, mas também de moda e tendências, de consumos e luxos. Pode ser consultada em www.magneticamagazine.com e tem um daqueles curiosos sistemas electrónicos que permite passar páginas como se estivéssemos a folhear uma edição em papel. Em destaque neste primeiro número a voz da cantora Maria João e a música dos Buraka Som Sistema por via de Kalaf, o paladar do chocolate (com um texto de Álvaro de Campos) e muitas e belas páginas sobre design. Parabéns a quem desenhou e editou a revista. É um belo objecto virtual. 

 


 


PIZZANDO - Permanecendo na pesquisa das pizzas, recomendo as da cadeia Capricciosa, hoje em dia com presença em Alcântara, na zona da Expo, em Carcavelos e também na Doca de Santo. Para o caso a experiência foi feita em Alcântara, na Rua João de Oliveira Miguéns nº 48, onde em tempos foi um restaurante cubano. Sala ampla, serviço rápido e simpático, preços razoáveis, bom aquecimento nestes dias fresquinhos. Cada vez que vou a uma destas pizzarias espanto-me como nos últimos anos se avançou tanto na matéria – na confecção das massas, finas, estaladiças, na proposta de ingredientes, nas muitas possibilidades que se abrem. Para além de pizzas a Capricciosa tem massas e saladas e se quiserem uma sobremesa experimentem a cassatta, que é mesmo boa. Telef 213955977.


 

 


BACK TO BASICS - A liberdade significa responsabilidade, é por isso que a maior parte das pessoas a temem – George Bernard Shaw. 

 

dezembro 02, 2008

A NOVA REALIDADE

(Publicado no diário Meia Hora de 2 de Dezembro)

 


Daqui a um mês vai começar o ano de todas as eleições: legislativas, europeias e autárquicas. E vai ser um teste ao plano que José Sócrates vem pacientemente construindo, desde que assumiu o poder no PS, e começou uma persistente e bem sucedida estratégia de se tornar, sozinho, o partido do Bloco Central. Claro que nisto foi ajudado pelas permanentes fracturas do PSD e sobretudo por uma total falta de rumo na direita portuguesa.


De uma forma simples, mas eficaz, o PS adoptou posições liberais, empreendeu reformas (anunciou-as com alarde mesmo que efectivamente não tenha conseguido finalizar muitas delas) e, sobretudo, fez alianças com sectores sociais e económicos (cedo percebeu que na sociedade portuguesa são estas alianças, mais que as partidárias, as que trazem retorno eleitoral futuro e alguma base de apoio no presente). Pelo caminho atacou bandeiras tradicionais da esquerda – por exemplo na área da saúde – mas teve sempre o cuidado de procurar novas bandeiras – na sociedade de informação, nas tecnologias, em programas especiais de formação.


Sócrates atacou grupos profissionais que eram base importante do seu eleitorado – os professores – procurando que o Ministério da Educação se preocupasse mais com os alunos do que com reivindicações sindicais. Não é a primeira vez que na Europa um partido socialista, ou social-democrata , troca os sindicatos que são a sua base natural de apoio, pelos cidadãos utentes dos serviços do Estado – é este caminho que o PS procura percorrer hoje em dia.


Os próximos meses são decisivos para ver até que ponto a estratégia resulta – mas os tempos jogam a  favor de Sócrates: a crise obrigou a Europa a aliviar a pressão sobre os deficits orçamentais, o seu Governo tem alguma margem de manobra para introduzir medidas de apoio social e a aposta nas obras públicas intensivas é sempre útil em termos de votos. Se neste contexto Manuel Alegre decidir romper, acompanhado por alguns históricos, e face à situação do PSD, pode bem acontecer que o PS chegue mais depressa a partido único do Bloco Central do que aquilo que Sócrates alguma vez pensou. Se a estratégia resultar os votos perdiso à esquerda serão compensados pelos ganhos ao centro e à direita. Mais do que o PS, quem corre o risco de extinção prática, neste contexto, é o PSD.  

 

(Publicado No Jornal de Negócios de 28 de Novembro)

O ZÉ - Como já imaginava o vereador Sá Fernandes revela-se de dúbios princípios – o que lhe interessou foi ser eleito, o cumprimento das promessas ficaria para depois. Mal se viu vereador sentou-se ao colo de António Costa e agora não quer de lá sair. O Bloco de Esquerda entretanto já anunciou que, curiosamente, o Zé não faz falta nenhuma – a pequena política é assim – feita de grandes oportunismos que vivem à conta da manipulação dos eleitores. O delito do Zé não é de opinião, como o PS quer fazer crer, é de ética. 

 


 


OS CIFRÕES - Depois da entrevista ao Expresso queixando-se da falta de orçamento, o Ministro da Cultura parece desaparecido. Não se vê, não se sente, não se ouve. Há um ano atrás entrou fulgurante no Ministério a dizer que o dinheiro chegava, tinha que se trabalhar com os meios que existiam. Agora já se queixa – nada como o confronto com a realidade para a prosápia esmorecer. Ultimamente já nem se vê em ocasiões como a inauguração da  exposição da bela colecção de fotografias do BES no CCB. Quem não perde pitada de acontecimentos do género é Manuel Pinho, já considerado o Ministro-Sombra da Cultura.  

 


 


DESCOBRIR - Gostei muito das fotografias de Tatiana Macedo na Rock Gallery, uma das partes do Art Edifício, Rua da Boavista 84, ao Cais do Sodré. Na VPF Cream Art Gallery o brasileiro Tiago Carneiro da Cunha propõe uma interpretação contemporânea das porcelanas italianas do período barroco, a Plataforma Revólver apresenta uma colectiva com enfoque no desenho e seus derivados, e na Rock Gallery está um conjunto de fotografias de Tatiana Macedo sob o título «Boys Need Yoga Too», imagens feitas numa viagem à China no Verão passado e que revelam uma observação atenta para além do registo do óbvio que se tornou numa (nefasta) tendência em parte da fotografia actual. 

 


 


COLECCIONAR - A colecção de fotografia do Banco Espírito Santo reúne um conjunto invulgarmente eclético de imagens fotográficas desde meados do século XX até agora, de autores de diversas nacionalidades. A colecção (pelo menos na mostra agora apresentada), tem uma predominância de autores contemporâneos sobre os nomes mais consagrados da fotografia, o que provoca também desiguais descobertas. A exposição «O Presente: Uma Dimensão Infinita» está patente até 25 de Janeiro no Museu Berardo (CCB) e beneficia de uma montagem muito conseguida da responsabilidade das curadoras da mostra, Maria de Corral  e Lorena Martínez de Corral, que conseguiram mostrar, como elas próprias sublinham,  «o meio através do qual vemos tudo». 

 


 


VER - O filme «Amália», ante-estreado esta semana, vai fazer correr alguma tinta. A opção por uma narrativa – chamemos-lhe tablóide – da vida da fadista não é pacífica, assim como não é pacífica a subalternização da componente artística e criativa em detrimento de uma aproximação baseada nos conflitos (alguns pessoalíssimos e íntimos), traumas e suas origens que percorreram a vida de Amália Rodrigues. O argumento tem fragilidades técnicas (demasiadas referências, demasiados saltos no tempo, demasiadas personagens colocadas ao mesmo nível, dispersão da acção e da narrativa, abuso de momentos de tensão dramática) e a realização sofre, para um filme de longa metragem, da conotação demasiado televisiva do Carlos Coelho da Silva e da sua predilecção por um estilo, digamos, brejeiro, que já vem desde «O Crime do Padre Amaro». Regra geral o desempenho dos actores é escorreito e Sandra Barata Belo consegue uma boa recriação de Amália. É provável que a bilheteira seja boa, mas é certo que a história de Amália Rodrigues merecia melhor tratamento. Destruir a imagem pública de um mito tem o seu preço… 

 

 


LER - A edição de Dezembro da revista «Vanity Fair»é absolutamente extraordinária. Já nem falo da capa e da sessão fotográfica de Kate Winslett, limito-me a chamar a atenção para o melhor artigo que até agora li sobre as origens da actual crise financeira, «Wall Street Lays Another Egg», escrito por um historiador de economia, Niall Ferguson. Outros destaques vão para uma viagem ao interior da Bloomberg, que já é a maior fonte de notícias utilizada em todo o mundo. Ainda no reino dos media, a mesma edição oferece uma viagem ao império de Murdoch e à corrida pela sua sucessão na News Corporation e ainda a história exemplar do que é a persistência de um grande jornal, o «New York Times», numa situação de guerra, no caso o Iraque. Leitura recomendada para os editores cá do burgo. 

 


 


OUVIR – Se gostam de blues não hesitem: o disco que precisam de conhecer é «No Regrets», onde Randy Crawford canta standards, acompanhada pelo grande pianista Joe Sample . Em temas como «Everyday I Have The Blues», «Respect Yourself», «Me, Myself And I», «Starting All Over Again», »Lead Me On» e «Angel In The Morning», entre outros, Crawford e Sample mostram um entendimento perfeito e conseguiram um registo absolutamente exemplar. CD Emmarcy, Universal Music. 

 


 


PIZZAR - A Maritaca é um restaurante acabado de abrir na 24 de Julho, em Lisboa, mesmo ao lado da discoteca Kapital. Na realidade a Mariataca é um bocadinho mais que um restaurante – é daqueles locais a meio caminho entre sala de estar, ponto de encontro de amigos e casa de pasto despretenciosa e contemporânea. Espaço amplo, área para fumadores, enfoque na comida italiana (pizzas, risottos, lasagnas, raviolis), desvio para bifes se necessário. As pizzas são como deve ser – massa muito fina e estaladiça, a preços honestos. Vinho a copo, sem mácula. Serviço simpático, muito bom para resolver um daqueles jantares ou ceias que não se sabe onde podem ser. Encerra aos Domingos, nos outros dias está aberto aos almoços e à noite até às duas. Av 24 de Julho  68F, telef 213939409. 

 


 


BACK TO BASICS – Se os meus filmes fizerem uma pessoa que seja mais infeliz, cumpri o meu trabalho – Woody Allen. 

 

O CRIME COMPENSA?

(Publicado no diário Meia Hora de 25 de Novembro)

 


Cresci e tenho vivido a saber que correr riscos pode trazer proveitos mas pode também trazer prejuízos. Tenho corrido a minha dose de riscos e, quer ganhe quer perca, não me tenho arrependido. Mesmo quando se perde, aprende-se sempre qualquer coisa e isso já é bom.


A crise que vai no mercado financeiro, nomeadamente nos bancos, tem-me mostrado uma coisa que me surpreende: há quem corra riscos – riscos grandes – com o dinheiro dos outros e que, para resolver os problemas surgidos por riscos muito mal calculados que resultaram em grande prejuízos, pedem a ajuda do Estado para serem salvos.


A especulação tornou-se na principal actividade de boa parte do sistema financeiro – ou do sistema financeiro moderno, como alguns eufemísticamente lhe preferem chamar. Só que a especulação não é produtiva e quando corre mal suga tudo à sua volta.


A situação que se está a criar nos últimos tempos tem contornos que não consigo compreender. Como é que se está quase a tornar natural que quem se enganou a analisar, que quem geriu mal, que quem abusou dos poderes que tinha, seja no final beneficiado face aos que tiveram sentido de realidade e fizeram trabalho diligente?


Como podemos aceitar que quem especulou e nada criou receba apoios que são negados a quem arriscou, criou postos de trabalho e produziu riqueza à moda antiga: com trabalho e esforço?


Alguma coisa está mal num mundo onde a ética não conta nos balanços, onde a honestidade de processos é um bem descartável, onde o bom senso é um estorvo.


Quando esta crise se atenuar o balanço que vai ser feito não honrará muita gente – mas espero que sirva para no futuro se exigir mais rigor a analistas impreparados que sobrevalorizaram activos, que estimularam negócios exclusivamente especulativos, que não desenvolveram nem produziram nada . E espero que isto obrigue também a rever a forma como as autoridades reguladoras seguem a actividade dos bancos, como analisam os riscos e como encaram actividades exclusivamente especulativas ou métodos de gestão muito pouco transparentes.


O que eu sei é que o fisco é capaz de colocar milhares de cartas no correio atrás de cidadãos com dívidas pequenas, mas que o Estado é tolerante e paciente em excesso em muitas outras situações, bem mais graves. 

 

 

novembro 23, 2008

Untitled

SEMESTRE – Com uma candura extraordinária Manuela Ferreira Leite sugeriu que não seria má ideia a interrupção da democracia durante uns seis meses para se fazerem umas reformas. Por mais voltas que a sua equipa do PSD dê, o que ela disse foi isto mesmo – admitir o princípio de que uma suspensão da democracia seria útil em certas circunstâncias. No mínimo foi um pensamento de mau gosto, se quiserem um acto falhado, desgraçadamente revelador de estados de alma desnecessários. A direita portuguesa tem, infelizmente um problema: convive mal com protestos e gosta de apelar ao exercício da autoridade, embora na realidade seja muito mais suave nessa matéria que o actual PS. Na realidade, como hoje se vê, em termos práticos, a direita portuguesa é um menino de fraldas ao pé das atitudes de José Sócrates, Santos Silva ou Vitalino Canas em matéria de reacção a protestos ou da forma de lidar com a contestação. Só que os fantasmas do passado ainda castigam a direita e beneficiam a esquerda. Na realidade posições como a tomada por Manuela Ferreira Leite apenas penalizam o PSD e a área política onde se insere- ao PSD não basta parecer que gosta do regime, tem que mostrar todos os dias e a todas as horas que gosta e o honra e não lhe fica bem distrair-se; ao PS, que já não sei bem se é de direita se de esquerda, basta parecer conformar-.se com o regime – mesmo que pelo meio faça as tropelias que entende ou mesmo que Vitalino Canas a falar dos professores e estudantes pareça um Ministro do Interior do passado. É injusto, mas é assim. Manuela Ferreira Leite acabou de dar mais uma vantagem a José Sócrates – ajudou-o a parecer ser mais à esquerda do que é, numa altura em que bem precisa dessa camuflagem. 


LISBOA – Era muito boa ideia que no programa das candidaturas às próximas autárquicas, em Lisboa, constassem as medidas que os candidatos propõem, a nível fiscal, de benefícios e práticas (circulação, estacionamento, etc), para os residentes na cidade. Na realidade os residentes são prejudicados face aos não residentes que se deslocam para a capital, os residentes são penalizados em questões que vão desde os impostos ao IMI, passando por limitações de circulação durante festividades diversas ao fim de semana. Candidato que não proteja e estimule os lisboetas e a cidade não deveria merecer o voto de ninguém. 


VER – Este é o fim-de-semana em que vale a pena ir à FIL, para ver mais uma Arte Lisboa. Vão estar presentes 70 Galerias, das quais 45 portuguesas e 25 estrangeiras. Até segunda à noite (entre as 16h00 e as 23h00) pode visitar e descobrir o panorama de novas obras, algumas aqui em primeira apresentação, e também o acervo de galeristas. Além disso tem um ciclo de debates com temas como o coleccionismo de fotografia, a actividade das feiras de arte e o investimento em arte, entre outros temas. Informação em www.artelisboa.fil.pt . 


OUVIR – A britânica «Mojo» é sempre, de entre as revistas dedicadas à música, uma publicação a seguir com atenção. Na edição de Dezembro o destaque vai para Leonard Cohen, a propósito da grande digressão mundial que está a fazer, e que já passou por Lisboa no Verão.  Para além de uma análise de toda a sua discografia, existe um extenso e magnífico artigo sobre este artista que diz durante anos ter seguido uma dieta rigorosa baseada em «vinho, mulheres, canções e religião». Mas o melhor de tudo é que a «Mojo» oferece um CD com uma colectânea de canções de Cohen interpretadas por outros artistas – 15 ao todo, entre as quais «Suzanne» por Ian McCulloch, «Joan Of Arc» por Allison Crowe, «Avalanche» por Nick Cave ou «Song For Bernardette» por Judy Collins. O meu exemplar foi comprado nas revistas do El Corte Inglês esta semana e ainda lá ficaram alguns. 


FOLHEAR – Continuo a folhear a magnífica edição especial da «Newsweek» que mostra um portfolio da campanha eleitoral norte-americana e da vitória de Obama. Imagens magníficas, óptimo foto-jornalismo, boa reportagem, boa escrita. Um exemplar de colecção que mostra como as revistas e a imprensa servem outro compasso da informação – reflectindo, comparando, mostrando, muito para além da notícia instantânea. Intitulada «Obama’s American Dream», este «Special Commemorative Issue» estará à venda até Fevereiro de 2009. 


ENGRAÇADO – Com um bocadinho de jeito Al Gore e seus derivados podiam quase ser considerados os inspiradores do ecologista hábil em negociatas que faz de vilão em «Quantum Of Solace». O filme coloca 007 em luta contra um grupo de empresários e políticos que querem dominar as fontes energéticas, às vezes em consonância com governos de insuspeitos países e seus serviços secretos. É a imagem dos que aproveitam a ecologia para encher os bolsos – há muito disso por aí. Faz tempo que um filme do agente secreto de sua majestade não era tão oportuno. 


PETISCAR – O nome deste restaurante é de si um episódio - «Ultralento». O serviço no entanto é eficaz, cortez, e despachado e as influências culinárias são variadas, com destaque para a Índia. O caril de galinha e os bojés estavam muito bons, assim como uma sopa de abóbora com laranja e uma inesperada mas agradável maçã com chévre; nas entradas destaque para um puré de manga com vinho do Porto. Por falar em vinhos, a lista é razoável, mas o vinho da casa é do Dão, honestíssimo, e servido a copo. A decoração é contemporânea e cuidada, aqui está um simpático restaurante de bairro em Campolide onde dá gosto ir ao fim do dia – Rua General Taborda 47, tel 213 879 186. Mais informações em www.ultralento.com . 


BACK TO BASICS - "Não há nada de bom ou ruim, mas o pensamento o faz assim" -


William Shakespeare

novembro 18, 2008

A INTOLERÁVEL EMEL

(Publicado no Meia Hora de 18 de Novembro)


 

Na semana passada aconteceu-me ter uma reunião perto da sede da EMEL, a Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa. Eu confesso que não gosto da EMEL, dos poderes policiais que lhe foram dados (e que alguns juristas consideram de duvidosa legalidade), não gosto da atitude dos seus funcionários mas, sobretudo, não gosto do abuso que é a EMEL obrigar a pagar novo estacionamento cada vez que se sai da zona onde se pagou, mesmo que ainda reste tempo.

À porta da sede da EMEL há muitos dos seus fiscais a fumar, mas é difícil encontrar uma caixa de pagamento perto do local onde existem mais estacionamentos disponíveis. Um cidadão tem que dar uma bela caminhada até à esquina onde há uma máquina – apetece logo nem pagar. A colocação de máquinas em locais distantes é uma das provas da atitude que rege a empresa, de desprezo por quem a financia.

Vamos por partes: quem anda de automóvel em Lisboa é CLIENTE da EMEL, não é um malfeitor encartado atrás do qual devem ser lançados cães de fila. A EMEL tem que aprender aquela coisa básica que é tratar as pessoas como clientes, que são. Eu até sou dos cumpridores, lá vou pondo as moedinhas – mas não me coíbo de dizer que acho um roubo a forma como o sistema está organizado – e cada vez que digo isso a um Fiscal ele fica com cara de quem me quer dar voz de prisão. Há uns que olham para mim a ver se me fixam a cara e vão apontar a matrícula do carro. Revelador, não é?

Quem anda de carro em Lisboa por razões profissionais tem várias vezes que parar numa série de locais relativamente próximos, mas pertencentes a várias zonas de cobrança da EMEL . Já mais que uma vez me aconteceu chegar ao meu carro, com um selo ainda dentro do limite de tempo, mas oriundo de outra zona – e ter que aturar um fiscal a perseguir-me verbalmente sem sequer lhe passar pela cabeça que está a falar com um cliente e não com um assaltante. As criaturas da EMEL são formadas para perseguir, punir e abusar da autoridade – não são formadas para servir os clientes – não admira, a EMEL é filha da Câmara Municipal de Lisboa que tem uma persistente atitude de afastar moradores e castigar quem tem a mania de querer viver na cidade.

Nas próximas autárquicas só voto num candidato que proteja os moradores de Lisboa, que os beneficie em vez de penalizar. E que diga que vai pôr a EMEL na ordem.

 

PUBLICADO NO JORNAL DE NEGÓCIOS DE 14 NOVEMBRO

TENDÊNCIAS - Imperdível o artigo de Paul Boutin na «Wired» de Novembro – anuncia o fim da era dos blogs e decreta que ferramentas como o Facebook são o novo meio de fazer circular opiniões e ideias (procurem em www.wired.com na zona da revista).


Um pouco mais à frente, na mesma edição, explica-se como o Facebook também pode ser usado como instrumento de acção política. Ainda no mesmo número um belo artigo, «How To Google Better», e, depois, o guia mais completo sobre novos gadgets para esta época de Natal e a história de capa - uma investigação sobre o futuro dos produtos agrícolas, como a tecnologia está a revolucionar a área. A «Wired» já fez 15 anos, mas continua cheia de vivacidade.

 

BOM SENSO - Muito bom o artigo de Augusto M. Seabra sobre alguns acontecimentos recentes no mundo da arte, cá e lá fora (Joana Vasconcelos por cá, Damien Hirst lá fora). O artigo está na revista digital ArteCapital (www.artecapital.net) , na secção «O Estado da Arte» e chama-se «Gosto e Ostentação».

 

IMAGEM - Na situação que vivemos é preciso coragem para lançar novos produtos editoriais. A nova revista mensal iMAG apresenta-se como um magazine dedicado ao fotojornalismo, pretendendo testemunhar as notícias pela imagem. O primeiro número já está na rua, dirigido por Mafalda Lopes da Costa, que já dirigiu também a «Ler» e se tornou conhecida pelas suas crónicas sobre livros na TSF. A editora desta aventura é a Multipublicações, comandada por Ricardo Florêncio e Paulo Carmona, que há bem pouco tempo retomou o projecto da revista sobre cinema «Premiere».

 

FOTOGRAFIA - A galeria «Pente 10» dedica-se à fotografia contemporânea e tem um belíssimo espaço junto ao Jardim das Amoreiras, na Travessa da Fábrica dos Pentes nº10 (www.pente10.com) . Até 10 de Janeiro (de 3ª a sábado entre as 15 e as 20h00) podem ver «Presença da Ausência», a nova exposição da fotógrafa Rita Barros, há muito tempo a viver em Nova Iorque, autora de um livro e exposição sobre o mítico Chelsea Hotel, onde aliás ainda vive. Rita Barros, que se tornou conhecida com as suas reportagens fotográficas para o «Expresso», percorre nesta mostra outros rumos para além do fotojornalismo. Como Jorge Calado sublinha o texto do catálogo sobre estas «naturezas mortas domésticas», a verdade é que «a viagem mais extraordinária está na imaginação de cada um». Jogando com as cores e os enquadramentos, Rita Barros exibe as provas da sua imaginação.

 

IMPRESSÃO - Fez-me um bocado de impressão conhecer a nova versão da Madredeus com a Banda Cósmica exactamente no mesmo local, o Teatro Ibérico, onde há quase vinte anos, em 1987, assisti aos primeiros ensaios dos então ainda desconhecidos Madredeus. Na altura a surpresa foi total, pela positiva – uma sonoridade nova, arranjos que combinavam violoncelo com acordeão e sintetizador e, acima de tudo isso, a voz de Teresa Salgueiro a cantar poemas que eram pequenas histórias da vida portuguesa. Agora, confesso que a desilusão foi a primeira reacção. Vamos por partes: alguns arranjos são interessantes, a conjugação da harpa com o violino, guitarra eléctrica, baixo, bateria e percussão tem muitos momentos curiosos – mas às vezes tocam no enfadonho, talvez por excesso de procura do virtuosismo. O problema maior reside nas vozes – na tentativa de colagem desnecessária aos ambientes de Teresa Salgueiro que acabaram por constituir a imagem de marca do grupo. Se nos arranjos e no novo conceito musical se vislumbra algum caminho possível, os arranjos vocais são terríveis e a excessiva teatralidade da interpretação de Mariana Abrunheiro é frequentemente incómoda e a roçar o kitsch. A certa altura dei por mim a pensar se, neste novo caminho, não seria melhor usar uma voz masculina, em vez de querer manter o registo vocal feminino que vai sempre ter, bem ou mal, o ponto de comparação com Teresa Salgueiro.

 

SUPER - Gosto de Sonny Rollins, gosto de gravações de jazz efectuadas ao vivo, em concerto. Rollins, actualmente com 78 anos, continua a ser um dos nomes grandes do saxofone e este «Road Shows Vol. 1» mostra isso mesmo. As gravações foram efectuadas no ano passado, no Canadá e, de um muito elogiado concerto realizado no Carnegie Hall em Setembro de 2007, está uma grande interpretação de «Some Enchanted Evening» com Rollins no sax tenor, Christian McBride no baixo e Roy Haynes na bateria). O disco tem a curiosidade de incluir três inéditos da autoria do próprio Rollins e que nunca haviam sido antes gravados – e o mais fascinante deste registo é a capacidade de improvisação que se sente permanentemente nas faixas canadianas – em que Rollins é acompanhado por Clifton Anderson no trombone, Mark Soskin no piano, Bobby Broom na guitarra, Jerome Harris no baixo eléctrico e Al Foster na bateria. (CD Sonny Rollins «Road Shows Vol 1», Universal Music).

 

LEVEZA - Nos últimos tempos, para refeições rápidas, tornei-me fã da Go Natural, e acho que é a melhor oferta em Lisboa dentro deste tipo de restaurantes. Dois destaques recentes na loja das Amoreiras e na loja do Saldanha: uma salada de camarão com couve que passou todas as reservas iniciais e uma sanduíche de pão integral com queijo de cabra, beringela e tomate seco. Um reparo apenas – as sanduíches mereciam melhor embalagem, como por exemplo a das melhores sanduíches do mundo que são as da cadeia britânica «Prêt-A-Manger» - incomparáveis em frescura e sabor. Mas a Go Natural para lá caminha – melhorem um pouco mais por favor.

 

BACK TO BASICS – Pobres daqueles que não têm paciência , Shakespeare

 

novembro 14, 2008

A ESTRATÉGIA DE LISBOA

 


(Publicado no diário «Meia Hora» do dia 11 de Novembro)

 


A polémica recente em torno do alargamento do terminal de contentores de Alcântara vem trazer à baila uma outra questão – independente do impacto desse alargamento ou da forma como ele tem sido feito: Lisboa quer ser uma cidade portuária? Deve ser uma cidade terminal de contentores? Qual o posicionamento da cidade? Qual a sua estrágia de desenvolvimento?


Pressuroso de facilitar um negócio privado, o Governo impôs que se pusesse o carro à frente dos bois e – como tem sido desgraçadamente hábito – não cuidou em pensar no assunto.


A questão é esta: se o terminal de Alcântara avançar com a dimensão pretendida Lisboa ficará para sempre com uma marcada vocação de carga portuária – e eu tenho as maiores dúvidas de que isso seja benéfico para a cidade.


Vamos por partes: Portugal tem uma costa de centenas de quilómetros, com uma meia dúzia de cidades com características para poderem ter intensa actividade portuária de contentores. Algumas delas têm até já boas instalações portuárias, nalguns casos subaproveitadas. Lisboa não é portanto a única solução possível e num raio de cem quilómetros existem mesmo várias outras opções.


Lisboa, por outro lado, é uma das raras cidades capitais da Europa que conjuga a proximidade ao mar com um clima excelente e uma riqueza de património invulgares. Nos últimos anos Lisboa tem sido cada vez mais reconhecida como um destino turístico apreciado, muito graças à boa actuação do Turismo de Lisboa. Por outro lado, também nos últimos anos, a cidade tem sido cada vez mais um ponto de passagem de grandes navios de cruzeiros que garantem uma utilização do Porto de Lisboa consentânea com a estratégia de desenvolvimento turístico da cidade.


Qual das actividades beneficia mais a cidade, o seu posicionamento e a qualidade de vida do seus residentes: ser essencialmente um terminal de carga ou ser um destino turístico?  É bom recordar que as duas coisas não são compatíveis – uma cidade terminal de carga (e existem várias na Europa a provar o que digo), não coexiste como destino turístico Premium.  Valia a pena parar para estudar e pensar se queremos uma cidade de carga ou uma cidade de serviços sofisticados. A um ano de eleições uma decisão destas é uma péssima herança deixada para o futuro – é a tentativa de criar um facto consumado. 

 

novembro 10, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 7 de Novembro)

 


APRENDER – Al Ries, o grande mestre norte-americano do marketing e relações públicas , escreveu um fantástico artigo sobre a campanha eleitoral norte-americana no site da revista «Advertising Age»  intitulado «What Marketeers Can Learn From Obama’s Campaign» (http://adage.com/columns/article?article_id=132237) . Começa assim: «Imaginem um homem relativamente desconhecido. Mais novo que os seus rivais. Negro. Com um nome difícil e de má sonoridade. Agora tenham em consideração o seu primeiro rival: a mulher mais conhecida na América, ligada a um dos políticos que maior êxito obteve na História. Tenham também em consideração o seu segundo rival: um herói de guerra bem conhecido e com uma longa carreira, bem sucedida, como Senador. Nada disto teve significado. Barack Obama teve uma estratégia de marketing melhor que a de qualquer deles: Change». O artigo de Al Ries é muito bom, recorda a importância de manter mensagens claras e constantes, compara as campanhas de Hillary Clinton e John McCain com a de Obama, estabelece comparações com campanhas de produtos de consumo e termina sublinhando a importância que teve a consistência da mensagem de mudança, como se criou uma rede em torno do conceito e como essa rede foi montada por forma a que fosse muito fácil entrar nela e participar.

 

ARRISCAR - A campanha de Obama, dirigida por David Axelrod, foi o resultado de muito profissionalismo e de uma dose abundante de sentido de risco. Um grande amigo meu costuma dizer que, se ao longo da vida não tivesse insistindo em fazer as coisas de forma diferente e em estabelecer objectivos elevados, não teria chegado onde chegou. Felizmente chegou longe. Os grandes líderes, na realidade, gostam de desafios que parecem impossíveis e não têm receio em fazer as coisas de forma diferente. Foi este o enorme trunfo de Obama para vencer as eleições. Reparem – o autor dos seus poderosos e surpreendentes discursos é Jon Favreau, que agora tem 26 anos mas que começou a trabalhar com Obama quando tinha apenas 23. Outra das armas de Obama foi a internet – permitiu-lhe recrutar voluntários, organizar um processo de recolha de donativos que obteve os melhores resultados de sempre, criar uma base de dados de votantes que até ao último minuto foi estimulada para exercer o voto. Todos os observadores concordam que do ponto de vista tecnológico a campanha de Obama, baseada em jovens voluntários da área de engenharia informática, apresentou soluções novas, aproveitou as potencialidades do «social networking» e foi, verdadeiramente, uma campanha digna do século XXI. Esta campanha é um verdadeiro ‘case study» de como se deve fazer política hoje em dia.

 

MUDAR - Há duas semanas a revista «Newsweek» pediu a Michael Bloomberg, entre outros, para escrever uma carta ao futuro presidente, com sugestões concretas para a sua acção. O artigo merece ser lido (http://www.newsweek.com/id/165642) porque sai fora dos cânones dos conselhos políticos mais habituais. Um dos pontos fortes do artigo é a forma de conseguir efectivamente fazer reformas, ganhando apoios noutros sectores políticos: a nomeação de um gabinete bipartidário, fazer nomeações tendo apenas em consideração quem é melhor e não quem é da mesma cor, dar a mão aos seus opositores, por forma a que eles tenham dificuldade em romper, fazer as negociações legislativas deixando que toda a gente possa sentir o sabor da vitória em vez de tentar compromissos que acabam por impedir as mudanças – aproveitar as melhores ideias, independentemente de onde elas vêm. Bloomberg deve saber do que fala – trabalhou tão bem que teve uma autorização especial para concorrer a um terceiro mandato para Mayor de Nova York (o limite são dois mas os representantes da cidade decidiram dar-lhe mais uma oportunidade). E em Nova York, gente de todos os partidos e tendências, concorda que a cidade mudou e está melhor com Bloomberg. Aqui está um artigo que os nossos queridos políticos locais deviam ler. E, se possível, seguir.

 

PORTUGAL - O grande problema da lei das nacionalizações é saber como se distingue o interesse público do interesse político – já que os governos gostam de classificar todas as medidas políticas que tomam em nome do tal interesse público. Este é o caminho mais certo para arbitrariedades. Cá para mim na origem da nacionalização do BPN esteve a inveja: o Ministro Teixeira dos Santos devia andar com inveja dos seus colegas nacionalizadores britânico, alemão e norte-americano e vai daí decidiu que não lhes queria ficar atrás. O mais curioso, no entanto, no caso português, é que na origem da decisão não está a actual crise do sistema financeiro, mas sim actos de gestão ocorridos há anos, já denunciados pela actual administração do Banco e sobre os quais o Banco de Portugal nada fez.

 

VER – Agora no rescaldo das eleições norte-americanas ainda é mais divertido ver «Destruir Depois de Ler», o filme dos irmãos Ethan e Joel Cohen que parodia os serviços secretos dos Estados Unidos e as obsessões dos americanos com interpretações deliciosamente cabotinas de John Malkovich, George Clooney e Brad Pitt.

 

OUVIR - «Night & The Music», o refrescante CD do trio do pianista Fred Hersch, provavelmente o melhor novo disco de jazz que ouvi nos últimos meses. Com base na mais clássica das formações de jazz, o trio, Hersch aventura-se na exploração de novas sonoridades. Descobri-o na discoteca Trem Azul, Rua do Alecrim 21 A.

 

PROVAR – Sempre deliciosas a muqueca de camarão e a feijoada à brasileira do restaurante «Barra do Quanza», uma boa alternativa para quem quer ir ao fim de semana ver o rio e já está fartinho de peixe grelhado. Preços razoáveis, bom vinho branco da casa, caipirinha excelente sem açúcar a mais. Clube Naval de Lisboa, Doca de Belém, Av de Brasília, tel. 213620697.

 

BACK TO BASICS – Nunca voto em ninguém, voto sempre contra alguma coisa, W.C. Fields.

LISBOA DESPREZADA

 


(Publicado no diário Meia Hora de 3 de Novembro)

 

 

Governar o que quer que seja não é fácil, governar uma grande cidade ainda menos. Lisboa é um exemplo das dificuldades que toda a gente tem, sem excepção. Quando António Costa foi eleito fez uma série de promessas. Para além das de gestão corrente, garantiu que queria uma cidade mais humana, que queria uma cidade mais habitada, que queria uma cidade mais virada para o rio, onde fosse mais agradável viver. É um programa comum que poderia ser subscrito por muita gente. No entanto, nas últimas semanas, os factos têm contrariado as boas intenções, as boas declarações, as promessas eleitorais.

Comecemos pelo caso do alargamento do terminal dos contentores – qualquer pessoa que se preocupe com a qualidade de vida na cidade preocupa-se com a decisão que o Governo impôs à Câmara, e que António Costa aceitou. O assunto é este: «A ampliação da capacidade do terminal de contentores de Alcântara que o Governo inoportunamente se propõe levar por diante implicará a criação de uma muralha com cerca de 1,5 quilómetros com 12 a 15 metros de altura entre a Cidade de Lisboa e o Rio Tejo. A zona de Alcântara estará sujeita a obras durante um período previsto de 6 anos, impossibilitando assim a população de aceder ao rio pelas “Docas”, levando ao fecho de toda a actividade lúdica desta zona, pondo em risco 700 postos de trabalho. Os terminais de contentores existentes nos portos de Portugal no final de 2006 tinham o dobro da capacidade necessária para satisfazer a procura do mercado.»

Como se isto não chegasse fiquei a saber pelos jornais de fim-de-semana que a Câmara se prepara para abandonar o projecto de uma zona residencial em Entrecampos, sobretudo destinada aos mais jovens, e em seu lugar quer construir mais escritórios. Eu trabalho nas Avenidas Novas e vejo a quantidade de escritórios que ali estão vazios, há anos, sem encontrarem ocupante. O cenário repete-se por toda a cidade. Lisboa não tem falta de escritórios, tem é falta de pessoas, de residentes. Não há emprego para tanta área de escritórios – mas é certo que eles são potencialmente mais rentáveis que habitações para arrendamento a preços não especulativos.

No fim a conversa é sempre a mesma: promove-se o que é mais rentável para interesses particulares, abandona-se o que é mais importante para fazer reviver a cidade e dar conforto a quem a habita.

 

novembro 03, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Outubro de 2008

 


FAZER - Um país que não produz vale pouco por mais auto-estradas, aeroportos e linhas de TGV que se construam. Numa apresentação realizada na semana passada pela Associação Empresarial Portuguesa em Lisboa, o seu dinâmico Vice-Presidente, Paulo Nunes de Almeida, chamou a atenção para um dado pouco falado: nos primeiros seis meses do ano o déficit externo português subiu 36% em relação a período homólogo do ano passado - quer dizer, produz-se menos, importa-se mais. E fiquei a pensar: quilómetros de alcatrão não são exportáveis - a qualidade da manufactura é. Num período em que muitas empresas começam a desconfiar da qualidade chinesa, há uma oportunidade para os produtos de qualidade feitos em Portugal. O futuro passa por aí, mais do que por gigantescas obras públicas que podem ter efeitos no curto prazo mas não são feitas a pensar no futuro.  

 


 


CRIAR - Fiquei fã de Aníbal Campos, Presidente da Silampos, que numa entrevista recente não poupou nas palavras - e com razão: «Bruxelas tornou-se um Kremlin, uma instituição de burocratas que venderam a ideia de que era possível viver sem produzir». E mais adiante: «Sou a favor da globalização, mas com regras. (...) Os produtos que vêm da China não têm de cumprir regras e ninguém fiscaliza. A questão da marca CE é uma questão muito interessante - é divulgada como sendo China Export». E, ainda: Se um europeu exporta para a América do Sul «pagam-se taxas absurdas de 60 a 70%, o caso do Brasil é um escândalo porque os produtos brasileiros entram na Europa com taxas de 4%».  

 


 


MUDAR - Cá para mim quem tem razão é José Miguel Júdice na análise que faz do Estado da Nação: segundo ele Portugal está como os Estados Unidos -  precisa de reforçar a classe média, de garantir  maior justiça fiscal e de conseguir renovar o sonho de uma vida melhor. Só que eu não vejo maneira de isso acontecer. Estamos na recta final de um mandato de quatro anos de maioria absoluta onde as promessas cumpridas foram poucas e as reformas cheias de zigue-zagues. Quando o Primeiro Ministro pede uma nova maioria absoluta para poder governar tenho as minhas dúvidas de que o cheque em branco seja merecido. Mas também percebo que, com a oposição que existe, dificilmente se conseguirá fazer melhor. 

 


 


VER – Gostei do documentário de Bruno de Almeida que ganhou uma menção honrosa no Doc Lisboa deste ano, «Homeostéticos b=0». Partindo de um belíssimo trabalho de recolha de arquivos e de depoimentos, de um guião muito bem construído e de uma montagem sóbria e eficaz, o documentário, de uma hora, ajuda a perceber o percurso de artistas que deixaram um marca para além do período em que se tornaram conhecidos: Pedro Portugal, Ivo, Manuel João Vieira, Xana, Pedro Proença e Fernando Brito. Parabéns à voz que faz a narração, de forma exemplar e à produção da Midas Filmes. Deixo uma frase tirada do filme: «Estamos sem porcos a quem darmos as pérolas».  

 

 


LER -   Bem sei que isto se está a tornar repetitivo, mas cada nova edição da revista «Monocle» é um motivo de recomendação. Neste número de Novembro o tema de capa é a forma como o design pode ajudar a diplomacia – e faz-se um levantamento de embaixadas por esse mundo fora que são amostras das culturas e talentos dos países que representam. Também nesta edição é muito interessante ver como o organismo britânico de comércio externo, «UK Trade & Investment» chama a atenção em duas páginas editoriais para o sector criativo no Reino Unido. A terminar uma belo ensaio fotográfico acompanhado por um informativo artigo sobre a arte milenar do Sumo japonês, essa antiga forma de luta que privilegia a táctica e a sabedoria sobre a força.  

 

 

 


DESCOBRIR – Os desenhos e esboços de Cruzeiro Seixas, feitos em pedaços de papel, expostos até dia 8 de Novembro na Galeria Arque, Avenida Miguel Bombarda 120 A. É uma colecção invulgar, de rabiscos ocasionais, mas que no entanto ganham sentidos quando expostos desta forma.    

 


PETISCAR - O Nobre voltou a Lisboa e está no Campo Pequeno. Mesmo coisas simples podem ser surpreendentes, como a salada de polvo, servida de entrada. Bom pão, bom azeite para acompanhar, vinho a copo honesto e de preço aceitável. Nos pratos do dia havia uma miscelânea de peixe fino com gambas, em molho de côco com puré de coentros e um  bacalhau à Spazio, com espinafres, amêndoas torradas, lascas de bom bacalhau e umas batatas ao redor. Serviço exemplar. Avc. Sacadura Cabral 53 B, tel 217 970 760. 

 


 


OUVIR – Inesperado, arrebatador, surpreendente – bastam três palavras para descrever o novo disco de Charlie Haden, um divertido projecto nascido de explorações de sonoridades tradicionais, dos blues ao country, em que participam nomes como Rosanne Cash, Elvis Costello, Pat Metheny, Bruce Hornsby e Vince Gill, entre outros. Também alguns familiares de Haden dão uma ajuda num disco apropriadamente intitulado «Family & Friends». É um disco despretencioso e divertido, cheio de pequenas descobertas, como o próprio Haden a cantar. 

 

 


BACK TO BASICS – Penso sobre os aviões a mesma coisa que sobre as dietas – são óptimos para outras pessoas experimentarem – Jean Kerr