
ESCURIDÃO - No início desta semana o jornal espanhol “El País” titulava que o Vox, um partido comparável ao Chega, está a aumentar a sua influência entre os trabalhadores e os desempregados. O jornal recorda que esse crescimento também se verificou em França em relação ao partido de Le Pen. E se olharmos para o crescimento do Chega em Portugal, sobretudo nas regiões onde ele foi mais pronunciado, não é preciso ter uma bola de cristal para perceber que algo de muito parecido está a acontecer. O jornal cita um estudo recente que indica que o Vox lidera em três das seis categorias salariais mais baixas e entre os que se consideram pobres. Lá, como cá, o que cativa os eleitores destes partidos de extrema direita é a combinação de um discurso antipolítico que proclama que o Estado não funciona, com um discurso anti-imigração. Em Espanha o Vox já dispõe de uma organização sindical cuja influência cresce de forma relevante, com base em protestos contra a perda do poder de compra dos trabalhadores e a insegurança nos bairros de subúrbios onde há mais imigrantes. Os dirigentes sindicais do Vox acusam os partidos de esquerda de terem abandonado os trabalhadores e as suas reivindicações, substituindo-as pela defesa de questões que não se traduzem na melhoria da qualidade de vida. Entre os assalariados com menores vencimentos apenas no sector de serviços o Vox tem, por enquanto, pouca penetração. Se olharmos para o que se passa em Portugal nos últimos anos a conclusão é inevitável: nenhum dos partidos do bloco central conseguiu desenvolver políticas capazes de ir ao encontro de grande parte do eleitorado e deixou esse terreno ao Chega. O PS esteve no Governo entre 2015 e 2024 e não fez o que agora reivindica e, na realidade, através da sua política de alianças na geringonça e na forma como geriu a maioria absoluta de 2022, deu sempre bons argumentos para o Chega crescer, na esperança de conseguir travar com esse crescimento o PSD. E o PSD, cada vez mais distante das suas origens programáticas, fez o resto. Na realidade PS e PSD trocaram as suas matrizes políticas por tácticas de conveniência apenas com a luta pelo poder em vista e o resultado foi este: o Chega teve 1,9% de votos e um deputado em 2019, 12 deputados e 7,18% dos votos em 2022, 18,7% dos votos e 50 deputados em 2024 e 60 deputados e 22,76% dos votos em 2025. No Parlamento Ferro Rodrigues primeiro, e Santos Silva depois, fizeram tudo o que podiam para dar palco a André Ventura e com isso conseguiram que o PS ficasse atrás do Chega e que o PSD se aproximasse de André Ventura em nome da governabilidade tacticista. A coisa não está brilhante. Na realidade está bastante escura.
SEMANADA - Lisboa é o distrito onde se verifica um maior número de despejos, que aumentaram 21% no espaço de um ano; os custos de construção de casas novas subiram 4% em Junho face a igual mês do ano passado; o preço dos quartos para estudantes subiu 33% em três anos; as apólices individuais de seguros de saúde tiveram um crescimento de 6% em 2024 e já abrangem quatro milhões de pessoas; 96% dos estudantes do 9º ano tiveram nota negativa na prova de matemática; o Governo reconheceu não ter dados sobre o número de mães que pedem direito a dispensa para amamentação dos filhos nem sobre eventuais abusos verificados; Portugal tem 10 aeronaves que podem ser usadas para combate aos incêndios rurais, mas comprou-as sem os "kits" necessários para as adaptar para essa finalidade; a área ardida até agora neste ano já ultrapassou a média dos últimos 20 anos; o plano oficial que previa a limpeza de um milhão de hectares de floresta no ano passado apenas tratou 400 mil hectares; as exportações portuguesas para os Estados Unidos caíram 39% em Junho; o peso do investimento americano no mercado de capital de risco nacional chega quase a 80% ; 58% das equipas do futebol português têm accionistas estrangeiros; o Fisco está a investigar a fuga ao pagamento de impostos de mais de 536 milhões de euros, um crescimento de 26% face a 2023 ; em 2024, existiam em Portugal 563 salas de cinema, mas em 174 concelhos não há nenhuma; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que no início da década de 1960 nasciam mais de 200 mil bebés por ano e hoje esse número é inferior a 85 mil.
O ARCO DA VELHA - Uma assistente social, casada com o Presidente da Câmara de Esposende, atropelou uma menor que esteve internada 16 dias em estado grave, não parou depois do acidente que diz não ter percebido que ocorreu e nem ela nem o marido contactaram posteriormente a vítima ou a sua família.

UMA AVENTURA NA ESTRADA - Pode alguém planear uma viagem de duas semanas sózinha e depois seguir um caminho completamente diferente, e pelo meio ter uma série de revelações sobre si própria, os amigos, a família, a sua sexualidade e os seus interesses? “De Quatro”, da norte-americana Miranda July dá uma resposta afirmativa a todas estas questões. O livro conta como uma mulher de 45 anos, casada, um filho, uma artista que trabalha em publicidade, cujo nome nunca é referido, mas que é a narradora de tudo o que se passa, programa uma viagem de Los Angeles, onde vive, a Nova Iorque onde deseja ir rever amigos e ver exposições. Decide ir de carro, sózinha, mas sucede que escassa meia hora depois de sair da sua cidade sai da auto-estrada para meter gasolina e encanta-se por um rapaz que vê numa bomba de gasolina. Decide alugar um quarto num Motel e gasta todo o dinheiro que tinha para a viagem, vinte mil dólares, a remodelá-lo. É nesse quarto que passa todo o tempo que a sua viagem era suposta demorar. Ao marido e filho nada conta, e ilude-os inventando onde está ao longo do itinerário previsto, dando a ilusão que de facto está em viagem. A relação com o rapaz é um misto de atracção com desejo não consumado e as conversas que têm e o que vai descobrindo levam-na a repensar a vida e viver experiências que lhe abrem novos horizontes físicos e sexuais. A protagonista, uma mulher de meia idade, procura, e encontra, uma vida que antes não tinha. Miranda July é realizadora e argumentista de filmes, actriz e, também escritora. Este “De Quatro” é a sua segunda novela. O “New York Times” escreveu que este livro “ inspira as mulheres a fantasiar sobre desejo e liberdade”. Originalmente editado em 2024, foi considerado livro do ano pelo The Observer e foi finalista do National Book Award. Edição Quetzal, tradução de Telma Costa.

A NORMALIDADE DA PINTURA - No regresso de férias, a partir do início de Setembro, pode ver na galeria Jahn und Jahn, em Lisboa, a exposição “normal”, da artista alemã Gülbin Ünlü. O título, pode ser lido como uma espécie de provocação que tem por base a pergunta: o que significa que algo seja normal? As obras expostas respondem a essa questão proporcionando uma visão sobre o método de trabalho do artista através das 14 obras que são apresentadas. Para Gülbin Ünlü tudo o que a rodeia e está no interior do seu atelier, mesmo peças que regressaram de uma exposição num museu, são matéria prima que continua a utilizar, por vezes colocando novas camadas em pinturas e, noutros casos, retirando-as. Ünlü sublinha que para qualquer artista que trabalhe primariamente no domínio da pintura o movimento é fundamental: a velocidade e pressão da pincelada influencia directamente a intensidade da cor. Assim Ünlü, desenvolveu uma técnica que reflecte esse dinamismo, fundindo pintura e gravura. Em muitas das suas obras, Ünlü começa por compor imagens digitalmente, para depois selecionar fragmentos, imprimi-los em película e transferi-los, ainda húmidos, para tela ou tecido, trabalhando-os depois. A exposição pode ser visitada até 10 de Setembro na Rua de São Bernardo 15-1º, de quarta a sábado entre as 12 e as 19h00 e mediante marcação para o telefone 213 950 708.

ROTEIRO - Se estão em Lisboa tenho uma sugestão para os dias de calor: visitem o Museu Nacional de Arte Antiga, onde poderão ver a magnífica selecção de obras primas da pintura europeia com destaque para o tríptico das “Tentações de Santo Antão”, de Jheronimus Bosch na “Sala do Tecto Pintado”( na imagem), junto a outras “tentações” flamengas do século XVI onde se pode perceber a influência do imaginário do diabólico criado por Bosch. Nas nove salas da exposição pode também ver duas pinturas de Nuno Gonçalves e obras de Piero della Francesca, Bartolomé Bermejo, Hugo van der Goes e Dürer, entre outros. Para os mais novos saiba que de terça a sexta, de manhã ou à tarde, há visitas-jogos para grupos de crianças, mediante marcação no site do MNAA. Há outras exposições, entre elas as de novas aquisições e de desenho europeu do século XVI ao século XVIII sobre seres e animais fantásticos e pode sempre percorrer os jardins com uma magnífica vista sobre o Tejo e parar no restaurante e cafetaria que está aberto de terça a domingo entre as 10h00 e 17h30.

MÚSICA REVISTA - No início deste século, há pouco mais de 20 anos,a prestigiada editora discográfica Verve teve a ideia de convidar DJ’s e produtores a pegar em canções do seu catálogo de standards de jazz e blues e dar-lhes uma nova roupagem. Assim nasceu a série “Verve Remixed”, que teve quatro volumes. A capa que aqui se reproduz é do primeiro, editado em 2002 e que inclui remixes de temas de Nina Simone, Billie Holiday, Astrud Gilberto, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald ou Shirley Horn, entre outras. Para assinalar as duas décadas da série a Verve editou o primeiro dos discos numa edição especial em vinil laranja e amarelo. Podem ouvir as várias versões no Spotify e há mesmo uma playlist que junta todos os discos da Verve Remixed.
ALMANAQUE - Em Londres, a partir de 28 de Agosto, poderão ver na prestigiada galeria Gagosian uma exposição com 18 fotografias feitas por Paul McCartney no início da carreira dos Beatles, “Rearview Mirror: Liverpool-London-Paris”. As fotografias foram feitas no final de 1963 e no início de 1964, durante a primeira digressão do grupo aos Estados Unidos, depois do êxito obtido pelos dois primeiros álbuns da banda, “”Please Please Me” e “With The Beatles”.
DIXIT - “A Europa capitulou (...) porque é um projecto político adiado, incompleto, indefeso e crescentemente disfuncional” - Pedro Norton sobre as negociações de taxas alfandegárias entre os Estados Unidos e a União Europeia.
BACK TO BASICS - “O que quero de todos os portugueses é o seguinte: sejam curiosos; e que a organização em sociedade possa ser de tal maneira que eles possam satisfazer essa curiosidade completamente” - Agostinho da Silva
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS





































