julho 28, 2023

O ARTISTA COSTA PROTAGONIZA NOVA TELENOVELA

 


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FIM DE TEMPORADA  - Esta semana nasceu um novo folhetim: um Conselho de Estado em episódios. No primeiro episódio um dos protagonistas, António Costa, chegou tarde e já tinha avisado que teria de sair cedo, já que teria de apanhar o avião para ir ver um jogo de futebol à Nova Zelândia, no caso a estreia da Selecção portuguesa de futebol feminino no Campeonato do Mundo. Simpatizo com a ideia de o Governo acompanhar as selecções nacionais - mas não bastaria o Secretário de Estado da Juventude e Desportos para representar o país? Fica a parecer que o Primeiro-Ministro aproveitou o pretexto para não ter que dar a atenção devida ao Conselho de Estado, onde várias vozes iriam criticar a acção do seu Governo. O resultado é que face à pressa de António Costa, Marcelo Rebello de Sousa adiou a sua própria intervenção, para a qual, rezam as notícias entretanto surgidas, desejava uma resposta desenvolvida de António Costa e agendou novo episódio do Conselho de Estado para Setembro, colocando em banho maria um debate sobre o estado da nação mais sério, e menos demagógico, do que aquele que Costa protagonizou no Parlamento, perante a fraqueza das oposições. Costa, já se sabe, é bom orador, bom tribuno, e não hesita em torcer a verdade e os factos por forma a que tudo pareça estar pelo melhor. Mas arranjou forma de se escapulir quando tinha pela frente uma mesa onde estavam analistas e políticos com experiência. O Conselho de Estado tinha sido marcado pelo Presidente da República numa data posterior ao debate sobre o Estado da Nação, não certamente por acaso. O súbito interesse de António Costa pelo futebol feminino veio baralhar as coisas e esvaziar o que Marcelo pretendia. Um artista.


 


SEMANADA - Rui Rio disse que não abriu a porta à PJ porque dorme com tampões nos ouvidos e não ouviu nada; a filha diz que ouviu, mas não abriu a porta porque não permite a entrada a estranhos; as subvenções aos grupos parlamentares aumentaram 16% nas últimas cinco legislaturas; um sondagem do DN indica que 54% dos jovens portugueses admite sair do país num futuro próximo por falta de perspectivas de trabalho, a maioria não participa em actividades de partidos ou sindicatos e não faz voluntariado; a Presidência da República ainda não criou um inventário único de bens como recomendado pelo tribunal de contas desde 2019; 255 pessoas fizeram cirurgias para mudança de sexo nos últimos cinco anos e em Coimbra a lista de espera para essa intervenção ultrapassa 18 meses; 36% do solo em Portugal continental, cerca de três milhões de hectares, é ocupado por floresta; o PIB per capita de Portugal é o oitavo mais baixo da Europa e já está atrás da Lituânia, Estónia e Roménia; O filme “Barbie”, de Greta Gerwig, foi o mais visto em Portugal no fim de semana de estreia, com 189.709 espectadores e mais de 1,1 milhões de euros de bilheteira, revelou o Instituto do Cinema e Audiovisual; o endividamento de Portugal atingiu o valor mais alto de sempre, 804,4 mil milhões de euros o que significa que cada português deve em média mais de 77 mil euros; em junho a procura por Certificados de Aforro caíu 70% depois da diminuição das taxas de juros; em 2022, no hospital de S. José, foram tratados 995 feridos em acidentes com trotinetas.


 


O ARCO DA VELHA - As contas dos partidos e dos grupos parlamentares não são fiscalizadas desde 2018.


 


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VISÕES DE FOTOGRAFIA - Até Janeiro, no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, MACE, está patente a segunda parte de “Contravisões”, a mostra das obras de fotografia na colecção de António Cachola: A exposição tem curadoria de Sérgio Mah, que, num texto sobre a exposição, assinala a importância do núcleo de fotografia da colecção, “que cobre diversos géneros e tipologias, e onde coexistem predisposições que apontam para um campo mais estritamente fotográfico com inúmeros exemplos de articulação e de hibridação da fotografia com outras artes visuais”. Ao todo, nas duas partes de “Contravisões” estão representados cerca de 50 artistas. Nesta segunda parte existem obras de, entre outros,  André Gomes, André Romão, António Júlio Duarte, Augusto Alves da Silva, Cristina Ataíde, Edgar Martins, Gabriel Abrantes, Henrique Pavão, Igor Jesus, João Tabarra, Jorge Molder, Julião Sarmento, Luís Palma, Manuel Botelho, Paulo Catrica, Rita GT, Rui Toscano e Mónica De Miranda, que aliás é a autora da imagem aqui reproduzida,Twins”, da série Cinema Karl Marx, 2017. Entretanto a primeira parte de “Contravisões”, pode ser vista até 29 de Setembro no átrio principal do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos em Lisboa e inclui obras de André Cepeda, Nuno Cera, João Paulo Serafim, Daniel Blaufuks, Patrícia Garrido, José Maçãs de Carvalho ou Salomé Lamas entre outros. Ainda em Elvas, na Cisterna, e no âmbito das actividades do MACE, podem ser vistas até 30 de Setembro duas obras de Rui Sanches, uma de 2016 e outra de 2018. Permanecendo no Alentejo,  em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida pode ver até final de Dezembro, fotografias e videos de Paulo Catrica, Rita Barros e Virgílio Ferreira na exposição “No Tempo dos Dias Lentos”.


 


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RIVALIDADES PERIGOSAS - Bem sei que não está muito calor ainda, mas venho recomendar uma leitura gelada. Melhor dizendo, o relato de uma disputa passada numa região rural da Suécia, entre duas aldeias separadas por uma floresta e por uma rivalidade feroz entre as respectivas equipas de hóquei no gelo, Björnstad e Hed. “Nós Contra os Outros” é uma história que envolve as dificuldades das regiões do interior, a ameaça de encerramento de uma fábrica com as consequentes repercussões na economia local, as ligações que se tecem entre a política, o desporto e as empresas. Mas também a forma como as populações reagem a quem foge à norma, como reagem a que uma equipa de hóquei no gelo masculina seja treinada por uma mulher, o que acontece quando descobrem que o capitão da equipa e um dos seus melhores jogadores  é homossexual. Pelo meio há ameaças, agressões, mortes, sempre com o hóquei no gelo como pano de fundo. Há frases ao longo do livro que são lições de vida: “o poder é a capacidade de levar os outros a fazer aquilo que queremos”; ou, “ser líder é tomar decisões difíceis, desagradáveis e impopulares”; e também: “o problema, tanto com as pessoas boas como as más, é que a maior parte de nós é as duas coisas ao mesmo tempo”. E esta, na última página do livro e que resume o que é o hóquei no gelo: “ é um jogo simples se tirarmos todas as porcarias que o rodeiam e guardarmos apenas aquilo que nos faz amá-lo ao princípio. Toda a gente tem um stick. Duas balizas. Duas equipas. Nós contra os outros”.  Fredrik Beckman, o autor, escreveu já sete romances, duas novelas e um livro de não ficção. É o autor de “Um Homem Chamado Ove”, que já elogiei nestas páginas e ao todo as suas obras já venderam mais de 19 milhões de exemplares, traduzidos em 46 línguas. “Nós Contra os Outros” foi publicado pela Porto Editora.


 


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NINA AO VIVO - Sabem quem é Eunice Kathleen Waymon? Este nome não vos dirá nada, mas se souberem que se tornou conhecida sob o nome artístico de Nina Simone o caso mudará de figura. Nascida em 1933, tornou-se uma das grandes cantoras da América e o seu repertório passeou-se entre os blues e o jazz, com incursões na soul e no gospel. Pianista, compositora, cantora, o nome Simone veio da sua admiração pela actriz francesa Simone Signoret. O seu primeiro álbum data de 1958, “Little Girl Blue” e o derradeiro “A Single Blue”, de 1993. Morreu em 2003 e, de então para cá, têm sido reeditados vários dos seus êxitos. Ao todo gravou quatro dezenas de álbuns e deu material para dezenas de colectâneas. Interpretou temas seus e de outros compositores. Pelo meio foram também descobertas várias das suas gravações ao vivo, a mais recente das quais, editada pela primeira vez, é um registo inédito de uma actuação no Festival de Newport em Julho de 1966, um momento alto da sua carreira. “You’ve Got To Learn - Live” é o nome desse disco, que inclui seis temas gravados ao vivo nessa ocasião: “You’ve Got To Learn”, “I Love You Porgy”, “Blues For Mama”, “Be My Husband”, “Mississippi Goddam” e “Music For Lovers”. O organizador do festival de Newport, George Wein, doou as fitas da gravação do concerto de Nina Simone à Library Of Congress dos Estados Unidos, onde estiveram esquecidas até há pouco tempo, tendo sido descobertas por uma das pessoas que se têm estudado a carreira de Nina Simone,  Nadine Cohodas. Nestas gravações, com boa qualidade, Nina Simone é acompanhada pelo guitarrista Rudy Stevenson, o baixista Lisle Atkinson e o baterista Bobby Hamilton. O disco está disponível nas plataformas de streaming e constitui uma homenagem editada este ano, quando Nina Simone completaria 90 anos.


 


PROVAR - Em Alfarim, quase a chegar a Aldeia do Meco, na Avenida José Carlos Ezequiel, junto ao largo da Igreja, encontra-se uma bela esplanada, colorida e festiva que dá pelo nome de “Muito Espalhafato”. Trata-se de uma petiscaria onde também se pode agora pedir algo mais substancial que as tábuas de queijo e enchidos que têm feito a fama da casa. No comando das operações está um casal que é uma garantia de hospitalidade: a Lai e o Francisco Completo. Antes de entrar nas comidas deixem-me dizer que para além da esplanada o interior oferece um mundo de artigos de decoração, móveis e até roupa. Nas refeições têm feito sucesso as bochechas de porco preto, tenríssimas, e o pica pau de lombo. Por vezes há ostras, por vezes há peixinhos da horta, quase sempre a entrada pode ser um cogumelo portobello de bom porte recheado de alheira e doce de abóbora ou um carpaccio temperado com maracujá. Enquanto a comida chega há pão da região com um azeite delicado de Proença-A-Nova, de onde vem também, na época apropriada, um bucho de alta qualidade. Numa recente visita a mesa experimentou, além das entradas, um tártaro de atum fresco envolvido em abacate e um vol au vent de pato confitado, acompanhado de endívia aos pedaços. Para o fim veio um arroz doce de tangerina e uma boa sobremesa de chocolate. Quanto ao vinho, deixem a escolha na mão do Francisco que as suas recomendações são boas e honestas no preço - no caso foi um branco Sem Segredos, do Douro. Reservas e Informações, ligue 962 902 234


 


DIXIT - “Saíram 13, por mim tinham saído mais” - Carlos César, Presidente do PS, sobre o número de membros do Governo que já se demitiram.


 


BACK TO BASICS - “O mistério de qualquer Governo não é saber como funciona e sim como se pode parar” - P. J. O’Rourke





julho 21, 2023

ISTO ESTÁ TUDO EMARANHADO

 


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A NUDEZ DO REI - Este rectângulo à beira mar plantado é um emaranhado de casos insólitos, onde a realidade ultrapassa a ficção e a responsabilidade e a coerência são inexistências. Confrontado com indícios de corrupção no Ministério da Defesa, António Costa disse que essa não era a preocupação principal das pessoas. Seguiu-se uma pequena tempestade, obviamente urdida na “bolha político-mediática”, que hoje em dia é a mãe de todos os males: curiosa situação esta em que os factos não são assumidos como a causa dos problemas,  mas as reacções a esses factos são consideradas malfeitorias.  A propósito ocorreu-me isto: a política só é lugar de crime quando quem a pratica comete crimes, mas não vejo ninguém na direcção dos partidos reconhecer esta evidência. O ladino Ministro da Cultura, Adão e Silva, agora investido em amplificador das palavras de Costa, empinou-se a criticar a bolha e rezou a lengalenga  dos casos e casinhos, jurando sempre as boas intenções do Governo. E António Costa, tal vestal a caminhar para o sacrifício de algum cargo internacional, declarou-se incompreendido no que queria ter dito. Sucessivamente incompreendido, digo eu, já que, tantas vezes, o que diz não corresponde ao que se passa - ou que ele imagina que pensou. Mas o insólito não é acolhido só no PS. Do lado do PSD constata-se, por escutas gravadas numa investigação policial, que um deputado, no exercício de anteriores funções de autarca, estabelecia o módico valor de 25 mil euros por cada acto de favorecimento que cometesse. E o facilitador lá tem estado ainda sentado no Parlamento, dois meses depois de tudo isto se saber, com o líder do PSD a confessar-se impotente para resolver a situação.  Cereja no topo do bolo: a corte política de múltiplos sectores do regime uniu-se em torno da justeza de utilização de verbas parlamentares para desígnios partidários e insurgiu-se contra quem acha estranha a coisa, que, sendo prática corrente, não será legal. Como escreveu Susana Peralta, a propósito de Rui Rio, "para uma pessoa que nos prometeu um banho de ética, é curioso que não perceba que uma prática ser comum não a torna aceitável; pelo contrário: só piora a gravidade dos factos.” Não é o rei que vai nu, é o regime.


 


SEMANADA - O Conselho de Finanças Públicas alertou para o facto de a execução do PRR estar muito abaixo do previsto e em 2022 o Orçamento de Estado gastou apenas um quarto das verbas da bazuca que estavam inscritas; o secretário geral da CAP alertou para o facto de o PRR não contemplar investimentos na área da eficiência hídrica, nomeadamente em relação à agricultura; as obras na linha circular do Metro de Lisboa têm um atraso de 30 meses em relação ao previsto, confirmou o presidente da empresa; as exportações portuguesas tiveram um recuo de 6,9% em Maio, em comparação com o mesmo mês do ano anterior; o crescimento de vendas da Porsche em Portugal no 1º semestre foi de 34,1%, número que compara com os 15% de aumento que a marca registou a nível global; em 2022 foram feitas 168.000 transações imobiliárias, um novo recorde; os pedidos de despejo aumentaram mais de 20% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado; há dez anos que a média a matemática do exame do 9º ano não era tão baixa e este ano quase 60% dos alunos não chegaram à nota positiva; mais de 40% dos atropelamentos registados em Portugal ocorrem em passadeiras e Portugal é o país da Europa com mais mortes de peões; os bancos e financeiras emprestaram quase 3,2 mil milhões de euros com a finalidade de consumo nos cinco primeiros meses do ano, o que representa o valor mais elevado desde 2013; 3400 professores aposentaram-se no ano lectivo passado; no primeiro semestre de 2023 em Portugal, verificou-se um aumento de 6% no número de nascimentos, em comparação com o período homólogo.


 


O ARCO DA VELHA - Notícias da justiça: um processo judicial considerado simples arrastou-se durante 11 anos, arruinou uma firma familiar do Cartaxo e provocou três dezenas de despedimentos.


 


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PINTURA E FOTOGRAFIA - Na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art pode ser vista até 2 de Setembro uma das mais interessantes exposições patentes em Lisboa. Trata-se de “Neo-Pós-Neo”, de Mariana Gomes, um conjunto de nove obras de pintura, inesperadas, marcantes, com cores vivas, formas soltas, como se cada uma tivesse vida própria. E, no entanto, elas estão no espaço de uma tela, inequivocamente fruto de um trabalho diligente e criativo de pintura, que não é frequente encontrar hoje em dia. Passando da pintura para a fotografia, há várias sugestões. Começo por aquela que mais me marcou - “Volterra, Portraits of Local People”, de Eurico Lino do Vale, uma série realizada em 1997 na Toscânia e que agora é exposta, até 16 de Setembro, pela primeira vez na Galeria Belard, um espaço recente localizado na Rua Rodrigo da Fonseca 103. Como escreveu João Pinharanda, “as fotografias de Eurico Lino do Vale ocupam-se de personagens, e não de cenários” e o resultado é marcante. A seguir sugiro “Interior”, de Ricardo Lopes, um ensaio fotográfico sobre o despovoamento da Região Centro, uma visão da ruralidade portuguesa.  O trabalho recebeu a Bolsa Estação Imagem em 2020, além de ter sido distinguido internacionalmente no LensCulture Portrait Awards. Está na Casa da Imprensa até 28 de Julho (Rua da Horta Seca 20). “Fading”,  de Luís Campos, é uma exposição sobre a memória e o desaparecimento. Trata-se de um conjunto de fotografias de animais selvagens no seu habitat natural, tiradas ao longo de 12 anos em 14 países. São fotografias a preto e branco, com uma elipse preta esbatida à volta de uma imagem central, que alude a um processo cinematográfico de desaparecimento da imagem. Até 16 de setembro na Galeria Carlos Carvalho (R. Joly Braga Santos, Lote F).


 


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 LER PORTUGUÊS - Quem gosta de livros gostará desta síntese das principais obras e autores desde o início da escrita em língua portuguesa até aos anos 70 do século XX. Originalmente escrito em 1971, “Literatura Portuguesa - Das Cantigas de Amigo às Vanguardas do Século XX” é um ensaio escrito por Jorge de Sena em 1971 para a 15ª edição da Enciclopédia Britânica. O texto original é agora publicado em edição autónoma pela Guerra & Paz e o editor considera-a “a mais justa, a mais inteligente, a mais exaltante história já escrita da nossa literatura”. São cerca de cem páginas que deveriam ser matéria de conhecimento geral para todos. São de Jorge de Sena estas palavras: “O século XVI, durante o qual Portugal atingiu o seu máximo em poder imperial, foi uma Idade de Ouro na Literatura Portuguesa, e muitos autores e obras foram na altura importantes no desenvolvimento das literaturas ocidentais. Mas desde cerca de 1200 até 1350 já Portugal tinha criado um dos mais importantes corpus de poesia lírica e satírica da Idade Média numa língua que se tornou quase universalmente aceite na Península Ibérica como o veículo literário das composições líricas de quase três décadas”. Na parte final do ensaio surgem nomes como Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Herberto Hélder e Luis de Sttau Monteiro. O livro aborda ainda, num capítulo separado, outra literatura escrita em português - a brasileira, lembrando a importância de nomes como Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Sérgio Buarque de Holanda, Erico Veríssimo, Vinicius de Moraes e Jorge Amado. 


 


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MÚSICA MELOSA - Jaime Fernandes, um dos grandes radialistas portugueses, tinha em tempos um programa dedicado à country music e foi aí que aprendi a gostar deste género musical.  Lembrei-me disto ao ouvir “One Thing At A Time”, o terceiro álbum de Morgan Wallen, um músico country que está a ser um caso de sucesso. “Last Night”, um dos temas deste disco,  ocupou o primeiro lugar do Hot 100 chart do Billboard durante 13 semanas, algo que é uma raridade - desde que  a tabela existe, apenas 15 canções conseguiram essa proeza. O álbum, pelo seu lado,  esteve durante 15 semanas à frente da tabela de vendas de discos da revista Billboard, desde que foi editado em Março passado. Wallen mostra que existe um ressurgimento na música country, depois de um progressivo apagamento ao longo dos últimos anos. O consumo de música country nas plataformas de streaming cresceu 20 por cento desde o início deste ano. O álbum de Wallen tem 36 canções  - o seu disco anterior tinha 30. Os temas das canções são recorrentes: engates, copos, noitadas, paixonetas variadas. O novo disco tem duas horas disto,  canções sentimentalonas, alegres, de festa, choramingas, de abandono, doridas, de ressaca. Disponível nas plataformas de streaming.


 


PETISCO - Gostam de comer moluscos cefalópodes cozidos com ervas aromáticas? Não torçam o nariz - são apenas caracóis, biologicamente ainda aparentados com as lesmas. As suas conchas, que atacamos de palito em punho, são o seu esqueleto externo. Se olharem para a cabeça dos caracóis quando os estão a comer verão os olhos na ponta dos corninhos e saibam que ao lado da boca fica o aparelho genital - atenção que são hermafroditas e para fecundar formam casais e copulam em média 4 vezes por ano num acto que pode durar até dez horas. Não comecem agora com más ideias e limitem-se à iguaria que, nesta altura do ano, é um pratinho de caracóis cozidos e temperados como deve ser. A maioria destes petiscos que comemos ao longo do verão são oriundos de Marrocos. A boa maneira de os cozinhar, depois de muito bem lavados durante uns 20 minutos, é colocá-los numa panela e tapá-los com água. Devem cozer em lume brando por uns dez minutos. Ao fim deste tempo pode adicionar sal, azeite, dentes de alho esmagados, cebola picada, folha de louro, orégãos e, em querendo, piripiri. Suba o lume e quando levantar fervura deixe estar cinco minutos e depois desligue e deixe arrefecer uns 15 minutos para que ganhem bem o gosto do tempero. Em Lisboa, para além do Menino Júlio dos Caracóis, uma casa de referência, sportinguista, é o Lutador, perto de Alcântara, Rua da Junqueira nº1, com uma bela esplanada. Ou então o Pomar de Alvalade, na rua Marquesa de Alorna. Acompanhamento? Uma imperial bem tirada. Às vezes remata-se com um prego no pão. Aqui está a happy hour lisboeta de verão por excelência.



DIXIT - “Há problemas que a democracia não pode e não sabe resolver. Um deles é a corrupção partidária. Outro é a crise da justiça” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Numa altura em que a desilusão prolifera, dizer a verdade é um acto revolucionário” - George Orwell







julho 14, 2023

O REALITY SHOW DE PEDRO ADÃO E SILVA

 


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EQUÍVOCOS DEMOCRÁTICOS - A  autora do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP, a deputada do PS Ana Paula Bernardo,  é uma séria candidata ao prémio de ficção do ano, uma especialista em não contar o que se passou, em não descrever aquilo a que assistiu, em ocultar factos e manipulá-los. O mais chocante é que a senhora não teve hesitações em alterar a realidade e criar a fantasia que mais lhe interessava para agradar aos seus superiores. A sua atitude é, além do mais, um insulto a todos quantos seguiram as audiências daquela Comissão Parlamentar e sabem o que de facto se passou. E é um insulto aos deputados que na Comissão trabalharam para esclarecer as pouco edificantes cenas recentes que  cresceram à volta da Tap, de Pedro Nuno Santos, de Alexandra Reis, de Fernando Medina e de João Galamba. Até do próprio PS vieram protestos pela forma como o relatório está escrito. Este é mais um daqueles casos em que se percebe o perigo manifesto da maioria absoluta quando mal utilizada. Mas eis que, face aos protestos vindos de membros de todos os partidos, sem excepção, apareceu o ex comentador desportivo e propagandista político do PS, actualmente a desempenhar o papel de Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, a acusar os deputados daquela Comissão de serem eles os protagonistas de um filme de fraca categoria. Perante a reacção de figuras do PS, como o Presidente da Comissão, António Lacerda Sales, o dito comentador desencadeou nova série de ataques tornando-se assim ele próprio o protagonista de um reality show que acusou outros de fazerem. Como disse um deputado do PS, Adão e Silva desempenha agora o papel que Santos Silva teve durante uns anos e que agora já não pode fazer. Ambos são um equívoco da democracia. Encaixam bem num primeiro-ministro que, perante mais uma demissão do governo, insinuou que para os portugueses a corrupção na política é um tema sem interesse.


 


SEMANADA - Quase metade dos reclusos em Portugal estão em cadeias sobrelotadas; os turistas vindos dos EUA representam 42% do aumento de turistas entre Janeiro e Maio; este ano o sector do Turismo poderá contribuir com 16,8% do PIB, representando 40,4 mil milhões de euros; em metade dos dias do primeiro semestre deste ano houve greve da CP; de janeiro a maio foram comunicados 754 pré-avisos de greve no país, o equivalente a 70% do total de greves do ano passado; a taxa de juro média de novos empréstimos à habitação alcançou 4%, o maior valor desde 2012; em 2022 foram criadas em Portugal 3080 startups, mais do dobro face a 2013; dos 3.940 incêndios rurais registados entre Janeiro e Junho, apenas 1% se deveram a causas naturais; em 2022 foram enviados a partir de Portugal 7400 milhões de euros para paraísos fiscais, o valor mais alto em quatro anos; há 7802 pedidos de vistos Gold à espera de aprovação; o ministro Galamba desclassificou 101 dos 105 documentos que há semanas atrás apontou como segredos de Estado, dizendo que o seu conteúdo não justifica que assim sejam considerados; o investimento publicitário em Portugal teve um aumento de 8% entre Janeiro e Maio, digital e publicidade exterior foram as áreas com maior subida e televisão generalista e rádio as que mais desceram; nas últimas duas décadas e meia, Portugal foi dos países da União Europeia que mais aumentaram as taxas máximas do imposto sobre o rendimento; a Iniciativa Liberal vai apresentar no Parlamento uma proposta de alteração à Lei Eleitoral, que cria um círculo de compensação, destinado a minorar os efeitos dos quase 700 mil votos desperdiçados nas mais recentes eleições; segundo o INE um quarto da população portuguesa tem mais de 65 anos.


 


O ARCO DA VELHA -A  Entidade para a Transparência tomou posse há cinco meses e as instalações que lhe foram atribuídas pelo Governo, em Coimbra, ainda não têm água, luz, internet nem cadeiras.


 


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A HISTÓRIA DE UM GÉNIO MUSICAL - Hoje, em vez de falar de um disco, venho falar de um livro sobre música. Trata-se de “A Vida de Beethoven”, de Romain Rolland. Publicado em 1903, este livro constitui uma belíssima descrição da vida e obra de Beethoven escrita com uma visão crítica dos factos,  que enfatiza a empatia e a resistência do biografado. Para Rolland, Beethoven previu o futuro e assombrou o mundo com o seu talento, mas foi também um «homem forte e puro» envolto em sofrimento. Romain Rolland  reconstitui os passos de Beethoven a partir de fontes primárias e testemunhos dos amigos do grande compositor, desde a infância na cidade de Bonn, onde nasceu em 1770, infância marcada pela educação severa imposta pelo pai, até à sua morte, em 1827, durante um temporal. Pelo meio estão episódios riquíssimos, descritos por Rolland como se de um romance se tratasse. O ouvido absoluto, que nem mesmo a surdez lhe roubou em definitivo, a morte da mãe, o alcoolismo do pai, a oportunidade que Joseph Haydn lhe deu de estudar em Viena, o processo de ensurdecimento, a composição das míticas nove sinfonias, o desgosto amoroso que Therese Brunswick lhe provocou, a degradação da sua saúde, mas também «do seu aspecto e dos seus modos», e, claro, o momento em que, a 7 de Maio de 1824, em Viena, surpreendendo tudo e todos, conseguiu dirigir a primeira audição da Missa em Ré e da Nona Sinfonia completamente surdo. A obra é complementada por uma selecção da correspondência de Beethoven e por algumas das suas citações mais famosas.  Esta nova edição, da Guerra & Paz, tem tradução de Isabel Ferreira da Silva.


 


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IMAGENS DE VIAJANTE - Cristina Ataíde continua a manifestar a sua preocupação com a acção dos homens sobre o planeta e esse é o tema central da exposição/instalação que apresenta, até 17 de Setembro, no Museu de Arte Contemporânea do Chiado, sob o título “A Terra Ainda É Redonda?”. No texto que escreveu para a exposição, o seu curador, David Barro, sublinha que “Cristina Ataíde ausculta as diferentes dimensões da alteração da matéria”, através de “obras de uma marcada presença escultórica”. E prossegue: “ São obras que se baseiam na transformação, capazes de poetisar o tempo e suas circunstâncias, mas também de questionar criticamente o nosso lugar no mundo”. Para o espectador é difícil isolar uma só peça desta exposição, tal a relação que elas naturalmente estabelecem entre si, relação que é potenciada pela montagem, que cria uma narrativa visual ao longo do espaço onde as obras foram colocadas. Existe como que um percurso incontornável, que vai em crescendo, explorando formas diversas mas complementares e que obriga a percorrer tecto, chão e paredes, a visitar recantos e a descobrir perspectivas. São 20 obras, todas datadas de 2023, cada uma com uma origem geográfica diferente que identifica a artista como uma viajante a explorar o seu universo.


 


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O SALTO - Alexandre Melo, que se tornou conhecido como crítico, ensaísta, curador e professor de sociologia da arte e cultura, deu o salto para o outro lado e expôs-se na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12), onde mostra, até 16 de Setembro, “Alexandria”, um conjunto de quase duas dezenas de obras recentes, todas baseadas na recuperação de memórias vividas, temperadas com uma boa dose de imaginação na sua apresentação. Na realidade, trata-se da reprodução de colagens que fez a partir de recortes de notícias e imagens de jornais e revistas, de programas de espectáculos, de fotogramas de filmes, anúncios e cartazes, folhetos, rótulos, fotografias de alimentos, embalagens e por aí fora. Em muitas há a evocação de locais - os Estados Unidos, Itália, França, Inglaterra e ocasionalmente também Portugal. É a mistura de todas estas imagens  - procurando em cada uma das colagens traçar encontros e sublinhar pontos comuns - que torna estas obras uma descoberta. Percorrer estes trabalhos é como folhear um livro de banda desenhada e deixar que a cada nova revisitação da página se descubram novos pormenores - é o que acontece quando se volta a percorrer a exposição. As obras apresentadas são fotografias únicas das colagens originais, impressões produzidas em 2023 de 18 trabalhos, seleccionados de um conjunto de 63, realizados em 2003 e em 2021/2022, “recorrendo a uma colecção de papéis impressos e materiais afins reunidos ao longo das últimas seis décadas”, para usar as palavras do autor. Na realidade não é a primeira vez que Alexandre Melo expõe,  teve uma outra apresentação, menor, e no meio de uma mostra de que foi curador, no início deste século, na Galeria Cómicos, de Luís Serpa.


 


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UMA DÉCADA - No Atelier Museu Júlio Pomar abriu na semana passada uma exposição que assinala os 10 anos de existência do espaço e que aproveita a oportunidade para apresentar obras e séries de trabalhos de Pomar que fazem parte do acervo do Museu, e também peças expostas pela primeira vez e que fazem parte do espólio da Fundação Júlio Pomar e dos herdeiros do artista. Destaque ainda para um conjunto de estudos e documentos alusivos às pinturas murais que Júlio Pomar fez no Cinema Batalha, no Porto, e que foram recuperadas no ano passado. Outro núcleo inclui retratos e autorretratos e também um conjunto de retratos do próprio Pomar feitos por amigos como Menez, Luísa Correia Pereira, Eduardo Luís ou Álvaro Siza Vieira. A exposição mostra ainda um bestiário de animais mais ou menos estranhos, um conjunto de quadros que partem de obras literárias que sempre foram uma fonte de trabalho para o artista, e de que dois bons exemplos, agora expostos, são “Cartilha do Marialva”  e “Navio Negreiro”. Um outro núcleo mostra a abordagem de Pomar ao erotismo e os curadores, Sara Matos e Pedro Faro, sublinham que”nas obras agora expostas percebe-se como Pomar funde corpos e objetos estranhos, numa experiência absolutamente inovadora no seu percurso, que deixa de lado géneros, posições de força ou a natureza das relações”. Finalmente, em duas vitrines são mostradas fotografias de Pomar em momentos importantes da sua carreira e outros testemunhos, desde os cadernos com desenhos feitos na sua infância até documentos relativos à censura que foi exercida antes de 1974 sobre a sua obra. A exposição, que fica no Atelier Museu até 14 de Janeiro, tem um excelente cartaz, aqui reproduzido, da autoria de Joana Machado.


 


DIXIT - “ Confirma-se que a função do deputado é a de votar o que o seu grupo entende. E este, aprovar o que pretende o partido. E este último o que deseja o Governo” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Eis ao que leva o intervencionismo do Estado. o povo converte-se em carne e massa que alimenta o simples artefacto que é o Estado” - Ortega Y Gasset


 




julho 07, 2023

SOBRE UM PENSAMENTO NEFASTO

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OS EFEITOS DO WOKISMO  - Nos últimos tempos, em vários países europeus, a esquerda tem sido eleitoralmente derrotada ou tem sofrido forte erosão. Recentemente uma filósofa meio alemã, meio canadiana, Susan Neiman, que se posiciona à esquerda, publicou um livro que está a causar alguma polémica: “Left Is Not Woke”. O livro nasce de uma conferência que Neiman realizou em Cambridge em 2022 e na qual defendeu que a esquerda abandonou as ideias que são necessárias para resistir à ofensiva da direita e o seu declínio reside nesse abandono. Para Neiman a ideia de que, se alguém é pro-woke deve ser de esquerda e, se se é de esquerda, então deve ser pró woke, é um erro fatal. Para a autora, o wokismo  está focado nas desigualdades do poder em vez de procurar garantir a justiça. Diz ainda que o  wokismo, ao mesmo tempo que acusa a História de estar semeada de crimes contra  a humanidade, percorre o caminho errado quando apresenta toda a História como um repositório de crimes. Para Neiman, as raízes intelectuais do wokismo contradizem as ideias que guiaram a esquerda há mais de 200 anos: a defesa do universalismo, uma clara distinção entre justiça e poder e a crença na possibilidade do progresso. Numa recente entrevista Neiman mostrou-se convicta que a adopção do modelo woke está na raíz das quebras eleitorais da esquerda, que aparece mais focada muitas vezes em causas marginais do que no bem estar das pessoas. A sua posição é polémica e como a própria afirma, o pensamento woke procura justificar-se nas ideias, malignas, de dois pensadores do século XX - Michel Foucault e Carl Schmitt que, segundo ela minaram as ideias do progresso e justiça e transformaram a visão da sociedade numa luta permanente “de nós contra eles”. Pelos vistos o sistema levou a um beco sem saída no qual a tradicional solidariedade social da esquerda se perdeu. O livro é uma tentativa de realinhar essas ideias. 


 


SEMANADA - Em dois meses a subida do Euribor quase duplicou a prestação do empréstimo de 150 mil euros para compra de casa; o risco de crédito às famílias cresceu no primeiro trimestre; a execução do Programa de Recapitalização Estratégica, para as empresas afectadas pela pandemia, é inferior a 10%; um estudo da SEDES diz que a carga fiscal alta castra o crescimento das empresas, gera endividamento, déficit concorrencial e provoca salários baixos; a oferta de casas para arrendar caíu 9% entre Março e Maio, na sequência da apresentação do programa Mais Habitação pelo Governo; o sector do turismo tem falta de 45 mil trabalhadores; apenas 12% das câmaras têm o Plano Director Municipal actualizado; em 2020 e 2021 registaram-se 286 mortes por afogamento de crianças e jovens; a direção do Canal Parlamento, com um deputado indicado por cada grupo parlamentar, ainda não reuniu nesta legislatura, desde que tomou posse em Março do ano passado; na primeira metade do ano foram matriculados mais 40% de veículos automóveis que em igual período do ano passado; face ao envelhecimento da frota automóvel usada para a fiscalização ou licenciamento nas áreas de energia e minas, o Director Geral da Energia pediu ironicamente aos funcionários donativos para comprar um novo veículo já que o mais recente dos que estão ao serviço foi adquirido em 1999; atendendo aos dados da inflação, as rendas habitacionais poderão ter um aumento superior a 7% no próximo ano; um estudo da Marktest indica que o número de lares que possuem ar condicionado quase duplicou nos últimos dez anos; Pedro Nuno Santos regressou ao Parlamento e retomou o seu lugar de deputado, sentando-se na última fila do hemiciclo e declarando não ser candidato a nada.


 


O ARCO DA VELHA - O actual secretário de Estado da Defesa, Capitão Ferreira, realizou em 2019, antes de ir para o Governo, um trabalho de assessoria para o seu actual Ministério, pelo qual recebeu 12 mil euros por dia durante cinco dias.


 


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AS CORES DO LEVANTE - Manuel Baptista, que morreu este ano,  integrava o chamado grupo de pintores do levante algarvio. Baptista tem o seu nome e boa parte da sua obra com ligações à cidade de Faro onde viveu e trabalhou e onde, durante alguns anos, dirigiu uma galeria municipal. No fim de semana passado, no Museu Municipal de Faro, abriu a exposição “Natureza Paralela”, que agrupa obras do artista feitas entre 1962 e 2022 e que se desenvolve entre vários espaços do museu e a antiga galeria Trem, agora rebatizada Galeria Manuel Baptista. A viagem à obra começa logo na capela, no piso térreo do museu (na imagem), onde coexistem esculturas, desenhos e pinturas, como aliás ao longo de toda a exposição.  Em algumas obras é patente uma ligação ao universo da pop art, bem evidenciado nas esculturas em acrílico e nos néons, assim como à banda desenhada, que fascinava Manuel Baptista, fascínio evidente em vários dos seus desenhos. A exposição foi ainda construída em vida do artista, comissariada por João Pinharanda, e termina, na Galeria Trem com os derradeiros trabalhos produzidos no final do ano passado. Como sublinhou Pinharanda, “as suas obras são sempre determinadas pela alegria das cores, pela diversidade dos materiais, por complexidades formais barrocas, pela recuperação do lado mais exaltante da vocação decorativa da arte, por um certo humor nostálgico” - talvez a melhor descrição que se pode fazer de Manuel Baptista. A terminar uma sugestão em Lisboa: na Galeria Brotéria (Rua de São Pedro de Alcântara 3) está patente, até 28 de Julho, a exposição “Disturbance In The Nile”, que agrupa obras de nove pintores sudaneses, com curadoria de António Pinto Ribeiro e Rahim Shadad.


 


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UMA AVENTURA NA CULTURA - “Vamos Correr Riscos” é uma recolha de textos escolhidos de Madalena de Azeredo Perdigão, alguns inéditos, outros que até aqui eram de difícil acesso. O livro mostra o legado de uma mulher que depois de ter concluído o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional de Lisboa se licenciou em matemática na Universidade de Coimbra. Em 1958 iniciou a sua colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, primeiro como chefe da Secção de Música, depois na criação e direção do Serviço de Música. Há quem diga que ela trocou uma carreira artística como pianista, que ambicionava, por uma dedicação ao serviço público nas artes. Da música passou, em meados dos anos 80, para a criação e direcção do Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte – ACARTE,  inaugurado em 1983, deixando aí uma obra notável. Madalena de Azeredo Perdigão contribuiu para a fundação da educação artística em Portugal e os coordenadores do livro sublinham que ela não era propriamente uma ensaísta para quem a reflexão, por si mesma, fosse um objectivo: a sua escrita está sempre ligada ao combate no terreno pelas causas em que acreditava. As suas ideias estão plasmadas nas propostas das actividades que desencadeou, nos projectos de lei que coordenou, e em artigos de opinião e entrevistas  no panorama global das artes e da educação em Portugal. O texto introdutório de Rui Vieira Nery destaca a missão de serviço público dedicado à gestão cultural e sublinha que Madalena Azeredo Perdigão continuou até ao fim a “fazer, em cada momento, o que faz falta à cultura do seu país”. O outro texto introdutório, de Inês Thomas de Almeida, permite perceber melhor quem foi Madalena Azeredo Perdigão, como chegou à Fundação Gulbenkian e como a Fundação se tornou a sua vida. “Vamos Correr Riscos - Textos escolhidos de Madalena Azeredo Perdigão” é uma edição Tinta da China.


 


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UM DESAFIO PARA PIANO - Em Maio de 1994 Keith Jarrett fechou-se no seu estúdio próprio, o Cavelight, e gravou uma versão das Württemberg Sonatas de Carl Philipp Emanuel Bach, o segundo filho de Johann Sebastian Bach. Ao longo dos anos Jarrett tem visitado a obra de Johann Bach (como as variações Goldberg). Porque se virou a certa altura para esta obra do filho?  É ele que explica, agora, como nasceu esta gravação feita em 1994: “Ouvi várias versões das sonatas tocadas por cravistas e pensei que havia espaço para uma versão tocada ao piano”. As sonatas tinham sido elogiadas na época por grandes nomes da música como Haydn ou Mozart. Originalmente compostas para clavicórdio, elas foram frequentemente tocadas em cravo. Jarrett não foi o primeiro a interpretar as sonatas ao piano, mas esta versão, ignorada durante três décadas, proporciona uma visão diferente do trabalho de um compositor que fez a transição do barroco para a época clássica do século XVIII. Jarrett executa as 18 sonatas, de forma sensível, respeitando a partitura mas interpretando as variações de ritmo de forma mais solta. Este é um bom exemplo de como Jarrett consegue fazer a adaptação criativa dos temas clássicos para uma audiência contemporânea. “Carl Philip Emanuel Bach”, de Keith Jarrett, é uma edição ECM disponível em CD, LP e nas plataformas de streaming.


 


FIM DE TARDE - Ao contrário de outros países, o fim de tarde é uma área de convívio pouco praticado nas grandes cidades. E, no entanto, basta ir aqui ao lado a Espanha para ver como as esplanadas e ruas se animam. E nas esplanadas há o bom hábito de tomar um bocadito e uma copa com amigos. Aqui, no verão, ainda se vê quem pratique uma imperial com uns caracóis ou uns tremoços,  mas pouco se passa disso. O fim da tarde lisboeta é fraco de oferta na rua e não é um hábito. Em vez disso, toda a gente se mete no carro ao mesmo tempo, para partilhar um engarrafamento em vez de partilhar dois dedos de conversa e um aperitivo com os amigos. Somos o único país do sul da Europa onde não há o hábito do convívio ao fim de tarde, que é comum em Espanha e Itália. O português prefere fechar-se nas casas aquecidas pelo sol em vez de apanhar a brisa dos ventos de fim de tarde desta época do ano. E não devia ser preciso ir a um bom hotel para tomar um aperitivo acompanhado por outra coisa que não sejam amendoins rançosos. Temos bom vinho branco ou rosé, honestos espumantes, um gin tónico não é assim tão difícil de preparar, tão pouco devia ser impossível encontrar um Aperol spritz. Aproveitem o nosso bom tempo e frequentem as esplanadas ao fim da tarde. Não fiquem fechados em casa a ver séries.



DIXIT - “A prioridade dos últimos Governos nunca foi melhorar os serviços públicos. Os governos parecem mais interessados em distribuir e empregar do que em cuidar e tratar” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “A educação, a ciência, a comunicação e a cultura têm uma relação mútua natural, permanente e obrigatória “- Guilherme de Oliveira Martins


 


 




junho 30, 2023

SOBE A FALTA DE NOÇÃO DA REALIDADE DO MINISTRO DA CULTURA

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MAIS ESTATIZAÇÃO DA CULTURA - Na semana passada estive num encontro promovido pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Um dos oradores foi Agustin Gonzalez Garcia, um especialista espanhol em Direito da Arte, que falou sobre a responsabilidade social, o papel do Estado e o regime de mecenato em vários países. Uma das ideias fortes que passou, em jeito de conclusão, no final da sua intervenção, foi esta: “No contexto actual, os incentivos fiscais ao mecenato estão justificados e existe margem de manobra suficiente para que os estados membros da União Europeia aprovem uma melhoria razoável desses incentivos”. O Ministro da Cultura apareceu no final de uma tarde de boas conversas, que contou com Teresa Gouveia num diálogo com Vicente Todolí e com um rico debate incentivado por Pedro Cabrita Reis com José Miranda Justo e Paula Pinto. O Ministro aproveitou uma tarde, que até aí tinha sido proveitosa, para fazer um comício com as conclusões do Conselho de Ministros desse dia, que aprovou a reestruturação na área do património, criando a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal e o Instituto Público Património Cultural. A propósito da empresa, que o governante proclamou ser o veículo para a captação de mais financiamento pela sociedade civil, Adão e Silva manifestou a opinião de que, nesse campo, não vale a pena conceder mais benefícios fiscais ao mecenato. Ficámos portanto com a opinião de um especialista que preconiza mais isenções fiscais e de um governante que se mostrou convicto de que empresas e particulares acorreriam a deitar dinheiro em cima do peso do Estado sem mais contrapartidas. Entretanto percebeu-se que as medidas tomadas pelo Governo desagradavam a quase todos os envolvidos, desde responsáveis de museus a municípios e às CCDR, até aos responsáveis das Direcções Regionais de Cultura, que ficarão extintas. O presidente da Comissão de Coordenação Regional do Norte (CCDR-N) , António Cunha, considera que o documento apresentado pelo Ministério da Cultura assenta num “quadro conceptual extremamente centralista” e receia que as decisões anunciadas possam mesmo “pôr em causa todo o processo de regionalização da cultura a partir de estruturas regionais”. O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, o socialista José Apolinário, também se pronunciou contra as alterações anunciadas pelo ministro, defendendo que esta reorganização afasta as entidades locais da gestão do seu património e promove a centralização da gestão dos monumentos. Outros responsáveis da área queixaram-se que o sector não foi ouvido sobre as alterações anunciadas e que souberam das decisões pelos jornais. No fim do dia, este é mais um pacote de medidas tomado por gente com pouca ligação à realidade. O Ministro da Cultura, uma das estrelas da galáctica costista, tem fama de ter peso político. É só pena que o use desta maneira.


 


SEMANADA - A maioria absoluta do PS na Assembleia da República impediu 56 audições no Parlamento este ano, treze ministros evitaram ir à AR e Medina foi o que mais ignorou perguntas da oposição; em 2022 registaram-se 2401 mortes por excesso de calor e a população idosa foi a mais atingida; na União Europeia cerca de 40% dos doutorados chegam às empresas, mas em Portugal apenas 6% estão na mesma situação; o programa Mais Habitação alterou o regime fiscal de reinvestimento do valor de venda de casa própria para aquisição de novo imóvel, com prejuízo para os cidadãos no caso de compra de nova casa; no primeiro trimestre deste ano venderam-se menos 20% de casas que no período homólogo do ano anterior;  um terço dos inquilinos gasta mais de 40% do rendimento para pagar a renda de casa e Portugal está entre os países europeus onde a taxa de esforço para pagar habitação é maior; Portugal demorou ano e meio a pedir às autoridades de Paris para interrogar um casal de graffiters franceses que vandalizaram o Padrão dos Descobrimentos e o sistema judicial português demorou 10 meses a traduzir para francês as 19 páginas com as perguntas que as autoridades francesas deviam fazer na investigação deste caso; a viagem de comboio Porto-Faro no Alfa Pendular demora actualmente mais 15 minutos que em 2016 e o mesmo se passa na ligação ferroviária de Lisboa para Braga; as marcas brancas pesam já quase metade da fatura do supermercado;  a subida do preço dos alimentos emPortugal é o dobro da média europeia, nos últimos meses os ovos aumentaram 60%, o arroz 50% e a carne de porco 49%.


 


O ARCO DA VELHA - Com a subida das taxas de juro, num empréstimo com Euribor a 12 meses, o aumento do valor da prestação mensal, de junho de 2022 a junho de 2023, foi de 58%.


 


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A  IMAGEM FOTOGRÁFICA - Esta semana o destaque vai só para fotografia e começo pela exposição que Luísa Ferreira tem patente na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma retrospectiva que reúne trabalhos por ela realizados ao longo das últimas três décadas, nomeadamente as séries “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”, “Intimidade”, “Tranquilidade, Fidelidade, Infelicidade”, “Lorento”, “Sem Prata” e alguns inéditos (na imagem). Luísa Ferreira debruça-se sobre a cidade, a casa, as memórias, o centro histórico, a gentrificação, o (des)enraizamento e o (des)alojamento, numa reflexão sobre os efeitos da transformação urbana na cidade de Lisboa. A exposição fica patente até 12 de Julho. Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais, destaque para a nova exposição “Auto & Retrato”, uma visita à colecção dos Encontros de Fotografia com curadoria de Miguel von Hafe Pérez que ficará patente até 10 de Setembro. Na exposição, com 97 fotografias,  é possível acompanhar o caminho que a fotografia foi fazendo ao longo do tempo, numa mostra que põe em diálogo artistas nacionais e internacionais e fotógrafos de diferentes períodos. Miguel Von Hafe Pérez sublinha que além dos trabalhos resultantes de encomendas feitas pelos Encontros de Fotografia, é possível encontrar na exposição vários retratos do país, a partir de “um olhar internacional sobre Portugal que, nos anos 80 e 90, ainda era um território por descobrir”, mostrando-se ainda um “confronto entre imagens com um caráter mais intimista com imagens relativamente públicas, ou imagens muito divergentes, como um retrato de Eusébio ao lado do de  Samuel Beckett”. Por fim, na Galeria da Avenida da Índia, por iniciativa da Embaixada de Itália, é apresentada a exposição “Aos Olhos Delas. Mulheres e Trabalho em Itália desde 1950”, que ao longo de uma centena de imagens  investiga a forma como a fotografia realizada pelas mulheres se tem confrontado com o mundo do trabalho na Itália contemporânea.


 


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O STREAMING DA SEMANA - Depois de ter estado ausente das plataformas de streaming audio durante uns tempos, “Coffee And Cigarretes”, de Bill Evans, regressou ao Spotify. Trata-se de uma compilação que reúne temas de quatro álbuns, “Everybody Digs Bill Evans” (1959), “Explorations” (1961), e dois álbuns gravados ao vivo, na mesma data, no Village Vanguard embora com momentos de edição diferentes: “Live at the Village Vanguard” (1961) e “Waltz for Debby” (1962). Ao todo quase uma hora e meia de música, repartida por 14 temas, comoSome Other Time”, “Lucky to Be Me”, “Night and Day” , “Tenderly”, ou “My Foolish Heart”, entre outros. Um manual sobre a arte do piano no jazz.


 


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AS CIDADES DA MONOCLE - Já saíu a edição dupla de verão da revista “Monocle” que tem a habitual lista das cidades com melhor qualidade de vida, segundo os editores da publicação. Viena, que no ano passado estava na sétima posição, subiu ao primeiro lugar, seguida por Copenhaga, Munique, Zurique, Estocolmo, Tokyo, Helsínquia, Madrid (que subiu da 15ª para oitava posição), Lisboa (que desceu da terceira para a nona posição) e Melbourne. Nas páginas sobre Lisboa a “Monocle” destaca a segurança, o sentido de comunidade, a hospitalidade e a natureza. Mas chama atenção para o facto de a chegada de estrangeiros que vieram viver para a cidade fomentar a especulação imobiliária. Recomendam uma política de habitação que proteja os residentes nacionais e trave  a subida das rendas. “Enquanto Lisboa continua a ser uma cidade acessível para os nómadas digitais, os salários em Portugal continuam entre os mais baixos da Europa ocidental, com a situação a ser particularmente difícil para os mais novos” - escreve a “Monocle”, sublinhado:”Os políticos precisam de mostrar um sentido de liderança e pragmatismo que impeça que a cidade seja vítima do seu próprio sucesso”. Num outro artigo, que analisa a situação social da cidade, é citado o Presidente da Câmara, Carlos Moedas: ” O turismo é muito importante para nós mas não queremos que Lisboa se transforme só numa cidade Airbnb”.


 


A ACOMPANHANTE DO JOAQUIM - Quando olho para as sardinhas que se vão vendo decido esperar mais um tempo para que cresçam e fiquem mais suculentas. Mas entretanto os jaquinzinhos, esses pequenos carapaus, estão no ponto. E chegou aquela altura do ano em que se coloca um dilema; qual o melhor acompanhamento para jaquinzinhos fritos? As escolhas vão do proverbial arroz de tomate malandrinho, à ideia saudável mas não demasiado atraente, da salada, passando pela açorda. Esta última hipótese é a minha preferida - o problema é que fazer uma boa açorda não é coisa fácil. Há que ter em conta a consistência e o tempero. Para uma açorda não se pode usar um pão qualquer- convém que seja de véspera, pão antigo, de boa massa, de mistura. E depois convém que o azeite  seja de muito boa qualidade. A arte do assunto está na forma como o pão é molhado e depois escorrido, a proporção certa do alho que há-de ir à frigideira para depois receber o pão onde se misturarão os ovos e, por fim, os coentros finamente cortados que hão-de compor o repasto. Já os jaquinzinhos são outro desafio: devem ser pequenos, não podem entrar na categoria de “eram já quase carapaus”, terão obrigatoriamente de ser comidos à mão, com os dedos a segurar a cauda dos peixinhos, que será a única parte não comida. E a sua fritura deve ser impecável, deixando desfeitas as espinhas mas intacta a carne que as rodeia, não lhes alterando o sabor e a desejável frescura, garantido que vêm bem secos para a mesa. 


 


DIXIT -  "Os barcos não podem estar atracados com os motores ligados com energias fósseis" - Carlos Moedas sobre a presença de navios de cruzeiro com os motores ligados no porto de Lisboa, exigindo que passem a só poder usar energia eléctrica enquanto estiverem atracados.


 


BACK TO BASICS - “Maçador é alguém que fala quando queríamos era que ouvisse” - Ambrose Bierce


 





junho 23, 2023

O INSENSÍVEL ESTADO

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O CASO DA SEMANA -  Na terça-feira da semana que vem António Costa veste-se de pompa e circunstância, esperemos que sem o cínico sorriso que é a sua máscara usual, para realizar às pressas e sob pressão, a inauguração de um monumento  às vítimas dos grandes incêndios de 2017 em Pedrógão que não quis fazer na data que assinalava o aniversário desse fatídico momento. Nesse dia da semana passada, Costa estava sentado ao lado de um líder da extrema direita europeia, em Budapeste, no dia do aniversário de Orbán, a ver futebol - a final da Liga Europa, em mais um exemplo da forma como o futebol é o terreno onde a elite política se delicia a sujar as mãos. Foi o caso da semana. Regressando ao tema das primeiras linhas, deixem que vos diga que Carlos Rodrigues, Diretor Geral Editorial da Cofina, escreveu no Correio da Manhã aquilo que é mais importante neste caso: a atitude das altas individualidades do Estado face à apresentação do monumento de homenagem é o sinal da forma como olham para o país. Cito o que escreveu: “Na verdade vai para 6 anos que o Estado central não se lembra, ou pelo menos esquece-se facilmente, de quem vive e sobrevive no interior do País. De que vale homenagear os que morreram se não se cuida dos que ainda vivem em Pedrógão Grande e em todos os locais do País cada vez mais abandonados à sua sorte, sem esperança no futuro, sem investimentos, sem uma ideia estratégica para inverter a desertificação rural?”.  Mudar o país dá muito trabalho e exige, ironia das ironias, um pouco de pensamento, atenção às pessoas, medidas concretas. As reformas não vivem de discursos ou de comemorações, vivem de decisões e de acções que concretizem as decisões. Coisas demasiado ausentes da política portuguesa deste consulado costista, retrato perfeito de um Estado que despreza as pessoas, de partidos que só pensam em si próprios e de políticos que só querem ocupar lugares, aqui, ou lá fora.



SEMANADA - 76 municípios portugueses, um quarto do total, têm menos de 12 espectáculos ao vivo por ano, têm um investimento municipal na cultura inferior a um milhão de euros por ano e não têm qualquer entidade apoiada pela DG Artes, sendo assim classificados como de “baixa densidade cultural”; quase metade das freguesias portuguesas não tem multibanco; os chumbos no exame de matemática do 9º ano passaram de 38% para 70%; no conjunto dos primeiros cinco meses de 2023, o movimento registado nas infraestruturas aeroportuárias portuguesas aumentou 34% face ao período homólogo; dez meses depois dos incêndios que devastaram a Serra da Estrela, queimando mais de 24 mil hectares do parque natural, quem teve prejuízos e os declarou ainda não recebeu nenhum dos prometidos apoios; a abertura do memorial às vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande em 2017 aconteceu esta semana, sem a presença de quaisquer representantes do Governo; os brócolos aumentaram 10,8% nos últimos dois meses, desde que o IVA Zero entrou em vigor; segundo o Conselho de Finanças Públicas o sector público empresarial tem centenas de empresas com 150 mil trabalhadores e custos operacionais superiores a 11, mil milhões de euros por ano, cerca de 4% do PIB em números redondos; em matéria de política fiscal Portugal ocupa  a 54ª posição entre as 64 economias mundiais analisadas pelo International Institute for Management Development; este ano a inflação em Portugal aumentou de tal modo a base tributária que fez a receita fiscal aumentar 4 mil milhões de euros, saídos do bolso dos contribuintes para os cofres do Estado; Carlos Moedas anunciou um plano de reabilitação e de construção de nova habitação a ser desenvolvido pela Câmara Municipal de Lisboa com um novo investimento de 322 milhões de Euros; Lisboa e Funchal estão no top 10 europeu de poluição por navios de cruzeiro.



O ARCO DA VELHA - Rui Costa, Presidente do Benfica, afirmou, a propósito da regulamentação de novos direitos audiovisuais que “o Benfica não irá cumprir nenhuma lei se se sentir prejudicado”.


 


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PINTURAS TRADICIONAIS - Tendo eu estado ausente durante uma semana, colocou-se a questão de saber o que recomendar em matéria de exposições. De forma que resolvi seguir algumas opiniões que considero, manifestadas publicamente. Pelo que consegui perceber a exposição que está a suscitar maiores elogios é “Pau-Podre”, de Mattia Denisse, um francês que vive em Lisboa, e que pinta aquilo que parecem paisagens e naturezas mortas, retomando a tradição da pintura ocidental. A exposição, com 17 obras inéditas feitas entre 2022 e 2023 (pormenor na imagem), está na Galeria Rialto 6, em Lisboa (Rua Conde Redondo 6, 1º andar). Ainda em Lisboa há uma galeria na qual vou descobrindo novos artistas é a Balcony, (Rua Coronel Bento Roma 12). Pedro Magalhães, que dirige a galeria, aposta em divulgar novos nomes como acontece com  “Plan Américan”, de Rodrigo Oliveira, uma revisitação do universo da Avenida dos Estados Unidos da América e do filme “Verdes Anos”, de Paulo Rocha cuja acção era ali situada. Em Coimbra sugiro uma visita à Galeria Sete (Avenida Elísio Moura 53), que apresenta até 8 de Setembro uma série de novos trabalhos de Pedro Pascoinho na exposição “Nada - o triunfo do silêncio”. No Porto, na Galeria Fernando Santos, Gerardo Burmester apresenta “Impossível de Ver II”. Segundo Burmester a exposição evoca e prolonga uma instalação que apresentou em 1997 em Serralves, “Impossível de Ver” e que consistia em ter desenhos sobre feltro entalados num muro de xisto. Burmester sintetiza a razão do título nesta frase: “Vivemos um tempo de excesso de imagem, em que tudo se torna Impossível de Ver. Vê-se apenas o exterior.”


 


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A HISTÓRIA DE UM ARTISTA - Júlio Pomar foi um dos grandes artistas plásticos portugueses dos últimos cem anos, com uma obra incontornável na pintura, desenho, gravura e cerâmica. A sua primeira exposição data de meados dos anos 40 do século passado, estudou em Lisboa e no Porto onde, entre muitas outras coisas, realizou o grande mural do Cine-Teatro Batalha, recentemente recuperado. Em 1963 foi para Paris, onde viveu e trabalhou durante vários anos. Alexandre Pomar, seu filho, é um dos mais relevantes críticos de arte portugueses e seguiu sempre com atenção a obra do seu Pai, estando também ligado à Fundação Júlio Pomar e ao Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa. “Júlio Pomar. Depois do Novo Realismo” é o livro que agora editou, e que acompanha o percurso de Júlio Pomar desde o início da década de 40. O livro reúne estudos publicados ao longo dos anos e alguns inéditos e inclui reproduções de uma selecção de obras do pintor. Alexandre Pomar apresenta neste livro o seu olhar sobre a obra de Júlio Pomar e desafia a ortodoxia reinante sobre o período do neo-realismo. Além de percorrer as diversas fases da produção artística de Júlio Pomar, o livro inclui ainda dois anexos com 25 escritos inéditos e dispersos do artista, correspondência que Pomar trocou com Mário Dionísio, Manuel Vinhas, Paula Rego ou Cardoso Pires e ainda cartas enviadas aos filhos nos primeiros anos de Paris. São de Alexandre Pomar estas palavras: “Importa ver o aparecimento do neo-/ novo realismo não isoladamente mas no âmbito do que foi a Geração de 45, protagonizada por jovens artistas surgidos no imediato pós-guerra, que se afirmaram como emergência consciente de si mesma, como mudança e novidade, vanguarda, em acções colectivas, escritos e exposições, para ao mesmo tempo se diferenciarem no seu seio entre o interesse pelo realismo, o abstraccionismo e o surrealismo. De Júlio Resende, um pouco mais velho, a Fernando Lanhas e Nadir Afonso ou Arlindo Rocha, a Júlio Pomar e Vespeira, é uma geração que irrompe, passando por um jornal (página Arte, em A Tarde), as exposições Independentes (1943-50) e uma galeria (Portugália). É o Porto a sede dessa movimentação, mal conhecida em Lisboa e deliberadamente diminuída nas histórias de José-Augusto França e discípulos, para assim se tentar construir uma nova página ou nova geração pelo final da década de 40 inícios de 50. É de uma revisão da história académica ainda vigente que se trata aqui.” Edição Guerra & Paz e Atelier Museu Júlio Pomar.


 


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O ENCANTO DAS CANÇÕES -  Um dos actores que aparecia num episódio da série “Billions”  e no recente filme “Killers Of The Flower Moon”, de Martin Scorsese, é também um guitarrista e cantor experiente e aplaudido. Chama-se Jason Isbell, já ganhou vários Grammy e tem uma longa carreira musical, nos Estados Unidos, mas pouco conhecida na Europa. A partir do terreno original da música country, demasiado desprezado, Isbell cresceu, tornando-se um guitarrista requisitado por muitos músicos. Tocou pela primeira vez no templo da Country em Nashville, o Grand Ole Opry, quando tinha apenas 16 anos. Embora tocando muitas vezes a convite de outros músicos, como Steve Earle, Isbell tem vários discos a solo, mas foi com a sua primeira banda, Drive By Truckers que obteve notoriedade. O ponto alto da carreira da banda ocorreu no álbum “Southern Rock Opera”, de 2001. Em 2009 Jason Isbell criou um novo grupo, com músicos do Alabama e deu-lhe o nome 400 Unit, uma referência à ala de psiquiatria do Eliza Coffee Memorial Hospital. “Weatherwaves”, o novo álbum agora editado, é o seu quarto disco com os 400 Unit e é, talvez, o mais marcante dos seus trabalhos. Alguma imprensa norte-americana diz que “Weathewaves” está para o percurso de Jason Isbell como “Born To Run “ esteve para o de Springsteen, aliás uma das evidentes referências musicais de Isbell. Outras, que se podem sentir ao longo da sua música são, por exemplo, Tom Petty, Allman Brothers, Steve Earle ou Van Morrison. “Weatherwaves” parece um disco feito à moda antiga, com uma sucessão de 13 boas canções, cada uma delas com espaço para se afirmar, uma hora de música que vale a pena ouvir. Sugiro que numa das plataformas de streaming ouçam o que canta em temas como “If You Insist”, “Middle Of The Morning” ou vejam como os cinco músicos da 400 Unit são criativos nas duas faixas finais”This Ain’t It” e “Miles”. Este “Weatherwaves” é um belíssimo disco, um clássico contemporâneo da música americana.


 


DIXIT - “É evidente que António Costa não foi a Budapeste negociar apoios para um cargo europeu. Primeiro, porque ele disse que ficaria 4 anos e não é pessoa de faltar à palavra. Segundo, porque seria incapaz de instrumentalizar forças políticas radicais para conquistar o poder” - Carlos Guimarães Pinto.


 


BACK TO BASICS - “No mundo dos negócios, o espelho retrovisor dá sempre uma imagem mais nítida que o pára brisas” - Warren Buffet


 




junho 16, 2023

AS APARÊNCIAS ILUDEM

 


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COM UM SORRISO ME ENGANAS - A mentira e a dissimulação tornaram-se instrumentos da política. O fenómeno não é novo e é transversal do ponto de vista partidário. O que é novo é ter um Governo, e o partido que o apoia, a escudarem-se na maioria absoluta, que não usam para fazer reformas e melhorar o país, mas utilizam para tapar a confusão que vai no Governo, evitar que se saiba a verdade, negando inquirições, dificultando respostas, iludindo o pagode. De certa forma criou-se a ideia de que é inevitável ocultar e mentir quando se está na política - o contrário daquilo que devia acontecer. Perante aldrabices inqualificáveis há até quem diga que o político tal é habilidoso e um mestre em táctica. O mundo, na realidade, está ao contrário. Outro instrumento recorrente dos líderes dos grandes partidos é o eterno sorriso. Parece uma máscara - e, se calhar, é mesmo. Reparem: Costa e Montenegro aparecem sempre a sorrir e o Primeiro-Ministro mantém a máscara mesmo nas situações mais graves. Políticos que estão sempre a sorrir, e que pelo meio ainda escondem umas verdades, fazem-me lembrar aqueles vendedores de automóveis usados (sem ofensa à classe), que sorriem enquanto dizem que está tudo na ponta da unha com o que querem impingir. Isto nem sempre foi assim. Os grandes estadistas, como Mário Soares, têm expressão facial, não escondem irritações nem frustrações, nem alegrias nem tristezas. São pessoas, não são produtos de consultores de imagem e de especialistas em media training. Estamos a caminhar para uma época em que os dirigentes políticos, pelo menos grande parte deles, parecem bonecos de cera sempre com a máscara do sorriso afivelada. Eu não comprava um carro a esta gente, muito menos lhes punha um país nas mãos.


 


SEMANADA - Em 2021 cada pessoa produziu em média 1,4 kgs de resíduos por dia; a população em Portugal aumentou pelo quarto ano consecutivo, registando-se uma queda nos melhores de 14 anos e um crescimento nos maiores de 65; nos últimos 50 anos duplicou o número de casas existentes em Portugal; segundo a Pordata nos últimos 50 anos as famílias tornaram-se mais pequenas; grande parte dos professores universitários estão a chegar à idade da reforma, que pode atingir 600 docentes por ano; é esperado um aumento de 30 a 50% na produção diária de lixo em Lisboa durante as Jornadas Mundiais da Juventude; no ano passado foram feitas sete milhões de chamadas para o 112, mas apenas 1,4 milhões foram consideradas emergências; segundo a Quercus o consumo médio anual de peixe em Portugal é de cerca de 60 kgs por pessoa, o que significa 2,5 vezes a média europeia; Portugal é o 5º país  da UE com maior lentidão dos tribunais; uma decisão de um tribunal de primeira instância, em Portugal, demora em média três anos a ser tomada; uma sondagem do Expresso indica que 78% dos portugueses estão insatisfeitos com o combate à criminalidade, 87% estão insatisfeitos com o combate à corrupção e 51% não confia nos tribunais; há 861 mil casas em Portugal que não estão ligadas à rede pública de água emais de 1,3 milhões sem saneamento; em Portugal existem 4300 impostos e taxas.


 


O ARCO DA VELHA - “Ainda não sei muito bem o que se passou” - afirmou agora Mário Centeno, que era Ministro das Finanças em 2015, sobre o negócio então realizado entre Neeleman, Airbus e TAP.


 


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PINTURAS & MAIS - Em matéria de exposições o destaque desta semana vai para “Metamorfoses”, de Ilda David, que fica na Sociedade Nacional de Belas Artes até 22 de Julho. É um conjunto de 36 obras, das quais quatro são dos anos 90 e todas as outras foram feitas entre 2020 e 2023. Na exposição coexistem telas a óleo e acrílico, telões de linho bordados e um grande mosaico construído de diversas pedras e que domina o espaço, colocado centralmente no grande salão (na imagem). Desta vez as telas não estão na parede, e sim montadas em estruturas que reproduzem os cavaletes de estúdio. Ilda David conta que habitualmente trabalha em duas telas, colocadas costas com costas no mesmo cavalete, e é assim que elas estão na exposição, que teve curadoria de Nuno Faria, de quem são estas palavras: “livres de paredes, circulamos entre imagens - pintadas, bordadas, montadas - e imaginários”.  Outros destaques: Serralves recebe pela primeira vez, até 12 de Novembro, uma exposição de António Júlio Duarte, trabalhos recentes concebidos especificamente para o espaço onde estão expostos. Na Galeria Contemporânea do Museu estão 50 fotografias de formatos idênticos e na Capela da Casa de Serralves está uma impressão sobre tecido de grande formato da obra Queimado, de 2017; a Fundação Gulbenkian, assinalando o 1º aniversário da morte de Paula Rego, expõe, pela primeira vez, até 24 de Julho, as duas mais recentes obras da artista integradas na colecção do Centro de Arte Moderna, “Anjo” (de 1998) e “O Banho Turco” ( de 1960). As duas obras estão até 24 de Julho no átrio da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, junto à escadaria principal, com entrada livre.


 


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COMO SE CHEGOU À ESCRITA - Se não houvesse escrita, não havia livros. É a partir daqui que nasce o “Atlas Histórico da Escrita” por Marco Neves, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O autor mostra-nos como «estas invenções de aparência banal – uns rabiscos –»  abrem «as portas a uma história tremenda, antiga», e dão ainda a oportunidade de «passar horas com as melhores mentes dos últimos milénios». Dividido em seis partes, este atlas inédito está baseado numa rigorosa investigação e leva-nos a acompanhar a história dos sinais com que temos registado as línguas de todo o mundo ao longo dos últimos cinco mil anos. até Wadi el‑Hol, no Egipto, onde Deborah Darnell e John Darnell encontraram, em 1993, inscrições com quase 4000 anos. O livro mostra a evolução da escrita e apresenta ilustrações com desenhos de alfabetos ao longo dos séculos. Para Marco Neves a escrita é a segunda maior invenção da Humanidade, depois da linguagem e por isso segue a sua história, desde as primeiras inscrições na argila da Suméria às letras digitadas no ecrã de um telemóvel, da expansão da imprensa ao advento da literatura, da alfabetização da população mundial à democratização da escrita, ou seja,  como nasceram, se desenvolveram e se espalharam os sistemas de escrita ao longo dos últimos cinco milénios. Na parte final o Atlas centra-se nas evoluções do nosso alfabeto latino e analisa a terceira grande revolução da escrita que estamos a testemunhar: «A tecnologia aliou‑se à explosão da alfabetização de muitas sociedades, levando a capacidade de ler e escrever a uma percentagem da população que, em muitos países, chega praticamente aos 100 %. A alfabetização de toda a população é um fenómeno inédito na História – mesmo no Império Romano, pensa-se que a alfabetização nunca terá ultrapassado os 20 % da população.»  A edição é da Guerra & Paz.


 


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UM DISCO RARO -  Tenho um fraquinho por Bill Evans e pela magia que extraía do seu piano. A par com Miles Davis e Coltrane, Evans é dos músicos que mais repetidamente ouço. Este ano foi editado um novo álbum de gravações inéditas,  “Bill Evans - Treasures: Solo, Trio and Orchestra Recordings from Denmark (1965-1969)”. Ao longo das 30 faixas que integram o álbum surgem três facetas do trabalho de Bill Evans durante a sua vida : na formação de trio de que tanto gostava, acompanhado por uma orquestra e, finalmente, a solo. Editado sob a forma de triplo LP de vinil, duplo CD ou em streaming, “Treasures” proporciona mais de duas horas de música, gravada para a rádio pública dinamarquesa em diversas ocasiões, entre 1965 e 1969. As gravações em trio registam duas formações diferentes, uma com músicos locais e outra  inclui o baixista Eddie Gomez, que tocou frequentemente com Evans e os bateristas Alex Riel e Marty Morell. As versões de “Autumn Leaves”  e  “Emily” são uma prova da cumplicidade entre os músicos, sobretudo Gomez e Evans. As gravações com a Real Orquestra Sinfónica da Dinamarca e a Orquestra Big Band da Rádio Dinamarquesa, ambas de 1969, são boas surpresas. Os arranjos para orquestra são do trompetista Palle Mikkelborg, e um bom exemplo do seu trabalho é a faixa “Treasures”, composta por Evans para a série de concertos de orquestra então realizados. Nos temas executados a solo destacam-se uma das suas composições, “Re: Person I Knew” a versão de “‘Round Midnight” e a de “My Funny Valentine”. O álbum tem outros clássicos como “Come Rain Or Come Shine”, “Autumn Leaves”, “In A Sentimental Mood” ou “Beautiful Love”. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DELÍCIAS DO MAR - Há uns anos nasceu em Campo de Ourique o restaurante Cortesia, que focou as suas atenções na carne - e onde os carnívoros, como eu, têm uma boa oferta. Há poucos meses os mesmos donos do Cortesia apostaram, na mesma zona, num novo restaurante, o Teimar, que se dedica a produtos do mar. A primeira visita aconteceu na semana passada e correu muito bem. Para entrada vieram uns magníficos croquetes de camarão, perfeitos na fritura, recheio cremoso e saboroso, uma gota de maionese de alho a ornamentar cada um. a experiência prosseguiu com um tártaro de atum com alcaparras, cornichons e acompanhado de batata frita às rodelas. O tártaro estava muito bom, as batatas estavam mais cozidas que fritas, único sinal negativo de toda a refeição. uma boa experiência foi o polvo no josper (josper é um forno profissional capaz de atingir rapidamente 350º). Boa quantidade de polvo, tentáculos suculentos, macios, acompanhados de batatinha nova e cebola caramelizada. Estava perfeito. Uma experiência que fica para próxima visita é o arroz meloso de carabineiro, muito gabado em outras mesas e tentador à vista desarmada. A selecção de vinhos não é extensa mas em matéria de vinho branco a copo o Diálogo, da casa Niepoort, desempenha muito bem e a preço equilibrado. Se no fim algum carnívoro tiver fome recomenda-se o trinchadinho de lombo frito em azeite e alho tostado, fatiado à vontade do freguês. O Teimar fica na Rua Infantaria 16, 63 e a reserva é recomendável, através do telefone 213 860 032.





BOM - O Oceanário de Lisboa recebeu 28 milhões de visitantes em 25 anos.


 


MAU -  1,7 milhões de Portugueses não têm médico de família, mais 30% que há um ano.


 


DIXIT - “Daqui a umas décadas, quando o historiador do futuro olhar para os anos de António Costa, ele terá dificuldades em entender que raio de socialismo foi este que nos caiu em cima”- João Pereira Coutinho


 


BACK TO BASICS - “O cuidado a ter quando se combate monstros é evitar tornarmo-nos num deles” - Friedrich Nietzsche


 




junho 09, 2023

O estado do Estado

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UMA INUNDAÇÃO DE DINHEIRO - Esta semana fui localizando várias notícias que se relacionam entre si e que têm como ponto comum a dimensão e o (mau) funcionamento do Estado. Aqui vão algumas: segundo o Expresso, na semana passada, o Governo ainda não tinha comprado as vacinas para crianças inscritas no Plano Nacional de Vacinação para 2023, o que produz uma situação de risco. Noutro sítio li que  apesar dos 100 mil milhões de euros vindos da Europa nas três décadas e meia que levamos de integração na UE, Portugal foi caindo no ranking dos países europeus estando agora nos últimos lugares. Depois vejo que segundo o INE, em 2021 a remuneração bruta média dos trabalhadores do Estado era de 2019 euros, enquanto no sector privado era de 1335 euros. A propósito, o economista Ricardo Arroja publicou um artigo onde coloca a seguinte questão: “será normal que o Estado pague em média mais que o sector privado, quando é o privado que produz a riqueza que paga o funcionamento do Estado?” . Se o Estado não funciona não deve ser por falta de gente, mas sim de organização e direcção: o Estado português é cada vez maior e no final do primeiro trimestre havia 745 mil funcionários públicos, um recorde absoluto que no entanto não garante técnicos em áreas essenciais. Que se passa?  José Manuel Fernandes, na sua newsletter semanal do Observador,  diz que o Estado está em semi paralisia e recorda um excerto da aula de jubilação de Miguel Miranda, o anterior presidente do IPMA:A junção entre legisladores sem experiência real de administração pública, transformação da morosidade do Ministério das Finanças em estratégia gestionária do país, e moralismos vários, conduziu o Estado a uma semi paralisia e ao esgotamento dos seus profissionais”. Termino com outra citação, desta vez de Luís Marques, no Expresso, que é lapidar:  “temos um regime em ruínas, mas inundado de dinheiro”.


 


SEMANADA - 22% da nossa população tem mais de 65 anos, o que faz de Portugal o quinto país mais envelhecido do mundo, a seguir ao Japão, Itália, Finlândia e Grécia; num ano mais de 500 pessoas mudaram de género e nome no cartão de Cidadão; três em cada quadro responsáveis da Administração Pública estão em regime de substituição por atrasos ou para evitar concursos; em maio deste ano foi atingido um novo máximo de pessoas sem médico de família: são agora 1.757.747; segundo a CAP a agricultura foi completamente esquecida no PRR; os centros educativos para reabilitação de criminosos jovens estão fechados porque o Ministério das Finanças não aprovou a admissão de técnicos de reinserção; a  procuradora geral da República, Lucília Gago, informou que a investigação do processo “Tutti Frutti” está atrasada por falta de recursos; há mais de 1600 pessoas internadas em hospitais por não terem para onde ir, mais 60% que no ano anterior; nos últimos 20 anos os salários de mil euros perderam 42% do poder de compra; em 2022 50% dos trabalhadores recebiam um salário inferior a 1000 euros e nos mais jovens a percentagem era superior a 65%; o jogo online movimentou 3417 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano, um aumento de 35% em relação ao mesmo período de 2022; nos primeiros inco meses do ano a PJ apreendeu oito toneladas de cocaína.





O ARCO DA VELHAUm ano e meio depois da entrada em vigor do Estatuto dos Profissionais da Cultura ainda não foi pago um único subsídio de suspensão de atividade porque falta ainda fazer regulamentação do estatuto.


 


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NAS GALERIAS - Começo por uma exposição do norte-americano Matt Mullican. Coincidindo com a realização da ARCO, a galeria Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 33) apresentou um conjunto de obras essencialmente feitas entre 2019 e 2023 e que ali estarão expostas até 17 de Junho. A peça que dá o nome à exposição, “Before Breakfast”, é uma série de trinta e duas fotografias, já de 2023, que nos mostra o que os olhos do artista vêem todos os dias desde o acordar até ao ritual do pequeno almoço. Muitos artistas mostram a intimidade de outros, aqui Mullican expõe a sua própria intimidade. Outra série é um conjunto de onze pequenas aguarelas feitas sobre madeira, datadas de 2020 e 2023. Na entrada da Galeria há um conjunto de peças em ferro e também telas pintadas com acrílico e pastel de óleo (como na imagem que acompanha estas linhas), datadas de entre 2003 e 2019. Um enorme telão a replicar uma bandeira e uma incursão digital numa impressão 3D completam o rol das duas dezenas de obras expostas. Vem a talhe de foice dizer que as galerias de arte contemporânea prestam um inestimável serviço público ao serem o palco de exibição da criação contemporânea em matéria de artes plásticas, mostrando obras de artistas de diversas origens e de estilos e abordagens bem diferentes. Independentemente do mérito das respectivas programações e das opções de cada galerista, lembremo-nos que esta é uma actividade comercial que garante um mercado para artistas de várias gerações e lhes possibilita exposição e notoriedade - parte do serviço que prestam ao terem a porta aberta, de forma gratuita, para quem quiser ver o que expõem. 


 


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OUTRAS EXPOSIÇÕES - O destaque desta semana vai para “Teatro Anatómico” de Maria José Oliveira, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva até 17 de Setembro, com curadoria de João Pinharanda. Como é recorrente na obra de Maria José Oliveira, o corpo é o elemento central do seu trabalho, aqui em esculturas e desenhos. Como afirma João Pinharanda, nestes trabalhos “o corpo é mais sentido do que visto”. A exposição coloca em paralelo a colecção de desenhos anatómicos de Vieira da Silva, datados de 1927 com o trabalho de Maria José Oliveira. Retomando as palavras de Pinharanda, trata-se de “confrontar um trabalho a partir de dentro com outro desenvolvido a partir “de fora”. Enquanto em Vieira da Silva a observação é exterior, em Maria José Oliveira o corpo é mais sentido do que visto (na imagem). Ainda na Fundação Arpad-Szenes está uma exposição de fotografias de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, feitas pelo fotógrafo húngaro Joseph Kádar, que permite descobrir o universo pessoal e de trabalho do casal. Finalmente, na Casa Atelier Vieira da Silva a dupla Sara & André apresenta uma instalação inspirada na obra da pintora, precisamente o óleo Atelier-Lisbonne de meados dos anos 30 do século passado. Passando para outro local, na Sociedade Nacional de Belas Artes o fotojornalista Rui Ochoa apresenta até 8 de Julho  imagens do seu livro “74-99”, que compila imagens marcantes dos primeiros 25 anos de democracia, um período que parece agora longínquo e que estas fotografias permitem revisitar.


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SOBRE A EUROPA - Timothy Garton Ash é um historiador britânico que ensina Estudos Europeus na Universidade de Oxford e grande parte da sua obra centra-se na história contemporânea da Europa, sobretudo da Europa central e de leste, os seus regimes e as transformações ocorridas nas últimas décadas. Garton Ash  intitula-se um liberal internacionalista e o seu livro mais recente, “Homelands: A Personal History of Europe” teve edição original este ano e a edição portuguesa foi agora lançada pela “Temas & Debates”  com o título “Pátrias: Uma História Pessoal da Europa”. Para Garton Ash  «a Europa dos dias de hoje não pode ser entendida sem recuarmos até àquele período que Tony Judt condensou no título da sua história da Europa desde 1945: Pós-guerra.» No livro, o autor sublinha que “O período do pós-Muro da Europa não foi um tempo de paz ininterrupta. Ele foi pontuado pela desintegração sangrenta da ex-Jugoslávia, nos anos 1990, pelas atrocidades terroristas em muitas cidades europeias, pela agressão da Rússia contra a Geórgia, em 2008, pela sua tomada da Crimeia, em 2014, e pelo conflito armado subsequente e ainda em curso na Ucrânia oriental.” Já no final do livro Timothy Garton Ash vaticina que “ao longo das próximas décadas, o que a Europa fizer na sua periferia será tão importante como qualquer coisa no seu cerne”. “Pátrias” é, como o autor refere, um apelo a preservar o sonho desse projeto político a que chamamos «Europa» – e que defende os ideais de paz, liberdade e prosperidade.


 


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AS MEMÓRIAS DE DYLAN -  Dia 2 de Junho, enquanto Bob Dylan estava em Portugal nos seus aguardados concertos, foi lançado mais um novo álbum, o seu 40º trabalho de estúdio, com novas versões de 13  temas clássicos e um inédito, instrumental, que encerra o disco, “Sierra’s Theme”. O álbum chama-se “Shadow Kingdom” e retoma as canções que tocou durante uma transmissão ao vivo com o mesmo nome, em streaming, no mês de Julho de 2021, em plena pandemia. Aos 82 anos Dylan voltou ao estúdio para retomar esses 13 temas da fase inicial da sua carreira, todos com versões bem diferentes, e que são:  “When I Paint My Masterpiece”, “Most Likely You Go Your Way (and I Go Mine), “Queen Jane Approximately”, “I’ll Be Your Baby Tonight”, “Just Like Tom Thumb’s Blues”, “Tombstone Blues”, “To Be Alone With You”, “What Was It You Wanted”, “Forever Young”, “Pledging My Time”, “The Wicked Messenger”, “Watching The River Flow”e “It’s All Over Now”. Trata-se do primeiro novo disco de estúdio de Dylan desde o aclamado “Rough And Rowdy Ways”, de 2020. O disco serve de banda sonora para o filme “Shadow Kingdom: The Early Songs Of Bob Dylan” e embora não exista indicação dos músicos participantes sabe-se que aqui estão alguns velhos companheiros de Dylan, como T Bone Burnett e Don Was. Como curiosidade diga-se que este é o único disco de Dylan em que ele interpreta as suas canções com um grupo de músicos que não inclui bateria nem percussão. As versões são bem diferentes dos originais, sente-se que refletem a experiência ganha em palco ao executá-las. O disco está nas plataformas de streaming, ouçam-no que irão ter uma boa surpresa. 


 


MAU - Das 24 freguesias da capital 16 já ultrapassaram o rácio de alojamentos locais em relação a fogos de habitação permanente.


 


BOM - A Câmara Municipal de Lisboa suspendeu a atribuição de novas licenças de alojamento local no Beato. 


 


DIXIT - “O problema da direita em Portugal é não saber o que é. A esquerda sabe o que é, e sabe o que quer, mas a direita não sabe o que é (…) a direita, em Portugal, não tem um programa. Medidas, talvez; ideias, poucas; visão: zero” - Martinho Lucas Pires em oestrangeiro.blog 


 


BACK TO BASICS - “De uma escorregadela a andar pode recuperar-se depressa, mas de uma escorregadela a falar muitas vezes não se recupera” - Benjamin Franklin.


 


 


 




junho 02, 2023

UM GOVERNO OPACO E FALSO

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SEGREDINHOS - Desde há meses que o Primeiro Ministro repete que o seu objectivo é todo o apuramento da verdade, doa a quem doer e custe o que custar. Já o repetiu e, na semana passada, no Parlamento, jurou estar disponível para responder a tudo onde quer que seja questionado. Independentemente de logo ali, na tribuna da Assembleia da República, se ter esquivado a responder às contradições da actuação do Governo no caso do SIS, o mais espantoso é que quase ao mesmo tempo em que Costa proclama disponibilidade, o PS, partido de que o Primeiro Ministro é Secretário-Geral, recusou todas as perguntas em sede parlamentar e inviabilizou a própria inquirição de António Costa, usando o peso da sua abusadora maioria absoluta para manter os segredinhos. Temos portanto um António Costa do Governo que se diz disponível e um António Costa de um PS que diz que ele está indisponível. Será isto um caso de dupla personalidade? Ao mesmo tempo o Secretário de Estado adjunto de Costa,  Mendonça Mendes, que é quem o PS quer impedir que seja ouvido e diga o que se passou na noite das facas longas do SIS, conta já, entre ele e o primeiro ministro, com 28 recusas de resposta a perguntas sobre o caso no espaço de uma semana. É obra e deve estar a entrar para o Guinness. Quando achamos que a degradação do sistema político já atingiu o ponto mais baixo, há sempre alguma coisa que nos espanta ainda mais. A metódica e preparada ocultação da verdade é das piores coisas que esta maioria absoluta faz. Bem pode Costa pregar que quer que se saiba toda a verdade, mas enquanto o diz, esconde com afinco o que ajudaria a perceber o que de facto se passou.


 


SEMANADA - Segundo a Marktest, entre 2018 e 2022, o número de pessoas que utilizam a internet com mais de  65 aumentou 20% e representa agora 41% dessa faixa etária; segundo o mesmo estudo, nas pessoas entre os 15 e os 24 anos e entre os 25 e os 34 anos, a percentagem de acesso atinge o pleno, 100% e entre os 45 e 64 anos, os valores de acesso são de 84%; a taxa turística rendeu 21,4 milhões de euros de receita aos 13 municípios que já a aplicam nos primeiros quatro meses deste ano; os turistas norte-americanos já são os principais clientes dos hotéis de Lisboa; António Costa pediu mudanças em 15 dos 20 componentes do PRR para tentar cobrir falhas e dar mais um ponto percentual ao PIB; dos 18 ministros empossados há 14 meses após a vitória eleitoral do PS, apenas cinco não estiveram envolvidos em casos polémicos; 255 mil pessoas têm segundo emprego, o número mais alto dos últimos anos, segundo o INE; em Portugal 210 mil pessoas acima dos 65 anos continuam a trabalhar; de acordo com dados da Autoridade Tributária  53% das famílias portuguesas vive com menos de 964 euros por mês, e, dentro destas, 1/3 vive com menos de 714€/mês; de acordo com a Segurança Social 67% dos pensionistas têm pensões de reforma abaixo de 443 euros  e 82% têm pensões de reforma que não ultrapassam os 665€;  os portugueses têm um esforço fiscal  de 32%, acima da média europeia e temos o quarto pior valor da UE; na última década 15% dos empregos criados são da responsabilidade de novas empresas entretanto surgidas; o Presidente da República só soube da intervenção das secretas no caso do Ministério das Infraestruturas ao fim de três dias; a direcção executiva do Serviço Nacional de Saúde trabalha há oito meses sem ter regras de funcionamento aprovadas.


 


O ARCO DA VELHA - Três fiscais da EMEL espancaram um condutor que estava mal estacionado, pontapeando-o no chão e ferindo-o em plena Avenida da República.


 


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ENIGMA E SUBVERSÃO - Uma das melhores exposições deste ano está no MAAT /Central Tejo e é “Hello Are You There?”, de Luísa Cunha. Trata-se da maior retrospectiva da obra de Luísa Cunha, produzida na sequência da atribuição do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021. Com mais de meia centena de obras, e curadoria de Isabel Carlos, a exposição (na imagem) abrange peças sonoras, vídeo, desenho, pintura e escultura. Na exposição estão algumas das marcas autorais de Luísa Cunha como a colocação de peças em espaços inusitados, meios minimalistas e o uso da própria voz e da palavra como matéria plástica, com um sentido de humor desarmante. É uma exposição que tanto é para ser vista como escutada, sentida, descoberta. Vai estar no MAAT até 28 de Agosto e é uma oportunidade única de descobrir a obra de Luísa Cunha “um universo artístico intrigante, enigmático e subversivo”, nas palavras de Isabel Carlos. Ao mesmo tempo foi lançado o mais completo catálogo da obra da artista até à data. “Luisa Cunha. Obras / Works 1992–2022” que abarca ao longo de duas centenas de páginas um total de 108 obras  e dois ensaios originais, uma da autoria de Isabel Carlos,  e outro de Joshua Decter, escritor, curador e historiador de arte norte-americano. Mais exposições a não perder por estes dias: a série de desenhos e a instalação “Poems For Tourists” de Pedro Barateiro, até 29 de Julho na Galeria Filomena Soares; o trabalho de “Plan American” de Rodrigo Oliveira na Galeria Balcony até 8 de Julho; “Looking for Eden” de Daniela Krtsch e “tre-due-no” de Joana Rebelo de Andrade na Galeria Belo Galsterer, até 21 de Julho; a instalação “São Dinis de Paris?, de Rui Sanches, na Galeria da Casa A. Molder;  e deixo para o fim uma exposição a que regressarei na próxima semana, “Before Breakfast”, de Matt Mullican, que fica na Galeria Cristina Guerra até 17 de Junho.


 


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DIÁRIO DE GUERRA - Ernst Jünger é um dos grandes nomes da literatura alemã, nasceu no final do século XIX, fez uma carreira militar e integrou o exército alemão na Primeira e Segunda Guerra mundiais, tendo estado ligado aos conjurados do atentado de 1944 contra Hitler. Nos seus diários manifestou desprezo pelos nazis e vergonha pelas estrelas amarelas impostas aos judeus. “Tempestades de Aço”, que agora é publicado pela primeira vez em Portugal, combina ficção e notas dos diários do autor nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Descrições realistas da guerra, um hino ao heroísmo e elegia do sofrimento no campo de batalha são os ingredientes deste livro. Jünger, evoca e revive, com objectividade e sem condescendência, os aterradores combates que os soldados viveram na Frente Ocidental, de Janeiro de 1915 a Agosto de 1918. O que distingue este dos outros livros de guerra é a sua chocante violência: a guerra surge como coisa objectiva, independente de qualquer inimizade pessoal, um território de terror. Num tempo em que a Europa vive novo conflito armado, pela escrita do soldado alemão Jünger, entramos nas trincheiras, tombamos nos buracos dos morteiros, debaixo de fogo de artilharia. E, no meio disto, descreve o contraste: «A coisa estranha é que as avezinhas na floresta pareciam imperturbáveis pela miríade de explosões; estavam tranquilamente pousadas na ramagem despedaçada, por cima das espessas nuvens de fumo. Nos curtos intervalos do tiroteio, podíamos ouvi-las cantar alegre ou ardentemente, como se inspiradas ou até encorajadas pelo aterrador barulho de todos os lados.» A tradução é de Maria José Segismundo dos Santos e a edição é da Guerra & Paz.


 


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SILÊNCIOS -   Paul Simon tem 81 anos e desde há seis décadas é uma referência da música popular. Tudo começou quando em 1964, juntamente com Art Garfunkel, gravou a canção “The Sounds Of Silence” no seu álbum de estreia. Agora, depois de ter anunciado há meses que iria parar a sua actividade musical, edita um disco que é, de novo, uma busca pelo efeito do silêncio na música. O disco chama-se “Seven Psalms” e é composto por uma faixa única de 33 minutos, dividida em sete partes. O título do disco tem a ver com os salmos bíblicos do Rei David, algo que Paul Simon afirma ter descoberto recentemente. O primeiro dos momentos do disco chama - se “The Lord” e o derradeiro “Wait” e o álbum é mais uma incursão pelo universo da espiritualidade que foi sempre presente ao longo da sua obra - apesar de ele proclamar não saber se é, ou não, crente. Algures no disco Paul Simon canta:“I lived a life of pleasant sorrows until the real deal came.” E este assunto, passará por ser a fé - que relata no momento final, “Wait” cantado em dueto com Edie Brickell, com quem está casado há mais de 30 anos.  “My hand’s steady/My mind’s still clear/ I hear the ghost songs I own/Jumpin’, jivin’, and moanin’ through a heartbroken microphone. - canta Simon a meio do disco. Todo o trabalho é maioritariamente feito apenas com a voz de Paul Simon e sua guitarra, pontualmente com a presença de outros instrumentos como a harmónica, ou de vozes de um coro e a de Edie Brickell. A voz de Simon, às vezes um sussurro, é bem descrita num dos seus salmos, “My Professional Opinion”, uma faixa inspirada nos blues, onde ele canta “What in the world are we whispering for?”


 


SALADA ROSADA - Desta vez fui apenas o observador e provador, com gosto, de uma salada fria, boa para o verão, preparada pelo outro lado da mesa. Trata-se de um prato onde o bacalhau e a beterraba são os principais protagonistas, coadjuvados pelo aipo e a quinoa. O primeiro passo é cozer dois bons lombos de bacalhau e reservar a água da cozedura - que vai servir para cozinhar uma chávena de chá de quinoa - seguindo as instruções de cozedura. O segundo passo é desfiar o bacalhau, tendo o cuidado de tirar bem a pele e as espinhas. Entretanto aproveite para escorrer a quinoa e deixar repousar. O passo seguinte é ralar uma beterraba, das que se vendem já cozidas, e numa taça larga misturar a quinoa escorrida, a beterraba ralada e o bacalhau desfiado. Regue tudo com o sumo de um limão e misture bem. A seguir pique dois ou três talos de aipo, lavados e crus, adicione aos restantes ingredientes e volte a misturar, temperando com azeite de boa qualidade, sal e pimenta. No final coloque por cima hortelã fresca e sirva. Um rosé seco e fresco acompanha bem, na cor e na conjugação de aromas, esta salada invulgar que, nas quantidades indicadas, dá bem para seis pessoas.


 


BOM - Nas eleições europeias de 2024 os cidadãos vão poder escolher onde votar e saber as mesas sem filas.


MAU - A Segurança Social de Braga tem dificultado o apoio terapêutico a crianças com necessidades especiais.


DIXIT - “Não cabe ao Presidente da República pronunciar-se sobre a oposição” - Rui Rocha, Presidente da Iniciativa Liberal


BACK TO BASICS - “Quando acharmos que estamos ao lado da maioria, chegou o tempo de pensar em reformarmo-nos” - Mark Twain