
COM UM SORRISO ME ENGANAS - A mentira e a dissimulação tornaram-se instrumentos da política. O fenómeno não é novo e é transversal do ponto de vista partidário. O que é novo é ter um Governo, e o partido que o apoia, a escudarem-se na maioria absoluta, que não usam para fazer reformas e melhorar o país, mas utilizam para tapar a confusão que vai no Governo, evitar que se saiba a verdade, negando inquirições, dificultando respostas, iludindo o pagode. De certa forma criou-se a ideia de que é inevitável ocultar e mentir quando se está na política - o contrário daquilo que devia acontecer. Perante aldrabices inqualificáveis há até quem diga que o político tal é habilidoso e um mestre em táctica. O mundo, na realidade, está ao contrário. Outro instrumento recorrente dos líderes dos grandes partidos é o eterno sorriso. Parece uma máscara - e, se calhar, é mesmo. Reparem: Costa e Montenegro aparecem sempre a sorrir e o Primeiro-Ministro mantém a máscara mesmo nas situações mais graves. Políticos que estão sempre a sorrir, e que pelo meio ainda escondem umas verdades, fazem-me lembrar aqueles vendedores de automóveis usados (sem ofensa à classe), que sorriem enquanto dizem que está tudo na ponta da unha com o que querem impingir. Isto nem sempre foi assim. Os grandes estadistas, como Mário Soares, têm expressão facial, não escondem irritações nem frustrações, nem alegrias nem tristezas. São pessoas, não são produtos de consultores de imagem e de especialistas em media training. Estamos a caminhar para uma época em que os dirigentes políticos, pelo menos grande parte deles, parecem bonecos de cera sempre com a máscara do sorriso afivelada. Eu não comprava um carro a esta gente, muito menos lhes punha um país nas mãos.
SEMANADA - Em 2021 cada pessoa produziu em média 1,4 kgs de resíduos por dia; a população em Portugal aumentou pelo quarto ano consecutivo, registando-se uma queda nos melhores de 14 anos e um crescimento nos maiores de 65; nos últimos 50 anos duplicou o número de casas existentes em Portugal; segundo a Pordata nos últimos 50 anos as famílias tornaram-se mais pequenas; grande parte dos professores universitários estão a chegar à idade da reforma, que pode atingir 600 docentes por ano; é esperado um aumento de 30 a 50% na produção diária de lixo em Lisboa durante as Jornadas Mundiais da Juventude; no ano passado foram feitas sete milhões de chamadas para o 112, mas apenas 1,4 milhões foram consideradas emergências; segundo a Quercus o consumo médio anual de peixe em Portugal é de cerca de 60 kgs por pessoa, o que significa 2,5 vezes a média europeia; Portugal é o 5º país da UE com maior lentidão dos tribunais; uma decisão de um tribunal de primeira instância, em Portugal, demora em média três anos a ser tomada; uma sondagem do Expresso indica que 78% dos portugueses estão insatisfeitos com o combate à criminalidade, 87% estão insatisfeitos com o combate à corrupção e 51% não confia nos tribunais; há 861 mil casas em Portugal que não estão ligadas à rede pública de água emais de 1,3 milhões sem saneamento; em Portugal existem 4300 impostos e taxas.
O ARCO DA VELHA - “Ainda não sei muito bem o que se passou” - afirmou agora Mário Centeno, que era Ministro das Finanças em 2015, sobre o negócio então realizado entre Neeleman, Airbus e TAP.

PINTURAS & MAIS - Em matéria de exposições o destaque desta semana vai para “Metamorfoses”, de Ilda David, que fica na Sociedade Nacional de Belas Artes até 22 de Julho. É um conjunto de 36 obras, das quais quatro são dos anos 90 e todas as outras foram feitas entre 2020 e 2023. Na exposição coexistem telas a óleo e acrílico, telões de linho bordados e um grande mosaico construído de diversas pedras e que domina o espaço, colocado centralmente no grande salão (na imagem). Desta vez as telas não estão na parede, e sim montadas em estruturas que reproduzem os cavaletes de estúdio. Ilda David conta que habitualmente trabalha em duas telas, colocadas costas com costas no mesmo cavalete, e é assim que elas estão na exposição, que teve curadoria de Nuno Faria, de quem são estas palavras: “livres de paredes, circulamos entre imagens - pintadas, bordadas, montadas - e imaginários”. Outros destaques: Serralves recebe pela primeira vez, até 12 de Novembro, uma exposição de António Júlio Duarte, trabalhos recentes concebidos especificamente para o espaço onde estão expostos. Na Galeria Contemporânea do Museu estão 50 fotografias de formatos idênticos e na Capela da Casa de Serralves está uma impressão sobre tecido de grande formato da obra Queimado, de 2017; a Fundação Gulbenkian, assinalando o 1º aniversário da morte de Paula Rego, expõe, pela primeira vez, até 24 de Julho, as duas mais recentes obras da artista integradas na colecção do Centro de Arte Moderna, “Anjo” (de 1998) e “O Banho Turco” ( de 1960). As duas obras estão até 24 de Julho no átrio da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, junto à escadaria principal, com entrada livre.

COMO SE CHEGOU À ESCRITA - Se não houvesse escrita, não havia livros. É a partir daqui que nasce o “Atlas Histórico da Escrita” por Marco Neves, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O autor mostra-nos como «estas invenções de aparência banal – uns rabiscos –» abrem «as portas a uma história tremenda, antiga», e dão ainda a oportunidade de «passar horas com as melhores mentes dos últimos milénios». Dividido em seis partes, este atlas inédito está baseado numa rigorosa investigação e leva-nos a acompanhar a história dos sinais com que temos registado as línguas de todo o mundo ao longo dos últimos cinco mil anos. até Wadi el‑Hol, no Egipto, onde Deborah Darnell e John Darnell encontraram, em 1993, inscrições com quase 4000 anos. O livro mostra a evolução da escrita e apresenta ilustrações com desenhos de alfabetos ao longo dos séculos. Para Marco Neves a escrita é a segunda maior invenção da Humanidade, depois da linguagem e por isso segue a sua história, desde as primeiras inscrições na argila da Suméria às letras digitadas no ecrã de um telemóvel, da expansão da imprensa ao advento da literatura, da alfabetização da população mundial à democratização da escrita, ou seja, como nasceram, se desenvolveram e se espalharam os sistemas de escrita ao longo dos últimos cinco milénios. Na parte final o Atlas centra-se nas evoluções do nosso alfabeto latino e analisa a terceira grande revolução da escrita que estamos a testemunhar: «A tecnologia aliou‑se à explosão da alfabetização de muitas sociedades, levando a capacidade de ler e escrever a uma percentagem da população que, em muitos países, chega praticamente aos 100 %. A alfabetização de toda a população é um fenómeno inédito na História – mesmo no Império Romano, pensa-se que a alfabetização nunca terá ultrapassado os 20 % da população.» A edição é da Guerra & Paz.

UM DISCO RARO - Tenho um fraquinho por Bill Evans e pela magia que extraía do seu piano. A par com Miles Davis e Coltrane, Evans é dos músicos que mais repetidamente ouço. Este ano foi editado um novo álbum de gravações inéditas, “Bill Evans - Treasures: Solo, Trio and Orchestra Recordings from Denmark (1965-1969)”. Ao longo das 30 faixas que integram o álbum surgem três facetas do trabalho de Bill Evans durante a sua vida : na formação de trio de que tanto gostava, acompanhado por uma orquestra e, finalmente, a solo. Editado sob a forma de triplo LP de vinil, duplo CD ou em streaming, “Treasures” proporciona mais de duas horas de música, gravada para a rádio pública dinamarquesa em diversas ocasiões, entre 1965 e 1969. As gravações em trio registam duas formações diferentes, uma com músicos locais e outra inclui o baixista Eddie Gomez, que tocou frequentemente com Evans e os bateristas Alex Riel e Marty Morell. As versões de “Autumn Leaves” e “Emily” são uma prova da cumplicidade entre os músicos, sobretudo Gomez e Evans. As gravações com a Real Orquestra Sinfónica da Dinamarca e a Orquestra Big Band da Rádio Dinamarquesa, ambas de 1969, são boas surpresas. Os arranjos para orquestra são do trompetista Palle Mikkelborg, e um bom exemplo do seu trabalho é a faixa “Treasures”, composta por Evans para a série de concertos de orquestra então realizados. Nos temas executados a solo destacam-se uma das suas composições, “Re: Person I Knew” a versão de “‘Round Midnight” e a de “My Funny Valentine”. O álbum tem outros clássicos como “Come Rain Or Come Shine”, “Autumn Leaves”, “In A Sentimental Mood” ou “Beautiful Love”. Disponível nas plataformas de streaming.
DELÍCIAS DO MAR - Há uns anos nasceu em Campo de Ourique o restaurante Cortesia, que focou as suas atenções na carne - e onde os carnívoros, como eu, têm uma boa oferta. Há poucos meses os mesmos donos do Cortesia apostaram, na mesma zona, num novo restaurante, o Teimar, que se dedica a produtos do mar. A primeira visita aconteceu na semana passada e correu muito bem. Para entrada vieram uns magníficos croquetes de camarão, perfeitos na fritura, recheio cremoso e saboroso, uma gota de maionese de alho a ornamentar cada um. a experiência prosseguiu com um tártaro de atum com alcaparras, cornichons e acompanhado de batata frita às rodelas. O tártaro estava muito bom, as batatas estavam mais cozidas que fritas, único sinal negativo de toda a refeição. uma boa experiência foi o polvo no josper (josper é um forno profissional capaz de atingir rapidamente 350º). Boa quantidade de polvo, tentáculos suculentos, macios, acompanhados de batatinha nova e cebola caramelizada. Estava perfeito. Uma experiência que fica para próxima visita é o arroz meloso de carabineiro, muito gabado em outras mesas e tentador à vista desarmada. A selecção de vinhos não é extensa mas em matéria de vinho branco a copo o Diálogo, da casa Niepoort, desempenha muito bem e a preço equilibrado. Se no fim algum carnívoro tiver fome recomenda-se o trinchadinho de lombo frito em azeite e alho tostado, fatiado à vontade do freguês. O Teimar fica na Rua Infantaria 16, 63 e a reserva é recomendável, através do telefone 213 860 032.
BOM - O Oceanário de Lisboa recebeu 28 milhões de visitantes em 25 anos.
MAU - 1,7 milhões de Portugueses não têm médico de família, mais 30% que há um ano.
DIXIT - “Daqui a umas décadas, quando o historiador do futuro olhar para os anos de António Costa, ele terá dificuldades em entender que raio de socialismo foi este que nos caiu em cima”- João Pereira Coutinho
BACK TO BASICS - “O cuidado a ter quando se combate monstros é evitar tornarmo-nos num deles” - Friedrich Nietzsche