
O CASO DA SEMANA - Na terça-feira da semana que vem António Costa veste-se de pompa e circunstância, esperemos que sem o cínico sorriso que é a sua máscara usual, para realizar às pressas e sob pressão, a inauguração de um monumento às vítimas dos grandes incêndios de 2017 em Pedrógão que não quis fazer na data que assinalava o aniversário desse fatídico momento. Nesse dia da semana passada, Costa estava sentado ao lado de um líder da extrema direita europeia, em Budapeste, no dia do aniversário de Orbán, a ver futebol - a final da Liga Europa, em mais um exemplo da forma como o futebol é o terreno onde a elite política se delicia a sujar as mãos. Foi o caso da semana. Regressando ao tema das primeiras linhas, deixem que vos diga que Carlos Rodrigues, Diretor Geral Editorial da Cofina, escreveu no Correio da Manhã aquilo que é mais importante neste caso: a atitude das altas individualidades do Estado face à apresentação do monumento de homenagem é o sinal da forma como olham para o país. Cito o que escreveu: “Na verdade vai para 6 anos que o Estado central não se lembra, ou pelo menos esquece-se facilmente, de quem vive e sobrevive no interior do País. De que vale homenagear os que morreram se não se cuida dos que ainda vivem em Pedrógão Grande e em todos os locais do País cada vez mais abandonados à sua sorte, sem esperança no futuro, sem investimentos, sem uma ideia estratégica para inverter a desertificação rural?”. Mudar o país dá muito trabalho e exige, ironia das ironias, um pouco de pensamento, atenção às pessoas, medidas concretas. As reformas não vivem de discursos ou de comemorações, vivem de decisões e de acções que concretizem as decisões. Coisas demasiado ausentes da política portuguesa deste consulado costista, retrato perfeito de um Estado que despreza as pessoas, de partidos que só pensam em si próprios e de políticos que só querem ocupar lugares, aqui, ou lá fora.
SEMANADA - 76 municípios portugueses, um quarto do total, têm menos de 12 espectáculos ao vivo por ano, têm um investimento municipal na cultura inferior a um milhão de euros por ano e não têm qualquer entidade apoiada pela DG Artes, sendo assim classificados como de “baixa densidade cultural”; quase metade das freguesias portuguesas não tem multibanco; os chumbos no exame de matemática do 9º ano passaram de 38% para 70%; no conjunto dos primeiros cinco meses de 2023, o movimento registado nas infraestruturas aeroportuárias portuguesas aumentou 34% face ao período homólogo; dez meses depois dos incêndios que devastaram a Serra da Estrela, queimando mais de 24 mil hectares do parque natural, quem teve prejuízos e os declarou ainda não recebeu nenhum dos prometidos apoios; a abertura do memorial às vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande em 2017 aconteceu esta semana, sem a presença de quaisquer representantes do Governo; os brócolos aumentaram 10,8% nos últimos dois meses, desde que o IVA Zero entrou em vigor; segundo o Conselho de Finanças Públicas o sector público empresarial tem centenas de empresas com 150 mil trabalhadores e custos operacionais superiores a 11, mil milhões de euros por ano, cerca de 4% do PIB em números redondos; em matéria de política fiscal Portugal ocupa a 54ª posição entre as 64 economias mundiais analisadas pelo International Institute for Management Development; este ano a inflação em Portugal aumentou de tal modo a base tributária que fez a receita fiscal aumentar 4 mil milhões de euros, saídos do bolso dos contribuintes para os cofres do Estado; Carlos Moedas anunciou um plano de reabilitação e de construção de nova habitação a ser desenvolvido pela Câmara Municipal de Lisboa com um novo investimento de 322 milhões de Euros; Lisboa e Funchal estão no top 10 europeu de poluição por navios de cruzeiro.
O ARCO DA VELHA - Rui Costa, Presidente do Benfica, afirmou, a propósito da regulamentação de novos direitos audiovisuais que “o Benfica não irá cumprir nenhuma lei se se sentir prejudicado”.

PINTURAS TRADICIONAIS - Tendo eu estado ausente durante uma semana, colocou-se a questão de saber o que recomendar em matéria de exposições. De forma que resolvi seguir algumas opiniões que considero, manifestadas publicamente. Pelo que consegui perceber a exposição que está a suscitar maiores elogios é “Pau-Podre”, de Mattia Denisse, um francês que vive em Lisboa, e que pinta aquilo que parecem paisagens e naturezas mortas, retomando a tradição da pintura ocidental. A exposição, com 17 obras inéditas feitas entre 2022 e 2023 (pormenor na imagem), está na Galeria Rialto 6, em Lisboa (Rua Conde Redondo 6, 1º andar). Ainda em Lisboa há uma galeria na qual vou descobrindo novos artistas é a Balcony, (Rua Coronel Bento Roma 12). Pedro Magalhães, que dirige a galeria, aposta em divulgar novos nomes como acontece com “Plan Américan”, de Rodrigo Oliveira, uma revisitação do universo da Avenida dos Estados Unidos da América e do filme “Verdes Anos”, de Paulo Rocha cuja acção era ali situada. Em Coimbra sugiro uma visita à Galeria Sete (Avenida Elísio Moura 53), que apresenta até 8 de Setembro uma série de novos trabalhos de Pedro Pascoinho na exposição “Nada - o triunfo do silêncio”. No Porto, na Galeria Fernando Santos, Gerardo Burmester apresenta “Impossível de Ver II”. Segundo Burmester a exposição evoca e prolonga uma instalação que apresentou em 1997 em Serralves, “Impossível de Ver” e que consistia em ter desenhos sobre feltro entalados num muro de xisto. Burmester sintetiza a razão do título nesta frase: “Vivemos um tempo de excesso de imagem, em que tudo se torna Impossível de Ver. Vê-se apenas o exterior.”

A HISTÓRIA DE UM ARTISTA - Júlio Pomar foi um dos grandes artistas plásticos portugueses dos últimos cem anos, com uma obra incontornável na pintura, desenho, gravura e cerâmica. A sua primeira exposição data de meados dos anos 40 do século passado, estudou em Lisboa e no Porto onde, entre muitas outras coisas, realizou o grande mural do Cine-Teatro Batalha, recentemente recuperado. Em 1963 foi para Paris, onde viveu e trabalhou durante vários anos. Alexandre Pomar, seu filho, é um dos mais relevantes críticos de arte portugueses e seguiu sempre com atenção a obra do seu Pai, estando também ligado à Fundação Júlio Pomar e ao Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa. “Júlio Pomar. Depois do Novo Realismo” é o livro que agora editou, e que acompanha o percurso de Júlio Pomar desde o início da década de 40. O livro reúne estudos publicados ao longo dos anos e alguns inéditos e inclui reproduções de uma selecção de obras do pintor. Alexandre Pomar apresenta neste livro o seu olhar sobre a obra de Júlio Pomar e desafia a ortodoxia reinante sobre o período do neo-realismo. Além de percorrer as diversas fases da produção artística de Júlio Pomar, o livro inclui ainda dois anexos com 25 escritos inéditos e dispersos do artista, correspondência que Pomar trocou com Mário Dionísio, Manuel Vinhas, Paula Rego ou Cardoso Pires e ainda cartas enviadas aos filhos nos primeiros anos de Paris. São de Alexandre Pomar estas palavras: “Importa ver o aparecimento do neo-/ novo realismo não isoladamente mas no âmbito do que foi a Geração de 45, protagonizada por jovens artistas surgidos no imediato pós-guerra, que se afirmaram como emergência consciente de si mesma, como mudança e novidade, vanguarda, em acções colectivas, escritos e exposições, para ao mesmo tempo se diferenciarem no seu seio entre o interesse pelo realismo, o abstraccionismo e o surrealismo. De Júlio Resende, um pouco mais velho, a Fernando Lanhas e Nadir Afonso ou Arlindo Rocha, a Júlio Pomar e Vespeira, é uma geração que irrompe, passando por um jornal (página Arte, em A Tarde), as exposições Independentes (1943-50) e uma galeria (Portugália). É o Porto a sede dessa movimentação, mal conhecida em Lisboa e deliberadamente diminuída nas histórias de José-Augusto França e discípulos, para assim se tentar construir uma nova página ou nova geração pelo final da década de 40 inícios de 50. É de uma revisão da história académica ainda vigente que se trata aqui.” Edição Guerra & Paz e Atelier Museu Júlio Pomar.

O ENCANTO DAS CANÇÕES - Um dos actores que aparecia num episódio da série “Billions” e no recente filme “Killers Of The Flower Moon”, de Martin Scorsese, é também um guitarrista e cantor experiente e aplaudido. Chama-se Jason Isbell, já ganhou vários Grammy e tem uma longa carreira musical, nos Estados Unidos, mas pouco conhecida na Europa. A partir do terreno original da música country, demasiado desprezado, Isbell cresceu, tornando-se um guitarrista requisitado por muitos músicos. Tocou pela primeira vez no templo da Country em Nashville, o Grand Ole Opry, quando tinha apenas 16 anos. Embora tocando muitas vezes a convite de outros músicos, como Steve Earle, Isbell tem vários discos a solo, mas foi com a sua primeira banda, Drive By Truckers que obteve notoriedade. O ponto alto da carreira da banda ocorreu no álbum “Southern Rock Opera”, de 2001. Em 2009 Jason Isbell criou um novo grupo, com músicos do Alabama e deu-lhe o nome 400 Unit, uma referência à ala de psiquiatria do Eliza Coffee Memorial Hospital. “Weatherwaves”, o novo álbum agora editado, é o seu quarto disco com os 400 Unit e é, talvez, o mais marcante dos seus trabalhos. Alguma imprensa norte-americana diz que “Weathewaves” está para o percurso de Jason Isbell como “Born To Run “ esteve para o de Springsteen, aliás uma das evidentes referências musicais de Isbell. Outras, que se podem sentir ao longo da sua música são, por exemplo, Tom Petty, Allman Brothers, Steve Earle ou Van Morrison. “Weatherwaves” parece um disco feito à moda antiga, com uma sucessão de 13 boas canções, cada uma delas com espaço para se afirmar, uma hora de música que vale a pena ouvir. Sugiro que numa das plataformas de streaming ouçam o que canta em temas como “If You Insist”, “Middle Of The Morning” ou vejam como os cinco músicos da 400 Unit são criativos nas duas faixas finais”This Ain’t It” e “Miles”. Este “Weatherwaves” é um belíssimo disco, um clássico contemporâneo da música americana.
DIXIT - “É evidente que António Costa não foi a Budapeste negociar apoios para um cargo europeu. Primeiro, porque ele disse que ficaria 4 anos e não é pessoa de faltar à palavra. Segundo, porque seria incapaz de instrumentalizar forças políticas radicais para conquistar o poder” - Carlos Guimarães Pinto.
BACK TO BASICS - “No mundo dos negócios, o espelho retrovisor dá sempre uma imagem mais nítida que o pára brisas” - Warren Buffet