fevereiro 13, 2015

QUANDO EM NOME DO PROGRESSO SE PRATICA O RETROCESSO

RETROCESSO - Vivo quase metade da semana numa pequena aldeia a 40


quilómetros de Lisboa, ainda com uma forte componente agrícola, que coexiste


com grandes unidades industriais essencialmente exportadoras, com um espírito


de comunidade arreigado, com sociedades recreativas que fazem festas e um


comércio local onde toda a gente se conhece. Até ao ano passado a Câmara


Municipal de Palmela tinha travado o crescimento demasiado de grandes


superfícies dentro das malhas urbanas. No Verão de 2014 autorizou um


supermercado de média dimensão dentro dessa povoação - apesar de num raio de


dez quilómetros existirem mais seis supermercados e grandes superfícies. Essa


povoação tinha um comércio local dinâmico e variado, com uma forte oferta de


produtos frescos, de produtos locais, alguns deles com denominação de origem.


Nessas lojas encontrava-se o melhor que ali se produzia - fosse queijo fresco do


dia, pão cozido a forno de lenha, doces regionais, peixe vindo de madrugada da


lota de Setúbal ou fruta e hortícolas da região. Nestes pouco mais de seis meses já


encerraram meia dúzia de lojas, derrotadas pelo supermercado - onde nem tudo é


mais barato, poucas coisas são tão frescas e onde os produtos naturais não


abundam. Este supermercado é de um dos maiores grupos nacionais, uma empresa


que propagandeia responsabilidade social e apoio aos produtores. Na realidade, a


nível local, não é nada disso que se vê - destruição de valor, quebra da vida em


comunidade, destruição da frágil economia familiar que estava baseada em


pequenos comércios. A maneira como as cadeias de supermercados afectam a


economia local, sem benefícios evidentes quando as contas são bem feitas, é um


dos maiores problemas do país nos últimos anos e as Câmaras Municipais têm


muitas responsabilidades nas autorizações que concedem. Custa-me ouvir a


senhora da loja onde me habituei a ir dizer que não sabe se conseguirá mater a


porta aberta muito mais tempo. Isto não é progresso. É retrocesso.


 


SEMANADA - António Costa continua a não querer dizer se Guterres já o


informou da sua indisponibilidade para Presidente da Republica; Alfredo Barroso,


fundador do PS, classifica António Vitorino, apontado como um dos possíveis


candidatos socialistas a Belém, como “um facilitador de negócios”; Rui Rio, que


alguns apontam como eventual candidato, anunciou desejar um Presidente da


República mais interventivo; uma sondagem do Correio da Manhã indica que, caso


Guterres não se candidate, Marcelo Rebelo de Sousa ganha com vantagem folgada


aos três outros nomes da área do PS já indicados - Jaime Gama, António Vitorino


e Maria de Belém, sempre com mais de 60% dos votos; pelo terceiro ano seguido


as exportações portuguesas superaram as importações efectuadas; a Alemanha é


o país europeu com quem Portugal tem maior déficit comercial; o preço da carne


de porco caíu 20% devido ao impacto do embargo de vendas à Rússia; dos 126


mil imóveis transaccionados no ano passado, 23 mil envolveram estrangeiros


e os franceses estão a aproximar-se dos chineses em número de aquisições; o


Parlamento considerou exorbitantes as multas aplicadas pelo fisco devido ao não


pagamento de portagens e que chegam a atingir um aumento de 900% sobre o


valor original que o automobilista teria que pagar; metade dos contratos públicos


em 2013 foi por ajuste directo; o Governo anunciou querer saber quem são e como


se financiam os donos dos orgãos de comunicação social portugueses.


 


ARCO DA VELHA - O caso dos submarinos provocou uma crise no PS e Ana


Gomes e Isabel Moreira passaram a semana a atacarem-se mutuamente. Ana


Gomes desencadeou um ataque a Paulo Portas sobre os submarinos baseada em


escutas cuja transcrição confundiu canal com Canalis e aquilo com Kiel. Apesar


disso Ana Gomes disse não estar disposta a receber lições de Isabel Moreira.


 


FOLHEAR - Baseada em Nova Iorque, a Aperture Foundation é uma organização


sem fins lucrativos dedicada à divulgação da fotografia em revistas, livros,


exposições e actividades de formação. Edita uma magnífica revista, publicada


sazonalmente, quatro vezes por ano. A edição deste Inverno tem sobejos motivos


de interesse. O maior será talvez um artigo sobre a influência da escrita na obra


do fotógrafo Walker Evans, conhecido sobretudo pela sua obra no campo da


fotografia documental para revistas como a Time ou a Fortune. Mas a presença


da literatura esteve sempre por perto, nas séries que fez para acompanhar alguns


textos de autores que mais o interessavam. E assim descobre-se como Flaubert,


Baudelaire ou Proust, por exemplo, exerceram uma notável influência na sua obra


- é um magnífico ensaio de David Campany. As relações da fotografia com o texto


são também exploradas em “Word vs Images” onde diversos autores de ficção


elaboram sobre o assunto, entre os quais, Lynne Tillman e Tom McCarthy. Outra


abordagem curiosa à ligação da imagem com a literatura é a história das capas,


fotográficas, da editora New Directions, que em meados do século passado apostou


em imagens, por vezes quase experimentais, para capear obras de William Carlos


Williams ou Yukio Mishima, entre outros. E , claro, há portfolios de autores como


Hervé Guibert e descobertas como as fotografias feitas por William S. Burroughs.


A edição pode ser comprada directamente à Aperture Foundation ou encomendada


via Amazon ao preço de capa de 25 US$.


 


VER - Esta semana é incontornável falar da colecção Sonnabend, que estará na


Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva até 3 de Maio.É uma rara oportunidade


de ver de perto, em Lisboa, um conjunto significativo de obras de artistas


como Robert Rauschenberg, Roy Liechtestein, Andy Warhol ou Jasper Johns.


Feita em colaboração com a Sonnabend Collection Foundation (Nova Iorque)


e a Fondazione Musei Civici di Venezia - Ca' Pesaro Galleria Internazionale


d'Arte Moderna (Veneza), a exposição Sonnabend | Paris – New York reúne


um importante conjunto de peças da colecção histórica da Galeria Sonnabend,


mostradas durante os primeiros cinco anos de actividade da galeria em Paris,


entre 1962 e 1967, recorrendo a um total de 50 obras de 15 artistas que melhor


representam o movimento Pop e Minimal Art em esculturas, pintura e desenho - e


alguns desenhos pouco conhecidos de Roy Liechtestein são boas descobertas desta


exposição. A inauguração esteve cheia de gente que não costuma ir a exposições,


menos ainda de arte moderna, mas que se sentiram compelidos ao frisson nova-


iorquino levado ao Jardim das Amoreiras. O poder foi ao Museu - fico na dúvida


se para se mostrar, ou se para ver.


 


OUVIR - É surpreendente como aos 73 anos Bob Dylan tenha ainda a capacidade


de surpreender como fez, no início da década de 60, com os seus primeiros discos.


Eterno apaixonado pela tradição musical norte-americana, que dos blues à country


foi sempre o motor da inspiração das diversas fases da sua carreira, iconoclasta


por natureza, desprezando as verdades estabelecidas, Dylan fez agora um disco


baseado em temas que foram interpretados por Frank Sinatra - 10 temas que


fogem ao óbvio do repertório e vão buscar pérolas esquecidas do cancioneiro


popular norte-americano - como “I’m A Fool To Want You”, “Stay With Me”,


“Autumn Leaves” “ Full Moon and Empty Arms” ou “What ‘ll I Do”, para citar só


algumas. É preciso ter coragem para aos 73 anos dar uma volta destas à carreira,


surpreendendo tudo e todos. Dylan canta com paixão o que Sinatra cantava


com gosto, E canta com um gôzo contagiante, raro, com uma capacidade de


interpretação que só os grandes talentos são capazes de mostrar. Assim se prova


que uma canção pode ser revisitada sem ser traída, que não é da imitação que nasce


a luz, mas que é da surpresa que nasce o encanto. Bob Dylan, Shadow In The


Night, CD Sony Music na Amazon ou no Spotify. Na semana passada, na gala do


Musicares na qual foi homenageado como Personalidade do Ano, Dylan fez um


discurso que retrata a sua visão sobre a música popular norte-americana e que é


imperdível - pode ser lido aqui:


http://www.thedailybeast.com/articles/2015/02/09/bob-dylan-s-whole-life-in-30-


minutes.html?via=mobile


 


PROVAR - Tinha ouvido falar bastante do La Parisienne, um restaurante recente,


situado no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, e que, como o nome


indica, tem na cozinha francesa a sua inspiração. É mais cozinha tradicional,


descansem os cépticos da nouvelle cuisine, e por alguma razão o restaurante usa


o subtítulo Bistrot Français. A decoração é simpática, o serviço é escorreito, a


sala é acolhedora mas falta qualquer coisa para a experiência ser completamente


conseguida. Seguindo sugestão alheia provei um bife tártaro, que estava no ponto


no que à qualidade, corte e tempero da carne diz respeito. É uma pena que as


batatas fritas fossem tão fracas, francamente inferiores ao que é aceitável num


restaurante destes - e um tártaro com batatas fritas inquietas perde um pouco da


sua graça. Do outro lado da mesa a experiência foi melhor, com um filete de robalo


com molho de pimenta rosa e legumes. Dizem-me que a choucrute e o cassoulet


da casa (mal traduzido é um cozido è francesa), merece elogios - convém notar que


os enchidos franceses utilizados são da responsabilidade do chef Xavier Charrier,


que há uns anos abrira uma charcutaria no Linhó, que fez fama. O La Parisienne


é de um casal francês que aterrou em Lisboa, Olivier Vallancien e a sua mulher


Lumir Ardant-Leverd e depois recrutaram Xavier Charrier. Hei-de lá voltar para


navegar mais nas listas e verificar o estado das batatas fritas. Largo Rafael Bordalo


Pinheiro 18, telef. 964203947.


 


DIXIT - “Uma percentagem elevada da população caíu numa situação dramática” -


Luis Barbosa, Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa


 


GOSTO - Pedro Cabrita Reis está a expôr em Toulon, no Hotel des Arts, e o


comissãrio da exposição, Jean François Chougnet, o primeiro director do Museu


Berardo, considera-o “um artista genial com capacidade para fazer projectos de


dimensão absolutamente fora do comum”


 


NÃO GOSTO - De ouvir um relato de uma intervenção policial no bairro da


Cova da Moura que teria incluído expressões como “vocês têm sorte que a lei


não permite, senão seriam todos executados”, dirigidas a jovens de côr que foram


detidos, dois deles da direcção do Moinho da Juventude, projecto comunitário que


existe há 30 anos na Cova da Moura, premiado pela Assembleia da República.


 


BACK TO BASICS - “Muito daquilo que é apresentado como idealismo não é


mais do que amor disfarçado ao poder“ - Bertrand Russell

fevereiro 06, 2015

A DIFERTENÇA ENTRE EPOPEIAS E CONTOS DE CRIANÇAS

EPOPEIA -  Não é possível deixar de falar da Grécia, a terra onde nasceu a forma de construir histórias, de criar e desenvolver uma acção dramática. Os primeiros dias do Governo de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis são um manual de como escrever um guião de cinema. Qualquer bom guionista sabe que o essencial é definir bem como se caracterizam as personagens, dos tiques ao visual - e nisso Tsipras e Varoufakis são talentos raros; depois é fundamental que os primeiros minutos surpreendam o espectador, que a acção emocione, que o inverossímil tome a aparência da realidade e que os heróis ensaiem lutas desiguais e desafiem sem temor os seus oponentes. Assistimos a tudo isto numa dezena de dias pós eleições. Desde a formação da coligação com a direita, passando pelo  abandono do “não pagamos” que passou a ser “talvez paguemos”,  às primeiras propostas financeiras, ao périplo europeu de ambos e às soluções que propuseram, parece que estamos perante uma versão contemporânea da “Ilíada”. A minha dúvida neste momento é saber o desfecho que os guionistas reservaram para o final da epopeia. É uma dúvida a que ninguém sabe responder porque estamos ainda perante o desassossego provocado pela acção intensa dos primeiros minutos do drama que nos é proposto. A acção dramática desta encenação estabelece claramente quem são, para os protagonistas, os maus que eles próprios, os bons, enfrentam. Nestes tempos modernos a peça tornou-se interactiva e mesmo quem não foi interpelado não deixou de enviar sinais - como aconteceu com Passos Coelho, que carregou logo no botão do “like” aos maus da narrativa. Neste momento o Syriza é uma máscara que assola a Europa e todos os dias a sua face se altera por debaixo da máscara. Estamos naquele momento da acção em que a utopia choca com a realidade. Os espectadores inteligentes preferem assistir em silêncio e percebem que tudo isto é bem mais que um simples conto de crianças.


 


SEMANADA - O Tesouro assegurou em Janeiro 60% do objectivo de captação de poupanças nos certificados de aforro para 2015; o total das subscrições atingiu 1,5 mil milhões de euros no primeiro mês do ano; várias estações dos CTT tiveram que prolongar o horário de funcionamento nos últimos dias de Janeiro para conseguirem atender todos os clientes que queriam certificados de aforro com a taxa de juro antiga, mais compensadora; a Assembleia da República admitiu ainda não saber quanto pagou em excesso aos partidos que concorreram às autárquicas de 2009; o Ministério da Educação recebeu, desde Setembro, 74 denúncias de praxes abusivas; o número de insolvências em Portugal desceu 33% em 2014, em relação ao ano anterior, para um total de 4019 casos; o volume de negócios do Vinho do Porto em 2014 foi de cerca de 330 milhões de euros, dos quais apenas cerca de 50 milhões foram realizados no mercado português; atrasos do fisco deixaram 85 mil multas por cobrar por falta de bilhete nos transportes públicos, no valor de cerca de 10 milhões de euros; Bruxelas diz que Portugal só cumpriu um terço das reformas exigidas pela troika; o Governo apoiou a candidatura de Figo à presidência da FIFA; numa sondagem realizada pela Win Gallup International os portugueses dizem esperar que 2015 seja um ano de dificuldades económicas; Fernando Gomes culpou Guterres por derrota da regionalização; segundo a Marktest cerca de 5,5 milhões de portugueses visitaram sites de jornais, revistas e de informação portugueses no ano de 2014; ainda segundo a Marktest quase 60% dos portugueses ouvem rádio regularmente e, destes, a maioria são quadros médios e superiores, seguidos pelos empregados nos serviços, comércio e administrativos; ainda segundo a Marktest a RTP1 foi a estação que emitiu mais notícias, com 2369 trabalhos e a que deu mais tempo em grelha à informação regular, com 79 horas.





ARCO DA VELHA - Uma pessoa minha amiga foi operada a uma anca e os médicos avisaram que devia estar imobilizada algum tempo e que a recuperação demoraria umas semanas; face a isto perguntou aos Serviços da Segurança Social o que seria preciso para garantir que não existiriam problemas com a baixa médica se fosse fazer a convalescença para casa de um familiar, na mesma cidade; os serviços disseram-lhe que não havia problema, mas para expôr o assunto, o que fez por carta registada; recebeu uma resposta dos serviços, citando a carta que tinha enviado, avisando que perderia o direito à baixa por não se encontrar na sua residência e anunciando que para poder ter direito à baixa devia formalmente mudar de morada no documento de identificação.


 


FOLHEAR - Uma vez por ano, geralmente em Fevereiro, o British Journal Of Photography dedica uma das suas edições a escolher os “Ones To Watch”, ou seja os talentos emergentes, um pouco por todo o mundo, na área da fotografia. “Pode haver melhor forma de começar o ano do que olhar para o futuro?” - pergunta Simon Bainbridge, o editor da revista, no seu editorial. A lista de 25 nomeados partiu de um conjunto de 300 seleccionados inicialmente, de todas as partes do mundo. Aqui cruzam-se maneiras de olhar, estilos e diferentes aproximações à fotografia e é isso que faz desta edição do BJP algo de tão fascinante - “hoje em dia a fotografia inventa, assimila, apropria-se e testa a cultura visual para novas direcções, mais amplas e diversas que as exigências do mercado ou as tendências da arte”, sublinha Bainbridge. Não há nenhum português entre estes 25 seleccionados, mas há muitos caminhos abertos e bons exemplos de trabalho de diversos pontos da europa, áfrica, ásia e américas. Alguns dos nomes têm estilos e olhares marcantes. E daqui, aposto, vão sair alguns nomes que vão marcar a fotografia nos próximos anos.





VER - Cecília Costa é das minhas artistas favoritas. Os seus desenhos deixam-me sempre a pensar e transportam-me frequentemente para um patamar de imaginação e surpresa como é raro acontecer. A partir de pormenores da figura humana Cecília Costa imagina situações que nos remetem para momentos de reflexão sobre nós próprios e sobre a nossa envolvente, cria um jogo de cumplicidades entre o que desenhou e as possibilidades de interpretação que oferece a quem vê os seus desenhos. De certo modo eles estão todos relacionados uns com os outros, embora na forma até sejam bastante diferentes, dependendo da época em que foram feitos. Curiosamente Cecília Costa começou por estudar matemática antes de estudar Artes Visuais e, além do desenho, tem feito fotografia, video e instalações. Na sua exposição na Galeria João Esteves de Oliveira é possível observar algumas das fases recentes da sua obra de desenho e perceber a forma como ela vem evoluindo e como cria situações, retratando estados de espírito e inquietações. A exposição de Cecília Costa coexiste com outra, de  trabalhos de Domingos Rego, sob a designação comum “Traço Contínuo” e estará patente até 13 de Março na Rua Ivens 38, em Lisboa.


 


OUVIR - “Wallflower”, o novo disco de Diana Krall, é uma boa surpresa. Maioritariamente abandona o registo de (cada vez mais) soft vocal jazz que se tornou a sua imagem de marca e revisita canções pop, interpretando-as de forma desprendida mas surpreendente, como acontece com “Califormia Dreamin’” dos Mamas & The Papas, “Desperado” dos Eagles ou “Superstar” dos Carpenters. Mas há também versões de temas de Elton John e dos Beatles, e duetos com Michael Bublé (“Alone Again Naturally” de Gilbert O’Sullivan), Bryan Adams (“Feels Like Home”, de Randy Newman) ou Georgie Fame (no clássico “Yeah Yeah”). O nome do álbum vem de um clássico da fase country de Bob Dylan, “Wallflower”, aqui com Blake Mills. Nem Bublé consegue destruir a surpresa das melancólicas interpretações de Diana Krall destes êxitos dos anos 70 e 80. CD Verve, distribuído por Universal.





PROVAR - Um dia destes deparei-me com uma especialidade que julgava extinta: uma garrafa de Carcavelos, um vinho fortificado que o Marquês de Pombal tornou famoso ao produzi-lo na sua quinta em Oeiras, no século XVIII, a partir das castas arinto, galego, dourado e ratinho. Este vinho fortificado, de 17,5º, é envelhecido em barricas de carvalho por um período de dez anos, apresenta uma cor amarela dourado e tem um sabor dominado por frutos secos, mel e especiarias. O vinho voltou a ser elaborado segundo uma técnica que remonta ao século XIV, por iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras, já que a quinta que foi do Marquês de Pombal é hoje património daquela autarquia. Vende-se em garrafas de 375 ml sob a marca Villa Oeiras e é um excelente remate de uma refeição. Carcavelos é uma denominação de origem controlada


Uma nota final, de outro assunto: já começou a época da lampreia, provei a primeira do ano, à bordalesa, e estava excelente. Foi no Apuradinho, Rua de Campolide 209-A. Vale a pena telefonar a indagar quando há - 213 880 501.





DIXIT - “Tudo o que o PS produziu de política nestes dois meses, foi peregrinações; peregrinações a Évora para ver o amigo preso e arengar cabalas contra a justiça” - Pedro Bidarra


 


GOSTO - Do momento visual da semana, quando Matteo Renzi ofereceu uma bela gravata italiana a Alexis Tsipras


 


NÃO GOSTO - A agricultura perdeu 74 mil postos de trabalho e o emprego no sector desceu para mínimos históricos.


 


BACK TO BASICS -  Os homens inteligentes falam porque têm alguma coisa a dizer, os idiotas porque querem sempre estar a falar - Platão

janeiro 30, 2015

SOBRE DEBATES; OPINIÕES E TELEVISÕES

COMENTÁRIOS - Que papel deve ter a televisão na participação cívica e na actividade política? Em Portugal a questão costuma resumir-se a alguma discussão sobre a forma dos debates pré-eleitorais e sobre a rotina das entrevistas a líderes políticos. Ao longo de um ano, especialmente de um ano não eleitoral, há poucos debates. O problema não é exclusivamente televisivo - apesar dos 40 anos da Assembleia da República há poucos debates, bastante retórica e maioritariamente chicana e propaganda partidária. Não há o hábito de discussão de ideias, mas sim de afirmação de posições - o que leva a que acordos sejam uma palavra rara. Normalmente nesta terra de brandos costumas não nasce a luz da discussão mas é frequente nascer a confusão da troca de galhardetes. Tirando isso, e regressando à televisão, ficam os comentários e os comentadores. Ora a esmagadora maioria dos comentadores são paus de bandeira com o estandarte hasteado, cada um a marcar o respectivo território O curioso é que a análise política e o comentário não partidário são bens escassíssimos nos media portugueses, em particular na televisão - e sobretudo, por mais paradoxal que isto possa parecer, nos canais de cabo dedicados à informação. O debate político em Portugal é tratado ao nível de concursos de talentos e de imitadores em que os concorrentes são ex ou actuais notáveis das vidainhas partidárias. É curto, mesmo que às vezes seja divertido. E, claro, ajuda a fazer carreiras - the show must go on.





SEMANADA - No domingo passado, o Syriza, da esquerda radical, ganhou as eleições gregas; na segunda feira o seu líder, Alex Tsipras, anunciou uma coligação com um partido de direita nacionalista; depois de optar por uma tomada de posse sem referências religiosas, ao contrário do que é hábito na Grécia, reuniu-se com o chefe da Igreja Ortodoxa grega; Tsipras, que tem criticado as sanções europeias à Rússia, recebeu uma calorosa saudação de Vladimir Putin pela vitória eleitoral, propondo aumentar a cooperação entre os dois países; o primeiro encontro de Tsipras com um diplomata estrangeiro, depois de vencer as eleições, foi com o embaixador Russo Andrey Maslov; o primeiro acto público oficial de Tsipras depois de ser empossado primeiro-ministro foi depositar flores num memorial a vitímas da ocupação nazi alemã na Grécia; Angela Merkel dirigiu uma mensagem de felicitação a Tsipras  dizendo desejar fortalecer a cooperação entre os dois países; em França Marine Le Pen congratulou-se com o resultado das eleições gregas, classificando-o como o início do julgamento da euro-austeridade; o primeiro ministro espanhol, Mariano Rajoy, participou na campanha do derrotado ex-primeiro ministro Samaras e um porta-voz do seu Partido Popular disse que não se podiam fazer comparações entre a Espanha e a Grécia; o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi disse que é bom ter um aliado como Tsipras em Bruxelas; Mário Soares manifestou “uma grande alegria” com a vitória “do amigo” Alex Tsipras, com quem esteve no ano passado, nas eleições europeias, num comício do Bloco de Esquerda realizado no norte do país; ao segundo dia como Primeiro Ministro Tsipras anunciou ir "reestruturar dívida", subir já o salário mínimo, travar privatizações e contratar funcionários públicos despedidos no tempo da troika; a bolsa grega caíu a pique e  os juros da dívida helénica dispararam; o primeiro Conselho de Ministros de Alex Tsipras foi transmitido em directo pela televisão.


 


ARCO DA VELHA - O negócio dos submarinos rendeu em comissões 27 milhões de euros que foram distribuídos por accionistas da ESCOM e do GES.


 


FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Monocle” é dedicada à hospitalidade, nas suas diversas formas, desde maneiras hospitaleiras de receber, seja em casa, num hotel ou num restaurante, até à forma como algumas embaixadas acolhem convidados. É uma edição muito curiosa, pontuada entre o bom gosto e as boas maneiras. Na secção de cultura há um destaque para o panorama das galerias e da arte em Nova Orleãs, mas também uma história deliciosa de mil árvores, plantadas no ano passado na floresta norueguesa, árvores que darão origem ao papel que será usado em 2114 para imprimir uma antologia de 100 autores que já está a ser preparada. Na area de Media um artigo pequeno, mas curioso, sobre o que está a acontecer na produção televisiva em França, em parte impulsionada pela chegada ao mercado local do Netflix. Regressando à hospitalidade, Lisboa merece duas referências, uma com o Hotel Valverde na Avenida da Liberdadee outra com o Café Lisboa e as suas receitas, criadas por José Avilez. Finalmente nesta edição aparece o anúncio da “Monocle Quality Of Life Conference”, que se realizará em Lisboa nos dias 17 e 18 de Abril, à volta da questão do desenvolvimento das cidades, da sua arquitectura, de como colocar o artesanato e o design no centro do desenvolvimento de actividades económicas. Para terminar, na nota final de Tyler Brulé fica a saber-se que a edição especial “The Forecast”, editada em Dezembro, terá igualmente uma edição no Verão, mais centrada na cultura e nos media.


 


VER - Até 17 de Fevereiro ainda pode ser vista, nos Paços do Concelho, em Lisboa,  a exposição de imagens de fotojornalismo da agência noticiosa espanhola EFE. A mostra pretende dar a conhecer a actividade fotográfica da agência desde que ela se iniciou, há 75 anos. A EFE tem mais de 13 milhões de imagens no arquivo, e destas, cerca de 2,5 milhões podem ser visitadas em  www.lafototeca.com. Diariamente a agência produz cerca de mil imagens em todo o mundo, mas predominantemente nas zonas de influência de Espanha, nomeadamente a América do Sul. Olhando para este trabalho de preservação da memória do fotojornalismo fico a pensar como seria oportuno fazer idêntico trabalho na portuguesa agência LUSA e nas suas antecessoras, Notícias de Portugal, ANOP, ANI e Lusitânia, a precursora, fundada em 1944, há 70 anos portanto. Um bom complemento desta expoosição da EFE, embora de natureza diversa, pode ser visto no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246), onde até 14 de Março pode ser visitada a exposição de postais ilustrados “Palavra Arquivada” (na imagem) , comissariada por Carla Cabanas, a partir de um conjunto de postais do início do século XX provenientes da sua coleção particular e da coleção de Eduardo Portugal.


 


OUVIR - David Virelles é um pianista cubano que se tornou num dos novos cartões de visita da prestigiada editora alemã de jazz ECM, infelizmente cada vez mais difícil de encontrar em Portugal. Neste seu disco de estreia para a ECM, “Mbókò”, Virelles é acompanhado por uma formação inusitada - dois baixistas, dois percussionistas (um deles também vocalista) e ele próprio no piano. Interpretam o que classificam de música sacra e ritual afro-cubana, com incursões de fusão frequentes em sonoridades contemporâneas. Os dois duplo-baixos, e as improvisções que desenham, são uma peça fundamental na construção da sonoridade, assim como as percussões, às quais é deixado um papel essencialmente de pontuação melódica. É difícil catalogar o disco, com raízes evidentes na world music, mas com pontes constantes ao jazz num trabalho de evidente exploração e inovação. O disco inclui dez temas do próprio Virelles e merece ser referido o papel de Thomas Morgan e Robert Hurst, ambos no duplo baixo, do baterista Marcus Gilmore e de Róman Diaz, um percussionista que toca biankoméko, um conjunto de percussões de quatro tambores, sinos e maracas. O meu exemplar de “Mbókò” veio da Amazon do Reino Unido.





PROVAR - Uma edição recente da revista norte-americana “Time” dedicava a sua capa inteirinha a elogiar os benefícios da manteiga e a contrariar a ideia de que ela poderia ser perigosa para o regime alimantar. Confesso que não resisto à boa manteiga, mas ela não é fácil de encontrar. Nos últimos anos tenho usado a “Nova Açores” mas há dias descobri uma nova marca do arquipélago, a “Manteiga Rainha do Pico” . Comprei-a na Garrafeira Néctar das Avenidas (Av Luis Bivar 40B, junto à esquina com a Duque de Ávila). Uma embalagem de 500 gramas custa 5,20 euros e garanto que uma torrada com esta manteiga faz toda a diferença. As minhas manhãs são outras desde que a descobri - ainda por cima com a consciência menos pesada graças à Time.  Este espaço, Garrafeira Néctar das Avenidas, que recomendo vivamente, tem uma bela escolha de vinhos, incluindo alguns de pequena produção com boa relação qualidade/preço e distingue-se por uma cuidada selecção de vinhos do Porto. A casa é propriedade de um açorriano, recebe semanalmente produtos do arquipélago, desde a manteiga e compotas como a de capucho a biscoitos de canela, passando por massa sovada e bolo lêvedo das Furnas. Este deve ser dos poucos sítios do Continente onde se pode comprar o maravilhoso vinho generoso Czar, originário da ilha do Pico, e que deve o seu nome ao facto de em tempos idos a produção ser quase integralmente comprada pela corte imperial russa.


 


DIXIT - “Fala ao telemóvel com tranquilidade? - Falo. Como se estivesse a falar para um gravador” - Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, em entrevista ao “Expresso”.


 


GOSTO - O número de falências baixou pela primeira vez desde 2010


 


NÃO GOSTO - Mais de um terço dos professores chumbaram na prova de avaliação e os erros básicos de português foram abundantes - apenas 34,7% dos avaliados não fizeram erros ortográficos.


 


BACK TO BASICS - O preço que os homens bons pagam pela sua indiferença face à coisa pública é virem a ser governados por homens sem valor - Platão


 

janeiro 23, 2015

QUEM NASCEU EM 1997 PODE VOTAR ESTE ANO: E AGORA?

 


DÚVIDAS - Nas eleições legislativas que vão realizar-se por volta do início de Outubro poderão votar, pela primeira vez, eleitores que nasceram em 1997. Será que vão exercer o seu direito de voto? Será que se sentem motivados pela acção dos partidos e pelo funcionamento do sistema político? Será que acham que o voto tem alguma influência para mudar o estado de coisas? As perguntas não são retóricas - corre-se o risco de a abstenção aumentar ainda mais, o que quer dizer que um dia destes alguém pode perguntar se esta democracia ainda é representativa. As eleições deste ano iniciam um novo ciclo eleitoral que, depois das legislativas, terá continuidade com as presidenciais e as autárquicas. São três momentos de significado diverso mas que poderão servir para aferir se o comportamento do eleitorado português continua a enquadrar-se na tipificação que existiu durante as últimas quatro décadas, ou se alguma coisa mudou: teremos ainda as mesmas maiorias socio-políticas, ou não? Os novos eleitores terminaram o ensino primário já neste século e tratam a internet por tu. Vêem menos televisão. Lêem menos jornais. Ganham informação e estabelecem opinião de outra maneira - sabem qual é? O sistema está preparado para isto? Que fez para mobilizar a participação cívica de quem agora está a entrar na idade adulta? Vamos deixar o futuro político do país em quem nele vai viver nas próximas décadas, ou em quem nele tem vivido nas anteriores?ΩΩΩ


 


SEMANADA - Em 2014 a venda de automóveis na União Europeia cresceu 5,7% mas em Portugal o crescimento foi de 34,8%; as exportações da Auto Europa subiram 12% no ano passado graças à China; entre 2011 e 2014 os salários caíram 11% no sector privado e quase o dobro no Estado; o valor da marca Cristiano Ronaldo subiu 11 milhões de euros em 2014 e mais que duplicou desde 2011, atingindo actualmente um valor potencial de 54 milhões de euros;


2014 foi o melhor ano da história do turismo em Portugal, com os hotéis a facturarem mais de 2 mil milhões de euros graças a 15 milhões de hóspedes, o que significa um maior número de dormidas que na vizinha Espanha; mais de 30% dos jovens portugueses não acabam o ensino secundário; Portugal registou em 2014 o mais baixo índice de mortalidade infantil de sempre; 33% dos partos realizados em Portugal são cesarianas; nos hospitais privados a taxa de cesarianas é de 67% contra os 28% registados no Serviço Nacional de Saúde; António Costa disse que o país precisa de regionalização; Rui Rio disse que a regionalização era o abanão de que o país necessita; o fisco cobrou em 2014 cerca de 900 milhões de euros em impostos acima das previsões; uma empresa de Viana do Castelo está a ser alvo de vários processos de penhora no montante de cerca de 35 mil euros referentes a portagens não pagas de uma viatura que vendeu em 2010; um terço das 24 freguesias de Lisboa não cumpre o Código dos Contratos Públicos.


 


ARCO DA VELHA - Na segunda-feira Mário Soares disse que Cavaco Silva era salazarista, na quarta-feira afirmou que Sócrates era um preso político.


 


FOLHEAR - A revista “Wallpaper” de Fevereiro é a edição especial relativa aos prémios de Design que a revista atribui anualmente e que vão da joalharia à iluminação, passando pela roupa, a arquitectura ou utensílios domésticos, como um serviço de café por exemplo. Há exemplos de peças deliciosas, como uma mesa de sala de reuniões desenhada por Jasper Morrison, uma casa pré-fabricada em aço galvanisado da Vipp’s ou uns simples uns óculos da Lindberg. O melhor rebranding foi para a Lowe, a melhor apresentação de uma refeição foi para “La Bonne Table” de Tóquio, a melhor cozinha foi para a Boffi, o melhor sofá para a Cassina e o melhor armário de roupa para a Ceccotti Collezioni. Na moda o título de melhor criação para mulher foi para a colecção de Outono-Inverno 14 da Dior, desenhada por Raf Simons, e a melhor criação de roupa de homem foi para a colecção Outono-Inverno 14 da Saint Laurent, desenhada por Heidi Slimane.Tóquio foi considerada a melhor cidade e o título do melhor novo restaurante foi para Carlo e Camilla, em Milão. O sempre disputado prémio de melhor novo hotel foi para o American Trade Hotel na Cidade do Panamá. O melhor projecto de arquitectura para uma residência particular foi para a Vault House, em Oxnard, na California, projectada por Johnston Marklee. A presença portuguesa está numa página de publicidade dos papéis higiénicos coloridos da Renova.


 


VER - Hoje quero chamar a atenção para duas exposições que abrem proximamente. A primeira vai ser uma curtíssima oportunidade de rever o trabalho que a fotógrafa portuguesa Pauliana Valente Pimentel fez na Grécia, inicialmente exposto em Lisboa em 2013. Sob o título “Jovens de Atenas”, a que pertence a imagem que ilustra esta nota, a fotógrafa documenta o sentimento vivido em Atenas em 2012, no auge da crise económica e política do país. A propósito das eleições gregas que decorrem neste fim de semana, a Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12-16) faz a reposição desta exposição, durante três dias, deste Domingo até dia 28. E no Domingo, entre as 18 e as 21, a autora estará disponível para um debate com convidados sobre esta sua obra. A outra exposição inaugura para a semana na galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71). Trata-se da colectiva “Paperworks II - Para Além do Desenho”, que inclui obras de Alexandre Conefrey, Antje Weber, Ernesto de Sousa, Juliane Solmsdorf e Pedro Calapez. A partir do próximo dia 29.  


 


OUVIR - Fred Hersch é um dos grandes pianistas de jazz norte-americanos e podia dizer-se que ele é um mestre que não vai em modas. Normalmente o seu trabalho é baseado num trio que, como aqui acontece, além dele próprio inclui o baixista John Hébert e o baterista EricMcPherson. “Floating” é a sua gravação mais recente e tem sete temas originais do próprio Hersch, dois standards (“You & The Night & The Music” e “If Ever I Would Leave You”) e ainda um tema de Thelonius Monk, “Let’s Cool One”. Hersch gosta de baladas e não tem nenhum problema em utilizá-las como matéria prima para o seu trabalho, como se percebe enquanto se vai ouvindo este disco. O tema de abertura, “You & The Night & The Music” é um exemplo do seu virtuosismo, com a mão esquerda a rasgar para além da melodia traçada pela mão direita. Destaque também para o tema-título “Floating” que é uma deliciosa balada, e para um tema dedicado a Esperanza Spalding, “Arcata” onde John Hébert demonstra no seu baixo como a simplicidade pode ser a base da criatividade. O disco termina com o clássico “If  Ever I Would Leave You” e com o tema de Monk, “Let’s Cool One”, ambos demonstrações perfeitas do que pode ser o entendimento entre três músicos que vivem e sentem a mesma música. CD Palmetto, na Amazon.


 


PROVAR - Em matéria de doces, quando é para pecar, que se peque a sério. Um dos pretextos ideias que conheço para este género de pecados é a produção da Fábrica de Rebuçados de Ovo de Portalegre. Estes rebuçados de ovos são característicos desta região e baseiam-se numa receita conventual. Hoje em dia continuam a ser  feitos à mão e embrulhados em papel de seda. Vendem-se em latas com 12 unidades e são deliciosos a acompanhar um bom café arábica da Pérola de Chaimite, na Duque de Ávila, onde por acaso também são vendidos estes tentadores rebuçados. A lata onde vêm é só por si um belo objecto que apetece guardar - mas o seu sabor e consistência são iguais aos rebuçados de ovos de que me lembro na infância, quando o meu pai os comprava em Nisa, na única senhora que os produzia e que tinha uma receita que não partilhava com ninguém. Hoje em dia são um dos produtos da empresa “Sabores de Santa Clara”, sediada em Portalegre, e que produz também bolachas artesanais, licores a partir de plantas naturais, um xarope de groselha e nozes e amêndoas tostadas no forno e levemente adoçadas posteriormente. Os produtos da casa são uma tentação. Consultem os sites www.rebucado.com e ou www.saboressantaclara.com. Estes produtos também estão à venda no Mercado da Ribeira.


 


DIXIT - “Quanto mais o líder do PS fizer papel de morto, mais hipóteses tem de ganhar as eleições” - Mira Amaral


 


GOSTO - O músico e fotógrafo português Rodrigo Amado foi incluído entre os cinco melhores saxofonista tenor por um grupo de 46 críticos de jazz de todo o mundo.


 


NÃO GOSTO - Da confusão instalada nos serviços de urgência dos hospitais.


 


BACK TO BASICS - Quando os políticos se queixam de que a televisão transforma o mundo num circo, esquecem-se que o circo já lá estava e que a TV apenas evidenciou que nem todos os artistas estão suficientemente ensaiados - Edward R. Murrow


 

janeiro 16, 2015

Uma novela de rótulos com a ASAE, uma boa série mal exibida, o retrato de um dia das nossas vidas na internet

ASAE - Esta semana soube de uma história extraordinária. Numa das zonas próximas de Lisboa que ainda têm uns restos de agricultura uma mulher empreendedora decidiu criar o seu  posto de trabalho num negócio próprio, baseada no seu talento culinário. Com recurso a produtos naturais da região criou uma marca, com várias variedades, montou uma cozinha regulamentar e meteu mãos à obra. Pagou impostos e taxas, fez comunicação e publicidade, foi a feiras e certames e ganhou prémios de qualidade. Nas lojas da região os seus produtos ganharam fama e começaram a ser procurados. Geraram receitas para o Estado, animaram, à sua pequena proporção, a economia local. Não recebeu subsídios, arriscou, trabalhou, divulgou, vendeu. Um dia destes entrou-lhe pela casa o Estado, vestido de ASAE e o que encontraram para tolher as pernas à iniciativa foi uma menção num rótulo. O rótulo dos produtos tinha escrito “Best before” e, depois, a data da validade. Pois os nossos queridos agentes da ASAE mandaram suspender imediatamente todas as vendas, recolher todos os produtos e substituir “Best Before” por “Consumir antes de”. O resultado disto é que desde há quase um mês que não se prepara novo produto nem se fazem vendas e se está apenas a substituir etiquetas, causando evidentes prejuízos. Os senhores da ASAE talvez pudessem ter dito alguma coisa do género “isto não é regulamentar, tem de corrigir, tem x meses (o que fosse razoável) para mudar”. Mas não - tem de mudar já. Não sei se já ocorreu às almas da ASAE, que são pagas pelos contribuintes,  que cada vez que tomam uma medida que pode lesar actividades económicas estão a desrespeitar quem lhes paga. Uma coisa é velar pela Lei, outra é ser cego e não olhar a meios. Assim a ASAE não ajuda nem o país nem os contribuintes. Muito menos a economia. O Estado no seu melhor.


 


SEMANADA - A investigação do caso Sócrates encontrou um milhão de euros, em dinheiro vivo, num cofre do Barclays, pertencente ao amigo Carlos Santos Silva; António Costa estabeleceu que carros anteriores a 2000 estão proibidos de circular no centro de Lisboa; no caso BES uma coisa é certa: havia uma extraordinária obediência, todos se limitavam a cumprir ordens e ninguém sabia de nada; a Parque Escolar tem dívidas a fornecedores no valor de 1,14 mil milhões de euros; há uma escola básica, no Parque das Nações, que está por concluir há quatro anos; em menos de quatro meses houve mais de 700 denúncias de maus tratos a animais; Marco António Costa, porta voz do PSD, elogiou Santana Lopes por admitir avançar por sua própria iniciativa para as eleições presidenciais; Marques Mendes diz que Rui Rio está inclinado a avançar com uma candidatura presidencial; Vitor Bento voltou a ser nomeado por Cavaco Silva para o Conselho de Estado; um juiz de Braga anulou uma multa de 62,10 euros relativa a uma portagem que era originalmente de 5,75 euros; no final de 2013 o fisco tinha mais de 5,9 mil milhões de euros que não podia cobrar aos devedores; a dívida total de médio e longo prazo que Portugal tem de amortizar durante a próxima legislatura deve chegar a 62 mil milhões de euros, ou seja mais de 35% do PIB só para os credores em quatro  anos; em 2013, 75% dos técnicos de ambulância tinham sintomas depressivos; Alberto João Jardim deixou a presidência do Governo Regional da Madeira ao fim de 37 anos de poder; a GNR já detectou nos últimos meses 33 toneladas de azeitona roubada no Alentejo.


 


ARCO DA VELHA - Há três distritos, Bragança, Setúbal e Évora, com 40% de desistências e chumbos escolares no 12º ano.


 


LER - Devo começar por fazer uma declaração de interesse - sou diretor-geral da Nova Expressão, a Agência de Meios que esta semana tornou público um estudo de hábitos digitais dos portugueses, “Um Dia Das Nossas Vidas Na Internet”. Promovido pela agência e executado pela Marktest, o relatório integral foi disponibilizado no site da Nova Expressão e na sua página do Facebook. O estudo revela e quantifica as grandes mudanças ocorridas nos últimos anos. Muito resumidamente: o chamado horário nobre da televisão, entre as 20 e as 24, coincide com o período do dia em que há maior número de acessos na internet - maioritariamente em computadores portáteis e em dispositivos móveis como tablets e smartphones; 58% dos inquiridos de uma amostra representativa dos cibernautas portugueses com mais de 15 anos admite que ao ver televisão em casa, num televisor, costuma navegar em simultâneo na Internet; a hora das refeições coincide com o período em que são mais utilizados dispositivos móveis; os portugueses já passam mais tempo a navegar na internet que a ver televisão, verifica-se um aumento da idade média dos utilizadores e regista-se um crescimento significativo do comércio electrónico; finalmente os conteúdos mais procurados são redes sociais (com o Facebook à frente), o visionamento de videos (claramente liderado pelo YouTube), ou a partilha de fotografias no Instagram. Finalmente o estudo conclui que a utilização da internet em Portugal é já um hábito comportamental consolidado e absoluto, que a transferência dos suportes de media convencionais para o acesso na internet é elevado e crescente e sublinha que a capacidade multi-task dos internautas portugueses é grande. Definitivamente o nosso mundo comunicacional já mudou, talvez mais do que aquilo que muita gente pensava.


 


VER - A RTP 2 está a emitir desde o início da semana passada uma exemplar série produzida pelo operador público de televisão Dinamarquês, “Borgen”, que revela os bastidores da política , a formação de um governo de coligação e as negociações permanentes que existem para conseguir manter o poder. A série tem sido um sucesso em todo o mundo e cerca de três dezenas de países já a exibiram, antes de a RTP2 a ter começado a programar - mas nem um desses países a tratou da forma que a RTP está a tratar - episódios seguidos de segunda a sexta, desrespeitando o formato original de exibição de um episódio por semana, que caracteriza a narrativa e a produção original. Tratar uma série destas, premiada internacionalmente, como se fosse uma telenovela é uma amostra do muito que há para mudar no comportamento do serviço público em Portugal. “Borgen”, cujos direitos de adaptação foram negociados pela BBC e pela HBO norte-americana, é o exemplo do que pode e deve ser a produção audiovisual num serviço público. A Dinamarca tem 5,5 milhões de habitantes, o seu idioma tem uma reduzido alcance mundial, mas produções como esta fizeram com que nos últimos anos o audiovisual dos países nórdicos desse um enorme salto qualitativo. O formato original tem três séries, de dez episódios cada uma: a RTP 2 está a consumir cinco episódios por semana, fez uma fraca promoção da série e em termos de audiência cerca de um terço dos espectadores dos programas de informação que antecedem a exibição de “Borgen” desaparece do ecrã quando a série começa. Na Dinamarca o operador público fez conjugar a exibição em televisão de um programa na rádio pública, que acompanhou o lançamento e a exibição, desenvolvendo um spin off  com uma narrativa paralela. Não resisto a contar que a Copenhagen Business School fez um inquérito junto de espectadores regulares de “Borgen”, inquirindo-os sobre o seu posicionamento político -  a maioria respondeu que a série não lhes tinha feito modificar as opções partidárias pessoais, e uma também clara maioria dos inquiridos declarou que tinha começado a seguir a actualidade política dinamarquesa com maior atenção desde que a série começou. Por mim um dos momentos favoritos, logo num dos primeiros episódios, é quando a recém empossada primeiro-ministra nomeia para assessor de comunicação um eminente académico, especialista em retórica, que se espalha ao comprido na primeira crise política que enfrenta e que diz tamanhas barbaridades numa entrevista à televisão que é de imediato dispensado.  Geografias diferentes, histórias paralelas.


 


PROVAR - Nos últimos anos o vinho Moscatel de Setubal, nas suas várias variantes, tem obtido um reconhecimento merecido. A sua utilização na doçaria da região é tradição antiga - desde uma mousse com ele temperada (que com sorte se apanha no restaurante Retiro do Gama, em Cabanas, Quinta do Anjo), até ao belíssimo Pastel de Moscatel, fabricado pela confeitaria S. Julião, de Palmela e que pode ser encontrado nalgumas lojas e restaurantes da região - uma delas a casa agrícola Horácio Simões, que produz um premiado Moscatel Roxo e que fica situada precisamente na Quinta do Anjo. Prove o doce em conjunto com este vinho e terá uma grata surpresa. O pastel tem a configuração de uma queijada, é elaborado com amendoa, ovos, açucar e moscatel e recebeu já vários prémios em certames. O responsável pela confeitaria S. Julião é Nuno Gil, de 42 anos, que se dedica ao estudo dos doces tradicionais da região e é presidente da direcção da Confraria Gastronómica de Palmela. Além dos Pastéis de Moscatel faz outros doces regionais, como o histórico Dom Filipe e fogaças. A Confeitaria S. Julião pode ser contactada pelo telefone 919 927 457 ou na página do Facebook.


 


DIXIT - “Os políticos não gostam, de modo nenhum, de análises de custo/benefício independentes e competentes” - Miguel Cadilhe.


 


GOSTO - A Livraria Lello, do Porto, foi classificada em primeiro lugar na lista das livrarias mais “cool” do mundo pela revista Time.


 


NÃO GOSTO - Das posições da deputada europeia Ana Gomes, do PS, que defende os  argumentos usados pelos terroristas islâmicos no caso do jornal Charlie Hebdo .



BACK TO BASICS - Todas as decisões devem ser avaliadas em função dos resultados obtidos e não das intenções que as inspiraram - Cícero

janeiro 03, 2015

NEBULOSO 2014 E SUGESTÕES PARA BONS MOMENTOS EM 2015

NEBULOSA - Quanto mais se avança no caso BES mais dúvidas surgem sobre os dias que levaram à intervenção do Banco de Portugal e mais se pensa se essa mesma intervenção não terá sido feita de uma forma pouco pensada, se as consequências de tudo terão sido bem medidas. Não é só o caso da Goldmnan Sachs, é também a situação dos pequenos accionistas e de depositantes que foram levados a determinados produtos. As novelas jurídicas que se desenham em torno da venda de activos e de património e o resto que, palpita-me, ainda há surgir vão fazer correr muita tinta. E já nem falo da polémica mudança de nome e de imagem em nome da anulação de uma marca e de uma história -  cabe perguntar se a destruição da marca não significou ela própria uma destruição de valor para uma venda futura; tenho as minhas dúvidas que tenha sido a melhor decisão. Este ano que está a findar foi fértil no desmantelar de ilusões e na destruição de valor - na Banca, mas também na PT e em outras grandes empresas nacionais que sendo vítimas do Estado, de corporações ou de vendas mal apressadas e mal pensadas acabaram por colocar a economia portuguesa mais fragilizada. O tempo, como sempre, será o melhor juiz do que este ano se passou.


 


SEMANADA - O Ministério da Saúde perdeu mais de seis mil trabalhadores desde 2009; um quinto do total dos médicos do Serviço Nacional de Saúde tinha no final do ano passado entre 55 e 59 anos; o Hospital Amadora Sintra ficou sem capacidade para receber mais doentes na época do Natal; em 2013 o sector do comércio perdeu 21 mil trabalhadores e quatro mil empresas face a 2012, mas conseguiu que o volume de negócios se mantivesse igual; 689 empresas foram declaradas insolventes em Novembro, 10% abaixo do número registado no mesmo mês de 2013; Portugal tem que importar bacalhau, peru e cabrito no período do Natal para fazer face à procura; Portugal ocupa a 7ª posição na lista dos países em que o preço dos combustíveis tem maior carga fiscal , 63% - à frente da França, Irlanda e Espanha; a secretária do estado do Tesouro, em pessoa, reuniu-se com quatro bancos para saber se estariam disponíveis para financiar a TAP; Luis Todo Bom, um dos obreiros da construção da Portugal Telecom, escreveu um artigo de opinião no Expresso onde afirma que “os brasileiros já destruíram a Cimpor, agora será a PT e, no futuro, a TAP”; as receitas do Turismo cresceram 12,3% de Janeiro a Outubro, num total de 9 mil milhões de euros; o número de pensões de velhice atribuídas em 2014 foi 17% superior ao das concedidas em 2013; foi publicada uma portaria que estabelece que em 2016 a idade da reforma sobe para 66 anos e dois meses; 88% das acções pendentes em Tribunal são de cobrança de dívidas; o presidente do Sporting diz que “é absurdo e injusto” dizer que o clube está em crise e afirma que a origem dos problemas está na comunicação social.


 


ARCO DA VELHA - A Câmara de Grândola vai esterilizar dezenas de gatos vadios na península de Tróia, para manter o número de animais controlado e reduzir as pragas de pulgas e carraças no verão.


 


FOLHEAR - Este Natal tive uma magnífica prenda - o “The Photography Book”  - publicado inicialmente pela Phaidon em 1997, e que teve este ano uma segunda edição revista e aumentada - que foi a que recebi. O livro apresenta fotografias marcantes de mais de meio milhar de fotógrafos, de todo o mundo e de diversas épocas e estilos, publicadas por ordem alfabética, com a indicação de detalhes cronológicos do autor e da imagem seleccionada, e ainda com a indicação de outros fotógrafos com trabalhos semelhantes ou que praticam o. mesmo género de fotografia. Já agora, a única presença portuguesa é de uma imagem de Helena Almeida. Os editores da obra são Tim Cooke e Caroline Kinneberg, que nas 576 páginas do livro incluíram também um glossário de termos e técnicas fotográficas e um outro glossário de movimentos artísticos, grupos e géneros ligados à fotografia. Finalmente existe ainda um indíce de galerias e museus que tenham um foco particular em fotografia. A selecção de imagens leva-nos a uma viagem através de momentos familiares e outros invulgares ao longo do tempo, mostrando o trabalho de fotógrafos famosos, mas também de desconhecidos e de outros que são ou foram especialmente inovadores. “The Photography Book” é um livro de consulta permanente para quem se interessa pela fotografia e pode ser adquirido na loja on line da Phaidon ou na Amazon.


 


VER - Um dia destes, a espreitar o site do MoMA, descobri a área de publicações digitais e, em especial, fiquei com curiosidade em ver “Picasso: The Making of Cubism 1912-1914”. O Museum Of Modern Art de Nova Iorque orgulha-se de estar a par dos tempos e a sua área de publicações digitais é uma referência. Neste caso o trabalho sobre as origens do Cubismo pode ser adquirido, por download, nas versões de ebook, PDF interactivo ou uma App para iPad - que foi a que adquiri e que é absolutamente exemplar. Custa 24 dólares e permite fazer uma viagem pelo processo criativo que levou Picasso a uma das fases mais empolgantes da sua obra. Mas o MoMA tem também aplicações gratuitas, como a MoMA Books, que permite ver amostras de uma boa parte das edições feitas pelo Museu, algumas delas já esgotadas na versão impressa, folheá-las e decidir se quer ou não comprar o acesso à edição integral. Estava eu nestas cusquices digitais quando me ocorreu como tem sido feito tão pouco desta natureza nos nossos museus. Não é por falta de material - ele existe, desde os Painéis de São Vicente, até catálogos já difícieis de encontrar como “O Triunfo do Barroco”, do tempo da Europália. Esta questão volta a colocar o problema da manutenção da presença cultural portuguesa no mundo digital - não basta defender a língua, é fundamental assegurar que ela exista no unverso audiovisual, multimedia e digital que é hoje a base da descoberta e do conhecimento em todo o mundo. O meu desejo para 2015 é que possamos ver, nos novos meios e suportes digitais, o que de melhor existe nos nossos museus e na nossa cultura.


 


OUVIR - O que é que Bryan Ferry e Neil Young têm em comum? Musicalmente pouco, a não ser os respectivos talentos - mas são da mesma idade , 69 anos, e ambos fizeram discos curiosos este ano. De “Storytone”, de Neil Young, falámos há poucas semanas, do novo de Bryan Ferry, “Avonmore”, falo hoje, já que anda no carro há uns dias largos, dando muito boa conta do recado. É impressionante como a voz de Ferry continua marcante - embora se faça sentir o passar dos anos. No entanto o seu estilo continua, entre o sofisticado e o cool, sem recursos a manobras electrónicas sobre as cordas vocais - ou seja, ele continua mesmo a cantar. “Avonmore” é uma surpresa - retoma um lado quase rock, nas guitarras - que se faz sentir logo na faixa de entrada, “Loop De Li” que apresenta nada menos que seis guitarristas, entre os quais Nile Rodgers, Johnny Marr e Neil Hubbard (que colaborou em Avalon, dos Roxy Music). É aliás curioso que Avonmore retome, a começar pelo título, alguma da atmosfera de Avalon, que é modernizada em “Johnny & Mary”, um original de Robert Palmer, onde Ferry, a encerrar o disco, faz parelha com o DJ e produtor norueguês Todd Terje. No álbum há oito temas originais e duas versões ( a outra é "Send in the Clowns" de Stephen Sondheim) e o co-produtor do disco é Rhett Davies, que colabora com Ferry dessde os últimos anos dos Roxy Music. Ferry leva cinco décadas de carreira musical, mantém-se fiel à pop elegante com arranjos sofisticados e além dos nomes já referidos chamou para o seu lado músicos como Mark Knopfler e Ronnie Spector, entre outros. (CD na Amazon).


 


PROVAR - O restaurante Bem Haja nasceu e ganhou fama em Nelas. O local era um antigo lagar de vinhos e a proposta era dedicação total à cozinha portuguesa, tendo em conta a inspiração regional da zona da Serra da Estrela, assim como, na garrafeira, as possibilidades dos vinhos do Dão. Passados uns anos do começo desta história, há cerca de dois meses, o Bem Haja abriu em Lisboa, comandado por Isabel Raposo, que criou o conceito original e que hoje se divide entre os seus dois restaurantes com o. mesmo nome. Em Lisboa fica na Rua de Campolide, a meio de quem desce, no nº 165. As propostas da lista têm a cozinha portuguesa como matriz e alguns dos pratos da casa original, como o cabrito assado no forno ou o entrecosto com arroz de carqueja têm aqui lugar garantido. Devo no entanto confessar que a minha preferência vai para uns filetes de polvo absolutamente deliciosos, muito bem preparados, acompanhados por umas migas que estavam mesmo boas. Na ideia, para experiência futura, ficou uma posta de vitela com arroz de cogumelos que, na mesa ao lado, me despertou a atenção. As entradas e as sobremesas funcionam em regime de buffet e ambas têm mérito. A garrafeira tem boas propostas a preços decentes, e sugiro que peçam recomendações da região do Dão. À noite vale a pena fazer reserva. Telefone 213870039.


 


DIXIT - “O sistema judicial vive em autogestão. Tem que se rever o actual modo, em que as decisões estão apenas nas mãos dos senhores juízes e senhores magistrados” - António Barreto


 


GOSTO - De organizações como a Refood, que, com base no trabalho de voluntários, recupera e distribui a quem deles necessita alimentos prontos e não consumidos em restaurantes e pastelarias.


 


NÃO GOSTO - Da contradição cada vez maior que existe entre formação e trabalho - estamos a formar pessoas que não encontram colocação em Portugal nas suas áreas e cujo único destino é a emigração.


 


BACK TO BASICS - Por melhor que a estratégia pareça ser, é sensato olhar de vez em quando para os resultados que ela está a produzir - Winston Churchill

dezembro 26, 2014

RTP: CONCORRENCIAL OU COMPLEMENTAR?

Muita da polémica à volta da RTP e do conceito de serviço público tem a ver com o debate sobre duas palavras que moldam o conceito de estação – concorrencial e complementar. O enquadramento legal existente, por mais estranho que pareça, aponta à RTP o dever de ser concorrencial em relação aos outros canais generalistas, SIC e TVI. Tenho para mim que este facto é uma das portas abertas para toda a situação que se vive. A Direcção de Programas e a Direcção de Informação da televisão pública têm assim a obrigação de desenvolver estratégias de programação e de informação concorrenciais e a Administração tem o dever de as apoiar nessas estratégias. É aliás isso que levou a que se comprassem os direitos da Champions League, e é isso que justifica boa parte dos programas e do conceito de telejornais existentes. Mas, se em vez de “concorrencial” a palavra fosse “complementar”, aí deixava de haver razão para ter os mesmos formatos e lógica dos outros canais e, provavelmente, a estratégia traçada seria diferente. Esta não é uma discussão bizantina – é a discussão de fundo. A RTP não pode ser concorrencial com menos orçamento de grelha, com menos tempo de publicidade por hora, com menos receitas. E, além disso, se fôr concorrencial, está a fazê-lo com dinheiros públicos, da contribuição audiovisual, o que seria desleal em relação aos canais privados que obviamente não recebem ajudas oficiais. Mais lógico era que se clarificasse de vez se queremos um serviço público concorrencial ou complementar em relação às estações privadas. O ideal era que o EStado, que é accionista e gere os nossos dinheiros, assumisse a responsabilidade em vez de se encostar a um Conselho Geral Independente que em matéria de audiovisual é um vácuo de ideias. 


(esta nova versão foi revista e actualizada depois de ter sido publicada na edição de 26 de Dezembro da revista de televisão do Correio da Manhã)

SOBRE O EFEITO DA DISTRAÇÃO NA CONDUÇÃO DAS NEGOCIATAS

DISTRAÍDOS -Nos últimos tempos, em diversas ocasiões, em diversas circustâncias, tornou-se habitual ouvir responsáveis de empresas, bancos e até de organismos oficiais dizerem que não sabiam o que se passava nas estruturas que dirigiam, que não tinham conhecimento de decisões onde eram supostos terem participado. Aparentemente, apesar de estarem em postos de direcção, não detectaram o mais leve indício de que alguma coisa de menos bom se passava. É como se estivessem em lugares de responsabilidade sem, de facto, terem nenhuma responsabilidade. Como um amigo meu dizia este fim de semana, a questão é que durante anos todas estas pessoas ganharam salários aparentemente sem nada terem feito daquilo que fazia parte das suas funções enquanto responsáveis e dirigentes. Continuo a citar o meu amigo, recomendando que o melhor seria que todas estas pessoas devolvessem ops salários e prémios que ganharam, já que nada fizeram daquilo que deviam, já que confessam nada saber daquilo que se passava à sua volta. Ou, mais prosaicamente “se não sabia, se não acompanhou, devolva todos os salrários que ganhou para saber e acompanhar”.


 


SEMANADA -  No primeiro mês de detenção José Sócrates recebeu mais de duas dezenas de visitas de dirigentes e quadros do PS; o Público on line fez um título fantástico: “João Soares foi visto em Évora” ; mais de metade das receitas de empresas ligadas a Santos Silva vieram de câmaras PS e da Parque Escolar; João Perna, o motorista, confirmou ter feito viagens a Paris e disse que Carlos Santos Silva lhe entregava dinheiro para o fundo de maneio do ex Primeiro Ministro;  motorista de Sócrates passa a prisão domiciliária; segundo o “Expresso” Sócrates admitiu não saber quanto recebeu de Santos Silva; Portugal perdeu 146 mil habitantes desde o início da década; a TAP pediu um empréstimo de 250 milhões para fazer face à crise de tesouraria que atravessa; a Força Aéreia lançou o primeiro curso de pilotos de drones; as famílias portuguesas gastam uma média de 271 euros em prendas de Natal, mais do que os espanhóis, os gregos e os russos; Marques Mendes e José Maria Ricciardi são ambos administradores de uma imobiliária ligada ao BES.





ARCO DA VELHA -  Luis Filipe Menezes invocou a sua qualidade de Conselheiro de Estado do Presidente da República para classificar de devassa da sua vida privada a investigação da Judiciária aos seus sinais exteriores de riqueza.


 


FOLHEAR - Já pensaram numa aventura meio passada no futuro, entre uma Londres desolada e uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, onde nada é como agora pensamos ou esperamos que seja? A história, passada entre épocas, num labirinto de personagens e enigmas, gira em torno de viagens no tempo, armas, drogas e terrorismo. O livro, agora editado, “The Peripheral”, é a 11ª obra de William Gibson, que se tornou conhecido há 30 anos, em 1984, com “Neuromante” - o livro que mudou a ficção científica e abriu novos caminhos à imaginação, ajudando a definir a cultura da época. “The Peripheral” é um bilhete para uma viagem ao futuro, num mundo caótico, de valores invertidos e mistérios. São 480 páginas que nos projectam noutra dimensão. Como dia o Guardian, qualquer dos 11 livros de William Gibson estão entre as melhores e mais singulares novelas escritas em inglês. (à venda na Amazon)


 


VER - Temos a infeliz mania de dizer que por aqui não se passa nada. Mas é mentira. Passam-se imensas coisas boas em Portugal. Quando nos aplicamos sabemos fazer na indústria, na agricultura e nos serviços. E sabemos também juntar vontades para mostrar a nossa História. Uma visita ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota é uma belíssima surpresa. Faz-nos pensar que Portugal já teve estratégia, assente na ideia da independência e da  expansão. Que No século XV e XVI soubemos marcar fronteiras e ir além delas. Soubemos analisar os inimigos, ver quais eram os seus pontos fracos e utilizar os nossos pontos fortes.  Essa é a grande lição de Nuno Álvares Pereira, que a Fundação Batalha de Aljubarrota tão bem conta, sem nacionalismos serôdios, mas com orgulho e rigôr. A minha sugestão é que planeiem uma visita à Fundação, que passeiem no campo de batalha e vejam as indicações que lá estão, que se sentem a assistir ao espectáculo multimedia que recria a batalha. Este não é um museu morto, é uma obra bem viva. A partir do antigo museu militar que ali existia foi desenvolvida uma nova área, tecnologicamente evoluída e exemplar nos conteúdos que proporciona. Ao olhar para a obra da Fundação fico a pensar que ela merece ser mais conhecida e divulgada. Fica a uma hora e um quarto de Lisboa e permite-nos, a todos, compreender melhor o país que é o nosso. www.fundacao-aljubarrota.pt.


 


OUVIR - Se eu tivesse que escolher um disco de Natal, daquelas colectâneas que se fazem sempre nesta época, escolhia “Round Nina - A tribute to Nina Simone”. São dez das grandes canções que Nina Simone cantou, interpretadas por nomes contemporâneos, que vão de Gregory Portes e Melody Gardot a Liannne La Havass com passagem obrigatória em Camille, que faz uma excelente versão de “My Baby Just Cares For Me”. Outras hipóeteses de prendas natalícias discográficas:  se o lado clássico fôr o objectivo sugiro a belíssima nova edição da Decca para a Ópera Turandot, de Puccini, um registo de uma versão histórica, com as participações de Joan Sutherland, Luciano Pavarotti, Montserrat Caballé e Tom Krause, nume gravação do início dos anos 70 dirigida por Zubin Mehta. Se o saudosismo imperar então vale a pena redescobrir “Crime Of The Century”, dos Supertramp, que eu costume dizer que são a banda com o nome mais autocrítico da história da música popular. Finalmente, ainda nas memórias, destaco o disco que assinala os 20 anos de o álbum “Viagens”, de Pedro Abrunhosa. Se gostam de bandas sonoras, a do mais recnete “Hobbit” , “The Battle of The Five Armies” , foi composta por Howard Shore e vale a pena ser bem ouvida. E finalmente, aquele que para mim é o melhor disco prenda deste Natal, “Amália no Chiado”, que foi agora editado (e já aqui mencionado há duas semanas) e que inclui inéditos e raridades gravadas no estúdio que existia na antiga loja Valentim de Carvalho no Chiado, em 1951, tinha Amália 31 anos nessa altura. Imperdível.


 


PROVAR - Como imagino que se esteja em fase de dietas sugiro que se aproveitem estes dias entre o Natal e o Ano Novo para rumarem a Portalegre, ao restaurante Tomba Lobos. Na mesa há pão como deve ser, azeitonas das boas. Só as entradas são uma perdição: da tiborna aos peixinhos da horta, passando pelos queijinhos assados e umas inesperadas e deliciosas pétalas de toucinho. Se gosta de tutano experimente as vieiras do montado. No dia em que lá fui recentemente, um sábado, havia cozido de grão, com chouriço mouro e farinheira, boas carnes da região. Na sobremensa venceu uma boleima de maçã e uns queijinhos de ovos irresistíveis. A casa tem duas salas, fica nos limites de Portalegre, e além das duas salas do restaurante tem uma zona onde pode adquirir produtos que levam o carimbo do autor de toda esta cozinha, José Júlio Vintém. Destaque para os seus enfrascados - perdiz de escabeche, orelha de porco, salada de pato, coelho de vilão e fraca de escabeche. A acompanhar a refeição veio um vinho da região, o Herdade Porto da Bouga, tinto, reserva. feito na Serra de São Mamede. O Tomba Lobos fica no Bairro da Pedra Basta, lote 16, e o telefone é o 965416630. Se seguirem a sua página no Facebook podem ver o que o Chef Vintém vai propondo na ementa, como uma perdiz brava assada no forno á antiga que por estes dias lá tem aparecido.


 


DIXIT - “Chega o Natal e os meus amigos inundam-me de cuecas e de meias. Triste fado. Mas por que motivo eu não terei um amigo como o amigo de José Sócrates?” - João Pereira Coutinho.


 


GOSTO - Da sugestão, de Marcelo Rebelo de Sousa, dirigida a Cavaco Silva, para que ele fale sobre a TAP.


 


NÃO GOSTO - De o FMI ter responsabilidades na epidemia do Ébola, segundo um estudo da Universidade de Cambridge, devido às políticas na área da saúde que implementou na África Ocidental.


 


BACK TO BASICS - O grande problema com os tempos actuais é que o futuro já não é aquilo que costumava ser - Paul Valéry

dezembro 19, 2014

Sobre as contigências de um regime que virou quarentão

QUARENTÕES - Olhando para trás, para o início de 2013, o que me apetece dizer é que este foi um ano perdido. O Governo deixou muito por fazer e nos últimos meses as indecisões, os atrasos e a falta de capacidade de concretização tornaram-se regra. É como se a ideologia reinante fosse a procastrinação - não faças hoje o que não te apetece que aconteça amanhã. Isto aplica-se desde a gestão dos fundos comunitários a acordos de coligação para as próximas eleições, passando pela RTP ou até o novo Banco de Fomento. Este é sobretudo o ano daquilo que não aconteceu - mesmo que alguns episódios laterais, como o caso da corrupção nos vistos gold, a queda do BES e de Ricardo Salgado e a detenção de José Sócrates possam parecer indícios de mudança. Lamento muito ter opinião contrária - tudo isto foram distracções, areia lançada para a ventoinha de forma a tornar a visão menos clara e fazer esquecer a falta de mudanças de fundo. Nada do que se passou faz mudar o regime, embora até possa ser justo que algumas coisas tenham acontecido. Os corporativismos continuam, tanto na TAP como noutras greves de transportes, o preconceito ideológico voltou a ser dominante sobre o raciocínio e nada disto encerra boas notícias. Este é o ano em que se completam quatro décadas sobre a mudança de regime, em 1974. Seria curioso estudar quanto dessas  décadas foi tempo perdido, agora que temos quase tanto tempo de democracia como de ditadura. Hoje, finalmente, começamos a ter uma ideia de que em termos de país a nossa mudança foi fraca, pouco produtiva e que gerou muita corrupção e um sistema político-partidário mais do que suspeito. Não é um bom retrato de quem entra nos quarentas.


 


SEMANADA - Costa foi visitar Sócrates a Évora - mas estou a falar de Pinto da Costa; um amigo meu, a ver a cena na TV, saíu-se com esta: “les beaux esprits se rencontrent”;  os EUA declararam o fim do embargo a Cuba; no mesmo dia o rublo teve uma queda histórica; o Papa Francisco disse que a resolução das relações entre Cuba e os EUA era o melhor presente que podia ter no seu aniversário; Putin começou o ano a ameaçar e parece ir fechá-lo a meditar; num cenário próximo da deflação a Entidade Reguladora do Sector Energético efectuou, para 2015, um aumento de 3,3% nos custos da electricidade para uso doméstico; um terço do novo crédito ao consumo destinou-se à compra de automóveis; o fundo de resgate municipal já recebeu pedidos de 14 Câmaras; o Ministro Poiares Maduro escreveu num artigo de opinião que o Conselho Geral Independente da RTP “contribui para um serviço mais dinâmico e inovador”; Marques Mendes disse na SIC que o CGI “está morto e enterrado”; Nuno Morais Sarmento afirmou que o modelo proposto por Maduro para a RTP “não faz sentido”; Alberto da Ponte, Presidente da RTP, pediu “bom senso” ao Governo; Passos Coelho disse no Conselho Nacional do PSD que não precisa do CDS para ganhar eleições; escolas de diversos pontos do país abrem as suas cantinas nas férias escolares para prestarem ajuda alimentar a famílias carenciadas; 30% dos portugueses nunca utilizaram a Internet; um estudo do Ministério da Economia indica que quase 90% das reivindicações dos trabalhadores em greve são rejeitadas; o Instituto de Medicina Legal tem 57 mortos que não foram reclamados; Ricardo Salgado foi eleito o pior CEO de 2014 pela BBC; os sócios brasileiros da PT, acordados entre Lula-Dilma e Sócrates, são frescos: a Andrade Gutierrez, accionista da Oi, está a ser investigada no âmbito de um caso de corrupção de grandes dimensões no Brasil.


 


ARCO DA VELHA - O Arcebispo de Braga recusou a investigação, no Tribunal Eclesiástico da sua Arquidiocese, de acusações de pedofilia que recaem sobre um padre de Fafe, preferindo que a investigação seja desenvolvida pela congregação dos Dehoninanos, a que o padre pertencia.


 


FOLHEAR - Ainda há espaço para criar novas publicações em papel? Depois de ter reinventado o conceito de publicação mensal, a Monocle avança agora para o conceito de anuário - o novíssimo “Forecast”, assinado “by Monocle”, pretende ser lido ao longo dos próximos meses para que o possamos recordar ao longo de 2015. Dantes chamava-se a isto um almanaque - temos entre nós o belo exemplo do Borda d’Água, muito mais modesto na abrangência e no número de páginas, mas tivémos durante anos o Anuário editado pela empresa que hoje detém por exemplo o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias. Os anuários - a Bertrand edita hoje o melhor anuário português - são peças centrais de leitura porque são feitos para perdurar. A revista mensal “Monocle” ganhou relevância pela forma inovadora com que passou a tratar de alguns assuntos, como descobriu temáticas inesperadas e como fomentou diálogos e debates pouco ensaiados. O número inaugural de “Forecast” foi publicado por estes dias e tem como tema principal descobrir quais os pontos que devem ser o centro das nossas atenções em 2015. Não se trata apenas de tendências, como acontece na edição da Wired que aqui referi na semana passada, é mais que isso. Por exemplo, como deve ser a televisão quando fala de política - que leitura tão interessante para o serviço público da RTP, este artigo, quase provocatório no nosso contexto, que relata experiências de outros países, a começar pela vizinha Espanha. Do design à comida, passando pela ficção, com incursões na fotografia, na moda, nos comportamentos, o lema da “Forecast” é “A View Beyong The Horizon”: que slogan perfeito.


 


VER - Cada vez que me sinto inquieto e não sei onde hei-de descobrir coisas para ver tenho a tendência de visitar o site da Saatchi Gallery. O local físico, próximo de Sloane Square, em Londres, onde antes foi um antigo quartel militar, tornou-se um incontornável radar de arte contemporânea. Com base no acervo da colecção Saatchi, e mantendo o mesmo espírito de abertura e descoberta que marcaram aquela colecção, a Gallery, que na verdade nos poucos anos de vida já ganhou direito a ser considerada uma instituição, é um dos motivos pelos quais lamento não ir mais frequentemente a Londres. Presentemente apresenta duas exposições colectivas que, cada uma à sua maneira, se revelam novas fontes de descoberta. A primeira, “Pangea - New Art From Africa and Latin America” é um catálogo vivo daquilo que mais interessante se produz agora na arte contemporânea daquelas regiões. Ainda mais interessante é a colectiva “Post Pop: East meets West” (na imagem) onde algumas dezenas de obras artistas, de Keith Haring a Ai Wawei, passando por Jenny Holzer, são postas em confronto. Falizmente o site www.saatchigallery.com permite, mesmo à distância explorar e descobrir grande parte do que por lá se passa.


 


OUVIR - Uma das incontornáveis edições musicais deste ano é a nova colectânea, de seis discos, “The Basement Tapes”, resultado de um período, na primavera e verão de 1967, durante o qual um Bob Dylan convalescente de um acidente de moto, em conjunto com The Band, compôs e gravou cerca de 100 canções. O mais extraordinário é que além destes temas, que eram mais ou menos conhecidos, houvesse mais umas dezenas de letras escritas por Dylan, não musicadas, mas feitas nessa época, e absolutamente desconhecidas durante todos estes anos. Esta foi a matéria prima de uma outra colectânea, recente, que é outra das grandes edições de 2014,  “Lost On The River”. T. Bone Burnett, um dos mais importantes e históricos produtores discográficos norte-americanos, encarregou-se de providenciar a junção de talentos que musicou e interpretou alguns desses temas, que deu melodia às letras de Dylan, com a ajuda de nomes como Elvis Costello, Marcus Mumford, Jim James (My Morning Jacket), Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) e Taylor Goldsmith (Dawes). Esses meses de 1967 foram uma época particularmente fértil para Bob Dylan, e mesmo as canções deixadas por acabar, e que aqui se revelam, mostram a enorme criatividade do seu autor naquela época. Os convidados desempenham com esmero o que deles se esperava - que não fossem traidores à ideia original. Pela surpresa e talentos envolvidos esta é a minha colectânea do ano - “Lost on the River: The New Basement Tapes” (editado pela Harvest/Electromagnetic, comprado na Amazon)


 


PROVAR - Confesso ter uma especial tentação por figos secos nesta altura do ano. Um dia destes fui surpreendido por uns figos secos invulgares: à primeira dentada revelaram amêndoas no seu interior em vez da polpa natural. São figos especialíssimos - diria que quase vigaristas: mete-se-lhes o dente e em vez do sabor esperado fui assaltado pelo paladar da boa amêndoa algarvia. Uma curta investigação detectou a origem: www.portugalclick.com, uma loja online inspirada na qualidade, proximidade e serviço das antigas mercearias de bairro. Se quiser os figos com um acompanhamento adequado a mesma loja online  tem “A Velhinha dos Vermelhos”, nome de origens desconhecidas e certamente provocatório, que alberga um medronho artesanal suave e que é capaz, com vantagem, de bater o pé a uma qualquer grappa importada. Estes figos cheios, assim se chamam, são uma especialidade algarvia. A portugalclick.com tem ainda produtos de outras regiões, vinhos das melhores proveniências, como Flor do Tua, a Quinta da Cinchorra Reserva 2010 ou o superior Quinta do Crasto reserva 2012, além de produtos pré-cozinhados como perdizes  estufadas e de escabeche. Experimente viajar no site e veja esta montra de produtos portugueses que farão a delícia de muita gente no Natal: entregas à medida do freguês e em 24 horas.


 


DIXIT -  “Quem é que em Portugal não confiava no Dr. Ricardo Salgado?”  - José Manuel Espírito Santo


 


GOSTO - De saber que Horta Osório foi designado Chairman da Wallace Collection, uma das mais importantes instituições culturais britânicas.


 


NÃO GOSTO - Da sucessão de greves no sector dos transportes, dos interesses corporativos que recusam a mudança e prejudicam tantas pessoas.



BACK TO BASICS - Há uma grande diferença entre saber governar e ocupar um lugar no Governo - H.L. Mencken

dezembro 12, 2014

Sobre o efeito da zanga das comadres na descoberta das verdades

ALERTA - Silva Peneda, o Presidente do Conselho Económico e Social, que se tem revelado autor de algumas das mais certeiras opiniões sobre o que se passa na sociedade portuguesa, disse esta semana que “é preciso perceber que não foi o mercado que falhou, o que falhou foi o sistema político que não foi capaz de prever, fiscalizar e disciplinar o funcionamento dos sistemas financeiros”. Reivindicou que “as políticas públicas deverão penalizar a especulação”  e defendeu que “os apoios financeiros têm estar, prioritariamente, ao serviço de quem cria emprego e riqueza”. Sublinhou que “a suposta auto-regulação dos mercados é uma teoria sem qualquer adesão à realidade”  e, por isso, defendeu que “a intervenção dos poderes públicos seja decisiva”. Mas talvez o momento mais importante tenha sido quando sublinhou que não basta querer reformar o Estado, é fundamental reformar e rever o modelo de governação, que deverá ter como bases a visão a longo prazo, o diálogo estruturado e a concertação, em vez da visão a curto prazo que predomina e incentiva a disputa partidária. E não resisto a citar mais este excerto: “É costume dizer que o maior problema é o desemprego. E é verdade. É preciso ter a consciência de que a manterem-se os valores elevados de desemprego, e o fenómeno de pobreza que lhe está associado, e a debilidade do investimento, o que está verdadeiramente em causa é a perda da confiança no futuro. O que inquieta é saber que os cidadãos vítimas do desemprego correm o sério risco de, com o tempo, perderem a confiança em si próprios e nos que os rodeiam. O que assusta é sabermos que quando se perde a confiança em nós próprios já não há mais nada a perder.”


 


SEMANADA - Banqueiros e administradores do BES e do GES encontram-se entre os principais doadores da campanha de Cavaco Silva em 2011; Ricardo Salgado disse na Comissão Parlamentar que “o BES não faliu, foi forçado a desaparecer”; desde que foi preso José Sócrates já escreveu quatro cartas a orgaõs de informação; António Costa admitiu erros no governo de Sócrates e anunciou que o irá visitar à prisão de Évora mais perto do Natal; uma das primeiras propostas de António Costa depois de ser confirmado à frente do PS foi a de repôr os feriados que foram suspensos; segundo a Marktest, em Novembro de 2014, António Costa foi líder em termos de duração total das notícias nos canais generalistas de televisão - esteve em 92 notícias com um total de 4 horas e 20 minutos de duração; apenas 7% do volume de negócios da área da construção civil é proveniente da reabilitação de edifícios; o serviço Nacional de Saúde perdeu 3 mil enfermeiros em dois anos; Portugal tem a taxa de mortalidade por pneumonia mais elevada no conjunto dos países da União Europeia; no ranking das melhores unidades de saúde, os hospitais de Lisboa ficaram pior classificados do que os do Porto e do Alentejo; mais de 60% dos doentes internados chegam aos hospitais pelas urgências; 1560 médicos recém formados estão a aguardar indicação sobre onde vão fazer o internato a partir de 2 de Janeiro; as fraudes no Serviço Nacional de Saúde ascendem, no ano de 2014, a 118 milhões de euros; nas prisões portuguesas há 51 reclusos por crimes de corrupção; na bolsa portuguesa , das 47 cotadas há 22, quase metade, a valer menos de um euro;  na Europa foram criados 100 mil empregos relacionados com marcas de luxo; as empresas e lojas instaladas na Avenida da Liberdade representam um volume de negócios anual de quase 14 mil milhões de euros; na avenida há somente 11 fogos ocupados com habitação.


 


ARCO DA VELHA - O índice da economia paralela aumentou 2013 e atinge um recorde de 26,81% do PIB - as principais causas deste aumento são "o peso dos impostos diretos e indiretos e das contribuições para a segurança social, e a taxa de desemprego".


 


FOLHEAR - 2015 vai ser o ano do robot? Essa é uma das apostas da edição especial da revista “Wired”, dedicada à antevisão do próximo ano, sob o título genério de “What’s Next”. Editado pela Wired britânica este anuário explora o que pode acontecer em campos tão diversos como os negócios, a tecnologia, a medicina, a política e actuação dos governos, a evolução dos media, ambiente e lifestyle. Nas 104 páginas da publicação cabem ainda artigos de James Dyson sobre os novos robots, de Saul Klein sobre o crescimento económico das indústrias criativas e de Carlo Ratti sobre os automóveis sem condutor e as cidades do futuro - isto para além de 101 ideias que vão mudar o mundo e um catálogo de gadgets, de bicicletas a sistemas de som. Boa leitura para nos situarmos no planeta. Mas talvez o mais fascinante artigo seja o de David Hambling sobre o grande salto que pode ser proporcionado pelos novos processadores que permitem o desenvolvimento da computação neuromorfica - processadores que não só são mais eficazes como, de alguma forma, podem tornar os aparelhos que usamos no dia a dia mais humanos - porque a forma de concretizar o processamento dos dados se assemelha à forma como o cérebrocompreende e age em função de imagens ou de sons, por exemplo.


 


VER - Semana rica em possibilidades. Começo por destacar, no MUDE (Museu do Design e da Moda”, a exposição dedicada à obra de António Lagarto enquanto figurinista. Sob o título “De Matrix à Bela Adormecida” inclui cerca de 200 figurinos feitos nas últimas três décadas para o ballet Gulbenkian, para os Teatros Nacionais de São João e D. Maria II, e ainda para o São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado. Finalmente é possível ter uma visão de conjunto da obra de um dos grandes cenógrafos e figurinistas portugueses contemporâneos. Até 29 de Março, de terça a domingo, entre as 10 e as 18h00. Como dia António Lagarto, “fazer figurinos é contar uma história que é paralela à história do espectáculo”. Vale a pena destacar também a exposição “Almada Negreiros - O Que Nunca Ninguém Soube Que Houve ” que na Sala Cinzeiro 8 do Museu da Electricidade, que apresenta desenhos, pinturas e livros de artista de Almada Negreiros - até 29 de Março (na imagem). Outra exposição a não perder é “Toda a Memória do Mundo, Parte Um”, da Daniel Blaufuks, no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado. Esta exposição de fotografias e video de Blaufuks nasceu em torno das obras de dois escritores, Georges Perec e de W.G. Sebald e pode ser vista até 22 de Março. Na Garagem Sul do CCB está a exposição “Homeland - News From Portugal”, organizada e produzida pela trienal de Arquitectura para a 14ª Mostra Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza. Finalmente vale a pena referir a exposição de Miguel Telles da Gama, Azul Profundo, na Casa Museu Medeiros e Almeida, até 31 de Janeiro.


OUVIR - O tempo tem destas coisas - levar-nos a esquecer onde tudo nasceu. Uma das maiores discográficas do mundo foi a EMI, de Londres, com instalações em Abbey Road, empresa que assim se chamava porque queria dizer Electric And Musical Industries, designação de que poucos se lembrarão nas Bolsas onde está cotada. Se podemos encontrar um paralelo português para este caso a escolha cai na Valentim de Carvalho, dedicada à electrónica e à música a partir de uma loja no coração de Lisboa, na Rua Nova do Almada, desde o início do século passado. Em 1951, na histórica loja do Chiado, consumida pelo incêndio de Agosto de 1988, Amália Rodrigues gravou pela primeira vez para disco. Tinha na altura 31 anos e já uma carreira asinalável no teatro e no cinema. Pela mão de Rui Valentim de Carvalho e Hugo Ribeiro, o técnico de som com quem ela sempre quis trabalhar, gravaram-se numerosas bobines de fita magnética, que a empresa sempre salvaguardou. Muitos desses registos nunca viram a luz do dia  - alguns fragmentos foram sendo usados ao longo dos anos mas nunca se teve a noção da essência do tempo - até agora. O duplo CD “Amália no Chiado” é um trabalho exemplar de recuperação de memória. Permite-nos ouvir Amália em 46 fados e canções, com uma voz fresquíssima, à vontade, a cantar aquilo de que gostava, da “Perdição” à “Libertação” - os inéditos do Chiado. No segundo disco gravações antigas, algumas já editadas, mas dispersas, ou de “la Vie en Rose “ até à “Falsa Baiana”. “Amália no Chiado”, uma belíssima edição coordenada por Frederico Santiago, tem ainda vantagem de incluir um texto original sobre a carreira de Amália escrito por Vitor Pavão dos Santos, o seu mais notável estudioso, um texto cheio de histórias de época e de memórias. Poucas edições discográficas em Portugal têm esta qualidade. É verdadeiramente um álbum exemplar que nos ajuda a entender a vida de Amália e a ouvir o seu génio. (Duplo CD, edições Valentim de Carvalho).


 


PROVAR - Um bom disco, um bom restaurante, um bom livro ou um bom vinho têm uma coisa em comum: são um trabalho de amor, talento e perseverança. Já aqui tenho louvado a obra de José Bento dos Santos na sua Quinta do Monte D’Oiro, onde introduziu castas poucos frequentes em Portugal, desde que adquiriu a propriedade em 1986. Também ganhou fama de vazer vinhos invulgares, como estes três de que hoje vos falo. Enquanto o sol dura neste Outono, começo por um branco, o Madrigal 2012, um monocasta viognier elaborado pela enóloga Graça Gonçalves, com o apoio de Grégory Viennois, a equipa que elabora os vinhos da Quinta. A casta viognier, oriunda das encostas do Rhône, que começa a aparecer com maior frequência em Portugal, permite vinhos brancos de uma grande elegância e paladar, frescos e levemente florados, de que este Madrigal é um bom exemplo; depois sugiro a prova do Têmpera 2011, um vinho feito com a portuguesa Tinta Roriz  - um tinto com toques de frutos silvestres, muito adequado para pratos tradicionais de cozinha portuguesa; e finalmente, a estrela da casa, o Syrah 24 de 2011, proveniente da parcela 24 da vinha, com apenas dois hectares e plantada em 2004 - é um vinho reserva que estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês, muito envolvente e suave, com notas de frutos pretos, chocolate e especiarias. São três vinhos sedutores e inesperados, à venda nas boas garrafeiras.


 


DIXIT - “Ricardo Salgado não lida maravilhosamente com a verdade” - Pedro Queiroz Pereira


 


GOSTO - Da ideia de viagens low cost para os Açores.


 


NÃO GOSTO -  Da ideia de que o Serviço Público de Televisão deve ser concorrencial em relação aos privados.


 


BACK TO BASICS - Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades - ditado popular


 


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dezembro 05, 2014

SOBRE A FORMA COMO UM MINISTRO SE ENSARILHOU

RTP - Os acontecimentos das últimas semanas mostram que, à primeira prova de fogo, o modelo de governação implementado este ano pelo Ministro Poiares Maduro na RTP deu em conflito insanável. Na prática o modelo proporcionou que regressássemos à época em que os Conselhos de Administração da RTP eram demitidos face às circunstâncias políticas do momento - pode dizer-se que esta coisa de demitir Conselhos de Administração da RTP era um comportamento do século passado. Quando Morais Sarmento tutelou o sector instituíu, e bem, a impossibilidade de demitir o CA, deixando-o cumprir os seus mandatos e os seus projectos. Foi isso que permitiu que a partir de 2002 a RTP tivesse traçado um percurso de reestruturação profundo, graças à estabilidade da sua administração - que, ouvindo o accionista, desenvolvia a sua estratégia. Esse percurso de 12 anos foi agora interrompido, tornando-se evidente a falência do modelo preconizado pelo actual Governo. Tenho alguma curiosidade em saber se face ao acontecido - e sobretudo face à clara existência de várias posições públicas divergentes no executivo -  o Ministro não considera a hipótese de se demitir perante os resultados da situação que criou, e que teimou em implementar apesar de numerosos avisos públicos e privados. Ao contrário daquilo que parece, o que se passou não tem a ver com o caso da Champions - que foi um pretexto -  tem a ver com a falta de coragem do accionista em apontar um caminho de serviço público, baseado na complementaridade e não concorrência em relação aos privados, um modelo de serviço público que devia fomentar o papel de regulador do sector, fomentar o papel estruturante e dinamizador que a RTP devia ter na produção audiovisual portuguesa, essencial para a defesa da nossa língua e cultura no mundo digital. A questão não é essencialmente de orçamento, é sobretudo de escolhas - talvez com menos canais, menos espalhafato, desenvolvendo competências e informação regional, fazendo programação de referência infantil, impulsionando a produção de documentários, desenvolvendo ficção e formatos nacionais e abandonando alguns conteúdos que consomem mais orçamento e cuja tipologia já existe nos canais privados. É ambicioso? Pois é, mas também o são os desafios de qualquer estação de televisão neste momento - e a RTP tem a vantagem de ter profissionais e equipas com capacidade de o fazer se forem motivadas e se existir uma ideia clara do que deve ser prestar serviço público, única razão para ter o financiamento que recebe dos portugueses.


 


SEMANADA - A Ministra das Finanças diz que a Troika não tem razão em dizer que o Governo perdeu o ímpeto reformista; o CDS afirmou querer repôr o feriado de 1 de Dezembro, retirado na reforma dos feriados abolidos em 2012; dos 1711 cargos dirigentes da administração central que deviam ser eliminados apenas foram extintos 463; o barril de petróleo desceu muito mas a diferença no preço dos combustíveis ainda não se fez sentir nos consumidores na proporção dessa descida; até Novembro foram vendidos mais 37,3% veículos do que em igual período do ano passado, um total de 156.351 unidades; os hotéis do Algarve, Madeira e Porto estão praticamente sem vagas para a passagem do ano; a Universidade de Aveiro é a preferida pelos estudantes estrangeiros que estão a fazer o Erasmus em Portugal; apenas 50,7% dos alunos do secundário dizem que em em casa é habitual lerem-se jornais, revistas ou livros; um estudo da OCDE indica que funcionários de empresas públicas são os que mais aceitam subornos internacionais; António Costa estabeleceu o objectivo de maioria absoluta para o PS, nas legislativas de 2015 e anunciou recusar coligações com PSD e CDS; no rescaldo do congresso do PS Francisco Assis disse que ali foi estabelecido “um modelo de partido que não é o meu, não me reconheço”; o antigo primeiro-ministro, José Sócrates, e o empresário Carlos Santos Silva, amigo de infância do socialista, financiaram a campanha eleitoral de António Costa às eleições primárias do Partido Socialista; José Sócrates foi medicado, no estabelecimento prisional de Évora, para regular a tensão arterial, que estava elevada.


 


ARCO DA VELHA - Um parecer de um catedrático de Direito da Universidade de Coimbra, Calvão da Silva, defende que a prenda de 14 milhões de euros, de um construtor a Ricardo Salgado, pode ser entendida como um exemplo de “espírito de solidariedade e entreajuda”.


 


FOLHEAR - Querem saber o que aconteceu a Van Gogh nos últimos dias da sua vida? A sua morte terá sido suicídio ou assassínio? - esta é a pergunta a que a Vanity Fair tenta responder na edição de Dezembro, que tem Angelina Jolie na capa, fotografada por Mario Testino. Outro dos grandes artigos desta edição é dedicado à luta entre a editora Hachette e a Amazon. Graydon Carter, o histórico editor da “Vanity Fair”, resume assim o que está em jogo: “a luta a propósito do preço é de facto uma disputa sobre como remunerar a criatividade - e, sendo assim, sobre a própria essência do valor da cultura”. Outros artigos imperdíveis: as memórias de Anjelica Houston com Jack Nicholson, a maneira como nasceu a Khan Academy no YouTube, ou a reportagem sobre o crescimento do serviço de transporte da Uber.


 


VER - Quem me dera poder estar em Madrid para ver a exposição que a arista portuguesa Cristina Ataíde ali inaugurou ontem. Chama -se “Esperando que nieve…” , inclui desenhos de grandes dimensões de 2010 (na imagem) e está no  Centro de Arte Alcobendas, na Mariano Sebastián Izuel, 9. Pondo os pés na terra e regressando a Lisboa, confesso que estou cheio de vontade de ir ver ao Museu Nacional de Arte Antiga ver as obras da colecção de Franco Maria Ricci, que uma boa fortuna trouxe até Lisboa. Se quiser variar para o desenho e colagens posso ir até à Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38) ver a exposição “Araruta”, de Ana Jotta e Manuel Caldeira. Descendo até ao nº4 da 24 de Julho podemos descobrir fotografias  do livro “A Flor do Mal”, de Pedro Norton, expostas n’a Pequena Galeria. E na Baginski (Rua Capitão Leitão 51), quatro artistas (Emilio Chapela Perez, Bruno Cidra, Jan Nálevka e Katarina Poliaciková) expõem “Truth And Void Between Realities”, interrogações sobre a natureza e os limites da imaginação humana.


 


OUVIR - António Zambujo continua a ser um caso à parte na música portuguesa contemporânea. Em primeiro lugar isso deve-se à sua capacidade de interpretação, em segundo lugar fica o seu cuidado na escolha das canções que grava e dos autores que selecciona. Em “Rua da Emenda”, o seu novo disco, estão nomes como João Monge, Samuel Úria, Miguel Araújo, Maria do Rosário Pedreira, José Eduardo Agualusa, José Fialho Gouveia, Edu Mundo e até Serge Gainsbourg com a “Chanson Du Pévert”. Zambujo canta gingão, tem voz malandra, entoação picante e quem o ouve sente-se parte da história que ele está a cantar. Confesso que de todas as canções - e não lhes chamo fados de propósito - a que mais gosto é a “Barata Tonta”, escrita por Maria do Rosário Pedreira, que se vai tornando obrigatória nos seus discos, e o próprio António Zambujo, que compôs a música. Basta isto para perceber porquê: “Ai, por um sonho dos seus/Emq ue fosse eu quem a beija/ Dava toda a minha vida”. E “O Tiro Pela Culatra”, outra canção de Maria do Rosário Pedreira, não lhe fica atrás em matéria de canções com história e que podiam dar filmes. (CD Universal/ Sons Em Trânsito).


 


PROVAR - Gosto perdidamente de romãs, esse fruto de outono, às vezes tão difícil de preparar. Gosto de o misturar em saladas, de o usar em alguns cozinhados, de reduzir o seu sumo e usá-lo nos molhos. A árvore, ainda por cima, é lindíssima. O melhor livro que conheço, onde as romãs fazem parte da acção, é “Summer At The Villa Rosa”, de Nicky Pellegrino, passado no sul de Itália, e que li há uns anos. Como frequentemente acontece nas obras de Pellegrino as receitas culinárias e a descrição das refeições são parte integrante da história. Lembrei-me disto tudo enquanto bebia a melhor alternativa que conheço à água, o Sunlover Winter Edition, precisamente feito à base de romã e, tal como a água, com zero calorias. É a bebida mais agradável e potencialmente mais saudável que já experimentei.


 


DIXIT - “O agente público que está na posse de riqueza de que não se sabe a origem põe em causa a credibilidade das instituições democráticas” - João Cravinho.


 


GOSTO - De Marcelo Rebelo de Sousa ter chamado a atenção para a maneira como os deputados seguem os trabalhos parlamentares nos ecrãs dos seus computadores observando “raparigas avantajadas”.


 


NÃO GOSTO - Da péssima tradução nas legendas do filme “Saint Laurent”, actualmente em exibição.


 


BACK TO BASICS - Odeio televisão da mesma forma que odeio amendoins - o único problema é que não consigo deixar de comer amendoins (Orson Welles)