QUARENTÕES - Olhando para trás, para o início de 2013, o que me apetece dizer é que este foi um ano perdido. O Governo deixou muito por fazer e nos últimos meses as indecisões, os atrasos e a falta de capacidade de concretização tornaram-se regra. É como se a ideologia reinante fosse a procastrinação - não faças hoje o que não te apetece que aconteça amanhã. Isto aplica-se desde a gestão dos fundos comunitários a acordos de coligação para as próximas eleições, passando pela RTP ou até o novo Banco de Fomento. Este é sobretudo o ano daquilo que não aconteceu - mesmo que alguns episódios laterais, como o caso da corrupção nos vistos gold, a queda do BES e de Ricardo Salgado e a detenção de José Sócrates possam parecer indícios de mudança. Lamento muito ter opinião contrária - tudo isto foram distracções, areia lançada para a ventoinha de forma a tornar a visão menos clara e fazer esquecer a falta de mudanças de fundo. Nada do que se passou faz mudar o regime, embora até possa ser justo que algumas coisas tenham acontecido. Os corporativismos continuam, tanto na TAP como noutras greves de transportes, o preconceito ideológico voltou a ser dominante sobre o raciocínio e nada disto encerra boas notícias. Este é o ano em que se completam quatro décadas sobre a mudança de regime, em 1974. Seria curioso estudar quanto dessas décadas foi tempo perdido, agora que temos quase tanto tempo de democracia como de ditadura. Hoje, finalmente, começamos a ter uma ideia de que em termos de país a nossa mudança foi fraca, pouco produtiva e que gerou muita corrupção e um sistema político-partidário mais do que suspeito. Não é um bom retrato de quem entra nos quarentas.
SEMANADA - Costa foi visitar Sócrates a Évora - mas estou a falar de Pinto da Costa; um amigo meu, a ver a cena na TV, saíu-se com esta: “les beaux esprits se rencontrent”; os EUA declararam o fim do embargo a Cuba; no mesmo dia o rublo teve uma queda histórica; o Papa Francisco disse que a resolução das relações entre Cuba e os EUA era o melhor presente que podia ter no seu aniversário; Putin começou o ano a ameaçar e parece ir fechá-lo a meditar; num cenário próximo da deflação a Entidade Reguladora do Sector Energético efectuou, para 2015, um aumento de 3,3% nos custos da electricidade para uso doméstico; um terço do novo crédito ao consumo destinou-se à compra de automóveis; o fundo de resgate municipal já recebeu pedidos de 14 Câmaras; o Ministro Poiares Maduro escreveu num artigo de opinião que o Conselho Geral Independente da RTP “contribui para um serviço mais dinâmico e inovador”; Marques Mendes disse na SIC que o CGI “está morto e enterrado”; Nuno Morais Sarmento afirmou que o modelo proposto por Maduro para a RTP “não faz sentido”; Alberto da Ponte, Presidente da RTP, pediu “bom senso” ao Governo; Passos Coelho disse no Conselho Nacional do PSD que não precisa do CDS para ganhar eleições; escolas de diversos pontos do país abrem as suas cantinas nas férias escolares para prestarem ajuda alimentar a famílias carenciadas; 30% dos portugueses nunca utilizaram a Internet; um estudo do Ministério da Economia indica que quase 90% das reivindicações dos trabalhadores em greve são rejeitadas; o Instituto de Medicina Legal tem 57 mortos que não foram reclamados; Ricardo Salgado foi eleito o pior CEO de 2014 pela BBC; os sócios brasileiros da PT, acordados entre Lula-Dilma e Sócrates, são frescos: a Andrade Gutierrez, accionista da Oi, está a ser investigada no âmbito de um caso de corrupção de grandes dimensões no Brasil.
ARCO DA VELHA - O Arcebispo de Braga recusou a investigação, no Tribunal Eclesiástico da sua Arquidiocese, de acusações de pedofilia que recaem sobre um padre de Fafe, preferindo que a investigação seja desenvolvida pela congregação dos Dehoninanos, a que o padre pertencia.
FOLHEAR - Ainda há espaço para criar novas publicações em papel? Depois de ter reinventado o conceito de publicação mensal, a Monocle avança agora para o conceito de anuário - o novíssimo “Forecast”, assinado “by Monocle”, pretende ser lido ao longo dos próximos meses para que o possamos recordar ao longo de 2015. Dantes chamava-se a isto um almanaque - temos entre nós o belo exemplo do Borda d’Água, muito mais modesto na abrangência e no número de páginas, mas tivémos durante anos o Anuário editado pela empresa que hoje detém por exemplo o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias. Os anuários - a Bertrand edita hoje o melhor anuário português - são peças centrais de leitura porque são feitos para perdurar. A revista mensal “Monocle” ganhou relevância pela forma inovadora com que passou a tratar de alguns assuntos, como descobriu temáticas inesperadas e como fomentou diálogos e debates pouco ensaiados. O número inaugural de “Forecast” foi publicado por estes dias e tem como tema principal descobrir quais os pontos que devem ser o centro das nossas atenções em 2015. Não se trata apenas de tendências, como acontece na edição da Wired que aqui referi na semana passada, é mais que isso. Por exemplo, como deve ser a televisão quando fala de política - que leitura tão interessante para o serviço público da RTP, este artigo, quase provocatório no nosso contexto, que relata experiências de outros países, a começar pela vizinha Espanha. Do design à comida, passando pela ficção, com incursões na fotografia, na moda, nos comportamentos, o lema da “Forecast” é “A View Beyong The Horizon”: que slogan perfeito.
VER - Cada vez que me sinto inquieto e não sei onde hei-de descobrir coisas para ver tenho a tendência de visitar o site da Saatchi Gallery. O local físico, próximo de Sloane Square, em Londres, onde antes foi um antigo quartel militar, tornou-se um incontornável radar de arte contemporânea. Com base no acervo da colecção Saatchi, e mantendo o mesmo espírito de abertura e descoberta que marcaram aquela colecção, a Gallery, que na verdade nos poucos anos de vida já ganhou direito a ser considerada uma instituição, é um dos motivos pelos quais lamento não ir mais frequentemente a Londres. Presentemente apresenta duas exposições colectivas que, cada uma à sua maneira, se revelam novas fontes de descoberta. A primeira, “Pangea - New Art From Africa and Latin America” é um catálogo vivo daquilo que mais interessante se produz agora na arte contemporânea daquelas regiões. Ainda mais interessante é a colectiva “Post Pop: East meets West” (na imagem) onde algumas dezenas de obras artistas, de Keith Haring a Ai Wawei, passando por Jenny Holzer, são postas em confronto. Falizmente o site www.saatchigallery.com permite, mesmo à distância explorar e descobrir grande parte do que por lá se passa.
OUVIR - Uma das incontornáveis edições musicais deste ano é a nova colectânea, de seis discos, “The Basement Tapes”, resultado de um período, na primavera e verão de 1967, durante o qual um Bob Dylan convalescente de um acidente de moto, em conjunto com The Band, compôs e gravou cerca de 100 canções. O mais extraordinário é que além destes temas, que eram mais ou menos conhecidos, houvesse mais umas dezenas de letras escritas por Dylan, não musicadas, mas feitas nessa época, e absolutamente desconhecidas durante todos estes anos. Esta foi a matéria prima de uma outra colectânea, recente, que é outra das grandes edições de 2014, “Lost On The River”. T. Bone Burnett, um dos mais importantes e históricos produtores discográficos norte-americanos, encarregou-se de providenciar a junção de talentos que musicou e interpretou alguns desses temas, que deu melodia às letras de Dylan, com a ajuda de nomes como Elvis Costello, Marcus Mumford, Jim James (My Morning Jacket), Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) e Taylor Goldsmith (Dawes). Esses meses de 1967 foram uma época particularmente fértil para Bob Dylan, e mesmo as canções deixadas por acabar, e que aqui se revelam, mostram a enorme criatividade do seu autor naquela época. Os convidados desempenham com esmero o que deles se esperava - que não fossem traidores à ideia original. Pela surpresa e talentos envolvidos esta é a minha colectânea do ano - “Lost on the River: The New Basement Tapes” (editado pela Harvest/Electromagnetic, comprado na Amazon)
PROVAR - Confesso ter uma especial tentação por figos secos nesta altura do ano. Um dia destes fui surpreendido por uns figos secos invulgares: à primeira dentada revelaram amêndoas no seu interior em vez da polpa natural. São figos especialíssimos - diria que quase vigaristas: mete-se-lhes o dente e em vez do sabor esperado fui assaltado pelo paladar da boa amêndoa algarvia. Uma curta investigação detectou a origem: www.portugalclick.com, uma loja online inspirada na qualidade, proximidade e serviço das antigas mercearias de bairro. Se quiser os figos com um acompanhamento adequado a mesma loja online tem “A Velhinha dos Vermelhos”, nome de origens desconhecidas e certamente provocatório, que alberga um medronho artesanal suave e que é capaz, com vantagem, de bater o pé a uma qualquer grappa importada. Estes figos cheios, assim se chamam, são uma especialidade algarvia. A portugalclick.com tem ainda produtos de outras regiões, vinhos das melhores proveniências, como Flor do Tua, a Quinta da Cinchorra Reserva 2010 ou o superior Quinta do Crasto reserva 2012, além de produtos pré-cozinhados como perdizes estufadas e de escabeche. Experimente viajar no site e veja esta montra de produtos portugueses que farão a delícia de muita gente no Natal: entregas à medida do freguês e em 24 horas.
DIXIT - “Quem é que em Portugal não confiava no Dr. Ricardo Salgado?” - José Manuel Espírito Santo
GOSTO - De saber que Horta Osório foi designado Chairman da Wallace Collection, uma das mais importantes instituições culturais britânicas.
NÃO GOSTO - Da sucessão de greves no sector dos transportes, dos interesses corporativos que recusam a mudança e prejudicam tantas pessoas.
BACK TO BASICS - Há uma grande diferença entre saber governar e ocupar um lugar no Governo - H.L. Mencken