RETROCESSO - Vivo quase metade da semana numa pequena aldeia a 40
quilómetros de Lisboa, ainda com uma forte componente agrícola, que coexiste
com grandes unidades industriais essencialmente exportadoras, com um espírito
de comunidade arreigado, com sociedades recreativas que fazem festas e um
comércio local onde toda a gente se conhece. Até ao ano passado a Câmara
Municipal de Palmela tinha travado o crescimento demasiado de grandes
superfícies dentro das malhas urbanas. No Verão de 2014 autorizou um
supermercado de média dimensão dentro dessa povoação - apesar de num raio de
dez quilómetros existirem mais seis supermercados e grandes superfícies. Essa
povoação tinha um comércio local dinâmico e variado, com uma forte oferta de
produtos frescos, de produtos locais, alguns deles com denominação de origem.
Nessas lojas encontrava-se o melhor que ali se produzia - fosse queijo fresco do
dia, pão cozido a forno de lenha, doces regionais, peixe vindo de madrugada da
lota de Setúbal ou fruta e hortícolas da região. Nestes pouco mais de seis meses já
encerraram meia dúzia de lojas, derrotadas pelo supermercado - onde nem tudo é
mais barato, poucas coisas são tão frescas e onde os produtos naturais não
abundam. Este supermercado é de um dos maiores grupos nacionais, uma empresa
que propagandeia responsabilidade social e apoio aos produtores. Na realidade, a
nível local, não é nada disso que se vê - destruição de valor, quebra da vida em
comunidade, destruição da frágil economia familiar que estava baseada em
pequenos comércios. A maneira como as cadeias de supermercados afectam a
economia local, sem benefícios evidentes quando as contas são bem feitas, é um
dos maiores problemas do país nos últimos anos e as Câmaras Municipais têm
muitas responsabilidades nas autorizações que concedem. Custa-me ouvir a
senhora da loja onde me habituei a ir dizer que não sabe se conseguirá mater a
porta aberta muito mais tempo. Isto não é progresso. É retrocesso.
SEMANADA - António Costa continua a não querer dizer se Guterres já o
informou da sua indisponibilidade para Presidente da Republica; Alfredo Barroso,
fundador do PS, classifica António Vitorino, apontado como um dos possíveis
candidatos socialistas a Belém, como “um facilitador de negócios”; Rui Rio, que
alguns apontam como eventual candidato, anunciou desejar um Presidente da
República mais interventivo; uma sondagem do Correio da Manhã indica que, caso
Guterres não se candidate, Marcelo Rebelo de Sousa ganha com vantagem folgada
aos três outros nomes da área do PS já indicados - Jaime Gama, António Vitorino
e Maria de Belém, sempre com mais de 60% dos votos; pelo terceiro ano seguido
as exportações portuguesas superaram as importações efectuadas; a Alemanha é
o país europeu com quem Portugal tem maior déficit comercial; o preço da carne
de porco caíu 20% devido ao impacto do embargo de vendas à Rússia; dos 126
mil imóveis transaccionados no ano passado, 23 mil envolveram estrangeiros
e os franceses estão a aproximar-se dos chineses em número de aquisições; o
Parlamento considerou exorbitantes as multas aplicadas pelo fisco devido ao não
pagamento de portagens e que chegam a atingir um aumento de 900% sobre o
valor original que o automobilista teria que pagar; metade dos contratos públicos
em 2013 foi por ajuste directo; o Governo anunciou querer saber quem são e como
se financiam os donos dos orgãos de comunicação social portugueses.
ARCO DA VELHA - O caso dos submarinos provocou uma crise no PS e Ana
Gomes e Isabel Moreira passaram a semana a atacarem-se mutuamente. Ana
Gomes desencadeou um ataque a Paulo Portas sobre os submarinos baseada em
escutas cuja transcrição confundiu canal com Canalis e aquilo com Kiel. Apesar
disso Ana Gomes disse não estar disposta a receber lições de Isabel Moreira.
FOLHEAR - Baseada em Nova Iorque, a Aperture Foundation é uma organização
sem fins lucrativos dedicada à divulgação da fotografia em revistas, livros,
exposições e actividades de formação. Edita uma magnífica revista, publicada
sazonalmente, quatro vezes por ano. A edição deste Inverno tem sobejos motivos
de interesse. O maior será talvez um artigo sobre a influência da escrita na obra
do fotógrafo Walker Evans, conhecido sobretudo pela sua obra no campo da
fotografia documental para revistas como a Time ou a Fortune. Mas a presença
da literatura esteve sempre por perto, nas séries que fez para acompanhar alguns
textos de autores que mais o interessavam. E assim descobre-se como Flaubert,
Baudelaire ou Proust, por exemplo, exerceram uma notável influência na sua obra
- é um magnífico ensaio de David Campany. As relações da fotografia com o texto
são também exploradas em “Word vs Images” onde diversos autores de ficção
elaboram sobre o assunto, entre os quais, Lynne Tillman e Tom McCarthy. Outra
abordagem curiosa à ligação da imagem com a literatura é a história das capas,
fotográficas, da editora New Directions, que em meados do século passado apostou
em imagens, por vezes quase experimentais, para capear obras de William Carlos
Williams ou Yukio Mishima, entre outros. E , claro, há portfolios de autores como
Hervé Guibert e descobertas como as fotografias feitas por William S. Burroughs.
A edição pode ser comprada directamente à Aperture Foundation ou encomendada
via Amazon ao preço de capa de 25 US$.
VER - Esta semana é incontornável falar da colecção Sonnabend, que estará na
Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva até 3 de Maio.É uma rara oportunidade
de ver de perto, em Lisboa, um conjunto significativo de obras de artistas
como Robert Rauschenberg, Roy Liechtestein, Andy Warhol ou Jasper Johns.
Feita em colaboração com a Sonnabend Collection Foundation (Nova Iorque)
e a Fondazione Musei Civici di Venezia - Ca' Pesaro Galleria Internazionale
d'Arte Moderna (Veneza), a exposição Sonnabend | Paris – New York reúne
um importante conjunto de peças da colecção histórica da Galeria Sonnabend,
mostradas durante os primeiros cinco anos de actividade da galeria em Paris,
entre 1962 e 1967, recorrendo a um total de 50 obras de 15 artistas que melhor
representam o movimento Pop e Minimal Art em esculturas, pintura e desenho - e
alguns desenhos pouco conhecidos de Roy Liechtestein são boas descobertas desta
exposição. A inauguração esteve cheia de gente que não costuma ir a exposições,
menos ainda de arte moderna, mas que se sentiram compelidos ao frisson nova-
iorquino levado ao Jardim das Amoreiras. O poder foi ao Museu - fico na dúvida
se para se mostrar, ou se para ver.
OUVIR - É surpreendente como aos 73 anos Bob Dylan tenha ainda a capacidade
de surpreender como fez, no início da década de 60, com os seus primeiros discos.
Eterno apaixonado pela tradição musical norte-americana, que dos blues à country
foi sempre o motor da inspiração das diversas fases da sua carreira, iconoclasta
por natureza, desprezando as verdades estabelecidas, Dylan fez agora um disco
baseado em temas que foram interpretados por Frank Sinatra - 10 temas que
fogem ao óbvio do repertório e vão buscar pérolas esquecidas do cancioneiro
popular norte-americano - como “I’m A Fool To Want You”, “Stay With Me”,
“Autumn Leaves” “ Full Moon and Empty Arms” ou “What ‘ll I Do”, para citar só
algumas. É preciso ter coragem para aos 73 anos dar uma volta destas à carreira,
surpreendendo tudo e todos. Dylan canta com paixão o que Sinatra cantava
com gosto, E canta com um gôzo contagiante, raro, com uma capacidade de
interpretação que só os grandes talentos são capazes de mostrar. Assim se prova
que uma canção pode ser revisitada sem ser traída, que não é da imitação que nasce
a luz, mas que é da surpresa que nasce o encanto. Bob Dylan, Shadow In The
Night, CD Sony Music na Amazon ou no Spotify. Na semana passada, na gala do
Musicares na qual foi homenageado como Personalidade do Ano, Dylan fez um
discurso que retrata a sua visão sobre a música popular norte-americana e que é
imperdível - pode ser lido aqui:
http://www.thedailybeast.com/articles/2015/02/09/bob-dylan-s-whole-life-in-30-
minutes.html?via=mobile
PROVAR - Tinha ouvido falar bastante do La Parisienne, um restaurante recente,
situado no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, e que, como o nome
indica, tem na cozinha francesa a sua inspiração. É mais cozinha tradicional,
descansem os cépticos da nouvelle cuisine, e por alguma razão o restaurante usa
o subtítulo Bistrot Français. A decoração é simpática, o serviço é escorreito, a
sala é acolhedora mas falta qualquer coisa para a experiência ser completamente
conseguida. Seguindo sugestão alheia provei um bife tártaro, que estava no ponto
no que à qualidade, corte e tempero da carne diz respeito. É uma pena que as
batatas fritas fossem tão fracas, francamente inferiores ao que é aceitável num
restaurante destes - e um tártaro com batatas fritas inquietas perde um pouco da
sua graça. Do outro lado da mesa a experiência foi melhor, com um filete de robalo
com molho de pimenta rosa e legumes. Dizem-me que a choucrute e o cassoulet
da casa (mal traduzido é um cozido è francesa), merece elogios - convém notar que
os enchidos franceses utilizados são da responsabilidade do chef Xavier Charrier,
que há uns anos abrira uma charcutaria no Linhó, que fez fama. O La Parisienne
é de um casal francês que aterrou em Lisboa, Olivier Vallancien e a sua mulher
Lumir Ardant-Leverd e depois recrutaram Xavier Charrier. Hei-de lá voltar para
navegar mais nas listas e verificar o estado das batatas fritas. Largo Rafael Bordalo
Pinheiro 18, telef. 964203947.
DIXIT - “Uma percentagem elevada da população caíu numa situação dramática” -
Luis Barbosa, Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa
GOSTO - Pedro Cabrita Reis está a expôr em Toulon, no Hotel des Arts, e o
comissãrio da exposição, Jean François Chougnet, o primeiro director do Museu
Berardo, considera-o “um artista genial com capacidade para fazer projectos de
dimensão absolutamente fora do comum”
NÃO GOSTO - De ouvir um relato de uma intervenção policial no bairro da
Cova da Moura que teria incluído expressões como “vocês têm sorte que a lei
não permite, senão seriam todos executados”, dirigidas a jovens de côr que foram
detidos, dois deles da direcção do Moinho da Juventude, projecto comunitário que
existe há 30 anos na Cova da Moura, premiado pela Assembleia da República.
BACK TO BASICS - “Muito daquilo que é apresentado como idealismo não é
mais do que amor disfarçado ao poder“ - Bertrand Russell