fevereiro 14, 2014

Sobre exemplos e disciplina na política à portuguesa

DISCIPLINA - Quem se coloca na posição de querer exigir disciplina tem que ser um exemplo - deverá dar-se ao respeito, tomar decisões de forma acertada, procurar persuadir em vez de impôr, explicar em vez de obrigar. Estas coisas de senso comum não são no entanto bem entendidas pelos partidos políticos, que desenvolvem e radicalizam um sistema de obediência cega sob o pretexto de conseguir a unidade na acção, nomeadamente quando se entende por acção tomar o poder, mesmo que seja por votos. O sistema de obediência e de seguidismo acentua-se à medida que os partidos se cristalizam no exercício do poder e se tornam máquinas distanciadas dos comuns dos mortais. Como bem se sabe a vida interna da generalidade dos partidos parlamentares resume-se a processos de tomada de poder a nível local, depois regional e, com sorte, a nível nacional. Discussão há pouca, os Congressos são momentos mediáticos e de exaltação dos dogmas e há muito tempo que não proporcionam surpresas. Em todo este processo o sistema de escolha de candidatos é uma das grandes paródias, destinado a alimentar clientelas de apoiantes e a fazer uma distribuição de influências. Em resumo, anulam-se os opositores e promovem-se os apoiantes. Quem não concorda deve ficar calado e obedecer. Quem se rebela tem por destino a excomunhão, que nestas coisas estatutárias recebe o nome de expulsão. Nas mais recentes eleições autárquicas o PSD escolheu, numa série de locais, candidatos que não eram desejados por muita gente do partido, com maior ou menor influência; em resultado disso surgiram diversas listas independentes que arregimentavam apoios diversos e que, em alguns casos politicamente significativos, derrotaram os candidatos oficiais que foram impostos pela direcção nacional. O mais extraordinário desta história é que os responsáveis pelo desaire eleitoral do PSD nesses locais, os que traçaram a estratégia autárquica, e aqueles que impuseram nomes e listas, não são penalizados por terem provocado cisões; mas aqueles que, em nome da sua consciência, agiram contra as ordens partidárias, são agora expulsos. Eu acho que isto é ver o mundo ao contrário, mas pelos vistos isso é o que está a dar nos tempos que correm.


 


SEMANADA - Entre 2019 e 2013 o endividamento público aumentou mais de 71,5 mil milhões de euros, ou seja um crescimento de cerca de 54%; o número de insolvências caíu 10% em 2013; os empréstimos da banca às empresas aumentaram 18%; mais de 16 mil famílias saíram da situação de incumprimento no ano passado; em 2013 entraram em incumprimento 2046 empresas; os tribunais apenas conseguem cobrar 7,6% das dívidas das empresas; a previdência paga subsídios e pensões a quatro milhões de beneficiários; a segurança social perdeu 350 mil contribuintes desde 2008; inquérito a crimes de corrupção cresceu quase 40% em três anos, mas as taxas de acusação estão abaixo dos 25%; em 2013 registaram-se  557 crimes por dia em Lisboa; Vitor Gaspar afirmou, numa entrevista para um livro, que o facto de ter corrigido ideias de Catroga antes das eleições foi uma das razões para ter sido escolhido para Ministro; dias mais tarde Eduardo Catroga desmentiu a versão de Vitor Gaspar sobre o contributo que este teria dado para o programa eleitoral do PSD; Vitor Gaspar classificou Paulo Portas como uma pessoa com “uma enorme ambição”; Fernando Tordo anunciou que irá viver para o Brasil por estar “cansado de ser governado por incompetentes”; segundo a Marktest, ao longo do segundo semestre de 2013, acederam a sites de jornais, revistas e de informação online cerca de 5 milhões de portugueses; uma colecção de uma centena de obras emblemáticas da chamada “arte povera”, pertencentes a um casal de coleccionadores italiano, foi vendida terça-feira passada em Londres pela Christie’s sem escândalo nem polémica.


 


ARCO DA VELHA - Rui Rio apoiou politicamente a eleição de Rui Moreira no Porto, contra um candidato do PSD, e não lhe aconteceu nada; António Capucho fez o mesmo em Sintra e foi expulso do partido.


 


FOLHEAR - A “Aperture” é uma das melhores revistas sobre fotografia. É publicada quatro vezes por ano, cada edição com o nome da estação respectiva. Cada número tem um tema, que lhe dá título, o deste Inverno é “Photography as you don’t know it”. O editorial, com o mesmo título, começa com uma pergunta: “Será que a história da fotografia está a chegar ao fim, ou estará apenas no seu início?”. Com a transição da película para o digital e, depois, com a vulgarização da captação de imegam nos telemóveis e em aparelhos com permanente ligação à internet, a pergunta ganha uma dimensão especial - e ao longo deste número a “Aperture” tenta mostrar exemplos da vitalidade e diversidade da fotografia. Permito-me destacar o artigo de Joel Smith, precisamente sobre a História da Fotografia e destaco ainda a entrevista com Quentin Bajac que deixou Paris e o Centro Pompidou para ser o novo Conservador principal de Fotografia no MOMA, em Nova York. Muito acertadamente sublinha que a grande questão que se lhe coloca hoje em dia é conseguir seleccionar o que vale a pena num fluxo cada vez maior de imagens fotográficas, que todos os dias aumenta. A secção Pictures desta edição mostra o trabalho de dez fotógrafos pouco conhecidos, cada um com um portfolio, acompanhado por um texto que enquadra o autor. Um deles é o fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel (1924-2009) e o texto que o apresenta foca a sua importância no contexto da fotografia africana, nomeadamente do fotojornalismo na época colonial. Oito fotografias, da década de 60 e 70 exemplificam o seu trabalho, hoje depositado no Centro de Formação Fotográfica de Maputo.


 


VER - Desde há mais de duas décadas José Maçãs de Carvalho vem fazendo fotografia, primeiro na sua zona de conforto, da terra onde nasceu e cresceu, e depois alargando o olhar, sobretudo a Oriente nos anos mais recentes. Ao mesmo tempo faz incursões no universo de video, mas sempre com o espírito de observação que é a sua imagem de marca. O Arquivo Fotográfico de Lisboa mostra até 8 de Março a exposição “Arquivo e Domicílio”, que percorre a sua carreira, juntando imagens de várias épocas que podem ter leituras comuns ou complementares. Desenvolvendo-se nos dois pisos do Arquivo, a exposição permite ver no piso inferior os mosaicos que compõem a memória de imagens do autor, e, no piso superior, memórias mais pessoais ligadas à história das próprias fotografias mostradas - quase apontamentos visuais. Neste sábado, 15 de Fevereiro, pelas 15h00, José Maçãs de Carvalho apresenta no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246, quase a chegar ao Martim Moniz), o livro “Unpacking - A Desire For The Archive” que percorre o tema da exposição - o processo de significação das imagens fotográficas do arquivo do autor. Trata-se de uma edição limitada a 50 exemplares, cada um manuscrito, o que os torna em objectos únicos.


 


OUVIR - Se eu entrasse numa sala e estivesse a tocar o álbum “Saturday Morning”, dificilmente diria que o pianista que comanda as operações tem 83 anos - mas essa é a verdade. Ahmad Jamal consegue ainda surpreender - como um jornal norte-americano dizia, depois de anos de aquecimento ele está em grande forma. Em 2011, no álbum “Blue Moon”, Jamal interpretava temas de filmes e de espectáculos da Broadway, mas neste novo registo, efectuado em França, no estúdio La Buissonne, a maioria dos temas - sete em onze - são originais seus (e mesmo os que tinham já sido anteriormente gravados, aparecem aqui em novas versões). Os outros temas incluem três baladas - “I’ll Always Be With You” (numa fantástica interpretação), “I’m In The Mood For Love” e “I Got It Bad Ana That Ain’t Good”, e ainda um dos temas preferidos do pianista, “One”, de Sigidi. Ao longo de todo o disco Ahmad Jamal toca com um à vontade notável, claramente satisfeito com os músicos que o acompanham - Reginald Veal no baixo, Herlin Riley na bateria e Manolo Badrena na percussão. Ainda inesperado, ainda inovador, dando espaço à improvisação, Ahmad Jamal tem aqui um dos discos mais representativos do seu estilo e mais elucidativos sobre o seu talento e técnica.


 


PROVAR - Que fazer numa tarde de fim de semana de chuva e algum vento, quando se quer comer peixe fresco ao pé do mar e não muito longe de Lisboa? Uma boa possibilidade é ir ao Bar do Peixe, em Alfarim, no Meco. Para quem gosta de ver o mar no Inverno, poucos restaurantes da costa portuguesa aliam a localização privilegiada do Bar do Peixe à qualidade da matéria prima - peixe fresco, bem confeccionado, com bom serviço numa sala quente e confortável. Na circunstância as honras da casa foram feitas por umas ameijoas à Bulhão Pato que estavam impecáveis no tamanho e no tempero, seguidas de um pregado delicioso, acompanhado por verduras salteadas. Uma torta de laranja rematou o repasto, bem acompanhado por um branco da região de Azeitão. Eu, por mim, gosto mais de ver o mar sem ser no Verão, de preferência confortávelmente sentado, em boa companhia, com uma boa conversa servida por uma refeição sem mácula. Foi uma bela tarde de sábado. Bar do Peixe, telefone 212 684 732.


 


DIXIT - “Falta cumprir uma reforma do Estado inteligente” - Pedro Reis


 


GOSTO - Da nomeação de José Manuel Costa para a Cinemateca Portuguesa.


 


NÃO GOSTO - Em Lisboa os casos de violência na escola aumentaram 21,6% em 2013.



BACK TO BASICS - Os factos são incontornáveis, as estatísticas são mais maleáveis - Mark Twain

fevereiro 07, 2014

HABILIDADES DE COLECCIONADORES DE OPORTUNIDADES POLÍTICAS

HABILIDADES - Esta semana tive momentos em que me assaltou uma curiosidade enorme: quantos dos activistas anti-venda dos Mirós, que alguma vez estiveram em Barcelona, foram nessa ocasião visitar a Fundação Juan Miró no Parque de Montjuic e dedicaram verdadeiro interesse ao artista? Quantos destes activistas eram capazes de responder, sem pestanejar, quem desenhou o símbolo que Espanha usa nos seus cartazes turísticos? - sim, foi Miró, mas quantos o sabiam? A única coisa interessante de toda esta polémica é que nunca se falou tanto de Miró em Portugal como agora. Pelos menos alguns deputados são capazes de ter olhado para algumas reproduções e aumentado a sua cultura pictórica.


 


Mas convém recordar a origem destes quadros - um stock de obras, não verdadeiramente uma colecção. A maior parte será proveniente do acervo de uma galeria de Nova York, vendido em bloco quando a galeria encerrou, no início dos anos 80, a uma leiloeira internacional; o lote das obras de Miró terá ido posteriormente para Paris, e depois para o Japão, onde essas obras estiveram a partir do início da década de 90, até serem compradas pelo BPN na primeira metade da primeira década deste século. Pelo meios vários “marchands” esfregaram a mão de contentes, em França e em Portugal e foram fazendo circular e inflaccionar as obras.


 


Muito haveria para contar sobre o processo de constituição da colecção de arte que o BPN então quis fazer - quem aconselhou a compra, que a intermediou e quem ganhou as respectivas comissões. Nada disto releva de amor à arte ou ao coleccionismo, apenas especulação habilidosa que viveu do escasso conhecimento dos compradores sobre obras de arte. O resto, a que assistimos nestes dias, é oportunismo. A deputada Canavilhas, agora ululante, era à época da nacionalização do BPN Ministra da Cultura e há-de ter sabido da colecção - que conste conviveu com o arrolamento dos quadros para pagamento das falcatruas do Banco, e não há indício de ter tomado qualquer iniciativa para expôr as obras sobre as quais agora tantas lágrimas deramou. Alexandre Pomar, um respeitado crítico de arte, escreveu no seu facebook que o acervo de Miró no BPN era de fraca qualidade e que por isso logo se previu a sua venda após a nacionalização do Banco, admitindo, que, quanto muito, haja dois ou três quadros que talvez tivessem algum interesse. João Miguel Tavares, num artigo no Público, pôs o dedo na ferida: "Se tivesse 36 milhões de euros à sua disposição, preferia gastá-los em quadros do mesmo pintor, ou daria algumas oportunidades a outros artistas? E, se assim fosse, estou capaz de apostar que a paixão por Miró esmoreceria num ápice."


 


SEMANADA - Há 81 mil licenciados sem trabalho há mais de um ano, num total de 146 mil desempregados com curso superior; a RTP, a SIC e a TVI disputam a transmissão dos sorteios de automóveis do Fisco, que estão a ser preparados em colaboração com os Jogos da Santa Casa; a televisão por subscrição, vulgo cabo, aumentou de novo em 2013 e já cobre 79% dos lares portugueses; a penetração do Facebook em Portugal duplicou nos quatro últimos anos; nove em cada dez empresas em Portugal, Itália e Grécia dizem que subornos são prática generalizada entre políticos; dos 838 casos de corrupção que chegaram aos tribunais portugueses entre 2004 e 2008 apenas 8,5% tiveram conclusão até 2010 e apenas 6,9% resultaram numa condenação; o sistema judicial deixou prescrever sete mil crimes em cinco anos; os hospitais do serviço Nacional de Saúde terminaram 2013 com menos 1648 camas do que as que estavam instaladas há quatro anos; a população espanhola cresceu sete vezes mais que a portuguesa na última década; o PIB per capita em Portugal é 15.600 euros e em Espanha é de 22.300 euros; cada trabalhador português trabalha em média 42,6 horas por semana e em Espanha o horário médio de trabalho é de 41,6 horas semanais; em dois anos o PSD perdeu mais de 30% dos  seus militantes em Lisboa; a direcção do PS enviou um email a estruturas do partido a garantir não estar assustada com as eleições europeias.


 


ARCO DA VELHA - João Rendeiro disse que os seus clientes que se queixam do Banco Privado Português se sentem lesados por serem gananciosos.


 


FOLHEAR - Há quase 20 anos Edson Athayde, um publicitário que em 1991 havia vindo do Brasil para Portugal, editou “A Publicidade Segundo O Meu Tio Olavo”. O livro foi um sucesso imediato - a foma despretenciosa como estava escrito e a maneira como contava histórias eram irresistíveis e, à época, pouco usuais. Nalgumas escolas onde se ensinava publicidade e comunicação o livro passou a fazer parte do plano de estudos. Desde há muito que estava fora de mercado e o seu autor decidiu agora fazer uma nova edição revista, actualizada com novos exemplos, expurgada de dados que entretanto se desactualizaram. De igual apenas a mesma forma de escrita, o mesmo prazer de contar histórias e de partilhar experiências e conhecimento. Aqui está um novo guia para os próximos anos, destinado a quem gosta da publicidade, a quem vive a comunicação. Como diria o Tio Olavo, citado por Edson Athayde nas primeiras páginas do livro, “Difícil é aprender a ler. O resto está escrito” (Edição Chiado Editora)


 


VER - A galeria João Esteves de Oliveira, de arte moderna e contemporânea, dedica-se a trabalhos sobre papel. É uma das mais simpáticas a acolhedoras galerias lisboetas, em pleno Chiado. Sobretudo depois das obras de ampliação que teve há alguns anos, e que permitiram aumentar a sua área de exposição, ganhou uma outra dimensão. O seu fundador e proprietário, João Esteves de Oliveira, fez boa carreira na Banca mas em 2002 decidiu que esta seria a sua nova vida e desde então juntou um significativo leque de artistas e um público fiel. A especialização em trabalhos sobre papel permitiu-lhe também um posicionamento especial, que tem conseguido manter. Na semana passada inaugurou uma das mais marcantes exposições que lá vi nos últimos anos - “Terra”, de Miguel Branco. Na maioria são desenhos a carvão sobre papel - muito intensos, misturando referências da cultura popular com a história natural, percorrendo lugares diversos e remetendo para memórias de saberes acumulados. Seria simplista dizer que esta é uma viagem pelas teorias de Darwin e pelas polémicas livrescas, académicas e teológicas que elas desencadearam ao longo dos séculos.  É talvez melhor remeter para o título, e para o que ele evoca de história da Terra e de quem a habita. (até 15 de Março, Rua Ivens 38).


 


OUVIR - Existe uma velha discussão sobre se mandolim se deve traduzir por bandolim em português. A origem da palavra é italiana mas a questão tem também a ver com a forma e a sonoridade do instrumento musical - no fundo é um pequeno instrumento com quatro cordas duplas. O bandolim tem uma caixa mais circular, o mandolim é mais oval. Para o caso estou a falar de um músico israelita, Avi Avital, que toca mandolim e que faz adaptações muito livres de temas clássicos. O ano passado fez um disco com arranjos de composições de Bach e este ano aventurou-se em composições de Bela Bartok, Heitor Villa Lobos, Astor Piazzolla, Manuel de Falla, Antonin Dvorak, Sulkhan Tsintsadze, Ernest Bloch, Vittorio Monti, Ora Bat Chaim e temas tradicionais da Bulgária e do País de Gales. Em alguns temas, como na “Aria Cantilena” de Villa Lobos, , em vez da orquestra existe o mandolim, um duplo baixo e um acordeão, no caso tocado por Richard Galliano, que participa em três temas do disco - os outros dois são de Piazzolla e de Vittorio Monti, ambos igualmente surpreendentes. (Between Worlds, Avi Avital, CD Deutsche Grammophon


 


PROVAR - Embora seja um grande apreciador das conservas portuguesas em geral, e das de anchovas em particular, confesso que nesta especialidade as anchovas do Cantábrico, de Espanha, são um caso à parte. Experimentem-nas em cima de um pedaço de bom pão levemente tostado, acompanhem com um branco do Douro, tenham por perto umas azeitonas retalhadas, e está feito um belo petisco. Se quiserem levar a coisa ainda mais a sério incluam também uns boquerones e fica o caso arrumado. Experimentem isto na próxima vez que tiverem amigos em casa e verão o sucesso - em vez de uma entrada clássica, umas tapas destas para picar. Na loja Gourmet do El Corte Ingles encontram estas anchovas do Cantábrico que estão na fotografia e também belíssimos boquerones.


 


DIXIT - “Entre Pessoa e Almada, os portugueses votaram, aliás, em Salazar” - descrição do Portugal do século XX em dez palavras por José Augusto França, no “Expresso”


 


GOSTO - O governo espanhol anunciou que está a estudar uma descida de 11 pontos percentuais do IVA no sector da cultura, que assim poderá ficar nos 10% para bilhetes de teatro e espectáculos musicais. Em Portugal aplica-se nestes casos o IVA de 23%.


 


NÃO GOSTO - A corrupção na zona Euro custa 120 mil milhões de euros por ano aos respectivos Estados, e o financiamento dos partidos e a integridade da classe política estão no topo das suas causas.


 


BACK TO BASICS - “É das coisas mais simples que nascem as melhores ideias” - Juan Miró


 

janeiro 31, 2014

Porque hão-de ser os partidos, e não os eleitores, a escolher os eleitos?

ESCOLHA - Numa edição recente da revista do “Expresso” o sociólogo Pedro Magalhães fez uma das mais interessantes propostas que tenho visto nos últimos tempos. O que ele preconiza é que os eleitores possam escolher os deputados em que votam - ou seja, que depois de escolherem o partido em que querem votar, possam ordenar os deputados da respectiva lista pela sua ordem de preferência e não pela ordem decidida pelo aparelho partidário. Ora quer-me parecer que isto acabava com aquela triste cena das guerrinhas nos aparelhos partidários pelos lugares elegíveis, guerrinha que já se está a ver a ferver por causa das próximas eleições europeias - e ainda a procissão vai no adro. A mim agrada-me a ideia de não ter que votar em candidatos de que não gosto e escolher apenas aqueles com que mais me identifico - assim acabavam-se os deputados mudos, que passam uma legislatura sem abrirem o bico e que conseguem ir a votos sem que ninguém saiba o que pensam. Por exemplo, assim, mesmo que votasse no PSD, poderia não votar no deputado referendário Hugo Soares.. Talvez esta simples medida - que aliás já está em prática em alguns países - nos poupasse a espectáculos tristes.


 


SEMANADA - As mortes por pneumonia subiram 25% no espaço de um ano; as queixas de negligência médica quintuplicaram desde 2001; em Coimbra uma cozinheira do estabelecimento prisional levava substãncias ilícitas para distribuir dentro da cadeia; na cadeia de Custóias um guarda prisional cobrava aos detidos 200 euros por cada placa de 250 gramas de haxixe; os processos de falência, insolvência e recuperação de empresas cresceram 426,3% em seis anos; o crédito malparado das empresas triplicou entre o final de 2010 e o final de 2013; a Inspecção Geral de Finanças identificou 225,9 mil euros pagos indevidamente em subsídios para bilhetes aéreos a residentes nos Açores; a fiscalização a escolas de condução, centros de exame e centros de inspecção automóvel está quase parada por falta de carros de serviço para as deslocações; em Janeiro os 49 vistos “gold” renderam 27 milhões de euros de investimento; Passos Coelho foi reeleito líder do PSD com metade dos votos que tinha obtido em 2010 e também menos que os obtidos em 2012; “nesta fase do campeonato ficar-se pelos preliminares é de facto muito pouco” - disse Miguel Cadilhe sobre a Reforma do Estado;


no último ano os portugueses pagaram mais impostos sobre o tabaco do que sobre os combustíveis.


 


ARCO DA VELHA - “Nunca houve praxes violentas. Correu aliás sempre tudo muito bem nas brincadeiras que fizeram” - Manuel Damásio, administrador da Lusófona, em declarações feitas esta semana


 


FOLHEAR - Continuo a gostar de esperar todos os meses pela “Monocle”. Gosto de a folhear, ver o que tem a sugerir, ir descobrindo as suas páginas. Mesmo sabendo que muitas das matérias são fruto de iniciativas comerciais (que os nossos vizinhos espanhóis sabem bem explorar) e são uma espécie sofisticada de publicidade redigida, gosto do critério, da escolha, do alinhamento. Nesta edição, de Fevereiro Lisboa aparece bem representada e fala-se da Mouraria, do Martim Moniz, do reviver de toda aquela zona da cidade. É engraçado porque um estrangeiro consegue descobrir na nossa cidade encantos que nós menosprezamos e para os quais nem olhamos bem. Ao ver estas três páginas dedicadas à Mouraria, fico contente. Este número tem por tema a descoberta do mundo, sobretudo daqueles locais que são menos evidentes, ou mais arredados das rotas turísticas. Aquilo que gosto mais de ler, edição após edição desta revista, são as histórias de pessoas que mudam de vida para criarem alguma coisa de novo e pessoal, histórias de pequenas empresas baseadas em ideias simples e que permitem tornar-nos a todos mais humanos e mais próximos uns dos outros. Só por isso vale a pena seguir a “Monocle”.


 


VER - Gosto de visitar galerias, gosto de ver o esforço dos galeristas em descobrir e apresentar novos artistas, às vezes em os misturarem com nomes firmados. As galerias são locais onde se pode desfrutar arte sem nada pagar - a menos que possamos e queiramos comprar uma das obras expostas. São um verdadeiro serviço público, há muito mal tratado pelo Estado - que aliás prefere ir subsidiando autarquicamente uns festivais e feiras a apoiar uma actividade continuada. Já aqui ao lado, em Espanha, o IVA das transacções de obras de artes plásticas desceu para metade, ficando abaixo do português. Uma das coisas que me dá prazer é ver uma galeria a crescer -  gosto do ambiente das noites inaugurais, quando os artistas se cruzam com os seus coleccionadores, gosto dos fins de tarde a olhar para o que de novo se faz. Uma das mais recentes galerias de Lisboa - abriu há um ano - é a Belo-Galsterer, na Rua Castilho 71, r/c esq. Por estes dias podem lá ver a exposição “paperworks”, que junta trabalhos de Ana Jotta, Carolina Almeida, Cristina Ataíde (é dela o desenho na foto), Friederike Just, Juliane Solmsdorf, Marcelo Costa, Mário Macilau, Mel O'Callaghan, Miguel Branco, Pedro Calapez, Pedro Proença, Pedro Sousa Vieira, Rui Sanches e Susana Anágua. Nos próximos sábados decorrem encontros com artistas, sempre às 17h00 - amanhã, dia 1 com Miguel Branco, dia 8 com Cristina Ataíde, dia 15 com Pedro Proença e dia 1 com Ana Jotta e Rui Sanches.


 


OUVIR - O novo álbum dos Capitão Fausto, “Pesar o Sol”, revela uma assinalável evolução e maturidade face ao disco anterior, de estreia. Instrumentalmente mais coesos, sob um pano de fundo assumidamente rock, com evocações não saudosistas da pop portuguesa dos anos 70 e 80 (sentem-se momentos da Filarmónica Fraude e até mesmo, pontualmente, do Quarteto 1111), os Capitão Fausto são uma das poucas bandas que nos últimos anos conseguiram entrar no circuito dos festivais a cantar português, procurando uma sonoridade própria e fugindo aos estereotipos das modas internacionais. Só por isso merecem ser ouvidos. E este álbum, “Pesar o Sol”, tem boas canções como “Nunca Faço Nem Metade”, “Litoral” e sobretudo “Lameira”.


 


(DESA)PROVAR - Mal influenciado pelo blogue Mesa Marcada fui experimentar o Aron Sushi, a São Sebastião da Pedreira. Foi uma má decisão, em má hora tomada. O corte do peixe é rudimentar, a tempura é desinteressante e o arroz - critério decisivo neste género de casas - é absolutamente sensaborão. Acresce que o serviço, embora simpático, é distraído - e a lentidão da cozinha, mesmo com sala apenas meia cheia,  está na proporção inversa da qualidade e interesse do que de lá sai. Na realidade a coisa revelou-se msnos interessante que os sushis abrasileirados que por aí vão proliferando. É uma experiência que não irei repetir e que vivamente não aconselho. Mas, também, quem me manda acreditar num blogue que continua a elogiar o trabalho de Vitor Sobral na Cervejaria da Esquina?


 


DIXIT - “Neste momento, esperava-se uma estratégia concreta para atacar os grandes desafios da RTP (...) em vez disso optou-se pela criação de um Conselho Geral, uma nova estrutura que assumirá quase todas as competências da tutela, diluindo a responsabilização e tornando confusa a linha de comando. Só por sorte este orgão (...) contribuirá para um melhor serviço público” - Gonçalo Reis


 


GOSTO - O fotógrafo português João Pina viu o seu trabalho sobre as ditaduras sul americanas, “Operation Condor”, ser elogiado pelo blog de fotografia do New York Times e pelo ICP - International Center Of Photography.


 


NÃO GOSTO - O PSD anunciou que vai insistir no referendo que propôs sobre a adopção e coadopção mesmo que o Tribunal Constitucional o chumbe.


 


BACK TO BASICS - É muito importante sermos capazes de falar com pessoas com as quais discordamos, nem toda a gente tem que ser capaz de cantar a mesma melodia - Pete Seeger

janeiro 24, 2014

Manual de como como criar sururu parlamentar e baralhar as presidenciais

DRAMATURGIA - No espaço de uma semana Pedro Passos Coelho conseguiu que acontecessem duas coisas inesperadas: primeiro, com a inabilidade com que tratou da proposta senil de um referendo sobre a co-adopção, levou a que uma sua fiel apoiante, Teresa Leal Coelho, se visse obrigada a demarcar-se da forma como os deputados foram obrigados a disciplina de voto - a deputada manteve a coerência, demitiu-se de vice presidente da bancada social-democrata e o PSD mostrou o seu lado mais oportunista; e, em segundo lugar, com as considerações que o líder do PSD fez sobre as características que no seu entender deve ter um candidato presidencial, deu a Marcelo Rebelo de Sousa a oportunidade de encenar o seu momento irrevogável, abriu campo para que ele fique a controlar o tabuleiro do xadrez político e precipitou um debate interno sobre os candidatos presidenciais quando ainda nem os europeus se conhecem. A dúvida está em saber se tudo isto são sinais de desorientação ou apenas o regresso da arrogância do poder. Sob o signo do unanimismo, da obediência cega e de guiões preparados com definições de personagens muito fechadas, o próximo congressos do PSD promete ter o contexto dramático de uma farsa. Quando os políticos preferem fazer teatro a discutir ideias abrem o caminho para o desinteresse dos que não precisam dos partidos para viverem. Ficam com a plateia cheia dos que são pagos para bater palmas.


 


SEMANADA - O Tribunal Constitucional aceitou que nos Açores, em nome da insularidade, os funcionários públicos recebam subsídios do Governo Regional que compensam os cortes orçamentais; depois de Lisboa, a Câmara Municipal de Sintra decidiu manter o horário de 35 horas semanais para todos os funcionários municipais; as exportações portuguesas para Espanha subiram 9,8% nos primeiros 11 meses de 2013; a dívida pública espanhola caíu para 93,12% do PIB; segundo as previsões do Eurostat a dívida pública portuguesa rondará os 128% do PIB; o número de desempregados no final de Dezembro era de 690.535, menos 2,8% que no final de 2012; o número de licenciados no desemprego é de 93 mil, mais 5,3% que há um ano; os hipermercados extinguiram em dois anos mais de seis mil empregos; o investimento de portugueses em produtos de poupança do Estado ficou 813 milhões de euros acima do previsto; a Inspecção Geral da Administração Interna acusou escola de oficiais da PSP de más práticas de gestão; os colégios  do grupo GPS, suspeitos de uso ilegal de dinheiro do Estado, estavam ligados a responsáveis da área da educação de governos PS e PSD e receberam financiamentos públicos no valor de 81 milhões de euros em 2012 e 2013; o ex-bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, é candidato às eleições europeias pelo Partido da Terra, que no anterior acto eleitoral obteve 0,66% dos votos.


 


ARCO DA VELHA - A Casa Fernando Pessoa e a Egeac, a empresa municipal que a gere, adjudicaram vários serviços por ajuste directo, desde o final de 2012, a uma empresa que está sedeada em casa da sua directora, a escritora Inês Pedrosa.


 


FOLHEAR - Chama-se “Fragmentos - Poemas, Cartas e Notas Íntimas de Marilyn Monroe” e são 270 páginas de memórias de Marilyn. O livro já foi editado há algum tempo mas só agora me chegou às mãos. A direcção de edição é de Stanley Buchtal e Bernard Comment e foi editado pela Objectiva. O prefácio desta edição, intitulado “O Pó da Borboleta” foi escrito por António Tabucchi e ele salienta: “A imagem que Marilyn Monroe deixou no mundo das imagens esconde uma alma de que poucos suspeitavam (...) Este livro, com os documentos inéditos que contém, revela a complexidade que está por detrás da imagem”. O livro termina com o elogio fúnebre de Lee Strasberg na morte de Marilyn, onde ele diz: “Ela tinha uma qualidade lumninosa, uma combinação de melancolia, de esplendor e de desejo, que a colocava numa categoria à parte e, no entanto, dava a todos o desejo de participar, de partilhar esta ingenuidade infantil ao mesmo tempo tão tímida e tão vibrante. Esta qualidade era ainda mais evidente quando estava no palco (...) Não há dúvida de que se tornaria numa das maiores actrizes do teatro”.


O livro inclui reproduções de páginas dos cadernos pessoais de Marilyn - as suas notas mas também os seus desabafos, poemas que foi escrevendo, sobretudo nos anos 50, referências às leituras que ía fazendo, algumas inesperadas para muitos. Tem também relatos que ela foi escrevendo de episódios da sua vida, numerosas fotografias, descrições do quotidiano. No fim, o que nos fica é uma imagem de sensibilidade, para além do mito do desejo.


 


VER - A partir desta semana e até 15 de Março a Galeria Baginski (Rua Capitão Leitão 51-53, ao Beato) acolhe duas exposições bem diversas. De um lado está Cecília Costa, na sua quarta mostra individual na Galeria, desta vez constituída exclusivamente por fotografia, e que ilustra esta nota. São imagens trabalhadas em torno da luz, a luz que marca o instante em que foram feitas. São olhares intímos sobre momentos apenas aparentemente banais, sempre a deixar alguma coisa subentendida para além da imagem evidente - como aliás acontece também nos seus desenhos. Do outro lado da Baginski está "A Viagem da Sala 53", um projecto com curadoria de João Silvério onde se destaca a peça de Ana Vidigal, mais uma vez construída de frases banais mas certeiras e intencionais, elas próprias fragmentos de memórias, colocadas sobre documentações que evocam tempos reais e já passados, numa dimensão impositiva, tanto quanto permite a rotina de folhas seguidas de um livro de registos tiradas do seu contexto e forma.


 


OUVIR -  Leyla McCalla tem formação clássica como violoncelista e foi criada em Nova Iorque numa família de origem haitiana. Nesta sua estreia em disco a solo pegou em poemas de Langston Hughes, um dos mais influentes representantes de uma movimento dos anos 20 do século passado que ficou conhecido como Harlem Rennaissance - poeta, dramaturgo, novelista, colunista, Hughes desenvolveu nos seus poemas, feitos a pensar no jazz, um estilo lacónico e sincopado. E é a partir dos seus poemas que McCalla trabalhou e compôs, para os interpretar de forma inesperada. Como ela agora vive em Nova Orleães escolheu também cinco canções creoulas tradicionais que funcionam como contraponto às de Hughes. O resultado, muito graças ao estilo vocal de McCalla, desprendido, simples, mas quente e aveludado, é surpreendente - tal como os arranjos: ela dedilha o violoncelo, usa um pouco de banjo e de baixo e umas percussões ocasionais. Procurem o video de uma das melhores canções do disco, “Heart Of Gold” no YouTube e, se gostarem, encomendem o CD na Amazon, que por cá dificilmente o encontram. Uma curiosidade, o álbum chama-se “Vari-Colored Songs: a Tribute to Langston Hughes” e foi fruto de um processo de crowd funding, pela plataforma kickstarter, que angariou cerca de 20 mil dolares e que permitiu a Leyla concretizar o projecto.


 


PROVAR - Localizado no Cais do Sodré, onde durante anos funcionou o Bar do Rio, o novo Station combina um restaurante no piso térreo com um bar de música no primeiro andar - um palco para DJ’s, ou não fosse Tó Ricciardi um dos promotores desta casa. O restaurante, dirigido pela chef Leonor Manita baseia-se em sabores asiáticos, principalmente o tailandês e o vietnamita. Comecemos pela sala - confortável e espaçosa, o serviço é simpático e as empregadas de mesa usam uns originais aventais da G Star Raw. A lista de vinhos é comedida na variedade e honesta nos preços. Provou-se, de entrada, uma sopa tailandesa com camarão, citronela e coentros, que excedeu as expectativas, e umas espetadas de camarão grelhado com molho teriaki, que estavam um pouco secas. Nos pratos principais muito boa nota para o caril vermelho de gambas, vieiras e lulas, uma receita tailandesa, e também para uma phad thai, uma massa com frango e gambas que estava bem no ponto. Para rematar, o gelado de manjericão - que era o gelado do dia - ganhou aplauso. A banda sonora foi soul music em bom nível e a vista, magnífica, do Tejo esteve em pano de fundo. Era uma quinta feira à noite e o restaurante estava praticamente cheio. Aqui está um local onde voltarei com prazer. Reservas pelo telefone 210 116 546 ou o mailreservas@station-club.com .


 


DIXIT - “Teremos uma campanha populista como poucas vezes se viu em Portugal” - Francisco Louçã, na SIC Notícias, sobre as próximas eleições europeias.


 


GOSTO - Da vivacidade com que o novo ano começa em termos de novos projectos de informação, com o sector digital particularmente animado.


 


NÃO GOSTO - De praxes académicas, da mesma forma que nāo gosto de praxes em geral, e da mesma forma que nāo entendo como podem as universidades tolerar a humilhaçāo como uma rotina.


 


BACK TO BASICS - Os políticos deviam ler ficção científica em vez de cobóiadas, histórias de aventuras e romances policiais - Arthur C. Clarke


 


(Publicado n'A Esquina do Rio, caderno Weekend, Jornal de Negócios de 24 de Janeiro)

janeiro 10, 2014

SOBRE A DIVERSÃO EUROPEIA

KÊÊÊÊ ? - Este ano, lá para Maio, acontecem as eleições para o Parlamento Europeu, uma instituição à espera que se descubra para que serve e qual o contributo que proporciona aos europeus, para além de garantir uma sinecura àquele pessoal político que os partidos querem recompensar ou exilar para Bruxelas, dois verbos que no europês têm tendência a confundirem-se. Uma coisa que a crise em curso fez evidenciar é a inutilidade do Parlamento Europeu face às instâncias não eleitas, das troikas aos bancários centralistas como o nosso estimado Constâncio que, por cá, no Banco de Portugal, foi suficientemente míope para não ver o elefante em loja de porcelana que se desenhava no BPN. No Parlamento Europeu pouco se faz além de preparar conspirações, como a que o prezado Rui Tavares urdiu em relação ao Bloco. O resultado da inutilidade deste orgão flutuante entre Bruxelas e Estrasburgo e a alegada importância do seu simbolismo político (que costuma ser o argumento dos seus defensores) vão cair redondos por terra quando a maioria dos seus novos deputados fôr de uma direita pouco ortodoxa e completamente fora dos cânones dos poderes vigentes, como provavelmente se verá nos idos de Maio. Não é a primeira vez que a Europa faz de coveira de si própria, mas desta feita a coisa arrisca-se a ser mais ruidosa porque a menina Le Pen não é rapariga para fica descansadinha a um canto sem se fazer ouvir - sobretudo quando se sentir muito acompanhada e aconchegada. O nosso calendário é este: uma aflição em Maio nas eleições europeias, uma incógnita em Junho com a saída da troika e uma festa permanente em Julho com o Mundial de Futebol. Uma animação…


 


SEMANADA - Um dos efeitos colaterais da troika foi tornar a palavra “recalibrar” uma dos termos mais usadas no início de 2014; numa reunião com membros do Parlamento Europeu sobre a avaliação da intervenção da troika  José Sócrates recusou-se a assumir erros na definição das metas propostas no memorando que então assinou; na mesma reunião Sócrates excluiu Teixeira dos Santos da delegação de ministros do seu Governo que estiveram ligados ao pedido de resgate; em 2012 quase metade dos proprietários de lojas de rua em Lisboa foi vítima de furto, injúrias ou vandalismo; as compras com multibanco no Natal aumentaram 4,6%; em 2013 foram constituídas 35.296 empresas, o que representa um crescimento de 12,8% face a 2012; 2013 foi o primeiro ano desde 2009 em que se verificou uma descida do numero de insolvências face ao ano anterior; numa escola de Lisboa um erro informático deixou 30 crianças sem almoço; uma empregada de limpeza roubou 30 telemóveis nas instalações da Polícia Judiciária; os sindicatos dos trabalhadores do Município de Lisboa e da Administração Local fizeram um balanço positivo da greve à recolha de lixo e admitem novas formas de luta.


 


ARCO DA VELHA - Um relógio de contagem decrescente, que aponta os dias até à saída da troika, inaugurado por Paulo Portas, apareceu errado e dava aos credores mais um mês de permanência em Portugal.


 


FOLHEAR - Julian Barnes é um dos escritores de que gosto.  Escreveu recentemente “Os Níveis da Vida”, “Levels of Life” no original e, com ele,  ganhou o Man Booker Prize. O prémio é absolutamente merecido porque se trata de um dos mais apaixonantes livros de amor que li nos últimos anos e bons livros de amor, uma coisa rara,  ultrapassam qualquer prémio. Algumas pessoas podem pensar que é um livro sobre a morte, da mulher de Barnes, Pat Kavanagh, que foi a sua agente literária.  Mas não - esta é uma obra sobre o amor e o vazio, que é outro lado do amor. Não me lembro de ter lido livro tão duro e tão apaixonante como este nos últimos tempos. É curto, lê.se numa noite e fica toda a vida, marcado entre os devaneios sobre as aventuras  dos balões que atravessam o canal da Mancha e as fotografias de Nadar que preparam o terreno para esta coisa tão simples - e tão rara - que é gostar perdidamente de alguém, gostar ao ponto de todos os minutos serem uma aventura vivida.


 


VER - Estava para escrever sobre umas exposições que vão abrir, depois sobre o Salão de Inverno d’A Pequena Galeria (fotografia, Avenida 24 de Julho 4C), mas no fim desisti porque não encontrei nada que me seduzisse e porque gosto pouco das fotografias recentes de Augusto Alves da Silva, que aparece a abrir o respectivo site. Como hoje em dia gosto de ver exposições virtuais e digitais (deve ser efeito da crise…) fico-me assim  por um site e uma aplicação para iPhone intitulada Artsy (aqui mostrada em imagem), que nos dá acesso a galerias de todo o mundo e a obras que lá estão expostas. Podemos escolher locais, géneros,  e também percorrer as sugestões apresentadas, ver uma selecção de obras, da fotografia à escultura, que estão á venda e ter uma ideia do seu preço. É como ter uma galeria no bolso ou no ecrã do computador. Por estes dias o patrocinador da aplicação é o museu de Arte de Singapura e a sua Bienal. Percorrendo a aplicação vemos obras que estão à venda em galerias em todo o mundo e podemos ter uma ideia melhor do que se vai passando por esse mundo fora.


 


OUVIR - Não gostava geralmente de discos pop portugueses cantados em inglês. Pareciam-me uma incongruência, mas estou disposto a achar que nesta segunda década deste século é um bocado absurdo ter os pruridos dos anos 80 do século passado. Já tinha gostado do disco anterior de uma banda portuguesa chamada You Can’t Win Charlie Brown, mas o seu novo trabalho, “Diffraction”, supera as minhas expectativas e reconcilia-me com o pop português. Nem sei se a banda acha graça a que eu lhe  chame pop - mas na minha cabeça, e com muito elogio incorporado, é isso mesmo que eles são - fazem canções que podem ser bem populares, bem construídas sem serem foleiras, atraentes sem serem corriqueiras. Ouve-se “Post Summer Silence” e apetece sentir o sabor dos tempos que vivemos. Ouve-se “Heartt” e sente-se a pele. Ouve-se “Under” e sente-se o corpo. Gosto desta banda, gosto deste disco. Vão tocar proximamente no CCB. Estejam atentos


 


PROVAR - Isto hoje é uma receita, simples, aliás. Foi executada horas antes destas páginas ficarem escritas. Começo por explicar que gosto de massas, sobretudo de penne, aqueles pequenos cilindros que absorvem bem paladares. Estes eram da marca Barilla e, na embalagem, requerem 11 minutos de cozedura que eu geralmente reduzo a 9. Foram cozidos em água com azeite, sal e piri piri. A água tinha antes servido para cozinhar pequenos camarões congelados, que foram extraídos antes de a massa entrar na água já em ebulição. Ao mesmo tempo que uma tigela de penne, atirei para  a água meia dúzia de tomates cherry maduros cortados ao meio. No entretanto abri e escorri uma lata dos magníficos mexilhões fumados da marca Tricana. Coloquei esses mexilhões e  os camarões num escorredor, para onde, no fim, deixei cair a massa e a sua água. Sem deixar escorrer demais voltei a colocar tudo na panela, ainda quente, remexendo com um pouco de bom azeite. Servi a seguir e acompanhei com um branco do Dão, que já me tinha feito companhia na preparação. Regalei-me. E no fim comi duas belas e nacionais clementinas. Alea jacta est, como diria um romano. Ao café ainda trinquei uma raiva - o lusitano biscoito, escusam de ficar com maus pensamentos.





DIXIT - “No primeiro semestre Passos Coelho encontrará um sapo muito  feio a quem dará um beijo de amor. E o anfíbio transformar-se-à num lindo superavit da balança comercial” - Ricardo Araújo Pereira, na Visão.


 


GOSTO - Da proposta do sociólogo Pedro Magalhães que preconiza um sistema já existente em alguns países,  em que os eleitores, quando escolhem o "seu" partido, podem ordenar os candidatos a deputados pela sua preferência e não pela ordem imposta pelas listas partidárias.


 


NÃO GOSTO - Que o antigo Cinema Londres passe a ser uma loja de roupas e de outras importações da China.


 


BACK TO BASICS - Há muito a reter daquele conhecimento que é aparentemente inútil - Bertrand Russell

janeiro 03, 2014

QUEM DESGOVERNA UMA CIDADE PODE GOVERNAR O PAÌS?

COSTISMO - Nos últimos dias de 2013 Lisboa assistiu à demonstração do que é o Costismo: mais uma vez medidas tomadas sem acautelar como podem ser cumpridas - no caso a transferência de obrigações da Câmara Municipal para as Juntas de Freguesia. Não houve cuidado na preparação, não houve cuidado na negociação com as partes interessadas, não houve cuidado na criação de mecanismos sustentáveis que permitissem uma mudança de competências sem atribulações. António Costa é o exemplo do improviso - na decisão e na execução. E, depois, no laxismo na resoluçāo dos problemas criados. O estado a que Lisboa chegou nestes dias deixa antever o que poderia acontecer ao país se Costa assumir outras responsabilidades. Para os lisboetas Costa é sinónimo de caos no trânsito, de lixo nas ruas, da "política do quero, posso e mando"; é também quem deixou as ruas da cidade cheias de folhas e detritos que entupiram as sargetas, perpetetuamente por limpar, e provocaram inundações às primeiras chuvas. É quem piorou o trânsito na Avenida da Liberdade, onde agora há ainda mais engarrafamentos nos acessos das laterais, mais engarrafamentos nas faixas centrais, mais carros estacionados em segunda fila - tudo isto com um custo de centenas de milhar de euros para obras que apenas satisfizeram as vaidades do poder autárquico e nos transformaram a todos em cobaias. Cada vez que ouço que Costa é o putativo protagonista escolhido pelo PS para o próximo ciclo de poder no país fico a temer o que se passará: se ele não é capaz de governar uma cidade, o que sucederá se lhe cabe o país na rifa das eleições? É certo que discutir política não é discutir pessoas - mas as políticas avaliam-se com as acçōes feitas e as acções políticas de António Costa fazem um mau currículo de poder.


 


SEMANADA - No início de 2014 a despesa pública continua excessiva e a reforma do Estado continua por fazer; os preços da electricidade e do gás subiram dia 1 de Janeiro; o Presidente da República promulgou o orçamento de Estado e fez mais uma intervençāo vazia; o orçamento de Estado deixou de destinar verbas à RTP;  para compensar, o Ministro Maduro transferiu despesa do Estado para os cidadãos, aumentando a contribuição obrigatória para a RTP que todos pagam na fatura da electricidade; só restam cinco dos 16 secretários de estado independentes do primeiro Governo de Passos Coelho; registaram-se nove alterações na composição do Governo desde Junho de 2011; cinco secretarias de estado já mudaram três vezes de detentor; em 2013 realizaram-se 81 greves nas empresas de transportes e comunicações; o Metropolitano de Lisboa fez 13 paralisações e a CP realizou 12;  em dez anos a Beira Interior perdeu dez mil habtitantes; 170 idosos foram dados como desaparecidos nos últimos 12 meses;  em 2013 verificaram-se 67 ataques a caixas multibanco; em três meses verificaram-se 29 roubos a carrinhas de transporte de tabaco; o tribunal da relação do Porto recusou classificar de jogo ilegal de fortuna e azar os casinos onde se joga mahjong; Portugal já atribuíu 471 vistos “gold”, dos quais 295 a chineses, cerca de três quartos do total; já no ano passado um Tribunal de Guimarães havia decidido que a “lerpa” não é um jogo de fortuna e azar.


 


ARCO DA VELHA - Graças a malabarismos estatísticos por cada euro a menos no défice a dívida pública sobe 1,1 euros porque o Governo e a troika optaram por meter na díviuda o que não querem mostrar no défice.


 


FOLHEAR - Neste começo de ano destaco uma frase impressa, em jeito de manifesto, na primeira página da edição especial de inverno da Monocle, em formato jornal: “A Monocle acredita no poder da imprensa impressa e do papel que se folheia”. Por muito que goste do digital e o use, sei que encontro refúgio seguro no papel quando quero ler alguma coisa mais profunda - algum dossier de investigação, um portfolio de fotografias, uma reportagem. A internet trouxe-nos a informação imediata, mas a reflexão e a descoberta ainda nos chegam pelo papel - e é no equilíbrio entre as duas coisas que reside o futuro da comunicação escrita. Por isso as grandes marcas da informação - as que ganharam prestígio e reputação, as que apostam na qualidade e diversidade dos conteúdos, são as que estão melhor posicionadas para conseguirem estabelecer um bom modelo de negócio nos anos mais próximos. A importância crescente dos dispositivos móveis no consumo imediato de informação, provoca o aumento de utilização de aplicações agregadoras de conteúdos como o Zte ou o Pulse - que vivem da citação de conteúdos de marcas informativas de prestígio. Hoje lê-se mais que se lia há uns anos - e essa é uma realidade. Mas só se lê, aquilo que tiver interesse e qualidade. Sem bons conteúdos o ciclo inverte-se. É a história mais velha do mundo, a seguir à outra que todos conhecemos.


 


VER - Estes são os últimos dias, até 5 de Janeiro, para ver no Museu Berardo uma exposição que reúne, sob o mote das relações entre a fotografia e o arquivo nas práticas artísticas contemporâneas, o trabalho de cerca de vinte artistas, de várias épocas e localizações geográficas, como Helena Almeida, Daniel Blaufuks, Christian Boltanski, Marcel Duchamp, Tracy Moffatt, Umrao Singh Sher-Gil, Hiroshi Sugimoto, Vivan Sundaram, Jemima Stehli, Robert Wilson ou Francesca Woodman. Se lá fôr aproveite para  visitar a  exposição “O Consumo Feliz -  Publicidade e sociedade no século XX”, que apresenta uma seleção de mais de 350 obras da Coleção Berardo de Arte Publicitária, que no total reúne um conjunto de cerca de 1500 itens. Este acervo reúne exclusivamente originais de publicidade pintados à mão, As duas exposições, bem diferentes entre si, são um belo pretexto para passar pela área de exposições do Centro Cultural de Belém.


 


OUVIR -  Acho sempre curioso quando um disco de que gosto especialmente falha na lista das edições do ano do venerando “Atual” do Expresso. Acho isso ainda mais interessante quando o disco em causa provém de um país de cuja música se fala pouco - no caso a Dinamarca. E ainda acho a coisa mais engraçada quando o disco não foi alvo de promoção especial e portanto os críticos não o recebram na caixa de correio - tiveram que o comprar, em formato físico, em digital ou então ouvi-lo em streaming. O pretexto para esta conversa é “Aventine”, da dinamarquesa Agnes Obel - cuja educação clássica como pianista foge aos cânones da pop contemporânea. Neste seu segundo disco, onde é maioritariamente acompanhada por um violoncelo, esporadicamante por violino, guitarra e harpa, retoma a criação de ambientes sonoros inesperados, pouco convencionais e onde a inquietação e a procura andam de mãos dadas - neste caso num cruzamento de rara


sensibilidade entre a palavra, a forma de cantar e os arranjos musicais. CD Play It Again Sam, na Amazon.


 


PROVAR - Se gostam da tradição culinária japonesa devem conhecer o Tomo, em Algés. Digo de propósito tradição culinária porque no Tomo a oferta não se reduz ao sushi, ao sashimi ou à tempura - tudo aliás excelente. Ali há tembém pratos cozinhados, na tradição de Quioto, de acordo com o que está disponível no dia. O menu kaiseki reflecte isso mesmo e deve ser encomendado com antecedência. Atrás do balcão está Tomoaki Kanazawa (na imagem) que, há década e meia em Portugal, decidiu há uns anos arriscar no seu próprio restaurante, depois de ter sido chef na Embaixada do Japão em Lisboa e mais tarde ter trabalhado no Aya original, da Rua das Trinas. O restaurante é despretencioso, não alinha em modas de sushi-fusão, é austero na decoração e exuberante na qualidade. Para os apreciadores da comida japonesa, o Tomo é o que resta de mais fiel às tradições deixadas por mestre Yoshitaki, o fundador do Aya. É na simplicidade das coisas que se vê e sente a diferença - é o que se passa no Tomo onde os caldos, a sopa e o arroz são diferentes do que geralmente se encontra por aí - na consistência, no sabor, na intensidade, na subtileza. Se tiver dúvidas face à lista peça conselho a Saif, o chefe de sala, de origem paquistanesa, que lhe dará sugestões. No fim aceite o que ele recomendar de sobremesa - é que o Tomo é o único restaurante japonês que se pode gabar de ter uma especialista em doçaria tradicional japonesa, Kayo Iwasaki,  O Restaurante Tomo fica na Avenida dos Bombeiros Voluntários 44, em Algés, o telefone é o 213 010  705 e encerra aos Domingos.


 


DIXIT - Citação elegante do ano:  “Não aceito lições de quem nunca fez a ponta de um corno” - Carlos Silva, secretário geral da UGT, sobre Pedro Passos Coelho.


 


GOSTO - As IPSS (Instituições Privadas de Solideriedade Social) criaram 1400 novos equipamentos sociais, incluindo creches e lares de idosos, entre 2000 e 2012.


 


NÃO GOSTO - Quase metade dos desempregados de longa duração irão ficar sem trabalho para o resto da vida


 


BACK TO BASICS - A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo - Alan Kay

dezembro 27, 2013

NA VIDA TUDO SE TRANSFORMA

TEMA- Durante uns anos criou-se a ideia de que o trabalho manual seria uma coisa menor e que as pequenas empresas não teriam futuro. Louvou-se a massificação, a dimensão e desprezou-se a produção diferente, quase artesanal. Nesse tempo as boas ideias só podiam ser boas se tivessem uma escala enorme: o resultado está à vista de todos. Mas o que é mais curioso é que a crise do crescimento acelerado abriu caminho para uma nova geração - a que vou chamar a geração do novo artesanato ou da nova manufactura, se preferirem. Os últimos anos estão cheios de bons exemplos de pessoas que perderam os seus empregos e decidiram criar qualquer coisa de seu - desde uma tarte de amêndoa a uma linha de roupa ou a um serviço de entregas personalizadas. No fim do dia o que interessa é que estas pessoas, tecnicamente qualificadas e treinadas, imaginaram um produto, aplicaram os seus conhecimentos, criaram marcas e felizmente muitas têm feito sucesso. Sempre achei que nos devemos esforçar por ver o lado bom das coisas más, mas neste caso é fácil - a crise criou uma geração de empreendedores como há muito tempo não víamos em Portugal . Todos os dias ouvimos falar de novos pequenos negócios, nas grandes cidades mas também no interior, que ao princípio arrancam baseados no esforço único do seu criador, a partir de um canto em casa, e que passado algum tempo estão a alugar instalações, a contratar pessoas, a criar procura. Em suma, estão a dinamizar a economia, contra tudo e contra todos - contra um governo demasiado apressado a impôr directivas europeias que os nossos vizinhos ignoram, contra um fisco que considera a iniciativa um pecado, contra um Estado que por princípio desconfia e é inimigo de quem faz alguma coisa de novo. Gosto destes novos empreendedores, que arriscam, inventam, resistem à pressão dos gigantes da distribuição e se afirmam pela criatividade, a qualidade e a capacidade de comunicação. Para eles vão os meus melhores votos para 2014.


 


SEMANADA - Três Secretários de Estado aproveitaram a época do Natal para se auto-oferecerem a prenda de saírem do Governo; dez mil advogados devem 3,4 milhões de euros em quotas à Ordem dos Advogados; em 15 cadeias portuguesas há 14.349 reclusos, uma média de 3,4 presos por guarda prisional; o desemprego jovem aumentou 2,2% em Novembro ; 62% das uniões celebradas em Portugal em 2012 foram casamentos civis, o que mostra a perca de predominância dos casamentos religiosos; desde 2000 tem vindo a aumentar a percentagem de casais que vivem juntos antes de casar, que agora já é de 49,6%; as Câmaras Municipais  gastaram mais em luzes e festas de Natal que em 2012;  por força da decisão do Tribunal Constitucional só no sector privado é que a idade da reforma sobe para 66 anos, a partir de Janeiro de 2014 - no Estado mantém-se nos 65 anos; a PSP levantou este ano 60 autos por protestos na Assembleia da República; este ano as falências judiciais diminuíram 0,7%, o que acontece pela primeira vez desde o início da crise; desde o início do ano as falências de particulares registaram um aumento de 4%; a receita fiscal obtida em Novembro foi 16,5% mais alta que a registada no mesmo mês do ano passado; desde 2012 Portugal pagou quase 3 mil milhões de euros à troika, em juros e comissões; desde que a troika entrou em Portugal foi cortado o apoio a cerca de dez mil idosos com baixos rendimentos.


 


ARCO DA VELHA - O relatório sobre os incêndios de Verão indica que as chefias dos bombeiros têm falta formação básica sobre fogos e aponta erros frequentes no uso do contrafogo.


 


FOLHEAR - Em 1962 foi criada uma organização chamada British Design & Art Directors, com David Bailey entre os seus fundadores. No ano seguinte começou a atribuir prémios, os célebres e muito desejados Yellow Pencils. Em 2011 a organização, entretanto transformada em Fundação, deixou de ser só britânica, globalizou-se, mudou o nome para D&AD e reflecte o que de melhor existe no design e art direction em todas as suas disciplinas. Continua a atribuir prémios e a Taschen edita o anuário. Este Natal trouxe-me o anuário de 2013, magnífico, 600 páginas em honra à criatividade aplicada à publicidade tradicional e digital, mas também à edição de livros ou de imprensa, passando ainda pela rádio e o cinema. A edição de 2013, cuja capa aqui se reproduz, tem as suas páginas de abertura dedicadas a reflectir sobre a importância da criatividade no mundo contemporâneo e sobre diferentes perspectivas para o ensino artístico e para a forma como as escolas abordam as disciplinas criativas. O Presidente da D&AD nesta edição foi Neville Brody, um dos mais conceituados designers britânicos, responsável pelo inovador grafismo da revista “Face”, depois da “Arena”, criador de capas para discos dos Cabaret Voltaire, Level 42 ou Depeche Mode, entre outros. No seu texto inicial deste livro, Brody desenvolve uma ideia interessante: “Numa época de crescente desigualdade o nosso dever é proporcionar acesso o mais amplo possível à oportunidade de os estudantes receberem ensino nas áreas creativas e não apenas nas tradicionais ciências, engenharia, tecnologia e matemárica. O dever de qualquer Governo é levar a sério as indústrias criativas e o ensino da criatividade, tão necessária para o desenvolvimento da indústria, do comércio e da cultura.”


 


VER - Proponho para estes dias entre o Natal e o fim de ano duas exposições bem diferentes. Uma está no CCB, no espaço dedicado a exposições de arquitectura, a Garagem Sul e tem um título desafiante: “África – Visões do Gabinete de Urbanização Colonial”, com curadoria de Ana Vaz Milheiro, com Ana Cannas e João Vieira. Através de um conjunto de desenhos, relatórios e fotografias, depositados no Instituto de Investigação Científica Tropical, e que são apresentados em público pela primeira vez, mostra-seuma paisagem africana desenhada e inventada a partir do coração da metrópole, em Lisboa, no período final da colonização portuguesa, entre 1944 e 1974. A outra exposição, bem diferente, está em pleno Chiado, na galeria João Esteves de Oliveira, na Rua Ivens 38. Sob o título O “Melhor do Acervo”, João Esteves de Oliveira apresenta  trabalhos em papel de artistas consagrados como  Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, Rui Chafes e artistas mais novos,  como Manuel Diogo (de quem é a obra aqui reproduzida), Vasco Futscher, Josefina Ribeiro, Carmo Posser ou Hugo Palma, entre outros.


 


OUVIR - O disco de que hoje falo é, para mim, uma das mais estimulantes edições de jazz do ano que agora está a acabar. O saxofonista norte-americano Joshua Redman chamou para o seu lado o trio dirigido pelo pianista Brad Mehldau, o baixista Larry Grenadier e o baterista Brian Blade. A tudo isto juntou uma orquestra dirigida por Dan Coleman. O resultado é um disco, “Walking Shadows”, que está no limiar entre o easy listening e um clássico. Brad Mehldau foi o produtor e teve certamente uma palavra a dizer na escolha do repertório, introduzindo temas inesperados num disco de jazz. Começo pelo “Let It Be” dos Beatles (um grupo cuja obra Mehldau gosta de revisitar) onde Redman mostra bem o seu talento de saxofonista, passando do gospel para o funk com elegância. Logo no tema de abertura, “The Folks Who Live On The Hill”, um standard de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II, Dan Coleman cria um fundo orquestral que permite a Redman mostrar o seu talento. A versão do “Adagio” de Bach é um exemplo de simplicidade com o saxofone praticamente apenas em diálogo com o baixo. Outros pontos altos são “Lush Life” ou “Easy Living” e sobretudo o trabalho de arranjos e execução em “Last Glimpse Of Gotham”, um tema do próprio Mehldau. O disco encerra com um belíssimo original de Redman, “Let Me Down Easy”. Alguns puristas acharão que a escolha do repertório é de gosto duvidoso e de um ecletismo perigoso. Eu acho a escolha provocante. E corajosa - ainda por cima com um excelente resultado final. (CD Nonesuch).


 


PROVAR - No Inverno, quando não há sardinhas e apetece um petisco, que fazer? A minha sugestão é que aproveitem as fantásticas conservas de sardinha portuguesas - e nos últimos anos têm ressurgido boas marcas antigas. Uma delas é a Fábrica de Conservas Pinhais, fundada em 1920. A Pinhais produz três variedades muito procuradas - as sardinhas em azeite virgem, as sardinhas em azeite temperado, picante, e as sardinhas em tomate. Há mesmo uma embalagem de degustação onde vêm caixas de conservas destas três variedades. A empresa, de Matosinhos, continua nas mãos da mesma família desde a fundação, utiliza os métodos tradicionais e emprega cerca de 140 pessoas. O trabalho é quase todo feito manualmente, desde a escolha e preparo da sardinha à sua colocação nas latas, o que proporciona uma qualidade diferente ao produto final. Gosto destas sardinhas como entrada, acompanhadas de um pedaço de bom pão tostado - mas há quem as arranje e tire a pele e as espinhas e misture com um esparguete. Seja como fôr, as conservas de sardinha, quando são boas, são uma grande base para a nossa petiscaria. A tradicional tiborna, que é a mais portuguesa das tapas, fica à maravilha com umas sardinhas em tomate ou picantes por cima.


 


DIXIT - “Parece-me que neste momento existem falhas no plano de ajustamento da troika” - Leonardo Mathias, Secretário de Estado da Economia, em entrevista ao jornal espanhol “Expansión”.


 


GOSTO - Da aplicação de novas tecnologias à criação e monitorização de um rebanho comunitário em Penela, para garantir a produção do queijo Rabaçal na região.


 


NÃO GOSTO - De quem escolhe a época do Natal para fazer greve e depois ainda se congratula com a acumulação de lixo nas ruas.



BACK TO BASICS - A coisa mais importante da vida é nunca deixarmos de nos questionar - Albert Einstein

dezembro 20, 2013

Sobre a influência dos algoritmos na política

ALGORITMOS - Luis de Camões não imaginaria como o seu verso “Todo o Mundo É Feito de Mudança” se revelaria tão actual séculos depois. Hoje mais que nunca a mudança é permanente - a esmagadora maioria dos recursos que utilizamos na vida moderna, baseados em software, estão permanentemente a mudar. Nos últimos 20 anos assistimos a uma transformação brutal - o foco deixou de estar no hardware e passou para o software e programas que custavam milhares de euros foram substituídos por aplicações, muitas vezes mais poderosas e eficazes, que ou são gratuitas ou custam muito pouco. Hoje em dia talvez seja mais certo dizer-se que toda a vida é feita de algoritmos em permanente alteração - porque é essa de facto a nossa nova realidade. Um artigo recente de Lev Manovich sublinhava este facto: “O software tornou-se uma linguagem universal. Aquilo que a electricidade e o motor de combustão significaram no início do século XX, pode ser comparado ao que o software significa neste início de século XXI (...) Se queremos entender as técnicas contemporãneas de comunicação, representação, simulação, análise, tomada de decisão, memória, visão, escrita e interacção temos que compreender o software.”


Tudo isto é verdade, mas o mais interessante, é que, ao mesmo tempo que a tecnologia nos rodeia e está em permanente mutação, oferecendo o que há dez anos era impensável, continuamos a querer coisas básicas na nossa vida, nas cidades onde vivemos - conforto de circulação, transportes públicos e privados que funcionem, zonas verdes bem conservadas, boas escolas públicas, bons hospitais, ruas limpas e seguras. E é curioso constatar que os políticos mais tecnocratas são aqueles que pior interpretam e satisfazem as necessidades do seu eleitorado. Por enquanto ainda não há algoritmo que resolva esta equação.





SEMANADA - Foi detectada em Braga uma fraude de sete milhões de euros em cursos profissionais e ex-dirigentes da Associação PME-Portugal foram constituídos arguidos; em época de Natal até aos fins de semana a Avenida da Liberdade, em Lisboa, continua engarrafada, a causar mais poluição do que antes das obras; quatro em cada dez portugueses confessam ficar sem dinheiro após pagar as contas do mês; o setor da construção civil fatura 7% em reabilitação urbana em Portugal, quando a média europeia é de 37%; Jorge Jesus é o 11º treinador mais bem pago do mundo; Portugal registou a quinta maior queda anual de salários na União Europeia; em 2012 Portugal foi um dos três países da OCDE a regitar maior quebra nas receitas fiscais; no primeiro semestre houve quase dez mil insolvências de empresas e particulares declaradas nos tribunais portugueses; em Portugal, ao longo dos últimos três anos, foram apreendidas 13 armas ilegais por dia; Passos Coelho admitiu que no curto prazo o Governo poderá não ter outra alternativa do que aumentar os impostos se o OE proposto pelo Governo fôr chumbado no Tribunal Constitucional; Paulo Portas admitiu que PSD e CDS podem concorrer separados às próximas legislativas; as autarquias que cobram IMI pela taxa máxima vão duplicar em 2014; os CTT esperam receber este ano 180 mil cartas dirigidas ao Pai Natal.


 


ARCO DA VELHA - O executivo municipal de Braga, liderado pelo socialista Mesquita Machado, deixou uma fatura de 150 milhões de euros para pagar até 2033 por causa de uma parceria público-privada que construíu 35 campos de futebol nas 62 freguesias do concelho - em algumas há agora dois campos.


 


FOLHEAR - Quando se abre a edição especial que a revista “Egoísta” fez neste Natal, ressurgindo, mesmo que efémera, quando já não se esperava, encontram-se logo estas palavras de Sylvia Plath: “It is a terrible thing to be so open: it is as if my heart put on a face and walked into the world”. O tema desta edição especial é a poesia e nas primeiras páginas está um portfolio fotográfico de Annie Leibowitz, que é uma revisitação de Romeu e Julieta, feita para a Vogue. Há poemas de Lu Yu, Gastão Cruz, António Ramos Rosa, Adrienne Rich, João Rui de Sousa, Eugénio de Andrade, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral, Vasco Graça Moura, Hilda Hist, Rainer Maria Rilke, Pedro Tasmen e Jaime Rocha, entre outros. Há mais fotografia de Augusto Brázio, Maria João Gonçalves, Christophe Jacrot, Ricardo Alevizos e sobretudo um imprevista e surpreendente trabalho de Pedro Cláudio. Nas ilustrações destaque para os trabalhos de  Manuel San Payo e Rodrigo Prazeres Saias. Um verdeiro número para coleccionadores. Uma preciosidade. Uma prenda de Natal para os fãs da revista.


 


VER -  Todas as razões são boas para ir ao MUDE, o Museu do Design e da Moda, que fica na Rua Augusta 24. Mas, agora, há mais uma razão, incontornável - descobrir a exposição “3553”, de Teresa Segurado Pavão, na Sala dos Cofres. O local em si é magnífico, mas a força das pequenas peças ali ganha outra dimensão - quase comovente. Na sala dos cofres privados, de aluguer,  do antigo Banco Nacional Ultramarino, o edifício onde o MUDE foi acolhido, existem 3552 cofres - e é deste número que nasce o título da exposição - evocando o cofre seguinte, na realidade inexistente, o momento que está para vir, o futuro que não se conhece. As peças expostas são objectos simples - que podem ser do quotidiano, mas podem também ser tesouros guardados - e a sua presença na sala dos cofres reforça esta ideia de tesouro que vale a pena salvaguardar. Cabe aqui elogiar o trabalho do catálogo e as fotografias de Eurico Lino do Vale, despojadas mas não neutras, que conseguem fazer retratos de objectos quase como se tivessem expressão. As peças criadas por Teresa Segurado Pavão são lindíssimas - nas formas, mas também nos pormenores. Parecem imaginadas como esculturas - quase orgânicas, como naqueles casos onde um alfinete atravessa o barro branco como se envolvesse a pele, ou quando existe a sensação de que um objecto pode ter muitos usos, dependendo da imaginação. São 120 peças, criadas de 2011 até agora. A exposição “3553” pode ser vista até ao início de Março


 


OUVIR - Sou da opinião que um disco gravado do vivo funciona muitas vezes como um tira-teimas: há músicos que fazem álbuns muito certinhos em estúdio, mas depois é o diabo quando vão para um palco e lá querem gravar alguma coisa. Felizmente no caso de António Zambujo a gravação feita em espectáculo só confirma as boas impressões deixadas pelos registos de  estúdio. O disco foi gravado ao viuvo no Coliseu, faz agora um ano, em Dezembro do ano passado, pouco tempo depois da edição do seu álbum “Quinto”. Inclui 19 temas entre os originais de  Zambujo, clássicos de Marceneiro, uma versão de uma canção de Vinicius e Banden Powell, poemas de João Monge, Aldina Duarte e Maria do Rosário Pedreira. No espectáculo gravado Zambujo acompanhou-se a si próprio à guitarra clássica e a seu lado estiveram Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Jon Luz (cavaquinho e guitarra clássica), José Miguel Conde (clarinetes), Ricardo Cruz (contrabaixo) e a participação de uma grupo de cante alentejano que o acompanhou em alguns dos temas. (CD UNIVERSAL).


 


PROVAR - Não sou muito dado a doces, mas nesta altura do ano o Bolo-Rei tira-me do sério. Aqui há uns anos achava que o da Pastelaria Cinderela, no Areeiro, era o melhor de todos - e ainda é bom. Depois passei a gostar do da Pastelaria Colombo, que era óptima e lindíssima, praticamente em frente à Versailles na Avenida da República, e que hoje é um incaracterístico MacDonalds. Esse, já não se pode provar - mas o da Versailles é ele próprio um bom sucessor. Outro que me agrada é o da pastelaria Aloma, em Campo de Ourique, na Rua Francisco Metrass. E claro, há o incontornável Bolo-Rei da Confeitaria Nacional, da Praça da Figueira, e que agora tem vários pontos de venda, um dos quais nas Amoreiras. O segredo do Bolo Rei está na massa, que deve ser leve e na qual devem como que flutuar pedaços de frutos secos e algumas passas. O segredo é conciliar a leveza com uma boa distribuição dos frutos - não podem ser demais, não podem ser de menos, não podem ficar colados ao fundo. E é escusado o Bolo Rei estar recoberto de açúcar caramelizado, algumas frutas cristalizadas - não demais - bastam. Nesta altura do ano o único doce que não dispenso é o Bolo Rei - e sou dos que não se importam que, se ele fôr dos bons, tenha dois ou trs dias. Se fõr bom não perde qualidades. E, como bem disse Miguel Estevs Cardoso, bom Bolo Rei não precisa de manteiga para nada.


 


DIXIT - “Não criei nem tenciono criar nenhum movimento” - declaração de Carvalho da Silva três dias antes de ser anunciado o movimento 3D para as eleições europeias, em que ele surge como um dos promotores.


 


GOSTO - Do levantamento dos sem-abrigo de Lisboa, feito por uma equipa de voluntários organizada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.


 


NÃO GOSTO - Está muito na moda, mas fui lá e não gostei. O Mercado de Campo de Ourique é apenas uma má cópia da ideia do Mercado de San Miguel (em Madrid), só que atravancado e com mais confusão que fulgor.


 


BACK TO BASICS - «Uma ideia que não é perigosa não merece sequer ser chamada de ideia» - Oscar Wilde





dezembro 18, 2013

SOBRA A INDIGNAÇÃO

Há semanas em que falta assunto. Esta é uma delas. Não sei do que hei-de falar, sobre que tema escrever. Não vou falar da tragédia que aconteceu durante o fim-de-semana na Praia do Meco. Olho já sem espanto para as notícias que revelam adjudicações dúbias e que envolvem figuras destacadas do PSD Porto. Fico quase sem reação quando leio que o Director demitido da PSP na sequência da invasão da escadaria do Parlamento vai para oficial de ligação da embaixada portuguesa em Paris, com a diplomática remuneração correspondente. Sorrio quando ouço Sócrates comentar o défice português e a política de austeridade. Sorrio ainda mais quando percebo que o retrato que os Gato Fedorento fizeram do país, e que só vi no YouTube, consegue ter graça no meio de toda esta desgraça – e interrogo-me sobre o porquê de terem sido tão criticados. Constato que enquanto Passos Coelho teoriza sobre a não necessidade de um acordo com o PS, o seu parceiro de coligação, Paulo Portas, afirma ser pecado não negociar com os socialistas. Passeio nas ruas de Lisboa e continuo a desesperar, num Domingo à tarde, com o que António Costa fez à Avenida da Liberdade e interrogo-me se os engarrafamentos contínuos não geram enorme poluição. Fico desanimado quando olho à volta e fico a apreciar o que se diz e o que se passa. Não ouço uma ideia transformadora vinda de quem manda – na cidade ou no país. O poder vicia e rotina-se – e quando isso acontece perde razão de ser. Eu, contrariado, começo a encolher os ombros. Já pouco me espanta, mesmo quando muito me indigna.


 


(Publicado no diário Metro de  17 de Dezembro)

dezembro 13, 2013

O VÍCIO DO PODER E A TENTAÇÃO DO ABISMO

L’ÉTAT C’EST MOI ? -  Rui Rio bateu esta semana o recorde nacional de juras de não querer ganhar protagonismo na política. Quis o acaso que  estivesse presente em várias iniciativas, desde uma plataforma que as más línguas dizem ser a sua rampa de lançamento para outros vôos, até um almoço-conferência na Associação 25 de Abril onde lançou pequenas bombas como esta: “Temos de acabar com isto de as medidas irem sempre ao Constitucional”, aproveitando para  criticar a opacidade da justiça, a vários níveis, e o seu envolvimento na política. Não contente com esta auto-proclamada ausência de posicionamento político não se coibiu também de sublinhar que admitia a possibilidade de eleições primárias, nos partidos, para escolha do candidato a Primeiro Ministro, à semelhança do sistema norte-americano. Embora reafirmando sempre não ter ambições políticas, não deixou de dizer que que o poder político é eleito para defender o interesse público, sublinhando que, na sua opinião, ao longo dos últimos 40 anos o poder político tem vindo a ficar cada vez mais refém de interesses setoriais e corporativos. Aguarda-se com curiosidade o desenrolar de novos episódios deste reality show mas uma coisa é certa: nada de novo no horizonte - Rio é mais um  a dizer uma coisa e a fazer outra.


 


SEMANADA - Crimes sexuais vitimam cinco menores por dia, a maioria é abusada por familiares e tem idades entre os 8 e 12 anos; três agentes da PSP foram agredidos numa discoteca gay do Porto quando tentavam terminar uma rixa; uma investigadora portuguesa obteve um financiamento de 1,3 milhões de euros para um estudo sobre género e direitos sexuais na Europa; Ministério dos Negócios Estrangeiros foi atacado por hackers chineses que ofereciam a Rui Machete fotos de Carla Bruni nua; PSP investiu 300 mil euros em drones voadores, motos de água e um barco semi rígido; novo código do trabalho reduziu salários em 2,3%; Banco de Portugal prevê novos aumentos salariais nos privados nos próximos anos; as mulheres ganham em média menos 16,2% que os homens na União Europeia; Passos Coelho anunciou recandidatura à liderança do PSD; Rui Rio participou numa reunião da plataforma Uma Agenda Para Portugal que agrupa uma facção do PSD; 57% dos portugueses com menos de 24 anos pensam que o seu futuro passa pelo estrangeiro; o PIB da Islândia registou um crescimento de 6,1% no terceiro trimestre; José Sócrates vai integrar o Conselho Geral da Universidade da Beira Interior  - “no fundo é um filho da terra que é reconhecido em Portugal e no estrangeiro”, afirmou o Presidente do Conselho Geral, Paquete de Oliveira.


 


ARCO DA VELHA - “Será que podemos realmente dizer que a crise ficou para trás quando há 12% da população activa sem emprego?” - interrogou-se Christine Lagarde no Parlamento Europeu, falando sobre os erros cometidos pelo FMI na aplicação de planos de austeridade.


 


VER -  2013 fica marcado pela entrada em cena de uma estrutura privada, experiente em produção e promoção de espectáculos, na organização de exposições de arte de grande dimensão e com recurso a uma comunicação invulgar nesta actividade. Trata-se da Everything Is New, de Álvaro Covões, o responsável por numerosos concertos e festivais. A primeira experiência, bem conseguida na captação de públicos, foi feita com a exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda, que atraíu dezenas de milhar de visitantes. E agora, no Museu Nacional de Arte Antiga, dando corpo a uma parceria com o Museu do Prado, a mesma Everything is New empenhou-se em criar um acontecimento em  “Rubens, Brueghel, Lorrain - A Paisagem Nórdica do Museu do Prado”, que agrupa até final de Março seis dezenas de obras de referência do museu madrileno. A intensa cobertura mediática e a publicidade, invulgares em iniciativas de Museus do Estado, têm o bom sabor da ousadia e da novidade e, espera-se poderão trazer ao Museu Nacional de Arte Antiga público em maior número que é habitual. Esta forma de trabalhar é a que pode proporcionar que novos públicos vivam a experiência da descoberta da Arte, que deixa de se esconder e se mostra sem complexos. Já agora uma palavra também para o envolvimento de uma empresa portuguesa, a Artwear, responsável pelo merchandising da exposição, e que começa a ser uma referência até a nível internacional.


 


OUVIR - Entre 1973 e 1984 existiu um grupo, a Banda do Casaco, que marcou quase sempre o panorama musical de então com um equilíbrio inovador entre as influências da música tradicional portuguesa e a descoberta de sonoridades pop e contemporâneas e, sobretudo, a experimentação de palavras da língua portuguesa e a sua introdução invulgar na estrutura musical das canções, graças às letras de António Avelar de Pinho. A Banda do Casaco, percebe-se hoje ouvindo a sua obra, ajudou a que muito pouco tempo depois se voltasse a cantar em português e se conseguisse contar histórias musicais - que se fizessem canções, afinal. Pela Banda do Casaco passaram gerações de músicos de várias áreas desde os fundadores Antònio Pinho, Luis Linhares, Celso de Carvalho e Nuno Rodrigues, a Carlos Zíngaro, Carlos Barreto, António Emiliano, Moz Carrapa, José Eduardo, Ramon Galarza, Vitor Mamede, Rão Kyao, Tó Pinheiro da Silva ou Zé Nabo e vozes como Concha, Gabriiela Schaaf, Cândida Soares, Helena Afonso ou Né Ladeiras, por exemplo. Durante esses anos foram feitos sete LP’s de originais, os dois últimos já sem a participação de António Pinho. Este ano José Fortes, uma das referências da gravação sonora em Portugal, pegou no material que originalmente tinha gravado em fita e remasterizou-o digitalmente - e o resultado é muito bom. Do trabalho saíram duas edições distintas: duas caixas, que englobam os sete discos originais, um DVD de gravações ao vivo e um CD de inéditos diversos, profusamente acompanhado por livros que enquadram a edição e reconstituem a história da Banda do Casaco, e um CD compilação - “Bada do Casaco - 40 Anos de Som”, que agrupa 16 dos mais significativos temas da história do grupo. A caixa é um exclusivo FNAC e Companhia Nacional da Música, a compilação está à venda por todo o lado e com uma magnífica capa desenhada por Carlos Zíngaro e que aqui podem ver. É uma peça única para perceber como no final da década de 80, e a partir daí, a música portuguesa evoluíu.


 


FOLHEAR - Só pela capa vale a pena reter esta edição do British Journal Of Photography, um retrato assinado por Spencer Murphy, e que faz parte do levantamento do retrato na fotografia contemporânea que é um dos pratos fortes deste número. Na série Projects há belíssimos exemplos de ensaios fotográficos, esse lado da imagem quase esquecido em Portugal: a nova classe média africana, placas fúnebres de cemitérios soviéticos, iamgens de família, a Etiópia pós-colonial ou o lugar das pessoas nas cidades. Um pouco mais à frente encontramos comunidades alternativas de skaters, invulgares mulheres madrilenas e  marginais dos Balcãs. Mas o portfolio que mais me atraíu, a seguir aos retratos, foi o dedicado a fragmentos de multidões, instantâneos da vida moderna.


 


PROVAR - Ao início era apenas no Chiado. Depois a Brasserie de L’Entrecôte mudou de donos e estendeu o seu conceito a um total de seis restaurantes, mas manteve sempre inalterado o conceito: uma entrada de salada verde fresca com nozes picadas, seguida do único prato disponível - entrecôte fatiado, mal passado a menos que se peça de outra forma, envolvido num saboroso molho Brasserie que leva 18 ingredientes, de ervas variadas a mostarda de Dijon - uma receita tradicional do Café de Paris, em Genéve. A acompanhar, batata frita feita na hora, aos palitos finos e que é servida à descrição. Parece banal mas a qualidade da carne e do seu corte, assim como o tempêro certo do molho, tornam -se um pólo de atracção para carnívoros (embora os vegetarianos tenham à sua disposição um bife de seitan). Novidades são a sandwich de entrecôte, com o dito, o respectivo molho e rúcula, e a de salmão, em pão de cereais, com rúcula e queijo creme - ambas com a batata frita da casa. ambas a 8,40 €. A carta de vinhos é variada e bem escolhida e a cerveja, Sagres de pressão, é bem tirada e cá para mim é a boa escolha para o prato. A Brasserie de l’Entrecôte abriu agora nas Amoreiras o seu sexto restaurante, no corredor de restauração onde antes estava a cervejaria Portugália, que pertence aliás aos mesmos donos. Bom serviço, atento e ágil. O menu tradicional, acima descrito, fica por 18.95 €, a que se há-de juntar tudo o resto que fôr pedido. Ao almoço, em querendo,  há um menu executivo, mais económico (12,90 €).


 


GOSTO - “Desfado”, de Ana Moura, ganhou o título de melhor disco de World Music do ano, atribuído pelo Sunday Times. Esta semana saíu uma nova edição que inclui um CD extra gravado ao vivo.


 


NAO GOSTO - A corrupção em Portugal está acima da média da zona Euro, revela um estudo da Transparency International


 


DIXIT - “Eu sou a deputada mais famosa do Parlamento Europeu (...) Há outros que ninguém sabe quem são” - Edite Estrela


 


BACK TO BASICS - Servir música ao jantar num restaurante é um insulto, tanto para o cozinheiro como para o violinista - G.K. Chesterton


 

dezembro 10, 2013

SOBRE A DENÙNCIA COMO MÉTODO

A Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, afirmou segunda-feira: "Penso que é um dever de cidadania denunciar fraudes, denunciar corrupção e outros crimes", enfatizando que o que está em causa "não é só um problema das instituições", mas também um "problema de cidadania".


Não posso estar mais de acordo com a Ministra. Acho mesmo que deve ser aberta uma linha para os cidadãos se queixarem de todos os eleitos, deputados, autarcas, membros de Governo e gestores de empresas públicas quer desbarataram dinheiros públicos, fizeram obras inúteis, favoreceram amigos em concursos, privilegiaram contratos por interesse próprio, deram benesses a familiares, amigos ou correligionários de partidos ou de sociedades mais ou menos obscuras.


 


Um Estado que é incapaz de se escrutinar a si próprio, uma classe política que em muita medida é parasita e corrupta, um sistema de financiamento de partidos que favorece negociatas, um regime que opta sempre por cobrar mais e oferecer menos, não tem moral para falar. Mais: não merece respeito nem apoio.


 


Um sistema que apela à denúncia de cidadãos contra cidadãos sendo incapaz de olhar para si próprio não merece o respeito dos eleitores. A Ministra da Justiça não conhece casos de abusos entre políticos de diversos partidos? Entre ex governantes de várias tendências? Entre deputados de várias bancadas? Não acredito que não saiba de nada, que nunca tenha ouvido falar de nada.


 


Quando a classe política se conseguir dar ao respeito e mostrar, exemplarmente, que pune quem abusa, então poderá começar a pedir alguma coisa à sociedade. Até lá, é devedora. Muito devedora de todos os que pagamos impostos, de todos os que cada vez se sentem menos inclinados a votar em eleições cujo resultado é sempre o contrário das promessas feitas.

dezembro 06, 2013

SOBRE A CRIATIVIDADE E A FALTA QUE ELA FAZ

CRIAR - Durante alguns bons anos trabalhei numa empresa que produzia para televisão. Fiz documentários, ajudei a fazer entretenimento, comprei formatos e produzi-os, aceitei encomendas e consegui fazê-las. Mais tarde, com uma pequena equipa brilhante de pessoas da RTP, trabalhei na criação e lançamento de um canal, a 2:, que foi das coisas de que me orgulho. Da mesma maneira que os escritores e os músicos dizem, com verdade, que não voltam a ler ou a ouvir os seus trabalhos depois de terminados, também nunca gostei de rever o que fiz na televisão. Mas, por acaso, sempre gostei de ver os resultados do que fazia - quer do ponto de vista quantitativo, quer qualitativo. A minha vida profissional dá-me a possibilidade de saber o que se passa na televisão sem a ver. Todos os dias sigo as audiências - confesso que é uma coisa viciante. E vejo como tudo mudou tão depressa nos últimos anos. No final do terceiro deste terceiro trimestre existiam 3,16 milhões de assinantes do serviço de televisão por subscrição, mais 149 mil do que em igual período de 2012. Estas casas significam mais de 75% do total de espectadores e têm acesso a, pelo menos, 50 canais. Eu, que vejo televisão de forma incerta, continuo encantado pelo que me entra, nesse ecrã, pela casa dentro. Sei que a televisão e a internet se namoram, que já se cruzam às vezes e quanto mais a fibra ótica avançar mais isso acontecerá.. As pessoas continuam a ver programas de televisão - mesmo que não seja num aparelho convencional, e esse é um dos encantos da mudança dos tempos. Os progressos tecnológicos nas telecomunicações vão permitir que se vejam programas de televisão de formas e em circunstâncias que ainda não imaginamos - da mesma forma que há dez anos as redes sociais como Facebook eram uma improbabilidade. Eu acredito que são os conteúdos e a criatividade que fazem mover o mundo - do ponto de vista económico, do ponto de vista social, do ponto de vista cultural. Estes tempos que vivemos, de grandes mudanças tão aceleradas, são magníficos desafios. Já repararam como há tanta criatividade nas empresas, nas artes, nas ciências e tão pouca na política, reduzida a uma repetição de chavões e fechada sobre receitas antigas? Isto dá que pensar: será que a sociedade é comandada por políticos que não a compreendem, que são incapazes de fugir de receitas antigas e avessos à inovação?





SEMANADA - A emigração para Angola mais que triplicou desde o início da crise; receitas do Turismo cresceram 7% até Setembro; o Governo esperava rescindir com 15 mil funcionários públicos mas apenas cerca de 3 mil solicitaram rescisão; o Ministro da Educação recuou no caso da prova de acesso, insentado mais de metade dos professores inicialmente abrangidos; a corrupção em Portugal regista níveis acima da média da zona Euro; o antigo presidente de Câmara do Alandroal, do PS, foi acusado pelo Ministério Público de 209 crimes de peculato; começou a guerrilha no PSD com a criação do movimento “Uma Agenda Para Portugal”, em apoio das ambições políticas de Rui Rio; Portugal é o único país comandado pela troika a sair da crise com menos população; no entretanto portugal começou a exportar a troika sob forma de um jogo de sala feito por uma pequena empresa; as PME portuguesas empregam 2,4 mihões de pessoas, ou seja 78,6% do emprego do setor privado não financeiro; segundo o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais” 15% dos utilizadores de redes sociais afirmam já ter realizado compras nesses sites; em Novembro de 2013, RTP1, SIC e TVI emitiram cerca de 213 horas de informação regular, o que representa uma média diária de 2 horas e 22 minutos por canal, e a RTP1 foi, a estação que emitiu mais notícias, com 2245 trabalhos, e a que deu mais tempo em grelha à informação regular, com cerca de 78 horas; duas candidatas a nova palavra do ano são “grandolada” e “pós-troika”.


 


ARCO DA VELHA - A Louropel é uma empresa de Famalicão que se tornou na líder mundial de fabrico de botões, produzindo entre 9 a 12 milhões de botões por dia, 25% dos quais ecológicos. Fatura 14 milhões de euros por ano, tem três fábricas e 243 trabalhadores e paga salários acima da média da região.




VER -  Hoje proponho-vos que vão ver uma loja - a loja nova de “A Vida Portuguesa”, no largo do Intendente, na antiga zona fabril da fábrica de azulejos Viúva Lamego. Ouso chamar exposição a esta loja. Uma exposição que tem  desde brinquedos a roupas, passando por conservas, azeites, produtos de cosmética ou até pastilhas elásticas. Tudo português, tudo feito em pequenas e médias empresas, tudo feito com criatividade e alma, com embalagens extraordinárias e por grandes marcas. Grandes marcas nossas - portuguesas. Catarina Portas começou há uns anos a apostar em descobrir e incentivar estes fornecedores - heróis que resistem à ditadura das grandes superfícies, ao comércio injusto que criou um sistema onde a distribuição tem lucros e os produtores têm custos - é o mundo ao contrário: sem produtores não havia comércio.  A loja em si é enorme - coexiste com as amostras dos antigos azulejos ali fabricados e que decoram partes das paredes. Quando se percorre esta loja renasce o orgulho sobre aquilo que somos capazes de fazer, sobre quem persiste em fabricar, em produzir, em se adaptar aos novos tempos. Algumas das marcas que Catarina Portas ajudou a redescobrir ganharam entretanto projecção internacional - estão nas zonas de luxo em grande cadeias de lojas em Nova Iorque, fornecem restaurantes em Londres, aparecem nas páginas de publicações como a Monocle. Estas marcas dão-nos orgulho e mostram-nos um caminho.




OUVIR - Vou gastar poucas linhas nisto: “The Marshall Mathers LP 2”, de Eminen, é um grande disco. Revivalista, tentativamente cabotino, a repisar territórios percorridos, às vezes óbvio, permanentemente provocador. Muito do que aqui está existe nas nossas memórias, mas a forma como reaparece é o que faz a diferença. 13 anos depois da versão original que lhe deu fama e proveito, Eminem faz o mais arriscado de todos os caminhos - uma viagem nostálgica que consegue convencer, com humor e sabedoria, uma sabedoria feita de lata e provocação - no fundo a melhor de todas.




FOLHEAR - Há algum tempo que não lia um livro que me divertisse tanto - e com o qual não estivesse tão de acordo - como “50 segredos politicamente incorrectos do amor”, de Pedro Marta Santos. Hoje em dia são publicados tantos livros que seguir o panorana editorial é uma tarefa impossível - ainda por cima maçadora se atentarmos nos best-sellers da chamada nova literatura portuguesa. Estou muito solidário com os que acham as estrelas literárias do presente uma bosta, desculpem-me a expressão mas melhor não me ocorre. Pedro Marta Santos felizmente escapa a essa definição e fez um livro maldito. Eu cá gosto dos livros malditos, inspiram-me bem mais que os livros bem-ditos. Além disso gosto de escritos confessionais - “marimbe-se definitivamente para a razão”, escreve o autor, antes de dizer uma evidênica: “Estaríamos todos melhor se Cristo fosse chanceler da Alemanha”. Estão a ver o que eu digo? O livro foi bem editado pela Guerra E Paz na sua colecção de Livros Politicamente Incorrectos. Bem haja.




PROVAR -  Durante meses andei a querer conhecer a Taberna Moderna - que fica na Rua dos Bacalhoeiros, a chegar ao Campo das Cebolas e à Casa dos Bicos.  Não foi fácil marcar mesa, o lugar está na moda - entre os devaneios dos novos fãs de Gin e a onda que a casa conseguiu criar. Este é um daqueles restaurantes que concilia um cozinha razoável com um entretenimento simpático. A qualidade da comida não é o único factor, o ambiente pesa mais pontos. Mas, felizmente, a comida não desagrada. Um arroz rico e de substância, chamado de Domingo, foi interessante, mas a salada de bacalhau e a salada de vieira foram mais estimulantes. O tamboril tostado com chutney também se relevou satisfatório. O tomate temperado nas entradas e o leite frito nas sobremesas ganharam votos. O serviço é simpático. O sítio é todo ele simpático. É um bom sítio, não sei bem se é só um restaurante. Fica na Rua dos Bacalhoeiros 18, está em  facebook/taberna moderna e tem o telefone 218 865 039.




GOSTO - Da nova loja das conservas que fica na Rua do Arsenal 130, em Lisboa, que tem cerca de 300 variedades de produtos, 70% dos quais são dedicados à exportação.




NÃO GOSTO - Da arrogância, a roçar o ditatorial,  de João Bilhim, numa entrevista sobre a sua comissão (que opina sobre o recrutamento de dirigentes e gestores públicos) a querer que ela tenha maior dimensão, faça maia avaliações e receba por isso pilim dos contribuintes. Se ele se leva a sério é um caso perigosíssimo: confundir um cenário com a realidade é fatal.




DIXIT - "Não tenciono colocar a minha liderança à disposição no curto prazo" - Pedro Passos Coelho




BACK TO BASICS - A democrcia é o processo que assegura que seremos governados por pessoas que nunca serão melhores do que aquilo que merecemos - George Bernard Shaw




dezembro 03, 2013

SOMOS CADA VEZ MENOS

Esta semana foi divulgado um estudo que indica que Portugal perde habitantes a um ritmo crescente e tudo indica que, quando acabar a intervenção da troika, teremos uma população menor e mais envelhecida do que aquela que tínhamos quando a crise começou. O aumento da emigração e a quebra da natalidade, em conjunto, colocam Portugal numa situação pior que qualquer outro dos países intervencionados.




Os efeitos da crise e as perspectivas nebulosas quanto ao futuro adiam decisões dos casais novos sobre mais filhos – o que quer dizer que daqui a duas décadas teremos um problema: menos novas famílias constituídas, diminuição do consumo, com, consequências que atingem vários sectores da economia.


 


Por outro lado a saída de muitos jovens que vão procurar trabalho no estrangeiro tem um reflexo directo no envelhecimento da população, o que reduz ainda mais a taxa de natalidade e agrava a situação.


 


Vários especialistas consideram, por outro lado, que o aumento da emigração dos jovens mais qualificados significa também que iremos ter menores condições de desenvolver sectores competitivos da economia. No jornal “Público” de ontem vários especialistas coincidiam no diagnóstico: “A perda de população tira ao país potencialidades de crescimento a prazo”. Porquê? – “Na prática, o que acontece é que com menos população, especialmente se a que saíu estava entre a que tinha mais qualificações, a capacidade do país para ser mais produtivo, competitivo e inovador pode perder-se durante um período muito longo de tempo.”


 


Esta situação de perca de população é um efeito colateral, mas directo, das medidas tomadas na sequência do descalabro a que se chegou. O descalabro da primeira década deste século vai deixar marcas numa geração inteira.