maio 27, 2011

(publicado dia 27 no Jornal de Negócios)

DEBATES – Dos 11 debates realizados na televisão o mais visto foi o de Sócrates com Passos Coelho, seguido de Sócrates com Paulo Portas. O menos visto entre os partidos parlamentares foi o que decorreu entre Louçã e Jerónimo de Sousa. O resto esteve quase empatado – sendo que, do restante, o debate entre Passos Coelho e Louçã foi o que registou melhor resultado. O debate entre os partidos não parlamentares teve um share de 12,4%. De uma forma geral, tirando os dois debates mais vistos, nenhum contribuíu de facto de forma significativa para o share das estações que o transmitiram – o que quer dizer, de uma forma geral, que não houve muita gente a ir expressamente à procura daqueles debates na estação onde estavam a ser transmitidos.


É certo que chamar debates ao que se passou releva de alguma boa vontade. Sócrates optou por querer subalternizar os moderadores e pretendeu sempre marcar a agenda das conversas – talvez no futuro possa ensaiar uma carreira na televisão, desde que não o façam falar inglês. Passos Coelho melhorou ao longo do ciclo e Paulo Portas foi o que mais pretendeu discutir assuntos em vez de replicar sempre a mesma ideia. Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, como o confronto entre os dois mostrou, são de uma previsibilidade total e de algum afastamento da realidade, que se acentua quando ficam a falar sozinhos um com o outro. Têm um ponto comum com Sócrates: repetem sempre os mesmos pontos fortes e parecem imutáveis face ao mundo à sua volta.


Como as primeiras sondagens desta semana também mostraram os debates contribuíram relativamente pouco para definir melhor os tendências de voto e para ajudar os indecisos a tomar posição. Tudo isto, somado aos resultados moderados de audiência, devem naturalmente fazer pensar, em próximas eleições, se não vale a pena utilizar outros modelos, mais eficazes. Em abono da verdade deve dizer-se que têm sido as máquinas partidárias, e não as estações de televisão, o grande obstáculo a que o modelo possa evoluir e ser mais eficaz no esclarecimento dos eleitores.


 


O MEU VOTO – Nas eleições de há 25 anos para cá já me abstive, já votei nulo, já votei branco e na maioria delas votei no PSD, de que aliás fui candidato, como independente, por duas ocasiões, em eleições autárquicas. Já fui algumas vezes vítima da teoria do voto útil, mas desta vez resolvi que votarei tendo em conta os candidatos que cada um escolheu, o trabalho parlamentar realizado pelos partidos e os programas apresentados - sobretudo nas áreas que pessoalmente me são mais próximas, e que têm a ver com a comunicação, o audiovisual, a política cultural e a criatividade. Tendo em conta que os cenários macro estão dominados pela catastrófica situação do país e pelo acordo com a troika,  aspectos parcelares dos programas dos partidos assumem um papel claramente de factor de diferenciação. Por outro lado é certo que a indicação de Fernando Nobre como nº 1 da lista do PSD em Lisboa, me impede, por uma questão de coerência e bom senso, de votar na lista que ele encabeça – não o achei capaz de ser Presidente da República, não o acho capaz de ser um bom deputado e muito menos acho que ele mereça ser Presidente da Assembleia da República. Por outro lado, e algumas vezes aqui escrevi isso, ao longo destes anos mais recentes o PP foi o partido de oposição com um grupo parlamentar mais actuante, regra geral com boas propostas e, por isso mesmo, o mais eficaz na luta parlamentar contra o Governo de Sócrates. Finalmente acresce que o programa do PP tem, em questões como a RTP, o incentivo às indústrias criativas, e a maior ligação entre a economia e turismo e as actividades culturais, uma abordagem geral da qual me sinto mais próximo do que daquela que o PSD apresentou. O apelo ao voto útil não pode ser encarado como razão suficiente para passar uma esponja sobre os erros cometidos, nas escolhas das listas e nas opções programáticas. Como a política não é uma religião, afasto a lógica da fé seguidista e da seita.


Por isso mesmo nestas eleições de 5 de Junho irei estrear o meu voto no CDS/PP. Faço-o para votar numa alternativa consistente ao Governo do PS, faço-o porque penso convictamente que uma democracia saudável não pode viver apenas com dois grandes partidos, faço-o porque é importante que exista um terceiro partido com peso eleitoral – só isso permitirá uma coligação equilibrada e dinâmica. Sem partidos com expressão não há coligações fortes. Estou seguro do meu voto. E contente por ser uma escolha e não uma fatalidade.


 


SEMANADA –António Costa admitiu que «há mais PS para além de Sócrates»; Francisco Assis elogiou Pedro Passos Coelho; Almeida Santos mostrou-se confiante na possibilidade de uma nova liderança do PS em caso de derrota eleitoral do PS.


 


ARCO DA VELHA – O PS andou a oferecer em Penafiel bilhetes para o oceanário Sea Life, do Porto, como contrapartida da presença no comício de José Sócrates na capital do norte, no próximo domingo. Na quarta feira mais de 200 pessoas já tinham reservado lugar nos autocarros também disponibilizados gratuitamente pelo PS.


 


COMUNICAR – Numa conferência organizada esta semana pela Associação Nacional de Comunicação de Empresa,  Nuno Morais Sarmento fez uma curiosa abordagem das evoluções recentes e sua repercussão na intervenção cívica       , nomeadamente as redes sociais. Como sublinhou, as gerações mais velhas olham para as novas ferramentas como um modelo de comunicação e as  gerações mais novas vêem estas ferramentas como uma plataforma de relacionamento, intervenção e organização. "Qual a razão para um jovem hoje optar por um modelo partidário piramidal (e cheio de filtros) quando, com um clique no Facebook pode partilhar a sua opinião de forma directa e integral?" – foi a pergunta que Morais Sarmento deixou no ar. Aqui está um excelente tema para que os dirigentes partidários reflictam, a propósito da forma como hoje em dia fazem campanha eleitorais e funcionam com as suas organizações.


 


LER –  Continuando nas recomendações de leitura em período eleitoral sugiro-vos um dos mais recentes volumes  da colecção «Ensaios» da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em parceria com a Relógio d’Água. Trata-se do muito oportuno «Portugal e o Mar», de Tiago Pitta e Cunha, consultor do Presidente da República para os assuntos da Ciência, do Ambiente e do Mar. Como autor recorda, depois da adesão europeia, « o mar foi dispensado das grandes opções políticas e económicas nacionais», com numerosos prejuízos e com uma enorme quebra de toda a actividade ligada à pesca. Portugal, recordo, dispõe da maior região marítima da União Europeia e o autor explora a possibilidade de conjugação da economia com a nossa geografia e o aproveitamento dos seus recursos. Como sempre vale a pena ver, neste período, como os diversos partidos encaram esta matéria nos seus programas.


 


OUVIR – Desta vez não vou falar de um disco, mas de um autor, de Bob Dylan, que esta semana completou 70 anos. Começou a gravar com 21 anos, tendo feito algumas das canções mais marcantes da música popular contemporânea, como «Like a Rolling Stone» ou «The Times They Are A Changin’». Mas aquilo que para mim é verdadeiramente importante em Dylan tem a ver com a forma como escreve os textos das suas canções – rompeu barreiras e preconceitos e criou uma nova forma de escrever ( e cantar) poesia. Mais – foi ele quem primeiro mostrou que alguma da melhor poesia moderna aparecia na forma de letras de canções populares e foi ele a abrir caminhos para dezenas de outros compositores, que falam do quotidiano, das suas preocupações, da guerra, da sociedade em que viviam. Esta nova poesia, vivida, cantada e actual, criou um relacionamento diferente e mais intenso com os seus públicos. Mais que um músico ou um cantor Dylan é um dos grandes poetas da segunda metade do século XX e é essa imagem que marca a sua diferença.


 


BACK TO BASICS – Quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito (William Blake)


 

O Meu Voto

Nas eleições realizadas de há 25 anos para cá já me abstive, já votei nulo, já votei branco e na maioria delas votei no PSD, de que aliás fui candidato, como independente, por duas ocasiões, em eleições autárquicas.


 


Já fui algumas vezes vítima da teoria do voto útil, mas desta vez resolvi que votarei tendo em conta os candidatos que cada um escolheu, o trabalho parlamentar realizado pelos partidos e os programas apresentados - sobretudo nas áreas que pessoalmente me são mais próximas, e que têm a ver com a comunicação, o audiovisual, a política cultural e a criatividade.


 


Tendo em conta que os cenários macro estão dominados pela catastrófica situação do país e pelo acordo com a troika,  aspectos parcelares dos programas dos partidos assumem um papel claramente de factor de diferenciação. Por outro lado é certo que a indicação de Fernando Nobre como nº 1 da lista do PSD em Lisboa, me impede, por uma questão de coerência e bom senso, de votar na lista que ele encabeça – não o achei capaz de ser Presidente da República, não o acho capaz de ser um bom deputado e muito menos acho que ele mereça ser Presidente da Assembleia da República.


 


Por outro lado, e algumas vezes aqui escrevi isso, ao longo destes anos mais recentes o PP foi o partido de oposição com um grupo parlamentar mais actuante, regra geral com boas propostas e, por isso mesmo, o mais eficaz na luta parlamentar contra o Governo de Sócrates. Finalmente acresce que o programa do PP tem, em questões como a RTP, o incentivo às indústrias criativas, e a maior ligação entre a economia e turismo e as actividades culturais, uma abordagem geral da qual me sinto mais próximo do que daquela que o PSD apresentou. O apelo ao voto útil não pode ser encarado como razão suficiente para passar uma esponja sobre os erros cometidos, nas escolhas das listas e nas opções programáticas. Como a política não é uma religião, afasto a lógica da fé seguidista e da seita.


 


Por isso mesmo nestas eleições de 5 de Junho irei estrear o meu voto no CDS/PP. Faço-o para votar numa alternativa consistente ao Governo do PS, faço-o porque penso convictamente que uma democracia saudável não pode viver apenas com dois grandes partidos, faço-o porque é importante que exista um terceiro partido com peso eleitoral – só isso permitirá uma coligação equilibrada e dinâmica. Sem partidos com expressão não há coligações fortes. Estou seguro do meu voto. E contente por ser uma escolha e não uma fatalidade.

maio 24, 2011

PORTUGAL A 3D

(Publicado nõ diário Metro de 24 de Maio)


 


Ainda não é desta que Hollywood se dedicou a fazer uma super-produção com Portugal por tema. Mas mesmo sem Hollywood, Portugal tem direito ao seu 3D, uma oferta do sempre modernaço José Sócrates. Com persistência e aquela teimosia que é seu apanágio, Sócrates dedicou-se ao longo de seis anos a este 3D:  Desemprego, Dívida e  Descalabro. A sua carreira de governante resume-se a isto – obras públicas sem nexo, descontrolo na despesa, aumento da dívida, negação da realidade. O resultado está à vista de todos.


 


Desta vez não há que atribuir culpas à herança encontrada – Sócrates governou como quis, fez o que quis, nos seis anos que leva de descalabro aumentou o nosso endividamento em 82,9 mil milhões de euros,  tanto como todos os governos juntos nos 23 anos anteriores. A única coisa de que Sócrates é recordista é no endividamento anual, no aumento do desemprego e no descalabro das contas públicas.


 


E, no entanto, para muitos, Sócrates simboliza ainda a esperança num futuro melhor – são os que não acreditam nos números, os que estão dispostos a perdoar – como se a política fosse uma questão de fé e não a análise do exercício do poder. As eleições resumem-se a isto: Sócrates quer continuar no poder. Portou-se de forma a ser reconduzido ou merece ser substituído?


 


Eu sou dos que acha que deve ser substituído. Teve tempo- seis anos -  e o resultado da sua governação é mau, nos indicadores económicos e nos indicadores sociais. Não foi capaz de reagir à alteração da conjuntura e persistiu nos erros. A sua má governação foi-se agravando ao longo do tempo, recusou-se a corrigir erros e chegou ao fim com um Governo esgotado e dividido.


 


Não se trata de ter tido azar, trata-se de ter sido incapaz. Por isso mesmo nestas eleições existe um voto profundamente inútil, que é votar para José Sócrates se manter no poder a agravar o que tem feito – porque ninguém sinceramente acredita que, de repente, ele faça bem o que passou seis anos a fazer mal.

maio 23, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de dia 20 de Maio)

COMUNICAR – O programa do PSD é um documento muito bem feito a nível do levantamento dos problemas que existem em algumas áreas, preconizando  algumas medidas desejáveis e algumas medidas possíveis; infelizmente,  é tecnicamente tão bom, quanto é difícil de utilizar do ponto de vista de comunicação. Alguém precisava de pegar neste programa e transformá-lo num manifesto, com linguagem clara, prioridades definidas, objectivos colocados de forma sintética, tudo isto divulgado de forma contemporânea e massificada. Assim, embora tenha um conteúdo político importante, arrisca-se a ser politicamente irrelevante – e isso é o pior que podia acontecer ao PSD nesta altura.


Transformando um pouco um belíssimo slogan recente, convinha que alguém dentro do PSD assumisse que Portugal é um país e não uma empresa – e que os métodos que funcionam numa empresa moderna e eficaz com uma liderança clara, não funcionam de todo num país deprimido, com um eleitorado confuso, sem liderança definida. Num país temos que balançar razão e emoção e, em comunicação, ideias a mais resultam numa má ideia e num péssimo resultado. O PSD tem um programa com boas ideias mas com muito insuficiente visibilidade. Têm duas semanas para tratar disto – e não resisto a citar o treinador do ano, André Villas Boas, em vésperas da final da Liga Europa: «O favoritismo não serve para nada».


 


PARTIDOS – Votar num partido político não é seguir uma fé cega, é escolher entre várias propostas,  comparar como cada um usou o poder e que resultados obteve. O ruído em torno do voto útil sempre me irritou um bocado e serve basicamente, em qualquer quadrante ideológico, para justificar o injustificável. As eleições têm por objectivo escolher quem tem melhores ideias, quem apresenta melhor equipa, pessoas que nos agradam e respeitamos. Votar de forma racional nos melhores é a única forma que temos por responsabilizar os partidos pelas escolhas que fazem. As eleições não são um jogo de futebol entre dois clubes – e reduzi-las a isto é passar um atestado de menoridade ao eleitorado. Como se vai vendo crescentemente, em cada vez mais países, é bom ter mais que dois partidos com expressão eleitoral significativa – até porque as eventuais coligações ficam mais fortes e estáveis.


 


TELEVISÃO – Nas últimas semanas voltou à baila o tema da privatização da RTP, de uma forma bastante confusa no entanto. Existe aqui uma questão prévia – estamos a falar de privatização da concessão do serviço público ou de privatização da empresa RTP, ou de ambas? Se estamos a falar de privatização da concessão do serviço público convém primeiro que sejam bem definidas as obrigações que o operador escolhido deve preencher e as condições em que o fará, e o que acontece a seguir à RTP. Se estamos a falar da privatização da empresa RTP temos que ver qual o seu impacte no mercado, sobretudo na situação actual. Esta não é uma questão ligeira porque a RTP, para além do universo radiofónico, que não vou aqui considerar, detém dois canais de televisão em sinal aberto, dois regionais, dois internacionais e dois canais de cabo, todos eles com receitas de publicidade, embora nos dois canais abertos com um regime especial, mais limitado que o dos operadores privados. Não há nada que impeça que a RTP possa vir a ser privatizada, no todo ou em parte – no entanto o Estado tem o dever de agir por forma a salvaguardar a concorrência e evitar um súbito desequilíbrio no mercado.


 


O mercado de televisão em sinal aberto vale, em termos publicitários,  cerca de 350 milhões de euros por ano, ou seja cerca de metade do total do investimento anual publicitário do mercado português. Este volume total não estica e não tem crescido – aliás tem diminuído de forma progressiva ao longo da última década e sobretudo nos últimos dois anos.


Por outro lado assiste-se, desde 2010, a uma quebra do investimento nos canais abertos (os da RTP , a SIC e a TVI) e a um aumento do investimento nos canais de cabo – mas convém esclarecer que, no universo da televisão, todos os canais considerados, não há um aumento mas sim uma diminuição das receitas publicitárias totais.


 


Neste ano, por exemplo, tem existido espaço livre em todos os canais comerciais – ou seja a oferta já é quase sempre maior que a procura. A consequência disto é que os preços irão ter, a manter-se esta situação,  uma tendência para diminuir ainda mais. Se por força de uma privatização da RTP, no todo ou em parte, forem disponibilizados mais seis minutos – e no pior dos cenários mais 12 minutos de publicidade por hora nos canais abertos - a oferta ainda aumentará mais e a procura não crescerá seguramente ao mesmo ritmo. Ou seja, com um excesso de oferta e a mesma procura (cenário optimista), ocorrerá uma redução ainda maior dos preços negociados, e isto tem duas consequências: os operadores de televisão terão receitas menores - o que pode pôr em causa a sua sobrevivência; e por outro lado o mercado português, que já tem uma percentagem de investimento publicitário muito alto em televisão quando comparado com outros mercados europeus, terá um desvio ainda mais acentuado – e quase inevitavelmente à custa de quebras ainda maiores no investimento em imprensa – que neste momento é o elo mais fraco da cadeia dos media.


 


Nós precisamos, em Portugal, de grupos fortes de media - só assim está assegurada a livre expressāo, um dos pilares das sociedades livres e da democracia. Enfraquecer os grupos de media é corroer a base da democracia. Qualquer movimento que se faça em relação à RTP tem que ter isto em conta.


 


ARCO DA VELHA – Os CTT cortaram o serviço à GNR em vários distritos por atrasos no pagamento das respectivas avenças postais, impossibilitando assim o envio de notificações e outros documentos (dos jornais).


 


SEMANADA – Portugal desceu três lugares no ranking da competitividade; na região norte as ofertas de emprego caíram para metade; há comarcas em que o Estado deve aos advogados oficiosos desde 2008; o blogue oficial do Ministério da Cultura publicou o programa do PS para o sector; os centros públicos das Novas Oportunidades receberam pedidos de testemunhos positivos de formandos para serem utilizados na campanha do PS.


 


LER –  Nesta época de discussão de políticas é muito útil reler «Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico», a obra de referência de Orlando Ribeiro,


publicada originalmente em 1945 e com várias actualizações e edições até 1986 e, uma edição especial, posterior, de 1993, com o texto abreviado e com fotografias de Jorge Barros. A editora Letra Livre colocou agora no mercado o texto original, «testemunhando uma visão inovadora (…)sobre a personalidade do país». Há muito esgotado, este livro que agora regressa é um apelo a que estudemos o que nos rodeia e encaremos a realidade.


 


OUVIR –  Os fãs de Burt Bacharach poderão torcer o nariz quando souberem que Ronan Keating, um ex-Boyzone, se meteu com dez canções do mestre. Mas poderão recordar-se que antes dele, outros hereges como George Michael ou Robbie Williams, percorreram os temas clássicos de Burt. Keating  escolheu, entre outros, «The Look Of Love», «Walk On By», «I’ll Never Fall On Love Again» «What the World Needs Now» ou «Make It Easy On Yourself» para mostrar que tem uma maneira pessoal de revisitar estas canções, acrescentando um assinalável trabalho de interpretação – que manifestamente não hesita em subverter a tradição, como, por exemplo, em «I Just Don’t Know What To Do With Myself», que até consegue quase deixar para trás a versão, de referência, de Dusty Springfield. Claro que a participação do próprio Burt Bacharach na produção deste disco e em alguns arranjos que refez para a ocasião, ajudam muito ao bom resultado final. E mesmo que a voz de Ronan Keating não se compare à de George Michael, ele consegue aqui um novo estatuto musical.


 


VER – A exposição de José Pedro Croft «Marcações e Territórios» na Chiado 8; a exposição de fotografia de autores africanos  «Fronteiras», na Gulbenkian, inserida no ciclo Próximo Futuro; e a exposição «O Crespúsculo dos Deuses» de João Fonte Santa na VPF Cream Art Gallery.


 


BACK TO BASICS – Eu não quero saber das campanhas eleitorais para nada. Eu quero saber das ideias que as pessoas têm e da maneira como depois as vão defender e praticar – Agostinho da Silva

maio 16, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de 13 de maio)

PROGRAMAS - Eu acho muito curioso que nesta campanha exista um partido que passa a vida a clamar pelos programas dos outros e que nunca fala do seu próprio programa. Esse partido é o PS. Seria aliás curioso analisar o programa que apresentaram , dias antes do anúncio das medidas do triunvirato, e fazer uma análise entre o que lá está escrito e o que pode ser feito e, mais importante ainda, entre o que está nesse programa e aquilo que o PS disse em programas anteriores e a sua prática enquanto Governo nesta meia dúzia de anos mais recentes, durante os quais aumentou a dívida pública portuguesa em 82,9 mil milhões de euros, quase tanto como o total dos Governos dos 23 anos anteriores. A questão que me parece importante sublinhar é esta: quem prestou más provas não pode ter boa nota; quem não quis ir à escola e depois ouviu raspanetes de estranhos por não saber a lição não pode agora armar-se em aluno de quadro de honra. Olho para Sócrates e o que vejo é um homem que durante anos foi insensível à realidade, que fintou e manipulou dados objectivos e que fez o que quis sem atender às sucessivas chamadas de atenção sobre os efeitos que a sua acção estava a ter no Estado das Finanças portuguesas. Das duas uma : ou Sócrates é surdo – e não parece; ou então vive num mundo diferente e não consegue encarar e compreender a realidade. Quem tem perturbações desta ordem, de desfasamento com a realidade, não pode ser Primeiro Ministro, quanto mais não seja por uma questão de saúde pública. Num momento destes compreendo mal que alguns partidos se entretenham a explorar medidas hipotéticas, colocando em cima da mesa cenários especulativos – é uma operação que apenas alimenta o discurso egocêntrico do PS, ainda por cima com o efeito colateral de juntar ao PS as vozes dos debilitados PC e Bloco. A única vantagem é que assim se percebe como PC e Bloco são na realidade os grandes aliados do PS – que objectivamente o estão a ajudar nesta campanha.


 


PERGUNTINHA – É engano meu ou o PEC IV, sem o financiamento que vai vir da ajuda externa, não iria servir para nada senão para agravar ainda mais a situação? ARCO DA VELHA – O PS quer ver-se livre de Sócrates, mas para isso precisa de perder as eleições – diz Eduardo Catroga.


 


SEMANADA – Sócrates acusa os outros partidos; Passos Coelho acusa Sócrates de fazer terrorismo político; todos os dias aparecem medidas e propostas avulsas; as sondagens mostram a confusão que está instalada – é o resultado da campanha que está a existir.


 


AGENDA – A Feira do Livro, que continua aberta, é um local fantástico para nos sentarmos numa esplanada a meio do parque Eduardo VII, para comermos um churro ou um cachorro e, claro, para passearmos entre livros. Há soluções engraçadas – como o túnel da Babel e outras muito eficazes, como o espaço da Leya, que claramente é o mais movimentado e aquele onde mais se vêem pessoas efectivamente em filas para comprar livros. Fica-me a dúvida se não seria possível, durante o verão, manter alguns daqueles quiosques e esplanadas como destino possível dos lisboetas, no meio de um jardim que é essencialmente para a vista mas que bem poderia ser um local de passeio se existissem alguns pontos de apoio.


 


LER – A edição de Maio da revista norte-americana «the Atlantic» é dedicada à cultura e tem a curiosidade de incluir uma série de notas sobre o processo criativo de figuras como Paul Simon, Frank Ghery ou Tim Burton, entre outros. Para além disso ainda encontra pequenos contos inéditos, nomeadamente um de Stephen King. Intitulado «the Culture Issue» esta é uma edição a não perder.


 


VER – «Five Rings», a nova exposição de Rui Chafes e Orla Barry, que estará no Museu Berardo até 21 de Agosto, é uma surpreendente combinação de palavras, objectos da natureza e das formas inesperadas que são a imagem de marca de Chafes. É curiosa a importância da palavra nesta exposição – até porque Rui Chafes tem sempre presente nas suas obras a evocação de palavras e frases de «Fragmentos» de Novalis, que ele próprio traduziu para edição em Portugal há uns anos. Ao longo das várias salas desenha-se uma narrativa de sensações que culmina numa explosão, inesperada, onde a luz e as formas do metal trabalhado se combinam num jogo de sensações. Esta é a segunda colaboração de Chafes com a irlandesa Barry, a primeira foi realizada em 2001, há dez anos. O nome e o percurso criado para a exposição fazem também pensar se não terá existido uma propositada alusão ao «Book Of Five Rings» do samurai Miyamoto Musashi, escrito em meados do século XVII e que é considerado um dos grandes textos orientais, do ponto de vista filosófico e estratégico.


 


OUVIR – Tenho muitos discos, mas poucos que tenham provocado uma impressão tão forte como este «Philarmonics», de Agnes Obel. Ele é um


a dinamarquesa de 30 anos que, depois de ter passado algum tempo em projectos colectivos, iniciou no ano passado a sua carreira a solo com este álbum que escreveu, produziu e, claro interpretou. Agnes Obel começou por tocar piano, depois durante algum tempo interessou-se pelo baixo eléctrico em duas bandas por onde passou e com quem gravou. Não conheço esses discos e da primeira vez que a ouvi, o que logo me impressionou foi a sua voz, expressiva, contida, emocionante. O disco é de uma enorme simplicidade, tão simples que se arrisca a passar despercebido. Em muitas canções mal se notam arranjos, o piano e a voz de Obel criam um ambiente austero e muito elegante. Mesmo nas faixas em que existe uma discreta percussão ou subtis acordes de violoncelo, mantém-se essa simplicidade. Nada distrai das palavras, às vezes intensas e perturbadoras, nem da voz e das melodias. O disco propositadamente valoriza a natureza e a beleza de canções como Riverside,, Over The Hill, Philarmonics ou Wallflower. A única canção que não foi escrita por Agnes é Close Watch, um original de John cale que aqui tem uma versão invulgar e atraente. CD PIAS, via Amazon.


 


PROVAR – O Sushi Café ganhou fama e proveito de ser um bom restaurante de sushi nas Amoreiras e, de outra forma, num corner no Colombo. Agora resolveu abrir porta para a rua e inaugurou há poucas semanas um novo espaço, amplo, na Rua Barata Salgueiro 28. Vamos primeiro à decoração – como o ambiente conta, esta é uma área onde se percebe logo, desde o primeiro momento, que tudo está pensado para garantir um espaço confortável e agradável para os clientes, em termos de luzes, som e das formas escolhidas para traçar o percurso e amenizar as paredes. Mas como o que, de facto, é importante num restaurante é a oferta culinária, vamos a ela. Para além da boa selecção de sushis e sashimis, ou da leveza das massas das gyosas, já conhecidas das outras casas da mesma empresa, neste espaço mostram- se outros terrenos da comida japonesa ou da aplicação de técnicas japonesas a alguns pratos portugueses – exemplos são as boas propostas baseadas em bacalhau. Estas propostas novas na carta merecem exploração –nomeadamente a forma como são cozinhados e apresentados alguns peixes e também a diversidade de pratos de carne oferecidos. Nas sobremesas não resisto a fazer destaque para o gelado de gengibre, que na minha opinião vende o bolo de chocolate, talvez doce de mais e com um toque a caramelo que distrai do essencial. Decididamente a Rua Barata Salgueiro está a ficar um pólo de restaurantes a incluir em qualquer roteiro. Telefone 211 928 158.


 


BACK TO BASICS – Os mentirosos são sempre pródigos em juras (Corneille)

maio 10, 2011

QUE GOVERNO VAMOS TER?

(Publicado no diário Metro de 10 de Maio)


 


Daqui a três semanas lá vamos a votos. O que está em cima da mesa é saber se queremos que o PS continua a ser Governo ou se queremos procurar uma alternativa.


 


Vamos a uns factos. Desde 1974, e sem contar com os governos provisórios ou de iniciativa presidencial, o PS esteve 18,6 anos no Governo e o PSD teve 15,5 anos – nalgumas vezes, em, ambos os casos, coligados com outros partidos.


 


Nos 15,5 anos de governos em que no Governo esteve o PSD registou um valor médio de endividamento público de 3,5 mil milhões por ano. Nos 18,6 anos em que o PS esteve no Governo registou-se um valor médio de endividamento público de 6,11 mil milhões de euros por ano..


 


Ao todo nos governos em que o PSD esteve  registou-se um aumento de 55 mil milhões de euros da dívida pública. Destes, 40,5 mil milhões verificaram-se nos Governos de Cavaco Silva e 14,5 mil milhões nos outros Governos do PSD.


 


Nos governo em que o PS esteve registou-se, ao todo, um aumento de 113,7 mil milhões de euros. Os governos de José Sócrates  são, por si só, responsáveis por 92,9 mil milhões de euros de dívida pública – e os de Mário Soares e António Guterres, em conjunto, por 30,8 mil milhões.


 


Vale a pena notar que os  82,9 mil milhões de dívida gerados em cerca de sete anos de governos Sócrates  são quase tanto como toda a dívida gerada por todos os outros governos ao longo de 27 anos – 85,8 mil milhões.


 


Os números são sempre uma matéria árida – mas são uma forma de olharmos para a realidade. A situação em que nos encontramos hoje é fruto da evolução destes números e do brutal aumento do nosso endividamento – um endividamento provocado por políticas, obras e medidas que não tiveram em conta a realidade das nossas capacidades. Quando se gasta mais do que se tem estamos perante um desgoverno.


 


A questão destas eleições é saber se queremos mais desgoverno ou se queremos endireitar as contas e pensar um bocadinho no futuro. Acham que com Sócrates teremos algum futuro, depois deste legado que nos deixou?

maio 09, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Maio)

DILEMA–  Qual é a margem que existe para os programas políticos dos partidos, uma vez conhecido o cadernos de encargos da Troika e da Comunidade Europeia? O cenário de enquadramento será tão apertado que, realisticamente, os partidos terão que fazer apenas exercícios tácticos , em vez de proclamarem grandes desígnios estratégicos. O único programa para  a próxima legislatura é a salvação do país e o início da recuperação da economia e das finanças. Quem disser o contrário está a enganar – como Sócrates quis fazer ao evitar dizer quais as medidas efectivas do programa. Aqueles que falarem verdade, analisarem bem a situação existente e elencarem medidas exequíveis serão os melhor colocados para discutir votos.


 


Mas não vale a pena ter ilusões: a 5 de Junho, no arco do poder, vamos estar divididos entre os que rejeitam encarar a realidade e aqueles que partem da situação que existe e a querem modificar. E, claro que, fora do arco do poder, existirão ainda os que dizem que não interessa a realidade e apenas devem contar os princípios. De certa forma estas vão ser eleições difíceis – porque exigirão que os eleitores façam eles próprios uma ruptura assumida a afinidades eleitorais passadas e consigam ser parte do processo de transformação, que é absolutamente necessário. O grande risco que corremos é que não seja perceptível, a sectores do eleitorado, que precisamos de facto de mudar de vida, de mudar de hábitos, de mudar de funcionamento. É nesta dúvida – da efectiva necessidade de mudança radical – que o PS vai jogar  e é aqui, com remédios menores e camuflagens diversas, que vai tentar manter o eleitorado - como bem se viu na declaração de José Sócrates de terça-feira em quando anunciou gloriosamente o que não vai acontecer, mas escondeu cobardemente o que também sabe que irá ser feito.


 


Um amigo meu dizia-me há dias que, fora das grandes cidades, o voto iria ser conservador, no sentido de o eleitorado poder não ver necessidades de grandes mudanças. É este o terreno, é esta a dúvida que o PS vai explorar.


 


SEMANADA – Agora tudo indica que PS e PSD souberam cedo as linhas gerais do acordo com a troika. Sócrates aproveitou o que sabia e disse o que lhe convinha, montando um festival de propaganda. O PSD ficou apenas a ver e a comentar, dando espaço a Sócrates. Mais uma semana eleitoral perdida.


 


ARCO DA VELHA – A RTP N apresenta como comentador convidado regular Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que roubou os gravadores de jornalistas da revista «Sábado» que lhe faziam perguntas incómodas e que, por isso mesmo, foi acusado pelo Ministério Público da prática de crime de atentado à liberdade de imprensa. Estranhos são os critérios de escolha de uma estação de serviço público…


 


AGENDA – No Museu Berardo já pode ver o resultado da colaboração de Orla Barry e Rui Chafes, «Five Rings». Até 15 de Maio está em acção o Indie Lisboa, com curtas e longas metragens e outras iniciativas – pode saber tudo em www.indielisboa.com. no Parque Eduardo VII continua a Feira do Livro e vale a pena ver o esforço que editoras como a Leya e, noutro plano, a Babel, fizeram para se apresentarem de forma diferente. Até 22 de Maio continua a exposição do World Press Photo no Museu da Electricidade; ainda na fotografia a K Galeria inaugurou a exposição «Processo» de Jordi Burch, centrada na imagem feminina - a K Galeria fica na Rua da Vinha 43, no Bairro Alto e pode ser visitada das 10 às 18 de segunda a sexta.


 


LER –  A edição de Maio da «Monocle» tem como tema principal a reconstrução do Japão – o que o país tem que fazer para recuperar do terramoto e o que poderá fazer para ficar ainda melhor que antes. Claro que Tyler Brulé, o fundador e director da revista, é um apaixonado pelo Japão, e portanto a sua observação sobre os dez sectores mais afectados é muito certeira. Outros artigos interessantes são sobre a cadeia de televisão árabe Al Jazeera, sobre a estação de televisão japonesa NHK, e sobre a forma como a Finlândia está a tentar recuperar das quebras verificadas pela Nokia. Na área das experiências há um artigo curioso sobre os princípios de gestão de Andrew Cogan, CEO da Knoll e sobre a forma como se pode gerir uma galeria de arte, por Harry Blain. Finalmente os lisboetas ficarão muito contentes com as quatro páginas dedicadas ao bairro da Lapa, em Lisboa – embora o prato forte em matéria de viagens seja o suplemento de 24 páginas dedicado a Barcelona.


 


VER – Ao longo dos anos Sofia Areal construiu uma imagem de marca e um estilo muito próprios e bem identificável. Começou a expor em 1982 e a sua primeira exposição individual data de 1990, estando representada em diversas colecções nacionais, institucionais e particulares. Agora Sofia Areal agrupou um conjunto de obras, de pintura e desenho, feitas entre 2000 e 2011 e deu o nome de «SIM» a esta mostra de 11 anos de trabalho. A exposição está no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional até 26 de Junho, com montagem (bem pensada) de Emília Ferreira, a mostrar a evolução da obra ao longo das várias fases que atravessou nesta década, desde as formas orgânicas iniciais, ao desenho mais intimista, até ao regresso à pintura dos últimos anos. A exposição é feita por iniciativa dos Artistas Unidos, com quem Sofia Areal trabalhou – e expôs – em diversas ocasiões. No catálogo da exposição Jorge Silva Melo escreve que estes dez anos de Sofia Areal são «uma visão que se afirma, que se intensifica, que se recria, simplificando».


 


OUVIR –  Paul Simon vai fazer 70 anos no próximo mês de Outubro e desde 1964, há 47 anos, que continua a ser um nome incontornável na música popular contemporânea. Primeiro ao lado de Art Garfunkel e, depois, a solo, foi construindo uma carreira erguida sobre canções de uma intensidade e criatividade pouco usuais, na quantidade e qualidade que conhecemos. Custa a crer que tenha passado tanto tempo desde que ele gravou «The Sound Of Silence» e quando se ouve pela primeira vez o seu novo disco «So Beautiful Or So What», acabado de lançar, tem-se a mesma sensação inicial de frescura e originalidade que é a sua imagem de marca desde o princípio da sua carreira. Nas notas introdutórias do disco Elvis Costello não hesita em dizer que o novo disco é uma das melhores obras de toda a carreira de Paul Simon, e tem razão.


 


Nos dez novos temas aqui incluídos, Paul Simon continua a descrever a vida à sua volta, citando a guerra no Iraque, as suas dúvidas pessoais mais profundas, sobre a fé ou a vida, o permanente encontro com o amor, a redescoberta da escrita e as dúvidas permanentes que povoam o universo dos homens. A produção do disco esteve a cargo do próprio Paul Simon e de Phil Ramone (que faz um soberbo trabalho). Dois destaques – para a forma como as percussões são utilizadas e para o arranjo de Gil Goldstein numa das faixas mais simbólicas do disco, «Love And Hard Times». E um elogio para a subtileza envolvente da guitarra de Paul Simon e para a forma viva e divertida como ele continua a cantar. Este é um disco fora de modas. Mas terrivelmente actual. CD Hear Music/ Universal Music


 


PROVAR – Quando lhe apetecer um restaurante pacato, com ambiente familiar e boa comida caseira pode experimentar dirigir-se para os lados da Infante Santo, no cruzamento com a Rua do Sacramento a Alcântara (que depois se transforma na Rua das Janelas Verdes). Aí fica o Restaurante Tirsense, cuja lista é estabelecida em função das disponibilidades da praça. Mas não é invulgar encontrar fantásticos jaquinzinhos ou uns bem preparados filetes de polvo, acompanhados de arroz de grelos, bem malandro e saboroso. Se tiver dúvidas nas escolhas peça sugestões à D. Lia, que ela há-de ter prazer em ajudar. Para começar, a sopa de hortaliça é um regalo e, para terminar, o arroz doce é imperdível. A acompanhar o café vem um daqueles pequenos bombons antigos, embrulhado em prata colorida. As mesas são confortáveis e bem postas, os guardanapos são de pano e duas pessoas fazem a festa por pouco mais de trinta euros, incluindo sopa, sobremesa e vinho da casa. O Tirsense fica no nº48 da Rua do Sacramento a Alcântara, é preciso descer umas escadinhas do nível da rua para o passeio inferior, onde está a porta. O telefone é 213 977 246.


 


BACK TO BASICS – A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano (Voltaire)

maio 03, 2011

A tanga do programa

(Publicado no diário Metro de 3 de Maio)


 


O candidato do PS a Primeiro Ministro, José Sócrates, usa a táctica da cassette: gosta de repetir uma frase vezes sem fim, na esperança de que, de tanto ser repetida, as pessoas se convençam. É o que tem feito em relação à questão do programa eleitoral, procurando convencer os eleitores que o PSD não terá programa a apresentar e que ele, despachado como é, já  apresentou o do PS.


 


Não é preciso ser especialista em política, nem ter os dons do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, para perceber que não serve de muito apresentar um programa eleitoral que, depois, entre em choque com o conjunto de medidas que a Troika do FMI e União Europeia estão quase a apresentar para viabilizar a ajuda financeira a Portugal.


 


Na realidade o bom senso manda que as negociações fiquem completadas e que os principais partidos cheguem a acordo com a troika sobre as medidas que estão dispostos a subscrever, para que, depois, cada um, apresente as suas melhores propostas, baseadas no quadro do que será possível fazer, e não daquilo que se gostaria de fazer mas provavelmente, em muitas áreas, não se poderá concretizar.


 


O candidato do PS, convém recordar, é useiro nesta táctica: já nas duas eleições anteriores fez programas eleitorais e promessas diversas – em matéria fiscal, de emprego, de apoios sociais – que depois teve de retirar à pressa mal se sentou na cadeira de Primeiro- Ministro. De maneira que de uma coisa temos a certeza: o candidato Sócrates do PS promete umas coisas que depois o Primeiro Ministro Sócrates não cumpre.


 


Como Primeiro Ministro José Sócrates foi o que mais distante ficou dos programas eleitorais que tinha traçado e, já agora, o que piores resultados apresentou em matéria de agravamento das contas públicas – de facto as suas promessas dizem uma coisa e os seus actos mostram outra, bem diferente. Quem quiser continuar a acreditar em promessas que não têm nada  a  ver com a realidade tem Sócrates do seu lado.  E já sabemos aquilo que ele faz.

abril 29, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 29 de Abril)

PESADELO – Quando olho para o que se passa no país pergunto-me se o PSD já percebeu que existe uma campanha eleitoral a decorrer e eleições marcadas para 5 de Junho.  É raro o dia em que alguém próximo do PSD não avança com uma proposta que depois tem de ser rectificada. Está a ser demasiado frequente que existam oscilações de posições em questões cruciais. O problema não é apenas de eficácia de comunicação – começa a ser perceptível que existe um problema, maior, de conteúdo e de coordenação de propostas. Sinceramente espero que seja resolvido. Seria lamentável que estas eleições entregassem o ouro ao bandido por falta de comparência do adversário. É certo que os discursos do Pátio dos Bichos sublinharam que os partidos políticos em Portugal funcionam mal e que o país não se esgota nos partidos. É certo que a maior prova de que o sistema político funciona mal é a falta de espírito auto-crítico por falta dos oradores do Pátio dos Bichos: quem os ouvisse acharia que eles nunca tiveram responsabilidades aqui na terrinha. Quando chegar o dia das eleições pensem nisto: não estão satisfeitos com o estado das coisas, com os efeitos das anteriores eleições? Então usem o voto para punir quem nos levou até aqui. É para isso que ele serve.


 


GASTADOR  – António Costa mudou-se para o Intendente. As obras de recuperação do local onde se instalou custaram à Câmara Municipal cerca de 670.000 euros. Costa diz que vai ficar ali – na antiga fábrica Viúva Lamego – durante dois anos. A CML pagou o arrendamento por 10 anos, justificando que assim recuperava o edifício. Não se sabe o que lá vai acontecer a seguir a Costa sair. Gostava de saber quanto vai custar – em custos directos e indirectos – esta mudança, mas admitamos que dizer um milhão não será muito exagero e se calhar até peca por defeito. António Costa diz que o investimento se justifica para recuperar o Intendente e eliminar o estigma de zona de prostituição e droga. Eu acho que com este milhão, basicamente destinado a uma operação de propaganda política do Presidente da Câmara, se conseguia fazer bem mais pela recuperação do Intendente do que com o simbolismo de uma instalação artificial e forçada. E assim se vai gastando o pouco dinheiro que resta – de qualquer forma quem vier a seguir é que há-de pagar a factura.


 


ARCO DA VELHA – José Lello, do PS, chamou «foleiro» a Cavaco Silva no Facebook, por causa da forma como decorreram as comemorações do 25 de Abril no Palácio de Belém. Depois de ter sido zurzido por todo o lado, incluindo o PS, apareceu a dizer que se tinha enganado na tecla e que queria dizer apenas que o Presidente «não tinha sido suficientemente abrangente». Ainda não tinha percebido que foleiro queria dizer com falta de abrangência. Sempre a aprender…


 


SEMANADA – Segunda-feira Sócrates disse que Teixeira dos Santos não tinha estado no Palácio de Belém porque estava a negociar com a troika. Terça-feira soube-se que Teixeira dos Santos passou o feriado em sua casa, no norte, não tendo levado consigo nenhum membro da troika; terça-feira à noite, na entrevista à TVI, Sócrates disse que ele e Teixeira dos Santos eram muito amigos e que não havia problema algum entre ambos.


 


LER –  A edição de Maio da «Vanity Fair» traz na capa Rob Lowe, tronco nu, olhar decidido e músculos realçados. O estilo da capa tem a assinatura de Annie Leibowitz e serve de apresentação aos excertos da auto-biografia de Lowe, intitulada «Stories I Only Tell My Friends», que será publicada em breve e onde ele conta aquilo por que passou em Hollywood até ganhar fama. Outro motivo de interesse desta edição é a história da relação, longa e intensa (50 anos quase), de Picasso com a sua amante Marie Therése Walker, que inspirou muitas das suas obras e que está presente em quadros como a Guernica. Finalmente uma razão suplementar para ler esta «Vanity Fair» é o excelente artigo de Joseph E. Stiglitz (Prémio Nobel da Economia em 2001) sobre o aprofundamento do fosso social nos Estados Unidos e as consequências desse aprofundamento de diferenças no funcionamento das sociedades. Chama-.se «Of the 1%, by the 1%, for the 1%» e devem poder encontrá-lo no site da revista.


 


VER – Em pouco tempo eis a segunda exposição de Pedro Calapez em Lisboa, desta vez na Fundação PLMJ, Rua Rodrigues Sampaio 29. Comissariada por Miguel Amado, integrada na programação OFF da PLMJ, destinada a artistas portugueses e da CPLP,  a exposição “Kickflip” vai buscar inspiração aos desportos radicais e à cultura urbana contemporânea. Nesta mostra estão quatro obras feitas para a ocasião, de pintura e escultura, assim como duas outras obras inéditas em Lisboa. “Kickflip” ficará patente até 9 de Junho, de quarta a sábado, entre as 15 e as 19 horas. É um contraste interessante com a outra exposição, desenhos recentes sobre papel, que continua na Galeria João Esteves de Oliveira, Rua Ivens 38, até 6 de Maio (de terça a sábado entre as 11 e as 19h30). Bom programa para a tarde deste sábado – ver ambas as exposições de Calapez e sentir as várias formas do seu olhar.


 


OUVIR –  Em 1964, estava Ray Charles a fazer 34 anos, gravou num auditório de Los Angeles um dos seus espectáculos. Um ano depois foi editado o LP “Ray Charles Live in Concert” , que durante muitos anos foi a gravação ao vivo de referência na obra do cantor, em excelente forma vocal, acompanhado por um grupo de músicos com os quais tinha um entendimento perfeito. Também a forma de Ray Charles tocar piano e órgão está em evidência nesta gravação, que foi agora integralmente remasterizada, ganhando brilho e qualidade sonora. Este registo nunca tinha sido editado em CD, de forma que há muito que o original era uma raridade. A nova edição inclui sete temas que não tinham sido incluídos na edição original, entre os quais uma bela versão de «Georgia On My Mind». Além disso o disco original incluía, e aqui mantém-se a única garvação que Ray Charles fez de «Makin’ Whoopee», um improviso em que intervêm apenas Ray, um baixista e um baterista. O novo CD, editado pela Concord para a Universal, inclui 17 temas, o início e o o fim do concerto, assim como notas de edição que ajudam a enquadrar esta gravação no seu tempo. Um disco absolutamente fantástico e surpreendente.


 


PROVAR – Ainda não é desta que fiquei cliente das casas de comida patrocinadas por Vitor Sobral. Curioso com o sururu comunicacional criado a propósito da abertura da Cervejaria da Esquina lá me dirigi numa destas noites, sozinho, para experimentar se isto seria verdadeiramente uma cervejaria. Pois não é – é um local que quer ser uma cervejaria mas está disfarçado de outra coisa qualquer. Para cervejaria falta-lhe uma boa diversidade da bebida que a devia inspirar, limitada que está ao patrocínio da Sociedade Central de Cervejas, o que é pena. E falta-lhe simplicidade básica, o que é ainda pior – sobretudo porque o que falta  sobra em pretensão. Já agora, também lhe falta ambiente e clima e sobra-lhe preço. Situada em Campo de Ourique, numa esquina da Rua Correia Teles, onde antes existia a Pastelaria Bonina (cuja fachada foi em parte mantida), a decoração do interior é sem história e, na minha opinião pessoal, sem grande gosto. Pode ser que tenha tido azar, mas os camarões da costa, pequeninos, vieram cozidos demais – ou então estavam naturalmente moles em demasia, o que ainda é pior. O bife do lombo era de boa qualidade, mas nadava num molho excessivamente intenso e que tinha um travo estranho, prejudicando a experiência de um bom e tradicional bife frito. As batatas fritas eram boas. Por 150 gramas de camarão da costa recozido e um bife que tirava o curso de nadador salvador em molho cremoso, mais duas imperiais daquela marca de que não gosto, paguei 34,75 euros. Conheço várias cervejarias em Lisboa onde se come melhor por bastante menos. E com melhor ambiente até – que o daqui era apenas o de seguidores de modas passageiras e devotos de guias da cidade para turistas. Tel. 213 874 644.


 


BACK TO BASICS – Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura. Eça de Queiroz, 1891


 

The Future's So Bright You Gotta Wear Shades

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O título desta nota é extraído de  uma canção brilhante dos Timbuk 3, já com uns anos,mas que reflecte bem a situação em que nos encontramos.


 


Uma das coisas que me deixa surpreendido é que o PSD esteja sistematicamente a confundir dois planos: o estratégico e o táctico.


 


Como bem disse aqui o meu blogmate LPM, o pano de fundo da actual campanha está condicionado pelas regras que forem ditadas por quem nos vai prestar ajuda financeira.


 


Por isso se percebe mal que o PS tenha apresentado um programa que ignora esta circunstância, dias antes de as conclusões da troika serem conhecidas, e que o PSD se desdobre em iniciativas que estão fora do estreito corredor onde a acção política efectiva se poderá processar, como parecem muitas das ideias surgidas da iniciativa «Mais Sociedade».


 


Eu, se fosse aos promotores da iniciativa «Mais Sociedade», tinha pura e simplesmente arrumado as coisas até depois das eleições - porque a missão de pensamento estratégico deste think-tank ficou irremediavelmente comprometida pela convocação súbita de eleições e pelas circunstâncias em que elas vão decorrer - com o pano de fundo do acordo que a troika financiadora pretende obter dos principais partidos.


 


Ainda por cima, mesmo que não existisse troika, dificilmente as reflexões estratégicas a médio longo prazo que a «Mais Sociedade» pretende produzir seriam úteis e eficazes do ponto de vista táctico face à conjuntura existente.


 


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Quarta-feira, no «Negócios da Semana» (SIC Notícias), José Gomes Ferreira teve a presença de António Carrapatoso e João Duque e tivemos ali um bom exemplo de como estes dois promotores da iniciativa (mais João Duque que Carrapatoso) não compreendem que estão a falar num tempo diferente daquele em que estão a reflectir - o que provoca que as suas reflexões, nesta altura, e não sendo para acção imediata, como ambos acabaram por dizer, sejam absolutamente contraproducentes do ponto de vista objectivo quanto à clareza da mensagem de uma oposição ao PS.


 


João Duque, por exemplo, quando abordou a questão das formas de o Estado intervir no desemprego, passou sempre ao lado do facto de actualmente estarmos perante um crescente desemprego qualificado, que cada vez atinge mais pessoas acima dos 45 anos, com experiência e formação, e que não encontram apoio na reconversão profissional por parte dos organismos do Estado (preparados basicamente para o desemprego desqualificado), organismos que não estão minimamente preparados para lidar com estas novas situações - e que são as que vão crescer a curto-médio prazo. Como passou por cima desta realidade preconizou medidas gerais que só podem causar perplexidade aos novos desempregados - antagonizando-os.


 


Na sequência desta conversa de ontem na SIC Notícias fui ver o site do «Mais Sociedade» e a primeira impressão, dos documentos e de alguns papers que lá se encontram, é que basicamente apanham generalidades e pecam por falta de atenção ao detalhe - o que é natural porque a convocação de eleições veio encurtar o tempo previsto para a reflexão. Por exemplo na área da cultura o vazio de ideias é confrangedor face à realidade e existe até, paradoxalmente, um espírito predominantemente estatista e burocrático, em aparente contradição com outras áreas da iniciativa. Assim, no meio desta confusão, faria talvez mais sentido parar o processo e retomá-lo mais à frente, fora da pressão eleitoral.


 


É que, a continuar, a confusão das mensagens apenas penaliza aqueles a quem era suposto fornecer inputs. E, salvo erro, o objectivo da acção política é ganhar o poder para depois tomar medidas. Claro que convém saber o que se vai fazer em termos imediatos - mas isso, infelizmente está condicionado. E não estamos portanto a falar de estratégia a longo prazo, devemos falar de táctica para ganhar o poder e executar da melhor forma um programa que em grande parte é ditado pelas circunstãncias sem grande margem para fugas. O futuro imediato não será brilhante. É escusado pintá-lo ainda mais de negro.


 


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abril 26, 2011

Como utilizar a Democracia? - Despedir quem governa mal!

(Publicado no Metro de 26 de Abril)


 


37 anos depois do 25 de Abril vivemos um dos piores momentos da nossa democracia. Anos de alheamento da realidade e de incompetência pura e simples conduziram-nos a um ponto de endividamento, público e privado, terrível. Passámos décadas a fazer construções, com betão, cimento e asfalto, como se fossemos todos meninos a construir Legos sem querer saber do dia de amanhã. Demos todos os direitos por adquiridos, mas fugimos quando ao longe ouvimos dizer que também há deveres. A pesadíssima factura está aí e vai ser dura de pagar.



Os políticos cá da terra seguiram exactamente o mesmo rumo que os demais: irresponsabilidade regada com um despudorado apego ao poder. Com os aparelhos partidários e as campanhas eleitorais sustentados durante anos pelas grandes construtoras (no pais) e até pelas médias e pequenas (nas autarquias), os políticos da praça comprometeram o futuro em troca de licenças e adjudicações de obras.


Fizeram-se auto-estradas paralelas umas às outras, imaginaram-se projectos gigantescos mas não se cuidou de mais nada. Pelo contrario, aceitaram-se, em troca dos dinheiros comunitários para as auto-estradas, imposições que liquidaram a nossa agricultura e a nossa pesca. Como sempre os empregos criados nas grandes obras foram voláteis e desapareceram. A indústria portuguesa tornou-se menos competitiva e centenas de fábricas fecharam. Hoje em dia produzimos muito menos e estamos muito mais dependentes do exterior. Portugal tornou-se um país de serviços subalternos e não tratou de cuidar do futuro – este é o legado da classe política ao fim de quase quatro décadas.


 


Talvez fosse altura de olharmos bem para os candidatos e ver o que fizeram. Talvez fosse bom olhar para estes seis anos de Sócrates e ver como era o pais antes, e como é agora. Talvez fosse bom recordar todas as promessas que Sócrates fez e que negou logo a seguir às eleições. E talvez fosse bom dar-lhe uma pesada derrota eleitoral. É a única paga possível para o que ele nos fez. A democracia serve para usar o voto para pôr na rua quem governou mal.


 

abril 23, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de 21 de Abril)

VOTAR – O conservadorismo do nosso sistema político e partidário é também aferido pela posição dos partidos face aos debates na televisão. A SIC propôs uma pequena variação do modelo existente, muito na linha do que se faz nos outros países, para permitir que os líderes partidários possam ser confrontados com perguntas directas dos espectadores/eleitores. Pois os partidos recusaram e impuseram o modelo vigente de A debate com B e por aí fora. Eu não percebo como é que os responsáveis partidários querem atrair votantes se não se esforçam por descer à terra e se continuam a mostrar a maior insensibilidade pela necessidade de fazer uma comunicação que seja atraente, em vez da propaganda antiga em que persistem e que tão maus resultados tem dado – em termos de participação eleitoral. Se calhar temos que perceber que os partidos não querem atrair votantes e estão contentes com os elevados níveis de abstencionismo, desde que consigam os seus pedaços de poder. Não é o sentido mais profundo da democracia que lhes interessa, mas apenas a forma de maximizar a utilização do sistema em proveito e poder próprios. Por falar nisto acho que devia existir uma campanha para convencer a «geração à rasca» que o voto pode ser uma forma de manifestarem opinião – se votarem mesmo serão muito mais eficazes do que se estiverem apenas limitados ao Facebook, por muito importante que ele seja hoje em dia – e é, mas não conta votos. Finalmente – espero que a Comissão Nacional de Eleições faça uma campanha de apelo ao voto para ir buscar novos eleitores e aumentar a participação eleitoral. Algo me diz que desse ponto de vista a coisa não vai correr bem.


 


REALIDADE – Manuel Villaverde Cabral, numa entrevista ao «Correio da Manhã», recordou uma realidade que às vezes escapa às memórias mais distraídas: nos últimos 40 anos o FMI já foi chamado três vezes e sempre pela mão do PS. Claro que desta vez o descalabro é maior e os remédios que virão na receita serão bem mais difíceis de tragar. Mas isso não impede que todos devamos fixar o facto de os governos liderados por socialistas terem uma grande tendência para darem cabo das contas públicas e de ignorarem as chamadas de atenção à realidade. Para além deste facto há outro, muito grave, que se traduz nisto: nos últimos anos aumentou de forma brutal em Portugal o fosso entre os mais pobres e os mais ricos. Há uma década o nosso país era mais equilibrado e menos injusto – anos e anos de PS no poder provocaram de facto um agravar das injustiças sociais e da diferença entre quem mais recebe e quem menos tem. Este fosso é o legado que Sócrates nos deixa e é uma das principais razões para não se votar nele.


 


LISBOA – Enquanto António Costa vai vendo como consegue passar sem grandes danos no meio da crise do PS, Lisboa, a cidade que ele devia governar, está cada vez mais velha e vazia, ao contrario do resto da região. De acordo com um estudo do Observatório Regional de Lisboa e Vale do Tejo, acontece que Sintra, Seixal, Vila Franca de Xira, Moita e Mafra são os concelhos mais jovens e dinâmicos da região. Lisboa é um conselho que tem envelhecido e perdido gente, incapaz de atrair os mais novos. No país, entre 2000 e 2009 a população cresceu 3,73%, na grande Lisboa a população cresceu 6,3%, mas o concelho de Lisboa perdeu no mesmo período 15,58%. Os habitantes de Lisboa são punidos no dia-a-dia por persistirem em viver numa cidade que é mais governada para quem a visita do que para quem nela vive – apesar de serem os seus habitantes que pagam as taxas, os impostos, as multas da EMEL, a sobranceria das obras eternas e da degradação. Lisboa pode ser uma cidade fantástica para os turistas que nos visitam, mas para quem cá vive é uma metrópole cara, desconfortável e incómoda: não há outra explicação para que perca tanta população numa década.


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que roubou os gravadores a jornalistas da «Sábado», e que é alvo de um processo por crime contra a liberdade de impresa, instaurado pelo ministério Público, foi de novo escolhido por Sócrates para integrar as listas do PS nos Açores.


 


SEMANADA – O bastonário da Ordem dos Advogados apelou a que os eleitores não votem; Mário Soares percebeu finalmente que a Europa está em desagregação; Freitas do Amaral afirmou que não votará em Sócrates, mas está indeciso entre PSD e PP; Mário Soares critica o comportamento do PS e PSD na pré-campanha eleitoral e elogia a posição que o PP tem mantido; Fernando Nobre disse uma coisa e o seu contrário no espaço de 48 horas – da entrevista ao «Expresso» até à entrevista na televisão.


 


FRASE - «Fernando Nobre é o perpétuo desmentido de si próprio» - Fernando Sobral, no «Pulo do Gato», deste jornal.


 


LER – Eis um tema melindroso: «a intenção é o Animal e  a tentação descai para o Homem», assim escreve Mário Assis Ferreira nesta edição da revista «Egoísta», que dirige,  cujo tema é exactamente o ser animal. Não sei se diga que este número da Egoísta é mais para ler ou mais para ver, já que as opções de edição fotográfica da revista estão cada vez mais apelativas. A edição deste trimestre, datada de Março abre bem com José Luís Peixoto, e o seu texto “Trabalhos Sensíveis”, que começa assim: “ Se há uma coisa que tenho aprendido com os bichos-da-seda é que o ódio não faz falta neste mundo”. Há nomes a escrever, bem, nesta edição: Filipa Leal. Maria Manuel Viana ou Henrique Botequilha – e há clássicos, como Hélia Correia, simplesmente genial. Na fotografia há imagens superiores de Augusto Brázio, de Céu Guarda e de Valter Vinagre.


 


VER – Na Fundação de Serralves está desde esta semana uma exposição imperdível - «In Intinere», de José Barrias, um artista português que vive em Milão e que durante alguns anos preparou minuciosamente esta sua mostra. É uma exposição invulgar porque trabalha sobre o próprio espaço, quer usando as paredes como suporte de textos escolhidos, de citações a breves notas, quer alterando a arquitectura das salas. Em qualquer caso coloca o espectador como participante numa viagem onde as referências à história da arte se misturam com referências pessoalíssimas do autor, algumas íntimas, como na sala que evoca a vida de Barrias. Mas em todos os casos está patente a imaginação e a criatividade – seja na encenação dos espaços, seja nos desenhos e na pintura. É uma exposição cheia de pormenores, pensadíssima, e que desafia quem a visita a tornar-se cúmplice do autor. A exposição está pensada e montada como uma narrativa que vai levantado aos poucos o véu sobre o trabalho do artista e que culmina na apoteose final da perspectiva que nos conduz de novo à origem das coisas. É quase uma encenação teatral que faz de cada visitante um actor, que percorre o universo proposto por José Barrias. Em Serralves, até 3 de Julho.


 


OUVIR –  Daniel Hope é um dos mais aplaudidos violinistas contemporâneos e «The Romantic Violinist» é o seu mais recente disco, pensado como uma homenagem a Joseph Joachin, um dos maiores violinistas do século XIX.  O disco, que inclui repertório do próprio Joseph Joachin e de outros compositores marcantes como Bruch, Brahms, Schubert ou Dvorak. Acompanhado pela Real Orquestra Filarmónica de Estocolmo, dirigida por Sakari Oramo, Daniel Hope tem também a companhia do pianista Sebastian Kramer numa interpretação exemplar das «Romanze» de Joseph Joachin e da soprano Anne Sofie von Otter numa canção de Brahms. CD Deutsche Grammophon.


 


PROVAR – Numa das mais prestigiadas listas dos melhores restaurantes do mundo, divulgada esta semana, aparece um único português – o Vila Joya, dirigido pelo chefe Dieter Koschina, colocado na 79ª posição. O Vila Joya, localizado na Galé, no Algarve, é o único restaurante português com duas estrelas Michelin – mas seria injusto dizer apenas isto. Trata-se de um local único, de uma cozinha verdadeiramente de excepção, baseada na extrema qualidade dos ingredientes e na criatividade na forma de os tratar, sem exageros nem modernices gratuitas. Ir lá jantar é uma experiência e uma aventura na descoberta de paladares. O jantar consta de sete pratos, da entrada à sobremesa, mas não se pense que é um exagero impossível – a qualidade da cozinha faz com que a refeição se passe de descoberta em descoberta e sem qualquer sensação de enfado. A reserva é obrigatória, o  jantar fica em  135 euros por pessoa, mais os vinhos, escolhidos de uma carta que inclui muitas preciosidades. O serviço é absolutamente inexcedível. Telef 289 591 795.


 


BACK TO BASICS – «O socialismo terá valor simplesmente porque levará ao individualismo» - Oscar Wilde

abril 21, 2011

Esvaziar Lisboa

(publicado no diário Metro de 19 de Abril)


 


Cada vez que um empreiteiro abre um buraco numa rua de Lisboa a reparação provoca um solavanco. Não há tampas de esgoto niveladas com o resto do pavimento e cada nova  vala resulta num buraco ou numa lomba - cada remendo é uma armadilha.


 


Quem por estas dias descer a Marquês da Fronteira, frente ao El Corte Ingles, depara-se com buracos onde estavam postes de obras, com bocados de cimento no pavimento, com uma anarquia  que se prolonga pela Duque de Ávila. Nesta última artéria o caos está instalado quase há uma década, graças à arrogância do Metropolitano de Lisboa e ao deixa-andar da Câmara Municipal – o fim das obras já vai atrasado mais de três anos sobre o prazo original e o  desrespeito das autoridades que governam a cidade pelos seus habitantes é total.


 


A Câmara Municipal de Lisboa, sobretudo com António Costa, encara os munícipes apenas como fonte de rendimento – impostos, taxas, multas da EMEL; mas não encara os munícipes com o pessoas que têm direitos.


 


O troço de rua entre o Jardim de S. Pedro de Alcântara e o Cais do Sodré quase tem mais obstáculos e buracos que uma pista de motocross. A situação repete-se nas zonas mais antigas de Lisboa onde a deterioração do pavimento e as armadilhas são totais.


 


Os peões também têm razão de queixa – passeios ondulados, sujos, que não são lavados e se tornam uma armadilha escorregadia, buracos na calçada pensados para fazer tropeçar quem vai a pé.


 


Lisboa é uma cidade tão bonita para os estrangeiros que cá vêm passar um fim de semana, como pouco confortável e desagradável para quem cá vive.


 


O resultado disto está á vista: a cidade perde cada vez mais habitantes, a sua população está envelhecida. Quem opta por viver em Lisboa pode contar com uma perseguição bem organizada por parte da Câmara Municipal, mas escusa de pensar que os impostos que paga lhe podem valer alguma coisa. As autoridades da cidade preferiam que Lisboa não tivesse habitantes – assim teriam menos incómodo e ouviriam menos queixas. Pelos vistos trabalham com esse objectivo.


 

abril 18, 2011

(Publicado No Jornal de Negócios de 15 de Abril)

ILUSIONISMO – Os próximos meses vão mostrar como o Governo, em vez de governar, ser sério e encarar os problemas de frente, transformou o poder num exercício quotidiano de ilusionismo. Estamos a meio de Abril e já é patente que a redução de custos na administração pública se está a fazer na base de uma orçamentação irrealista – tudo foi sub-orçamentado para caber nesta politica do esconde-esconde. Já se percebeu que faltam coisas básicas nos hospitais, que nas forças de segurança e no exército as contas foram muito mal feitas e desconfio que os próximos meses vão trazer dolorosas surpresas – não pela mão do FMI, mas pelo que se tornará patente do malabarismo que a equipa de Teixeira dos Santos e Sócrates andou a fazer. Tudo o que está a acontecer – e o que aí vem – tornará mais claro que chegámos  à situação em que estamos por causa da acção do executivo ao longo dos últimos seis anos e não por causa do derrube do Governo.


 


Já percebemos que este vai ser um ano terrível – para muita gente o  subsidio de desemprego está a acabar; os preços vão aumentar, sobretudo o dos alimentos; é inevitável que aumente o preço dos transportes. A fome e a miséria vão tocar a muitas portas que as não conhecem. O país, que se transformou num gigantesco hipermercado onde comprar se tornou mais importante que produzir,  resume-se a isto: temos uma agricultura e um sector das pescas destroçados e uma indústria sufocada e, nalguns sectores, em vias de extinção. De Madrid chegam notícias de que a Espanha está a sair da crise e nos supermercados portugueses só encontro alhos e fruta espanhola.


 


Organismos internacionais dizem que Portugal vai ser o único pais europeu em recessão em 2012. Batemos no fundo – e a única vantagem de bater no fundo é que daqui para a frente é mais fácil fazer coisas bem feitas, até porque é difícil fazer pior. A negociação com o FMI tem um único grande desafio pela frente: como aplicar os remédios, dando ao mesmo tempo as vitaminas necessárias para começarmos a crescer?


 


 


ARCO DA VELHA – Os descontos efectuados para o IRS, Caixa Geral de Aposentações e Segurança Social a cerca de 50.000 agentes de forças de segurança não foram pagos pelo patrão Estado ao cobrador Estado. Se um empresário fizer isto arrisca-se a ir preso, por reter dinheiro que foi cobrado aos seus funcionários. E quem vai preso no Estado?


 


 


SEMANADA – O PS mostrou-se unido; o PSD apareceu partido; Manuela Ferreira leite recusou integrar as listas do PSD; Luis Filipe Menezes recusou integrar as listas do PSD; Marques Mendes recusou integrar as listas do PSD; António Capucho recusou integrar as listas do PSD; Fernando Nobre aceitou integrar as listas de deputados do PSD; Fernando Nobre fez saber que se não chegar a ser Presidente da assembleia da República também não quer ser deputado.


 


 


AGENDA – Na edição desta semana da “Newsweek” não perder o belíssimo e oportuno artigo sobre Francis Fukuyama – o que ele tem feito, as suas preocupações actuais em Stanford, o modo como vê o mundo hoje em dia – e ele, Fukuyama, mudou, percebe-se logo. Ainda por cima as cinco páginas que a revista lhe dedica são acompanhadas por excelentes fotografias, numa demonstração do que, de forma simples, pode ainda ser feito na imprensa.


 


 


LER –  Infelizmente a VASP resolveu aumentar em Portugal o preço de venda da edição norte-americana da Wired para 10,20€ - escandaloso se pensarmos que o PVP original nos Estados Unidos é de 4.99 US$. Assim, para evitar alimentar a especulação da VASP, resolvi passar a ler a Wired no iPad, onde cada edição custa apenas 2.99€ e tem, ainda por cima, muito mais conteúdos. Está feito o aviso à navegação, passemos ao conteúdo. A edição de Abril é dedicada à criatividade, sobretudo aplicada a novos projectos – ideias interessantes que se podem tornar negócio – desde cortadores de relva a mobiliário, passando por roupa. E como arranjar fundos para desenvolver estes projectos – a Wired relata a experiência do Kickstarter, um site originalmente pensado para angariar fundos para projectos artísticos, mas que agora também proporciona captação de investimento inicial para projectos empresariais. Vejam o site www.kickstarter.com que vale a pena. E é uma bela ideia para tempos como os que vivemos.


 


 


VER – Manuel João Vieira é músico, cantor, ex-candidato à Presidência da República e artista plástico – e com um bocadinho de esforço ainda lhe encontrava outras actividades. Mais conhecido como músico nos Ena Pá 2000, nos Irmãos Catita ou nos Corações de Atum, Manuel João Vieira é um bom pintor, que traz às suas obras o humor que atravessa a sua carreira musical. Nos seus desenhos e quadros, cheios de pequenos pormenores e com um traço minucioso, vê-se como ele é um observador implacável, que retrata o ridículo e interpreta de uma forma muito peculiar a realidade à sua volta.


 


Tem um desenho característico e uma utilização das cores também muito marcada e pessoal. O universo das suas obras vive no domínio do fantástico e da manipulação dos corpos e constrói situações complexas, e surreais, com uma aparência de simplicidade. A Galeria Valbom apresenta aquela que deve ser a sua maior exposição de sempre e que, além das pinturas e desenhos, inclui algumas esculturas, uma instalação e um vídeo. No actual panorama lisboeta é uma exposição imperdível, cáustica mas onde o talento e a transbordante criatividade do autor são bem patentes. A exposição tem o título «A mão esquerda contra a mão direita» e vem assinada por Manuel Vieira como Orgasmo Carlos como Manuel Vieira. Avenida Conde Valbom 89-A, de segunda a sábado das 13 às 19h30.


 


OUVIR –  Bill Frisell é um guitarrista norte-americano de 60 anos com uma longa carreira no jazz. Vinicius Cantuária é um músico e cantor brasileiro, também com 60 anos, com longa carreira mas pouco conhecido entre nós. Ambos juntaram-se para fazer «Lágrimas Mexicanas», um disco inesperado e irresistível, onde o calor e  ritmo tropicais transmitidos por Vinicius Cantuária se conjugam na perfeição com as sonoridades oriundas dos blues, do jazz e do country da guitarra de Bill Frisell.


 


Aqui e ali há aromas de outros ritmos, como no «Cafezinho», a atirar para o rockabilly ou o pop de «Lágrimas de Amor» ou, ainda, as referências a Scott Joplin em «Briga de Namorados». A faixa que dá o nome ao álbum, “Lágrimas Mexicanas” é uma esp explosão de ritmos e de energia num e, finalmente, «Calle 7» é a melhor síntese do que ambos conseguiram, uma evocação de um passeio na Sétima Avenida numa mistura de culturas que é a essência da Nova Iorque.


 


Este dueto é deliciosamente bizarro porque está baseado naquilo que pode tornar um dueto uma coisa séria: a sintonia entre os dois músicos que conseguem combinar a criatividade de cada um de forma natural. Vinicius Cantuária tem estabelecido uma reputação sólida como um dos grandes herdeiros do tropicalismo e tem enveredado por um experimentalismo que nunca abandona as referências populares, mas que aproveita tudo o que pode ser feito com a sua guitarra, voz e percussão e Bill Frisell é um dos magos da guitarra, acústica e eléctrica, e que crescentemente recorre à electrónica para trabalhar as sonoridades e acentuar a improvisação.


 


É certo que a forma como Vinicius Cantuária canta é irresistível, mas neste disco a qualidade da execução instrumental, a sua riqueza e variedade, é verdadeiramente invulgar. E muito melhor que a maior parte das brasileiradas da moda que por aí aparecem. CD Naive, via Amazon.


 


PROVAR – Com este calorzinho só apetece um gelado, Se não quiserem ir ao Santini, ao Chiado, podem experimentar as propostas de sabores do Artisani – que tem uma bela esplanada na Doca de Santo e uma loja simpática na Pedro Álvares Cabral 65, ao pé da Estrela (esta nas noites de sexta e sábado está aberta até às onze), Entre as especialidades da casa há uma espécie de bolos gelados, como os Pinguins ou a revisitação do clássico esquimó fresquinho. A Artisani, recordo os amnésicos, foi a casa que no Natal passado teve a ideia de fazer um gelado de Bolo Rei e que tem cupcakes gelados. Imaginação é o mote desta gelataria que apresenta sabores como canela e mel.


 


BACK TO BASICS Toda a nossa ciência, confrontada com a realidade, é primitiva e infantil – Albert Einstein


 


 

abril 12, 2011

TRÊS QUESTÕES PRÉ-ELEITORAIS

1 – Não sei bem se hei-de dizer que os Congressos partidários hoje em dia se aproximam mais de um comício, se de uma missa. Se calhar são uma mistura das duas coisas – oportunidade mediática com horas de directos de televisão, em conjunto com  a catarse de uma reunião de fiéis, deliciados com a homilia do pregador de serviço. Seja como for Sócrates mostrou que é um belo pregador e disposto a partir em cruzada contra os infiéis. Conseguiu impor-se como factor de unidade – o que não é obra pouca. Parte para a contenda com um partido unido – e tenho impressão que não se pode dizer exactamente o mesmo sobre o PSD.


2 - Eu acho que é normal que o pensamento de cada um vá mudando e evoluindo. E também acho que apoiar-se um partido deve ser cada vez menos uma questão de fé, e sim de razão – baseado num programa, em medidas concretas, num objectivo.  Mais do que nunca, o voto é táctico. Confesso que não sou grande simpatizante de Fernando Nobre e escrevi aqui, na altura das presidenciais, que desconfio sempre de quem a certa altura usa  o protagonismo alcançado em ONG’s para se dedicar à política sem grande programa próprio. Não vou sequer falar de incoerências – mas por mais voltas que dê à cabeça, não consigo perceber o estranho caso de Fernando Nobre - nem do lado dele, nem do lado do PSD. Não me parece que seja grande ideia candidatar a Presidente da Assembleia da República alguém que nunca foi deputado – o cargo, tem sido tradicionalmente reservado a quem tem uma longa e activa vida parlamentar e política, que culmina naturalmente naquele lugar. Assim, parece uma convenção de ilusionistas: Sócrates tirou Ferro Rodrigues da cartola e Passos Coelho sacou Fernando Nobre. Lá está: uma escolha entre pessoas, à frente de uma escolha de ideias, propostas e programas.

3 – Em todo o caso no dia 5 de Junho, para mim, o voto será feito tendo em conta a melhor forma de garantir que será necessária uma coligação, que a decisão de tudo não ficará na mão de um só partido. Acho que só assim existirá alguma salvaguarda futura.


 


(Publicado no diário Metro de 12 de Abril)

(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Abril)

A ENTREVISTA – Quando a RTP 1 programou uma entrevista com José Sócrates para segunda-feira passada, a nova Direcção de Informação da estação estava a correr um risco. Nuno Santos pensou que o tema lhe traria boas audiências – como aconteceu (a entrevista foi, no global de todos os canais, o terceiro programa mais visto do dia), e quis inaugurar o seu mandato a dar que falar. O risco vinha do comportamento de Sócrates, habitualmente arrogante com os jornalistas, e que tem, fruto de muito treino, o hábito de não responder a perguntas concretas e dizer apenas o que lhe interessa. No entanto, nesta entrevista, ele passou das marcas e claramente tentou intimidar os jornalistas – desde as expressões faciais de enfado e desagrado com algumas perguntas, até proferir observações, que não lhe ficam bem, sobre as razões de algumas questões. Acontece que com comportamentos destes Sócrates só dá trunfos aos defensores da privatização da RTP e aos que clamam que o serviço público está sempre em riscos de servir de porta voz governamental. Tivesse Sócrates respondido às perguntas e não fosse tão arrogante para com jornalistas, outra coisa seria. Quando um Primeiro Ministro se comporta, numa entrevista à RTP, como se estivesse num tempo de antena, dá argumentos para quem acha que o serviço público não faz falta. Eu acho que faz falta. Este foi o risco que a estação correu.


 


SEMANADA – No rescaldo da entrevista, Bagão Felix chamou mentiroso a José Sócrates, a propósito de este ter garantido que a questão da ajuda externa não foi discutida no Conselho de Estado; Campos e Cunha disse que «estamos a viver um filme de terror em que o Drácula culpa a vítima»; Manuel Maria Carrilho diz que Sócrates está a trair o interesse nacional e que segue a “estratégia de Xerazade” – com referência à história de As Mil e Uma Noites: enquanto  fôr capaz de contar uma história por noite, a sua vida não estará em risco. Tudo isto foi dito a propósito da entrevista de José Sócrates à RTP 1 na segunda-feira passada.


 


ARCO DA VELHA - «Não tenho o talento e as qualidades que um Primeiro Ministro deve ter» – José Sócrates em entrevista ao DNA, de 16 de Setembro de 2000.


 


O PRESENTE - O pedido de ajuda externa não vem atrasado  os 15 dias desde o chumbo do PEC IV, vem atrasado muitos meses e só o facto de os banqueiros terem levantado a voz a dizer que os cofres estão vazios fez Sócrates agir. Nada mais. O grande problema dos tempos que aí vêm é conseguir passar esta fase, até às eleições antecipadas, sem que o país seja submetido a um saque generalizado pelo Governo e seus organismos periféricos, nesta fase de saída de poder. O comportamento geral do executivo ao longo deste último ano, e sobretudo nas últimas semanas, é o pior dos prenúncios nessa matéria. Em ocasiões destas torna-se especialmente importante que o Presidente da República consiga gerir esta transição sem que o desmando se torne na regra de funcionamento e sem que o Governo deixe deliberadamente agravar a situação do país, refugiando-se numa interpretação minimalista da capacidade do executivo, como se está já a ver no caso das SCUTs


 


O FUTURO - Quanto mais tempo passa mais me convenço que a solução para a delicada situação política não é reforçar a bipolarização PS-PSD, e sim dar possibilidade a forças mais pequenas, à esquerda e direita, para que se possam constituir coligações  equilibradas e saudáveis. É a existência de dois grandes partidos, hoje em dia sem diferenças evidentes entre si, que é responsável pela confusão que se foi instalando aos longo dos anos. A reforma do sistema político não é para agora – mas vai ser impossível continuar a viver com normas e funcionamentos que podiam estar certíssimos há meio século, mas que hoje não se adaptam nem à velocidade da mudança nem à forma como os cidadãos seguem o mundo, a actualidade e percepcionam os acontecimentos. Estamos na segunda década do século XXI com procedimentos do início da segunda metade do século XX. A continuar assim a coisa não pode dar bom resultado.


 


LISBOA – Já que António Costa quer ficar em Lisboa e continuar a ser Presidente da Câmara, ofereço-me para o levar numa voltinha de scooter pelas ruas do centro da cidade para ele sentir, no corpinho, os buracos, o mau estado do pavimento, as armadilhas que existem por todo o lado. Este singelo convite foi, nesta semana, o post que publiquei no Facebook e que gerou maior número de comentários de apoio. É elucidativo da forma como os lisboetas se sentem. Lisboa está a ficar uma cidade complicada. Qualquer dia é óptima para os turistas, mas péssima para quem cá quer continuar a viver. Já agora: repararam como nos dois dias de greve de Metro desta semana os fiscais da EMEL andaram tão zelosos logo pela manhã?


 


AGENDA - No Museu da Electricidade a nova exposição de fotografias de Paulo Catrica intitulada «A Prospectus Archive» e que é baseada nos bastidores do Teatro de S. Carlos; Ainda na fotografia, destaque para a exposição que assinala o 6º aniversário da KGaleria, agora com o seu espaço renovado, na Rua das Vinhas 43 A . Trata-se de uma exposição dos fotógrafos do colectivo Kameraphoto intitualda «Schadenfreude», apresentada como «uma denúncia da compartimentação dos géneros fotográficos».


 


VER – Por iniciativa da Experimenta Design, a exposição «Ordem de Compra» reúne cerca de duas centenas de exemplos de bom design, com aplicação industrial, vindos de 75 empresas nacionais, em sectores de referência como a porcelana, o vidro, a cortiça e o calçado, bem como produtos que usam tecnologias avançadas, destinados a nichos de mercado ou à exportação. A exposição está no Palácio Quintela, ao Chiado, e pode ser vista de terça a Domingo, das 10h00 às 20h00, com entrada gratuita e até 3 de Julho.


 


LER –  Na edição da revista «Monocle» deste mês de Abril, destaco a reportagem sobre uma série de actividades económicas que, em vários locais do mundo, estão a gerar pequenas bolsas de emprego, apostando na qualidade, na manufactura de objectos invulgares, no regresso ao fabrico em pequenas séries, na criação de pequenas e médias empresas, como exemplo de criatividade e desenvolvimento – e se olharmos para a exposição «Ordem de Compra», acima referida, não posso deixar de pensar nisto . Outros artigos interessantes abordam o que é a rádio hoje em dia,  oferecem um olhar sobre Sidney e um guia destacável sobre Madrid, muito bem feito, óptimo para guardar – para quando um assim, sobre Lisboa?


 


OUVIR –  Para mim esta é uma das mais importantes edições discográficas dos últimos anos – o conjunto de quatro CD’s intitulado «Twelve Nights in Hollywood», que recolhe as gravações feitas em 1961, por Ella Fitzgerald, no Crescendo, um pequeno clube de jazz em Los Angeles. Estas gravações, inéditas até agora, foram feitas pelo fundador da Verve e na época agente da cantora,  Norman Granz. Foram remasterizadas digitalmente a partir das fitas originais – e a gravação original era já muito boa. Ao todo estão aqui editadas 76 canções, que recolhem a generalidade dos temas que tornaram Ella Fitzgerald célebre. Ainda por cima ela estava no pico da sua carreira quando estas gravações foram feitas, tinha 45 anos, e cantou de forma solta, com um swing e alegria extraordinários e com uma criatividade invulgar – que deve muito também á qualidade dos músicos que a acompanharam e à ligação que a cantora tinha com eles. Em Portugal estes quatro discos estão distribuídos pela Universal sob a forma de dois CDs duplos, «12 Nights in Hollywood», volumes I e II. Absolutamente imperdível.


 


PROVAR – Por menos de seis euros pode escolher um belo petisco: uma das magníficas conservas da Tricana, acompanhada por bom pão e um copo de vinho. A coisa passa-se todos os dias, ao almoço ou ao lanche, no 128 da Avenida Conde de Valbom, quase a chegar à Fundação Gulbenkian. Há várias outras sanduíches e petiscos e uma oferta vasta de produtos nacionais – de conservas  a azeites, passando por doces – incluindo uma caixa de sardinhas…. de chocolate.


 


BACK TO BASICS – A única coisa que tem valor na vida é aquilo que não conseguimos dizer – Wittgenstein.


 

abril 05, 2011

QUEM ABRIU O BURACO?

(publicado no diário Metro de 5 de Abril)


 


Neste fim de semana descobri uma coisa extraordinária: o país chegou ao buraco em que está e a culpa não é de ninguém. Sócrates diz que a culpa é toda da oposição; Guterres quando se pronunciou há dias sobre a situação portuguesa omitiu qualquer responsabilidade no gasto generalizado, que ganhou razoável incremento no seu tempo; Cavaco Silva não quer nem ouvir falar nisso, esquecendo-se quem iniciou o ciclo de aumentos de custos no funcionamento da função pública; Durão Barroso, apesar de ter estado pouco tempo, também faz como se não tivesse sido primeiro-ministro. Este país só tem autores de boas ideias, todos eles aliás tão bons que são sistematicamente exportados para altos cargos internacionais em reconhecimento dos altos feitos praticados.


 


Nos últimos 15 anos assistimos alegremente a uma espiral de aumento da despesa pública que nos conduziu onde estamos agora. A obsessão pelo contínuo alargamento do Estado Social e pelas grandes obras, e a ilusão do dinheiro fácil e sempre disponível, criou um monstro que imagina auto-estradas paralelas, muitas delas vazias, apenas para alimentar as obras públicas que são a principal fonte de financiamento dos partidos no poder. Vivemos governados por um monstro que criou tantos apoios que acabou por comprometer aqueles que deviam ser básicos: a saúde, a educação, a protecção no desemprego. E vivemos com Governos que, para obterem financiamentos de Bruxelas, aceitaram deixar acabar a agricultura e as pescas e preferiram ver a indústria  reduzir-se à expressão mais simples.


 


E, no entanto, a receita para um bom Governo  é simples e Marco Túlio Cícero, um dos grandes filósofos e políticos da Roma antiga, que se distinguiu pelo sua defesa da rectidão nas contas públicas, sintetizou desta forma o que pensava: «As finanças públicas devem ser saudáveis. O orçamento deve ser equilibrado. A dívida pública deve ser reduzida. A arrogância da administração deve ser combatida e controlada. A população deve trabalhar em lugar de viver da ajuda pública».

(publicado no Jornal de Negócios de dia 1 de Abril)

CRISE – No dia 28 de Janeiro, logo a seguir às eleições presidenciais, escrevi nestas páginas: “Como se percebeu o núcleo duro da direcção do PS reagiu rapidamente – convocando eleições internas (em que Sócrates se recandidata), anunciando novas iniciativas viradas para fora do partido, e dando a entender que controlará o timing de uma remodelação governamental. O PS, que foi o grande derrotado das eleições, tinha o contra-ataque preparado.”


 


Agora jé é claríssimo que Sócrates planeou ao minuto o que iria fazer uma vez resolvidos os problemas das presidenciais. Reposicionou-se no PS, calou a oposição interna, conseguiu o apoio de todos os notáveis do seu Partido e depois geriu bem o momento e criou uma situação de ruptura na semana das eleições directas no PS. Foi levado num andor de unanimidade, transportado pelos três talibãs que são o seu núcleo duro: Santos Silva, Silva Pereira e Jorge Lacão; o quarto canto do andor foi seguro pelo pagador de promessas em exercício, Teixeira dos Santos. Os filmes neo-realistas brasileiros dos anos 60 não teriam melhor cena – e já não vou ao ponto de dizer que a presença de Lula & Dilma foi planeada para coroar a manutenção de Sócrates no PS (embora não descure a coincidència das datas). Preservemos a Universidade de Coimbra de tais aleivosias.


 


Como uma imagem vale mais que mil palavras, retive uma extrordinária fotografia, salvo erro do “Público”, em que Sócrates aparece à chegada a Castelo Branco, para votar nas directas do PS. O seu corpo está meio saído do carro, mas já de pé, a sua cara é de determinação e levanta o braço – não exactamente fechando o punho mas dobrando a mão numa moderada evocação do punho fechado. A imagem é feita escassas 48 horas depois da demissão e mostra a evidência: ele estava preparado para ir à luta e geriu o calendário de todos os acontecimentos. Caíu quem quis, neste jogo de xadrez.


 


SPORTING – O que se passou no final do processo eleitoral do Sporting é também um sinal dos tempos. Tensões artificialmente criadas, ligações obscuras, promessas a eito, falta de respeito pelas pessoas e pelos resultados. O comportamento da madrugada eleitoral é um retrato do que deve ser evitado e daquilo que não é preciso em nenhuma área da sociedade, muito menos no desporto e espectáculo. Nestes tempos difíceis, do ponto de vista político e económico, há uma tendência para que o futebol se torne numa válvula de escape de frustrações e que se crie um autêntico barril de pólvora. Os sinais abundam. Esperemos que o pior seja evitado.


 


ARCO DA VELHA – Já conheciam esta descrição de Sócrates publicada no diário espanhol «ABC»? - «El primer ministro portugués se parece a un conductor que avanza a toda velocidad por la autopista en dirección contraria, convencido que son todos los demás automovilistas los que se equivocan».


 


LER –  A «Tinta da China» é actualmente uma das editoras livreiras com uma actividade mais interessante. As suas colecções são bem pensadas, as suas edições são feitas com cuidados na concepção das capas, na escolha do papel e do tipo de letra. E os livros são bem escolhidos – sejam de viagens, de ficção ou de entretenimento. Até dá gosto. A mais recente aventura da «Pó dos Livros» é uma bem humorada e divertida colecção chamada «Livros Licenciosos», coordenada por António Ventura.


Estão já editados três volumes, todos com títulos deliciosos: ««Entre lençóis – Episódios Inocentes Para Educação e Recreio de Pessoas Casadoiras», de Cândido de Figueiredo; «O Pauzinho do Matrimónio» de autor desconhecido, ilustrado por Rafael Bordallo Pinheiro; e «O Vício em Lisboa – Antigo e Moderno», de Fernando Schwalbach. Estas linhas são dedicadas a este último. Schwalbach era um homem ligado ao teatro, autor de alguns monólogos da época, bon-vivant confesso, especialista nas noitadas lisboetas. A certa altura emendou-se e este seu texto faz parte do processo de redenção – é datado de 1912 e ali descreve bordéis, casas de meninas mais sofisticadas, aborda o vício e o jogo e tece numerosas considerações sobre os usos e costumes da época, as mais das vezes com um pendor moralista sobre o seu passado licencioso. A edição é completada pelo «Regulamento Policial das meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa», de 1865 e por um posfácio do autor da colecção sobre a Lisboa subterrânea de então.


 


VER – O novo ciclo de exposições no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84, de terça a sábado, das 14 às 19h30) tem o atractivo de uma exposição de originais de Inez Teixeira intitulada «Time Is On My Side». Retomando algumas pistas deixadas na sua anterior exposição de pequenos desenhos, Inez Teixeira aborda agora o universo do fantástico com um conjunto de obras, cada uma a evocar o universo da fantasia, todas baseadas num desenho minucioso e na criação de imagens que parecem criadas para a ilustração de fábulas passadas em bosques imaginários. É um conjunto de desenhos, de grande formato, que apela à permanente descoberta dos detalhes. Este ciclo de exposições, que estará patente até 4 de Maio, completa-se com duas mostras colectivas da Plataforma Revólver da qual destaco um belíssimo e invulgar trabalho de Ana Rito.


 


OUVIR –  Para assinalar o centenário de Gustav Mahler a editora discográfica Deutsche Grammophon teve a ideia de fazer uma votação online num site que propositadamente criou para o efeito e onde era possível ouvir as 148 gravações das dez sinfonias de Mahler, nas diversas versões gravadas  entre 1952 e 2008. Cerca de 5000 votantes escolheram de entre as diversas interpretações as que consideraram melhores e o resultado está numa caixa de 13 CD’s que recolhe o registo mais votado de cada uma das sinfonias. «Mahler – The People’s Edition» é o nome desta edição especial que proporciona a obra sinfónica completa do compositor austríaco, em gravações dirigidas por nomes como Karajan, Abbado, Mehta, Solti ou Bernstein, entre outros. A edição inclui ainda um pequeno livro com uma biografia de Gustav Mahler, onde são destacados os pontos altos da sua actividade musical. E o preço é uma agradável surpresa para uma edição com esta qualidade e dimensão, já disponível em Portugal.


 


AGENDA – A Galeria Antiks (Rua Mouzinho da Silveira2, esquina com a Barata Salgueiro), celebra o seu 15º aniversário com uma exposição baseada nos seu riquíssimo acervo, certamente um dos mais importantes entre as galerias de arte portuguesas – vale a pena visitar esta exposição que apresenta trabalhos de 15 mulheres que cruzam épocas bem diferentes, de Josefa de Óbidos a Paula Rego, passando por Sarah Affonso, Sonia Delaunay, Lourdes Castro, Ana Fonseca e Etsuko Koyashi, entre outras.


 


PROVAR – É sempre um prazer regressar ao restaurante Gemelli, seja nos seus menus executivos de almoço (agora com a variante de um prato único de tradição italiana a 16 euros, acompanhado de um copo de vinho), passando pelas degustações do jantar e, sobretudo, pelos deliciosos almoços de sexta-feira que por 32 euros oferecem uma entrada, um primeiro prato baseado numa massa fresca, um prato principal e uma sobremesa surpresa, tudo acompanhado por vinhos escolhidos. Desde há uns anos que tenho para mim que este é o melhor restaurante italiano de Lisboa e certamente um dos melhores restaurantes da cidade em termos absolutos. O chefe Augusto Gemelli continua a variar a sua carta conforme as estações do ano e os produtos de cada época e continua também com os seus cursos de cozinha – em Abril há aulas sobre doces, massas recheadas e um menu de Páscoa alternativo. Todas as informações estão disponíveis em www.augustogemelli.com . O Gemelli fica por cima do mercado de S. bento, na Rua Nova da piedade 99, esquina com a Rua de S. Bento. O telefone para reservas é o 213 952 552. Não se assuste: ali bem perto tem o parque de estacionamento do Clube Nacional de Natação.


 


BACK TO BASICS – As finanças públicas devem ser saudáveis. O orçamento deve ser equilibrado. A dívida pública deve ser reduzida. A arrogância da administração deve ser combatida e controlada... A população deve trabalhar em lugar de viver da ajuda pública - Marco Túlio Cícero (106 aC - 43 aC)