fevereiro 02, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 29 de Janeiro)

 


INFORMAÇÃO - Terça-feira à noite estava a ver os telejornais das 22h00 quando de repente vi a emissão interrompida para entrar um «directo» que se resumia à entrega do suporte informático da proposta de Orçamento de Estado, pelo Ministro das Finanças ao Presidente da Assembleia da República. Não havia declarações, não havia nada – apenas a simbólica imagem da entrega do documento, aliás com considerável atraso sobre a hora prevista. Ou seja, um directo digno de países subdesenvolvido que se importam mais com as simbologias do que com as notícias. Chávez não faria melhor.

 

SEMANADA - O PP anunciou que se iria abster na votação do orçamento, o PSD anunciou a seguir que também se iria abster; o IPSD apresentou um estudo onde defende a possibilidade da redução da despesa pública para 41% no espaço de uma legislatura; o economista João Ferreira do Amaral afirmou numa entrevista que para avançar nas reformas mais difíceis não basta haver acordos, tem de haver coligações;

 

EVIDÊNCIA – Depois de quatro anos de austeridade imposta à sociedade, Sócrates não conseguiu impor austeridade ao Estado. Ou seja, o Governo PS impôs ao sector privado o que não conseguiu concretizar no sector público.

 

LISBOA – Esta semana a Emel fez nova manobra de propaganda com umas maquinetas que, à custa dos utilizadores, pretendem tornar a empresa mais rentável. A EMEL é um dos cancros da cidade, uma das peçonhas da política autárquica de vários executivos. O Presidente da Câmara devia impôr normas de funcionamento à EMEL que a obrigassem a cumprir prazos de desbloqueamento e a responder às queixas dos munícipes e que a fizessem dissuadir do estacionamento que incomoda e perturba em vez de praticar a caça à multa cega – que é de facto a única coisa que faz. A missão da EMEL está mal definida de início – não é uma ferramente para facilitar a circulação, é um expediente para ir buscar receitas, ainda por cima com uma duvidosa rentabilidade. Mas, acima de tudo,  a autarquia devia reconhecer que os habitantes de Lisboa, que já pagam por usar automóvel na cidade, deviam estar isentos de estacionamento, que se devia aplicar apenas aos automóveis que vêm de fora da cidade. Isso é que era coragem, verdade e honestidade. De outra forma trata-se de um assalto aos lisboetas, feito pela Câmara Municipal de braço dado com a EMEL.

 

PERGUNTINHA  - Depois do treino de Sá Pinto com Liedson será que o Sporting vai voltar a dinamizar a secção de boxe?

   

TELEVISÃO – Todas as quintas-feiras, na TVI 24, pouco depois das dez da noite, vale a pena ver um dos mais interessantes debates políticos da televisão portuguesa, a «Roda Livre» - Manuel Villaverde Cabral, Rui Ramos e Pedro Adão e Silva debatem a actualidade política com humor, bastante sabedoria e alguma salutar discussão.

  

VER -   «A Bela e o Paparazzo»  é um exemplo do que pode ser o cinema português que não tem vergonha de querer ter público e de divertir os espectadores. António-Pedro Vasconcelos fez uma belíssima comédia onde as interpretações de Marco D’Almeida, de Nuno Markl (com «buchas» em forma de dizeres nas t-shirts) e de Soraia Chaves mostram que não é por falta de talento local que não se fazem filmes mais populares. Com um piscar de olhos a comédias como «O Páteo das Cantigas», este é um exemplo de que o cinema português não está condenado a viver apenas de angústias existenciais – e além disso cumpre o importante papel de mostrar no grande ecrã uma geração de actores e de humoristas que marcam esta época que vivemos.

 

LER – A edição britânica da revista «Wired» publica na sua edição de Fevereiro um delicioso artigo onde se explica como Jamie Oliver, o mediático cozinheiro popularizado por programas da BBC, entrou em força no mundo das aplicações para iphone com conselhos e receitas semanais, que incluem listas de compras e porções variáveis face ao número de convivas. Verdadeiramente um achado. Mas esta «Wired» tem muito mais coisas interessantes e está a ficar muito mais atraente que o original norte-americano.

 

CLIMAX – Durante várias semanas a Apple construiu uma novela de suspense à volta do seu tablet, que se espera venha a oferecer à imprensa um fonte de rendimentos semelhante à que o o iPod ofereceu à indústria dicográfica. O mistério foi desvendado na quarta-feira – a máquina chama-se iPad- e as primeiras impressões superam as expectativas. Eu sou dos que acreditam que este novo produto da Apple pode mesmo mudar a forma como consumimos informação, livros e nos relacionamos com o mundo à nossa volta. Na apresentação um dos responsáveis do «New York Times» mostrou como pode ser lido um jornal no iPad, o que confirma que o produto foi desenvolvido em colaboração com os grupos de imprensa norte-americanos – uma boa notícia para todo a indústria de mídia.

 

OUVIR - Depois de uma separação de cinco anos, os noruegueses Eirik Bøe e Erlend Øye resolveram voltar a juntar esforços e o resultado é um conjunto de 13 canções onde o destaque vai para uma sensação de facilidade intuitiva, de um encanto melódico feito sem esforços nem truques, quase como se fosse natural fazer um disco assim tão simples e atraente. Vou arriscar um chavão – isto é música intemporal. Kings Of Convenience, «Declaration Of Dependence», CD Virgin/Source, na Amazon.

 

PROVAR – Em Lisboa passem pela Deli Delux (a Santa Apolónia) e procurem pelos produtos da Boa Boca Gourmet – não se arrependerão. Depois vão a

www.boaboca-gourmet.com  e descubram como um jovem casal, que vive em Évora, está a conseguir fazer uma marca baseada na qualidade das matérias primas, da confecção e do design das embalagens. Verdadeiramente exemplar.

 

BACK TO BASICS – Ninguém acredita num boato até ser oficialmente desmentido – Edward Cheyfitz.

 

janeiro 29, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 22 de Janeiro)

EXERCÍCIOS SOBRE A MEMÓRIA 

 


 


DESPERDÍCIOS - Em declarações à Bloomberg, o antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, defendeu que alguns municípios deviam proceder à demolição dos estádios construídos para o Euro 2004 já que «é muito difícil lidar com dívidas de algo que não cria riqueza nem representa um bem público». Como a mamória é parte da política, recordo que o actual Primeiro Ministro José Sócrates foi o responsável pela condução do processo que levou a que o Euro viesse para Portugal, o que implicou um programa megalómano de construção dos estádios, que arruinou vários clubes e, também, alguns municípios – e que agora se prova ser um enorme desperdício. Os estádios que causam maiores impactos negativos nos respectivos municípios são os de Aveiro, Leiria e Faro. Ponham isto no curriculum de Sócrates, na secção Obras Públicas – também nessa altura se argumentou muito com o efeito positivo que o Euro e os estádios teriam. 

 


 


PRESIDENCIAIS - Manuel Alegre, o responsável pela decisão governamental de acabar com o jornal «O Século» e o seu grupo editorial em 1979, é, para já, o candidato do Bloco de Esquerda; Vitalino Canas, do PS, deu a entender que não seria o seu candidato; Francisco Assis, do PS, deu a entender que Manuel Alegre seria o seu candidato; Marco António, do PSD, deu a entender que Marcelo Rebelo de Sousa poderia ser candidato à Presidência da República; O Presidente da ERC mostrou-se contrário à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da RTP depois de o Director de Informação desta estação ter declarado que era por instruções da ERC que Marcelo teria de deixar o seu comentário dominical.   

 


 


LISBOA - Esta semana assisti, na Assembleia Municipal, à apresentação da Carta Estratégica de Lisboa. Confirmei o que suspeitava: excepção feita à área a cargo de Augusto Mateus, o resto é um documento propagandístico cheio de banalidades e de sugestões avulsas mais ou menos de senso comum, quase nunca surpreendentes, extremamente pouco inovadoras e muito embaladas pelas ideias politicamente correctas mais em voga. Trata-se de um bom levantamento de problemas – até aí concordo – mas de um fraco trabalho de apresentação de propostas ou de formulação de uma estratégia. Qualquer empresa de consultoria ficaria envergonhada se, após tanto tempo, apresentasse um resultado destes - na realidade, em matéria de perspectivas e de futuro, o documento é de uma pobreza  confrangedora. Na realidade, na maioria dos casos, não se trata de uma Carta Estratégica mas de um Inventário de Problemas. 

 


 


HOT CLUBE – Hoje completa-se um mês sobre o incêndio que fez interromper a actividade do Hot Clube, na Praça da Alegria. Ao fim deste mês ainda não se conhece uma solução (estou a escrever este artigo na quarta-feira à noite, dia 20).  Eu acho que nesta questão tem de existir bom senso e realismo. Se a questão mais importante fôr proporcionar o rápido retomar das actividades do Hot (concertos incluídos), a prioridade é encontrar um espaço com área semelhante, condições técnicas razoáveis e localização e acessos simpáticos. Já se sabe que poderá não ser uma solução definitiva, mas também é evidente que a questão da recuperação do prédio vai demorar uns anos a concluir. O bom senso – quer da Direcção do Hot, quer da CML, mandaria que se procurasse uma solução rápida. Se cada um se entricheira no ideal (como me parece que está a acontecer), o Hot vai acabar por se esvair – e vai ficar apenas a alimentar as memórias dos saudosistas. O conservadorismo em relação a tradições e locais é mau conselheiro. O bom é inimigo do óptimo – eu acho que havia já tempo para se ter escolhido um local que, depois, em dois meses, ficasse pronto para funcionar. Mas pelos vistos ligou-se o complicómetro… 

 


 


FILMES – Segundo números do Instituto do Cinema e do Audiovisual, dos 20 filmes mais vistos em 2009, apenas quatro tem participações na produção de países europeus e nenhum é português. O filme mais visto foi «A Idade do Gelo 3», com 667.551 espectadores e o vigésimo foi «A Troca» com 188.611. Em comparação com o ano anterior verificou-se uma diminuição de espectadores de 1,9%, sendo o número final de 15,6 milhões de bilhetes vendidos. O mês com melhores resultados foi Dezembro. Dos 20 filmes mais vistos, todos estrangeiros, 18 tiveram mais que 200.000 espectadores. Passemos à produção nacional – o filme mais visto entre as 22 longas-metragens portuguesas estreadas, foi «Uma Aventura Na Casa Assombrada» com 102.309 espectadores. Destes 22 filmes portugueses, 13 tiveram menos que 3.000 bilhetes vendidos e apenas cinco mais de 10.000 espectadores. Aqui estão alguns números que devem fazer pensar – um país sem uma produção audiovisual massificada é um país sem idioma vivo nos tempos que correm - o resto é pura conversa da treta. Uma curiosidade – até ao início desta semana «Avatar», estreado em Dezembro, já era recordista de bilheteira em Portugal com um total 672.133 entradas. Enfim… 

 


 


VER – Para assinalar o seu 450º aniversário, a Universidade de Évora resolveu convidar o colectivo de fotojornalistas da agência Kameraphoto para mostrar a realidade da Universidade, nas suas várias áreas, nos dias de hoje. O trabalho dos 13 fotojornalistas que trabalharam no projecto, ao longo de um ano lectivo inteiro, resultou em 170 fotografias e também num documentário em video - este é um trabalho exemplar, de que resultou uma exposição e um livro, ambos do ano passado. É um dos raros casos de uma encomenda séria de um ensaio fotográfico, ao que sei com total liberdade para os fotógrafos envolvidos poderem trabalhar e aceder onde quisessem. Fazem falta mais obras assim, mais ideias assim , mais encomendas assim. Talvez algumas das muitas Fundações que existem em Portugal pudessem tomar este exemplo e adaptá-lo. A (boa) edição é da Reitoria da Universidade de Évora. Espreitem www.kameraphoto.com/450/ 

 


 


OUVIR – Um quarteto tradicional (Jon Irabagon no saxofone, Kenny Barron no piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria) mostra como é possível conciliar melodias acessíveis e tonalidades jazzisticas clássicas, com interpretações de uma clara sonoridade contemporânea. Os dez temas são todos compostos por Jon Irabagon, o vencedor de 2008 da Thelonious Monk Institute International Jazz Saxophone Competition. Aqui está um músico a seguir, com um dos discos recentes a ter em conta. CD Concorde/Universal Music, «The Observer», Jon Irabagon, disponível na Fnac. 

 


 


BACK TO BASICS – Na política nada é tão útil como uma memória curta – John Kenneth Galbraith 

 

janeiro 20, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 15 de Janeiro)

ZIGUEZAGUE - A situação das contas portugueses nos últimos meses parece um filme de horror – os indicadores degradam-se cada vez mais, desde o desemprego ao endividamento externo, passando pelo défice. Depois de ter andado meses a negar as evidências e a atacar quem relatava a verdade sobre o estado da nação, José Sócrates começou agora a fazer ziguezagues na sua até aqui intocável política de investimentos públicos. Tenho alguma curiosidade em ver onde isto vai parar, que projectos o Governo vai acabar por cancelar. Uma coisa é certa – foi preciso a realidade ser muito dura e desagradável para alguma coisa acontecer. E não precisava de ser assim. 

 


SEXO - Agora que as discussões sobre sexo abrandaram no Parlamento e que os debates sobre casamentos de geometria variável se vão desvanecendo, fica já evidente que a pressa foi tanta que tecnicamente o trabalho ficou mal feito. Mais importante, fica claro que o agendamento destas questões fez apenas parte de uma estratégia de desviar a atenção de problemas mais importantes – a situação estrutural das contas públicas e das finanças portuguesas – na esperança que algum milagre as resolvesse. Como é bom de ver não houve milagre e andou-se a perder tempo precioso para tomar medidas ou para fazer negociações políticas em torno de questões verdadeiramente urgentes e estratégicas. Chama-se a isto mau governo – um governo que foge da realidade e arranja artifícios para adiar a resolução dos problemas mais graves. 

 


PARTIDOS - A crise pela qual estamos a passar é um sintoma claro de que o sistema político e partidário têm que mudar – desde a forma de eleição até ao funcionamento do Parlamento ou das autarquias. A reflexão sobre estes assuntos está a tornar-se prioritária, sob pena de cada vez mais diminuir o interesse das pessoas na acção política e cívica. Atravessamos uma época em que a política é encarada como um expediente para obter vantagens pessoais ou uma ocupação para ociosos – é este estado de coisas que é preciso mudar. Atravessamos uma época em que aos eleitos é requerida apenas obediência e desejado conformismo. O resultado desta forma de agir está à vista. 

 


TV - Eu acho que em televisão não existem lugares cativos nem eternas fórmulas de sucesso. Mas também acho que quando se consegue conciliar audiência com qualidade é verdadeiramente um desperdício acabar com um programa como «As Escolhas De Marcelo Rebelo de Sousa» - que na semana passada foi o 15º programa mais visto em todos os canais e o 5º mais visto na RTP. Esta decisão, exclusivamente política, de terminar com o programa volta a colocar a necessidade de debater como deve funcionar o serviço público – e como deve ser de facto garantido o pluralismo. As matemáticas da ERC redundam numa diminuição objectiva de qualidade da emissão – alguma coisa está mal quando o serviço público é obrigado a sobrepor critérios políticos a critérios qualitativos e ao juízo dos espectadores e da crítica. 

 


LER – A edição 41 da revista trimestral «Egoísta» é dedicada à natureza e tem numerosos portfolios fotográficos, bastante desiguais. Merecem destaque os de Pedro Cláudio, de Gonçalo F.Santos, de Alfredo Cunha e de Nelson D’Aires. Nos textos destaque para «A Natureza da Carne» de Miguel Gullander e «A Velha» de Hélia Correia. São poucos mas bons – talvez a obrigar a revista a voltar a ter alguns rasgos de inovação que lentamente se vão sempre perdendo ao longo dos anos. De qualquer forma a «Egoísta» continua a ser um objecto impresso invulgar – precisa é de voltar a ser surpreendente. 

 


OUVIR – Sou um devoto dos trios de jazz na sua formação mais clássica – piano, baixo e bateria. Aqui há uns anos Brad Mehldau recuperou, e bem, o género e algumas novas formações foram ganhando público. Stefano Bollani é um pianista italiano muito versátil que tem interpretado desde temas clássicos até versões pop-rock – mas é no jazz que se tem destacado. Há cerca de seis anos encontrou dois músicos dinamarqueses com quem tem vindo a trabalhar – Jesper Boldisen no baixo e Morten Lund na bateria. «Stone In The Water» é o mais recente disco do trio – que na semana passada esteve em Lisboa na Culturgest. Este «Stone In The Water» é um trabalho verdadeiramente surpreendente, na escolha de repertório (dois temas de Boldisen, quatro de Bollani, um de Caetano Veloso, um de Tom Carlos Jobim e um de François Poulenc), mas sobretudo pela enorme elegância, contenção e fluidez do trabalho dos músicos – aqui está um trio pouco exibicionista mas muito eficaz. Estou em crer que grande parte do encanto vem da forma muito especial com que o baixo de Jesper Bodilsen dialoga com o piano de Bollani. Este é verdadeiramente um trabalho de um grupo de músicos apaixonados pelo que estão a fazer. Vai sendo raro. Edição ECM. 

 


EXPERIMENTAR – O «Sessenta» é um restaurante despretencioso com um conceito engraçado – ao almoço concilia rapidez com qualidade e ao jantar tem propostas mais elaboradas. Ao almoço há pratos do dia que vão de frango panado com farinheira (segundas) até favinhas com entrcosto e chouriço (quartas), passando por caril de camarão (terças), lulinhas guisadas com arroz branco (quinta) ou lombo de perca com broa e legumes (sexta). A qualidade é acima da média, o serviço é simpático e o espaço é divertido. À noite a carta apresenta outras propostas, a maior parte baseadas na tradição portuguesa com alguns toques de criatividade não exagerados. A lista de vinhos é razoável e os preços são honestos. O restaurante tem ainda serviço de take-away e um site invulgarmente informativo e exacto dentro do género – www.sessenta.pt. Resta dizer que O Sessenta fica na Rua Tomás Ribeiro nº60, esquina com a Luís Bívar, e o telefone é 213526060. 

 


BACK TO BASICS – A escola certa para se aprender não é a vida, é a arte – Oscar Wilde 

 

janeiro 12, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 8 de Janeiro)

CULTURA - Por muito que me esforce não consigo compreender a razão de ser dos gastos em torno da comemoração do Centenário da República. Em Lisboa, o pretexto já serviu para dar cabo de meia Baixa e pelo país multiplicam-se as propostas loucas como a de um mastro para a bandeira com 100 metros de altura que custará um milhão de euros. Esta semana a Ministra da Cultura decidiu tristemente fazer a sua primeira grande intervenção em termos de anúncios de actividade espalhando dez milhões de euros aos quatro ventos num conjunto de mais de 50 actividades desconexas, avulsas, clientelares na maioria. Nada do que anunciou é estruturante, nada vai deixar marcas, tudo é efémero – mero foguetório em prol de um saudosismo ideológico – o do mito republicano – que poucos compreenderão hoje em dia. Não vou entrar nas comparações entre regimes – mas dez milhões de forrobodó é um contrasenso total numa área – a Cultura – que tem cronicamente falta de investimento. A Ministra dá a cara por umas Comemorações esbanjadoras que deitam à rua o equivalente e cerca de 5% do seu Orçamento anual. Não me parece bem. Parece-me um escândalo. 

 


 


PSD - Vejo com alguma perplexidade o que se passa no PSD, assisto a uma guerra entre as eleições directas para a liderança e o congresso. Por mais que me esforce vejo maioritariamente a discussão de questões internas e não encontro nada sobre propostas para ajudar o país a sair da grave crise em que está. Vejo um PSD gordo, anafado e estático, sempre centrado no umbigo, a discutir os mesmos assuntos internos, e sem perceber que há um mundo à sua volta. O PSD precisa de encontrar objectivos, criar uma estratégia, desenhar uma nova identidade. Como qualquer organização precisa de um líder que tenha um projecto, que consiga galvanizar as suas hostes com esse projecto, que consiga criar uma equipa para a acção e que consiga criar unidade interna. Não vejo nada disto, vejo apenas malabarismos tácticos, jogos de influências, alianças de conveniência, meras coligações de interesses conjunturais. Assim as directas não vão resolver nada – vão apenas servir para queimar mais um dirigente partidário que no dia a seguir a ser eleito se vai ver forçado a gastar mais tempo a contrariar a oposição interna do que a fazer oposição construtiva e a criar uma alternativa política. 

 


 


PAÍS – O Presidente da República prega no deserto e nenhum partido o quer ouvir: o PS porque não tem a mesma agenda; o PSD porque não tem agenda alguma; os outros porque fazem depender as respectivas agentes de acordos parlamentares que consigam estabelecer para ganharem mais algumas vantagens próprias. Mas Cavaco Silva teve razão na sua última mensagem e pôs o dedo na ferida: o país está a ser governado levianamente. Qualquer candidato às próximas presidenciais tem agora uma fasquia que pode ajudar a separar as águas. 

 


 


TELEVISÕES – Segundo dados divulgados recentemente cerca de um milhão de lares, equipados com caixas digitais do Meo, Zon, Clix e outros operadores, não estão a ser analisados no âmbito do estudo de audiências de TV. Estes lares, cerca de 30% do total, abrangem um grupo sócio-demográfico com poder de compra, urbano, com acesso simultâneo a TV e a internet de banda larga e profissionalmente activo. Acresce que os detentores de televisores digitais, plasmas e outros formatos e tecnologias recentes, também já não são auditados. É lícito dizer-se que quase metade do universo de lares portugueses já não é estudado em termos de audiências de televisão. Isto não são boas notícias para quem quer investir em publicidade na televisão – a realidade do mercado está demasiado afastada dos resultados divulgados. 

 


 


PROVAR – O sumo de maçãs frescas Copa, produzido em Alcobaça pela cooeprativa Frubaça. Está disponível na generalidade das lojas Go Natural e é produzido a partir de maçãs que não foram submetidas a tratamento com pesticidas. 

 


 


 


USAR – Este ano vou deixar de usar cadernos da Moleskine e passar a utilizar os cadernos das Papelarias Emílio Braga – são mais cool, mais variados, com belas e resistentes capas e têm bons formatos e bom papel. www.emiliobraga.com – os meus preferidos são os modelos 2001 A6 liso com 100 folhas (seis euros) e o modelo 2005 A5 liso também com 100 folhas (9,60 euros). 

 


 


LER – A mais recente edição da «Intelligent Life» , uma publicação trimestral lançada por «The Economist» tem, entre numerosas páginas interessantes, três artigos a reter. No primeiro, num dossier sobre a Terra e o Ambiente, Robert Butler chama a atenção para a importância do estudo da Geografia nos dias que correm, levantando a hipótese de ela ser actualmente mais importante que a História; no segundo Brian Cathcart aborda a evolução do jornalismo de uma forma muito acutilante; no terceiro Bee Wilson faz comparações entre o universo dos Simpsons e da Disney. Referência ainda a uma curiosa análise da evolução da avaliação do que é profissionalismo, em diversas áreas, por Ed Smith – que inclusivamente cita Scolari. Para terminar um belo porfolio fotográfico de Peter Kindersley sobre Londres fora da luz do dia – muito apropriado para estes tempos da estreia de «Sherlock Holmes».  

 


 


VER – A não perder a exposição «segunda Escolha» do fotojornalista António Pedro Ferreira na Kamera Photo, Rua da Vinha 43 A, ao Bairro Alto. 

 


 


OUVIR – Richard Bona é um músico originário dos Camarões que fez uma assinalável carreira como baixista nos Estados Unidos, embora na realidade seja um homem dos sete instrumentos. No seu novo disco, «The Ten Shades Of Blues», ele multiplica-se entre a voz, a guitarra, teclados, percussão, bateria, bandolim e.claro, o baixo. O disco é uma viagem pelas sonoridades da World Music, obviamente com a África presente, mas também com incursões na Índia e nos territórios da música popular norte-americana. «The Tem Shades Of Blue» é um trabalho que mostra a dedicação e o encanto de Bona pela música – é um exemplo de um disco feito com paixão com o objectivo de ser divertido. Nos tempos que correm não há muitos que se possam gabar disto. 

 


 


BACK TO BASICS – Aqueles que tentam liderar o povo, só o atingem porque seguem a multidão (Oscar Wilde) 

 

janeiro 04, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 31 de Dezembro)

MEDIA - No mundo dos Media, em Portugal, olhamos para trás e vemos um ano agitado: ataques do Primeiro Ministro a órgãos que lhe foram críticos, pressões variadas, mudança de responsáveis editoriais, novos jornais, mudança de propriedade de alguns, vários encerramentos de títulos, o afastamento de Manuela Moura Guedes do ecrã, o concurso do quinto canal numa trapalhada, a televisão digital terrestre ainda indefinida, uma ERC cuja utilidade e funcionalidade continua a ser um mistério, o panorama dos incentivos à produção audiovisual nacional cada vez mais obscuro, uma retracção do mercado publicitário em mais de cem milhões de euros. Só por curiosidade – aqui ao lado, em Espanha, dia 1 de Janeiro desaparece a publicidade paga na televisão pública espanhola, o que quer dizer que as televisões privadas poderão recuperar investimento. Destas decisões de Zapatero é que Sócrates não fala muito… 

 


 


FITAS - Do outro lado do Atlântico, Hollywood teve o melhor fim de semana alargado de Natal de sempre – com receitas de bilheteira nos três dias a ultrapassarem os 278 milhões de dólares. «Avatar» e «Sherlock Holmes», por esta ordem, foram os grandes responsáveis por estes números.«Avatar», o filme de James Cameron que levou 15 anos a preparar e a concluir, deve atingir os 300 milhões de dólares de receitas no final do ano, e a dúvida está em saber se, no mercado americano, conseguirá atingir o recorde de bilheteira, também pertencente a Cameron, com Titanic – 600 milhões. O ano em geral foi bom para o cinema nos Estados Unidos – as receitas anuais de bilheteira ultrapassaram pela primeira vez o patamar dos mil milhões de dólares. 

 


 


MUDANÇA - Este ano, no Natal, a Amazon vendeu mais livros em formato digital do que em papel. O seu leitor Kindle esteve entre os produtos mais vendidos (e cobiçados como prenda). O «New York Times» continua a desenvolver sistemas que possibilitem acesso pago, via digital, à edição integral actualmente existente em papel. As estimativas apontam para que daqui a dez anos, em 2020, existam cerca de 50 mil milhões de aparelhos portáteis capazes de aceder à net e aos seus conteúdos a partir de qualquer ponto. Na próxima década começam a entrar no mercado de trabalho os jovens que já cresceram, estudaram e vivem em ambiete digital. 

 


 


FUTUROLOGIA - Não é preciso ser bruxo para perceber que 2010 vai ser um ano infernal em matéria de política interna: o PSD anda à procura de um rumo e de nova liderança; o PS começa a dar sinais de uma crise interna que alastra, contestando Sócrates; Governo e Presidência da República estão em permanente rota de colisão; paira o espectro das eleições antecipadas e a certeza das presidenciais. O mais certo é o Governo não governar, o mais certo é o Governo não cortar na despesa pública, o mais certo é o Governo deixar o endividamento externo e o défice crescerem ainda mais. O ano não vai ser fácil – os sinais de recuperação económica a nível global vão ser confrontados com as evidências de uma instabilidade interna, que não vai ajudar a resolver os problemas – instabilidade que crescerá na proporção da insensibilidade de Sócrates a uma realidade política diferente que o devia levar a compromissos e negociações. 

 


 


IMPORT-EXPORT -Neste fim de semana encontrei um dos amigos da minha filha mais velha, licenciado, mestrado feito, boas notas, que perante a dificuldade de encontrar trabalho em Portugal arriscou Londres e está contente – tem trabalho, conhece outro mundo, é apreciado e estimulado. Contou-me que. dos seus amigos mais próximos, cerca de uma dezena estão no estrangeiro a trabalhar, a investigar ou a terminar doutoramentos. E resumia-me assim a situação da sua geração: «agora exportamos matéria cinzenta e importamos músculos – que vai ser de nós?»


 

 


HOT CLUBE - Infelizmente o Hot Clube foi vítima de um incêndio no prédio onde estava – o Hot é uma tradição de Lisboa e um dos poucos sítios onde se pode ouvir bom jazz ao vivo – além de que ao longo dos anos desenvolveu uma escola por onde têm sido formados alguns dos nossos melhores músicos de jazz. Se o Hot fica demasiado tempo parado, sem local, corre o risco de a tradição ser vencida pela inacção – não é situação única; por isso, enquanto o prédio não é recuperado é importante encontrar uma alternativa, de preferência em zonas históricas da cidade. Sugiro à Câmara Municipal que veja as áreas que tem livres – talvez no Convento das Bernardas, perto do Museu das Marionetas, exista algum espaço que possa ser usado; talvez as extensas áreas de serviço do Teatro Taborda e a própria sala possam ser divididas com o Hot (e esta seria a melhor de todas as soluções, inclusivamente para a Escola do Hot); talvez até na antiga área da Companhia de Dança de Lisboa no Palácio dos Marqueses de Tancos; talvez – e esta é uma possibilidade real - até no edifício ao lado do Cinema S. Jorge, desocupado há anos, e com pelo menos dois pisos disponíveis. O que eu sei é que para resolver isto é preciso imaginação e boa vontade – e sobretudo alguma rapidez. Se ficar tudo sentado a pensar, nada vai acontecer a não ser o Hot morrer aos poucos por falta de actividade. 

 


 


VER E OUVIR – Para passar o ano em beleza, o CD e DVD dos Pink Martini, «Splendor In The Grass» com magníficas e improváveis versões de velhos temas. Absolutamente a banda sonora perfeita para o dia 1 de Janeiro de 2010.


 

 


 


BACK TO BASICS – Uma pessoa deve ser pelo menos um pouco improvável – Oscar Wilde. 

 

dezembro 29, 2009

O HOT CLUBE

 


Infelizmente o Hot Clube foi vítima de um incêndio no prédio onde estava – o Hot é uma tradição de Lisboa e um dos poucos sítios onde se pode ouvir bom jazz ao vivo – além de que ao longo dos anos desenvolveu uma escola por onde têm sido formados alguns dos nossos melhores músicos de jazz. Se o Hot fica demasiado tempo parado, sem local, corre o risco de a tradição ser vencida pela inacção – não é situação única; por isso, enquanto o prédio não é recuperado é importante encontrar uma alternativa, de preferência em zonas históricas da cidade. Sugiro à Câmara Municipal que veja as áreas que tem livres – talvez no Convento das Bernardas, perto do Museu das Marionetas, exista algum espaço que possa ser usado; talvez as extensas áreas de serviço do Teatro Taborda e a própria sala possam ser divididas com o Hot (e esta seria a melhor de todas as soluções, inclusivamente para a Escola do Hot); talvez até na antiga área da Companhia de Dança de Lisboa no Palácio dos Marqueses de Tancos; talvez até no edifício ao lado do Cinema S. Jorge, desocupado há anos, e com pelo menos dois pisos disponíevis. O que eu sei é que para resolver isto é preciso imaginação e boa vontade – e sobretudo alguma rapidez. Se ficar tudo sentado a pensar, nada vai acontecer a não ser o Hot morrer aos poucos por falta de actividade.

dezembro 28, 2009

CABAZ DE PRENDAS ( No Jornal de Negócios de 24 de Dezembro)

 


Este não tem sido um ano fácil – daqui a alguns anos se poderá ver como 2009 foi um ano horribilis, para os portugueses, para a economia portuguesa, para a política portuguesa, para a justiça portuguesa. A degradação do país é acentuada, precipitada por actores políticos inconsequentes, por um sistema partidário desfasado da realidade, por um sistema parlamentar em descrédito, por uma justiça absolutamente vergonhosa. A grave e preocupante situação económica a que chegámos – muito mais preocupante que a tradicional bonomia lusitana consegue encarar – coloca-nos à beira do abismo e compromete o futuro. Sucessivas políticas improvisadas destruíram a produção nacional, que reconvertem por temporadas em obras públicas gigantescas de importância, prioridade e necessidade mais que discutíveis.


Talvez alguns leitores se indignem por eu nomear, na lista de prémios e prendas abaixo publicada, tantos nomes do PS. Faço-o não por embirração especial mas porque é  o PS que tem estado maioritariamente à frente do Governo desde 1995, com um breve intervalo de três anos do PSD – que, verdade seja dita, também não correu bem. No entanto, nos 15 anos mais recentes, em 12 os  Governos do PS desperdiçaram todas as oportunidades, aumentaram a despesa pública, e na maior parte do tempo governaram com maioria absoluta ou com apoio parlamentar maioritário. E nem quero apontar os escândalos, os casos, as corrupções, as perseguições, os compadrios que, nos últimos anos, com Sócrates no poder se tornaram o pão nosso de cada dia.


Portugal piorou nestes últimos quinze anos. Os políticos no activo estão a destruir o capital de confiança na democracia. Os principais partidos políticos ou estão no poder e dividem lugares ou estão na oposição e entram em auto-destruição. Sinceramente gostava de não ter que dar prendas assim – mas a realidade que vejo á minha frente é mesmo esta. 

 


Marcelo Rebelo de Sousa – Prémio «Agora Ainda Não», ao conseguir mais uma vez fintar tudo e todos nas questões do PSD – tivesse a selecção portuguesa de futebol jogadores com esta capacidade de finta e o Mundial da África do Sul poderia ser um passeio tranquilo. 

 


Teixeira dos Santos – Prémio «Não me Agarras» por se ter tornado no Ministro das Finanças mais rápido a fazer aumentar o défice do Estado – actualmente ao ritmo de 39 milhões de euros por dia; o prémio também recompensa a bonito aumento da despesa pública conseguido entre Novembro do ano passado e Novembro deste ano – um recorde de 4,6%. Recebe também um exemplar de «Economics», de Paul Samuelson, para ver se ainda consegue aprender alguma coisa. 

 


Manuel Alegre – Prémio «O Eterno Candidato», pela sua dedicação aos jantares de apoiantes, à carne assada e aos grandes discursos tão redondos, tão redondos, que ninguém consegue perceber o que lhe vai na cabeça. 

 


José  Sócrates - Prémio «Aumentador do Ano», por ter conseguido mais défice, mais desemprego, maior endividamento externo e maior instabilidade política. Ainda não foi desta que ganhou uma medalha na maratona da política. 

 


António Costa - Prémio «Viva o Prozac», pela bonomia com que assiste ao degradar de Lisboa, aos desmandos de José Sá Fernandes e às tropelias de Helena Roseta, enquanto espera placidamente sentado a queda de Sócrates. 

 


Noronha do Nascimento – Prémio «O grande Censor» por no seu discurso de posse, depois de reeleito para o Supremo Tribunal de Justiça ter defendido a criação de um órgão especial para julgar jornalistas «composto paritariamente por representantes das próprias classes profissionais e da estrutura política do Estado». 

 


Pinto Monteiro – Um frasco de «speed» e uma lata de Red Bull para ver se a Procuradoria Geral da República consegue funcionar a um ritmo decente . 

 


Sérgio Sousa Pinto – Prémio «Laxante Cerebral», pela diarreia mental que tem espalhado à sua volta desde que regressou de Bruxelas – um típico caso dos efeitos da burocracia comunitária em políticos imberbes. Esteve quase para dividir o prémio com Ricardo Rodrigues, o rotweiller político do PS. 

 


PSD – Um vale de 20 sessões com o Professor Karamba a ver se afasta o bruxedo e consegue sobreviver. 

 


Augusto Santos Silva – um manual do World Of Warcraft, a ver se faz menos asneira como Ministro da Defesa do que no cargo anterior. 

 


Aguiar Branco – Um frasco de vitaminas a ver se consegue ser mais enérgico e mostrar alguma convicção. 

 


Isabel dos Santos – Prémio «Portugal É Nosso» e «Compre Português», pela continuada e activa actividade de compras que tem desenvolvido em Portugal – garantindo recordes de investimento estrangeiro à margem de qualquer organismo oficial especializado no assunto. 

 


BACK TO BASICS – Se não fosse o jornalismo, Portugal era um sítio isento de corrupção, de crimes violentos e de abusos sexuais» - Fernando Sobral. 

dezembro 21, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 16 de Dezembro)

PORTUGAL – É certo que governar em maioria absoluta é mais fácil, mas também é certo que governar em maioria simples é a situação mais normal por esse mundo fora. Sócrates, que dentro e fora do seu partido gosta de mandar com maioria absoluta, não gosta de compromissos e o seu apregoado talento de negociador só tem expressão prática fora de portas. Melhor seria que utilizasse dentro de fronteiras a paciência e o espírito conciliador que o levou a conseguir o acordo sobre o Tratado de Lisboa. O absolutismo de que Sócrates gosta é um sinal de menoridade política, é um sinal de desprezo pelas opiniões alheias. O exercício do Governo em maioria relativa pressupõe acordos transparentes, um parlamento vivo e actuante - é o que melhor podia acontecer não só ao país, mas também aos partidos, eles próprios habituados a funcionar em regime interno de absolutismo. O triste balanço dos anos de maioria absoluta de Sócrates resume-se a isto: temos mais corrupção, mais desemprego, maior défice, maior endividamento, menos confiança e menos esperança. 

 


 


MASTRO – O disparate da semana é o mastro de cem metros de altura que a Câmara Municipal de Paredes quer construir, com um custo estimado de um milhão de euros, para pôr a ondular uma bandeira nacional, numa iniciativa comemorativa do centenário desta muito pouco útil República. 

 


 


LISBOA I  – O espaço público degrada-se, as ruas continuam sujas, os estaleiros de obras particulares permanecem a empatar ruas mesmo depois de obras terminadas, os estaleiros do Metro na zona do Saldanha continuam a ser um pesadelo quase seis meses depois de abertas as novas estações, ainda não foi desta que a Duque de Ávila voltou a ter trânsito. 

 


 


LISBOA II – O que está em causa no jardim do Princípe Real não é uma operação fito-sanitária para tratar de plantas e árvores; o que está a ser feito e não foi discutido nem mostrado à população, é um novo arranjo de todo o antigo Jardim do Princípe Real – que vai ficar irreconhecível. 

 


 


LISBOA III – Um tribunal arbitral condenou a Câmara Municipal de Lisboa a pagar uma indemnização de 18,5 milhões de euros ao empreiteiro da obra do túnel do marquês, devido à interrupção dos trabalhos causada pela providência cautelar interposta por José Sá Fernandes, antes de ocupar o seu actual ligar na vereação camarária. 

 


 


RESUMO – As áreas delegadas em Sá Fernandes, espaço público, ambiente urbano e espaços verdes estão cada vez piores – a sua acção como vereador é criticada de forma quase unânime e arrisco dizer que é consensual a sua incapacidade para manter a cidade confortável e agradável. Pior, a sua acção de propaganda política, que contribuíu para o seu actual estatuto (a guerra desencadeada contra o projecto do Túnel do Marquês) saldou-se num enorme prejuízo directo para a autarquia, pago por todos os munícipes por via dos impostos – e isto apesar de hoje em dia todos, excepto o próprio, reconhecerem que o túnel melhorou o ambiente urbano na zona e contribuíu para a qualidade de vida de quem reside naquelas ruas. Face a uma situação destas, em que a incompetência se alia à irresponsabilidade, seria da mais elementar decência que José Sá Fernandes renunciasse ao cargo, que manifestamente não é capaz de desempenhar em condições, e sobretudo porque agora se confirma que ele foi o causador directo de prejuízos avultados. Mas, já que ele não tem a decência de reconhecer os seus erros, seria natural que António Costa, face à sua acção como vereador, e aos efeitos nefastos da sua actividade anterior nas finanças da Câmara, lhe retirasse a confiança política. Nada disto se passa – e é tempo para quem votou em António Costa pense no resultado prático dos seus votos. 

 


 


OUVIR – Fora de Espanha Luz Casal tornou-se conhecida pela sua interpretação do clássico sul-americano «Piensa En Mi», incluída  na banda sonora do filme «Tacones Lejanos», de filmes de Pedro. Este ano Luz Casal voltou a pegar na tradição da melhor música latino-americana, interpretendo 12 clássicos, de «Alma Mia» até«Que Quieres Tu de Mi», passando por « Mar Y Cielo», «Cenizas» ou «no, No y No», entre outras. Os arranjos, de uma elegância notável, são do brasileiro Eumir Deodato, que tem uma longa carreira musical feita nos Estados Unidos desde os anos 70. CD «La Pasión», EMI. 

 


 


LER I – Muito bem o livro  “Xutos & Pontapés - As melhores canções para crescer”, que reúne as letras de 16 temas do grupo, com óptimas ilustrações de Miguel Gabriel para temas como  "Contentores”, “N´América”, “Vida Malvada”, “Desemprego”, “Prisão em si”, “Remar, Remar”, “Chuva Dissolvente” e “Homem do leme”, entre outros.  

 


 


LER II - «As melhores fotografias de Lisboa Desaparecida», uma selecção de imagens raras, organizada por Marina Tavares dias, na sequência da sua série de álbuns sobre a história de Lisboa. A selecção de imagens é muito boa e sugiro um exercício: pegue no livro e leve o seu filho a um dos locais emblemáticos da cidade ali mostrados, ponha-se no mesmo ângulo da imagem e veja as diferenças com o que, no mesmo local, se pode ver hoje. 

 


 


PETISCAR - Nestes dias pré-natalícios é bom um restaurante de comida portuguesa, ambiente acolhedor, boa garrafeira, preços sensatos. Esta semana regressei a uma casa onde as coisas tem tendência a correr bem. Para aguçar o apetite direi que umas empadinhas de galinha e um queijo de serpa, acompanhado por finas fatias de pão alentejano, serviram para preparar o paladar. O vinho, que entretanto chegou, é o belíssimo Valado tinto 2007, que fez muito boa figura a acompanhar a escolha de perdiz com couve lombarda, que estava superior. A rematar, requeijão com doce de abóbora. Resta dizer que José Duarte, o homem ao leme deste «Salsa & Coentros», continua em boa forma. Para lá ir deve fazer uma reserva pelo telefone 21 8410990. O restaurante fica em Alvalade, na rua Coronel Marques Leitão, que começa frente ao quartel de Bombeiros da Avenida Rio de Janeiro. 

 


 


BACK TO BASICS - «Dado o character do jornalismo actual, a profissão de espião deixou de fazer sentido» - Oscar Wilde 

 

dezembro 16, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 11 de Dezembro)

 


ESQUINA 334 – 11 DEZ 09

 

PRODUZIR - O mundo mudou - e muito - nestes últimos anos. Numa recente conferência Augusto Mateus colocou o dedo na ferida: vivemos em sociedades que criaram instituições para distribuir riqueza, mas na realidade aquilo de que agora precisamos é que as sociedades se transformem e que criem e incentivem instituições que proporcionem os melhores mecanismos para assegurar a produção da riqueza – senão corre-se o risco de nada existir para distribuir e de o sistema ficar completamente desfasado da realidade. Para resumir, tem de existir um reequilíbrio entre os direitos e deveres de cada um.

A situação calamitosa das finanças públicas vem em boa parte deste desfasamento da realidade – persistir num modelo de compromissos passados, sem assegurar formas actuais de encontrar recursos para os cumprir só pode levar a mau resultado. A única forma de termos uma sociedade mais equitativa é assegurar que a sociedade seja mais produtiva e que assegure maior produção de riqueza.

 

PARTIDOS - Para que todas estas reformas sejam possíveis é fundamental que os partidos políticos assumam responsabilidades no ciclo de mudança e garantam a sua própria transformação. Na maior parte dos casos os programas e objectivos partidários estão desfasados de toda esta nova realidade e em vez de colocarem objectivos adequados aos novos tempos, persistem em promessas sem encararem o que é preciso fazer para que elas possam ser cumpridas. Os partidos políticos portugueses chegaram a uma crise de meia idade: a sua actividade pública e legal num quadro de democracia parlamentar está perto das quatro décadas. O sistema político, o sistema eleitoral e o próprio sistema partidário apresentam bloqueios e incongruências que se transformam numa grande incapacidade de acção e num progressivo envelhecimento das estruturas, dos militantes e dos quadros. De facto, á excepção do Bloco de Esquerda e do Partido Popular, os outros partidos parlamentares estão a dar sinais de esclerose, de envelhecimento da sua massa de apoiantes e simpatizantes e em graus diversos estão com disputas internas mais centradas em pessoas do que em ideias. A ausência de ideias e de vontade efectiva de as passar á prática é um mal generalizado que compromete a evolução do sistema.

 

CINEMATECA - Esta semana Maria João Seixas foi nomeada Directora da Cinemateca . Curiosamente as diversas notícias não referiram que durante vários anos ela foi, com Renée Gagnon, responsável por uma empresa, privada mas bastante subsidiada, que tentava distribuir filmes portugueses no mercado internacional. Essa é, na realidade, a sua mais forte experiência profissional no universo do cinema. Mais do que opinar sobre a pessoa escolhida, interessa-me opinar sobre o que a Cinemateca deve fazer – conservar, estudar, divulgar a produção nacional, preservá-la para o futuro. Por muito que isto custe a algumas almas bem pensantes, a razão de ser da Cinemateca é a conservação de um arquivo audiovisual moderno e não a programação da sala de projecção da Barata Salgueiro. O que interessa verdadeiramente saber é qual a estratégia que Maria João Seixas defende para a instituição – e eu espero bem que não seja um programa de acção principalmente exibicionista, em vez de um programa dedicado à organização, exploração e ampliação dos arquivos portugueses de imagens em movimento. Tenho para mim que quer Félix Ribeiro (que fundou a Cinemateca), quer Luís de Pina deram o grande impulso para que a Cinemateca tivesse um acervo importante e bem organizado. Bénard da Costa deu seguimento à componente arquivo, ao mesmo tempo que desenvolvia a componente de exibição – infelizmente pelo meio José Manuel Costa, que concebeu e criou o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (uma estrutura exemplar na dependência da Cinemateca), abandonou a instituição sem que as causas estivessem explicadas – embora se adivinhasse que o desinvestimento na área que tutelava possa ter estado na origem da sua decisão. O equilíbrio entre estas duas áreas é decisivo para o futuro, sobretudo numa fase em que o vídeo e o digital alteraram completamente o universo do filme como o conhecemos actualmente. Sob pena de as próximas gerações terem um acervo e um património de imagens inferior, em termos de diversidade, qualidade, representatividade e actualidade, ao que a minha geração teve a felicidade de poder usufruir, é absolutamente fundamental que sejam definida uma estratégia para que a Cinemateca actue no século XXI e não permaneça apenas como uma simpática instituição do século XX.

 

SEGUIR – No próximo dia 16, na Rua de Santo António à Estrela 31B, a casa Leiria e Nascimento realiza um leilão de design e artes decorativas do século XX, com peças muito interessantes em vidro e cerâmica, mas também mobiliário de autor. Parte das peças vem do recheio original da Casa de Serralves. O catálogo pode ser consultado em www.leiriaenascimento.com. Este leilão marca o início da colaboração entre o coleccionador e galerista Victor Pinto da Fonseca com a empresa leiloeira.

 

LER – Se gostam de um bom policial não percam o mais recente romance de Francisco José Viegas, «O Mar Em Casablanca». Jaime Ramos, o detective de serviço à obra do escritor, percorre o país com algum desalento enquanto a sua investigação o faz recordar episódios da transição colonial. É um livro escrito com os pés no presente, cheio de referências a episódios passados, a adivinhar os efeitos futuros da transformação que se está a operar na sociedade portuguesa por via da crescente actividade, em todos os domínios, dos ex-colonizados em Portugal. (Porto Editora, 234 páginas)

 

OUVIR – Simples, quase ingénuo, divertido, o novo disco de Bob Dylan (o segundo este ano, o 47º da sua carreira) é uma recolha de temas tradicionais de Natal em interpretações muitas vezes inesperadas, desde «Here Comes Santa Claus», até «O’ Little Town Of Bethelem», passando por «I’ll Be Home For Christmas» ou «Silver Bells». Ao todo são 15 temas tradicionais, com arranjos muito curiosos, numa produção do próprio Dylan sob o nome de Jack Frost. Dylan doou todos os seus direitos, a título perpétuo, para a organização «Feed America» nos Estados Unidos e a duas outras organizações internacionais similares para as vendas fora dos Estados Unidos.(«Christmas In The Heart», Bob Dylan, CD Columbia).

 

BACK TO BASICS – «A arte é a mais intensa forma de individualismo que o mundo conhece» - Oscar Wilde

 

dezembro 09, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Dezembro)

 


PROBLEMA – A táctica do Governo com a oposição não é chegar a consenso nem procurar soluções, é esticar a corda para ver se ela rebenta. Esta táctica serve a estratégia de colocar Belém numa posição de cheque-mate, face à embrulhada dos prazos constitucionais que se avizinha. Para prosseguir esta táctica é provável que o discurso de vitimização aumente de tom, que seja metido no mesmo saco o chumbo de propostas e as investigações em curso e que, eventualmente, a coisa culmine com uma moção de confiança que possa pôr em cima da mesa a hipótese de demissão do Governo. Sócrates joga no papão da instabilidade para conseguir manter-se no poder – pouco mais pode fazer, para além das oportunidades de imagem e de boa imprensa que o fim-de-semana lhe deu na cimeira ibero-americana e na assinatura do Tratado de Lisboa. O problema de Sócrates é que ele está tão viciado no poder absoluto que teve durante uma legislatura que agora – numa situação de crise económica grave ainda por cima – não consegue viver na procura de soluções e na resolução de dificuldades, habituado que está a fazer o que quer e a empurrar os problemas sempre para a frente – que verdadeiramente foi o que nos levou ao triste ponto onde agora estamos.

 

RESTAURAÇÃO – Não deixa de ser uma triste coincidência que o Dia da Restauração, que assinala a data em que Portugal reconquistou a soberania enquanto Nação independente, seja o dia em que foi assinado, em Lisboa, o novo tratado da União Europeia, mais um passo na subalternização da individualidade das nações. É curioso ver como a cerimónia, que aqui encheu televisões e capas de jornais, teve apenas repercussão média por essa Europa fora e no resto do Mundo mal se deu pela coisa.

 

LISBOA I – As estações de Metro do Saldanha e de S. Sebastião foram inauguradas há cerca de dois meses mas à superfície continua o caos. Lá estão ainda os estaleiros, a Duque de Ávila permanece com condicionamentos de trânsito, que incluem a impossibilidade de atravessar a Avenida da República. A complacência da Câmara Municipal de Lisboa com estas situações é inaceitável.

 

LISBOA II – Quem passar no largo do Princípe Real achará que houve um bombardeamento. Grades levantadas, zonas interditas, tudo feito sem informação nem diálogo com os moradores, derrubes polémicos de árvores, enfim prepotência a rodos pela mão do duo que apostou em dar cabo de Lisboa: quando passarem no Príncipe Real como ele está agora lembrem-se que aquilo é fruto de António Costa de mão dada com José Sá Fernandes.

 

LER – A edição de Dezembro da revista «Monocle» inclui um suplemento com o top 50 em matéria de viagens – desde hotéis a linhas aéreas, passando por aeroportos, restaurantes e cidades. Na mesma edição é publicada a lista das 20 pessoas que estão a ajudar a mudar o mundo para melhor – e Catarina Portas aparece em 16º lugar, sobretudo graças à sua defesa dos produtos tradicionais nas suas lojas «A Vida Portuguesa» e nos seus quiosques. Esta edição inclui análises de tendências para o próximo ano por 25 autores das mais diversas áreas, tem um especial sobre Madrid , além das habituais secções sobre design, arquitectura e media. Este é verdadeiramente um número de colecção.

 

OUVIR – Em fase natalícia proponho um produto «dois em um». Trata-se de uma caixa com dois CDs de Frank Sinatra que a Universal Musi em boa hora teve a ideia de juntar. O primeiro regista um histórico concerto gravado em Março de 1986 no estádio de Meadowlands, na sua Nova Jersey onde nasceu. Ao todo são 21 temas que fizeram história na carreira de Sinatra. O outro disco, «Christmas with Sinatra and Friends», é uma compilação de melodias tradicionais de Natal interpretadas por Sinatra, Rosemary Clooney, Mel Tormé, Tonny Bennett, Bill Evans, Ray Charles e Betty Carter. Simplesmente arrebatador.

 

CHIADO – Dia 1 de Dezembro, passeio no Chiado, ainda muito vazio, ao princípio da tarde. Bom movimento na FNAC ( de longe a loja mais movimentada), o resto um pouco mortiço, mesmo na própria rua. Alguns locais continuam obrigatórios, como a Casa Pereira onde existem aquelas que são provavelmente as melhores raspas de casca de laranja cobertas a chocolate preto e onde podem descobrir as maravilhas do chá pérola ou de cafés de origens invulgares – fica na Rua Garrett 38. Na Rua Anchieta 11, numa loja antiga, vive hoje em dia «A Vida Portuguesa», a loja criada por Catarina Portas para divulgar produtos tradicionais de Portugal – desde lápis Viarco a baralhos de carta, passando por sabonetes Ach Brito os extraordinários cadernos da Papelaria Emílio Braga, mais baratos e melhores que os da Moleskin.

 

PETISCAR – Ele há sítios que podiam ter todas as condições para funcionar bem e depois se perdem por coisas idiotas. O «Café no Chiado», no Largo do Picadeiro, tem um ar simpático e confortável mas frusta as expectativas. Numa casa que ganhou fama com os seus bifes, um steak com molho de mostarda antiga, veio no meio de um molho demasiado aguado. Como havia esparregado incluído nos acompanhamentos foi pedido que ele não fosse trazido e que a dose original de batatas fritas fosse reforçada, mas em vez disso veio singela e escassa, com batatas mais cozidas que fritas e bastante oleosas. Mas o pior estava para vir na factura – uma amostra de queijo de Azeitão, colocado fora do couvert, e que não foi nem pedido nem tocado, apareceu facturado à mesma, por cinco euros. É uma pena e azar meu, porque sei que a sopa do dia, de ervilhas, e uns ovos com salmão, que o outro lado da mesa foram testados, estavam apreciáveis. E o vinho da casa, servido a copo, satisfazia. Mais cuidado na cozinha e mais cuidado na forma de fazer as contas são esforços que compensariam. Regista-se que está aberto até ás duas e tem uma esplanada abrigada todo o ano. Telef 213460501.

 

BACK TO BASICS – Para entrar na diplomacia nada melhor que demonstrar aptidões ao conduzir uma dança de salão – Oscar Wilde.

 

dezembro 02, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 27 de Novembro)


PROFESSORES – Ponho-me na pele daqueles professores que nas recentes eleições legislativas votaram no PSD: que pensarão eles agora do volte-face parlamentar deste partido em matéria das avaliações? Que pensarão da mudança de posição protagonizada por Aguiar Branco, que fez o negócio político no Parlamento com o PS, está para se perceber a troco de quê? Como podem os eleitores sentirem-se motivados quando lhes pedem um voto para manifestarem o apoio a determinada posição e ela muda em sentido oposto logo a seguir? O sistema parlamentar é suposto ser de confronto, de apresentação de alternativas e não predominantemente baseado em habilidades negociais e equilíbrios diplomáticos. Não há-de ser por este caminho que o PSD recupera credibilidade.

 

ESCUTAS- Apenas uma nota, só para colocar as coisas em perspectiva: um Primeiro-Ministro é Primeiro-Ministro 24 horas por dia. Todos os seus gestos, declarações, escolhas, têm um significado político. Conversas com amigos, que coincidentemente são dirigentes do mesmo partido, obviamente estão na esfera política e sujeitas a escrutínio se de alguma forma forem conhecidas e indiciarem factos politicamente polémicos ,sejam pressões, mentiras ou compadrios – nunca podem ser entendidas como da esfera pessoal. Eu acho que isto é evidente, mas com a trapalhada toda criada à volta deste caso às vezes perde-se o fio à meada.

 

LISBOA – Não se pode dizer que a minha experiência inicial na Assembleia Municipal seja magnífica – a reunião começa bem atrasada, está duas horas e tal a votar moções diversas (eminentemente de posicionamento político mas pouco eficazes) no período antes da ordem do dia, e, depois, a parte substantiva do assunto, por exemplo discutir as taxas de impostos sobre os munícipes, é tratada tarde, a más horas e de forma atabalhoada. A única novidade foi perceber-se que a cisão dos eleitos pelo Movimento Cidadãos Por Lisboa, de Helena Roseta, já estava anteriormente combinada com o PS, por forma a organizarem-se de forma autónoma, como antes das eleições - apenas esconderam o facto para iludirem os eleitores com uma ideia de unidade, falsa como agora se verifica. Aquilo a que assisti terça-feira passada foi à revelação de um acordo espúrio patrocinado por Manuel Alegre, que levou pela mão Helena Roseta ao altar de António Costa para uma farsa de casamento político com divórcio a prazo contratado. Confirma-se que a lista de António Costa era apenas uma péssima açorda política, sem consistência e de travo amargo. Parece que isto é fazer política. Eu, na minha inocência, acho tudo isto extraordinário.

 

RESUMO DA SEMANA – O Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Carlos Encarnação, quer limitar o acesso de jornalistas a sessões da autarquia. O Presidente Lula da Silva afirmou publicamente que devem existir limitações ao trabalho dos media. Várias vozes do PS insurgem-se contra os media que publicam o teor de escutas. A dívida pública aumentou, o défice já vai em 8,4%, e o remédio proposto por Vítor Constâncio para o descalabro das contas públicas geridas pelo PS é aumentar ainda mais os impostos.

 

IR – Fixem as datas: dias 4, 5 e 6 de Dezembro regressa o Cascais Jazz, o mítico festival lançado por Luís Vilas-Boas e Duarte Mendonça nos anos 70. O local do novo Cascais Jazz é o auditório do Centro de Congressos do Estoril e do programa fazem parte, entre outros, Lee Konitz, Dena deRose Magic Trio, a Zé Eduardo Unit e a Cascais Jazz Legends, que inclui Phil Woods, Cedar Walton, Rufus Reid, Jimmy Cobb e Lew Soloff.

 

VER – Na noite da passada quinta-feira a ArteLisboa, na FIL, tinha movimento reduzido e estava longe de ser uma animação. À mesma hora o nº 84 da Rua da Boavista, o Transboavista-VPF, fervilhava de gente e animação que visitava quatro exposições: uma instalação muito curiosa de A Kills B («Dimensão Radial»), uma exposição de novos trabalhos de desenho e pintura de Pedro Cabral Santo («Fireworks»), uma colectiva comissariada por José Quaresma («Voyager») e, num novo e prometedor espaço do edifício, estava a exposição do colectivo português Kameraphoto «A State Of Affairs» que mostra o trabalho de 13 fotojornalistas da agência em outros tantos pontos do mundo, acompanhando cada um, durante uma semana, o trabalho de um jornal local. Um projecto ambicioso, invulgar em Portugal, e com um resultado final que ultrapassa o mero registo de uma sucessão de momentos em locais diversificados. Para todos os que se interessam por fotografia vale a pena comprar o catálogo desta exposição.

 

OUVIR – O nome evoca um disco célebre dos Buggles no advento da MTV. A canção chamava-se «Vídeo Killed The Rádio Star» e prometia o admirável mundo novo da música na televisão. O novo disco de Robbie Williams chama-se «Reality Killed The Vídeo Star» e é inevitável que se pense ser uma evocação autobiográfica da vida no artista nos últimos anos, depois do falhanço do disco anterior, «Rudebox». Para este novo trabalho Williams chamou Trevor Horn para dirigir a produção e o resultado é um conjunto de novas canções pop, com arranjos exemplares, e em vários casos letras onde se percebem as dúvidas que atravessam o espírito de Robbie Williams como «Last Days Of Disco», melodias exemplares, como «Morning Sun», experiências curiosas como «Difficult For Weirdos» ou «Starstruck» e aquela que é talvez a mais curiosa e pessoal das canções, «Deceptacon».

 

LER – Eu gosto de histórias curtas, pequenos contos. Confesso que é uma forma literária que me cativa. Há tempos o blog «O Galo de Barcelos Ao Poder» lançou um concurso de microcontos, peças pequenas, histórias rápidas. Esta semana foi publicado o livro que recolhe os melhores contos recebidos (cerda de duas dezenas) e uma selecção de contos do próprio autor do blog e da ideia, João Viegas. Há histórias poderosas, que deixam no ar o apetite para um filme que podiam inspirar. E outras, intimistas e fortes, que captam a atenção numa frase, como aquela história do homem que, não fumando, procurava cigarros. «O Canto do Galo» é o nome da colectânea de microcontos, editada pela Bizêncio.

 

BACK TO BASICS – A política é o mundo do espectáculo das pessoas feias – Jay Leno

 

novembro 25, 2009

A minha aventura na Assembleia Municipal

Começar uma reunião com quase 45 minutos de atraso, gastar cerca de duas horas e meia no período de antes da ordem do dia, e começar já tarde e a más horas a discutir temas concretos da gestão autárquica - como a carga fiscal a aplicar aos munícipes, este o resumo do meu primeiro dia na Assembleia Municipal de Lisboa.


Comecemos pela sala - cadeiras confortáveis para trabalhar, painéis de informação de cada lado do palco onde se senta a Presidência da Assembleia, um deles apagado, o outro de difícil leitura - inúteis portanto. A presidência da Assembleia está em cima do palco, os vereadores da Câmara estão mais abaixo com uma cadeira de espaldar mais alto a assinalar o lugar do Presidente da Câmara. Por todo o lado os telemóveis não Têm descanso.


 


Poucos computadores à vista -  não se detecta nenhuma rede wireless, os deputados que quiserem aceder à internet trazem a sua própria plaquinha com o seu portátil. Pelo meio dos trabalhos diligentes funcionários distribuem papéis e mais papéis. A modernidade aqui é uma palavra relativa.


 


O período antes da ordem do dia é muito curioso: moções de pesar, moções de celebração, moções de evocação, moções de crítica à Câmara Municipal. A discussão é superficial e aliás inútil: quando cada documento é votado a mesa limita-se a ver como vota cada partido e anuncia o resultado pela soma aritmética do máximo de lugares presentes de cada formação, sem se preocupar em contar os votos efectivos nem os deputados presentes. Como as posições estão antes definidas em cada bancada, mais valia que fosse a conferência de lideres a decidir logo o destino desta parte dos trabalhos - poupava-se tempo e ganhava-se produtividade, um conceito pouco popular naquelas paragens.


 


Em boa verdade, os deputados, individualmente, não têm nenhuma margem de manobra e fazem apenas figura de corpo presente  - as divergências com as lideranças das respectivas bancadas são reportadas e reprovadas e as posições individuais são rigorosamente controladas. Na verdade o voto dos deputados de pouco serve, apenas se tem em conta a decisão da direcção de cada partido ou formação na Assembleia. Aos deputados que têm problemas em votar a favor de uma proposta apresentada pelo seu grupo partidário é sugerido que na votação abandonem a sala para não se correr o desagradável facto de existir um voto não conformista. Não sei porquê, enquanto assistia ao espectáculo, só me recordava de um livro de Nabokov intitulado «Convite Para Uma Decapitação», no qual se acompanham os últimos momentos de um condenado por «torpeza gnóstica», ou seja, por não se conformar com o pensamento estabelecido como conveniente pela maioria.


 


Neste admirável mundo novo, pelo menos para mim, percebe-se bem o bas-fond da política: terça feira, por exemplo, percebeu-se que a cisão dos eleitos pelo Movimento Cidadãos Por Lisboa, de Helena Roseta, já estava anteriormente combinada com o PS, por forma a organizarem-se de forma autónoma, como antes das eleições - apenas esconderam o facto para iludirem os eleitores com uma ideia de unidade, falsa como agora se verifica. Aquilo a que assisti foi à revelação de um acordo espúrio patrocinado por Manuel Alegre, que levou pela mão Helena Roseta ao altar de António Costa para uma farsa de casamento político com divórcio a prazo contratado. Parece que isto é fazer política. Eu, na minha inocência, acho tudo isto extraordinário.


 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 20 de Novembro)

SINAL – Da maneira como as coisas estão, qualquer dia as grandes marcas de luxo começam a fabricar modelos especiais de pulseiras electrónicas de vigilância, especialmente para o mercado português.  

 


 


PÉSSIMO – Os novos carrinhos assadores de castanhas de aço inox, assépticos, todos iguais, monocordicamente horríveis, sem uma ponta de pessoalização são a imagem de marca da ASAE neste Portugal moderno: tudo igual, tudo feito, tudo feito sem respeito pela tradição, tudo feito em nome de normas e sem raciocínio. O senhor director da ASAE, já se sabe, gosta de um mundo hiper-controlado mas o que vai deixar de legado é pavoroso. Devia ser sumariamente despejado no caixote de lixo da história, ele sim muito embrulhadinho numa embalagem asséptica para não contaminar o país. 

 


 


POLÍTICA – Todos os que se aproveitam da política para invocarem influências, facilitarem negócios ou encherem os bolsos estão a dar machadadas no regime. Já pensaram porque é que as listas de deputados geram sempre tanta confusão nos maiores partidos? – é que o Parlamento e o lugar de deputado continuam a ser vistos na paróquia como um cartão de visita que facilita apresentações e pode abrir portas. Nada mudou em relação às descrições que os escritores de final do século XIX faziam do provincianismo de grande parte dos políticos portugueses, apenas se agravou. Por exemplo, a nebulosa de interesses no caso da migração de figuras do universo do PS, colocadas na Caixa Geral de Depósitos, para tomarem de assalto o BCP, é uma história que ainda há-de fazer correr muita tinta.  

 


 


BETÃO – Há uns anos o PS criticava com grande arraial a chamada política do betão. Ao longo dos tempos foi mudando a sua posição e agora surge como o grande defensor das grandes obras, mesmo que seja em desrespeito por orientações do Tribunal de Contas – como infelizmente tem sido o caso, repetidamente mostrado nos últimos tempos, nas Estradas de Portugal. Claro que quando se olha para as coisas com maior atenção percebe-se o porquê: em cerimónias de inaugurações variadas a Estradas de Portugal gastou um milhão de euros no final do consulado Mário Lino, ou seja investiu um milhão de euros na propaganda do Governo. Quando se governa assim já se viu que tudo é possível – e que é legítimo pensar o pior. 

 


 


DESGOVERNO – Desta vez o estado de graça durou pouco: o Ministro das Finanças foi considerado um dos piores da Europa, o desemprego atingiu números assustadores, o processo «Face Oculta» parece um cocktail molotov que incendeia tudo, há Ministros desaparecidos de cena, outros que aparecem demais e criam chispas até dentro do PS – como Vieira da Silva. Este mês e pouco é mais de desgoverno do que de Governo – e claramente é uma sucessão de trapalhadas. 

 


 


LER – O número de Dezembro da edição britânica da revista «Wired» vem subtitulado «The Ideas Issue». Cada vez mais autónoma em relação à edição original norte-americana, a «Wired» UK aborda temas que vão desde a legião de programadores que desenvolve aplicações para o twitter, até à reinvenção da Polaroid por holandeses, passando por um brilhante artigo sobre a cimeira da Dinamarca e os cépticos das mudanças climáticas e um belo dossier com 25 ideias para 2010, da ciência à política, passando pela inovação, criatividade e tecnologia.


 

 


 


DESCOBRIR – Entre o jazz e a fotografia se vai desenvolvendo a carreira de Rodrigo Amado. Numa só semana duas novidades: na Galeria Módulo, em Lisboa, inaugura dia 28 a sua terceira exposição de fotografia intitulada East Coasting (o nome de um disco de Charles Mingus), que mostra imagens feitas durante uma digressão enquanto música de jazz ; e ao mesmo tempo é editado «Motion Trio», o seu oitavo disco, que conta com a participação de Miguel Mira e de Gabriel Ferrandini ao lado de Rodrigo Amado. Motion Trio é o nome da formação e do próprio álbum e é uma demonstração da capacidade de improvisação dos músicos, ao mesmo tempo que criam momentos intimistas e emotivos, contribuindo para uma tensão permanente que é um dos grandes atractivos deste registo. 

 


 


FEIRA – Até à próxima segunda-feira, dia 23, decorre a 9ª edição da ArteLisboa que junta na FIL 67 galerias (33 portuguesas, 31 espanholas, uma coreana, uma cubana e uma húngara) e obras de centenas de artistas. A verdade é que este é um bom momento para comprar Arte – a crise atirou os preços para baixo. O problema é que este ano o número de grandes galerias portuguesas que optou pela ausência aumentou de forma significativa, o que há-de ter que levar a repensar o modelo da Feira e, sobretudo, a necessidade de ela definir de forma mais clara uma identidade e uma presença transversal na vida cultural da cidade – para além do objectivo das vendas. 

 


 


VER – Os magníficos desenhos de Cecília Costa na Galeria Baginski numa série intitulada «Carvão», que faz adivinhar uma nova direcção na obra da artista. Na mesma galeria podem também ser vistas oito esculturas explorando formas orgânicas de Bruno Cidra, nomeado para o prémio EDP 2008. A galeria fica na Rua Capitão Leitão 51-53, ao Beato. 

 


 


SUGESTÃO – Um lanche a meio da tarde no De Castro, o pequeno restaurante onde em Lisboa se pode provar a arte culinária de Miguel Castro e Silva. O local serve durante toda a tarde e, se deixar passar a confusão da hora de almoço, só tem a ganhar. Agora também aberto à noite, é no entanto prudente fazer reserva. Brevemente terá uma ampliação, bem necessária face à exiguidade do espaço. Depois de uma fase inicial atribulada e algo confusa, agora o serviço tem vindo a melhorar. Os petiscos, esses, continuam bons, com uma confecção muito cuidada e óptima escolha de produtos tradicionais. Telef. 217979214, Avenida Elias Garcia 180 B (do lado da Gulbenkian, portanto). 

 


 


 


 


 


BACK TO BASICS – Convém ter uma má opinião acerca de todo o mundo – é mais seguro (Oscar Wilde) 

 

 

novembro 18, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Novembro)

 


NEGOCIATAS – Nos últimos anos são muitos os casos de negociatas feitas à sombra da política – quase se tornou num hábito adquirido. A forma como se encara a questão das finanças na política é a grande culpada deste assunto e, na minha opinião, tem três planos de análise, todos eles em situação crítica: o financiamento partidário (cuja nova Lei é melhor que as anteriores mas ainda muito insuficiente); as limitações ao custo das campanhas; e os vencimentos dos titulares de cargos políticos. A questão dos limites aos custos das campanhas é das situações que mais proporciona o actual estado de coisas. Na verdade, ao estabelecer limites objectivamente baixos para os tempos que correm, fomenta-se o financiamento encapotado – já que os dinheiros não declarados se destinam em teoria  a pagar as despesas que ultrapassam os limites, situação que toda a gente sabe que existe na maioria dos partidos. O dinheiro ilegal que entra nos partidos serve para isto e a sua existência desculpa muita coisa. Nas autárquicas a situação ainda é pior – quer em relação aos partidos, quer em relação aos independentes (que são penalizados e nem o IVA podem deduzir – um escândalo!). A hipócrita forma como se proíbe a aquisição de publicidade em campanhas políticas fomenta o aparecimento de empresas, muitas vezes ligadas a pessoas dos aparelhos dos partidos, que exploram materiais de publicidade exterior não regulamentada, que desenvolvem marketing digital, que produzem sites, gerem actuação nas redes sociais, produzem filmes e por aí fora, tudo numa actividade semi-encoberta para não ofender a lei. O evoluir da tecnologia e do mercado impossibilita o pensamento angélico da Lei – um mundo onde a propaganda política e partidária nunca é paga e é feita de voluntariado. Em nome da igualdade (fictícia) de oportunidades para os concorrentes a eleições, na verdade fomenta-se o financiamento ilegal e proliferam empresas informais que concorrem abusivamente no mercado da publicidade e da comunicação – em resumo, é uma fantochada. Fantochada igual é a da remuneração dos cargos políticos – quando meros assessores de gabinetes governamentais ganham mais que deputados ou quando assessores de autarquias ganham mais que vereadores, o mundo está virado ao contrário. Enquanto isto não fôr mudado, prosseguirão os escândalos e há terreno para a corrupção e o compadrio medrarem.

 

ESCUTAS – Duas perguntas: Se Sócrates, como repetidamente disse em público, nada se interessava nem sabia sobre a TVI, porque era então esse um tema de conversa entre ele e o seu amigo Vara? E outra pergunta, mais dura: até que ponto as simpatias politicas, públicas, do Presidente do Supremo, Noronha do Nascimento, pesaram na sua decisão – nomeadamente de não haver qualquer pronunciamento antes das eleições legislativas quando o material já estava na sua posse? E, claro, é polémico – vários juristas o admitem - que caso existam suspeitas de relevância criminal numa conversa em que o escutado estava a ser vigiado dentro dos limites da Lei elas não possam ser investigadas. Por acaso a Lei que fundamenta a simpática decisão do Presidente do Supremo deriva de uma proposta do próprio Governo Sócrates. O cidadão comum, que não é jurista, acha que há coisas feitas por favor, conveniência e compadrio em todo este caso. Quando a política e a justiça vivem envolvidas num manto de mentiras e cumplicidades quem fica pior é o regime – a ética republicana anda mesmo por baixo em véspera de faustosas comemorações.

 

CULTURA – Por ocasião da tomada de posse deste Governo escrevi que a nomeação de Gabriela Canavilhas podia ser um bom sinal. Mas as suas primeiras declarações à imprensa, pondo a tónica na necessidade de, na Cultura, transformar o pouco de que se dispõe em muito, fazem-me lembrar as fatais declarações do seu antecessor, José António Pinto Ribeiro, que também entrou a matar com o lema de fazer mais com menos. A questão da política cultural é dupla: desde que Sócrates é Primeiro Ministro esta área tem tido uma completa ausência de estratégia e, por outro lado, tem objectivamente cada vez menos orçamento. De nada servirão as declarações de Sócrates sobre a importância do sector se continuar na prática a subalternizá-lo e a levar os seus Ministros a defenderem que a melhor omolete é a que se faz sem ovos. No fundo a Ministra da Cultura sabe que precisa de mais meios para poder criar uma nova estratégia – não faz sentido cair nos erros dos seus antecessores.

 

OUVIR – Tenho uma devoção especial pelos Eeels – estou a falar da banda rock norte-americana e não das enguias da Murtosa em conserva, que por acaso também fazem as minhas delícias. Eu gosto dos Eeels porque fazem canções simples, parecem genuínos e tocam de uma forma absolutamente arrebatadora,. Sou fã do seu mentor, Mark Oliver Everett, conhecido como E. , desde o disco «Beautiful Freaks» de 1996. Una anos depois, se a memória me não falha na altura do álbum «Daisies Of The Galaxy», eles actuaram ao vivo no Lux, em Lisboa e eu fiquei rendido à energia que saía de toda aquela simplicidade. De modo que quando este ano vi um novo disco da banda nem hesitei - «Hombre Loco», subtitulado «12 Songs Of Desire» é mais um trabalho magnífico. Se querem ter uma ideia do assunto procurem no youtube o video the «The Look You Give That Guy», protagonizado pela modelo, actriz e escritora Padma Lakshmi (avassaladora!), que faz olhinhos ao próprio Everett. Transcendente – musical e visualmente.

 

VER – Uma das revistas de que procuro não perder nenhuma edição é a portuguesa «L+Arte», sem dúvida a melhor publicação na síntese entre arte contemporânea, apresentação de novos artistas, noticiário de artes plásticas e o mundo das antiguidades. Destaque na edição de Novembro para o portfolio de António Olaio, para o artigo sobre a retrospectiva de Amish Kapoor em Londres e para um bom artigo de antecipação sobre as próximas Feiras de Arte em Lisboa e em Vigo.

 

LER – «Blackpot» é uma novela policial, até agora inédita, de Dennis McShade, ou seja, Dinis Machado. Tem 58 páginas, foi publicada pela Assírio & Alvim e lê-se de um jacto. Percebe-se também que foi escrita de um jacto, depois de muito pensada e estruturada. Tem uma narrativa veloz e formalmente invulgar e uma acção decalcada de uma tempestade. Se eu fosse realizador de cinema pegava já nesta história e filmava-a. Está escrita para ser um filme.

 

BACK TO BASICS –Raramente a verdade é pura, e nunca é simples -

Oscar Wilde.

novembro 07, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Novembro)

PARCIALIDADE - Um ano depois de Barack Obama ter vencido a eleição presidencial vai um grande sururu na Casa Branca por causa da Fox News. Obama acusa a Fox News de ser tendenciosa. A conversa alastrou pelos media e Fareed Zakaria, o editor da Newsweek, um Obamista assumido, colocou a sua revista ao serviço da cruzada anti-Fox News. Convém aqui dizer, de passagem, que o desenvolvimento da reformulação editorial da Newsweek, que Zakaria empreendeu há uns meses, transformou a revista, num espaço muito alinhado politicamente com a Casa Branca e com os objectivos internos e externos de Obama – ou seja, o reverso da moeda que é criticada na Fox. Esta conversa sobre o alinhamento dos media não é nova – assistimos até há pouco tempo a grande sururu em torno da TVI e do Público – em ambos os casos, como agora já se percebeu, a linha editorial foi domesticada. O fenómeno acontece por todo o lado – desde Chávez a Obama, pelos vistos – quando algum canal de televisão se torna incómodo passa a ser maltratado. A questão, no entanto, é a forma como as coisas são tratadas a partir de diferentes prismas. Durante anos assistiu-se a um claro enviezamento noticioso francamente favorável, em sentido lato, à esquerda europeia ou aos democratas norte-americanos. Digamos que quase se tornou uma regra do politicamente correcto ser-se anti-Thatcher, anti-Cavaco, anti- Bush. No caso americano, que aqui estamos a analisar, o coro anti-Bush de muitos media foi assinalável – mas não me lembro de à época a Casa Branca ter decretado persona non grata vozes críticas. Num recente artigo do «New York Times» notava-se que se os democratas se irritam com a Fox, os Republicanos também se podem irritar com outro canal noticioso, a MSNBC. Na realidade o facto de existir alguma tendência nos noticiários não é nova; novo é o facto de os democratas americanos estarem a provar o fel que andaram durante anos a servir ao público em geral. E é muito curiosa a forma como reagem. 


 


CÂMARA - Esta semana tomei posse como representante eleito na Assembleia Municipal de Lisboa. Chocou-me a forma como os serviços da Assembleia, certamente mal instruídos por alguém, logo na primeira sessão, deram por adquirido que existia uma única lista candidata à Mesa da Assembleia, fruto de negociações entre PS, PSD e CDU. Em vez de esperarem por ver o que saía do plenário, quiseram dar por adquirido o resultado das negociações entre as estruturas dos maiores partidos. O resultado é que surgiu mais uma lista, do PPM e do MPT, que felizmente salvou as aparências e evitou que Simonetta Luz Afonso fosse eleita em lista única, como me pareceu ser o desejo dos negociadores. Os serviços lá fizeram à pressa novo boletim de voto, menos cuidado e completo que o anterior. Os pequenos partidos e os independentes fazem falta, e muita, para que a política não se transforme numa farsa negocial – esta a primeira lição que aprendi logo no meu primeiro dia em funções. 


 


LIXOS - A operação Face Oculta vem chamar a atenção para um aspecto muito curioso: negócios que se desenvolveram na sequência de medidas tomadas sob a capa ambiental tornaram-se rapidamente em expoentes de grupos de interesse, em pressões e corrupções. Para além das boas intenções de alguns, os negócios desenvolvidos à sombra do ambientalismo têm muito que se lhe diga, como estes dias têm mostrado O que se tem passado em Portugal lembra estranhamente a série «Sopranos», onde o principal negócio da Máfia estava precisamente na área da reciclagem de lixos. A história das negociatas ocorridas nesta área, e que cronologicamente e de facto surgiram por ocasião da Expo 98, ainda vai dar pano para mangas. A legislação então feita permitiu e fomentou a criação de negócios que hoje se revelam espúrios – e seria curioso perceber como alguns empresários foram tão rápidos a conhecer novas oportunidades de negócio que podiam ser exploradas. Há muito tempo que não acredito em coincidências… 


 


LER – Não é todos os dias que uma revista comemora 300 anos – três séculos de vida. O caso é que a britânica «Tatler» assinalou na sua edição de Novembro os seus três séculos de existência com um número magnífico de 400 páginas. Um colosso, recheado de histórias, de evocações de épocas da revista – na verdade um manual de como é possível recuperar uma publicação que esteve quase a encerrar portas em finais da década de 70 e que depois fez um percurso notável – começado com Tina Brown entre 1979 e 1983 e então nunca mais interrompido. 1709 foi o primeiro ano da Tatler e um dos acontecimentos desse ano, que esta edição destaca, foi o primeiro voo em balão de ar quente, realizado em Lisboa a 8 de Agosto, pelo padre Bartolomeu de Gusmão que percorreu 400 metros pelo ar para deleite da corte – a nota é acompanhado por uma produção de moda bem actual – é isto que torna uma revista algo de diferente e apetecível e comercialmente muito eficaz. 


 


OUVIR – No ano passado António Pinho Vargas editou a primeira série de «Solo», com composições suas, registadas em sessões de gravação no CCB. Este ano o resto das gravações não editadas e mais umas quantas novas surgem em «Solo II», que consegue ser mais interessante e estimulante que o disco inaugural da série. A maioria das composições continua a ser de António Pinho Vargas, mas há duas versões notáveis «Que Amor Não Me Engana» de José Afonso e «The Times They Are A Changing» de Bob Dylan. Eu, que gosto de discos de piano solo, tenho ficado rendido a este «Solo II», feito à revelia de toda a lógica editorial tradicional e só possível pela dedicação do músico e pela teimosia e perseverança de David Ferreira e das suas Investidas Editoriais – assim se chama a editora que colocou no mercado este belo disco. 


 


REGISTO – Quis o destino que na altura em que se assinalava o 25º aniversário do jornal «Blitz», que fundei e dirigi nos primeiros anos, morresse o António Sérgio, que desde o princípio apoiou a ideia e que ao longo do tempo sempre colaborou com o jornal. Eu, como gerações de ouvintes de rádio, seguia as suas indicações, as suas descobertas. O António Sérgio amava a música e era um mestre a divulgá-la, fazendo-a chegar a mais gente. E fazia rádio com a paixão de quem gosta de comunicar – uma rádio como raramente, infelizmente, se faz hoje em dia.  


 


BACK TO BASICS – Quando se faz a chamada no Senado, os Senadores às vezes não sabem se devem responder «Presente!» ou «Inocente!» - Roosevelt.

novembro 04, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Outubro)

GOVERNO – Justiça, Educação, Saúde, Tecnologia e Criatividade são os grandes desafios de Portugal para vencer no futuro próximo. São estas as áreas de governação onde a ousadia, a reforma e o investimento fazem falta. É por aqui que pode passar a mudança. Se nada for mudado, e se o paradigma continuar focado onde tem estado, o país não será mais competitivo, não será mais justo e deixaremos às gerações seguintes uma herança pior do que aquela que recebemos. Esta é a responsabilidade de quem aceita governar. 

 


OBRAS – Mal o PS ganhou, começou o regabofe em torno da questão do TGV. Afinal a preocupação dominante nestes dias que correm não é a ligação à Europa, a ligação a Madrid. É fazer uma série de linhas, de curta duração, é reivindicar uma série de paragens que tornariam o TGV num comboio-correio dos tempos modernos com paragem em todas as estações. Na questão do TGV há dois interesses, que são antagónicos: os do país e do nosso desenvolvimento; e os das empresas construtoras que fomentam os lobbies locais e que querem multiplicar as linhas. Alguém tem de explicar que há outras possibilidades de requalificar o transporte ferroviário rápido sem passar pelos investimentos gigantes do modelo TGV – aqui está uma coisa que será a prova de fogo do novo Ministro das Obras Públicas, o cabeça de lista do abaixo assinado a favor dos grandes investimentos públicos. Como vai ele decidir? Pelo futuro do País? Ou pelas construtoras e seus lobbies? 

 


 


SERVIÇO PÚBLICO – Nos últimos quatro anos assistiu-se a um progressivo apagar das obrigações de serviço público em matéria audiovisual. A descaracterização progressiva levou a cenários verdadeiramente surpreendentes – quer a nível da informação, quer da programação. Os telejornais da RTP 2 (já nem falo da RTP 1…) estão frequentemente entregues ao sensacionalismo, entre desastres, desaparecimentos e acidentes e não se distinguem de outros telejornais: deixou de haver a preocupação com o enquadramento internacional, com notícias da área da ciência e tecnologia, da economia, ou com o acompanhamento da actualidade cultural e criativa. Na área da produção de documentários os recuos são enormes e até no relacionamento com a DOC Lisboa se chegou a um ponto de conflito insustentável. Discutir o que é serviço público é o primeiro passo para depois ver se o Estado cumpre os seus deveres ou se está abusivamente em concorrência com os privados. Bons exemplos de serviço público em estações privadas são as emissões de «O Futuro Hoje» de Lourenço Medeiros na SIC Notícias, e, no caso da rádio, na TSF «O Mundo Digital» de Rui Tukayana ou o «Made In Portugal» de Rui Miguel Silva são também emissões exemplares. Por falar em TSF não deixa de ser curioso que na quinta-feira da semana passada esta estação privada foi a única que interrompeu a transmissão do jogo do Benfica-Everton para fazer um especial sobre o novo Governo, cuja composição havia sido acabada de anunciar. A isto chama-se fazer serviço público.  

 


 


LER – O número de Novembro da revista «Monocle» é uma das suas melhores edições de sempre. Dois destaques – um editorial e outro comercial. Comecemos pelo editorial, um suplemento de 36 páginas que constitui um guia para a criação de pequenas empresas nos dias que correm – é simplesmente brilhante, cheio de boas ideias e sugestões óbvias mas muitas vezes esquecidas; o segundo, comercial, é um destacável de 12 páginas, colocado ao lado de uma página de publicidade na revista, e que é um guia sobre as indústrias criativas no Reino Unido. A página de publicidade onde o guia está colocado tem o título «Britain Is A Creative Partner To The World» e toda a operação é financiada pelo equivalente ao AICEP português, o UK Trade & Investment – aqui está um exemplo a estudar. Para além destes destacáveis, há um excelente artigo sobre o que a cidade sueca de Gotemburgo fez para atrair novas pequenas empresas e uma boa análise do que pode ser o futuro da indústria da música. No entretanto experimentem visitar o site www.monocle.com . 


 


OUVIR – Discos de jazz gravados ao vivo têm um encanto especial – reproduzem a essência de um género musical baseado na improvisação e no diálogo com o público. «Yesterdays» reproduz um concerto de Keith Jarrett com Gary Peacock e Jack DeJohnette, realizado a 30 de Abril de 2001 em Tóquio, no Metropolitan Festival Hall. Já se sabe que o ano de 2001 foi particularmente interessante para este trio – na realidade é o quarto disco a sair dos concertos desse ano. A gravação percorre composições históricas da fase be-bop como «Strollin» de Horace Silver, «Shaw’nuff» de Dizzy Gillespie e Charlie Parker, «Scrapple From The Apple» de Charlie Parker, e temas clássicos como «You Took Advantage Of Me», «Smoke Gets In Your Eyes» e «Stella By Starlight», entre outros. A gravação foi editada este ano pela ECM quer em CD quer num duplo LP de vinil, o que não acontecia na ECM desde há 15 anos. Um dos melhores trios do jazz contemporâneo numa demonstração de grande sensibilidade e refinada inteligência musical. 

 


 


VER – Este ano o titular do maior prémio de fotografia, o Pictet, é o fotógrafo israelita Nadav Kander, que vive em Inglaterra. O trabalho vencedor, «Yangtze, The Long River», pode ser visto no site do fotógrafo, www.nadavkander.com – muito bem construído, com uma recolha das mais significativas reportagens que fez ao longo da sua carreira. Vale a pena verem, percorrerem as fotos da reportagem vencedora e descobrirem o universo das imagens de Kander.


 

 


 


PROVAR – Sala simpática, serviço atencioso, acústica agradável (uma raridades hoje em dia nos restaurantes), boas propostas em matéria de comida japonesa, a fugir um pouco do que é mais vulgar e corriqueiro hoje em dia. O restaurante chama-se Sushi Ya e tem como especialidades as massas yakisoba (noodles salteados e misturados com diversos ingredientes) e ainda as robatas, pequenas espetadas grelhadas de vegetais carne e peixe com molho agridoce. Se tem amigos que torcem o nariz a experiências japonesas experimente ir aqui – e enquanto pode experimentar sushis e sashimis com temperos inesperados, pode também provar o outro lado, menso divulgado, da gastronomia nipónica. O Sushi Ya fica na Ajuda, ao alto da Calçada da Tapada, nº106 e tem o telefone 211913819.  


 


BACK TO BASICS – Na realidade não escrevo humor – limito-me a observar o Governo e a relatar os factos – Will Rogers