março 12, 2008

E A POLÍCIA IRÁ VISITAR AS SEDES DO PS?

(publicado no diário «Meia Hora» de 12 de Março


Uma das minhas grandes curiosidades desta semana é saber se por acaso vão aparecer agentes da PSP nas sedes do PS, a perguntar quantos militantes socialistas tencionam ir, de cada localidade, à manifestação do Porto. Não acredito que não apareçam – se foram tão empenhados a recolher informações nas manifestações contra o Governo, certamente que também hão-de querer garantir a segurança e a comodidade dos manifestantes pró-governamentais.



Cá para mim esta decisão do PS, em medir apoios na rua, leva-nos de repente até à América do Sul – bem vistas as coisas não é de admirar que Sócrates se dê bem com Hugo Chávez – até lhe copia os métodos do manual de acção política com manifestações espontâneas de celebração dos êxitos da governação.


No Governo há três anos, qual o balanço que o cidadão comum pode fazer? Na saúde as coisas não estão melhores; na justiça e na segurança nem se fala; na educação a crise está instalada; em matéria de defesa dos direitos dos cidadãos retrocedeu-se. Pontos positivos: o défice diminuíu, mas não foi à conta de reformas estruturais, foi sobretudo devido ao aumento de impostos; o desemprego, ao contrário das promessas, não diminuíu; nalgumas questões burocráticas há progresso, sim senhor e registam-se simplificações. Mas é pouco perante os sacrifícios pedidos a todos. Muito pouco.



A política em Portugal está a chegar ao nível zero: No PS e no PSD as fracturas internas aumentam todos os dias; as promessas que o PS fez para ganhar as eleições são desmentidas umas após outras pela prática; a oposição está empenhada em vencer o campeonato nacional de tiros nos pés; o Parlamento limita-se a ser cenário de momentos humorísticos na troca de picardias entre deputados do governo e da oposição.



Não admira que as acções de rua ganhem de repente tanta importância nas estratégias quer da oposição quer do Governo. O resultado de tudo isto vai ser um distanciamento cada vez maior dos eleitores – ou então o surgimento de novas organizações – como aqui e ali já se começa a verificar. Sócrates e Menezes arriscam-se a ficar para a História por proporcionarem a maior contribuição à alteração do espectro partidário – a menos que as coisas mudem, acho que não vai demorar nem dois ciclos eleitorais para que o cenário político partidário fique bem diferente. 
 

OS PROBLEMAS DA MAIORIA ABSOLUTA

(publicado no «Jornal de Negócios» de 12 de Março)


 


O principal balanço que consigo fazer destes três anos de governação de José Sócrates é que se provou como a demagogia anda cada vez mais de mãos dadas com a política e que as maiorias absolutas podem encalhar, como aconteceu com esta. Sócrates chegou ao poder pelo descalabro em que o PSD caíu, com uma inegável e oportuna ajuda de Jorge Sampaio, mas também graças ao despudor com que fez promessas impossíveis de cumprir, como agora se vê. Quais eram as suas bandeiras pré-eleitorais? Reduzir o desemprego, fazer reformas profundas na administração pública, melhorar os sistemas de saúde, educação e justiça, combater o deficit e aumentar a competitividade do país. Como se sabe, de tudo isto, o único objectivo conseguido foi o da redução do deficit, não à custa de reformas estruturais na administração pública, mas sim do aumento dos impostos.



O posicionamento de Portugal entre os países comunitários piorou em quase todos os indicadores. Falta um ano para acabar esta legislatura e o que não se fez antes, muito dificilmente acontecerá agora. É provável que no decurso deste último ano da legislatura uma outra forma de demagogia, mais tradicional, seja adoptada – com distribuição de obras públicas convenientemente lançadas e benesses várias espalhadas a eito pelo país. Quanto a reformas estruturais quase nada, excepção feita a algumas medidas de simplificação de burocracias. Na saúde desfez-se sem se fazer nada, na educação criou-se o caos. Não faltam trapalhadas na acção do Executivo.



Pelo meio ficam algumas questões graves: o funcionamento da justiça piorou, a máquina judicial está cada vez mais utilizada para investigações políticas, o fisco despreza e viola os direitos dos cidadãos, as polícias voltaram a ser utilizadas para vigiar o direito de exprimir e manifestar opiniões contrárias ao Governo.


Tudo isto provoca um enorme descrédito nos mecanismos tradicionais da política e dos partidos. Não é por acaso que as manifestações regressam, que até o PS se prepara para promover uma jornada de rua de desagravo, por sinal muito à maneira de Hugo Chávez. Um dos mais preocupantes sinais da situação política que vivemos tem a ver com a total ineficácia do parlamento em regime de maioria absoluta, que fomentou a falta de diálogo, a arrogância e a sobranceria do Governo para com os cidadãos e para com a oposição.



Na minha opinião o actual quadro partidário já não é representativo e precisa urgentemente de mais intervenientes, à esquerda e à direita, o voto só ganha em ser mais fragmentado e as maiorias absolutas devem ser evitadas. Isso forçará qualquer Governo a ter em conta a realidade, a reconhecer a necessidade de consensos e acordos, e pode criar condições para devolver protagonismo ao Parlamento. 

março 10, 2008

TRAPALHADAS E ESPERTALHICES

MAU - O caso é este: a Polícia Judiciária poucas vezes consegue levar uma investigação complicada a bom porto; as outras polícias patrulham pouco e assobiam para o ar quando vêem alguma coisa que os possa aborrecer; nos últimos anos as polícias e magistrados têm sido utilizados em demasiadas investigações que têm uma matriz política;  os tribunais são lentos, os juízes são polémicos, a justiça é, de uma forma geral, muito ineficaz. O resultado está à vista: criou-se um clima de impunidade, de dissolução da autoridade e a violência generaliza-se. Os crimes violentos recentes podem não estar ligados entre si do ponto de vista objectivo – mas estão obviamente ligados porque se criou a idéia de que o crime não tem castigo. Esse é o grande problema que afecta o Ministério da Justiça e o Ministério da Administração Interna – e enquanto persistir a sensação de que as polícias e instituições judiciais estão mais ocupadas a guerrearem-se umas às outras do que a protegerem os cidadãos hão-de continuar a existir tiroteios e esfaqueamentos. 




ESPERTEZA - Sabidola, sabidola é o sr. Nunes: em vésperas de o Parlamento iniciar a análise de propostas de alterações ao funcionamento da ASAE, eis que desencadeou uma mega-operação de apreensão de alimentos. Ele que andava tão sossegado, resolveu mostrar aos senhores deputados como a ASAE é fundamental para a saúde pública. Por acaso acho que era interessante saber o resultado de análises aos produtos apreendidos – para ver se as apreensões de facto atingem o objectivo desejável ou se servem apenas para fazerem apreensões sonantes em alturas estratégicas e darem nas vistas com o habitual festival mediático que faz parte da impressão digital do sr. Nunes. 




PÉSSIMO - Antes de ser Ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva esteve cerca de três anos no Ministério da Educação, primeiro como Secretário de Estado, depois como Ministro, até que Guterres o resolveu passar para a Cultura. Em nenhum dos lugares se notabilizou pelo brilho das reformas ou pela eficácia da acção. Uma das suas Secretárias de Estado na 5 de Outubro foi Ana Benavente, hoje feroz crítica da actual Ministra, Maria de Lourdes Rodrigues. Por curiosidade, o actual Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, desancou recentemente a acção do Ministério da Educação, ao tempo em que Santos Silva lá estava – e este nem piou. Pois neste extraordinário clima interno do PS em relação à educação, eis que Santos Silva abriu a boca pela primeira vez sobre o tema, apenas para fazer notar como o deputado Pedro Duarte do PSD não estava em sintonia com o seu Grupo Parlamentar em matéria de avaliação da política educativa. Que se poderá chamar a isto? 




PROBLEMA - Nos últimos tempos os autocarros da Carris andam cada vez piores em matéria de comportamento de trânsito. Atravessam-se nos cruzamentos, usam pouco os indicadores de mudança de direcção, enfim têm a sua quota parte de infracções. Seria boa idéia, que à semelhança de outras empresas, a Carris tivesse na traseira dos seus autocarros a indicação de um número de telefone para o qual se pudessem fazer reclamações sobre a falta de profissionalismo dos seus condutores, com o auxílio de um número identificativo de cada veículo. 




REALIDADE - No último ano vi menos televisão, vi mais cinema, ouvi mais música, li mais livros, descobri novas revistas. 




LER – Confesso que gosto de ler o Dalai Lama e gostei especialmente de uma sua recente obra, «The Universe In A Single Atom», onde aborda como a ciência e a espiritualidade podem servir o nosso mundo. Neste  livro o Dalai Lama aborda a sua visão de como a ciência e a fé devem trabalhar de mãos dadas para aliviar o sofrimento humano. Fala dos grandes debates, de ligações entre temas de ligações improváveis, como o karma e a evolução. Toda a obra parte de reflexões em torno da citação de um antiqüíssimo texto do budismo: em cada partícula das profundezas do universo, existem vastos oceanos de sistemas do nosso mundo. A partir daí começam as reflexões sobre a importância da ciência, a relatividade e a física quântica, o big bang , a consciência, a ética e a genética, as ligações entre a ciência, espiritualidade e a humanidade. A  edição britânica é da Abacus, tem 230 páginas, é datada de 2006 sobre um original de 2005 e custou 9 libras na Amazon. 




OUVIR – Por ocasião do 50º aniversário do Festival de Jazz de Monterey, realizou-se no dia 23 de Setembro do ano passado um concerto que juntou Terence Blanchard no trompete, Nnenna Freelon na voz, Benny Green no piano, James Moody no sax, Derrick Hodge no baixo e  Kendrick Scott na bateria. Daqui saiu um belíssimo disco, «Live At The 2007 Monterey Jazz Festival», que inclui temas  como «Romance», «Just Squeeze Me (But Please Don's Tease Me». «Monterey Mist», «Time After Time».  Vale bem a pena ouvir. CD Universal. 




IR – Na próxima quinta-feira, dia 13, ao Frágil (Rua da Atalaia 126, Bairro Alto) para uma noite de poesia dedicada a Sophia de Mello Breyner. 




PETISCO – Em matéria de salgadinhos, amor com amor se paga: segui a recomendação de visitar a padaria «Pão Doce», na Duque de Ávila, perto da esquina com a 5 de Outubro. É bom para um almoço ou lanche rápido, tem boas sanduíches carregadas de alface, tomate e cenoura com condutos variados, uns folhados mistos fantásticos que se recomendam, uma bola de carne honesta, empadas e salgados com bom sabor e sobretudo uma enorme escolha de pães para levar para casa. 




BACK TO BASICS – Quando a legislação quer controlar a forma como se pode vender e comprar, os primeiros a serem comprados e a venderem-se são so próprios legisladores – P.J. O’Rourke. 

março 07, 2008

O ESTADO E A PUBLICIDADE

(Publicado no «Meios & Publicidade» de 7 de Março)


 


Quando se tem um Estado tão intrusivo como é o português, todas as actividades económicas são afectadas pela forma como ele se posiciona e actua. A Publicidade não foge a esta regra e a realidade é que os diversos agentes do sector são afectados pelas políticas que são seguidas em cada momento.


Existem três áreas em que o Estado interfere directamente no mercado publicitário: na forma como coloca as publicidades obrigatórias (concursos, decisões, avisos legais, etc); na forma como deixa os Meios de que é proprietário interferirem no mercado; e, finalmente, na forma como escolhe os fornecedores nesta área.


Comecemos pelo primeiro caso, que ainda por cima ganhou actualidade. Recentemente o Governo anunciou que vai criar um site na Internet, gerido pelo próprio Estado, onde toda a publicidade obrigatória será colocada para consulta pelos interessados; desta forma o Estado retira-se como cliente, deixando de um momento para o outro, de assegurar um fluxo financeiro importante, nomeadamente na imprensa. Se alguns jornais nacionais vão ser fortemente afectados, o maior rombo será sentido pela imprensa regional e local, que via nas publicidades obrigatórios da Administração Central e Local uma das suas grandes e estáveis fontes de receita. Os responsáveis por esta medida argumentam com exemplos semelhantes que existem noutros países; esquecem-se é de dizer que a mudança foi gradual, acompanhada por outras medidas, precisamente em defesa de uma imprensa diversificada e plural.


A segunda área está na berra porque foi trazida para a arena política: a existência de publicidade na TV. Conjuntura política à parte, a questão é esta: não faz sentido o Estado garantir mecanismos de financiamento de uma estação de serviço público, em simultâneo com a sua presença no mercado publicitário, mesmo que limitada. Por isso há que ter a coragem de gradualmente retirar a concorrência da RTP no sector, permitindo a entrada de novos parceiros. Por alguma razão a rádio pública (RDP) não tem publicidade, embora esteja hoje em dia na mesma empresa que tutela a RTP.


Finalmente o terceiro ponto tem a ver com a forma como o Estado escolhe os seus fornecedores nesta área, nomeadamente as Agências de Meios. Nalguns países, como o Canadá, o Estado é obrigado a canalizar os seus investimentos publicitários através de agências de capital nacional. Na Europa a situação é diferente mas uma observação atenta permite ver que os grandes investimentos dos diferentes Estados são assegurados por agências nascidas nos respectivos países. Infelizmente, em Portugal, o Estado não se preocupa muito com as empresas portuguesas e nem sequer na área do Ministério da Economia, tão empenhado na imagem de Portugal, a coisa é tida em conta. Recentemente o Instituto de Turismo de Portugal abriu uma consulta para escolher a agência de meios com quem trabalhará na divulgação da imagem do nosso país. Pois não houve uma única agência de capital exclusivamente nacional consultada, são todas multinacionais. E isto apesar de existirem agências portuguesas com aptidões técnicas e financeiras para esta operação.


Observadores mal intencionados poderiam, destes três exemplos, retirar uma conclusão: o Estado não gosta da concorrência nem de empresas portuguesas. Será assim?



www.novaexpressao.pt



SEPARAR AS ÁGUAS - PUBLICIDADE CRIATIVA E PLANEAMENTO

(Publicado em 8 de Fevereiro no «Meios & Publicidade»


 


Em Portugal, há duas décadas, existiam apenas dois canais de televisão. Nesse tempo, no serão de sábado, a RTP tinha 50% de audiência média. Agora há três canais comerciais de serviço aberto (em breve surgirá mais um) e o canal líder, a TVI, faz no mesmo horário cerca de 11-12% de audiência média. Através das redes de cabo há mais de 100 canais disponíveis para os respectivos assinantes, uma dezena deles com publicidade do mercado português. Há 20 anos o Bareme imprensa da Marktest tinha 52 títulos, agora tem centena e meia. Este são sinais do que tem sido a vertiginosa evolução da segmentação dos meios nos últimos anos.


Esta segmentação tem um efeito directo na publicidade: hoje o trabalho de preparação de uma campanha conta cada vez mais com o planeamento estratégico dos meios a utilizar e, neste contexto, o trabalho das agências de meios é cada vez mais fundamental para assegurar um bom resultado das campanhas. Uma ideia criativa genial na concepção do anúncio é meio caminho andado para o sucesso, mas se os suportes forem mal escolhidos para o alvo que se pretende atingir, a melhor ideia criativa arrisca-se a cair em saco roto.


Muitos anunciantes – chamemos-lhes tradicionais – acham que as agências de meios podem apenas ser úteis para conseguirem uma melhor negociação e um melhor preço na colocação das suas campanhas publicitárias. Também por isso o volume de publicidade colocada directamente por anunciantes tem estado estável. Muito por culpa das próprias agências de meios e da sua estrutura associativo, o seu papel mais valioso – o know how da definição estratégica – tem sido subalternizado. Na realidade as agências de meios tem desleixado a sua imagem.


Mas a segmentação cada vez maior dos meios -  e sobretudo o crescimento explosivo da Internet e o despertar de outros suportes digitais – exige um cuidado cada vez maior na planificação e obriga as agências de meios a cada vez maiores investimentos em ferramentas de estudo e de análise e nos recursos humanos dos seus departamentos de research. Estes são custos fixos necessários para que os clientes tenham cada vez melhor serviço.  Se uma boa negociação e um bom preço continuam a ser um factor de peso, a verdade é que os clientes com uma perspectiva mais informada, moderna e realista da situação começam a perceber que comprar mais barato muitas vezes não quer dizer comprar melhor e, ainda menos vezes, quer dizer obter bons resultados.


Por isto mesmo o papel das agências de meios torna-se cada vez mais importante à medida que o universo dos meios se pulveriza. Todos os dias são apresentados novos suportes, todos os dias são apresentados novos projectos e todos eles procuram um bem escasso: anunciantes. Encontrar os melhores veículos para que cada produto chegue ao seu objectivo é o trabalho das agências de meios e ninguém melhor que elas consegue rentabilizar os investimentos publicitários dos clientes – e rentabilizar quer dizer obter a melhor relação entre a qualidade do plano de meios e o seu preço.


www.novaexpressao.pt


março 05, 2008

POR CAUSA DAS COISAS...

(Publicado no diário «Meia Hora»)



Nas últimas semanas a clivagem entre as duas alas do PS tem sido flagrante – primeiro na questão da saúde, levando ao afastamento do Ministro Correia de Campos e agora com críticas abertas à actuação de Maria de Lurdes Rodrigues na educação. No primeiro caso o Ministro cessante foi substituído por uma apoiante de Manuel Alegre, no segundo é também uma pessoa próxima de Alegre que lidera a contestação pública dos socialistas à reforma de Sócrates na educação.


É pois uma altura interessante para recordar um episódio da vida de Manuel Alegre que os seus apoiantes gostam de esquecer e que a maior parte das pessoas já nem se recorda bem. O caso remonta a 12 de Fevereiro de 1977, há 31 anos, quando Manuel Alegre tinha responsabilidades governativas na área da Comunicação Social e decidiu extinguir a empresa do jornal «O Século» de um dia para o outro.


Vamos fazer um bocadinho de história: O jornal «O Século» foi criado em 1880 por um  republicano, Magalhães Lima. Ao longo dos tempos teve ilustres directores como Vitorino Nemésio e João Pereira Rosa e durante muitos anos foi o jornal mais vendido do país. Desde cedo a empresa evoluiu no sentido da constituição de um grupo editorial, que editava revistas como «O Século Ilustrado», a «Vida Mundial», o «Modas e Bordados» ou o «Cinéfilo», além de manter uma obra social importante através da Colónia Balnear Infantil «O Século», em S. Pedro do Estoril, cujas receitas vinham, em parte, da Feira Popular, que era também apadrinhada pelo jornal. Pelo grupo do «Século» passaram alguns dos maiores jornalistas, colunistas e repórteres fotográficos portugueses – foi aliás ali – pode dizer-se – que nasceu o moderno fotojornalismo em Portugal.


Após o 25 de Abril, tal como o «Diário de Notícias» aliás, «O Século» foi «tomado» por sectores próximos do PCP, que rapidamente radicalizaram o jornal e delapidaram as suas audiências e colocaram a empresa em situação difícil. Num clima ainda conturbado do pós 25 de Novembro, com um PS sequioso de estancar a influência do PCP na informação, Manuel Alegre decidiu, de um dia para o outro, alegando uma crise financeira que aliás tocava outros jornais de igual forma, fechar «O Século». Foi uma decisão política, muito mais que económica. Pior:  nem sequer procurou salvaguardar o precioso arquivo de 100 anos de História de Portugal que estava no edifício do grupo editorial e que em boa parte se perdeu. A razão de ser desta nota, é só lembrar alguns desmandos de figuras de esquerda hoje intocáveis, como Manuel Alegre. Por causa das coisas…


 

fevereiro 29, 2008

COSTA, CULTURA, RTP e AZULEJOS

INTERESSSANTE - António Costa está a experimentar o amargo sabor da legislação que fez enquanto Ministro da Administração Interna. Ele bem pode dizer que a lei foi mal interpretada, mas na realidade esta é a prova do que pode acontecer quando se utiliza a capacidade legislativa para fazer guerrilha política – na altura Costa legislou assim, em primeiro lugar, para condicionar alguns dos maiores municípios do país, que estavam na mão da oposição e em crônica situação de endividamento. Acontece que agora se voltou o feitiço contra o feiticeiro. É por isso que, em política e já agora no jornalismo, a memória é fundamental para analisar o que se passa. Baste ir ver o que se disse e quem disse aquando da elaboração por Costa da legislação de que ele próprio se queixa.


 


MAU – A questão não é só a RTP deixar de ter publicidade, é saber como isso se pode fazer. A questão do financiamento global do Grupo RTP merece um debate sério, sem as tiradas demagógicas de Arons de Carvalho nem as imitações apressadas de Sarkozy pelo líder da oposição. Basta observar o crescimento de receitas nos últimos quatro anos, entre aumento constante da indemnização compensatória e da cobrança da taxa do audiovisual, que foi entretanto alargada a consumidores que antes a não pagavam. E, claro, tem que se ter em conta este simples facto: a publicidade numa estação de televisão rende em função das audiências; para se fazerem bons números é inevitável que se perca em qualidade de serviço público. Aqui está uma questão que dava pano para mangas.


  


PÉSSIMO – A nova sede dos serviços secretos, no antigo forte da Ameixoeira, teve um custo de obras que ascendeu a 15 milhões de euros. A obra não resistiu às primeiras chuvas intensas. Tal como o resto do país, a secreta foi inundada e os jornais relatavam a surpresa dos espiões lusitanos quando viram água e lama entrarem de enxurrada pela porta principal do edifício.


 


EXPORTAÇÕES DA SEMANA – O grupo de rock Wray Gunn faz sucesso em França, com presença em revistas, elogios em jornais, discos a vender bem e canções escolhidas para as passagens da Paris Fashion Week; uma obra dos robots pintores criados pelo artista plástico Leonel Moura ilustra a capa da revista do MIT (Massachussets Institute of Technology) sob o tema «Artificial Life»; Paula Rego consolida a sua cotação depois de o quadro «Baying» ter atingido 740 000 euros num leilão promovido pela Sotheby’s em Londres. É com isto que se vai fazendo a imagem de um país – mas já agora convinha que o Governo tivesse isso em conta. Para quando a diminuição do IVA sobre produtos culturais. Irá o novo Ministro da Cultura convencer o jogger Sócrates que não é só aos ginásios que vale a pena dar benefícios fiscais?


 


ESTUDAR – Por falar em Ministro da Cultura, merece estudo atento a análise que Augusto M. Seabra faz na www.artecapital.net, na sua habitual coluna «O Estado da Arte». Excerto: « A pior coisa que pode acontecer ao ministro José António Pinto Ribeiro é ser um gestor de clientelas. O que se poderá desejar de alguém com o seu perfil público, e até do protagonismo político a que por certo não se regateará, é que corte rente com o dirigismo, abra espaço a iniciativas próprias e catalize esforços e parcerias, que saiba também fazer uma cultura da mediação. O que se passou durante os 34 meses da gestão Pires de Limas/Vieira de Carvalho foi também a negação de uma cultura democrática. O fundador do Fórum Justiça e Liberdade tem a obrigação elementar de ter presente esse dado e tirar as devidas consequências na sua acção política como Ministro da Cultura – que crie instrumentos legais e iniciativas em vez das cadeias de comando do servilismo burocrático.»


 


VER - A exposição e o álbum de fotografias «Ponto de Vista», feitos com base nas imagens recolhidas por António Barreto durante as filmagens da série «Portugal- Um Retrato Social». Boas fotografias a preto e branco, enquadramentos rigorosos e- o que é mais importante – um modo de ver que nos ajuda a descobrir. Afinal a fotografia é isso mesmo. Na FNAC do Colombo.


 


OUVIR – Um delicioso disco ao vivo , «The Oscar Peterson Trio Live in Newport». A edição surge integrada nas comemorações do 50º aniversário do Festival de Newport. A gravação foi feita na noite de 7 de Julho de 1957, Norman Granz, o lendário produtor da prestigiada etiqueta Verve, gravou a actuação de Oscar Peterson no piano, Herb Ellis na guitarra, Ray Brown no baixo, Roy Eldridge no trompete, Sonny Stitt no sax alto e Jo Jones na bateria. Aqui estão temas como «Will You Still Be Mine?», «Autumn In New York», «52nd Street Theme» e «Monitor Blues», entre outros. CD Universal.


 


DESCOBRIR – Uma nova forma de olhar para os azulejos, com as obras do japonês Jun Shirasu, na Galeria Ratton, Rua da Academia das Ciências 2C. A exposição chama-se «Regresso do Oriente» e mostra pequenos painéis e também azulejos individuais onde a contenção e um sentido lúdico de observação da natureza e do quotidiano são as marcas dominantes. Até 4 de Abril.



BACK TO BASICS - «As Finanças, em Portugal, foram já muito mais longe do que seria aceitável, ainda que em nome da eficiência da cobrança fiscal» - Pacheco Pereira

fevereiro 28, 2008

QUE FAZER NA CULTURA?

(Publicado na edição de 27 de Fevereiro do diário «Meia Hora»)


Uma semana depois de terem surgido notícias sobre a degradação de peças importantes do património português, o director do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) reconheceu não ter verbas para todas as obras que são necessárias nos imóveis de interesse patrimonial, da propriedade do Estado.


Edifícios históricos, como por exemplo o Castelo de Amieira do Tejo, erguido pelo pai de D. Nuno Álvares Pereira, estão fechados há anos por falta de condições de segurança e por falta de pessoal que vigie o monumento. As relações entre as estruturas centrais e as autarquias – que podiam estar interessadas em garantir a possibilidade de visita destes equipamentos – são difíceis e muito burocratizadas. O resultado está à vista e não é bom de se ver.


O Estado que não tem dinheiro para fazer a preservação do património é o mesmo que não tem verbas para fazer funcionar os Museus Nacionais de forma normal, mas que não se importa de desperdiçar dinheiro em operações de propaganda de gosto duvidoso. Em declarações ontem prestadas à TSF, o presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses alertou para o facto de «as poucas verbas existentes» terem sido canalizadas para «projectos muito discutíveis, como é o caso da exposição com amostras de peças do Museu Hermitage».


A situação não é de agora, vem de longe, e costuma redundar num dilema: o dinheiro existente deve ir para a salvaguarda do património ou para o apoio à criatividade? Em boa parte esta é uma falsa questão porque, na realidade, a primeira questão, na área da Cultura, é rever o modelo de funcionamento e de financiamento existente, rever a captação de receitas e rever a forma como são gastas.


Na realidade aquilo que faz falta ao Ministério da Cultura não é mais um conjunto de prioridades de acção cultural ou ideias de génios iluminados, é a criação de instrumentos legais que reestruturem serviços, que facilitem articulação com autarquias, que autonomizem instituições, que fomentem a participação dos privados, que tornem o mecenato mais atractivo, que estabeleçam claros incentivos fiscais, que consigam fomentar parcerias em vez de servir clientelas, e que proporcionem o desenvolvimento de um mercado sem o qual falar de indústrias criativas é apenas um acto falhado. 

fevereiro 25, 2008

ADEUS BLOGGER,
OLÁ SAPO

A PARTIR DESTA DATA A ESQUINA DO RIO DEIXA DE ESTAR AQUI E PASSA A PODER SER ENCONTRADA AQUI.

OU SEJA, O ENDEREÇO DA ESQUINA PASSA A SER WWW.AESQUINADORIO.BLOGS.SAPO.PT

A ESQUINA NO SAPO

Após três anos no Blogger, aqui fiquei rendido ao Sapo. A Esquina continua no Rio, agora com vista a partir dos blogs do Sapo.


Por aqui nos iremos encontrando.

fevereiro 23, 2008

MAU - Três anos após ter iniciado funções, a linha política oficial do Governo é agora definida por quatro palavras: «Sacudir água do capote». Foi esta a linha seguida, com humor negro, pelo Ministro do Ambiente a propósito das cheias; e foi esta a linha seguida pelo Primeiro Ministro durante a entrevista à SIC em que retratou um país cheio de maravilhas e um Governo cheio de eficácia.

PÉSSIMO - Uma empresa adquire um andar num prédio de escritórios, no centro de Lisboa. Na fachada do prédio existem já três anúncios luminosos de outras tantas empresas que lá estavam instaladas. A empresa que chega pede para instalar logotipo, de tamanho idêntico e em localização equivalente, no seu andar. Um organismo da Câmara Municipal de Lisboa, o Departamento de Gestão do Espaço Público, autoriza e diz que está tudo conforme à Lei e sublinha que o edifício não está localizado em zona especial de protecção. Uma obscura comissão de publicidade exterior (que me dizem perseguir o comércio e as actividades económicas da cidade), indeferiu o pedido alegando que prejudicaria o conceito arquitectónico da fachada (que ignora já lá existirem outros placards luminosos) e provocando um despacho desfavorável. Quem se entende numa terra destas? Será que António Costa acha bem este tipo de coisas? Quem integra e como é escolhida esta extraordinária Comissão? Será verdade que as suas respostas são sempre «chapa cinco» no sentido de indeferir? Existem estatísticas sobre as suas avaliações? É o seu trabalho fiscalizado por alguém?

O MUNDO AO CONTRÁRIO - No «Correio da Manhã» de terça-feira passada uma pequena notícia que retrata o estado a que chegou a defesa do património: um castelo, erguido pelo pai de D. Nuno Álvares Pereira, está encerrado há cerca de dois anos por falta de condições de segurança. O castelo de Amieira do Tejo, concelho de Nisa, foi erguido no século XIV e fazia parte da Linha do Tejo, uma linha de defesa da fronteira. Em declarações ao jornal o responsável pela Direcção Regional da Cultura do Alentejo reconheceu não dispor de verbas para as obras. Para que servem existir organismos e funcionários se depois não têm dinheiro para concretizar o objectivo da sua existência?

OBSERVAR – A nova rubrica, mensal, do programa «Imagens de Marca», da SIC Notícias, dedicado às marcas de Portugal e assegurado por Carlos Coelho. Se quiserem espreitem o primeiro, dedicado à Nazaré, em
http://imagensdemarca.sapo.pt/opinioes/detalhes.php?id=465 .

COMPRAR – Se precisa, à última da hora, de qualquer coisa para levar para casa dos amigos que o convidaram para jantar., tem um novo sítio em Lisboa: «República das Flores», onde Frederico Oliveira lhe propõe belos objectos, flores cuidadas, doces delicados como os rebuçados de Portalegre, várias marcas de champagne e os delicados produtos de cosmética da Abahna. E, se quiserem, ainda podem saber informações dos caterings possíveis de organizar quando decidir retribuir o jantar em sua própria casa. Rua do Alecrim 99.

VER – Quando temos alguém que nos conta as boas experiências que viveu, a coisa fica mais fácil. Já tinha ouvido falar da invulgar interpretação da soprano Anna Netrebko na sua estreia absoluta no Metropolitan, de Nova Iorque, em final de 2006, no papel de Elvira, na cena da loucura da ópera «I Puritani», de Bellini. Agora todos podem partilhar esse momento garças a um DVD da Deutsche Grammophon, feito em colaboração com o Met, e que regista essa estreia, dirigida pelo maestro Patrick Summers. Disponível na FNAC, distribuição Universal

OUVIR – Há uns anos, quando ficou difícil fazer publicidade a tabaco, a marca francesa de cigarros «Gitanes» resolveu lançar uma colecção de discos de jazz, grande parte dos quais compilações. Paris, já se sabe, atraiu uma multidão de músicos de jazz norte-americanos no pós guerra e muitos deles homenagearam a cidade com belas composições e inspiraram músicos franceses. A «Gitanes» decidiu agora escolher 50 temas que falam de Paris e organizou uma compilação sob a forma de triplo LP e que inclui pérolas de músicos como Michel Legrand, Quincy Jones, Sacha Distel, Max Roach, Memphis Slim, Miles Davis e Eddie Barclay, entre outros. É uma bela banda sonora para um serão tranquilo.

LER – Em matéria de leituras, um dos meus gostos recai em livros sobre História. E, destes, gosto dos que contam pequenos episódios, aparentemente marginais, de certa forma as pequenas histórias que fazem a História. João Amaral, jornalista e jurista, actual director editorial da Leya, passou anos a pesquisar a história das ligações entre o Governo de Salazar e o episódio do casamento, em plena II Grande Guerra, do Duque de Bragança com uma princesa brasileira. O resultado é um livro cativante, muito bem documentado, construído como uma aventura, cativante do princípio ao fim, cheio de revelações sobre os bastidores do poder de Salazar, sobre a sua forma de agir, sobre as conspirações e a pequena política da época. Uma história irresistível contada em 130 páginas. Edição Tribuna.

BACK TO BASICS – A História não é mais que uma sucessão de crimes e patifarias, Voltaire.

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MAU - Três anos após ter iniciado funções, a linha política oficial do Governo é agora definida por quatro palavras: «Sacudir água do capote». Foi esta a linha seguida, com humor negro, pelo Ministro do Ambiente a propósito das cheias; e foi esta a linha seguida pelo Primeiro Ministro durante a entrevista à SIC em que retratou um país cheio de maravilhas e um Governo cheio de eficácia.

PÉSSIMO - Uma empresa adquire um andar num prédio de escritórios, no centro de Lisboa. Na fachada do prédio existem já três anúncios luminosos de outras tantas empresas que lá estavam instaladas. A empresa que chega pede para instalar logotipo, de tamanho idêntico e em localização equivalente, no seu andar. Um organismo da Câmara Municipal de Lisboa, o Departamento de Gestão do Espaço Público, autoriza e diz que está tudo conforme à Lei e sublinha que o edifício não está localizado em zona especial de protecção. Uma obscura comissão de publicidade exterior (que me dizem perseguir o comércio e as actividades económicas da cidade), indeferiu o pedido alegando que prejudicaria o conceito arquitectónico da fachada (que ignora já lá existirem outros placards luminosos) e provocando um despacho desfavorável. Quem se entende numa terra destas? Será que António Costa acha bem este tipo de coisas? Quem integra e como é escolhida esta extraordinária Comissão? Será verdade que as suas respostas são sempre «chapa cinco» no sentido de indeferir? Existem estatísticas sobre as suas avaliações? É o seu trabalho fiscalizado por alguém?

O MUNDO AO CONTRÁRIO - No «Correio da Manhã» de terça-feira passada uma pequena notícia que retrata o estado a que chegou a defesa do património: um castelo, erguido pelo pai de D. Nuno Álvares Pereira, está encerrado há cerca de dois anos por falta de condições de segurança. O castelo de Amieira do Tejo, concelho de Nisa, foi erguido no século XIV e fazia parte da Linha do Tejo, uma linha de defesa da fronteira. Em declarações ao jornal o responsável pela Direcção Regional da Cultura do Alentejo reconheceu não dispor de verbas para as obras. Para que servem existir organismos e funcionários se depois não têm dinheiro para concretizar o objectivo da sua existência?

OBSERVAR – A nova rubrica, mensal, do programa «Imagens de Marca», da SIC Notícias, dedicado às marcas de Portugal e assegurado por Carlos Coelho. Se quiserem espreitem o primeiro, dedicado à Nazaré, em
http://imagensdemarca.sapo.pt/opinioes/detalhes.php?id=465 .

COMPRAR – Se precisa, à última da hora, de qualquer coisa para levar para casa dos amigos que o convidaram para jantar., tem um novo sítio em Lisboa: «República das Flores», onde Frederico Oliveira lhe propõe belos objectos, flores cuidadas, doces delicados como os rebuçados de Portalegre, várias marcas de champagne e os delicados produtos de cosmética da Abahna. E, se quiserem, ainda podem saber informações dos caterings possíveis de organizar quando decidir retribuir o jantar em sua própria casa. Rua do Alecrim 99.

VER – Quando temos alguém que nos conta as boas experiências que viveu, a coisa fica mais fácil. Já tinha ouvido falar da invulgar interpretação da soprano Anna Netrebko na sua estreia absoluta no Metropolitan, de Nova Iorque, em final de 2006, no papel de Elvira, na cena da loucura da ópera «I Puritani», de Bellini. Agora todos podem partilhar esse momento garças a um DVD da Deutsche Grammophon, feito em colaboração com o Met, e que regista essa estreia, dirigida pelo maestro Patrick Summers. Disponível na FNAC, distribuição Universal

OUVIR – Há uns anos, quando ficou difícil fazer publicidade a tabaco, a marca francesa de cigarros «Gitanes» resolveu lançar uma colecção de discos de jazz, grande parte dos quais compilações. Paris, já se sabe, atraiu uma multidão de músicos de jazz norte-americanos no pós guerra e muitos deles homenagearam a cidade com belas composições e inspiraram músicos franceses. A «Gitanes» decidiu agora escolher 50 temas que falam de Paris e organizou uma compilação sob a forma de triplo LP e que inclui pérolas de músicos como Michel Legrand, Quincy Jones, Sacha Distel, Max Roach, Memphis Slim, Miles Davis e Eddie Barclay, entre outros. É uma bela banda sonora para um serão tranquilo.

LER – Em matéria de leituras, um dos meus gostos recai em livros sobre História. E, destes, gosto dos que contam pequenos episódios, aparentemente marginais, de certa forma as pequenas histórias que fazem a História. João Amaral, jornalista e jurista, actual director editorial da Leya, passou anos a pesquisar a história das ligações entre o Governo de Salazar e o episódio do casamento, em plena II Grande Guerra, do Duque de Bragança com uma princesa brasileira. O resultado é um livro cativante, muito bem documentado, construído como uma aventura, cativante do princípio ao fim, cheio de revelações sobre os bastidores do poder de Salazar, sobre a sua forma de agir, sobre as conspirações e a pequena política da época. Uma história irresistível contada em 130 páginas. Edição Tribuna.

BACK TO BASICS – A História não é mais que uma sucessão de crimes e patifarias, Voltaire.

fevereiro 22, 2008

SERÁ BIPOLAR?
(Publicado no diário «Meia Hora» de Quarta 21)

No fim de semana o Secretário Geral do Partido Socialista enervou-se com uns manifestantes que o apuparam à porta da sede do PS no Largo do Rato, em Lisboa, exaltou-se e acusou-os de estarem instrumentalizados e de pertencerem a um partido da oposição, como se isso fosse pecado. Só faltou dizer que eram perigosos comunistas.
Na noite de segunda-feira, na SIC, o Primeiro-Ministro, desfez-se em sorrisos e simpatias para com dois entrevistadores que, nas palavras de Vasco Pulido Valente, «tentaram não incomodar».
Nos últimos tempos, cada vez com maior frequência, parecem existir dois Sócrates: um que diz que qualquer remodelação é especulação jornalística, e outro que convida Ministros a apresentarem carta de demissão; um que veste fatos Boss e calça sapatos Prada, e outro que desenha casas forradas a azulejos multicores; um que promete que não subirá impostos, e outro que os aumenta; um que se exalta e diz inconveniências, e outro que respira tranquilidade e transpira politicamente correcto. Os exemplos são numerosos.
A coisa é séria: um país não deve, em boa teoria, ser governado por alguém com características de ter um comportamento bipolar – gera instabilidade, que diabo!
Até mesmo nessa entrevista nasceu um novo fenómeno: Sócrates, que gosta de se afirmar determinado e sabedor do rumo que quer seguir, mostrou um laivo de enorme indecisão. Talvez inspirado no exemplo de Cavaco Silva, disse que ainda não sabia se concorreria às próximas legislativas. Mostrou-se indeciso, receoso, calculista porventura. É, talvez, mais um dado a ser tido em conta no diagnóstico.
Quando olho para o percurso do Engenheiro José Sócrates, para a forma como ele e a sua «entourage» próxima se comportam face à mais leve crítica, vem-me sempre à memória a mesma citação, do perspicaz Eça de Queiroz: «sob a nudez crua da verdade, o manto diáfano da fantasia».
De facto parece existir aqui um problema com este Governo e o seu Primeiro-Ministro: o país de que falam, não parece ser aquele onde vivemos. O Governo vê êxitos e maravilhas onde o comum cidadão vê dificuldades e desilusões. Em qualquer crítica o Governo vê um ataque. No jornalismo investigativo vê uma ameaça. Na insatisfação dos cidadãos descobre uma ingratidão. No fundo, é um Governo incompreendido, ao que parece dentro do próprio partido de onde é oriundo.

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SERÁ BIPOLAR?
(Publicado no diário «Meia Hora» de Quarta 21)

No fim de semana o Secretário Geral do Partido Socialista enervou-se com uns manifestantes que o apuparam à porta da sede do PS no Largo do Rato, em Lisboa, exaltou-se e acusou-os de estarem instrumentalizados e de pertencerem a um partido da oposição, como se isso fosse pecado. Só faltou dizer que eram perigosos comunistas.
Na noite de segunda-feira, na SIC, o Primeiro-Ministro, desfez-se em sorrisos e simpatias para com dois entrevistadores que, nas palavras de Vasco Pulido Valente, «tentaram não incomodar».
Nos últimos tempos, cada vez com maior frequência, parecem existir dois Sócrates: um que diz que qualquer remodelação é especulação jornalística, e outro que convida Ministros a apresentarem carta de demissão; um que veste fatos Boss e calça sapatos Prada, e outro que desenha casas forradas a azulejos multicores; um que promete que não subirá impostos, e outro que os aumenta; um que se exalta e diz inconveniências, e outro que respira tranquilidade e transpira politicamente correcto. Os exemplos são numerosos.
A coisa é séria: um país não deve, em boa teoria, ser governado por alguém com características de ter um comportamento bipolar – gera instabilidade, que diabo!
Até mesmo nessa entrevista nasceu um novo fenómeno: Sócrates, que gosta de se afirmar determinado e sabedor do rumo que quer seguir, mostrou um laivo de enorme indecisão. Talvez inspirado no exemplo de Cavaco Silva, disse que ainda não sabia se concorreria às próximas legislativas. Mostrou-se indeciso, receoso, calculista porventura. É, talvez, mais um dado a ser tido em conta no diagnóstico.
Quando olho para o percurso do Engenheiro José Sócrates, para a forma como ele e a sua «entourage» próxima se comportam face à mais leve crítica, vem-me sempre à memória a mesma citação, do perspicaz Eça de Queiroz: «sob a nudez crua da verdade, o manto diáfano da fantasia».
De facto parece existir aqui um problema com este Governo e o seu Primeiro-Ministro: o país de que falam, não parece ser aquele onde vivemos. O Governo vê êxitos e maravilhas onde o comum cidadão vê dificuldades e desilusões. Em qualquer crítica o Governo vê um ataque. No jornalismo investigativo vê uma ameaça. Na insatisfação dos cidadãos descobre uma ingratidão. No fundo, é um Governo incompreendido, ao que parece dentro do próprio partido de onde é oriundo.

fevereiro 18, 2008

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PESADELO – O estado a que chegou a administração da Justiça em Portugal é mais do que preocupante: os procuradores do norte estão em guerra com os do sul e com cidadãos que deviam defender; na Judiciária o caos tornou-se mera rotina; na Ordem dos Advogados impera a demagogia e a baixa política; Tudo isto se passa com os devidos atrasos, desleixos, incúrias, cumplicidades, manhosices. O sistema judicial tomou conta do país, ameaça tomar conta dos políticos e, a seguir, de quem ousar levantar-se contra a desordem jurídica vigente. Alberto Costa deixou chegar as coisas a um ponto muito complicado.


MAU – Um governo que enche a boca de inovação e depois dá uma machadada no ensino artístico não merece grande crédito. Qualquer leigo sabe que na escola poucas coisas estimulam tanto a criatividade como o ensino da música. Quando se ataca o ensino da música como prioridade da política educativa, é sinal de que se quer formar uma geração de mentes cinzentas e conformadas.


PÉSSIMO – Cada vez que um jornal revela alguma coisa sobre a vida pública, profissional, do Engenheiro José Sócrates, eis que o Primeiro Ministro e alguns dos seus próximos aparecem a gritar que se trata de uma campanha intolerável. Noutros tempos foram estes mesmos argumentos que serviram de base para se iniciarem ataques à liberdade de imprensa. Ninguém imagina que um político ambicioso chegue a Primeiro Ministro sendo um anjo e um exemplo de virtudes e boas maneiras – o problema está quando os próprios se convencem da sua santidade e intocabilidade.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Alguma coisa vai mal num partido em que a primeira figura se limita à retórica e em que o líder parlamentar anuncia que se vai pôr a viajar pelo país fora em autêntica pré-campanha.

LER – O scriptorium era uma pequena sala dos mosteiros medievais onde os monges copistas escreviam os seus manuscritos. Para o seu novo livro, o romancista norte-americano Paul Auster pegou no termo e fez dele o centro de uma história quase surreal, mas cativante da primeira à última linha. «Viagens no Scriptorium» (edição ASA), explora as palavras, trabalha a passagem do tempo, o efeito da memória e o mistério do pensamento. Não é por acaso que esta é das mais elogiadas obras de Paul Auster.

IR – O concerto do quarteto do trompetista polaco Tomasz Stanko promete ser um bom momento do jazz ao vivo. Baseada no repertório do seu último disco, «Lontano», a actuação terá lugar na próxima quarta-feira dia 20, pelas 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa. A revista norte-americana «Down Beat» considerou «Lontano» como um dos dez melhores discos do ano passado e o seu autor como um dos melhores trompetistas contemporâneos.


OUVIR – Os primeiros minutos do disco são surpresa no seu melhor: emoção pura, espanto pela força e clareza da voz.. Ao terceiro álbum a cantora negra norte-americana Liz Wright fez um trabalho verdadeiramente surpreendente que combina uma maioria de bons originais com algumas versões, entre as quais «I Idolize You» de Ike e Tina Turner e e «Thank You» dos Led Zeppelin. Arrebatador e inesperado «The Orchard» é um disco que merece ser descoberto. CD Verve/ Universal.


VER – Até 2 de Março ainda se pode ver, no Museu da Electricidade, em Lisboa a exposição «100 Fotos, Obras, Anos de Oscar Niemeyer » da autoria do arquitecto e fotógrafo Leonardo Finotti. Neste sábado, amanhã, dia 16, os arquitectos

Ricardo Carvalho e Ricardo Bak Gordon fazem uma visita guiada e comentada à exposição, a partir das 16h30.


PERGUNTANDO… Esta semana, num restaurante popular de Lisboa, daqueles onde ainda se comem petiscos, ouvi um arrebatado rapaz a explicar à sua encantada conviva estrangeira as qualidades da comida portuguesa e os perigos que a ASAE traz ao país. Face à incredulidade da rapariga, surgiu da boca do rapaz a inevitável e marcante pergunta: «You don’t know what ASAE is?». Se o Nunes sabe, a rapariga vai para um campo de reeducação.


PETISCAR – O «Tempero de Minas» é um simpático restaurante na esquina da Luís Bívar com a Pinheiro Chagas, ao Saldanha, em Lisboa. Ao almoço há buffet inspirado nos petiscos do estado brasileiro de Minas Gerais, à noite pode escolher de uma bem fornecida lista. Em qualquer dos casos não perca as entradas e os doces. E deixe a dieta para outro dia. Telefone 213555038, www.temperodeminas.com.


BACK TO BASICS – Se não existissem injustiças, ninguém saberia o que é de facto a justiça – Heraclitus.
PESADELO – O estado a que chegou a administração da Justiça em Portugal é mais do que preocupante: os procuradores do norte estão em guerra com os do sul e com cidadãos que deviam defender; na Judiciária o caos tornou-se mera rotina; na Ordem dos Advogados impera a demagogia e a baixa política; Tudo isto se passa com os devidos atrasos, desleixos, incúrias, cumplicidades, manhosices. O sistema judicial tomou conta do país, ameaça tomar conta dos políticos e, a seguir, de quem ousar levantar-se contra a desordem jurídica vigente. Alberto Costa deixou chegar as coisas a um ponto muito complicado.


MAU – Um governo que enche a boca de inovação e depois dá uma machadada no ensino artístico não merece grande crédito. Qualquer leigo sabe que na escola poucas coisas estimulam tanto a criatividade como o ensino da música. Quando se ataca o ensino da música como prioridade da política educativa, é sinal de que se quer formar uma geração de mentes cinzentas e conformadas.


PÉSSIMO – Cada vez que um jornal revela alguma coisa sobre a vida pública, profissional, do Engenheiro José Sócrates, eis que o Primeiro Ministro e alguns dos seus próximos aparecem a gritar que se trata de uma campanha intolerável. Noutros tempos foram estes mesmos argumentos que serviram de base para se iniciarem ataques à liberdade de imprensa. Ninguém imagina que um político ambicioso chegue a Primeiro Ministro sendo um anjo e um exemplo de virtudes e boas maneiras – o problema está quando os próprios se convencem da sua santidade e intocabilidade.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Alguma coisa vai mal num partido em que a primeira figura se limita à retórica e em que o líder parlamentar anuncia que se vai pôr a viajar pelo país fora em autêntica pré-campanha.

LER – O scriptorium era uma pequena sala dos mosteiros medievais onde os monges copistas escreviam os seus manuscritos. Para o seu novo livro, o romancista norte-americano Paul Auster pegou no termo e fez dele o centro de uma história quase surreal, mas cativante da primeira à última linha. «Viagens no Scriptorium» (edição ASA), explora as palavras, trabalha a passagem do tempo, o efeito da memória e o mistério do pensamento. Não é por acaso que esta é das mais elogiadas obras de Paul Auster.

IR – O concerto do quarteto do trompetista polaco Tomasz Stanko promete ser um bom momento do jazz ao vivo. Baseada no repertório do seu último disco, «Lontano», a actuação terá lugar na próxima quarta-feira dia 20, pelas 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa. A revista norte-americana «Down Beat» considerou «Lontano» como um dos dez melhores discos do ano passado e o seu autor como um dos melhores trompetistas contemporâneos.


OUVIR – Os primeiros minutos do disco são surpresa no seu melhor: emoção pura, espanto pela força e clareza da voz.. Ao terceiro álbum a cantora negra norte-americana Liz Wright fez um trabalho verdadeiramente surpreendente que combina uma maioria de bons originais com algumas versões, entre as quais «I Idolize You» de Ike e Tina Turner e e «Thank You» dos Led Zeppelin. Arrebatador e inesperado «The Orchard» é um disco que merece ser descoberto. CD Verve/ Universal.


VER – Até 2 de Março ainda se pode ver, no Museu da Electricidade, em Lisboa a exposição «100 Fotos, Obras, Anos de Oscar Niemeyer » da autoria do arquitecto e fotógrafo Leonardo Finotti. Neste sábado, amanhã, dia 16, os arquitectos

Ricardo Carvalho e Ricardo Bak Gordon fazem uma visita guiada e comentada à exposição, a partir das 16h30.


PERGUNTANDO… Esta semana, num restaurante popular de Lisboa, daqueles onde ainda se comem petiscos, ouvi um arrebatado rapaz a explicar à sua encantada conviva estrangeira as qualidades da comida portuguesa e os perigos que a ASAE traz ao país. Face à incredulidade da rapariga, surgiu da boca do rapaz a inevitável e marcante pergunta: «You don’t know what ASAE is?». Se o Nunes sabe, a rapariga vai para um campo de reeducação.


PETISCAR – O «Tempero de Minas» é um simpático restaurante na esquina da Luís Bívar com a Pinheiro Chagas, ao Saldanha, em Lisboa. Ao almoço há buffet inspirado nos petiscos do estado brasileiro de Minas Gerais, à noite pode escolher de uma bem fornecida lista. Em qualquer dos casos não perca as entradas e os doces. E deixe a dieta para outro dia. Telefone 213555038, www.temperodeminas.com.


BACK TO BASICS – Se não existissem injustiças, ninguém saberia o que é de facto a justiça – Heraclitus.
UM OUTRO CANAL
Publicado na Revista «Atlântico» de Fevereiro de 2008

A história mais recente da evolução dos media mostra uma coisa muito interessante - coexistem duas tendências de certa forma antagónicas. Por um lado fortalecem-se os suportes generalistas mais agressivos, que se assumem como pólos globalizantes nos respectivos mercados, e, em simultâneo, começam-se a afirmar os veículos de informação e comunicação muito segmentados, dirigidos a públicos especiais.
Em Portugal continua a existir ainda medo pelo surgimento de novos suportes, pela proliferação de títulos. O reduzido crescimento do investimento publicitário nos últimos anos é argumento usado pelos suportes existentes para contrariar o inevitável alargamento do mercado. A questão, no entanto, não é essa. O verdadeiro problema, para os actuais grandes grupos de media, é como conseguirem manter a captação de investimento publicitário quando é certa a tendência para a procura de novos meios, novos suportes, que possibilitem uma afinidade e uma proximidade cada vez maior com os consumidores. E, quanto mais generalistas esse grupos procurarem ser, menos conseguirão captar os segmentos onde estarão os consumidores com maior poder de compra.
O rápido crescimento da internet – que dentro de alguns anos igualará a televisão na captação de publicidade nalguns mercados mais desenvolvidos, devia dar que pensar.
Na realidade é inevitável a convergência entre a televisão, tal como hoje a conhecemos, e a internet, num futuro que já não está assim tão distante.
Isto coloca aos operadores de televisão com maior experiência e capacidade um dilema: como conciliar a existência de canais generalistas fortes e com audiência massificada mas pouco qualificada, com a criação de novos canais, com outros conteúdos, eventualmente exportáveis para outras plataformas, que toquem os segmentos de publico que fogem dos canais tradicionais e que possibilitem captar investimentos publicitários que já não querem hoje em dia os canais generalistas de sinal aberto?
A resposta, no caso português, para já, pode estar no cabo. Tal como noutros mercados, será que aqui iremos assistir à criação de novos canais (ou à transformação dos existentes), por forma a captar o interesse dos consumidores com poder de compra, urbanos, profissionalmente activos? A SIC, que deu os primeiros passos na segmentação de canais há uns anos, tem hoje a esse nível uma oferta mal definida e provavelmente desajustada da realidade do mercado – e a existência de um novo canal de informação, da TVI, no final do ano, irá baralhar o jogo. E com uma SIC generalista agora tonificada, com Nuno Santos a disputar audiências com a TVI, fará ou não sentido alterar a definição dos canais de cabo existentes, criando um canal português assumidamente elitista, não exclusivamente noticioso, focado na realidade nacional mas cosmopolita, que seja veículo para os anunciantes que procuram outros públicos? Ou deixa-se esse mercado apenas para os canais internacionais de séries?



PENSAMENTOS OCIOSOS I
O Presidente francês Nicolas Sarkozy está a trabalhar no sentido de retirar completamente a publicidade dos canais de televisão do serviço público em França. O objectivo, relata a imprensa especializada, é promover uma programação de alta qualidade e, ao mesmo tempo, aumentar a produção local. A medida visa por um lado libertar o serviço público dos constrangimentos comerciais e, por outro, libertar uma fatia do mercado publicitário para fortalecer os operadores privados. Quererá Sócrates seguir o seu exemplo?
Recorda-se que em Portugal o Governo colecta uma percentagem do consumo da electricidade que se destina a pagar parte dos custos do serviço público de rádio e de televisão. Em França, Sarkozy, está a estudar o lançamento de uma taxa a pagar pelos operadores de telemóveis e Internet exactamente com o mesmo objectivo.
Até que ponto gosta Sócrates de Sarkozy?


PENSAMENTOS OCIOSOS II
Nos Estados Unidos a televisão de alta definição (TVHD) está muito mais implantada do que na Europa e isto deve-se, em primeiro lugar, ao facto de os norte-americanos terem optado pela distribuição das emissões de HD através do cabo, aproveitando a facilidade com que neste meio se obtém uma maior largura de banda. A mais recente cobertura do maior espectáculo desportivo do ano nos Estados Unidos, a Super Bowl, foi um festival: 47 câmaras simultâneas de alta definição mostraram todos os ângulos possíveis do jogo e da actuação, de meia hora, de Prince, que antecedeu a competição. Na Europa o território onde a TVHD está mais desenvolvida é na Grã Bretanha, em parte graças à rede de satélite da Sky – que usa muito a HD na Sky Sports.
Ora isto devia dar que pensar aos nossos queridos governantes: porquê reservar largura de banda na televisão digital terrestre para a alta definição se tudo indica que no futuro o seu melhor meio de distribuição está num dos sistemas de cabo ou de satélite? Claro que isto deixa outra questão em aberto – que fazer com as frequências que ficam libertas. Talvez mais canais…Dor de cabeça à vista, portanto.

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UM OUTRO CANAL
Publicado na Revista «Atlântico» de Fevereiro de 2008

A história mais recente da evolução dos media mostra uma coisa muito interessante - coexistem duas tendências de certa forma antagónicas. Por um lado fortalecem-se os suportes generalistas mais agressivos, que se assumem como pólos globalizantes nos respectivos mercados, e, em simultâneo, começam-se a afirmar os veículos de informação e comunicação muito segmentados, dirigidos a públicos especiais.
Em Portugal continua a existir ainda medo pelo surgimento de novos suportes, pela proliferação de títulos. O reduzido crescimento do investimento publicitário nos últimos anos é argumento usado pelos suportes existentes para contrariar o inevitável alargamento do mercado. A questão, no entanto, não é essa. O verdadeiro problema, para os actuais grandes grupos de media, é como conseguirem manter a captação de investimento publicitário quando é certa a tendência para a procura de novos meios, novos suportes, que possibilitem uma afinidade e uma proximidade cada vez maior com os consumidores. E, quanto mais generalistas esse grupos procurarem ser, menos conseguirão captar os segmentos onde estarão os consumidores com maior poder de compra.
O rápido crescimento da internet – que dentro de alguns anos igualará a televisão na captação de publicidade nalguns mercados mais desenvolvidos, devia dar que pensar.
Na realidade é inevitável a convergência entre a televisão, tal como hoje a conhecemos, e a internet, num futuro que já não está assim tão distante.
Isto coloca aos operadores de televisão com maior experiência e capacidade um dilema: como conciliar a existência de canais generalistas fortes e com audiência massificada mas pouco qualificada, com a criação de novos canais, com outros conteúdos, eventualmente exportáveis para outras plataformas, que toquem os segmentos de publico que fogem dos canais tradicionais e que possibilitem captar investimentos publicitários que já não querem hoje em dia os canais generalistas de sinal aberto?
A resposta, no caso português, para já, pode estar no cabo. Tal como noutros mercados, será que aqui iremos assistir à criação de novos canais (ou à transformação dos existentes), por forma a captar o interesse dos consumidores com poder de compra, urbanos, profissionalmente activos? A SIC, que deu os primeiros passos na segmentação de canais há uns anos, tem hoje a esse nível uma oferta mal definida e provavelmente desajustada da realidade do mercado – e a existência de um novo canal de informação, da TVI, no final do ano, irá baralhar o jogo. E com uma SIC generalista agora tonificada, com Nuno Santos a disputar audiências com a TVI, fará ou não sentido alterar a definição dos canais de cabo existentes, criando um canal português assumidamente elitista, não exclusivamente noticioso, focado na realidade nacional mas cosmopolita, que seja veículo para os anunciantes que procuram outros públicos? Ou deixa-se esse mercado apenas para os canais internacionais de séries?



PENSAMENTOS OCIOSOS I
O Presidente francês Nicolas Sarkozy está a trabalhar no sentido de retirar completamente a publicidade dos canais de televisão do serviço público em França. O objectivo, relata a imprensa especializada, é promover uma programação de alta qualidade e, ao mesmo tempo, aumentar a produção local. A medida visa por um lado libertar o serviço público dos constrangimentos comerciais e, por outro, libertar uma fatia do mercado publicitário para fortalecer os operadores privados. Quererá Sócrates seguir o seu exemplo?
Recorda-se que em Portugal o Governo colecta uma percentagem do consumo da electricidade que se destina a pagar parte dos custos do serviço público de rádio e de televisão. Em França, Sarkozy, está a estudar o lançamento de uma taxa a pagar pelos operadores de telemóveis e Internet exactamente com o mesmo objectivo.
Até que ponto gosta Sócrates de Sarkozy?


PENSAMENTOS OCIOSOS II
Nos Estados Unidos a televisão de alta definição (TVHD) está muito mais implantada do que na Europa e isto deve-se, em primeiro lugar, ao facto de os norte-americanos terem optado pela distribuição das emissões de HD através do cabo, aproveitando a facilidade com que neste meio se obtém uma maior largura de banda. A mais recente cobertura do maior espectáculo desportivo do ano nos Estados Unidos, a Super Bowl, foi um festival: 47 câmaras simultâneas de alta definição mostraram todos os ângulos possíveis do jogo e da actuação, de meia hora, de Prince, que antecedeu a competição. Na Europa o território onde a TVHD está mais desenvolvida é na Grã Bretanha, em parte graças à rede de satélite da Sky – que usa muito a HD na Sky Sports.
Ora isto devia dar que pensar aos nossos queridos governantes: porquê reservar largura de banda na televisão digital terrestre para a alta definição se tudo indica que no futuro o seu melhor meio de distribuição está num dos sistemas de cabo ou de satélite? Claro que isto deixa outra questão em aberto – que fazer com as frequências que ficam libertas. Talvez mais canais…Dor de cabeça à vista, portanto.

fevereiro 14, 2008

IMAGENS INCÓMODAS
(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 13 de Fevereiro)

Os incidentes da semana passada na escadaria do Grémio Lisbonense podiam ter ficado praticamente ignorados, não fora o facto de uma estação de televisão ter divulgado imagens que mostraram a brutalidade dos polícias envolvidos. Nas imagens era bem visível o descontrolo desses agentes, era patente a sua raiva, traduzida em bastonadas indiscriminadas, nem eles próprios sabiam bem em quem.
Na origem da divulgação das imagens está a TV NET, uma estação de televisão que emite na Internet (www.tvnet.pt) há cerca de um ano, e que tem vindo a fazer um esforço notável de cobertura noticiosa e, sobretudo, no estabelecimento de uma relação de grande interactividade com os seus espectadores, que enviam imagens obtidas via telemóvel ou com pequenas câmaras de vídeo.
No dia dos incidentes um porta-voz da polícia dizia que os agentes teriam utilizado os meios proporcionais e necessários face à situação. Ora as imagens mostram precisamente o contrário: um abuso de meios, a completa desproporção da reacção policial e sobretudo a falta de capacidade dos agentes para manterem o controlo da situação. Além disso os agentes actuaram de forma ilegal quando agrediram um repórter fotográfico, em serviço e identificado, da agência Lusa.
A agressão ao repórter fotográfico tinha um objectivo claro: impedir a captação de imagens. Para mal dos pecados da polícia de insegurança pública, hoje todos podem captar – e difundir – imagens. Foi assim que elas chegaram à TV NET e, depois, a todas as outras estações de televisão.
No meio de tudo isto estranha-se o silêncio de Rui Pereira, o Ministro da Administração Interna. Esperava-se que face às imagens abrisse inquérito, promovesse exames psicológicos aos agentes que mostravam raiva e descontrolo, aproveitasse o caso para educar a polícia no respeito pelos cidadãos e pela informação, punisse o porta voz mentiroso. Nada disso. Mas, curiosamente um porta-voz da Câmara Municipal de Lisboa fez questão de se demarcar da forma de intervenção policial – e por acaso António Costa era o anterior Ministro da Administração Interna. Já me esquecia: esta simples carga de bastonada ocorreu no mesmo dia em que Sócrates apresentou mais 180 medidas do simplex…

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IMAGENS INCÓMODAS
(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 13 de Fevereiro)

Os incidentes da semana passada na escadaria do Grémio Lisbonense podiam ter ficado praticamente ignorados, não fora o facto de uma estação de televisão ter divulgado imagens que mostraram a brutalidade dos polícias envolvidos. Nas imagens era bem visível o descontrolo desses agentes, era patente a sua raiva, traduzida em bastonadas indiscriminadas, nem eles próprios sabiam bem em quem.
Na origem da divulgação das imagens está a TV NET, uma estação de televisão que emite na Internet (www.tvnet.pt) há cerca de um ano, e que tem vindo a fazer um esforço notável de cobertura noticiosa e, sobretudo, no estabelecimento de uma relação de grande interactividade com os seus espectadores, que enviam imagens obtidas via telemóvel ou com pequenas câmaras de vídeo.
No dia dos incidentes um porta-voz da polícia dizia que os agentes teriam utilizado os meios proporcionais e necessários face à situação. Ora as imagens mostram precisamente o contrário: um abuso de meios, a completa desproporção da reacção policial e sobretudo a falta de capacidade dos agentes para manterem o controlo da situação. Além disso os agentes actuaram de forma ilegal quando agrediram um repórter fotográfico, em serviço e identificado, da agência Lusa.
A agressão ao repórter fotográfico tinha um objectivo claro: impedir a captação de imagens. Para mal dos pecados da polícia de insegurança pública, hoje todos podem captar – e difundir – imagens. Foi assim que elas chegaram à TV NET e, depois, a todas as outras estações de televisão.
No meio de tudo isto estranha-se o silêncio de Rui Pereira, o Ministro da Administração Interna. Esperava-se que face às imagens abrisse inquérito, promovesse exames psicológicos aos agentes que mostravam raiva e descontrolo, aproveitasse o caso para educar a polícia no respeito pelos cidadãos e pela informação, punisse o porta voz mentiroso. Nada disso. Mas, curiosamente um porta-voz da Câmara Municipal de Lisboa fez questão de se demarcar da forma de intervenção policial – e por acaso António Costa era o anterior Ministro da Administração Interna. Já me esquecia: esta simples carga de bastonada ocorreu no mesmo dia em que Sócrates apresentou mais 180 medidas do simplex…