dezembro 23, 2022

DEVE O SERVIÇO PÚBLICO INVESTIR MAIS NO FUTEBOL QUE NOUTROS CONTEÚDOS?

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OS MALUCOS DA BOLA -  Como reage o país ao futebol? Se olharmos para o quadro de audiências dos canais de televisão, podemos ter uma ideia. Este ano, dos 25 programas mais vistos, 20 foram transmissões de jogos de futebol, quatro foram episódios do Big Brother e o outro foi um Telejornal. Está feito o retrato do país em termos televisivos. Destes 20 desafios de futebol que tiveram grande audiência, nove foram transmitidos pela RTP1, sete pela TVI e quatro pela SIC. O jogo que obteve maior audiência foi o Portugal-Suíça, visto por cerca de 3,7 milhões de espectadores. Em termos de comparação, o jogo da final do Mundial, entre a Argentina e a França, teve um pouco mais de dois milhões de espectadores. Destas 20 transmissões de desafios de futebol, doze foram do Mundial, nas suas várias fases, quase todas com jogos da Selecção Nacional. Os jogos do Mundial transmitidos pelos canais generalistas tiveram, no total, mais de 22 milhões de espectadores. Os números não iludem: o futebol continua a ser rei da televisão e, apesar dos elevados custos dos direitos de transmissão, as estações continuam a bater-se por eles. A RTP adquiriu há uns anos os direitos para este Mundial por 13,2 milhões de euros - e este valor não inclui as transmissões dos jogos da Selecção durante a fase de qualificação. A RTP acabou por revender parte dos direitos a outras estações e a SIC e a TVI transmitiram três jogos cada e a SportTV também fez transmissões. A RTP conseguiu assim diminuir o seu envolvimento financeiro, que ficou quase exclusivamente limitado aos jogos da Selecção Nacional. Agora que o Mundial acabou, seria curioso saber qual o valor total gasto pela RTP nas várias fases do Mundial e qual o valor de receitas publicitárias que arrecadou. Recordo que a RTP tem um limite máximo/hora de emissão de publicidade que é metade do dos canais privados. E, claro, isto volta a trazer à baila a questão de saber até que ponto é que as transmissões de futebol são serviço público. O Ministro da Cultura, que tutela a RTP e que já foi comentador futebolístico na televisão, que acha disto? Deve o serviço público investir mais no futebol que noutros conteúdos?


 


SEMANADA - Em dez anos foram atribuídos 10254 vistos gold a cidadãos estrangeiros, que resultaram na criação de apenas 20 postos de trabalho; os estrangeiros a viver em Portugal equivalem a toda a população de Lisboa; segundo a OCDE Portugal é um dos países com menos camas hospitalares por habitante; Portugal é o quinto país mais envelhecido do mundo o que se repercute nos cuidados de saúde que devem ser prestados; dos bebés nascidos no ano passado em Portugal, 14 % são de mãe estrangeira; segundo o Governador do Banco de Portugal, 40% das famílias serão colocadas em situação difícil em 2023 por causa da inflação e do aumento dos juros; o Ministro das Finanças declarou que no seu entender 2023 não terá um cenário de recessão; as dívidas a fornecedores do Serviço Nacional de Saúde estão no valor mais alto desde 2014 e já somam 2350 milhões de euros; o produto interno bruto per capita em Portugal, expresso em paridades de poder de compra, caiu pelo segundo ano consecutivo em 2021 e situa-se agora em 75,1% da média da União Europeia, o pior resultado desde 2009;  na zona euro só a Letónia, Eslováquia e Grécia estão piores do que Portugal; um estudo divulgado esta semana indica que seis em cada dez portugueses vivem pior que em 2021; segundo o Eurostat, em 2021 o ordenado médio mensal em Portugal era 634 euros mais baixo do que em Espanha.


 


O ARCO DA VELHA - O movimento dos jatos particulares nos aeroportos portugueses aumentou e até outubro foram registados mais de 18 mil voos privados em Portugal.


 


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IMAGENS CERTAS - Ao contrário do que acontece noutros países em Portugal a fotografia documental tem sido relegada para segundo plano, ultrapassada pela utilização da fotografia como ferramenta manipulável, mais do que como forma de expressão ou de ser um olhar sobre a realidade. No segmento a que se convencionou chamar “fine art photography” a fotografia é encarada como uma maneira de criar ilusão, quase que, nalguns discursos mais sectários, excluindo que a realidade possa ter valor artístico.  Felizmente, numa iniciativa da associação CC11 e da Narrativa, com o apoio da  Galeria Santa Maria Maior, foram desafiados 66 fotojornalistas a apresentarem outras tantas imagens na exposição “Edição Limitada”. As imagens expostas são olhares sobre a realidade do dia a dia, todas em formato 40x60, e são assinadas por nomes como  Alexandre Almeida, Alfredo Cunha, António Pedro Ferreira, Bruno Portela, Céu Guarda, Clara Azevedo, Enric Vives-Rubio, Fernando Ricardo, João Porfírio, José Pedro Santa-Bárbara, José Sarmento Matos, Luísa Ferreira, Paulo Alexandrino, e Tiago Miranda, entre muitos outros. Tiago Miranda, que é o coordenador deste projecto, sublinha que ele pretende reclamar um direito tão antigo quanto a própria invenção da fotografia" que é tornar a fotografia jornalística e documental um objeto adquirível e colecionável, por particulares e instituições. “Apesar de uma imagem fotojornalística nos ser por definição emocionalmente próxima, única, original e histórica, o circuito das galerias de arte e das coleções públicas e privadas, há muito tempo que em Portugal coexistem de costas voltadas para com o fotojornalismo", afirma. No texto de apresentação da exposição Emília Ferreira, Directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sublinha que “muitos dos representados nesta exposição veem há muito as suas imagens expostas e estudadas em espaços institucionais”, e deixa uma interrogação:  “Porque resistiremos a considerar arte esta disciplina da fotografia?- Não tenho resposta.”  “Edição Limitada” está patente na Galeria  Santa Maria Maior, Rua da Madalena 147, até 21 de Janeiro, de segunda a sábado, das 15h às 20h. E destaco o importante trabalho que esta Galeria tem feito na área da fotografia.


 


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OUTRA FOTOGRAFIA -  O décimo volume da Ph. , uma colecção de livros de fotografia da Imprensa Nacional, dirigida por Cláudio Garrudo, é dedicada à obra de António Júlio Duarte, mostrando a sua errância por espaços urbanos, de Hong Kong aos Estados Unidos, passando por Cabo Verde, Itália, Rússia, Japão e, claro, Portugal. O livro publica diversas obras inéditas do fotógrafo e tem uma estrutura cronológica, onde o autor revisita conceitos do seu trabalho e é perceptível a sua evolução. Sofia Silva, no ensaio publicado no livro sublinha as composições “cruas e rigorosas” de António Júlio Duarte e defende que “com ou sem flash as imagens são sempre ficção e o que está fora delas nunca existiu”, perguntando: “quem guardará memória das coisas que não existem, senão no fotográfico?” No fundo, e por coincidência, entre a exposição referida nestas páginas e este livro mostram-se os dois lados da fotografia, entre a realidade e a fantasia, entre o que mostra o que se passa e o que reflecte o que se pensa ou imagina. É uma curiosa coincidência que eles coexistam no tempo, provando que estes dois lados são como a cara e a coroa de uma moeda. Um tem tanto valor como o outro. António Júlio Duarte é, dentro da área em que trabalha, dos mais lúcidos e honestos autores na utilização que faz da fotografia, fugindo ao facilitismo e mostrando sempre um claro sentido de observação e oportunidade - e também por isso é interessante conhecer esta sua obra. António Júlio Duarte expõe com regularidade desde a década de 90 do século XX.


 


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TRIOS VARIADOS - Este ano o saxofonista Charles Lloyd editou três discos, todos utilizando a formação de trio e com músicos diferentes em cada um deles. “Sacred Thread”, “Ocean” e “Chapel” são esses três discos. Nos dois primeiros Lloyd é acompanhado pelo pianista Gerald Clayton e o guitarrista Anthony Wilson, no segundo pelo percussionista Zakir Hussain e pelo guitarrista Julian Lage e finalmente no terceiro, “Chapel”, gravado ao vivo, é acompanhado pelo guitarrista Bill Frisell e pelo baixista Thomas Morgan. A minha preferência pessoal vai para “Chapel”, que tem cinco temas, todos eles anteriormente gravados noutras circunstâncias e três deles são composições originais de Charles Lloyd e dois são versões. Frisell tem acompanhado Lloyd no seu quinteto ocasional The Marvels e Thomas Morgan é um velho parceiro de Frisell, quer em duo, quer em trio. As duas versões são“Blood Count”, de Billy Strayhorn, um exemplo perfeito do diálogo entre saxofone, guitarra e baixo e um tema cubano, a balada “Ay Amor” onde o saxofone de Lloyd assume o maior protagonismo. “Song My Lady Sings”, “Tone Poem” e “Dorotea’s Studio” são os três originais de Charles Lloyd. Destaque, em todo o disco, para a subtileza com que Frisell toca a guitarra de forma suave e melódica. 


 


UM PERU DIFERENTE - O peru faz parte do imaginário do Natal, na sua versão tradicional, inteiro, enorme, transbordante, recheado, a ficar temperado de um dia para o outro dentro de um grande alguidar. Mas muitas vezes o resultado de fazer um peru assado é que se fica a comer os restos durante dias a fio. Sugiro uma alternativa para quem não tiver muita gente à mesa: peito de peru assado no forno. Uma peça entre 1,5 e 2 kgs será o ideal. E agora uma heresia: nada de marinadas tradicionais: em vez disso barrem bem todo o peito de peru com limão e sal natural. Num tabuleiro de ir ao forno, que deve estar a 200 graus, coloque o peito de peru já temperado, reguem-no primeiro com um pouco de vinho branco,  depois com azeite e, finalmente, pimenta preta moída na altura. Finalize com mel espalhado por toda a superfície. No tabuleiro coloque raminhos de alecrim e folhas de louro, assim como alguns dentes de alho inteiros só para aromatizar. Vai a forno a 200 graus durante 20 minutos. Depois baixa-se o forno para 150 graus, altura em que o vai cobrir com uma folha de alumínio. Deixe ficar mais meia hora assim. Ao fim desse tempo verifique com uma faca afiada se a carne já está cozinhada e deixe-a repousar no forno desligado durante mais uns 15 minutos antes de servir. Aproveite o molho do tabuleiro, adicione mostarda e mais um pouco de mel, mexa tudo bem e coloque-o numa taça à parte para quem quiser. Acompanha com batata doce assada aos pedaços, salpicada de rosmaninho. Bom Natal!


 


DIXIT - “Não vejo diferença entre António Costa com sono e quando está acordado” - Rui Rocha, candidato a presidente da Iniciativa Liberal


 


BACK TO BASICS - “Digam o que disserem dos Dez Mandamentos, devemos sempre regozijar-nos que sejam apenas dez” - H. L. Mencken


 




dezembro 16, 2022

A DEMAGOGIA ENTROU EM ACÇÃO NO MEIO DAS CHEIAS

 


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OS INCAPAZES - O uso da demagogia em política é uma coisa tramada. Nas inundações da semana passada o PS de Lisboa veio rápido atacar Carlos Moedas, acusando-o de diversas malfeitorias que teriam estado na origem de tudo o que aconteceu. Imputaram-lhe numerosas responsabilidades no assunto mas, certamente por esquecimento, ainda não o acusaram de ter feito a dança da chuva, seguindo o ritual dos índios Sioux. Neste farwest em que a política portuguesa se tornou, e no qual vive a oposição na autarquia lisboeta, vale tudo, até pelos vistos arrancar olhos. Se calhar por isso o PS lisboeta fechou os olhos ao tempo em que, enquanto António Costa e Fernando Medina dirigiram a autarquia, meteram na gaveta um projecto que aliviará os resultados das chuvas intensas, o túnel de drenagem que Moedas decidiu recuperar e iniciar. Quando António Costa entrou na presidência da Câmara de Lisboa, em 2007, já existiam os primeiros estudos e planos sobre esse túnel de drenagem, cinco quilómetros que vão de Campolide até Santa Apolónia, e que, uma vez acabado, permitirá que o que aconteceu nas últimas semanas não se repita. E, no entanto, durante os 13 anos em que o PS esteve à frente da Câmara de Lisboa, entre 2007 e 2021, nas mãos de Costa e Medina, nada se fez nem se avançou nessa obra fundamental para a cidade. Carlos Moedas, numa entrevista recente, garantiu que quando chegou à autarquia lisboeta  não havia planos de execução da obra, que ele próprio mandou avançar.  O arranque da obra, um  ano depois de Carlos Moedas ter entrado em funções, foi anunciado há semanas, antes de todas as chuvas recentes. Esta vai ser uma obra cara, longa, e incómoda para os lisboetas, tudo coisas que desaconselham um político a meter-se no assunto - e deve ter sido por isso que Costa e Medina nem quiseram ouvir falar de túneis. Muitas vezes não fazer nada e deixar as coisas arrastarem-se é o programa de acção dos políticos que vivem a fugir dos problemas e esperam com isso ganhar uns votos de quem não pensa no futuro. São os mesmos políticos que, a seguir, estimulam os seus seguidores a criticar quem fez o que eles não foram capazes de fazer.


 


SEMANADA - Em Lisboa o arrendamento de um T1 representa em média 63% do salário mensal, contra 45% em Madrid, 40% em Paris ou 24% em Viena;  Portugal registou  a maior subida dos juros de crédito à habitação de toda a zona euro; segundo uma sondagem divulgada no início da semana 37% dos portugueses vai cortar nos gastos de Natal; o cabaz de produtos alimentares essenciais já aumentou quase 20% desde o início do ano e peixe, lacticínios e carne foram os produtos que mais subiram; 96% dos portugueses assinam pacotes de televisão por cabo, serviço que chega a 4,5 milhões de lares; a segurança privada em Portugal já tem 60.000 profissionais e factura 945 milhões de euros por ano; segundo o Instituto do Cinema e Audiovisual  Lisboa tem 12,1% do total das salas de cinema do país; as salas de cinema em Portugal perderam 40% dos espectadores este ano, em comparação com o período pré-pandemia; nos primeiros seis meses do ano aumentou nos hospitais públicos o incumprimento dos tempos de espera para consultas e cirurgias de cancros e coração; só 52 dos 201 municípios do país aceitaram, no âmbito das medidas de descentralização, as competências na área da saúde e as razões para a recusa são a não transferência de verbas e garantia de condições e médicos por parte do Governo.


 


O ARCO DA VELHA - Um advogado, Rui Santana, condenado quatro vezes por enganar clientes e ficar com dinheiro que não é seu, continua em liberdade e a exercer e tem o seu nome e contacto disponíveis no site da Ordem dos Advogados.


 


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UM DESTAQUE NA MADEIRA - Lourdes Castro foi uma das mais importantes artistas portuguesas, com um percurso iniciado na Madeira, onde nasceu, e que passou por Lisboa, Munique, Paris e Berlim, locais onde viveu e trabalhou até regressar ao Funchal. Em Paris, no final dos anos 50, integrou o grupo KWY, que editou uma revista homónima, e que integrava nomes como João Vieira, Costa Pinheiro, René Bertholo, Jon Voss e Christo, entre outros. Viveu em Paris 25 anos, regressou ao Funchal em 1983 e a partir daí viveu na sua casa no Caniço. Pelo meio teve exposições em Serralves , na Gulbenkian e na Bienal de S. Paulo. Lourdes Castro morreu em Janeiro deste ano, com 91 anos, e agora abriu no MUDAS - Museu de Arte Contemporânea da Madeira, uma exposição que mostra não só obras de diversas fases da sua carreira artística, como abundante documentação que a curadora Márcia Sousa recolheu e começou a organizar depois da sua morte. A exposição “Como uma Ilha sobre o Mar: Lourdes Castro” (na imagem) abriu este mês, conta com 300 peças, entre obras e documentação, recolhidas a partir do espólio da artista mas também das colecções de diversas instituições, e ficará disponível ao público até Junho de 2023. É uma ocasião única para descobrir não só a obra mas também a forma como Lourdes Castro encarava o seu trabalho e momentos da sua vida. Do Funchal sugiro uma passagem pelo Porto, onde no renovado Cinema Batalha já se pode ver, restaurado, o grande painel que Júlio Pomar fez para esta sala e que durante muitos anos esteve escondido do olhar do público. 


 


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A ESCRITA DA MEMÓRIA -  Gosto muito de ler Bruno Vieira do Amaral. Escreve bem, com ritmo, humor, um raro sentido de observação e uma forma simples de nos fazer pensar em coisas que vemos todos os dias mas às quais nem ligamos. Não usa floreados,  não pratica estilos retorcidos, não atira erudição barata para cima dos leitores, apenas bom senso. É terra-a-terra num país em que há uma geração recente de escritores que gosta de se colocar nas nuvens, de onde os seus protagonistas vão caindo aos trambolhões. O seu novo livro, “O Segundo Coração”, reúne crónicas publicadas na imprensa. É um livro de memórias e Bruno Vieira de Amaral foi buscar o título do livro a uma citação de John Banville que adoptou como epígrafe desta obra: «O passado bate em mim como um segundo coração.» O livro fala das aspirações da juventude, dos amores e as desilusões, também das humilhações, dos ódios gratuitos e inexplicáveis, das noites solitárias da adolescência,de querer ver um filme sozinho no cinema. Aqui cruzam-se as memórias de infância, os hábitos familiares, as férias grandes,os primeiros amigos, um rol de afectos e recordações. Bruno Vieira do Amaral publicou o seu romance de estreia, “As Primeiras Coisas”, em 2013 e de então para cá escreveu, entre outras coisas, mais um romance, um livro de contos e uma biografia de José Cardoso Pires. No fim do livro, em “O adulto é o túmulo da criança”, Bruno Vieira do Amaral conta esta história: “Lembro-me que tinha cinco anos e o fotógrafo pediu-me para segurar uma maçã e aproximá-la da boca, como se a fosse morder, mas sem abrir a boca. Devia olhar para a câmara e sorrir. Obedeci. Vestido com o meu pullover azul seguro a maçã vermelha, inteira, e olho para a câmara com um sorriso”. Lindo, não é? Edição Quetzal 


 


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EMOÇÃO - Por estes dias descobri um disco que, na altura em que saíu,  em finais de Setembro deste ano, me passou despercebido. Tenho estado a ouvi-lo frequentemente e, quanto mais o ouço, mais me convenço que é um dos grandes discos do ano. Trata-se de “Angels & Queen Part 1”, dos Gabriels, um trio de gospel de Los Angeles em que as vozes fazem uma rara ligação entre ritmos e melodias. Há aqui influências tribais que se conjugam com subtilezas de percussão e manobras sábias de produção em estúdio. É extraordinária a forma como a invulgar voz de Lusk casa com os arranjos ao longo das sete canções deste disco. Baladas como “To The Moon”, “If Only You Knew” ou “Mama” são diferentes mas complementares ao impulso rítmico lançado por “Angels & Queens”, a faixa de abertura, ou esse empolgante desafio que é “Taboo”, ou ainda a marca soul de “Remember Me” e “The Blind". E assim, quase num repente, se esgotam os sete temas deste disco surpreendente. Mas, quem são os Gabriels? Em primeiro lugar vem Lusk, maestro de um côro de gospel  que participou em 2011 no programa de Tv “American Idol” e a seu lado estão Ari Balouzian, que é o compositor de serviço ao trio e, finalmente, Ryan Hope, que assegura  além da sua participação musical os originais vídeos da banda - foi aliás ele que encontrou nome para o grupo, Gabriels, em honra da rua onde cresceu em Sunderland. Lusk fornece o carisma e a voz poderosa e original mas este é um trio que funciona bem em conjunto, os talentos completando-se. Neste novo disco foram ajudados em estúdio por  Sounwave, que tem trabalhado frequentemente com Kendrick Lamar e que aqui assume a produção, conseguindo uma sonoridade de contrastes, ora tumultuosa, ora sossegada. “Angels & Queen Part 1”, dos Gabriels, está disponível nas plataformas de streaming, na primavera do próximo ano sairá a segunda parte.





MOÇAMBIQUE À VISTA - Aqui há uns dias provei umas das mais deliciosas chamuças de que tenho memória. A massa era finíssima, estaladiça, enxuta, sem gordura, e o recheio cremoso era feito à base de um camarão picado e bem temperado com o sabor dos coentros a revelar-se. A coisa passou-se no Kaia Kahina, um restaurante na Parede, Rebelva, que se dedica à cozinha moçambicana e ao qual gastrónomo amigo me levou. Do menu faz parte um leque de pratos de caril, muito bem confeccionados e com base em caranguejo, camarão e frango. A acompanhar vem um arroz basmati impecável, solto e saboroso. Outras opções da lista são Matapá de camarão à moçambicana feito com preceito com amendoim torrado, chacuti de cordeiro ou de frango, e esse templo da cozinha indo-portuguesa que é o balchão de vitela, assim chamado pelo condimento utilizado, o balichão. Resta dizer que um dos pratos mais procurados da casa é o sarapatel Nas sobremesas não podia faltar a bebinca, tradicional e séria, construída em nove camadas. A lista de vinhos é curta mas existem cervejas moçambicanas - as célebres 2M e Laurentina Kaia Khaina, para que saibam,  significa “a nossa casa” em changana, a língua mais falada em Maputo. Esta bela casa fica na praceta Lagoa de Óbidos  85, Parede, Rebelva, reservas aconselháveis pelos telefones  211 931 440 e 912 376 277, já que  a sala não é muito grande.





DIXIT - “Se a vanguarda só convive com a vanguarda, com públicos de vanguarda, não vale a pena. Temos que ser de vanguarda dentro do sítio mainstream”- Miguel Esteves Cardoso


 


BACK TO BASICS - “A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo” -Alan Kay




dezembro 09, 2022

O DINHEIRO DA CULTURA

 


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A SUBSÍDIODEPENDÊNCIA  - Um dos temas da semana passada foi o apoio financeiro do Estado à cultura e às artes. Foram revelados os resultados de seis concursos de apoio e a polémica nasceu de imediato. Quase 60 candidaturas contestaram os resultados e cerca de 800 estruturas e profissionais do sector da Cultura subscreveram um abaixo-assinado de apelo ao reforço de verbas dos concursos. Estamos a falar de um volume global de apoios no valor de 148 milhões de euros. Este é um protesto recorrente: o volume de apoios vai crescendo mas nunca chega para todos e há sempre queixas e insatisfeitos. Nasce assim um pântano que condiciona tudo. Creio que existem três problemas fundamentais a considerar: a existência de estruturas de produção artística que se desenvolveram com um modelo de dependência exclusiva, ou muito maioritária, dos subsídios do Governo ou das autarquias; a nula ou diminuta aplicação de mecanismos de avaliação que tenham em conta dados concretos de captação de novos públicos e da audiência conseguida, por forma a ter uma leitura, pelo menos nos casos das artes performativas, dos resultados práticos dos apoios recebidos; e a grande dificuldade dos agentes envolvidos na produção artística em conseguirem apoios privados - quer pela ineficácia da lei do mecenato, quer por razões conjunturais, nomeadamente porque as causas sociais e ambientais são hoje mais procuradas pelas empresas do que as culturais. Há uma parte do sector da produção cultural que se sente bem a não ter que depender do público, e ambiciona viver para sempre de apoios oficiais. A propósito José Pacheco Pereira escreveu no “Público” de sábado passado: “Quando se olha para o fundo dos cartazes de concertos, performances, acções culturais de todo o tipo, percebe-se que na sua esmagadora maioria são suportadas pelo Estado e pelas autarquias, o que levanta a questão maldita da “subsidiodependência”. Só nomeá-la suscita de imediato uma fronda de insultos, processos de intenção, acusações com sucesso garantido dada a facilidade com que este mundo chega à comunicação social e mais, a presunção de que há em matérias de cultura — entendida erradamente como sinónimo de criatividade — uma espécie de noli me tangere , que ninguém me toque, porque os “criadores” são intocáveis.” Em Portugal vive-se com a ideia de que os apoios do Estado são definitivos, eternos e que não podem mudar. Esse pensamento é paralisante, e, em última análise, prejudica o surgimento de novos valores. Quem o defende está no fundo a impedir a dinâmica de transformação e renovação da produção cultural.  


 


SEMANADA - Comparando com 1991 Portugal tem agora mais um milhão de pessoas acima dos 65 anos, segmento que no conjunto alcança quase 2,5 milhões, ou seja 23,4% da população; no mesmo período perdeu mais de um milhão de crianças e jovens até aos 25 anos, cujo total é já inferior ao de maiores de 65 anos; dos 12 mil médicos dentistas inscritos na Ordem cerca de 13% foram para o estrangeiro e, dos que trabalham em Portugal, 98,5% estão no privado; devido ao custo da habitação quase 60 mil pessoas foram forçadas a deixar Lisboa nos últimos três anos; a Banca portuguesa está a pagar em juros de depósitos quatro vezes menos do que a média da zona euro; segundo a DECO Proteste, o aumento da prestação de um empréstimo de 150 mil euros, com Euribor a 6 meses, é de 39%, entre junho e dezembro de 2022 e, com a Euribor a um ano, o aumento, de dezembro de 2021 a dezembro de 2022 chega mesmo aos 56%; em 2010 a nossa carga fiscal (impostos e contribuições sociais) era de 30,4% do PIB, mas em 2021 chegou a 35,8%, um valor acima da média da OCDE que é 34,1%; em Outubro deste ano o alojamento turístico teve mais 5% de dormidas do que em Outubro de 2019, antes da pandemia; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que os políticos portugueses são mais tolerantes em relação à corrupção do que os cidadãos; o mesmo estudo indica que 59,9% dos cidadãos consideram a honestidade o valor mais importante em democracia, mas menos de 20% dos deputados tem a mesma opinião; o mesmo estudo revela que a eficiência e o mérito são mais considerados entre os cidadãos do que entre os políticos.


 


O ARCO DA VELHA - Segundo o Eurostat os jovens portugueses são, em média, os que saem mais tarde de casa, aos 33,6 anos. Só 10% do crédito à habitação foi concedido a jovens até aos 35 anos.


 


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IMAGENS - Proponho uma deslocação ao Barreiro onde, no espaço do Auditório Augusto Cabrita, o fotógrafo José Manuel Rodrigues expõe seis dezenas de imagens reunidas sob o título “Amanhã Será Ontem”, onde o autor cria uma narrativa, aparentemente dispersa onde mostra o olhar do fotógrafo através de imagens observadas e de outras, encenadas. Todas estão aparentemente desligadas mas a montagem criada e o jogo de variações nas dimensões apresentadas conseguem estabelecer um fio condutor que nos leva a ligar vários tempos. Cito o texto de José Manuel Rodrigues sobre o trabalho que apresenta: “a rotação da terra define a vida, o nosso pensamento. Para eu encontrar essa continuação foram precisos milhares de milhões de anos, para enfrentar o que está agora à minha volta. (...) É a evolução do olhar até este sítio onde me encontro a escrever sobre a existência representada numa fotografia. A ligação de todos os tempos.”. A exposição apresenta inéditos, novas provas de autor, fotografias a preto e branco e a cor, em muitos formatos, alguns pequenos, abordando um grande leque de assuntos e que, nas palavras de Alexandre Pomar permite ver “uma grande diversidade de assuntos numa larga panorâmica do trabalho do JMR sempre em renovação”. A nona edição do Fotografia no Barreiro fica no Auditório Augusto Cabrita até 29 de Janeiro e se lá for pode também aproveitar e ver o trabalho de Patrícia de Melo Moreira, “Passado-Presente”.


 


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UM SUICÍDIO POÉTICO -  “Uma Temporada no Inferno”, de Arthur Rimbaud, é por si só um livro que proporciona uma leitura apaixonante. Começamos a lê-lo, surpreendemo-nos, voltamos atrás, temos a tentação de saltar umas páginas para depois regressar. Este livro é um vício. Como se não bastasse o texto de Rimbaud, a nova edição tem uma deliciosa introdução, de Manuel S. Fonseca, que nos leva à ligação entre Rimbaud e Paul Verlaine, nascida quando, em Setembro de 1871, o jovem Arthur Rimbaud, a um mês de completar 17 anos, bateu à porta do poeta Paul Verlaine. Ambos mergulharam numa vertigem de poesia, boémia e absinto. A relação de ambos viria a superar as barreiras da experimentação poética, e o escândalo gerado pelas extravagantes aparições públicas dos dois amantes levou-os a abandonar Paris, vivendo a paixão primeiro na Bélgica e depois em Londres, até à ruptura total, após Verlaine balear o seu amante num pulso. Sentindo-se rejeitado, Rimbaud – o adolescente Casanova, como um dia Verlaine lhe chamou – quis libertar-se daquela longa visita ao Inferno, expurgando num último livro as suas memórias e inquietações, antes de partir numa viagem de absoluto silêncio pelo deserto africano. Aos 19 anos Rimbaud decidiu deixar de publicar e fez o mais célebre “suicídio poético” da história da literatura. Nascia assim, em 1873,  “Uma Temporada no Inferno”. Controverso a raiar o escândalo, este é uma das grandes obras da poesia mundial, agora recuperada pela editora Guerra e Paz, numa edição bilingue (português e francês).


 


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DISCOS COMENTADOS - Bob Dylan começou a escrever “ The Philosophy Of Modern Song” em 2010 e editou-o este ano. Ao longo de 350 páginas Dylan mostra a sua visão sobre o que entende ser o melhor da música popular. São dezenas de ensaios sobre as canções de outros artistas, de Hank Williams a Nina Simone, passando por Elvis Costello. Aqui Dylan vai ao pormenor de cada canção, às palavras, às melodias, aos géneros musicais. E aproveita o que pensa sobre estas canções para, no fundo, escrever sobre a condição humana. Mais de seis dezenas de canções são contadas por Dylan neste livro, desde "Detroit City”, de Bobby Bare, de 1963, até “Where Or When”, de Rodgers e Hart, numa interpretação de 1959 por Dion And The Belmonts. O livro inclui centena e meia de fotografias escolhidas a pensar nas canções, com um grafismo cuidado que encerra ele próprio uma narrativa. The Clash, Who, Elvis Presley, Willie Nelson, Jackson Browne, Ray Charles, Grateful Dead, Platters, Johnny Cash, Peter Seeger, Eagles, Little Richard, Judy Garland, ou Sinatra, entre tantos outros, passam por aqui. Há os nomes que estão e os que faltam, que também são muitos - até podemos adivinhar  aquilo de que Dylan gosta e aquilo que não lhe interessa. Mas acima de tudo este é um livro que fala de canções, da época em que foram feitas e como Dylan as ouviu e descobriu. Não é um livro sobre intérpretes, é sobre a matéria prima da música popular - a canção. Edição original à venda na Amazon Espanha.


 


DEGUSTAR? - Há uns anos ia-se ao teatro ou a um concerto e depois comia-se alguma coisa. Juntava-se o espectáculo com um aconchegar do estômago. Depois, houve quem quisesse juntar dois em um: fez do jantar uma tentativa de espectáculo, coreografada, encenada, excessiva, provocadora. Da mesma maneira que não interferimos no que se passa no palco, limitamo-nos, nesses casos, a assistir. O chamado fine dining fez dos clientes dos restaurantes sujeitos passivos que se sentam e levam com um menu fixo, pomposamente intitulado menu degustação, uma expressão que diz que a escolha não é do cliente naquele local. É a ditadura do menu e do seu autor, o todo poderoso Chef. Por isso estou cheio de vontade de ver o filme “O Menu”, onde Ralph Fiennes desempenha o papel de Chef despótico, reproduzindo o ambiente de um restaurante estrelado pelo Guia Michelin. Leio que o filme tem um olhar acutilante sobre a natureza do serviço e que o menu de degustação é central à história,  apresentado como um exercício de exibicionismo. Uma das críticas que li diz o que eu acho que se aplica a muitos locais: “O filme retrata um Chef psicopata e autoritário que comanda um exército de assistentes submetidos ao seu absolutismo moral”. Já está em exibição em Portugal.


 


DIXIT - «Alunos que nem português sabem já querem usar o "todes". A linguagem inclusiva é, na verdade, um código para entrarmos no Lux. Corremos o risco de ela se tornar uma palavra-passe para mostrarmos se estamos in ou out» - Rui Zink


 


BACK TO BASICS - “Uma sociedade que coloca a igualdade acima da liberdade vai acabar por perder ambas” - Milton Friedman


 

dezembro 02, 2022

MANUAL DE ESTAGNAÇÃO

 


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ULTRAPASSADOS - Visitei a Roménia no início dos anos 90, em trabalho. O regime de Ceausescu tinha caído há pouco e visitei várias zonas do país. Fiquei surpreendido com a pobreza que se via em todo o lado. Falo em pobreza ao ponto de, então, faltar comida nalgumas zonas do país. Isto foi há trinta anos. Passada uma década, no ano 2000, a Roménia continuava a ser o país mais pobre dos actuais 27 estados membros da União Europeia.  Portugal estava então na 15ª posição, atrás do Chipre e da Grécia, mas à frente de Malta e dos estados do antigo bloco de leste. Na semana passada foi conhecido um novo relatório de previsões económicas da União Europeia para 2024 que mostra como o nosso país empobreceu ao longo deste século. Se estas previsões se confirmarem Portugal terá então descido, 50 anos depois do 25 de Abril, para a 20ª posição em PIB per capita, sendo ultrapassado pela Roménia, Estónia, Chéquia, Lituânia e Eslovénia. A menos que haja alguma crise política, chegaremos a 2024 com 17 anos de governação do PS neste século e sete do PSD. António Costa, se entretanto continuar por cá, levará nessa altura quase uma década como Primeiro Ministro. Portugal, no início deste século, atravessou um período negro com a Troika, chamada pelo governo de José Sócrates, um executivo que em cerca de seis anos quase levou o país à falência. A governação do PS tem tido um padrão: estagnação e até recuo. Os sete anos que Costa já leva como Primeiro Ministro são marcados por fraco crescimento económico quando comparado, durante o mesmo período de tempo, com países de leste que estavam atrás de nós. Costa deixa também outra marca: a ausência de reformas efectivas em sectores como a saúde, educação, justiça e impostos e atrasos na execução de fundos europeus. Não há habilidade política que resista aos factos e aos números.


 


SEMANADA - Cerca de três mil escolas, públicas e privadas, não integram o Programa Nacional de Remoção de Amianto, lançado pelo Governo em 2020; um estudo europeu indica que 55% dos profissionais em Portugal já se sentiram discriminados no trabalho; a Câmara de Caminha contratou por 19.000 euros um parecer sobre um contrato que já foi anulado pela autarquia; um estudo recente indica que quase metade dos portugueses acredita em bruxaria; segundo o INE a prestação média do crédito à habitação registou um "aumento significativo" nos últimos meses, ficando em outubro 18,7% acima de outubro de 2021; a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima auxiliou, em 2021, "cerca de 28 mulheres e raparigas" por dia, vítimas de crimes como violência doméstica, difamação e perseguição, entre outros; mais de um milhão de portugueses vivem sozinhos; o número de alunos estrangeiros no ensino superior em Portugal atingiu o valor mais alto de sempre, cerca de 70 mil; na última década aumentou o número de partos em mulheres com mais de 50 anos; o interior do país perdeu 8,2% da população nos últimos dez anos; 20% da população portuguesa está amontoada em 1,1% do território; a Autoridade da Concorrência, dirigida por Margarida Matos Rosa, que completou seis anos no cargo, aplicou durante esse período coimas no valor de 1,4 mil milhões de euros.


 


O ARCO DA VELHA - O número de emigrantes por cada mil habitantes é, na última década, superior ao registado na década de 60.


 


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VER A MEMÓRIA - O trabalho de Ana Vidigal é feito da evocação de memórias e da utilização de pedaços de coisas que fizeram parte dos seus tempos - de brinquedos a recortes, de postais a fragmentos de objectos. A sua nova exposição, intitulada “Ana Beatriz”, evoca a forma como a mãe a chamava, pelos dois primeiros nomes, quando entendia que já estava a passar dos limites admissíveis, o que, aparentemente,  acontecia bastantes vezes. Sobre esta exposição Ana Vidigal sublinha que ela é feita da “memória que nos passa entre os dedos” e recorda que tudo o que ali está foi o que ela e os irmãos descobriram entre o que existia na casa onde cresceram. “What Can Be Shown Cannot Be Said” é a frase de Wittgenstein que Ana Vidigal escolheu para descrever esta sua primeira exposição na Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), que ali ficará até 25 de Fevereiro. O outro destaque da semana vai necessariamente para a exposição evocativa do centenário da morte da pintora portuguesa Aurélia de Sousa, no Museu Nacional de Soares dos Reis. Sob o título “Vida e Segredo” são apresentadas 92 obras  da artista, cuja obra é ainda relativamente pouco conhecida, apesar de ser um dos mais importantes nomes da arte portuguesa do final do século XIX e início do século XX. A exposição mostra diversos aspectos do trabalho de Aurélia de Sousa, nascida na Argentina mas que cresceu e sempre viveu no Porto, dividida em quatro grandes áreas que mostram retratos, cenas do quotidiano, paisagens, naturezas mortas. Esta é a maior mostra da obra de Aurélia de Souza e ficará no Museu Soares dos Reis (Rua de D.Manuel II 44, Porto) até final de Maio do próximo ano.


 


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PORTUGAL VISTO DE FORA - É sempre curioso ver como o país é visto e vivido por estrangeiros. “Portugal - The Monocle Handbook” proporciona essa visão e, embora nem sempre as sugestões da “Monocle “ sobre as coisas portuguesas sejam acertadas, o livro proporciona um bom roteiro a quem nos visita. Mas vamos à história do grupo Monocle. O primeiro número da revista Monocle foi publicado em Fevereiro de 2007, há 15 anos portanto. Em 2011 começou a emitir a Monocle 24, uma rádio em streaming que entretanto desenvolveu uma programação variada e passou a integrar uma componente vídeo. Em conjunto com a newsletter Monocle Minute estas são as únicas operações online do grupo, que ao longo da sua existência tem permanecido fiel ao papel. Para além das dez edições anuais do título principal, “Monocle”, tem também editado publicações regulares como a "Entrepreneurs" e a “Forecast” e algumas outras edições especiais, sazonais, em formato de jornal. Em 2013 iniciou uma área de edição de livros, que vão desde guias de cidades até ensaios, como “The Monocle Companion”. E, agora, estreou-se com a edição de uma nova colecção dedicada a países. E o primeiro volume desta nova colecção, agora apresentado, é sobre o nosso país, “Portugal - The Monocle Handbook”. O livro tem sugestões desde museus a lojas de design, de música ou de revistas, até locais no litoral e no interior, percursos a fazer, como no Douro, e indicações de restaurantes desde as mais simples tascas até aos mais na moda. E mostra também a diversidade cultural em todo o país, o cruzamento de influências de outros países, sobretudo os lusófonos. Na apresentação, que decorreu em Lisboa na semana passada, o criador do grupo Monocle, Tyler Brulé, sublinhou que Portugal surge em quarto lugar em número de exemplares vendidos da Monocle em quiosques, em sétimo global em livrarias e em 19º em assinaturas. Brindou-se a tudo isto com o Alvarinho Reserva Cortinha Velha, de Monção.


 


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PORTUGUÊS CANTADO  - Uma escritora, Maria do Rosário Pedreira, e uma fadista, Aldina Duarte, deram as mãos para, em conjunto, fazerem um livro, “Esse Fado Vaidoso”,  que recolhe poemas do fado tradicional, mas também de novos autores. Maria do Rosário Pedreira tem aliás trabalhado bom vários músicos músicos e contribuído para renovar o português que se canta, escrevendo para intérpretes como a própria Aldina Duarte, Camané, Carlos do Carmo ou António Zambujo. Aldina Duarte pelo seu lado,  fez o seu primeiro disco em 2004 e o mais recente já este ano e tem sido uma das vozes mais atentas a novos escritores e poetas. “Esse Fado Vaidoso” junta uma galeria de autores e intérpretes que transformaram o modo como o fado é visto e divulgado hoje em todo o mundo. É como que uma antologia monumental dessa poesia transcrita para o fado, dos trovadores medievais a Bocage, passando por Machado de Assis,  Teixeira de Pascoaes, Pessoa, Almada Negreiros, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luís, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Ary dos Santos,  Vasco Graça Moura ou Hélia Correia, entre outros. Ali encontra poemas do fado tradicional, à volta dos temas da mitologia do fado, da melancolia, da paixão, do ciúme, da saudade, da separação ou da esperança desenganada. No final do livro há um útil guia das versões cantadas dos poemas que os autores ouviram e recomendam. Edição Quetzal.





MÁS PROVAS - Uma das minhas dúvidas mais persistentes em matéria de restauração é o porquê da incapacidade, generalizada, em servir batatas fritas aos palitos que estejam fritas em vez de cozidas. Digamos que não será o prato mais emblemático do mundo, mas metade do prazer de um bitoque está no acompanhamento, ou seja, nas batatas fritas. Raros são os restaurantes onde as fazem como deve ser, como os especialistas no assunto, belgas, ensinam: com duas frituras, para ficarem estaladiças por fora, cozinhadas por dentro, mas secas e saborosas. Em vez disso, o mais frequente é aparecerem molengonas, encruadas, com um aspecto que leva a suspeitar precisarem de viagra para se restabelecerem. Dentro do mesmo género de molenguice destaco também outro clássico que são as carcaças que parecem pastilha elástica. Normalmente quando isto acontece as azeitonas que acompanham estão igualmente molengonas, talvez por solidariedade, e, nas mais das vezes, sensaboronas. Outro tema muito comum é a tentativa de colocar uma charcutaria inteira em cima da mesa, à espera que um incauto debique alguma coisa, para agravar a conta. Tudo isto atinge o seu zénite quando apanhamos um daqueles empregados que aparece a toda a hora a perguntar se está tudo bem, a meio da nossa mastigação, e que desaparece quando efectivamente precisamos dele. Outra praga, que começa a proliferar, são os pré preparados congelados que são servidos como produtos caseiros, uma verdadeira ofensa aos verdadeiros pastéis de bacalhau, croquetes e chamuças. Um dos maiores enganos que um restaurante pode cometer é servir fast food disfarçada - e isso acontece cada vez mais. Salvam-se as tascas, onde se cozinha tudo à vista, num grande tacho, e o resultado sai bem apurado. Para a semana o tema vai ser essa coisa chamada “fine dining”.


 


DIXIT - “O país e as autoridades olham para o que acontece e limitam-se a deixar acontecer (…) Deixar correr é sempre a pior das políticas “- António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “ Toda a gente tem um livro dentro de si, e é aí exactamente que, na maior parte dos casos, ele deve permanecer” - Christopher Hitchens.


 




novembro 25, 2022

MANUAL DE COMO DESTRUIR NOTÍCIAS

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FAKE NEWS - O primeiro-ministro António Costa considera-se perseguido por fake news - e não estou a falar da distracção lateral sobre facturas de refeições. Falo de outras situações - nomeadamente da forma como o Costa governante fala do livro sobre o ex Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, onde ele afirma ter sido pressionado pelo primeiro-ministro a propósito de Isabel dos Santos. Mas há mais: já este mês surgiu o célebre caso de Miguel Alves, sobre o qual, até ao momento em que escrevo este artigo, o primeiro-ministro nada disse. Fica-se obviamente na dúvida sobre se considera que Miguel Alves esteve bem, ou se tudo o que surgiu se resumia a um amontoado de fake news. As revelações destes dois casos devem-se a dois dos melhores jornalistas de investigação que temos - António Cerejo, do “Público”, no caso de Miguel Alves, e Luís Rosa, do “Observador”, no caso de Carlos Costa. Estes são apenas dois temas recentes, mas há um padrão em António Costa quando surgem acusações: negar, evitar responder, mudar de assunto. O seu comportamento, que sempre foi esquivo em relação a esclarecer situações complicadas, agravou-se desde que tem maioria absoluta. Reconheça-se que não está sozinho nesta tarefa de ocultação. Arrisco-me quase a dizer que nestes casos é seguido o velho lema “o segredo é a alma do negócio”. Houve mesmo neste processo uns guardiões do templo que se insurgiram contra as investigações a Miguel Alves e outros que não acharam de todo adequado que alguém revele o que se passou enquanto teve responsabilidades - coisa usual numa série de países onde fazer o balanço público da actuação faz parte daquilo que se espera que aconteça. Aqui, prefere-se a ocultação. O actual governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, que foi recordado do que aconteceu no caso do Banif quando era ministro das finanças, veio em defesa de Costa dizer que é “preciso respeitar as instituições que se representam não só enquanto se está no cargo mas, também, quando se abandonam essas funções”. Como escreveu João Miguel Tavares, “o mais interessante na polémica entre os dois Costas é aquilo que esse episódio revela da forma como o primeiro-ministro exerce o poder.” Ele, e os que o ajudam, acrescento eu.



SEMANADA - Cada português produz 511 kgs de lixo por ano; os empréstimos para comprar carro já atingiram o valor de seis milhões de euros por dia e em cada dez milhões de crédito, oito destinam-se à aquisição de carros usados; este ano já se registaram 397 casos de atropelamento com fuga dos condutores; entre os dias 14 e 21 de Novembro foram detectados quase 12 mil condutores em excesso de velocidade e registaram-se 2935 acidentes com vítimas, que causaram, sete mortos, 41 feridos graves e 772 feridos ligeiros; Lisboa e Cascais são os dois únicos do país com roteiro para alcançar as metas da descarbonização; os salários na banca e seguros caíram 22,7% desde 2015 e o sector financeiro foi o que teve a maior perda de poder de compra; o preço médio das casas em Portugal aumentou 19,5% num ano; em Setembro e Outubro inscreveram-se nos centros de emprego mais de 50 mil pessoas por mês, o que não acontecia desde Outubro de 2020;  João Cravinho criticou a proposta de revisão constitucional do PS por ser omissa em relação à questão da regionalização; a OCDE alertou para a existência de riscos de atraso na execução do PRR; Mário Centeno reconheceu que o PRR podia estar a andar mais rápido; este ano os acidentes de trabalho já provocaram 94 mortes e 247 feridos; na Zona Euro a taxa de juro dos depósitos até um ano está nos 0,56%, enquanto em Portugal está nos 0,05%, ou seja,a média da Zona Euro é 11 vezes mais alta que em Portugal.


 


O ARCO DA VELHA - Um estudo realizado entre 2018 e 2019 revela que 257 pessoas recorreram às urgências de ortopedia do Hospital de S. José, devido a incidentes com trotinetas, e a PSP já registou este ano quase 500 acidentes com trotinetas.


 


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OBRAS CRUZADAS - O destaque desta semana vai para a nova exposição do Atelier-Museu Júlio Pomar, que junta obras de Júlio Pomar às de três artistas contemporâneos: André Romão, Jorge Queiroz e Susanne Themlitz. Estes três artistas foram convidados por Sara Antónia Matos, directora do atelier-museu e curadora da exposição, a estabelecerem um diálogo com as obras de Júlio Pomar, sob a designação “Em Matéria de Matérias Primas”, título extraído de um texto do próprio Pomar  para o seu livro “Autobiografia”, em 2004. As obras de Pomar que estão expostas são um conjunto de pinturas da série “Mascarados de Pirenópolis”, realizadas em 1987-1988, após uma estada do pintor no Brasil onde, precisamente em Pirenópolis, assistiu às Festas do Divino Espírito Santo. E é essa celebração de rua, em que os habitantes da terra montam, mascarados, cavalos enfeitados, que Pomar usou como inspiração. Nesta exposição estão patentes vários quadros dessa série (talvez o maior conjunto reunido nos últimos anos), que permitem ver o trabalho de uma época particularmente interessante de Júlio Pomar, em obras transbordantes de energia que o artista soube transmitir  (na imagem). Já agora deixo a nota de que na Galeria Artur Bual/Casa Aprígio Gomes, na Amadora, está patente a exposição “Júlio Pomar - A Mão que Vê”. Outros destaques da semana: na Cristina Guerra Contemporary Art pode ser vista até 7 de Janeiro uma exposição colectiva com curadoria de Sérgio Mah e que agrupa obras de Sérgio Carronha (escultura), Fernão Cruz (pintura), Francisca Carvalho e Gonçalo Pena (desenho). Em Cascais, na Casa de Histórias Paula Rego, a nova exposição, com curadoria de Catarina Alfaro, é centrada na actividade da artista nos anos 70 e tem por título “Histórias de Todos os Dias”, e inclui desenhos a tinta da china que evocam as suas memórias infantis e juvenis.


 


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HISTÓRIAS DE BATALHAS - Hoje recomendo-vos as aventuras de Beowulf, contadas no mais longo poema heróico composto em Inglaterra e o mais antigo das línguas modernas da Europa. Desconhece-se o autor original de Beowulf, embora se reconheça que tenha sido produzido no período anglo-saxónico (449-1066), com base, provavelmente, na tradição oral deste tipo de histórias. O único manuscrito disponível, descoberto no século XVIII, tem a marca caligráfica de dois monges copistas. A obra narra as façanhas do grande herói Beowulf, desde a sua juventude até se tornar rei em idade adulta, detendo-se nas batalhas que trava contra três criaturas monstruosas: Grendel e sua mãe, que habitam zonas ermas e pantanosas, e um dragão cuspidor de fogo que põe em risco a existência do seu povo. Menosprezado durante muitos anos após ser descoberto no século XVIII, foi J. R. R. Tolkien quem elevou o texto a obra-prima da literatura ocidental, usando-o como inspiração para a sua famosa trilogia O Senhor dos Anéis. Pela primeira vez esta obra foi agora editada em português europeu, numa tradução de Angélica Varandas e Luísa Azuaga a partir do inglês antigo, língua original em que foi escrita. “Beowulf” é uma edição da Assírio & Alvim.


 


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MIX INTERCONTINENTAL - Que disco pode acontecer quando um trompetista nascido no Líbano, que cresceu em França e é fã de hip-hop e Rhythm & Blues, que estudou música clássica, tem tocado em formações de jazz e que é influenciado pela música do médio oriente, junta uma dúzia de convidados especiais? O resultado é um disco surpreendente, o álbum “Capacity To Love” de Ibrahim Maalouf. Ao longo de quase uma hora, e espalhados pelos 15 temas do álbum, estão participações originais e gravações recuperadas de nomes como Charlie Chaplin ( gravação de um dos seus discursos em The Great Dictator), a brasileira Flávia Coelho a cantar em espanhol numa faixa produzida por  Tony Romero, Alemeda, De La Soul, o cubano Cimafunk acompanhado pelos Tank and The Bangas de Nova Orleans, os rappers Erick the Architect e D Smoke, o músico francês  -M- (Matthieu Chedid) com a cantora americana Sheléa, Dear Silas, JP Cooper, Gregory Porter, Sharon Stone e Austin Brown. Quase no fim do álbum, no tema “Our Flag” surge a voz da actriz Sharon Stone a declamar um poema que ela própria escreveu sobre o estado do mundo, e sobretudo o estado da América, dito de forma arrebatadora, com o trompete de Maalouf a tecer o fundo sonoro de forma intensa. Ibrahim Maalouf  consegue fundir vários géneros musicais e estabelecer diálogo com músicos de muitas origens e estilos, sempre com o seu trompete a surgir como um farol que vai guiando o percurso musical. “Capacity To Love” está disponível nas plataformas de streaming.


 


PROVAR - A semana de divulgação das novas distinções do Guia Michelin em matéria de restaurantes lusitanos é uma boa ocasião para reflectir sobre o sector. Comecemos pelo básico: não falo aqui dos locais onde se vai encher o bandulho, alguns muito estimáveis aliás e, numa boa percentagem, onde se praticam velhas receitas caseiras sem recurso a pré-preparados nem congelados. Foco-me naqueles dias em que me apetece ir para um restaurante descansado, para conversar, ver as vistas, não ter que pensar no que vou cozinhar e menos ainda em levantar a loiça ou pô-la na máquina. Note-se que faço isso muitas vezes, sem sacrifício e até com gosto: cozinhar descontrai-me. Mas às vezes gosto de me sentar, escolher com calma, saborear devagar e poder provar aquilo que normalmente eu próprio não faço. Mas há coisas que me desagradam. A primeira é restaurantes que privilegiam o conceito à comida que servem e ao serviço que oferecem; a segunda é restaurantes com má iluminação, ar condicionado que arrefece o pescoço, má acústica agravada por uma banda sonora de pôr os cabelos em pé e a cabeça à razão de juros. Também me desagradam os sítios onde, quando tenho que ir à casa de banho, fico a olhar para a sinalização das portas como se estivesse a resolver um enigma cabalístico. E não gosto de locais onde é preciso lançar foguetes luminosos para conseguir a atenção de um empregado, que tem o olhar perdido no horizonte em vez de estar atento aos clientes. Tudo isto são coisas que estragam uma refeição. Para a semana continuo com outros capítulos.


 


DIXIT - “Até quando deixaremos que a «ética republicana» se tenha transformado num manual de emprego privilegiado, num salmo para ajuste directo, numa regra para encomendas familiares e um tratado de recrutamento preferencial” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Quem trabalha sentado geralmente ganha mais do que quem trabalha de pé” - Ogden Nash


 


 

novembro 18, 2022

A PROPÓSITO DO ACTIVISMO: AS APARÊNCIAS ILUDEM?

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OS PROTESTOS - É com certeza lícito protestar. É com certeza lícito chamar a atenção para o que ameaça a Humanidade. E é com certeza um bom sinal que os mais novos, que têm estado tão alheados de actos eleitorais e da participação política, resolvam agir. O que tem acontecido nos últimos dias mostra que começam a surgir formas de intervenção cívica, na geração que tem protagonizado estas movimentações, que vão muito além da acção política tradicional e que são muito diferentes do enquadramento que os partidos tradicionalmente proporcionam. Estas formas de acção não são novas, correm ciclicamente, revelam a dinâmica da sociedade e colocam claramente em causa a forma como as gerações mais novas consideram que podem usar a sua voz. Como todos os movimentos que estão a despontar, nem tudo é perfeito. Os protagonistas dos protestos querem ser ouvidos, querem ser levados a sério nas suas ideias. Para conseguirem alcançar esses objetivos devem ter em conta um princípio básico: o equilíbrio entre ganhar simpatia para as suas causas e provocar antagonismo é muito frágil e pode deitar abaixo os seus esforços. Se o modo de fazer política é diferente, há um objectivo que é sempre comum: a eficácia da comunicação. Quando o mensageiro se sobrepõe à mensagem as coisas começam a funcionar menos bem. E foi isso que nalguns casos aconteceu. É lícito criar situações que chamem a atenção, não é lícito que isso se faça a limitar a liberdade de outras pessoas. Falando de outra maneira: quem impede o acesso e encerra edifícios públicos está a condicionar quem os quer frequentar. É sempre preciso, se queremos que a democracia exista, deixar tanto espaço como aquele que reivindicamos para nós próprios, para quem não está de acordo com as nossas ideias e objetivos. Este equilíbrio é difícil mas consegui-lo é fundamental. Seria uma pena que causas justas fossem poluídas e diminuídas por gestos gratuitos, sem significado, cujo resultado pode ser criar anti-corpos e, em última análise, favorecer a extrema-direita. E tudo sob uma capa de esquerda. As aparências, por vezes, iludem.


 


SEMANADA - Quase 40% dos lugares para professores estão ainda por preencher; 200 mil computadores pagos pelo PRR e destinados a escolas e alunos ainda estão encaixotados e não foram distribuídos; a presidente do Conselho de Finanças Públicas disse que os níveis de execução do Plano de Recuperação e Resiliência  “são muito inferiores ao que seria expectável” e manifestou dúvidas sobre o alcance estrutural do programa; a inflação nos alimentos supera 18%, com o leite, queijo e ovos a subirem 22% e os produtos hortícolas 26,2%; segundo as previsões da Comissão Europeia a economia portuguesa é a que mais vai cair no conjunto de 2022 e 2023; entre 2020 e 2021 houve 35 crianças com menos de 12 anos que praticaram crimes graves, nomeadamente envolvimento no tráfico de droga; um quarto dos jovens joga videojogos pelo menos duas horas por dia; a segurança efectuada por forças policiais em dias de folga a jogos de futebol, trânsito e supermercados rendeu mais de 58 milhões de euros no ano passado aos agentes que quiseram prestar esse serviço; número de licenças para cultivar cannabis quadruplicou desde que foi aprovada a nova lei, há três anos; cerca de 1,3 milhões de portugueses não têm médico atribuído; o Estado arrisca-se a ter de pagar 220 milhões de euros por um contrato sobre o TGV, assinado por Sócrates, e que nunca avançou; segundo a BBC cerca de oito dezenas de jactos privados transportaram para Sharm el-Sheikh participantes na cimeira pelo clima, calculando-se que em média cada um deles foi responsável pela emissão de 50 toneladas de CO2  para a atmosfera.


 


O ARCO DA VELHA - A Câmara Municipal de Caminha fez alterações ao seu site para evitar o conhecimento integral de documentos que mostravam irregularidades no processo do Centro de Exposições, em que o ex-presidente da autarquia, Miguel Alves, é arguido.


 


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IMAGENS FORTES - Entre Abril e Junho de 2020 Luísa Ferreira fotografou os bastidores da fase inicial da propagação do coronavírus, conseguindo aquilo que, nas palavras de Manuel Heitor, ex-Ministro da Ciência, é um trabalho de comunicação focado “nos processos de fazer ciência e de produzir e difundir o conhecimento sobre o COVID-19 em Portugal”. O resultado desse trabalho foi publicado em 2021 no livro “A Ciência Cura” que inclui mais de uma centena de fotografias de Luísa Ferreira, numa edição da Imprensa Nacional. David Santos, que hoje dirige o Museu do Neo Realismo em Vila Franca de Xira, escreveu para esse livro um ensaio sobre a forma como Luísa Ferreira viu este início do combate ao Covid-19. E, agora levou 39 das imagens do livro (entre as quais a que aqui incluímos) para uma exposição que replica o nome do livro e que está até 26 de Fevereiro no Museu do Neo Realismo (Rua Alves Redol 45, Vila Franca de Xira). No ensaio referido David Santos afirma que “uma fotografia é sempre um diálogo de comunicação” e sublinha que “como a arte pôde acompanhar um processo desta natureza, e como conseguiu afirmar-se enquanto projeto artístico de qualidade inegável”, é um dos maiores resultados do amplo trabalho de Luísa Ferreira. E, se forem ver esta exposição não percam, no mesmo local, uma outra magnífica exposição de fotografia, “A Família Humana”, comissariada por Jorge Calado e que, na montagem actual, inclui algumas novas fotografias que o Museu entretanto adquiriu. Finalmente, para continuarmos na fotografia destaca-se a nova exposição da “Salut Au Monde”, no Porto (Rua de Santos Pousada 620). “Dialectos” mostra o trabalho do fotógrafo colombiano Felipe Romero Beltrán que ganhou o prémio de melhor portfólio atribuído pela Aperture, tendo já sido exposto em Nova Iorque, Paris, Breda e Mannheim. O trabalho desenvolve-se em torno da aprendizagem do espanhol por um grupo de jovens refugiados magrebinos num centro de acolhimento em Sevilha.


 


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A HISTÓRIA DA GUERRA - Quando Antony Beevor escreveu o seu novo livro, editado no início deste ano, a Rússia ainda não tinha invadido a Ucrânia. Mas o que ele conta da história da Rússia no início do século passado, no período logo a seguir à revolução de 1917 e durante os anos da guerra civil que se lhe seguiu, é uma lição para o que se passa hoje. Beevor é um  historiador britânico que se tem dedicado a escrever, com êxito, sobre grandes batalhas. Um dos seus livros mais conhecidos é “Berlim- A Queda 1945”, cheio de informações sobre a pouco estudada ocupação soviética de Berlim, nomeadamente a revelação das atrocidades cometidas no final da guerra pelo Exército Vermelho contra a população da Alemanha. O novo livro de Antony Beevor é sobre a guerra civil na Rússia, que sucedeu à queda do império czarista, em 1917, tendo-se arrastado até 1921, um conflito entre as tropas vermelhas de Trotsky e de Lenine, contra os brancos, uma aliança entre socialistas moderados e monárquicos reacionários. Mais de dez milhões de pessoas morreram nesta guerra, muitas vezes em episódios de uma enorme crueldade. O receio de que a revolução se estendesse para fora da Rússia levou à intervenção de diversos exércitos estrangeiros, bem como de antigas partes do império russo. «Os dois extremos destruíram-se entre si em ambos os casos e o círculo vicioso de retórica e violência foi um fator decisivo na ascensão de Hitler e na própria Segunda Guerra Mundial», explica Beevor, sublinhando: «Nenhum país consegue escapar aos fantasmas do seu passado, muito menos a Rússia.» E é por isso que este livro é, também, uma lição angustiante para a actualidade. “Rússia- Revolução e Guerra Civil 1917-1921”, edição Bertrand.


 


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SOUL MAN - Ao longo da sua longa carreira Bruce Springsteen, agora com 73 anos, tem recorrido com alguma frequência a originais de outros músicos, que recria em versões suas e interpretou temas popularizados pelos Beatles, por Patti Smith ou Jimmy Cliff, para além de em tempos ter revisitado com as suas próprias interpretações a obra de Pete Seeger com o álbum “We Shall Overcome”, de 2006. Desta vez dedicou-se a uma das suas paixões pessoais, a música soul.  “Only the Strong Survive” é o vigésimo primeiro álbum de estúdio de Bruce Springsteen. Ao todo são quinze temas soul, desde clássicos como “Turn Back The Hands Of Time” de Jimmy e David Ruffin, até canções popularizados por Jerry Butler, como a que dá título ao disco, “Only The Strong Survive”, Commodores (“Nightshift”), Four Tops (“When She Was My Girl”), Temptations (“I Wish It Would Rain”) ou Sam & Dave (“Soul Days”). Aqui estão ainda outros  temas clássicos da soul como “What Becomes Of The Brokenhearted”, também de Jimmy Ruffin,  “Do I Love You” de Frank Wilson ou o tema escolhido para ser a última faixa do disco, “Someday We Will Be Together”, de Diana Ross & The Supremes. Gravado no seu próprio estúdio durante um dos confinamentos,  com a ajuda do produtor Ron Aniello que toca a maior parte dos instrumentos, “Only The Strong Survive” é uma curiosa viagem de Springsteen por mais um dos alicerces do cancioneiro popular norte-americano. Disponível nas plataformas de streaming.


 


PETISCO SOLITÁRIO - Quando não sei o que hei-de cozinhar e estou sozinho, a primeira coisa em que penso é numa massa, nomeadamente esparguete. Na semana passada dei comigo a cozer uma dúzia de camarões de bom porte e a abrir uma lata pequena de anchovas. O camarão foi cozido levemente para ficar com boa consistência e as anchovas, depois de escorridas do óleo, foram cortadas em pequenos pedaços. O passo seguinte foi bastante simples: cozer o esparguete em água abundante e salgada até ficar al dente, reservando uma chávena de chá da água da sua cozedura. Entretanto numa frigideira funda cozinhei em bom azeite tomate cherry cortado aos quartos, até ficarem a amolecer, a que juntei os camarões e as anchovas, misturando tudo muito bem. No fim deitei por cima o esparguete cozido, envolvendo-o  nos camarões e anchovas. Acrescentei um pouco da água da cozedura para a massa ficar bem solta, espremi meio limão, voltei a envolver tudo e temperei com pimenta preta moída na altura. Acompanhou com um vinho branco do Douro. A sobremesa foi de época - dióspiro bem maduro, aberto em quatro partes e generosamente polvilhado de canela.


 


DIXIT - “Um candidato (presidencial) militar seria uma demonstração do carácter diminuído da nossa democracia” - Miguel Poiares Maduro.


 


BACK TO BASICS - "Em caso de dúvida, diga a verdade" - Mark Twain




novembro 11, 2022

"AS COISAS NÂO ESTÃO FÁCEIS" - DISSE COSTA A MADURO

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UM BECO SEM SAÍDA - Dois casos dominaram a semana: o aviso deixado pelo Presidente da República sobre a execução dos fundos do PRR, que se encontra num nível baixíssimo e essencialmente consumidos pela Administração Central, e a polémica em torno das acusações que pendem sobre o Secretário de Estado Miguel Alves, constituído arguido em dois processos, no seguimento dessas acusações. Os dois casos têm um pano de fundo comum: um grande silêncio de António Costa. O silêncio teve já um efeito colateral: surgiram vozes no PS incomodadas com o facto de um membro do Governo ser arguido sem que isso tenha consequências. Que me lembre é a primeira vez que, de dentro do PS, surgem críticas que têm um ponto comum com a oposição: a necessidade de se assumirem responsabilidades e daí se tirarem efeitos práticos. Costa, já se sabe, não fala sobre polémicas, escudando-se umas vezes no segredo de justiça de casos sob investigação, noutras com o facto de não querer comentar o que se passa no seu Governo enquanto está no estragngeiro. Mas, como nos últimos tempos tem estado bastante frequentemente além-fronteira - esta semana está no Egipto, na COP - é-lhe cada vez mais fácil evitar pronunciar-se sobre situações incómodas. Ainda na semana passada aqui falei sobre o desgaste que situações como a de Miguel Alves causam na democracia e no desencanto que provocam nos eleitores. Há mais casos que surgem todos os dias, vindos de outros partidos. Esta situação de ping-pong de acusações é outro facto de descrédito da actividade política e nada disto é inocente: “ai andas a acusar-nos? espera aí que já levas”. No meio de tudo isto raramente se sabe em tempo útil o desfecho de investigações, porventura há acusados inocentes e culpados ignorados. Assim não vamos a lado algum. Ou, para citar António Costa, que no COP teve, nas suas palavras, “um bonito encontro” com o presidente Venezuelano Nicolas Maduro, Portugal “vai andando”, mas “as coisas não estão fáceis”.


 


SEMANADA - Lisboa teve em Outubro mais 55 vôos nocturnos do que o permitido; os lesados do incêndio da Serra da Estrela de há três meses, ainda não tiveram quaisquer apoios e o processo de ajuda está muito atrasado; dos mais de 16 mil milhões contratados no âmbito do PRR só foram pagos um pouco mais de mil milhões até final de Outubro, 828 milhões dos quais foram recebidos pelo sector público; os maiores investimentos públicos feitos até agora com os fundos do PRR foram aquisição de computadores e material informático para serviços públicos e de helicópteros para combate a incêndios, o primeiro com  53,9 milhões e o segundo com 42,9 milhões; a produção de azeite este ano vai sofrer uma quebra entre os 30 e 40% em relação ao ano passado; o Banco Português de Fomento foi criado há dois anos e continua a ser acusado de não cumprir a sua missão de promoção e desenvolvimento da economia e, segundo a Comissão de Auditoria do Banco, continua a haver dificuldades, por falta de informação, em controlar o que se passa na instituição; o investimento em imobiliário por via do programa dos “vistos gold” representa 3,5% do montante total investido no mercado nacional na última década, mas este peso tem vindo a cair nos últimos anos e hoje representa apenas 1,5% do total; norte-americanos e brasileiros são, segundo as principais agências imobiliárias, os responsáveis pela maioria de compras de casas por estrangeiros em Portugal este ano, mas em Lisboa a liderança é dos franceses; existem cerca de 280 mil pessoas inscritas nos centros de emprego, das quais 120 mil não recebem qualquer subsídio; dados do Ministério da Justiça mostram que as insolvências dos particulares representam atualmente mais de 70% do valor total dos processos de insolvência decretados pelos tribunais portugueses.


 


O ARCO DA VELHA - Madrid tem 3,3 milhões de habitantes e Lisboa pouco mais que 500 mil, mas em Lisboa existem três vezes mais trotinetes eléctricas do que em Madrid.


 


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DESCOBRIR O OUTRO LADO DE CHAFES - Depois das exposições que estão patentes em Serralves e em Lisboa na Fundação Arpad-Szenes - Vieira da Silva, Rui Chafes apresentou um livro dedicado ao seu trabalho em desenho. Com quase 400 páginas, e editado pela Pierre Von Kleist com o apoio do Centro Internacional das Artes José de Guimarães, “Diários” reproduz uma extensa recolha de desenhos de Chafes que foram o tema da exposição “Desenho Sem Fim”, mostrada em Guimarães em 2018 e na Casa da Cerca, em Almada, em 2019. Extra-texto o livro reproduz uma conversa de Chafes com os curadores da exposição, Delfim Sardo e Nuno Faria, sobre a forma como o artista encara o desenho, tema em que é  sempre muito reservado. Antes de começar a fazer escultura, aos 18 anos, Rui Chafes conta que só desenhava e na conversa referida, sublinha: “O desenho é a base de tudo, do meu pensamento, do meu trabalho,da minha escultura, até das minhas palavras” -- é o seu outro lado. “Diários” reproduz, entre muitos outros, desenhos feitos desde 1988, para a exposição “Amo-te: o teu cabelo murcha na minha mão (entre este mundo e o outro, não tenham nem um pensamento a mais)”, desenhos para uma exposição de 2011 na Galeria João Esteves de Oliveira #Inferno (a minha fraqueza é muito forte)” e também desenhos feitos para a edição “Fragmentos de Novalis”, de 1992, entre muitos outros. Já que falo de Chafes desafio os leitores a uma visita a Serralves para verem “Chegar Sem Partir”, que tem trabalhos no interior do museu e no Parque, um deles feito expressamente para o local. No Museu, Chafes mostra o resultado de mais de três décadas de actividade com um conjunto de esculturas mas também com uma sala dedicada a desenhos. Mas arrisco dizer que a parte mais interessante da exposição decorre no Parque de Serralves onde há nove trabalhos espalhados, alguns quase escondidos, outros numa fusão com a natureza (na imagem) que chega a ser perturbadora. É aliciante percorrer o espaço do Parque de Serralves e procurar as esculturas, seguir o mapa como quem segue pistas de um enigma, que acaba e se revela na peça “Travessia”, uma passagem para outra dimensão do trabalho de Rui Chafes. 


 


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SABER OLHAR PARA O TERRITÓRIO - “Paisagem Portuguesa” é uma viagem pelo trabalho fotográfico de Duarte Belo sobre o território português. No livro, agora editado, e que tem textos do geógrafo Álvaro Rodrigues enquadrando cada imagem, há 141 fotografias. A primeira mostra a foz do Rio Minho, em  Vila Nova de Cerveira, em 2002, e a última, de 2006, mostra a  Ilha do Corvo, como é vista por quem chega por mar. Mas há fotografias recentes, de 2021 e 2022, nomeadamente da ilha da Fuzeta, da central solar fotovoltaica da Amareleja, de Sines ou de Barrancos. Este não é um livro de postais ilustrados, mas um registo do que é o território de Portugal, feito com rigor e de forma sistemática. O livro não mostra pessoas, mas o que existe à volta das pessoas - a paisagem dura, o mar, a serra, as planícies, e também os frutos da intervenção da mão humana, nas casas, nas estradas, em edifícios ou equipamentos diversos. Duarte Belo sublinha que “são virtualmente ilimitadas as possibilidades de representação da paisagem pela fotografia”. E Álvaro Domingues sublinha como o trabalho de Duarte Belo mostra “a diversidade e complexidade da paisagem portuguesa”. Duarte Belo, um arquitecto dedicado à fotografia, tem uma longa actividade que tem mostrado em exposições e em edições, como “Portugal: O Sabor da Terra”(1996-1997), “Portugal Património” (2007-2008) ou “Portugal luz e sombra” (2012) e a trilogia composta por “Caminhar oblíquo”, “Depois da estrada” e “Viagem maior” (2020).  O trabalho de mapeamento fotográfico do espaço português deu origem a um arquivo fotográfico de mais de 1 880 000 imagens. É editor do blogue Cidade Infinita. Expõe desde 1987 e participa regularmente em actividades pedagógicas, conferências e mesas redondas. “Paisagem Portuguesa” é uma edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos.


 


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MÚSICA PARA UM BATERISTA - Paul Motian foi um dos mais importantes e influentes bateristas de jazz que acompanhou nomes como Bill Evans ou Keith Jarrett, tendo mais tarde formado um trio com o guitarrista Bill Frisell e o saxofonista Joe Lovano. Agora a editora ECM desafiou um grupo de músicos de várias gerações para a gravação de uma homenagem a Paul Motian - “Once Around The Room”. Nos seis temas desta gravação tocam Joe Lovano no saxofone, Jakob Bro na guitarra, Larry Granadier, Thomas Morgan e Anders Christensen no baixo e Joey Baron e Jorge Rossy na bateria. O disco recupera temas e sonoridades de várias fases da carreira de Paul Motian, com destaque para “Drum Music”, e inclui um improviso de todos os participantes, intitulado “Sound Creation”, além de temas de Lovano como  “For The Love Of Paul”: Destaque ainda para a envolvente balada “Song For An Old Friend”, que evoca o trabalho do trio de Motian, Lovano e Frisell. “Once Around The Room” está disponível nas plataformas de streaming.


 


ENTRE BACON E ESPARGOS COM MARMELADA A REMATAR - Hoje vou contar a minha aventura da semana: fazer um jantar a partir de espargos congelados. O primeiro passo, depois de os descongelar, é salteá-los em azeite até começarem a ficar tostados. Nesse ponto pode reservá-los em cima de papel absorvente e deixar arrefecer um pouco. O passo seguinte é fazer pequenos molhos de quatro-cinco espargos e enrolar à sua volta duas ou três fatias de bacon de boa qualidade - a ideia é que cada molho fique bem forrado pelas fatias enroladas do bacon. Uma vez feita esta parte volta tudo à frigideira, sem mais gordura, para tostar o bacon da forma mais uniforme possível, fazendo rolar cada molho de espargos. Quando esta parte estiver quase pronta pode fazer numa outra frigideira ovos mexidos, mal passados, e servi-los de imediato, juntando em cada prato os espargos com bacon. Acompanha com um vinho tinto de boa qualidade, um naco de pão levemente torrado e, para sobremesa, marmelada fresca deste ano com fatias de queijo de S. Miguel.


 


DIXIT - “Nunca o luxo vendeu tanto. Nunca tantos estiveram em risco de pobreza. É um paradoxo. Mas não é novidade que o excesso de liquidez aproveita mais aos ricos que aos pobres” - Luís Marques.


 


BACK TO BASICS - “Todo o ser humano deve ser inconformista” - Ralph Waldo Emerson


 


 

novembro 04, 2022

OS INTERESSES E OS CONFLITOS: UMA HISTÒRIA SEM FIM

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A DOENÇA  DO REGIME - Nas últimas semanas sucederam-se os casos em que políticos no activo, de membros do governo a autarcas, foram acusados de irregularidades no exercício dos seus cargos, envolvendo corrupção e favorecimento em negócios de familiares, amigos ou conhecidos. Não estou sequer a falar de outro género de acusações, de eventuais conflitos de interesse, uns mais evidentes, outros menos. Falo sobretudo dos casos conhecidos nos últimos dias e que configuram abuso de poder e favorecimento em negócios. O que é certo é que esta situação provoca um ainda maior descrédito na classe política e atinge transversalmente os principais partidos. Para além da responsabilidade dos visados, que terá de ser apurada, há duas questões que saltam à vista: um sentimento de impunidade e a ausência de mecanismos de controlo eficazes. Num dos casos, de um autarca do norte, uma reportagem relatava várias declarações de pessoas da sua terra que diziam não estar espantadas, reconhecendo que há muito se falava do assunto. A coexistência tolerante aumenta a impunidade e a falta de controlo, a começar pela que devia ser feita pela oposição local, e mostra uma teia de cumplicidades que augura o pior. E, por pano de fundo, está como sempre a lentidão da investigação, uma justiça paralisada, poderes variados que não se interessam por apurar a verdade nem em colocar em acção legislação e organismos que eram supostos diminuir os riscos que tudo isto traz ao sistema político. Basta recordar que a Entidade para a Transparência, o organismo criado há três anos para fiscalizar os rendimentos dos políticos, ainda não tem data para começar o seu trabalho. 


 


SEMANADA - Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior aumento de mortes em acidentes de trabalho; segundo o INE em 2020 mais de 228 mil pessoas caíram na pobreza; a Anacom identificou 470 mil alojamentos em áreas sem internet de alta velocidade; os preços das casas subiram 17,8% no segundo trimestre deste ano; 35% da energia eléctrica consumida em Portugal no mês de Outubro foi importada de Espanha; no terceiro trimestre deste ano as receitas da Apple cresceram 8%, as da Alphabet (Google, You Tube….) cresceram 6% e as receitas da Meta (Facebook, Instagram, Whatsapp…) caíram 4%, enquanto as da Amazon cresceram 15%; mais de 15 mil pessoas estão à espera de exame para tirar carta de condução, um terço dos quais há mais de três meses; de Janeiro a Outubro a factura de electricidade de clientes domésticos subiu entre 31 e 58%, dependendo dos fornecedores; no caso dos clientes empresariais há aumentos em PME’s que ultrapassam os 300% no mesmo período; a taxa de poupança dos portugueses caíu de 14,3% em 2021 para 5,90% este ano; o aumento das taxas de juros faz com que a prestação de um empréstimo à habitação de 150.000 euros tenha aumentado 50% no espaço de um ano; o preço dos funerais está a aumentar devido ao preço dos combustíveis; por cada 100 euros de salários os trabalhadores portugueses pagaram, em média, 37,6 euros em impostos e contribuições para a segurança social; actualmente, e em comparação com o primeiro trimestre do ano, Portugal regista o maior abrandamento da actividade económica, num grupo de dez países da União Europeia.


 


O ARCO DA VELHA - O Observatório Astronómico de Lisboa deixou de ter astrónomos.


 


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A CÔR E A PINTURA - “Topomorphias” é o título da exposição que Jorge Martins apresenta em todo o primeiro piso do Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora. “As obras reunidas nesta mostra foram escolhidas pelo artista seguindo um desejo prévio: o de conceber uma exposição a partir da sua produção mais recente em pintura. Algumas obras remontam ao início dos anos de 2010, mas a grande maioria foi produzida após 2018, incluindo inúmeras obras realizadas durante o período do surto pandémico. É, pois, revelador que, num tempo de angústia, isolamento social e desencanto anímico, o artista não tenha esmorecido a sua verve criativa. Pelo contrário, o volume e a qualidade das obras patenteiam um fulgor inventivo que, contornando os constrangimentos do mundo exterior, compõem um imaginário pleno de luminosidade e vitalidade estética” - escreveu Sérgio Mah no catálogo da exposição, que ficará patente até 26 de Março. Numa entrevista ao “Público” Jorge Martins sublinha que apesar de todas as transformações, das tendências e de novos suportes, “a pintura não morreu” e defende que a função do pintor “é dar uma lógica às cores”. Outro destaque da semana vai para “Ventanias”, a nova exposição de Pedro Chorão, que apresenta oito trabalhos inéditos na Galeria Sá da Costa, no Chiado, em Lisboa, acompanhados por oito aforismos escritos para esta série de pinturas por Yvettte Centeno, como este:”no preto e branco, o suave sopro da forma”. Finalmente na Fundação Carmona e Costa estão duas novas exposições - “Laranjas” de Luis Paulo Costa e “Pororoca”, de Cristina Lamas.


 


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UMA HISTÓRIA JAPONESA - “Cavalos em Fuga” é o segundo romance da tetralogia “Mar da Felicidade”, do japonês Yukio Mishima. A história passa-se entre Junho de 1932 e Dezembro de 1933 e relata a vida de Isao Iinuma, um jovem japonês treinado pelo seu pai no código de honra dos samurais, que admira e são a sua inspiração e, diga-se, também do próprio Mishima. Convicto de que um grupo de novos políticos e industriais está a macular a honra do país e a usurpar os legítimos poderes do imperador, Isao põe em marcha um plano terrorista, com o objetivo de violentamente repor a ordem devida. Mishima retoma um dos personagens surgidos no primeiro romance da tetralogia, “Neve de Primavera”, um juiz colocado em Osaka, Shigekuni Honda. O juiz é profundamente impressionado pelo vigor puro e apaixonado de Isao, e acredita ser ele a reencarnação de Kiyoaki Matsugae,um seu amigo desaparecido de forma trágica há vinte anos e cuja história é contada em “ Neve de Primavera”. O pano de fundo de tudo isto é dado pelas transformações que surgem no Japão no processo de transição de uma sociedade feudal, e que começa a sofrer as influências do ocidente, uma situação que serviu de rastilho à entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial. Yukio Mishima, o pseudónimo de Kimitake Hiraoka, nasceu em Tóquio em 1925 e suicidou-se praticando o ritual japonês seppuku (abrindo o próprio ventre com um sabre), a 25 de novembro de 1970, para mostrar a sua discordância perante o abandono das tradições japonesas e a aceitação acrítica de modelos consumistas ocidentais. Foi o idealismo e a admiração pelo tradicionalismo militar e espiritual dos samurais que moldou toda a sua obra. “Cavalos em Fuga” foi editado pela Livros do Brasil com tradução, a partir da edição inglesa, de Tânia Ganho.


 


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JAZZ NÓRDICO - The Arild Andersen Group junta nomes sonoros do jazz norueguês, a começar pelo seu líder, o baixista Arild Andersen, que chamou para o seu lado Marius Neset no sax tenor, Helge Lien no piano e Håkon Mjåset Johansen na bateria. O resultado do trabalho destes quatro músicos, que nunca tinham gravado juntos, é o álbum “Affirmation”. Aos 77 anos Arild Andersen continua a surpreender nesta gravação efectuada em Novembro de 1921 no Rainbow Studio em Oslo. Logo no segundo dia de gravações Andersen propôs que experimentassem fazer uma improvisação colectiva. “Sem que nada estivesse preparado ou combinado gravámos um primeiro tema com 23 minutos e um segundo com 14 minutos”, contou Andersen sobre o trabalho em estúdio. Estas duas gravações acabaram por ser o eixo central do álbum com os títulos “Affirmation Part I” e “Affirmation Part II”. Os dois temas são apresentados na íntegra sem qualquer edição e o álbum completa-se com uma composição do próprio Andersen, “Short Story”. O mais curioso, conta Andersen, é que embora os quatro músicos tenham tocado juntos muitas vezes ao vivo, nunca tinham gravado e muito menos numa situação de improvisação. Ao longo dos dois temas “Affirmation” nota-se como o baixo de Andersen comanda as operações, marcando o ritmo, puxando pelos outros músicos, sugerindo a sua entrada e criando a base para o diálogo musical entre todos. O nome do álbum, conta ainda Arild Andersen, foi escolhido porque todo o processo foi uma afirmação “de que cada um de nós tem que confiar em si próprio e ao mesmo tempo confiar nos outros”. Edição ECM disponível em streaming.


 


A TRINDADE - Tenho sempre medo de voltar a um restaurante onde me dei bem quando ele sofre grandes obras. Ainda há pouco tempo dei com imagens de um exercício decorativo inútil, e com algum mau gosto, no Nunes Real Marisqueira, em Belém. Fiquei sem vontade de lá ir. Confesso que quando soube que a Trindade, no Chiado, tinha reaberto, fiquei na dúvida sobre fazer-lhe uma visita. Mas lá acabei por ir e devo dizer que não me arrependi. A Trindade nunca foi um restaurante fabuloso, mas era ao longo dos anos uma cervejaria honesta, onde se podia comer numa relação preço/qualidade simpática. Localizada num edifício histórico, temi que a nova Trindade tivesse sido redecorada destruindo o seu espírito. Felizmente isso não aconteceu e houve bom senso. Mesas e cadeiras são as de sempre, há novos candeeiros, balcões mais modernos e funcionais, mas nada compromete o espírito do edifício. Os painéis de azulejo lá estão, o pátio interior continua simpático. E, sendo uma cervejaria, a cerveja sai bem tirada, o que é fundamental. A mesa decidiu-se pelo tradicional bife da Trindade, mal passado nos dois comensais, um frito, outro grelhado. A carne estava no ponto pedido, não tinha marcas de frigorifico demasiado, o molho continuava igual e as batatas fritas também - alguém poderia já ter dado à cozinha da Trindade um curso rápido de como os belgas fazem batatas fritas. Estas, amolecidas, não são fruto das obras, são a imagem de marca da casa. Feitas as contas o preço continua justo, o salão continua majestoso sem acrescentos inúteis, os empregados são numerosos e simpáticos e tudo correu bem. A Trindade safou-se.


 


DIXIT - “Durante o seu tempo (de António Costa) a justiça portuguesa, promotora da desigualdade social, não consegue encontrar o caminho da reforma e da eficácia, nem consegue pelo menos modernizar-se o suficiente para escapar à corrupção, para reduzir a indolência, para enfraquecer a burocracia e para conter os interesses enquistados no sistema” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Comité é um grupo de homens que individualmente não podem fazer nada e que, em grupo, decidem que nada se pode fazer” - Fred Allen


 





outubro 28, 2022

O PESADELO DA TAP, UM DISCO DE BLUES, UM MANUAL DE VIDA, FOTOGRAFIAS IMPERDÍVEIS E....COGUMELOS

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O CAOS - Crónica de um pesadelo: um amigo meu queria ir a Veneza. Tinha combinado ir com outra pessoa. Compraram bilhetes no mesmo dia para uma partida na quinta-feira da semana passada. Sexta feira ele recebe um aviso da TAP a dizer que o seu voo tinha sido cancelado e que só partiria no Domingo. A outra pessoa recebeu também um aviso, mas a marcar a viagem para sábado. Ambos tinham o hotel marcado até quarta-feira desta semana. O meu amigo ficou aborrecido, teve que avisar o hotel, que já estava pago, mas preparou-se para sair domingo à tarde. No domingo recebeu um email, e não um SMS, que viu por acaso, onde a TAP avisava que afinal já não iria no domingo, mas sim na terça, sendo que a companhia sabia bem que ele tinha o regresso previsto para quarta. Portanto, o que tinha sido pensado como um fim de semana agradável, tornou-se num inferno de telefonemas e de desilusões. A TAP, na prática, queria obrigá-lo a trocar uma viagem de  quase uma semana por uma ida e volta em dias consecutivos. Não se preocupou com a situação da reserva do hotel, não teve o cuidado de dizer “pedimos desculpa”, limitou-se a colocar a pessoa perante um facto consumado. A pessoa com quem ele tinha imaginado ir a Veneza, e que já lá estava sozinha desde sábado à noite, recebeu na terça-feira um aviso da TAP a dizer que o voo de regresso de quarta tinha sido cancelado. Não lhe deram data alternativa de regresso. Eu sou capaz de compreender todos os problemas do tráfego aéreo na Europa, das greves, dos problemas do aeroporto de Lisboa, mas recuso-me a aceitar o mau tratamento que a TAP dá aos seus clientes, o  desrespeito que sistematicamente manifesta, as aldrabices que invoca como desculpas do que é só mau funcionamento. A coisa não é de agora, já vem de há mais tempo. É o sinal da destruição de uma marca, do aniquilamento da reputação de uma empresa. Recordo que o Estado é o dono da TAP - portanto temos uma empresa que é suposto prestar serviço aos cidadãos, financiada largamente com dinheiros públicos e que maltrata de forma sistemática quem a financia, por via dos impostos, e dos bilhetes que compra. Pergunto eu, usando uma citação: “ e não se pode exterminá-la?”.





SEMANADA - Segundo dados da Pordata de 2021, 16%  da população portuguesa não conseguia aquecer convenientemente a sua habitação; um em cada cinco universitários do Porto ainda não encontrou quarto para ficar; as residências públicas de estudantes no Porto e em Lisboa estão lotadas; o preço médio de um quarto para estudantes em Lisboa é de 400 euros mensais; os depósitos bancários em Portugal têm a segunda taxa de juro mais baixa da Europa; o alojamento local em Lisboa está 40% abaixo de 2019; segundo a Polícia Judiciária regista-se uma subida de homicídios na região de Lisboa e um aumento da violência dos gangues juvenis; em 2022 já morreram 22 mulheres vítimas de violência doméstica; os registos civis receberam quase 200 mil pedidos de nacionalidade em 2021; Portugal continua abaixo da média europeia no índice de igualdade de género; segundo a Marktest um em cada três utilizadores da internet em Portugal faz apostas on line; segundo a organização World Justice Project, Portugal caíu uma posição em termos do funcionamento do Estado de Direito, ocupando agora 0 27ºlugar a nível global e o 20º em termos europeus, sendo que uma quebra nas restrições aos poderes governamentais é a principal causa da situação; este mês quase 300 docentes deixam o sistema educativo por passarem à reforma, agravando o problema da falta de professores; há mais de oito centenas de medicamentos em ruptura de stocks em Portugal por problemas na sua produção devido a falta de matérias primas e problemas logísticos.





O ARCO DA VELHA - A Entidade para a Transparência, o organismo criado há três anos para fiscalizar os rendimentos dos políticos, ainda não tem data para começar o seu trabalho.


 


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UM OUTRO OLHAR - Até este domingo ainda pode ver no Museu do Traje no Lumiar, em Lisboa, a exposição “Viver A Sua Vida” que apresenta, com curadoria de Anabela Becho, quatro dezenas de fotografias de moda do francês Georges Dambier, que começou a publicar o seu trabalho na revista Elle, em 1952. Jorge Calado escreveu sobre esta mostra que “Viver a sua Vida” é uma exposição de imagens de modelos e trajes, mas não é propriamente uma exposição de fotografias. As provas são todas recentes, idênticas no grande formato e apresentadas regularmente sem grande interação mútua. A fotografia é a arte da escala e tem no seu carácter o problema de encontrar a dimensão certa. Senti a falta de algumas provas vintage, mesmo de imprensa, com os tamanhos que o fotógrafo pensou na ocasião e o envelhecimento, autoridade e carisma que a idade lhes confere.” Dambier, considerado um dos melhores fotógrafos de moda do século XX foi um dos vários convidados que vieram fotografar Portugal nos anos 50 (ver imagem), fazendo as suas fotografias de moda em diversos locais, ao ar livre  e não em estúdio, como na época era habitual. Outro destaque incontornável desta semana vai para a quinta edição do Drawing Room Lisboa, um projecto focado no desenho contemporâneo em papel, que decorre na Sociedade Nacional de Belas Artes até Domingo dia 30 e que inclui as  obras dos finalistas do Prémio FLAD de Desenho 2022, cujo vencedor será anunciado no decorrer da mostra. Estarão presentes quase três dezenas de galerias portuguesas e estrangeiras com obras de nove dezenas de artistas. Um bom momento para iniciar uma colecção.


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XEQUE-MATE - Se gostam de xadrez ou ficaram fascinados com a série “Gambito De Dama” que a Netflix tem no seu catálogo, podem agora ler um extraordinário pequeno romance, “Uma História de Xadrez", considerado como uma das grandes criações de Stefan Zweig, aliás a sua última obra - entregou o manuscrito ao seu editor, justamente um dia antes de se suicidar, em 23 de Fevereiro de 1942. O pequeno romance, de 80 páginas, permitiu ao austríaco  Stefan Zweig, nome maior da literatura europeia da primeira metade do século xx, escrever, pela primeira e única vez, sobre a guerra, a violência, o nazismo e o autoritarismo. O livro conta a história de Mirko Czentovic, um campeão mundial de xadrez que, a bordo de um transatlântico com destino a Buenos Aires, se entretém a derrotar os restantes passageiros. Mas  Czentovic descobre durante essa viagem que segue no navio um adversário à sua altura: o doutor B., um enigmático passageiro recém-libertado pelos nazis, que sobreviveu à prisão a projectar jogos de xadrez na sua mente. Do inevitável confronto entre os dois jogadores, nasce o empolgante relato de um jogo que coloca frente-a-frente a criatividade contra a impetuosidade e que expõe os traumas de um homem, mas também a sua capacidade de sobreviver, mesmo sob uma extraordinária pressão.  Desde a sua publicação, em 1944, dois anos após o suicídio do autor, a obra tem vindo a ser traduzida em todo o mundo e foi adaptada várias vezes ao cinema, cuja versão mais recente foi realizada no ano passado por Philipp Stölzl no filme The Royal Game. A edição em Portugal foi feita agora pela Guerra & Paz com tradução de Mónia Filipe.


 


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BLUES CLÁSSICOS- Sou um apaixonado por blues e Doug MacLeod é um dos nomes incontornáveis deste género musical - com duas dezenas de álbuns e mais de 300 canções (só interpreta temas que ele próprio compôs). Ao longo dos anos MacLeod traçou uma carreira caracterizada por temas com palavras incisivas, narrativas na melhor tradição dos blues, misturando sentimento com emoção e a vida quotidiana, frequentemente tomando posição sobre o estado da América. “A Soul To Claim", publicado este ano, é, ao longo dos seus 12 temas, um bom exemplo disso mesmo. Doug MacLeod toca guitarra e canta, Dave Smith assegura o baixo numa perfeita secção rítmica com o baterista Steve Potts, com o fundo envolvente do teclista Rick Steff, muitas vezes em diálogo com a guitarra. Todos os músicos são experientes bluesmen, criados na escola de Memphis. MacLeod comunica de forma fácil, seja quando fala da situação actual, como em “Money Talks”, ou quando aborda a acção dos políticos em “Dodge City”, ou quando conta histórias como em “Only Porter At The Station” ou “Dubb’s Talking Disappointment Blues” ou “Somewhere On A Mississipi Highway”, e até na forma como conta as emoções em “There Is Always Love”. E num dos temas, “Where Are You?”, o ex-Marine Doug MacLeod deixa interrogações sobre o tratamento que no seu país é dado aos soldados norte-americanos, veteranos de várias guerras. Disponível nas plataformas de streaming.


 


OS COGUMELOS- Muita gente está habituada a olhar para os cogumelos como um acompanhamento para bifes e hambúrgueres. Sugiro que encarem a coisa de outra forma e deixem de olhar para eles como acompanhamento. Para isso,  em vez das latinhas de conserva com os cogumelos laminados, procurem o produto original, de preferência os grandes cogumelos Portobello, disponíveis nos supermercados. São carnudos, saborosos e uma bela base para um jantar simples, Experimentem considerar dois por pessoa. Lavem-nos bem e coloquem-nos num recipiente de ir ao forno, com uma fina camada de azeite no fundo. Virem-nos ao contrário, campânula para baixo e o pé para cima, tempere-os com um fio de azeite, sal e pimenta, um salpico de vinho branco, e leve ao forno durante 20 minutos  a 180 graus. Entretanto preparem dois ovos por pessoa, batam-nos bem (com a varinha mágica melhor ainda) apenas temperados com sal e pimenta. Adicionem-lhes um pouco de água e voltem a batê-los. Quando os cogumelos estiverem prontos, numa frigideira larga deixem derreter uma colher de sopa de manteiga e depois deitam os ovos, tendo o cuidado de os ir mexendo sempre com uma espátula, Quando os ovos começarem a mudar para uma textura mais sólida apaguem o lume e dividam-nos pelos pratos. Retirem os cogumelos do forno, espremam um pouco de limão por cima e sirvam ao lado dos ovos com uma fatia de bom pão. Acompanhado por um  vinho tinto ainda fica melhor. Jantar simples, nutritivo e saboroso. A terminar umas notas nutricionais: os cogumelos são uma boa fonte de proteína, vitaminas do complexo B, antioxidantes e fibras.



DIXIT - “Quem é que manda na Europa? Você não conhece. No fundo é uma estrutura que se desenvolveu que ninguém elegeu” - Adriano Moreira



BACK TO BASICS - “A vida é o que nos acontece enquanto estamos ocupados a fazer planos”- John Lennon