dezembro 23, 2022

DEVE O SERVIÇO PÚBLICO INVESTIR MAIS NO FUTEBOL QUE NOUTROS CONTEÚDOS?

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OS MALUCOS DA BOLA -  Como reage o país ao futebol? Se olharmos para o quadro de audiências dos canais de televisão, podemos ter uma ideia. Este ano, dos 25 programas mais vistos, 20 foram transmissões de jogos de futebol, quatro foram episódios do Big Brother e o outro foi um Telejornal. Está feito o retrato do país em termos televisivos. Destes 20 desafios de futebol que tiveram grande audiência, nove foram transmitidos pela RTP1, sete pela TVI e quatro pela SIC. O jogo que obteve maior audiência foi o Portugal-Suíça, visto por cerca de 3,7 milhões de espectadores. Em termos de comparação, o jogo da final do Mundial, entre a Argentina e a França, teve um pouco mais de dois milhões de espectadores. Destas 20 transmissões de desafios de futebol, doze foram do Mundial, nas suas várias fases, quase todas com jogos da Selecção Nacional. Os jogos do Mundial transmitidos pelos canais generalistas tiveram, no total, mais de 22 milhões de espectadores. Os números não iludem: o futebol continua a ser rei da televisão e, apesar dos elevados custos dos direitos de transmissão, as estações continuam a bater-se por eles. A RTP adquiriu há uns anos os direitos para este Mundial por 13,2 milhões de euros - e este valor não inclui as transmissões dos jogos da Selecção durante a fase de qualificação. A RTP acabou por revender parte dos direitos a outras estações e a SIC e a TVI transmitiram três jogos cada e a SportTV também fez transmissões. A RTP conseguiu assim diminuir o seu envolvimento financeiro, que ficou quase exclusivamente limitado aos jogos da Selecção Nacional. Agora que o Mundial acabou, seria curioso saber qual o valor total gasto pela RTP nas várias fases do Mundial e qual o valor de receitas publicitárias que arrecadou. Recordo que a RTP tem um limite máximo/hora de emissão de publicidade que é metade do dos canais privados. E, claro, isto volta a trazer à baila a questão de saber até que ponto é que as transmissões de futebol são serviço público. O Ministro da Cultura, que tutela a RTP e que já foi comentador futebolístico na televisão, que acha disto? Deve o serviço público investir mais no futebol que noutros conteúdos?


 


SEMANADA - Em dez anos foram atribuídos 10254 vistos gold a cidadãos estrangeiros, que resultaram na criação de apenas 20 postos de trabalho; os estrangeiros a viver em Portugal equivalem a toda a população de Lisboa; segundo a OCDE Portugal é um dos países com menos camas hospitalares por habitante; Portugal é o quinto país mais envelhecido do mundo o que se repercute nos cuidados de saúde que devem ser prestados; dos bebés nascidos no ano passado em Portugal, 14 % são de mãe estrangeira; segundo o Governador do Banco de Portugal, 40% das famílias serão colocadas em situação difícil em 2023 por causa da inflação e do aumento dos juros; o Ministro das Finanças declarou que no seu entender 2023 não terá um cenário de recessão; as dívidas a fornecedores do Serviço Nacional de Saúde estão no valor mais alto desde 2014 e já somam 2350 milhões de euros; o produto interno bruto per capita em Portugal, expresso em paridades de poder de compra, caiu pelo segundo ano consecutivo em 2021 e situa-se agora em 75,1% da média da União Europeia, o pior resultado desde 2009;  na zona euro só a Letónia, Eslováquia e Grécia estão piores do que Portugal; um estudo divulgado esta semana indica que seis em cada dez portugueses vivem pior que em 2021; segundo o Eurostat, em 2021 o ordenado médio mensal em Portugal era 634 euros mais baixo do que em Espanha.


 


O ARCO DA VELHA - O movimento dos jatos particulares nos aeroportos portugueses aumentou e até outubro foram registados mais de 18 mil voos privados em Portugal.


 


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IMAGENS CERTAS - Ao contrário do que acontece noutros países em Portugal a fotografia documental tem sido relegada para segundo plano, ultrapassada pela utilização da fotografia como ferramenta manipulável, mais do que como forma de expressão ou de ser um olhar sobre a realidade. No segmento a que se convencionou chamar “fine art photography” a fotografia é encarada como uma maneira de criar ilusão, quase que, nalguns discursos mais sectários, excluindo que a realidade possa ter valor artístico.  Felizmente, numa iniciativa da associação CC11 e da Narrativa, com o apoio da  Galeria Santa Maria Maior, foram desafiados 66 fotojornalistas a apresentarem outras tantas imagens na exposição “Edição Limitada”. As imagens expostas são olhares sobre a realidade do dia a dia, todas em formato 40x60, e são assinadas por nomes como  Alexandre Almeida, Alfredo Cunha, António Pedro Ferreira, Bruno Portela, Céu Guarda, Clara Azevedo, Enric Vives-Rubio, Fernando Ricardo, João Porfírio, José Pedro Santa-Bárbara, José Sarmento Matos, Luísa Ferreira, Paulo Alexandrino, e Tiago Miranda, entre muitos outros. Tiago Miranda, que é o coordenador deste projecto, sublinha que ele pretende reclamar um direito tão antigo quanto a própria invenção da fotografia" que é tornar a fotografia jornalística e documental um objeto adquirível e colecionável, por particulares e instituições. “Apesar de uma imagem fotojornalística nos ser por definição emocionalmente próxima, única, original e histórica, o circuito das galerias de arte e das coleções públicas e privadas, há muito tempo que em Portugal coexistem de costas voltadas para com o fotojornalismo", afirma. No texto de apresentação da exposição Emília Ferreira, Directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sublinha que “muitos dos representados nesta exposição veem há muito as suas imagens expostas e estudadas em espaços institucionais”, e deixa uma interrogação:  “Porque resistiremos a considerar arte esta disciplina da fotografia?- Não tenho resposta.”  “Edição Limitada” está patente na Galeria  Santa Maria Maior, Rua da Madalena 147, até 21 de Janeiro, de segunda a sábado, das 15h às 20h. E destaco o importante trabalho que esta Galeria tem feito na área da fotografia.


 


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OUTRA FOTOGRAFIA -  O décimo volume da Ph. , uma colecção de livros de fotografia da Imprensa Nacional, dirigida por Cláudio Garrudo, é dedicada à obra de António Júlio Duarte, mostrando a sua errância por espaços urbanos, de Hong Kong aos Estados Unidos, passando por Cabo Verde, Itália, Rússia, Japão e, claro, Portugal. O livro publica diversas obras inéditas do fotógrafo e tem uma estrutura cronológica, onde o autor revisita conceitos do seu trabalho e é perceptível a sua evolução. Sofia Silva, no ensaio publicado no livro sublinha as composições “cruas e rigorosas” de António Júlio Duarte e defende que “com ou sem flash as imagens são sempre ficção e o que está fora delas nunca existiu”, perguntando: “quem guardará memória das coisas que não existem, senão no fotográfico?” No fundo, e por coincidência, entre a exposição referida nestas páginas e este livro mostram-se os dois lados da fotografia, entre a realidade e a fantasia, entre o que mostra o que se passa e o que reflecte o que se pensa ou imagina. É uma curiosa coincidência que eles coexistam no tempo, provando que estes dois lados são como a cara e a coroa de uma moeda. Um tem tanto valor como o outro. António Júlio Duarte é, dentro da área em que trabalha, dos mais lúcidos e honestos autores na utilização que faz da fotografia, fugindo ao facilitismo e mostrando sempre um claro sentido de observação e oportunidade - e também por isso é interessante conhecer esta sua obra. António Júlio Duarte expõe com regularidade desde a década de 90 do século XX.


 


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TRIOS VARIADOS - Este ano o saxofonista Charles Lloyd editou três discos, todos utilizando a formação de trio e com músicos diferentes em cada um deles. “Sacred Thread”, “Ocean” e “Chapel” são esses três discos. Nos dois primeiros Lloyd é acompanhado pelo pianista Gerald Clayton e o guitarrista Anthony Wilson, no segundo pelo percussionista Zakir Hussain e pelo guitarrista Julian Lage e finalmente no terceiro, “Chapel”, gravado ao vivo, é acompanhado pelo guitarrista Bill Frisell e pelo baixista Thomas Morgan. A minha preferência pessoal vai para “Chapel”, que tem cinco temas, todos eles anteriormente gravados noutras circunstâncias e três deles são composições originais de Charles Lloyd e dois são versões. Frisell tem acompanhado Lloyd no seu quinteto ocasional The Marvels e Thomas Morgan é um velho parceiro de Frisell, quer em duo, quer em trio. As duas versões são“Blood Count”, de Billy Strayhorn, um exemplo perfeito do diálogo entre saxofone, guitarra e baixo e um tema cubano, a balada “Ay Amor” onde o saxofone de Lloyd assume o maior protagonismo. “Song My Lady Sings”, “Tone Poem” e “Dorotea’s Studio” são os três originais de Charles Lloyd. Destaque, em todo o disco, para a subtileza com que Frisell toca a guitarra de forma suave e melódica. 


 


UM PERU DIFERENTE - O peru faz parte do imaginário do Natal, na sua versão tradicional, inteiro, enorme, transbordante, recheado, a ficar temperado de um dia para o outro dentro de um grande alguidar. Mas muitas vezes o resultado de fazer um peru assado é que se fica a comer os restos durante dias a fio. Sugiro uma alternativa para quem não tiver muita gente à mesa: peito de peru assado no forno. Uma peça entre 1,5 e 2 kgs será o ideal. E agora uma heresia: nada de marinadas tradicionais: em vez disso barrem bem todo o peito de peru com limão e sal natural. Num tabuleiro de ir ao forno, que deve estar a 200 graus, coloque o peito de peru já temperado, reguem-no primeiro com um pouco de vinho branco,  depois com azeite e, finalmente, pimenta preta moída na altura. Finalize com mel espalhado por toda a superfície. No tabuleiro coloque raminhos de alecrim e folhas de louro, assim como alguns dentes de alho inteiros só para aromatizar. Vai a forno a 200 graus durante 20 minutos. Depois baixa-se o forno para 150 graus, altura em que o vai cobrir com uma folha de alumínio. Deixe ficar mais meia hora assim. Ao fim desse tempo verifique com uma faca afiada se a carne já está cozinhada e deixe-a repousar no forno desligado durante mais uns 15 minutos antes de servir. Aproveite o molho do tabuleiro, adicione mostarda e mais um pouco de mel, mexa tudo bem e coloque-o numa taça à parte para quem quiser. Acompanha com batata doce assada aos pedaços, salpicada de rosmaninho. Bom Natal!


 


DIXIT - “Não vejo diferença entre António Costa com sono e quando está acordado” - Rui Rocha, candidato a presidente da Iniciativa Liberal


 


BACK TO BASICS - “Digam o que disserem dos Dez Mandamentos, devemos sempre regozijar-nos que sejam apenas dez” - H. L. Mencken