
O CAOS - Crónica de um pesadelo: um amigo meu queria ir a Veneza. Tinha combinado ir com outra pessoa. Compraram bilhetes no mesmo dia para uma partida na quinta-feira da semana passada. Sexta feira ele recebe um aviso da TAP a dizer que o seu voo tinha sido cancelado e que só partiria no Domingo. A outra pessoa recebeu também um aviso, mas a marcar a viagem para sábado. Ambos tinham o hotel marcado até quarta-feira desta semana. O meu amigo ficou aborrecido, teve que avisar o hotel, que já estava pago, mas preparou-se para sair domingo à tarde. No domingo recebeu um email, e não um SMS, que viu por acaso, onde a TAP avisava que afinal já não iria no domingo, mas sim na terça, sendo que a companhia sabia bem que ele tinha o regresso previsto para quarta. Portanto, o que tinha sido pensado como um fim de semana agradável, tornou-se num inferno de telefonemas e de desilusões. A TAP, na prática, queria obrigá-lo a trocar uma viagem de quase uma semana por uma ida e volta em dias consecutivos. Não se preocupou com a situação da reserva do hotel, não teve o cuidado de dizer “pedimos desculpa”, limitou-se a colocar a pessoa perante um facto consumado. A pessoa com quem ele tinha imaginado ir a Veneza, e que já lá estava sozinha desde sábado à noite, recebeu na terça-feira um aviso da TAP a dizer que o voo de regresso de quarta tinha sido cancelado. Não lhe deram data alternativa de regresso. Eu sou capaz de compreender todos os problemas do tráfego aéreo na Europa, das greves, dos problemas do aeroporto de Lisboa, mas recuso-me a aceitar o mau tratamento que a TAP dá aos seus clientes, o desrespeito que sistematicamente manifesta, as aldrabices que invoca como desculpas do que é só mau funcionamento. A coisa não é de agora, já vem de há mais tempo. É o sinal da destruição de uma marca, do aniquilamento da reputação de uma empresa. Recordo que o Estado é o dono da TAP - portanto temos uma empresa que é suposto prestar serviço aos cidadãos, financiada largamente com dinheiros públicos e que maltrata de forma sistemática quem a financia, por via dos impostos, e dos bilhetes que compra. Pergunto eu, usando uma citação: “ e não se pode exterminá-la?”.
SEMANADA - Segundo dados da Pordata de 2021, 16% da população portuguesa não conseguia aquecer convenientemente a sua habitação; um em cada cinco universitários do Porto ainda não encontrou quarto para ficar; as residências públicas de estudantes no Porto e em Lisboa estão lotadas; o preço médio de um quarto para estudantes em Lisboa é de 400 euros mensais; os depósitos bancários em Portugal têm a segunda taxa de juro mais baixa da Europa; o alojamento local em Lisboa está 40% abaixo de 2019; segundo a Polícia Judiciária regista-se uma subida de homicídios na região de Lisboa e um aumento da violência dos gangues juvenis; em 2022 já morreram 22 mulheres vítimas de violência doméstica; os registos civis receberam quase 200 mil pedidos de nacionalidade em 2021; Portugal continua abaixo da média europeia no índice de igualdade de género; segundo a Marktest um em cada três utilizadores da internet em Portugal faz apostas on line; segundo a organização World Justice Project, Portugal caíu uma posição em termos do funcionamento do Estado de Direito, ocupando agora 0 27ºlugar a nível global e o 20º em termos europeus, sendo que uma quebra nas restrições aos poderes governamentais é a principal causa da situação; este mês quase 300 docentes deixam o sistema educativo por passarem à reforma, agravando o problema da falta de professores; há mais de oito centenas de medicamentos em ruptura de stocks em Portugal por problemas na sua produção devido a falta de matérias primas e problemas logísticos.
O ARCO DA VELHA - A Entidade para a Transparência, o organismo criado há três anos para fiscalizar os rendimentos dos políticos, ainda não tem data para começar o seu trabalho.

UM OUTRO OLHAR - Até este domingo ainda pode ver no Museu do Traje no Lumiar, em Lisboa, a exposição “Viver A Sua Vida” que apresenta, com curadoria de Anabela Becho, quatro dezenas de fotografias de moda do francês Georges Dambier, que começou a publicar o seu trabalho na revista Elle, em 1952. Jorge Calado escreveu sobre esta mostra que “Viver a sua Vida” é uma exposição de imagens de modelos e trajes, mas não é propriamente uma exposição de fotografias. As provas são todas recentes, idênticas no grande formato e apresentadas regularmente sem grande interação mútua. A fotografia é a arte da escala e tem no seu carácter o problema de encontrar a dimensão certa. Senti a falta de algumas provas vintage, mesmo de imprensa, com os tamanhos que o fotógrafo pensou na ocasião e o envelhecimento, autoridade e carisma que a idade lhes confere.” Dambier, considerado um dos melhores fotógrafos de moda do século XX foi um dos vários convidados que vieram fotografar Portugal nos anos 50 (ver imagem), fazendo as suas fotografias de moda em diversos locais, ao ar livre e não em estúdio, como na época era habitual. Outro destaque incontornável desta semana vai para a quinta edição do Drawing Room Lisboa, um projecto focado no desenho contemporâneo em papel, que decorre na Sociedade Nacional de Belas Artes até Domingo dia 30 e que inclui as obras dos finalistas do Prémio FLAD de Desenho 2022, cujo vencedor será anunciado no decorrer da mostra. Estarão presentes quase três dezenas de galerias portuguesas e estrangeiras com obras de nove dezenas de artistas. Um bom momento para iniciar uma colecção.

XEQUE-MATE - Se gostam de xadrez ou ficaram fascinados com a série “Gambito De Dama” que a Netflix tem no seu catálogo, podem agora ler um extraordinário pequeno romance, “Uma História de Xadrez", considerado como uma das grandes criações de Stefan Zweig, aliás a sua última obra - entregou o manuscrito ao seu editor, justamente um dia antes de se suicidar, em 23 de Fevereiro de 1942. O pequeno romance, de 80 páginas, permitiu ao austríaco Stefan Zweig, nome maior da literatura europeia da primeira metade do século xx, escrever, pela primeira e única vez, sobre a guerra, a violência, o nazismo e o autoritarismo. O livro conta a história de Mirko Czentovic, um campeão mundial de xadrez que, a bordo de um transatlântico com destino a Buenos Aires, se entretém a derrotar os restantes passageiros. Mas Czentovic descobre durante essa viagem que segue no navio um adversário à sua altura: o doutor B., um enigmático passageiro recém-libertado pelos nazis, que sobreviveu à prisão a projectar jogos de xadrez na sua mente. Do inevitável confronto entre os dois jogadores, nasce o empolgante relato de um jogo que coloca frente-a-frente a criatividade contra a impetuosidade e que expõe os traumas de um homem, mas também a sua capacidade de sobreviver, mesmo sob uma extraordinária pressão. Desde a sua publicação, em 1944, dois anos após o suicídio do autor, a obra tem vindo a ser traduzida em todo o mundo e foi adaptada várias vezes ao cinema, cuja versão mais recente foi realizada no ano passado por Philipp Stölzl no filme The Royal Game. A edição em Portugal foi feita agora pela Guerra & Paz com tradução de Mónia Filipe.

BLUES CLÁSSICOS- Sou um apaixonado por blues e Doug MacLeod é um dos nomes incontornáveis deste género musical - com duas dezenas de álbuns e mais de 300 canções (só interpreta temas que ele próprio compôs). Ao longo dos anos MacLeod traçou uma carreira caracterizada por temas com palavras incisivas, narrativas na melhor tradição dos blues, misturando sentimento com emoção e a vida quotidiana, frequentemente tomando posição sobre o estado da América. “A Soul To Claim", publicado este ano, é, ao longo dos seus 12 temas, um bom exemplo disso mesmo. Doug MacLeod toca guitarra e canta, Dave Smith assegura o baixo numa perfeita secção rítmica com o baterista Steve Potts, com o fundo envolvente do teclista Rick Steff, muitas vezes em diálogo com a guitarra. Todos os músicos são experientes bluesmen, criados na escola de Memphis. MacLeod comunica de forma fácil, seja quando fala da situação actual, como em “Money Talks”, ou quando aborda a acção dos políticos em “Dodge City”, ou quando conta histórias como em “Only Porter At The Station” ou “Dubb’s Talking Disappointment Blues” ou “Somewhere On A Mississipi Highway”, e até na forma como conta as emoções em “There Is Always Love”. E num dos temas, “Where Are You?”, o ex-Marine Doug MacLeod deixa interrogações sobre o tratamento que no seu país é dado aos soldados norte-americanos, veteranos de várias guerras. Disponível nas plataformas de streaming.
OS COGUMELOS- Muita gente está habituada a olhar para os cogumelos como um acompanhamento para bifes e hambúrgueres. Sugiro que encarem a coisa de outra forma e deixem de olhar para eles como acompanhamento. Para isso, em vez das latinhas de conserva com os cogumelos laminados, procurem o produto original, de preferência os grandes cogumelos Portobello, disponíveis nos supermercados. São carnudos, saborosos e uma bela base para um jantar simples, Experimentem considerar dois por pessoa. Lavem-nos bem e coloquem-nos num recipiente de ir ao forno, com uma fina camada de azeite no fundo. Virem-nos ao contrário, campânula para baixo e o pé para cima, tempere-os com um fio de azeite, sal e pimenta, um salpico de vinho branco, e leve ao forno durante 20 minutos a 180 graus. Entretanto preparem dois ovos por pessoa, batam-nos bem (com a varinha mágica melhor ainda) apenas temperados com sal e pimenta. Adicionem-lhes um pouco de água e voltem a batê-los. Quando os cogumelos estiverem prontos, numa frigideira larga deixem derreter uma colher de sopa de manteiga e depois deitam os ovos, tendo o cuidado de os ir mexendo sempre com uma espátula, Quando os ovos começarem a mudar para uma textura mais sólida apaguem o lume e dividam-nos pelos pratos. Retirem os cogumelos do forno, espremam um pouco de limão por cima e sirvam ao lado dos ovos com uma fatia de bom pão. Acompanhado por um vinho tinto ainda fica melhor. Jantar simples, nutritivo e saboroso. A terminar umas notas nutricionais: os cogumelos são uma boa fonte de proteína, vitaminas do complexo B, antioxidantes e fibras.
DIXIT - “Quem é que manda na Europa? Você não conhece. No fundo é uma estrutura que se desenvolveu que ninguém elegeu” - Adriano Moreira
BACK TO BASICS - “A vida é o que nos acontece enquanto estamos ocupados a fazer planos”- John Lennon