maio 15, 2015

UM HORIZONTE À VELOCIDADE DO CARACOL

IMG_2995.JPG


 


HORIZONTE - Passou um ano sobre a saída da troika mas não se notou ainda verdadeiramente uma mudança na questão de fundo da política dos últimos anos: desde o início desta legislatura tem sido a política externa a condicionar a política interna. Mesmo que tivéssemos conseguido evitar a presença física da troika, na situação em que o país estava, seria impossível evitar, permanecendo no Euro, que as coisas não fossem ditadas do exterior - mas podiam ter sido diferentes, como em Espanha. O desafio para a próxima legislatura é passar do domínio da política externa para o primado das políticas internas. O grande problema é que a propaganda das reformas é maior que a substância das mesmas. A grande questão é que se agiu basicamente da maneira mais fácil - o aumento da receita fiscal foi bem superior ao corte da despesa do Estado e esse é o factor crítico - a gorda máquina que suga o país e condiciona reformas estruturais através do peso que tem nos aparelhos partidários. Não temos tido políticas internas, apenas ajustes pontuais ditados pelas circunstâncias que criámos nas últimas décadas e por aquelas que nos impuseram. O resultado é um crescimento raquítico e confusões constantes sobre qual deve ser o papel do Estado, sobretudo em sectores como a saúde, a educação e a justiça.  Qual o nosso horizonte daqui a 20 anos, quando estivermos em 2035 e as mudanças na economia mundial, na tecnologia, nos hábitos e comportamentos forem diferentes a um ponto que nem imaginamos? Claro que me faz impressão pensar sequer que nas próximas eleições podemos voltar ao laxismo que nos levou à situação em que estamos. Mas a realidade é que olho para o panorama eleitoral e não vejo nada que me agrade. Não me revejo em nenhuma política e considero prudente ignorar as promessas - porque já todos percebemos que em política elas não são para cumprir. O eleitorado tem uma tarefa difícil pela frente. Muito mais difícil que a clientela dos partidos.


 


SEMANADA - Angola deixou de estar entre os cinco maiores parceiros de Portugal no primeiro trimestre deste ano; alteração da lei eleitoral continua a causar polemica entre responsáveis editoriais e responsáveis da propaganda partidária; nos primeiros três meses do ano os empréstimos para compra de casa atingiram o valor mais alto dos últimos três anos; o número de famílias com os pagamentos de crédito ao consumo e habitação em atraso aumentou no primeiro trimestre deste ano; no ano passado os encargos com as PPP subiram 60%; o PIB português cresceu 0,4% nos primeiros três meses de 2015 ; o PIB espanhol cresceu 0,9% nos mesmos três meses; as vendas de produtos portugueses para Espanha cresce a um ritmo que é o dobro do das exportações para outros países; mais de metade dos portugueses vai à igreja uma vez por semana; os despedimentos colectivos mantêm-se acima dos níveis anteriores à troika; as penhoras das Finanças duplicaram em apenas três anos graças à implementação das penhoras automáticas; cada português bebe 10,6 litros de alcoól por ano; a OCDE fez um relatório onde conclui que as mulheres com ensino superior e que têm maiores remunerações são as que consomem mais bebidas alcoólicas - e Portugal ocupa mesmo o segundo lugar do ranking dessas mulheres, atrás da Finlândia e antes da Alemanha; o acordo ortográfico tornou-se obrigatório em actos oficiais o que implicou que deixassem de existir arquitectas, que passaram a arquitetas.


 


ARCO DA VELHA - “Esta pega, feia, gorda, invejosa, nojenta, salazarenta, cretina e complexada” - termos em que Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates, se referiu no facebook a Joana Marques Vidal, procuradora geral da República.


 


FOLHEAR - Um livro interessante para ler neste ciclo eleitoral da vida política portuguesa é “A Quarta Revolução - A corrida global para reinventar o Estado”. Os seus autores são dois jornalistas, um da Bloomberg (John Micklethwait) e outro da Economist e que é um dos colunistas da imprescindível página “Schumpeter” ( Adrian Wooldridge). Os autores reflectem sobre a crise dos modelos partidários e de organização dos estados ocidentais, as respectivaas crises de governação , a ineficácia do Estado e o descrédito do sistema político. O livro não se limita a ser um inventário pessimista de problemas, traça também caminhos que são propostas de melhoria da sociedade. Muitos não serão consensuais mas a obra tem o mérito de pôr o dedo bem fundo na ferida, fazendo-a sangrar em abundância, para depois propôr vários tratamentos. O título do livro sugere que após o Estado Nação do século XVII, do Estado Liberal do secúlo XVIII e XIX e do Estado Social do século XX é inevitável que surja uma Quarta Revolução - e desta vez pode acontecer que não seja o Ocidente a traçar o caminho do futuro. (Editado pela D. Quixote/ Leya).


 


VER - Por estes dias uma das coisas que gosto mais de fazer é seguir o trabalho de algumas pessoas no Instagram. Por exemplo, o músico Legendary Tigerman (Paulo Furtado) tem uma série que evoca os lugares por onde passa em digressão em Portugal e no estrangeiro (na imagem); o americano Matt Eich vai publicando a fabulosa série que está a fazer sobre a vida e os habitantes de pequenas cidades dos Estados Unidos; David Guttenfelder, um fotógrafo da National Geographic Magazine apenas publica no Instagram imagens feitas com i Phone. Mas há também Luisa Ferreira, Pauliana Valente Pimentel, ou Clara Azevedo que vão anotando no Instagram o que vêm nos seus universos pessoais e nos locais por onde passam, ou Maria João Pavão Serra que no seu Turista Acidental nos revela o que descobre em viagem.  Ou então casos como o de Pedro Norton que no Instagram como que prolonga o trabalho que fez com o livro “As Flores do Mal”, editado no ano passado.E, finalmente, revistas como a New Yorker, a Time ou a Vanity Fair. Um mundo de imagens. Cá para mim o Instagram está para a fotografia como os graffitti para as artes plásticas há uns anos atrás.


 


OUVIR - O novo disco de Aldina Duarte tem dois discos: um preto e outro vermelho. O preto é o tradicional; o vermelho tem os mesmos fados mas não é tradicional. Tendo os mesmos fados, não são discos iguais: num e noutro os mesmos fados parecem diferentes. O negro é conservador; o vermelho é reformista. O negro é uma paixão; o vermelho é uma escapadela. Convivem bem os dois, é engraçado ouvi-los um após o outro, ficar encantado com o primeiro, ficar surpreendido pelo segundo. Os romances podem ser assim. Uns são paixão, outros ocasião. Não me lembro de um disco como este: fado tradicional de um lado, guitarra eléctrica do outro, o antes e o depois. No meio, sempre, um encanto. “Romance(s)” não é um disco, é uma aventura em dois actos. De um lado está servido por uma história construída em versos por Maria do Rosário Pedreira, cuja escrita mais uma vez surpreende; do outro lado pelo desafio das vozes, pela experimentação e pelas portas que abre. É a mesma história cantada de maneiras diferentes. Se calhar gosto mais do disco vermelho. É atrevido. Mas não tinha sido feito sem o outro. Que tem a tradição. (CD Sony Music)


 


PROVAR - Uma das coisas mais difíceis de encontrar em Lisboa é uma sanduíche feita como deve ser. A maior parte dos estabelecimentos comerciais pensa que uma sanduiche é uma carcaça aberta ao meio para dentro da qual se atira um pedaço de fiambre mal cortado ou uma transparência de queijo flamengo. Inevitavelmente no momento prévio ao lançamento do conduto surge a pergunta: “com ou sem manteiga?”. A prudência manda evitar gorduras rançosas. Há variantes: a tosta em pão alentejano, que é a mesma coisa, mas carregada de manteiga de ambos os lados das fatias, sem direito a opção, e que é impossível comer sem os dedos ficarem numa lambuzice, geralmente demasiado torradas e duras , com o flamengo a derreter e a escaldar; ou então a velha tosta mista em pão de forma da véspera, igualmente carregada de manteiga do lado de fora das fatias. Numa sanduíche de carcaça a míngua de fiambre ou de queijo é quase sempre notória, deve ser para se provar bem o pão que há muito deixou de ser estaladiço. Se falamos de presunto o caso ainda é pior porque vem geralmente mal cortado, grosso e sensaborão, com os bordos secos. Existem algumas variantes modernas da sanduíche com toque cosmopolita, mas igualmente desinspiradas - como os famosos hamburgueres do Honorato que provavelmente já terão sido bons mas agora são desinteressantes. Outro caso estranho de sucesso é o prego da peixaria, que vem num bolo de caco insípido - que poderia ter passado por uma torradeira para abrilhantar o preparo. Estou para encontrar uma sanduíche que incopore verduras frescas (folhas de espinafre, agrião, fatias finas de pepino ou mesmo alface que não tenha sido rejeitada pelos grilos), um chutney ou mostarda, um dos nossos bons queijos, presunto ou paio do lombo bem cortados, tudo em pão decente e levemente torrado. Se alguém souber onde há, agradeço.





DIXIT - “Grande parte da imprensa (que festeja sempre as vitórias da esquerda e há pouco tempo pisou o ridículo com a do Syriza na Grécia) deu pouco destaque às eleições britânicas - a maior parte fê-lo por motivos ideológicos (caso contrário seria indigência jornalística) e preconceito” - Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.


 


GOSTO - Da série de selos dos CTT com ilustrações do lince ibérico e das etiquetas postais com dinossauros que viveram no território português durante o Jurássico.


 


NÃO GOSTO - Do que aconteceu às árvores na avenida Guerra Junqueiro que ficaram reduzidas a galhos por obra de um poda que foi “longe demais” nas palavras da própria Junta de Freguesia que era responsável pela sua manutenção.


 


BACK TO BASICS - “As Universidades não gostam dos génios, tal como os conventos odeiam acolher santos” - Ralph Waldo Emerson

O PAÌS QUE VÊ TV

É interessante ver como se faz o consumo de televisão nas regiões do país – o norte é quem entrega maior número de espectadores a qualquer canal generalista. No caso da RTP1 o norte garante uma media de  97 mil espectadores, que comparam com os 73 mil da região centro, os 63 mil da Grande Lisboa e os 29 mil da região sul. Na TVI o norte garante 145 mil, o centro 120 mil, Lisboa 124 mil e o sul 48 mil. E na SIC o norte apresenta 141 mil espectadores, contra 94 mil do centro, 88 mil de Lisboa e 34 mil do sul.


Os numeros relativamente fracos de Lisboa têm uma explicação: é nessa região que existe maior número de espectadores do cabo, o que explica que seja também a região onde os canais generalistas de sinal aberto sejam mais penalizados. Uma tendência, tudo indica, que aos poucos se irá estendendo a outras zonas do país.


Esta foi uma semana TVI – programa mais visto no global (a transmissão do Juventus-Real Madrid), programa mais visto nos canais de cabo (os comentários ao Barcelona-Bayern na TVI24), vitória em acesso a prime time e em todo o horário nobre.


Nos dez programas mais vistos da semana a TVI colocou seis e a SIC quatro – qualquer um dos canais contou com a ajuda do futebol, embora em moldes bem diferentes – o Barcelona-Bayern na TVI foi o momento de televisão mais visto de toda a semana e o Juventus-Real Madrid ficou atrás embora tenha feito um bom resultado na SIC.


(Publicado na revista TV & LAZER do Correio da Manhã de Sexta)


 


 

maio 08, 2015

Políticas esquizofrénicas

IMG_2986(1).JPG


ESQUINA 617 - 6 MAIO 2015


 


ESQUIZOFRENIA - Nestes tempos que correm a vida política resume-se a isto: de um lado, numa semana coliga-se e noutra logo a seguir intriga-se; do outro lado, num dia mostram-se previsões em folhas de Excel e noutro fazem-se promessas de panfleto de campanha eleitoral. Não é o mundo que anda estranho, é a política que virou esquizofrénica. Se calhar não é novidade, mas agora nota-se mais. Na coligação passa-se o curioso fenómeno de o Primeiro Ministro se referir ao seu Vice Primeiro Ministro como líder da oposição, na mesma semana em que uma colaboradora do núcleo central do PSD publica uma biografia autorizada onde conta episódios da crise da governação - a célebre demissão irrevogável - com detalhes prontamente desmentidos pela outra parte. Tudo se passa entre sorrisos com a propagandista de Passos Coelho a menorizar as dúvidas sobre a veracidade do seu relato. Tenho cá para mim que estes episódios não dão muita confiança aos eleitores - sejam aos dos partidos do Governo, sejam aos do PS. Às vezes tenho a sensação de que toda a gente procura constantemente um motivo para fabricar uma crisezinha. Será falta de ideias? Ou apenas falta de jeito? A narrativa política está rasca - trata os eleitores como se eles fossem apenas mudar de canal, em vez de valorizarem que o sentido do voto é obter mudanças no parlamento, no Governo  e nas políticas. E, em última análise, no bem-estar das pessoas e no progresso do país.


 


SEMANADA - A Ryanair declarou-se muito satisfeita com o aumento das suas reservas e do seu negócio em Portugal, verificado em consequência da greve de alguns pilotos da TAP; outras companhias aéreas low cost viram também o seu negócio aumentar em consequência desta greve; João Cravinho afirmou que a TAP está a correr “um forte risco de inviabilidade na sua forma actual”; Portugal cria 78 novos alojamentos por dia para turistas; o bacalhau dominou a visita oficial de Cavaco Silva à Noruega; o poder de compra dos portugueses é 79% da média da União Europeia; a Câmara Municipal de Lisboa foi acusada de favorecer um projecto do GES na zona do Parque das Nações, cujo plano de pormenor foi feito pelo arquitecto Manuel Salgado, antes ainda de ser vereador, mas que depois tomou decisões sobre o processo; está a aumentar o número de juízes afastados dos tribunais; um juiz do Tribunal de Torres Novas chamou burra a uma escrivã; o Juiz Carlos Alexandre afirmou temer estar a ser espiado por uma organização secreta; em cinco anos desapareceram das igrejas e capelas portuguesas 150 peças de arte sacra; Marcelo Rebelo de Sousa considerou que Marques Mendes exerce sobre ele uma pressão  “doentia e obsessiva”  para que se candidate à Presidência da República; Sampaio da Nóvoa disse numa entrevista que se sente “preparadíssimo” para ser Presidente; Alfredo Barroso afirmou que o documento “Uma Década Para Portugal” “diz aquilo que querem ouvir tanto a actual direcção do PS como a ala mais à direita do partido”; António Costa disse que o PS não faz promessas impossíveis; António Costa prometeu esta quarta-feira mexer nos atuais escalões do IRS e com isso promover uma redução “da carga fiscal sobre o trabalho”; já são efectuadas mais pesquisas através de telemóveis do que de computadores e tablets.


 


ARCO DA VELHA - Marianne Thyssen, comissária europeia do Emprego e dos Assuntos Sociais, cancelou a visita a Portugal, para reuniões com o Ministro Mota Soares,  devido à greve na TAP.


 


FOLHEAR - António Pinto Ribeiro, recentemente afastado da Gulbenkian onde tinha criado o programa “Próximo Futuro”, tem tido uma persistente actividade de crítico e ensaísta na imprensa, procurando sempre comunicar de forma clara questões que não são simples. Fomenta o gosto pelo debate e pelo raciocínio provocador e a série de artigos que escreveu para o ”Público” entre Março de 2011 e Dezembro de  2014 é particularmente rica. 32 desses artigos foram agora publicados pelos Livros da Cotovia, na colecção Três Razões, sob o título “Miscelânea”. Passam por aqui temas que vão da política cultural aos desafios com que defrontam os museus, passando pela gastronomia e a moda. Há títulos de alguns destes artigos que são todo um programa, como “A cultura é cara? Experimentem a ignorância”, “Sem pêlos”, “Para acabar de vez com a lusofonia” ou “Ode ao conflito”, que encerra a recolha e de onde não resisto a extrair este segmento: “ Importa não confundir compromisso com consenso. O primeiro resulta de negociação cultural na mais abrangente definição do termo; o segundo - o consenso - é o adiamento de um conflito, modo cínico de enfraquecer a energia potencial e criadora que existe no conflito quando este está longe de ser guerra”.


 


VER - Miguel Justino mudou a sua Galeria da Rodrigo da Fonseca, frente ao Hotel Ritz, para um primerio andar da Rua Rodrigues Sampaio - é no 1º Esq do número 31, um prédio magnífico. Para a exposição que ficará até final de Maio, Miguel Justino convidou o crítico Miguel Matos para curador do “Projecto Sinistesia”, de Gabriel Garcia, e “Per Fummum” de Teresa Gonçalves Lobo. Gabriel Garcia aceitou o desafio de trabalhar sobre imagens que lhe foram sugeridas pelo cheiro de determinados perfumes - o ponto de partida que o curador lhe estabeleceu. Teresa Gonçalves Lobo, que tem vindo a afirmar a coerência do seu trabalho, apresenta novos desenhos, já mostrando uma evolução em relação a obras ainda recentes. Como diz Miguel Matos na apresentação da exposição, os desenhos de Teresa Gonçalves Lobo (na imagem) “são de carácter abstracto mas possuem poderes evocativos subjectivos”. O seu traço, agora progressivamente mais trabalhado com novas técnicas, cria uma noção de especial do espaço, particularmente visível nesta selecção que apresenta na Galeria Miguel Justino.


 


OUVIR - Há poucos portugueses a fazer bandas sonoras e menos ainda a editá-las. Valia a pena por exemplo editar as bandas sonoras que José Mário Branco já fez e que permanecem esquecidas da memória, mesmo daqueles que permanentemente o louvam e premeiam. Mas adiante. André Neves, com o seu disco “Soundtracks Vol 1”, é a razão de ser destas linhas. Começou a estudar Direito mas as leis foram vencidas pelo piano e, depois, pela paixão do trabalho em estúdio que o envolveu na Islândia, nos Sundlaugin Studio, construídos pelos Sigu Rós - o seu disco de estreia, “Circunstances”, foi lá finalizado. Este “Soundtracks Vol 1” recolhe trabalhos que fez em 2014 para uma dezena de filmes de realizadores de países como os Estados Unidos, Japão, Índia, Alemanha, Islândia e Espanha - entre eles a banda sonora de “Our Father”, de Linda Palmer, que ganhou o prémio de melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival. Além das bandas sonoras está incluída uma peça escrita para uma coreografia de dança contemporânea (por sinal um dos melhores momentos do disco). A destoar da qualidade geral deste registo está “Gambiarra”,  uma composição interessante infelizmente estragada por um arremedo de poesia para jogos florais, mal escrita e mal lida pelo seu autor, Valter Hugo Mãe - em suma uma foleirice pretenciosa,  que no final do CD estraga o prazer anterior.


 


PROVAR - Não gosto de frequentar restaurantes que entram de repente na moda e que são lidos em todo o lado. Prefiro casas mais simples que não recorrem aos préstimos de relações públicas para criarem nome. Por isso mesmo demorei largos meses a aventurar-me na “Casa de Pasto”, muito badalada porque o seu cozinheiro é Diogo Noronha, que ganhou nome de chef no falecido “Pedro E O Lobo”, ao Princípe Real. Voltando ao Pasto, vale a pena destacar a decoração, feita de uma mistura confortável de objectos e mobílias de várias épocas. Vale ainda a pena destacar o serviço, bom, exemplar: num restaurante, por melhor que seja a comida, um mau serviço arruína o prazer da refeição - e ainda há muita gente por aí que ignora este ponto essencial. Resolvidas as questões do conforto e do serviço, passemos ao essencial: a cozinha. As propostas são variadas, desde as entradas até aos pratos de substãncia. Há uma clara dedicação na interpretação, respeitosa e  comedida, da cozinha tradicional portuguesa - nos petiscos de entrada, nos peixes e nas carnes.. Para servir de entretém a mesa oferece azeitonas marinadas e umas deliciosas cenouras de conserva, à algarvia. O petisco inicial foi uma salada russa com puntillitas, seguido de uns filetes de peixe galo de impecável preparo e fritura e um arroz de lagostim, com açafrão, tomate e tobiko irrepreensível. Tudo foi acompanhado de um branco Quinta das Bageiras. O repasto terminou em beleza com um duchesse improvável de morangos com ruibarbo que resultou muito bem. Rua de S. Paulo 20-1º, ao Cais do Sodré. Telefone 963 739 979.


 


DIXIT - “Eu diria que onde a língua portuguesa se depara com maiores dificuldades, adversidades e pouca capacidade de luta é na Europa” - José Ribeiro e Castro.


 


GOSTO - Da sugestão de Teresa Garcia, uma professora do ISEG, para que se faça um estudo sobre a carreira contributiva dos políticos.


 


NÃO GOSTO - De dirigentes partidários que enviam SMS agressivos a jornalistas que criticaram acções políticas, dizendo que estão apenas a exercer o direito de protesto.


 


BACK TO BASICS - “Tenho por certo que durante o horário de expediente nunca se diz a verdade” - Hunter S. Thompson


 


www.facebook.com/mfalcao


instagram: mfalcao


twitter: @mfalcao





 

abril 30, 2015

TRÊS MOMENTOS DA SEMANA E SUGESTÕES AVULSAS

IMG_2839.JPG


REGISTO I - Ao ler uma entrevista de Pedro Mexia no sábado passado, ao “i”, dei comigo a rever-me, hoje, numa das suas afirmações: “ não tenho nenhuma relação partidária, estou a tornar-me perigosamente abstencionista”. Sindo que cada vez mais estou nesse registo. Se tivesse que escolher um partido optaria por um que fosse contra os abusos do Estado, que defendesse os cidadãos da burocracia, a favor de uma justiça célere, contra a corrupção, que desse provas de sensibilidade social e de bom senso político. 40 anos depois das eleições para a Constituinte esses referenciais esvaíram-se. Todos perdemos nestes anos - mas as maiores perdas não foram materiais, foram éticas e de cidadania. A fantochada da regulamentação sobre a informação em período eleitoral, focada exclusivamente na defesa da utilização dos mídia como veículos de propaganda dos partidos,  reforça a minha convicção de que a Assembleia da República é habitada por ovnis quem vivem de tácticas manhosas - sendo um deserto de estratégias e de ideias de mudança. Tal como está a política é um jogo rasca e com muita batota.


 


REGISTO II - António Pinto Ribeiro, que pôs de pé o conceito inicial de programção da Culturgest e que criou uma lufada de ar fresco na Gulbenkian com o programa Próximo Futuro, uma iniciativa que nos últimos anos interrompeu o cinzentismo e conformismo reinantes na vetusta instituição, decidiu apresentar a demissão do cargo de programador geral, para o qual tinha sido nomeado pelo Conselho de Administração, alegando notória falta de assuntos para coordenar, como na ocasião explicou. Mas prontificou-se a acompanhar as actividades do Próximo Futuro previstas para este ano, até 15 de Setembro. Referiu, no entanto, a existência de “episódios de autoritarismo”,  sobretudo a limitação de divulgação de uma edição da banda desenhada “Papá em África”, do sul-africano Anton Kannemeyer, um autor que integrava o próximo ciclo. As dificuldades colocadas à venda da obra na livraria da Fundação levaram à  revelação dos “episódios de autoritarismo”, atribuídos a Artur Santos Silva, razão invocada pelo Conselho de Administração da Fundação para interromper imediatamente a colaboração de António Pinto Ribeiro. O jornal editado pelo programa Próximo Futuro (na imagem) tinha por tema na sua edição 18, agora em distribuição mas anterior a tudo isto, uma frase que se aplica que nem uma luva aos efeitos perturbadores que as histórias aos quadradinhos podem criar: “Sem mutantes nem conservantes: a Banda Desenhada e o diálogo intercultural”.


 


REGISTO III -  Discretamente o “Em Órbita” fez 50 anos no passado dia 1 de Abril. Pouca gente falou do assunto e a efeméride merecia ser assinalada, como bem me sublinhou João David Nunes, uma das suas incontornáveis vozes. O “Em Órbita”  faz parte da minha vida, cresci a ouvi-lo, nas suas diversas fases, aprendi a ouvir música, músicas melhor dizendo, escutando as suas emissões. Foi uma das causas da minha paixão pela rádio, pelos programas de rádio hoje quase desaparecidos. O “Em Órbita” foi um dos raros galardoados portugueses com o prémio internacional “Ondas”, atribuído aos melhores programas de rádio europeus e o seu fundador, Jorge Gil, tornou-se numa referência para uma geração. O programa, na sua segunda fase, terminou a 31 de maio de 2001. Fazem falta programas assim.


 


SEMANADA - Desde 2007 já se registaram 55 dias de greve na TAP, que causaram à companhia um prejuízo de 343 milhões de euros - e estes números não contemplam a greve anunciada para Maio; os dez dias de greve que agora se vão realizar causarão um prejuízo adicional de 70 milhões de euros; o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, queixou-se no twitter de ser odiado pelos seus parceiros no Eurogrupo; o primeiro ministro grego Alexis Tsipras tirou poder a Varoufakis na negociação com os credores; Manuel Maria Carrilho foi condenado por difamação por ter dito que o padrasto de Bárbara Guimarães a teria violado; um vetusto proto candidato presidencial, Henrique Neto, fez-se fotografar para uma reportagem em tronco nu enquanto se barbeava com espuma e lâmina e filosofava sobre as reflexões que faz ao espelho; o Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, participou na inauguração, naquela cidade, do Palácio Maçónico do Grande Oriente Lusitano; reabriu o único cinema que existe na baixa do Porto e que agora é dedicado a filmes pornográficos; Portugal foi o país da UE com maior peso de investimento chinês em 2014; a partir de Setembro 500 alunos irão começar a aprender Mandarim em escolas portuguesas; o site da Polícia Judiciária foi atacado por hackers do grupo Anonymous e foi alterada a foto de um procurador especializado no combate ao cibercrime; o Provedor de Justiça abriu 1800 processos contra o Fisco em 2014.


 


ARCO DA VELHA - Um autarca de Olhão, com casa ilegal na ilha do Farol, recorreu a tribunal para parar as demolições na ria Formosa, alegando que os camaleões, espécie protegida, habita nas árvores e arbustos das  construções feitas sobre as dunas;


 


FOLHEAR - A edição de Maio da revista Vanity Fair é imperdível- a começar pela capa e o respectivo artigo sobre Sofia Vergara, a actriz de “Uma Familia Moderna”. Mas ha mais -  desde a evocação de como a obra de Saul Below foi fundamental para Martin Amis crescer como autor, uma história contada pelo próprio Amis, até ao artigo de Josh Karp sobre Orson Wells, “Orson’s Last Stand”, onde se conta como o realizador queria fazer um filme sem um guião escrito. Mas há muito mais nesta edição e permito-me destacar a investigação de Bryan Burroughs sobre a decadência galopante dos noticiários de prime time numa das maiores estações de televisão norte-americanas, a NBC, desde que a Comcast, um operador de cabo, a adquiriu. A tese tem a ver com a incapacidade que a Comcast tem demonstrado em gerir talentos, o que provocou que eles fossem fugindo da estação - uns por vontade própria, outros empurrados. É uma história que por aqui também vamos conhecendo. No seu sempre brilhante editorial, o director da Vanity Fair, Graydon Carter, faz uma afirmação óbvia de que muitas vezes nos esquecemos: os noticiários televisivos são umas coisas que acontecem com uns apresentadores que vão falando, sempre da mesma forma, para um grupo cada vez menor de reformados tecnologicamente pouco hábeis que se contentam com esta forma antiga de saber o que se passa pelo país e pelo mundo. Na última página o habitual questionário de Proust, desta vez com Candice Bergen a confessar que o seu lema é “começar sempre pela sobremesa”.


 


VER - Boa semana para  a fotografia. No Museu da Electricidade inaugurou a exposição deste ano do “World Press Photo” e Lisboa acolhe até 24 de Maio os premiados de 2015 logo depois da sua apresentação em Amsterdão, onde a organização está localizada. Trata-se da exposição fotográfica que consegue o maior número de visitantes em todo o mundo, através da itinerância por dezenas de cidades. Este ano o grande prémio foi para o fotojornalista dinamarquês Mads Nissen com o retrato de um momento íntimo de um casal homossexual em São Petersburgo. Foram analisadas quase 98 mil fotografias propostas por 5.692 fotógrafos de 131 países. No total, foram premiados 42 trabalhos enquadrados em oito categorias temáticas. O prémio da melhor história em imagens foi para o italiano Giulio Di Sturco com a sua série sobre os estúdios de cinema chineses de Hengdian, onde já são feitas algumas co-produções internacionais, mas há muitas imagens marcantes para ver nas séries sobre o quotidiano ou nos ensaios fotográficos - uma prova da continuada relevância que a fotografia tem na comunicação. Outro destaque: no Museu do Chiado está   exposta uma selecção de 150 fotografias que mostram o Portugal do século XIX , entre 1840 e 1900 - aqui estão os pioneiros da fotografia, testemunhos da sociedade naquela época,  obras raras, outras inéditas. Há retratos, cenas do quotidiano (algumas, bem interessantes, fotografadas pela Rainha D. Maria Pia), imagens da então longínqua Madeira, como esta que aqui fica reproduzida, tirada na costa norte da ilha por João Francisco Camacho cerca de 1870. Mas também retratos de figuras da sociedade e fotografias de Alfredo Keil que ele utilizava como registos a partir dos quais elaborava depois os seus quadros a óleo. Estes Tesouros da Fotografia Portuguesa do Século XIX estarão no Museu de Arte Contemporânea do Chiado até 28 de Junho.


 


OUVIR - Steve Earle anda a fazer discos há mais de três décadas, mas este seu novo álbum, “Terraplane”, é dos mais inesperados - e interessantes - da sua longa carreira de dezena e meia de álbuns de originais. As suas canções têm sido interpretadas por nomes como Johnny Cash, Waylon Jennings, Emmylou Harris ou Travis Tritt, entre outros. Com origens no folk, Earle criou uma interessante combinação entre as guitarras rock e a forma country de construir canções e fez disso uma carreira. Mas é a sua paixão pelos blues que está na origem deste novo disco, uma assumida homenagem a Robert Johnson, uma das lendas dos blues do Delta do Mississipi que viveu na primeira metade do século passado - um dos seus temas mais famosos dá o título ao novo disco de Steve Earle. No álbum notam-se também vestígios das influências de bandas como os ZZ Top ou de clássicos como Howlin’Wolf. Aos 60 anos Steve Earle continua a mostrar-se mais interessado em trabalhar o detalhe e o virtuosismo do que em fogos de artifício sonoros fáceis. Muito bem acompanhado pelos Dukes, a sua banda de digressão, Earle surge  num tema ao lado da  violinista e cantora Eleanor Whitmore - "Baby's Just as Mean as Me".  “Better Off Alone”, “Acquainted with the Wind”,  “Baby’s Just as Mean as Me” e “The Tennessee Kid” são os meus temas preferidos (CD disponível via Spotify).


 


DIXIT - O maior inimigo da democracia e da liberdade sempre foi aquilo que el-rei D. Pedro V qualificou como canalhocracia. - JHosé Adelino Maltez, no Facebook


 


GOSTO - Do êxito alcançado pela edição deste ano dos Dias da Música, no CCB, dedicada às músicas de filmes  - e para o ano um desafio: uma volta ao mundo em 80 concertos.


 


NÃO GOSTO - Em três anos verificaram-se 2746 atropelamentos em Lisboa e os idosos representam quase 30% das vítimas.


 


BACK TO BASICS - Nunca se deve interromper o inimigo quando ele está a cometer um erro - Napoleão Bonaparte


 

abril 24, 2015

RELATOS DA SEMANA & SUGESTÕES AVULSAS

IMG_2822.JPG


QUALIDADE - No sábado passado a revista Monocle realizou em Lisboa a sua conferência inaugural, sob o tema  The Quality Of Life. O evento trouxe a Portugal centena e meia de participantes que vieram desde São Francisco até ao Japão, passando por Singapura e uma série de países europeus (sobretudo do centro e norte da Europa), e ainda da Coreia ou da Austrália. Era um núcleo duro de seguidores da revista,  interessados em arquitectura, design, cultura urbana, media e a vida nas cidades com tudo o que ela comporta . Dos painéis a que assisti, destaco dois: “How do media brands make our cities?” e “How the museums became the modern cultural powerhouse”. Do primeiro destes painéis retenho algumas ideias-chave: assistimos a uma evolução do chamado jornalismo isento do século XX para um jornalismo com atitude, no século XXI - e quem conseguiu evoluir neste padrão conquistou as suas audiências, que vieram procurar conteúdos diferentes; o exemplo do grupo de media Vice, nascido no digital, que está a evoluir para a televisão com a HBO, e que ganha penetração pelas suas aplicações para dispositivos móveis numa série de países, é um excelente modelo do que se pode fazer nesta área de forma inovadora e conquistando novos públicos; e finalmente o próprio exemplo da Monocle, um produto que existe sobretudo no formato de papel, de revista, que se tornou global e que conseguiu conciliar acompanhar pequenos detalhes do dia a dia com fomentar uma massa crítica de leitores suficiente para se manter, fazendo-o com estilo e sem concessões. A Monocle cresceu a criar comunidades, a unir essas comunidades com eventos, a negar-se a ceder os seus conteúdos do papel sob qualquer forma digital, a oferecer-lhes soluções relacionais novas, como a rádio que funciona em streaming com conteúdos próprios e numa aplicação para smartphones, e ainda com as suas lojas e produtos exclusivos que mostram de forma clara a sua força de marca; no ar ficou a ideia de que a morte anunciada do papel impresso ainda não é caso arrumado e de que existem sinais geracionais de uma evolução do ecrã para o suporte impresso. No outro  painel, dedicado aos museus, foi estimulante ouvir os responsáveis do Victoria & Albert, de Londres, e do Rijksmuseum, de Amsterdão, a falar das suas estratégias de captação de públicos e da forma como programam para poderem chegar a novas audiências; em comum o princípio de que os museus são apenas depositários de obras que pertencem a todos - “All Of This Belongs To You”, um dos lemas do museu britânico; mas também a forma como isto se materializa - o Rijksmuseum pegou em reproduções de algumas das suas obras e cedeu-as a uma marca de leite para figurarem em embalagens de cartão que trazem essa arte à mesa de pequeno almoço dos holandeses; em comum também a ideia de que num mundo todo digitalizado começa a desenhar-se uma tendência para o regresso aos suportes físicos e aos objectos propriamente ditos - porque quanto mais se divulga a imagem digital mais as pessoas querem ver o objecto físico verdadeiro, real;  isto é, o meio de comunicação, o suporte de transporte da imagem, não interessa, o que interessa é o conteúdo; e, finalmente, o fim da separação entre épocas: o painel defendeu que a grande arte é sempre contemporânea - desde o momento em que foi criada até ao momento em que se tornou reconhecida e o fundamental é que os artistas vivam e mostrem de forma autêntica o seu próprio tempo.


 


SEMANADA - O Partido Socialista tem um passivo de 11 milhões de euros e há sedes locais em risco de ficarem sem água e luz; António Costa garantiu que o rigor será a marca da governação do PS; o programa económico do PS propõe aumento da despesa pública e diminuição das receitas do Estado; Marcelo Rebelo de Sousa diz que a proposta apresentada pelo PS é “a mais sedutora para o eleitorado”; A ex-Ministra da Cultura Gabriela Canavilhas pediu a expulsão do PS de outro ex-Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho para que “morra para a vida pública quem agride e maltrate a mulher”; na semana passada Carrilho tinha pedido a expulsão de José Sócrates do partido Socialista; a Alemanha é o país que tem maior número de funcionários de topo nos serviços da Comunidade Europeia; a Comissão Europeia considerou que a taxa turística lançada em Lisboa por António Costa contraria a legislação europeia que proíbe a discriminação em função da nacionalidade e chama a atenção para uma proliferação excessiva de taxas com “efeitos negativos sobre a competitividade da indústria do turismo”; até final de 2015 está prevista a abertura de 58 novos hotéis em Portugal, 24 dos quais em Lisboa; o abandono escolar em Portugal continua acima da média da União Europeia; iniciou-se um programa de estágios para maiores de 31 anos; o secretário de Estado Adjunto da Administração Interna demitiu-se em divergência com a Ministra Anabela Rodrigues sobre políticas relativas ás polícias, que estavam na sua tutela; um preso a cumprir pena no Estabelecimento Prisional de Sintra saíu da prisão e decidiu ir à compras no vizinho Beloura Shopping, onde foi reconhecido por um guarda prisional;  a primeira auditoria feita ao Tribunal Constitucional colocou em causa a "fiabilidade" da prestação de contas da instituição e aponta várias irregularidades e descontrolo nas suas despesas.


ARCO DA VELHA - A tradicional broa de milho, um símbolo da gastronomia regional portuguesa, está a ser feita em parte com milho transgénico, sem que o consumidor tenha disso qualquer conhecimento e os distritos de Braga, Viana do Castelo e Porto são aqueles onde se verificam percentagens mais altas daquele cereal geneticamente modificado.


 


VER - Desde há alguns meses o Hotel Tivoli (Avenida da Liberdade 185), promove regularmente exposições de artistas contemporâneos e esta semana Pedro Calapez apresentou um conjunto de peças que intitulou “Além do Horizonte”, citando a obra de Eugene O’Neill. No hall de entrada do hotel está uma peça de grandes dimensões (na imagem), acrílico sobre alumínio, dois meios cilindros abertos, a remeter para a street art, intitulada “Half Pipe”. Dentro da Brasserie Flo, ao lado da entrada do hotel, uma sala magnífica, três quadros dominam o restaurante, visíveis de quase todas as mesas - foram feitos entre 2013 e 2015 e têm a designação genérica de “Horizontes”. As obras de Pedro Calapez vão estar no Tivoli até 22 de Julho num bom exemplo de cruzamento de um espaço que alberga públicos diversificados e cosmopolitas com a arte contemporânea. Outra exposição a ver, e também inaugurada esta semana, é “Cidades Invisíveis”, um conjunto de imagens fotográficas manipuladas, de Graça Sarsfield, que estarão na Galeria Giefarte (Rua da Arrábida 54 B) até 29 de Maio.


 


OUVIR - “Soundprints” é o disco de Joe Lovano & Dave Douglas que recupera a gravação de um concerto realizado em 2013 no Festival de jazz de Monterey. São seis temas - dois de Lovano, dois de Douglas e outros dois, novos, apresentados em público pela primeira vez nessa ocasião, de Wayne Shorter - que é assumido como uma das fontes de inspiração do quinteto. O trompete de Dave Douglas e o saxofone de Joe Lovano são acompanhados pelo piano de Lawrence Fields, o baixo de Linda Oh e a bateria de Joey Baron - e é este quinteto que tem actuado sob a designação de Soundprints, o nome da faixa inicial, e que se estreou precisamente em Monterey. O resultado é uma demonstração de ousadia musical e de entendimento entre os cinco músicos. Os meus temas preferidos são “To Sail Beyond The Sunset” , “Sprints” e “Power Ranger” - CD Blue Note.


 


PROVAR - No velho centro comercial Roma, que começou por ser Tutti-Mundi, houve obras de renovação. Agora no piso inferior há um espaço, “Cantinho do Paladar”, especializado em carne mertolenga. Os nomes dos menus são um bocado irritantes, género “Aconchego da Alma”, que signfica uma sopa de legumes e dois pastéis de massa tenra, bebida e café, tudo por 5,90 €. Os menus aliás variam até aos 7 € e os tais pastéis, que se vendem à peça a 1,50€ cada,  podem vir acompanhados por salada mista, por uns legumes estufados ou uma salada montanhesa. Os pastéis pretendem rivalizar com os da Frutalmeidas, do outro lado da rua, mas isso ainda está longe de acontecer. O recheio de carne é bom, bem temperado, mas a fritura que me calhou foi péssima - fritos demais, escurecidos e com demasiada gordura não escorrida - com a textura da massa e o seu sabor completamente aniquilados pela má fritura.  Há outras alternativas, como um inevitável hamburguer mertolengo - mas o que é bom mesmo é o prego especial, servido numa carcaça honesta, com mostarda de alcaparras e pickles - peçam-no mal passado e insitam porque a cozinha exagera no tempo de confecção. Também há bifes no prato com mandioca estaladiça, e vários menus de almoço e jantar. As mesas são sólidas e confortáveis e há algumas gulodices para rematar - desde um pudim de mel e azeite até uma torta de laranja - tudo calorias garantidas. Com muito maior cuidado na confecção talvez possa evoluir. Centro Comercial Roma, piso -2, loja 10/11., Avenida de Roma 48 B.


 


DIXIT - “Podemos dizer olhos nos olhos aos portugueses que aquilo que nos compremetermos a fazer na oposição é o que faremos no Governo. Só temos uma cara, só temos uma palavra” - António Costa


 


GOSTO - Da exposição Florestas Submersas, imaginada pelo japonês Takashi Amano para o Oceanário de Lisboa, e que conta com música ambiente de Rodrigo Leão.


 


NÃO GOSTO - Que Passos Coelho se tenha referido à morte de Mariano Gago sublinhando que o fazia “apesar de ter servido em Governos do Partido Socialista”.


 


BACK TO BASICS - É melhor saber colocar algumas perguntas do que querer ter respostas para tudo” - James Thurber


 

TELEVISÃO - O PROBLEMA DA RELEVÂNCIA

As audiências de televisão são instrumentos de estudo a vários níveis – capacidade de comunicação dos canais, capacidade de fidelização, o perfil dos espectadores, as oscilações de audiências e a sua causa. Conquistar audiências não é um papão – é uma medição da capacidade de comunicação de cada canal. Em Portugal, não só na televisão infelizmente, criou-se a perturbadora ideia de que ter pouco público pode ser bom se esse público for uma elite de compreensão superior – sendo que a definição da capacidade de compreensão é sempre um assunto terrível e perigoso. Para mim não há volta a dar a isto: ter pouco público significa que se comunica mal. Depois tem que se perceber se a razão de ser da má comunicação está na forma, ou se está no conteúdo; e por último ver se forma e conteúdo são adequados aos públicos que se quer tocar. Faz-me muita impressão que se separem as audiências da noção de relevância e que se contraponha a qualidade à massificação da comunicação. O universo da cultura contemporânea é indissociável da massificação – nas mais diversas formas de expressão da criatividade. Quem não procura audiências num qualquer órgão de comunicação é porque não entende papel dos Media na sociedade. E por mais relevância que se possa achar que os conteúdos têm, se eles não conseguirem audiências e renovação de espectadores é porque alguma coisa está mal.


 


(publicado na revista Sexta TV & Lazer do Correio da Manhã)

abril 22, 2015

ONDE ESTÁ E O QUE FAZ O IAB EM PORTUGAL?

IAB é uma sigla que quer dizer Interactive Advertising Bureau. A organização, que entretanto se espalhou por todo o mundo,  nasceu em 1996 nos Estados Unidos e agrupa empresas líder no sector da media, da tecnologia e da publicidade, que têm a responsabilidade de planear, concretizar e optimizar campanhas de publicidade e acções de marketing digitais. Nos Estados Unidos 86% da publicidade online passa por entidades associadas ao IAB – uma organização de refência que avalia e recomenda standards, métricas e procedimentos e que desenvolve investigação relacionada com a publicidade interactiva. Um dos objectivos da organização é proporcionar o desenvolvimento das empresas associadas, implementando programas de formação e estimulando a difusão do conhecimento sobre todo este universo junto de anunciantes, editores e companhias de Media, agências e toda a comunidade empresarial que tenha pontos de contacto com a publicidade online.



 


O IAB tem criado secções nacionais nos vários continentes e na Europa existe já em mais de duas dezenas de países. Em Portugal a sua formalização foi efectuada em 2013 - mas apenas no início deste ano teve o seu primeiro evento, uma Conferência inaugural – passaram portanto dois anos entre a sua constituição e o seu primeiro sinal público de vida. Infelizmente, e ao contrário do que se esperava, esse primeiro evento não teve desenvolvimentos concretos a nível de actividades que permitam que os objectivos enunciados a nível internacional pelo IAB se concretizem aqui. O contraste com a actividade do IAB Espanha é enorme – o espanhol realiza frequentemente acções de informação e de formação, tem uma actividade constante e regular de acompanhamento da indústria, obviamente através de meios digitais como o Facebook por exemplo (www.facebook.com/iabspain) .  Uma pesquisa rápida no Google e no Facebook não detecta presença online do IAB Portugal – o que é no mínimo um paradoxo: temos uma associação dedicada ao incremento da publicidade digital que não tem presença online. O IAB Portugal existe legalmente há dois anos, há cerca de seis meses foi reconhecido pelo IAB internacional mas a sua actividade prática é praticamente nula e nem sequer os seus estatutos são cumpridos - a Assembleia Geral, que se devia ter realizado até 31 de Março, ainda não foi convocada à data em que escrevo.


 


Numa época em que assistimos a enormes transformações na forma de ver televisão ou na utilização de multiecrãs, dados tão simples como os que o IAB internacional publica regularmente não são seguidos de forma sistemática em Portugal, como por exemplo este - www.iab.net/changingtv . Numa altura em que existem tantas questões relevantes – desde a compra programática até às métricas a utilizar, passando por normas de conduta, até à alteração de padrões de consumo dos Media,  a inexistência de uma actividade continuada, coerente e assertiva do IAB em Portugal é penalizadora para o desenvolvimento da indústria, quer a nível dos Media, quer das agências de meios, quer dos anunciantes. Os meus votos sinceros vão no sentido de que se consiga que o IAB em Portugal tenha num futuro próximo a actividade e a relevância que tem conseguido atingir nas mais de duas dezenas de países europeus onde também existe. Assim como está é que faz muito pouco sentido.


abril 17, 2015

O VERÃO QUENTE E O REGIME TRAVESTIDO

IMG_2802.JPG


TRAVESTI - Este ano assinalam-se 40 anos sobre o agitado Verão quente de 1975 e tudo indica que a temperatura política vai subir nos próximos meses em torno das concorridas pré presidenciais, da incógnita de coligação dos actuais partidos do Governo, do mistério das medidas a propôr pelo PS e dos resultados dos novos partidos e formações que se apresentarão a eleições. Não deixa de ser curioso que 40 anos volvidos sobre esse verão quente surjam tão abundantes sinais de uma situação política tumultuosa, pautada por disputas palacianas, total falta de ideias, desrespeito pelas promessas feitas aos eleitores, desinteresse dos cidadãos e sinais cada vez mais claros de um regime que está em evidente crise. Falta capacidade ao sistema para encontrar soluções governativas que garantam as mudanças necessárias, falta respeito dos partidos, dos políticos e do Estado pelas pessoas, sobra arrogância e prepotência. 40 anos depois do Verão quente a bagunça é diferente mas não é menos grave. Está é com mais maquilhagem, esborratada, como se o correr do tempo tivesse tornado o regime num travesti da política.


 


AGENDA - Neste sábado a revista “Monocle” realiza no Ritz, a sua “Quality Of Life Conference”, o primeiro evento deste género que organiza, e que vai animar o fim de semana lisboeta. Três dezenas de colaboradores da Monocle, incluindo o seu fundador e director Tyler Brulé, enquadrarão convidados de vários países que debaterão a situação dos media, da cultura, das cidades, do comércio e do urbanismo. Vai haver uma Monocle pop up shop na Entre Tanto, Rua da Escola Politécnica 42, até ao dia 26, e a conferência será transmitida em directo pela rádio em streaming da revista, a Monocle 24, disponível em app para iPhone ou iPad.


 


SEMANADA - Portugal está no 9º lugar entre os países com  maior consumo per capita de bebidas alcoólicas; está no 11º lugar na lista dos países com maiores impostos sobre os rendimentos do trabalho; seis em cada dez postos de trabalho criados em Portugal são estágios; os pilotos da TAP vão fazer uma greve de 10 dias no início de Maio quem tem um impacto estimado de 70 milhões de euros na já deficitária empresa; há três semanas o PSD e o CDS chumbaram uma proposta de reforço de meios técnicos e humanos das comissões de protecção a menores apresentada pelo PS e PCP e, depois da morte de duas crianças por maus tratos, a maioria parlamentar apresentou proposta idêntica à que reprovou; o actor português Diogo Morgado, que interpretou o papel de Jesus numa série norte-americana, desempenha agora o papel de Diabo na série “The Messengers”; o Ministro do Ambiente anunciou que a maioria da população terá um aumento nas tarifas da água; Ricardo Sá Fernandes acusou o PS de ser um partido minado pela cultura do favor e da promiscuidade e considerou que seria mau para o país o PS ter maioria absoluta; um acordão da Relação de Lisboa indica que Sócrates gastava quatro vezes mais do que ganhava como Primeiro-Ministro - no fundo foi a política que aplicou coerentemente a Portugal, gastar acima das nossas possibilidades; Manuel Maria Carrilho defendeu que António Costa devia propôr a expulsão de Sócrates do PS; a CMVM defendeu o pagamento integral do papel comercial vendido aos balcões do BES e criticou as posições defendidas pelo Banco de Portugal sobre esta matéria.


 


ARCO DA VELHA - O ministro Moreira da Silva obrigou as gasolineiras a vender combustíveis não aditivados, diminuíu a oferta anteriormente existente no mercado, não obteve uma redução dos preços de forma sensível, piorou a qualidade do combustível e proporcionou o aumento das margens das gasolineiras, tudo com a intenção anunciada de defender o consumidor que afinal sai prejudicado.


 


FOLHEAR - A edição de Abril da revista norte-americana “Fast Company” é um mimo para os fiéis da Apple. Na capa uma foto de Steve Jobs remete para a pré-publicação de uma nova biografia do criador da Apple, escrita por um dos editores da revista e que mostra uma nova faceta de Jobs. O título de capa da “Fast Company”  diz tudo: “Kind, patient, human, the Steve you didn’t know”. O livro, da autoria de Brent Schendler e Rick Tetzell, chama-se “Becoming Steve Jobs: The Evolution Of A Reckless Upstart into a Revolutionary Leader” e já está disponível como ebook. Num outro artigo Rick Tetzell escreve sobre a verdadeira herança de Steve Jobs na Apple. E, por fim, Brent Schendler e Rick Tetzell entrevistam Tim Cook sobre o momento actual e o futuro próximo da Apple. Uma edição absolutamente incontornável. Já agora experimentem a nova app da “Fast Company” para iPhone e iPad onde, mesmo sem fazerem uma assinatura, podem ler diariamente novos artigos da revista. E, claro, se quiserem esta edição da “Fast Company” basta comprá-la no Quiosque da App Store ou numa boa loja de revistas importadas.


 


VER - A nova exposição de André Gomes, inaugurada esta semana na Casa-Museu Medeiros e Almeida, representa uma evolução significativa na relação do autor com a imagem fotográfica. Durante muitos anos André Gomes explorou as potencialidades de manuseamento de Polaroids, aos poucos foi introduzindo modificações de imagem que o digital tornou possíveis , mas nesta mostra, “Vozes Interiores”, usa as potencialidades da tecnologia na criação de uma nova forma de colagens, que potencia a alteração de ambientes, de realidades e de situações. O conjunto das obras expostas (como a da imagem) retrata a casa do autor, o seu universo pessoal, que aliás tem sido recorrente na sua obra. Obsessivo por vezes, simbólico noutras ocasiões, André Gomes tem nestas “Vozes Interiores” a sua mais interessante exposição dos últimos anos, a mais inovadora, aquela que mostra mais sinais de uma adaptação da sua criatividades às novas possibilidades tecnológicas, transportando de facto a sua fotografia para outro plano. Destaque ainda para o magnífico catálogo, possível graças ao patrocínio da BlueCrow Capital. A Casa-Museu Medeiros e Almeida fica na Rua Rosa Araújo 41 e ficará patente até 27 de Junho. Se quiserem uma sugestão adicional até dia 19 ainda poderão ver a Mostra, em Alvalade (Rua do Centro Cultural nº2) e recomendo que descubram as obras propostas por Paulo Brighenti, por Teresa Segurado Pavão, por José Maçãs de Carvalho, Maria do Mar Rego, Martinho Costa e Luis Alegre, entre outros.


 


OUVIR - José James, um americano com origens familiares no Panamá, é um dos cantores de jazz contemporâneos que mais surpreendentemente mistura estilos - desde os temas vocais mais clássicos do jazz até momentos com clara inspiração no hip hop. James é um fã confesso de Billie Holiday, cujo centenário se celebra agora, e foi o produtor da compilação de Lady Day de que aqui falei na semana passada, “God Bless The Child - The Best Of Billie Holiday”. José James diz que Billie foi a sua mãe musical e neste seu CD, “Yesterday I Had The Blues”, ele interpreta nove temas tornados célebres por Billie. Fez-se acompanhar de um elenco de luxo, com Jason Moran no piano e uma secção rítmica à beira da perfeição, com John Patitucci no baixo e Eric Harland na bateria. Destaque para as interpretações de “Good Morning Headache”, “Lover Man” e “Strange Fruit” - mas a minha favorita é “What A Little Moonlight Can Do”. A produção é do competente Don Was e sente-se que este é um disco feito com paixão - desde os solos de Jason Moran, à voz de James. CD Verve, no El Corte Ingles.


 


PROVAR - Instalado na Marginal desde há décadas, mais precisamente desde 1958, à saída de Oeiras em direcção a Lisboa, o Saisa é um clássico que disfruta de uma localização única, com uma ampla varanda em cima do mar com vista para o Bugio, a barra e a praia de Santo Amaro de Oeiras. A esplanada dessa varanda é um dos melhores pontos para um almoço tardio ou para um petisco de fim de tarde. A casa é célebre pela sua paella (para duas pessoas), pela pescada à vasca e pelos filetes à Saisa, filetes de linguado de boa fritura acompanhados por batata cortada aos pequenos cubos e salteada com pedacinho de chouriço. A casa mantém a mesma gerência desde há anos, os empregados são simpáticos e o serviço é escorreito, os preços são aceitáveis. Se não arranjar lugar na esplanada perde metade do encanto mas a sala tem vidros largos e é grande. Aqui está um clássico que, no meio da modernice que anda para aí a fazer descongeladoa no micro ondas, merece respeito e visitas mais frequentes. Telefone 214 430 634.


 


DIXIT - “O pensamento de Fernando Medina é um misto de fatalismo e de branqueamento de responsabilidades” - Pedro Braz Teixeira, investigador da Nova School Of Business and Economics


 


GOSTO - Da ideia de criar um Provedor do Contribuinte


 


NÃO GOSTO - Das obras paradas na envolvente do Mercado da Ribeira


 


BACK TO BASICS - O maior mistério em qualquer Governo não é perceber como funciona, mas sim como se podem parar os seus abusos - P.J. o’Rourke

COMO VAI SER O FUTURO DA TV

Um estudo da Nielsen, efectuado nos Estados Unidos, mostra que cada vez mais pessoas abandonam o visionamento de canais de televisão tradicionais e vêem vídeo de outras formas, maioritariamente on line e em dispositivos móveis. A evolução tecnológica está a alterar a forma de ver televisão, e abrange de forma particularmente relevante os espectadores entre os 15 e os 34 anos. No final desta década é provável que já exista mais gente a ver vídeo em streaming ou por outros processos online do que através de emissões tradicionais de televisão.


Mas enquanto estamos nas condições actuais a televisão tradicional ainda ocupa um lugar relevante e em Portugal as posições relativas dos canais generalistas parecem estar perfeitamente estabilizadas, com a TVI a liderar e a reforçar a sua posição nos segmentos horários onde ainda não ganhava, com a SIC confortável no segundo lugar a fazer escolhas de conteúdos adequadas ao seu público alvo e que também garantem audiências comercialmente relevantes, e com a RTP numa encruzilhada. Se tomarmos como referência a importante área da região da Grande Lisboa a RTP1 anda nos 13% de share e a RTP2 nos 1,2%, com nove canais de cabo à sua frente. A RTP Informação nem aparece na lista dos 15 canais mais vistos na região. Resta esperar que a nova estrutura da RTP consiga mostrar que sabe conciliar o que entende ser serviço público com captação de públicos.Vai ser um ano curioso.


(Publicado a 17 de Abril na revista Correio da Manhã - SEXTA tv & lazer)

abril 10, 2015

QUALQUER DIA HÀ UMA CADERNETA DE CROMOS COM OS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

IMG_2845.JPG


PARADOXOS - Confesso que nestes dias que correm aquilo que mais me choca é estar o país político a discutir quais serão os candidatos à Presidência e ninguém estar a discutir quais os problemas do país e quais as propostas para a sua resolução, apresentadas pelos partidos que concorrem às legislativas daqui a seis meses. Todas as semanas tem aparecido um novo proto-candidato presidencial e o país ocupa-se a discutir se  há mais divisões à esquerda ou à direita, se há mais tabus do lado de personalidades do lado PS ou do lado do PSD. A intriga fomentada em torno dos putativos candidatos presidenciais serve para esconder a ausência de ideias sobre as melhores políticas para o país. As condições estão assim criadas para uma tempestade perfeita na política. As eleições legislativas, que irão resultar num novo Governo, decorrerão entre meados de Setembro e meados de Outubro. Menos de quatro meses depois, em Janeiro, decorrerão eleições para a Presidência da República, cuja data deverá ser estabelecida com um mínimo de 60 dias de antecedência - o que quer dizer que, para os efeitos práticos, a campanha eleitoral para a Presidência começará poucos dias depois da eleição da Assembleia da República e terá o seu pico a partir de Dezembro. O que mais me espanta neste calendário eleitoral, que o actual Presidente, Cavaco Silva, poderia ter alterado se quisesse, é o facto de, mesmo na situação de crise em que estamos, se achar normal ter seis meses seguidos de campanha eleitoral, com inevitáveis paralisias políticas a nível do Governo, da Assembleia e do esfíngico Palácio de Belém. Daqui a dois meses vamos começar a ser bombardeados com propaganda partidária, com muito barulho e, até ver, muito poucas propostas concretas. Quer-me parecer que a abstenção vai ser uma coisa jeitosa - teoricamente grande parte dos nascidos em 1997, praticamente no virar do século passado, poderão votar. E será que se revêem em alguém no meio desta absurda confusão de eleições, da proliferação de candidatos e de ausência de ideias? E já nem falo do pequeno pormenor de termos uma lei eleitoral analógica quando o país já é digital. Paradoxos que servem a quem não quer mudar nada.


 


SEMANADA - Segundo a agência europeia da segurança aérea a Alemanha não respeita há vários anos as normas de controlo de segurança, em particular no seguimento médico dos pilotos; em Portugal o relatório anual de segurança interna indica um aumento de 8,1% de crimes nas escolas, um aumento de 37,2% de roubos a multibancos, de 26,1% de furtos em transportes públicos e de 8,7% em violações; desde 2008 o sector da hotelaria e restauração perdeu 44 mil postos de trabalho; mais de 60% dos hotéis e restaurantes estão em grave risco de falência, segundo um estudo da Comissão Europeia; as receitas turísticas atingiram em 2014 um novo máximo histórico de 10.394 milhões de euros; há mais de 12 mil pessoas com acesso à informação fiscal dos cidadãos, sem qualquer regra definida na lei; em 2014 foram feitas 13 553 escutas telefónicas; a Starbucks está a ser investigada pelas autoridades e governos europeus por suspeitas de fuga ao fisco; a taxa sobre sacos de plásticos já rendeu ao estado 1,6 milhões de euros apenas pelos stocks antigos declarados; o novo Código do Procedimento Administrativo prevê que atrasos da administração pública podem obrigá-la a pagar indemnizações; a venda de automóveis novos cresceu 33,1% no primeiro trimestre do ano; Portugal já tem 107 hospitais privados e existem 119 públicos; a suspensão do leilão dos quadros de Miró que pertenciam ao BPN já custou 1,9 milhões de euros aos contribuintes.


 


ARCO DA VELHA - Escutas divulgadas esta semana relativas ao caso dos vistos gold indicam que na investigação foram feitas escutas ao juiz presidente da Relação de Lisboa, que se teria disponibilizado a apoiar “em tudo o que seja necessário” o presidente do Instituto dos Registos e Notariado sobre quem existem suspeitas de corrupção.


 


FOLHEAR - Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores a editora Guerra e Paz tem vindo a publicar a colecção “o fio da memória”, basicamente conversas de José Jorge Letria com criadores de diversas áreas. Recentemente foram publicadas conversas destas com António Victorino d’Almeida, João Abel Manta e José-Augusto França. O que me agrada nesta colecção é a forma como José Jorge Letria consegue ir dentro das memórias dos seus entrevistados, fazendo-os contar histórias, recordar episódios que os marcaram, mas também dar opiniões e definir escolhas. Ao lado das conversas surgem sempre fotografias de arquivo, dos álbuns pessoais dos entrevistados, , muitas a mostrá- los no seu ambiente pessoal. ao lado de amigos ou em situações que por alguma razão os marcaram. Destas edições mais recentes destaco a de João Abel Manta, pelo tom afirmativo e pela convicção das opiniões, e a de José-Augusto França pelas pequenas hitórias que conta e que me permitem descobri-lo. O título do volume que lhe é consagrado é aliás um episódio: “Com o O’Neill falava de janela para janela”.


 


VER - Por estes dias Lisboa vai andar numa animação - a Lisbon Week, organizada por Xana Nunes, centrou a atenção em Alvalade. Desde dia 10 a dia 19 esta semana lisboeta percorre o património,  a arquitectura e mostra a fotografia, a arte e o desenho que nascem em Alvalade - esse bairro nascido nos anos 50, que marcou de forma decisiva a mudança de vivência da cidade e que albergou desde o novo cinema português até aos primórdios do pop e do rock, depois o punk, mas também as novas modas. Da Avenida de Roma ao Campo Grande, aquela parte da cidade vivia em ebulição desde o final dos anos 60, marcando os anos 70 e os anos 80. A zona viu nascer e crescer uma geração, albergou escolas emblemáticas, salas de concertos que ficaram para a história, discotecas, livrarias, mas também uma zona industrial em plena cidade nova. Há edifícios marcantes como a Biblioteca Nacional, zonas de ruptura como a Cidade Universitária, edifícios como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil ou o Instituto Superior Técnico. Porfírio Pardal Monteiro, a quem é dedicada uma exposição marcante desta Lisbon Week, deixou obra em toda a Alvalade e áreas limítrofes. Neste bem imaginado roteiro da Lisbon Week há dez pontos fundamentais a visitar, desde a Biblioteca Nacional (na imagem) aos ateliers dos Coruchéus, passando pela exposição documental, fotográfica, no Centro Comercial de Alvalade ou uma incursão na obra de Maria Keil numa estação de Metro. Existem exposições especiais, como a Mostra de Arte, dedicada à arte contemporânea, na Rua do Centro Cultural, em plena antiga zona industrial - ver www.mostradearte.com. Até uma regata de barcos a remos no lago do Campo Grande  vai acontecer por estes dias. Vejam todas as informações em lisbonweek.com. Para mim este é o melhor programa de todas a as edições que já vi da Lisbon Week. Mas a verdade é que nasci e cresci em Alvalade e quando lá passo sinto sempre saudades.


 


OUVIR - Billie Holiday teria feito 100 anos a 7 de Abril - mas morreu cedo, aos 44 anos, depois de uma carreira que havia também começado bem cedo - tinha ela pouco mais que 15 anos. Não estudou música mas ouvia o seu pai a tocar guitarra e reza a lenda que Bessie Smith foi a sua grande inspiração. Aquilo que a tornava diferente era  a sua forma de interpretar - às vezes quase uma conversa, outras vezes um lamento, por vezes uma provocação, muitas vezes a voz do desejo - como é tão evidente nas suas versões de standards como “My Man”, “Stormy Weather”, “These Foolish Things” ou “Prelude to A Kiss” - só para citar alguns. A sua grande década de gravações localizou-se nos anos 50, sobretudo na primeira metade. Assinalando o seu centenário, a editora discográfica Verve incumbiu um admirador confesso de Holiday, o cantor José James, de fazer uma compilação das grandes interpretações de Lady Day. O próprio James gravou agora um álbum seu de homenagem, “Yesterday I Had The Blues”, de que aqui falarei para a semana. O que interessa agora é esta excelente compilação, “God Bless The Child - The Best Of Billie Holiday”. Procurem-na e guardem-na bem. É um belíssimo disco - 14 temas históricos que rendem homenagem a Billie da melhor forma que há - ouvindo-a.





PROVAR - A moda é uma coisa que convive mal com a restauração. Sobretudo a moda alimentar. Num destes dias caí na esparrela de acreditar que poderia haver alguma coisa de relevante no restaurante Barrosã, em Alvalade, que se anuncia como especialista em hamburgueres feitos de carne proveniente da região que lhe dá o nome. Lá fui ao engano, saí desiludido e irritado. Em jeito de entrada pedi uma empada que se revelou abaixo da média no recheio, seco e sem graça. O hamburguer, pedido mal passado, veio compactado como um saco de cimento ao sol, cozido e sem sabor. A única coisa assinalável foi a boa fritura das finas rodelas de batata doce. O ovo a cavalo vivia da mesma falta de sabor e  mostrou que precisava de muitas aulas de equitação. A cerveja que acompanhou era espanhola, Estrella Damm, não particularmente interessante - qualquer das portuguesas a vence com facilidade. Uma coisa que me irrita é nestas casas haver pouca possibilidade de escolha de marcas de cerveja e muitas vezes só existir imperial e não cerveja de garrafa. Odeio beber o que não quero e não ter escolha possível. Acho que vou passar a escolher restaurantes que não tenham Estrella Damm. Em resumo - 13 euros por um hambuguer sem graça é caro em qualquer sítio. Com duas imperiais, a empada desconchavada e o café a conta chegou quase a 20 euros. Demasiado para a falta de qualidade. A esta Barrosã não voltarei. Rua Augusto Palmeirim 10, perto do mercado de Alvalade.


 


DIXIT - "Estamos fartos das baladas dos Scorpions que a senhora Merkel tenta impingir-nos" - Vitor Paulo Pereira, Presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura


 


GOSTO - A Sogrape ocupa o quarto lugar na lista das 100 melhores empresas vitivinícolas do mundo da Associação Mundial de Críticos e Jornalistas de Vinhos.


 


NÃO GOSTO - Lisboa tem agora um Presidente da Câmara que não foi eleito para a função.


 


BACK TO BASICS - “Quando era miúdo diziam-me que qualquer pessoa podia aspirar ser Presidente; começo agora a acreditar nisso” - Clarence Darrow.


 


 

CONCURSO DIÁRIO DA TVI ROUBA ESPECTADORES À RTP

Aquilo que era inevitável finalmente aconteceu – a TVI resolveu desafiar a liderança da RTP no acesso a horário nobre com o concurso “O Preço Certo”, do até aqui invencível Fernando Mendes,  e contrapôs-lhe “Money Drop”, outro concurso do mesmo género, apresentado também ao fim da tarde, à mesma hora, por Teresa Guilherme. “O Preço Certo” que em Janeiro e Fevereiro fazia números frequentemente acima de um milhão de espectadores, caíu na semana passada para 619 mil espectadores e o concurso da TVI venceu-o com 710 mil espectadores. Este horário de fim de tarde é particularmente importante porque coincide com o momento em que mais gente chega a casa, liga a televisão e a audiência global aumenta – portanto aqui estamos a falar de números com peso nas médias de audiência, na publicidade e e, também, na forma como depois os canais entram nos jornais das 20h00. O resultado é que o Telejornal há semanas atrás garantia um milhão e cem mil espectadores, na semana passada ficou-se pelos 860 mil. Este efeito de arrasto devastou já as médias diárias e semanais do operador público – de 16,3% de share no  final de Janeiro caíu agora para os 13,5%. Neste momento, para além da informação, o único conteúdo de exibição diária que segura audiências na RTP é também a única produção de ficção da RTP1, “Bem-Vindos A Beirais”, um raro exemplo de um conteúdo original português no principal canal do operador público. Nos outros canais generalistas “Mar Salgado”, da SIC tem conseguido resistir à novela “A Única Mulher” da TVI  e nas noites de sábado o “Masterchef” da TVI aumentou a sua vantagem sobre “Shark Tank”, na SIC.


(Publicado na Sexta TV & Lazer do Correio da Manhã de 10 de Abril)

abril 02, 2015

SOBRE A TELEVISÃO ELEITORAL

IMG_2847.JPG


 


DEBATES - Cada vez que há eleições o tema dos debates na TV volta à baila e pelos pior dos motivos - a obrigatoriedade legal de emitir discussões enfadonhas e infindáveis entre todos os concorrentes,  num formato estabelecido e regulamentado há 40 anos, num período político muito particular, logo nas primeiras eleições de 75, e num universo mediático completamente diferente - apenas um operador de televisão, poucas estações de rádio, grande parte da imprensa estatizada. O predomínio do Estado na comunicação e nas audiências era total (o contrário do que hoje se passa), já para não falar da inexistência do novo mundo virtualmente infindável do digital. Desse tempo ficou apenas o espectro de uma espécie de rejeição pelo debate político e de ideias quotidiano, reduzido quase só aos períodos eleitorais. Aqui ao lado, em Espanha, o bem produzido programa de debate “La Noche”, emitido aos sábados no canal La Sexta, tem conseguido audiências acima da média e foi uma rampa de lançamento para novos políticos e novas organizações, entre as quais o Podemos - ou seja, pôs em causa a velha política e os seus envelhecidos actores. Os debates, que devem ser momentos animados em vez dos monólogos dos comentadores, que são maioritariamente ex-dirigentes partidários dos velhos partidos políticos, podem ser, se forem bem moderados e produzidos,  pólos de atracção de audiência como o La Noche tem mostrado - além de desempenharem um fundamental papel no estimular da participação cívica e no acompanhamento dos principais temas em discussão. A chave da questão, em épocas eleitorais ou não, é conseguir separar o interesse informativo do interesse partidário, ou seja, da mera propaganda.  Em ano de início de ciclo eleitoral era bom reflectir nisto tudo e no muito que nos falta para passarmos do comentário partidário fechado à discussão aberta de ideias - aqui está um dos desafios da comunicação para os próximos anos, e não apenas nas épocas eleitorais.


 


SEMANADA - António Costa contradisse o que havia prometido na sua campanha eleitoral e renunciou ao mandato de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa; dias antes, num comício no Porto, o mesmo António Costa pediu a maioria absoluta nas próximas eleições, já depois de se saber que o PS havia sofrido uma derrota assinalável na Madeira, passando para o terceiro lugar, atrás do CDS; ao fim de quase 40 anos Alberto João Jardim deixou de ser Presidente do Governo Regional da Madeira, mas mesmo sem ele o PSD venceu as eleições; a abstenção nas eleições regionais da Madeira ficou acima dos 50%; Juntos Pelo Povo, JPP, é o nome do novo partido que nas eleições da Madeira conseguiu igualar o número de deputados do Partido Socialista; a Fitch manteve o rating de Portugal no lixo; a taxa de desemprego subiu em Fevereiro para 14,1, uma subida de 0.3 em relação a Janeiro - há cerca de 720 mil desempregados; o número de furtos praticados por carteiristas aumentou 36,3% no ano passado; no mesmo período a criminalidade juvenil, praticada por jovens entre 12 e 16 anos, subiu 23,4%; a aplicação  whatsapp, que tem 700 milhões de utilizadores em todo o mundo, ultrapassou o sms em número de mensagens enviadas; Rui Tavares, do Livre, é o político português mais activo no Twitter, segundo um estudo da Universidade Católica, colocando a questão da relação da popularidade no Twitter com o peso eleitoral; Mark Zuckerberg, do Facebook, lidera a lista dos milionários mais mediáticos do mundo; um terço dos quadros médios e superiores portugueses lê notícias nos tablets; a Abelha Maia fez esta semana 40 anos.


 


ARCO DA VELHA - No centro de Lisboa, numa urbanização nova, há duas ruas sem nome desde 2012,  prédios sem morada, estacionamento caótico, o carteiro não sabe onde entregar a correspondência, ambulâncias, bombeiros e taxis não sabem onde ir - e tudo porque a Câmara Municipal ainda não agendou quando terá tempo para dar nome à morada de quem já paga imposto.





FOLHEAR - A edição de Abril da revista "Monocle" tem como temas principais a moda e o seu comércio, mas como é habitual aborda uma série de assuntos muito abrangente - desde um espreitadela ao guarda roupa e ao estilo de Varoufakis a uma deliciosa conversa com Peter Mead, uma das figuras históricas da publicidade britânica. Uma coisa muito curiosa nesta construção da "Monocle" ao longo dos seus oito anos de vida é a forma como ela evoluíu na internet. De revista em papel, com características inovadoras à época, tornou-se numa plataforma de conteúdos que tem uma estação de rádio, com programação cuidada, cheia de debates e ideias bem conjugadas com informação, com dez magazines semanais e quatro diários, uma rádio que funciona 24 horas por dia  em streaming. O site da revista oferece conteúdo exclusivo de fotografia e vídeo feitos por uma equipa própria, com uma estética cuidada e que complementam a edição impressa de uma forma rara: “we value the craft of film making”, como a revista sublinha. O curioso, e interessante, é que a "Monocle" nunca disponibilizou os seus conteúdos da edição original em papel a não ser aos seus assinantes que a recebem pelo correio, evitando aplicações abertas. No editorial desta edição, Tyler Brulé, o fundador, anuncia novos projectos, como guias de cidades e em meados deste mês, a "Monocle" lança em Lisboa um novo formato - o das conferências, com a inaugural "Quality of Life Conference", que de 17 a 19 de Abril vai trazer a Portugal um conjunto alargado de especialistas que irão debater o futuro da vida nas cidades e nas instituições que as servem. Na realidade a “Monocle” constrói um ecosistema comunicacional próprio, para um publico fiel, que vai alargando com novas iniciativas.





VER - Ana Vidigal gosta de percorrer as suas memórias com recurso a imagens datadas. Podem ser pedaços de coisas banais - como já aconteceu com banda desenhada, ou então, como agora, com capas e páginas de edições antigas das Selecções do Reader’s Digest.  A ideia é manusear estas imagens-memória, ocultando texto e realçando apenas algumas palavras, como se cada obra tivesse implícita uma mensagem, às vezes quase um slogan, outras vezes um verso solto de uma frase incompleta que fica no ar. O resultado é semelhante ao de decifrar um labirinto.  O nome da exposição é “Amuse Bouche” e fica até 24 de Abril na Galeria Diferença, Rua de São Filipe Nery 42, ao Rato. Outras sugestões para esta semana: na Galeria João Esteves de Oliveira ( Rua Ivens 38), até 30 de Abril, estão desenhos de projecto de Ricardo Bak Gordon, o terceiro arquitecto a expor nesta galeria os seus desenhos, depois de Álvaro Siza e de Eduardo Souto Moura. Estão expostos 24 esquissos de projectos que vão desde casas individuais a prédios de apartamentos, passando por peças de mobiliário; e na Vera Cortês Art Agency, uma exposição de imagens, sons e ambientes,  Restless - a partir da ideia do registo fotográfico André Romão expõe observações, faz encenações e sugere maneiras de ver e sentir - Av. 24 de Julho 54- 1º-esq até 2 de Maio.


 


OUVIR - Três mulheres norueguesas, Anna Maria Friman na voz e violino, Linn Andrea Fugiseth na voz e orgão portátil e Berit Ophein na voz e carrilhões integram o Tio Mediaeval - uma formação que busca inspiração na tradição musical antiga, com incursões por sonoridades contemporâneas. No seu disco mais recente, “Aquilonis”, interpretam temas populares tradicionais, maioritariamente de inspiração religiosa, como o “Ofício de São Thorlak”, do século XIV, e composições contemporâneas de Andrew Smith e de outros compositores, como Anders Jormin, William Brooks e de elementos do próprio trio. Há referências a melodias da música sacra italiana do século XII, a baladas inglesas do século XV, os arranjos dos temas tradicionais são das três intervenientes e a edição é da ECM. O disco é de uma serenidade avassaladora, foi considerado uma das edições a reter de 2014 pelo New York Times. John Potter, dos Hilliard Ensemble é um dos mentores do Trio Mediaeval e descreve o grupo como “uma sintese de sons e atmosferas que misturam histórias e geografias diversas”.


 


PROVAR -  A receita original é austríaca, tornou-se popular em Nova Iorque e em Lisboa tem revoadas - falo dos bagels, esse pão redondo, alto, com um furo no meio, uma espécie de donut sem ser doce. A mais recente destas revoadas aterrou pela mão de franceses em Campo de Ourique, no nº 120 da Rua Silva Carvalho, em frente ao antigo British Hospital. Vendem-se à unidade, simples, com sementes de sésamo ou papoila, para levar para casa para o pequeno almoço, a um euro cada um. Ou podem provar-se no local na versão de almoço ou de lanche. Ao almoço há bagels de atum, frango, salmão fumado, queijo cheddar ou totalmente vegetariano, servidos sempre com rúcula ou outros vegetais, muitas vezes com queijo philadelphia - e ainda há saladas mistas ou coleslaw (cebola, couve, cenoura, tudo cortado em juliana e envolvido num molho especial). Para sobremesa há muffins, cookies caseiros (bem bons) e brownies. Ao lanche o bagel pode vir com nutella, compota ou manteiga. Um bagel bem recheado fica pelos cinco euros e meio. O dono, Raphael, é de origem austríaca e tem exposto numa vitrina o livro de receitas da avó, com a receita da massa dos bagels. É do seu nome, Raphael, que vem a designação do local - Raffi’s Bagels. Tem duas mesas no interior e quatro na pequena esplanada.


 


DIXIT - Se estiver num barco a meter água no meio de uma tempestade é melhor estar ao leme” - António Horta Osório, sobre os seus primeiros tempos à frente do Lloyds Bank.


 


GOSTO - Belo programa o da Lisbon Week deste ano. Preparem-se, abre dia 10 de Abril, fica por Alvalade, vai até dia 19, e o programa está em lisbonweek.com/pt  com destaque para duas exposições dedicadas a Pardal Monteiro e a Maria Keil.


NÃO GOSTO - Da conjugação de greves simultâneas de transportes em Lisboa, como a que vai acontecer dia 10, paralisando o Metro e a Carris e deixando os utentes sem  alternativas.


 


BACK TO BASICS - “Só os simples acham que se conhecem a si próprios” - Oscar Wilde

março 27, 2015

SOBRE A PROLIFERAÇÃO DE ABUSOS DO ESTADO E A INDIFERENÇA DOS PODERES

IMG_2840.JPG


ABUSOS - Há uma série de países em que partidos como o português CDS-PP fazem gala em defender os direitos dos cidadãos e proteger os contribuintes dos abusos e dislates do Estado. Por cá já se percebeu, pela actuação de Paulo Núncio e da Autoridade Tributária que tutela,  que o PP desistiu desse posicionamento e passou a achar normal o princípio de que o Estado se sobrepõe aos cidadãos. Mas a culpa principal da situação a que se chegou não é dos partidos - é da falta de fiscalização de quem deve arbitrar a relação entre os vários poderes e, sobretudo, regular a relação entre quem governa e quem é governado. Se tivéssemos um Presidente da República em vez de um prefaciador talvez pudéssemos ter alguém que chamasse a atenção para a importância de o Estado ser uma pessoa de bem e não espezinhar os direitos básicos dos cidadãos. O papel regulador que o Presidente da República podia ter na defesa do equilíbrio entre o poder e os direitos não é exercido e esse é um dos maiores problemas na origem da maneira como o regime se degrada. O Presidente da República não chama a atenção para os erros do Governo, para abusos que tolera e até impulsiona, e em vez disso fica calado a prefaciar sobre as melhores características de um candidato à sua própria sucessão. Um Presidente da República interveniente não deixaria de fazer notar que um país não pode avançar quando a principal actividade económica é deixar uns abrir buracos, que outros depois tapam - uma actividade de décadas que tem originado corrupção e clientelismo. Nestes anos o Poder tem sido fértil a incentivar abusos. Talvez a resolução desta triste situação pudesse ser um dos temas das campanhas eleitorais que aí vêm.


 


SEMANADA - A Ministra das Finanças admitiu que tinham existido falhas na supervisão na queda do BES; apenas sete dos 17 candidatos iniciais entregaram propostas para compra do Novo Banco; Henrique Neto anunciou ser candidato à Presidência da República e vários notáveis do PS mostraram-se surpreendidos e criticaram a sua decisão; o candidato diz que Marcelo é quem mais receia à direita e que Rui Rio é aquele com quem mais se identifica;  interrogado sobre as eleições presidenciais Guilherme de Oliveira Martins afirmou não estar “numa fila de candidatos ou de candidatos a candidatos”; Augusto Santos Silva afirmou que “falta ao centro-esquerda um candidato forte e mobilizador”; a factura dos juros da dívida portuguesa cresceu 51% nos dois primeiros meses do ano; a Ministra das Finanças congratulou-se por ter os cofres cheios, embora parcialmente à custa de nova dívida; a Associação Académica de Coimbra recusou o convite para participar num almoço de Passos Coelho com dirigentes estudantis; o PCP propôs a instalação da Feira Popular no Parque das Nações; o advogado de José Sócrates, João Araújo, disse numa entrevista que “jornalistas e comentadores falam sobre o caso Sócrates como se fossem bêbados”; a estreia de Shark Tank na SIC ficou em 12º lugar da lista dos programas mais vistos na televisão durante a semana passada; as exportações para Angola sofreram em Janeiro a maior queda dos últimos cinco anos; quase três mil enfermeiros pediram à Ordem para emigrar no ano passado; António Ventinhas, Presidente do Sindicato dos Ministério Público, disse que o ex-procurador Geral da República, Pinto Monteiro, instaurava “processos disciplinares ou abria processos de averiguações a todos os procuradores que ousassem investigar os mais poderosos”.


 


ARCO DA VELHA - Para assinalar o segundo ano do mandato à frente do Sporting Bruno Carvalho quis resguardar-se de olhares indiscretos colocando, pela primeira vez na história do clube, película fosca nos vidros do Camarote de Honra do Estádio José de Alvalade, para que não se veja o que lá se passa. A bem da transparência, imagina-se.


 


FOLHEAR - Os presentes inesperados são os melhores e, na semana passada, tive o prazer de receber um exemplar do “Dictionnaire Amoureux du Journalisme”, escrito por Serge July - o homem que fundou o “Libération” e o dirigiu ao longo de  33 anos - uma referência para uma geração de profissionais da comunicação. Neste livro July mostra a sua visão da historia dos media, da época de ouro dos jornais aos novos media digitais, das reportagens aos ensaios que ajudam a mudar a forma de pensar dos leitores. Ao longo de cerca de 900 páginas, July percorre nomes e obras essenciais da história do Jornalismo, do clássico Heródoto a Joseph Pulitzer, de Daniel Defoe a Gabriel Garcia Marquez, de Tintim a Curzio Malaparte, de John Reed a Tom Wolfe, de Voltaire a Émile Zola, de Robert Capa a Hemigway , dos paparazzis ao new journalism. Construído em torno de pequenas histórias que evocam factos e personagens, quase uma sucessão de artigos que se vai lendo à procura de novas descobertas, este livro é apaixonante. Edição Plon, disponível na amazon.fr .


 


VER - Merece ser seguida com atenção a programação da Festa do Cinema Italiano, que decorre entre o cinema S. Jorge e a Cinemateca Nacional e que tem uma extensão especial no cinema Nimas com a exibição de uma dezena de cópias restauradas e digitais das obras de Roberto Rosselini como “Stromboli” (na imagem)  e “Viagem em Itália”. Até ao final do mês, em Lisboa, há 10 filmes para ver do grande mestre italiano e mais tarde, alguns dos filmes vão ser exibidos no Porto, Braga, Coimbra e Castelo Branco. A partir de 9 de abril, este ciclo dedicado a Rossellini estará no Teatro Municipal do Campo Alegre, no Porto e alguns dos filmes chegarão também a Braga, Coimbra e Castelo Branco.  Na programação “oficial” da Festa, destaque para série Gomorra, cujos sete episódios serão exibidos integralmente em grande ecrã e depois passarão na RTP 2 até dia 2 de Abril. Outros filmes a não perder são “Que Estranho Chamar-se Frederico”, de Ettore Scola, “Almas Negras” de Francesco Munzi, “O Rapaz Invisível” de  Gabriele Salvatores, ou “Corações Inquietos” de Saverio Constanzo


 


OUVIR - Van Morrison nasceu em Belfast há quase 70 anos. O seu primeiro disco a solo é de 1967, há 48 anos portanto, aquela que foi a sua grande revelação, “Astral Weeks”, é do ano seguinte e “Moondance”, outra referência, é de 1970. Antes disso, com os Them, já tinha gravado “Gloria”, uma canção marcante e épica que o acompanha ao longo da sua carreira. As influências musicais de Van Morrison estão claramente nos blues, muito por causa da música que ouvia em casa dos seus pais durante a adolescência. Por isso não deixa de ser curioso que agora, a chegar aos 70 anos, se dedique de novo a explorar as sonoridades dos blues, revisitando temas de toda uma carreira. Há sempre um risco enorme em fazer um disco de temas clássicos, pessoais, sob a forma de dueto entre o autor e um convidado e é  raro a coisa dar certo. Tenho para mim que a razão do equilíbrio destes “Duets - Reworking The Catalogue”, de Van Morrison, é precisamente a sua dedicação aos blues e é por isso que ele resulta tão bem, seja quando canta ao lado de Georgie Fame, seja quando está com Marvis Staple, Gregory Porter, Chris Farlowe, George Benson, ou o grande Taj Mahal, que encerra os 16 temas deste CD com uma vertiginosa versão de “How Can A Poor Boy?”, que é um manual de como se pode ter prazer a interpretar uma canção. A compilação foge ao óbvio e, como se dizia num dos meus discos preferidos, “ a splendid time is guaranteed for all”.


 


PROVAR - A Champanheria fez nome em Setúbal com as ostras do Sado, entre as quais as famosas “les Portugaises”, e em Dezembro estreou-se em Lisboa, nas Avenidas Novas, com a porta a abrir ao fim da tarde para uma happy hour em que a proposta é meia dúzia de ostras a oito euros - mais precisamente entre as 18 e as 20H. Situada na Avenida João Crisóstomo, no quarteirão entre a Avenida da República e a Defensores de Chaves, tem infelizmente a maldita mania dos menus degustação com um mínimo de quatro entradas e uma lista reduzida algo incongruente - mais vale ir à happy hour e ficar por umas ostras e tapas. Vá lá que as ostras são, com razão, a grande razão de ser do local, assim como a lista de espumantes, champagnes e cavas e ainda uma sangria de espumante que é elogiada por quem goste do preparo. Embora perceba que as origens setubalenses levem a que o espumante da casa seja o Ermelinda de Freitas , a verdade é que é uma escolha que não é entusiasmante - e em Portugal já há muitos bons espumantes na mesma gama de preços. Para rematar, a casa fica ao lado de um Bingo e tem um ecrã que passa futebol, duas coisas mais que afastam gente que queira estar sossegada e apreciar a elegância das ostras no recato. É pena, que as ostras são boas. Avenida João Crisóstomo 15.


 


DIXIT


“li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,


quando alguém morria perguntavam apenas:


tinha paixão?


quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão”


Herberto Hélder (A Faca Não Corta O Fogo)


 


GOSTO - A marca de porcelanas Vista Alegre foi distinguida com o prémio de design da revista 'Wallpaper', na categoria de 'Best coffee and cake', com o serviço de mesa 'Orquestra’.


 


NÃO GOSTO - O SIS tem um manual de 222 páginas que prevê escutas ilegais, vigilâncias a pessoas que não são suspeitas em qualquer processo crime e pagamentos a fontes de informação.


 


BACK TO BASICS - “Diz-se que o poder corrompe, mas na realidade o poder limita-se a atrair aqueles que são corruptíveis; os que são sérios são atraídos por outras coisas que não o poder” - David Brin