março 27, 2015

SOBRE A PROLIFERAÇÃO DE ABUSOS DO ESTADO E A INDIFERENÇA DOS PODERES

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ABUSOS - Há uma série de países em que partidos como o português CDS-PP fazem gala em defender os direitos dos cidadãos e proteger os contribuintes dos abusos e dislates do Estado. Por cá já se percebeu, pela actuação de Paulo Núncio e da Autoridade Tributária que tutela,  que o PP desistiu desse posicionamento e passou a achar normal o princípio de que o Estado se sobrepõe aos cidadãos. Mas a culpa principal da situação a que se chegou não é dos partidos - é da falta de fiscalização de quem deve arbitrar a relação entre os vários poderes e, sobretudo, regular a relação entre quem governa e quem é governado. Se tivéssemos um Presidente da República em vez de um prefaciador talvez pudéssemos ter alguém que chamasse a atenção para a importância de o Estado ser uma pessoa de bem e não espezinhar os direitos básicos dos cidadãos. O papel regulador que o Presidente da República podia ter na defesa do equilíbrio entre o poder e os direitos não é exercido e esse é um dos maiores problemas na origem da maneira como o regime se degrada. O Presidente da República não chama a atenção para os erros do Governo, para abusos que tolera e até impulsiona, e em vez disso fica calado a prefaciar sobre as melhores características de um candidato à sua própria sucessão. Um Presidente da República interveniente não deixaria de fazer notar que um país não pode avançar quando a principal actividade económica é deixar uns abrir buracos, que outros depois tapam - uma actividade de décadas que tem originado corrupção e clientelismo. Nestes anos o Poder tem sido fértil a incentivar abusos. Talvez a resolução desta triste situação pudesse ser um dos temas das campanhas eleitorais que aí vêm.


 


SEMANADA - A Ministra das Finanças admitiu que tinham existido falhas na supervisão na queda do BES; apenas sete dos 17 candidatos iniciais entregaram propostas para compra do Novo Banco; Henrique Neto anunciou ser candidato à Presidência da República e vários notáveis do PS mostraram-se surpreendidos e criticaram a sua decisão; o candidato diz que Marcelo é quem mais receia à direita e que Rui Rio é aquele com quem mais se identifica;  interrogado sobre as eleições presidenciais Guilherme de Oliveira Martins afirmou não estar “numa fila de candidatos ou de candidatos a candidatos”; Augusto Santos Silva afirmou que “falta ao centro-esquerda um candidato forte e mobilizador”; a factura dos juros da dívida portuguesa cresceu 51% nos dois primeiros meses do ano; a Ministra das Finanças congratulou-se por ter os cofres cheios, embora parcialmente à custa de nova dívida; a Associação Académica de Coimbra recusou o convite para participar num almoço de Passos Coelho com dirigentes estudantis; o PCP propôs a instalação da Feira Popular no Parque das Nações; o advogado de José Sócrates, João Araújo, disse numa entrevista que “jornalistas e comentadores falam sobre o caso Sócrates como se fossem bêbados”; a estreia de Shark Tank na SIC ficou em 12º lugar da lista dos programas mais vistos na televisão durante a semana passada; as exportações para Angola sofreram em Janeiro a maior queda dos últimos cinco anos; quase três mil enfermeiros pediram à Ordem para emigrar no ano passado; António Ventinhas, Presidente do Sindicato dos Ministério Público, disse que o ex-procurador Geral da República, Pinto Monteiro, instaurava “processos disciplinares ou abria processos de averiguações a todos os procuradores que ousassem investigar os mais poderosos”.


 


ARCO DA VELHA - Para assinalar o segundo ano do mandato à frente do Sporting Bruno Carvalho quis resguardar-se de olhares indiscretos colocando, pela primeira vez na história do clube, película fosca nos vidros do Camarote de Honra do Estádio José de Alvalade, para que não se veja o que lá se passa. A bem da transparência, imagina-se.


 


FOLHEAR - Os presentes inesperados são os melhores e, na semana passada, tive o prazer de receber um exemplar do “Dictionnaire Amoureux du Journalisme”, escrito por Serge July - o homem que fundou o “Libération” e o dirigiu ao longo de  33 anos - uma referência para uma geração de profissionais da comunicação. Neste livro July mostra a sua visão da historia dos media, da época de ouro dos jornais aos novos media digitais, das reportagens aos ensaios que ajudam a mudar a forma de pensar dos leitores. Ao longo de cerca de 900 páginas, July percorre nomes e obras essenciais da história do Jornalismo, do clássico Heródoto a Joseph Pulitzer, de Daniel Defoe a Gabriel Garcia Marquez, de Tintim a Curzio Malaparte, de John Reed a Tom Wolfe, de Voltaire a Émile Zola, de Robert Capa a Hemigway , dos paparazzis ao new journalism. Construído em torno de pequenas histórias que evocam factos e personagens, quase uma sucessão de artigos que se vai lendo à procura de novas descobertas, este livro é apaixonante. Edição Plon, disponível na amazon.fr .


 


VER - Merece ser seguida com atenção a programação da Festa do Cinema Italiano, que decorre entre o cinema S. Jorge e a Cinemateca Nacional e que tem uma extensão especial no cinema Nimas com a exibição de uma dezena de cópias restauradas e digitais das obras de Roberto Rosselini como “Stromboli” (na imagem)  e “Viagem em Itália”. Até ao final do mês, em Lisboa, há 10 filmes para ver do grande mestre italiano e mais tarde, alguns dos filmes vão ser exibidos no Porto, Braga, Coimbra e Castelo Branco. A partir de 9 de abril, este ciclo dedicado a Rossellini estará no Teatro Municipal do Campo Alegre, no Porto e alguns dos filmes chegarão também a Braga, Coimbra e Castelo Branco.  Na programação “oficial” da Festa, destaque para série Gomorra, cujos sete episódios serão exibidos integralmente em grande ecrã e depois passarão na RTP 2 até dia 2 de Abril. Outros filmes a não perder são “Que Estranho Chamar-se Frederico”, de Ettore Scola, “Almas Negras” de Francesco Munzi, “O Rapaz Invisível” de  Gabriele Salvatores, ou “Corações Inquietos” de Saverio Constanzo


 


OUVIR - Van Morrison nasceu em Belfast há quase 70 anos. O seu primeiro disco a solo é de 1967, há 48 anos portanto, aquela que foi a sua grande revelação, “Astral Weeks”, é do ano seguinte e “Moondance”, outra referência, é de 1970. Antes disso, com os Them, já tinha gravado “Gloria”, uma canção marcante e épica que o acompanha ao longo da sua carreira. As influências musicais de Van Morrison estão claramente nos blues, muito por causa da música que ouvia em casa dos seus pais durante a adolescência. Por isso não deixa de ser curioso que agora, a chegar aos 70 anos, se dedique de novo a explorar as sonoridades dos blues, revisitando temas de toda uma carreira. Há sempre um risco enorme em fazer um disco de temas clássicos, pessoais, sob a forma de dueto entre o autor e um convidado e é  raro a coisa dar certo. Tenho para mim que a razão do equilíbrio destes “Duets - Reworking The Catalogue”, de Van Morrison, é precisamente a sua dedicação aos blues e é por isso que ele resulta tão bem, seja quando canta ao lado de Georgie Fame, seja quando está com Marvis Staple, Gregory Porter, Chris Farlowe, George Benson, ou o grande Taj Mahal, que encerra os 16 temas deste CD com uma vertiginosa versão de “How Can A Poor Boy?”, que é um manual de como se pode ter prazer a interpretar uma canção. A compilação foge ao óbvio e, como se dizia num dos meus discos preferidos, “ a splendid time is guaranteed for all”.


 


PROVAR - A Champanheria fez nome em Setúbal com as ostras do Sado, entre as quais as famosas “les Portugaises”, e em Dezembro estreou-se em Lisboa, nas Avenidas Novas, com a porta a abrir ao fim da tarde para uma happy hour em que a proposta é meia dúzia de ostras a oito euros - mais precisamente entre as 18 e as 20H. Situada na Avenida João Crisóstomo, no quarteirão entre a Avenida da República e a Defensores de Chaves, tem infelizmente a maldita mania dos menus degustação com um mínimo de quatro entradas e uma lista reduzida algo incongruente - mais vale ir à happy hour e ficar por umas ostras e tapas. Vá lá que as ostras são, com razão, a grande razão de ser do local, assim como a lista de espumantes, champagnes e cavas e ainda uma sangria de espumante que é elogiada por quem goste do preparo. Embora perceba que as origens setubalenses levem a que o espumante da casa seja o Ermelinda de Freitas , a verdade é que é uma escolha que não é entusiasmante - e em Portugal já há muitos bons espumantes na mesma gama de preços. Para rematar, a casa fica ao lado de um Bingo e tem um ecrã que passa futebol, duas coisas mais que afastam gente que queira estar sossegada e apreciar a elegância das ostras no recato. É pena, que as ostras são boas. Avenida João Crisóstomo 15.


 


DIXIT


“li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,


quando alguém morria perguntavam apenas:


tinha paixão?


quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão”


Herberto Hélder (A Faca Não Corta O Fogo)


 


GOSTO - A marca de porcelanas Vista Alegre foi distinguida com o prémio de design da revista 'Wallpaper', na categoria de 'Best coffee and cake', com o serviço de mesa 'Orquestra’.


 


NÃO GOSTO - O SIS tem um manual de 222 páginas que prevê escutas ilegais, vigilâncias a pessoas que não são suspeitas em qualquer processo crime e pagamentos a fontes de informação.


 


BACK TO BASICS - “Diz-se que o poder corrompe, mas na realidade o poder limita-se a atrair aqueles que são corruptíveis; os que são sérios são atraídos por outras coisas que não o poder” - David Brin