janeiro 03, 2014

QUEM DESGOVERNA UMA CIDADE PODE GOVERNAR O PAÌS?

COSTISMO - Nos últimos dias de 2013 Lisboa assistiu à demonstração do que é o Costismo: mais uma vez medidas tomadas sem acautelar como podem ser cumpridas - no caso a transferência de obrigações da Câmara Municipal para as Juntas de Freguesia. Não houve cuidado na preparação, não houve cuidado na negociação com as partes interessadas, não houve cuidado na criação de mecanismos sustentáveis que permitissem uma mudança de competências sem atribulações. António Costa é o exemplo do improviso - na decisão e na execução. E, depois, no laxismo na resoluçāo dos problemas criados. O estado a que Lisboa chegou nestes dias deixa antever o que poderia acontecer ao país se Costa assumir outras responsabilidades. Para os lisboetas Costa é sinónimo de caos no trânsito, de lixo nas ruas, da "política do quero, posso e mando"; é também quem deixou as ruas da cidade cheias de folhas e detritos que entupiram as sargetas, perpetetuamente por limpar, e provocaram inundações às primeiras chuvas. É quem piorou o trânsito na Avenida da Liberdade, onde agora há ainda mais engarrafamentos nos acessos das laterais, mais engarrafamentos nas faixas centrais, mais carros estacionados em segunda fila - tudo isto com um custo de centenas de milhar de euros para obras que apenas satisfizeram as vaidades do poder autárquico e nos transformaram a todos em cobaias. Cada vez que ouço que Costa é o putativo protagonista escolhido pelo PS para o próximo ciclo de poder no país fico a temer o que se passará: se ele não é capaz de governar uma cidade, o que sucederá se lhe cabe o país na rifa das eleições? É certo que discutir política não é discutir pessoas - mas as políticas avaliam-se com as acçōes feitas e as acções políticas de António Costa fazem um mau currículo de poder.


 


SEMANADA - No início de 2014 a despesa pública continua excessiva e a reforma do Estado continua por fazer; os preços da electricidade e do gás subiram dia 1 de Janeiro; o Presidente da República promulgou o orçamento de Estado e fez mais uma intervençāo vazia; o orçamento de Estado deixou de destinar verbas à RTP;  para compensar, o Ministro Maduro transferiu despesa do Estado para os cidadãos, aumentando a contribuição obrigatória para a RTP que todos pagam na fatura da electricidade; só restam cinco dos 16 secretários de estado independentes do primeiro Governo de Passos Coelho; registaram-se nove alterações na composição do Governo desde Junho de 2011; cinco secretarias de estado já mudaram três vezes de detentor; em 2013 realizaram-se 81 greves nas empresas de transportes e comunicações; o Metropolitano de Lisboa fez 13 paralisações e a CP realizou 12;  em dez anos a Beira Interior perdeu dez mil habtitantes; 170 idosos foram dados como desaparecidos nos últimos 12 meses;  em 2013 verificaram-se 67 ataques a caixas multibanco; em três meses verificaram-se 29 roubos a carrinhas de transporte de tabaco; o tribunal da relação do Porto recusou classificar de jogo ilegal de fortuna e azar os casinos onde se joga mahjong; Portugal já atribuíu 471 vistos “gold”, dos quais 295 a chineses, cerca de três quartos do total; já no ano passado um Tribunal de Guimarães havia decidido que a “lerpa” não é um jogo de fortuna e azar.


 


ARCO DA VELHA - Graças a malabarismos estatísticos por cada euro a menos no défice a dívida pública sobe 1,1 euros porque o Governo e a troika optaram por meter na díviuda o que não querem mostrar no défice.


 


FOLHEAR - Neste começo de ano destaco uma frase impressa, em jeito de manifesto, na primeira página da edição especial de inverno da Monocle, em formato jornal: “A Monocle acredita no poder da imprensa impressa e do papel que se folheia”. Por muito que goste do digital e o use, sei que encontro refúgio seguro no papel quando quero ler alguma coisa mais profunda - algum dossier de investigação, um portfolio de fotografias, uma reportagem. A internet trouxe-nos a informação imediata, mas a reflexão e a descoberta ainda nos chegam pelo papel - e é no equilíbrio entre as duas coisas que reside o futuro da comunicação escrita. Por isso as grandes marcas da informação - as que ganharam prestígio e reputação, as que apostam na qualidade e diversidade dos conteúdos, são as que estão melhor posicionadas para conseguirem estabelecer um bom modelo de negócio nos anos mais próximos. A importância crescente dos dispositivos móveis no consumo imediato de informação, provoca o aumento de utilização de aplicações agregadoras de conteúdos como o Zte ou o Pulse - que vivem da citação de conteúdos de marcas informativas de prestígio. Hoje lê-se mais que se lia há uns anos - e essa é uma realidade. Mas só se lê, aquilo que tiver interesse e qualidade. Sem bons conteúdos o ciclo inverte-se. É a história mais velha do mundo, a seguir à outra que todos conhecemos.


 


VER - Estes são os últimos dias, até 5 de Janeiro, para ver no Museu Berardo uma exposição que reúne, sob o mote das relações entre a fotografia e o arquivo nas práticas artísticas contemporâneas, o trabalho de cerca de vinte artistas, de várias épocas e localizações geográficas, como Helena Almeida, Daniel Blaufuks, Christian Boltanski, Marcel Duchamp, Tracy Moffatt, Umrao Singh Sher-Gil, Hiroshi Sugimoto, Vivan Sundaram, Jemima Stehli, Robert Wilson ou Francesca Woodman. Se lá fôr aproveite para  visitar a  exposição “O Consumo Feliz -  Publicidade e sociedade no século XX”, que apresenta uma seleção de mais de 350 obras da Coleção Berardo de Arte Publicitária, que no total reúne um conjunto de cerca de 1500 itens. Este acervo reúne exclusivamente originais de publicidade pintados à mão, As duas exposições, bem diferentes entre si, são um belo pretexto para passar pela área de exposições do Centro Cultural de Belém.


 


OUVIR -  Acho sempre curioso quando um disco de que gosto especialmente falha na lista das edições do ano do venerando “Atual” do Expresso. Acho isso ainda mais interessante quando o disco em causa provém de um país de cuja música se fala pouco - no caso a Dinamarca. E ainda acho a coisa mais engraçada quando o disco não foi alvo de promoção especial e portanto os críticos não o recebram na caixa de correio - tiveram que o comprar, em formato físico, em digital ou então ouvi-lo em streaming. O pretexto para esta conversa é “Aventine”, da dinamarquesa Agnes Obel - cuja educação clássica como pianista foge aos cânones da pop contemporânea. Neste seu segundo disco, onde é maioritariamente acompanhada por um violoncelo, esporadicamante por violino, guitarra e harpa, retoma a criação de ambientes sonoros inesperados, pouco convencionais e onde a inquietação e a procura andam de mãos dadas - neste caso num cruzamento de rara


sensibilidade entre a palavra, a forma de cantar e os arranjos musicais. CD Play It Again Sam, na Amazon.


 


PROVAR - Se gostam da tradição culinária japonesa devem conhecer o Tomo, em Algés. Digo de propósito tradição culinária porque no Tomo a oferta não se reduz ao sushi, ao sashimi ou à tempura - tudo aliás excelente. Ali há tembém pratos cozinhados, na tradição de Quioto, de acordo com o que está disponível no dia. O menu kaiseki reflecte isso mesmo e deve ser encomendado com antecedência. Atrás do balcão está Tomoaki Kanazawa (na imagem) que, há década e meia em Portugal, decidiu há uns anos arriscar no seu próprio restaurante, depois de ter sido chef na Embaixada do Japão em Lisboa e mais tarde ter trabalhado no Aya original, da Rua das Trinas. O restaurante é despretencioso, não alinha em modas de sushi-fusão, é austero na decoração e exuberante na qualidade. Para os apreciadores da comida japonesa, o Tomo é o que resta de mais fiel às tradições deixadas por mestre Yoshitaki, o fundador do Aya. É na simplicidade das coisas que se vê e sente a diferença - é o que se passa no Tomo onde os caldos, a sopa e o arroz são diferentes do que geralmente se encontra por aí - na consistência, no sabor, na intensidade, na subtileza. Se tiver dúvidas face à lista peça conselho a Saif, o chefe de sala, de origem paquistanesa, que lhe dará sugestões. No fim aceite o que ele recomendar de sobremesa - é que o Tomo é o único restaurante japonês que se pode gabar de ter uma especialista em doçaria tradicional japonesa, Kayo Iwasaki,  O Restaurante Tomo fica na Avenida dos Bombeiros Voluntários 44, em Algés, o telefone é o 213 010  705 e encerra aos Domingos.


 


DIXIT - Citação elegante do ano:  “Não aceito lições de quem nunca fez a ponta de um corno” - Carlos Silva, secretário geral da UGT, sobre Pedro Passos Coelho.


 


GOSTO - As IPSS (Instituições Privadas de Solideriedade Social) criaram 1400 novos equipamentos sociais, incluindo creches e lares de idosos, entre 2000 e 2012.


 


NÃO GOSTO - Quase metade dos desempregados de longa duração irão ficar sem trabalho para o resto da vida


 


BACK TO BASICS - A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo - Alan Kay

dezembro 27, 2013

NA VIDA TUDO SE TRANSFORMA

TEMA- Durante uns anos criou-se a ideia de que o trabalho manual seria uma coisa menor e que as pequenas empresas não teriam futuro. Louvou-se a massificação, a dimensão e desprezou-se a produção diferente, quase artesanal. Nesse tempo as boas ideias só podiam ser boas se tivessem uma escala enorme: o resultado está à vista de todos. Mas o que é mais curioso é que a crise do crescimento acelerado abriu caminho para uma nova geração - a que vou chamar a geração do novo artesanato ou da nova manufactura, se preferirem. Os últimos anos estão cheios de bons exemplos de pessoas que perderam os seus empregos e decidiram criar qualquer coisa de seu - desde uma tarte de amêndoa a uma linha de roupa ou a um serviço de entregas personalizadas. No fim do dia o que interessa é que estas pessoas, tecnicamente qualificadas e treinadas, imaginaram um produto, aplicaram os seus conhecimentos, criaram marcas e felizmente muitas têm feito sucesso. Sempre achei que nos devemos esforçar por ver o lado bom das coisas más, mas neste caso é fácil - a crise criou uma geração de empreendedores como há muito tempo não víamos em Portugal . Todos os dias ouvimos falar de novos pequenos negócios, nas grandes cidades mas também no interior, que ao princípio arrancam baseados no esforço único do seu criador, a partir de um canto em casa, e que passado algum tempo estão a alugar instalações, a contratar pessoas, a criar procura. Em suma, estão a dinamizar a economia, contra tudo e contra todos - contra um governo demasiado apressado a impôr directivas europeias que os nossos vizinhos ignoram, contra um fisco que considera a iniciativa um pecado, contra um Estado que por princípio desconfia e é inimigo de quem faz alguma coisa de novo. Gosto destes novos empreendedores, que arriscam, inventam, resistem à pressão dos gigantes da distribuição e se afirmam pela criatividade, a qualidade e a capacidade de comunicação. Para eles vão os meus melhores votos para 2014.


 


SEMANADA - Três Secretários de Estado aproveitaram a época do Natal para se auto-oferecerem a prenda de saírem do Governo; dez mil advogados devem 3,4 milhões de euros em quotas à Ordem dos Advogados; em 15 cadeias portuguesas há 14.349 reclusos, uma média de 3,4 presos por guarda prisional; o desemprego jovem aumentou 2,2% em Novembro ; 62% das uniões celebradas em Portugal em 2012 foram casamentos civis, o que mostra a perca de predominância dos casamentos religiosos; desde 2000 tem vindo a aumentar a percentagem de casais que vivem juntos antes de casar, que agora já é de 49,6%; as Câmaras Municipais  gastaram mais em luzes e festas de Natal que em 2012;  por força da decisão do Tribunal Constitucional só no sector privado é que a idade da reforma sobe para 66 anos, a partir de Janeiro de 2014 - no Estado mantém-se nos 65 anos; a PSP levantou este ano 60 autos por protestos na Assembleia da República; este ano as falências judiciais diminuíram 0,7%, o que acontece pela primeira vez desde o início da crise; desde o início do ano as falências de particulares registaram um aumento de 4%; a receita fiscal obtida em Novembro foi 16,5% mais alta que a registada no mesmo mês do ano passado; desde 2012 Portugal pagou quase 3 mil milhões de euros à troika, em juros e comissões; desde que a troika entrou em Portugal foi cortado o apoio a cerca de dez mil idosos com baixos rendimentos.


 


ARCO DA VELHA - O relatório sobre os incêndios de Verão indica que as chefias dos bombeiros têm falta formação básica sobre fogos e aponta erros frequentes no uso do contrafogo.


 


FOLHEAR - Em 1962 foi criada uma organização chamada British Design & Art Directors, com David Bailey entre os seus fundadores. No ano seguinte começou a atribuir prémios, os célebres e muito desejados Yellow Pencils. Em 2011 a organização, entretanto transformada em Fundação, deixou de ser só britânica, globalizou-se, mudou o nome para D&AD e reflecte o que de melhor existe no design e art direction em todas as suas disciplinas. Continua a atribuir prémios e a Taschen edita o anuário. Este Natal trouxe-me o anuário de 2013, magnífico, 600 páginas em honra à criatividade aplicada à publicidade tradicional e digital, mas também à edição de livros ou de imprensa, passando ainda pela rádio e o cinema. A edição de 2013, cuja capa aqui se reproduz, tem as suas páginas de abertura dedicadas a reflectir sobre a importância da criatividade no mundo contemporâneo e sobre diferentes perspectivas para o ensino artístico e para a forma como as escolas abordam as disciplinas criativas. O Presidente da D&AD nesta edição foi Neville Brody, um dos mais conceituados designers britânicos, responsável pelo inovador grafismo da revista “Face”, depois da “Arena”, criador de capas para discos dos Cabaret Voltaire, Level 42 ou Depeche Mode, entre outros. No seu texto inicial deste livro, Brody desenvolve uma ideia interessante: “Numa época de crescente desigualdade o nosso dever é proporcionar acesso o mais amplo possível à oportunidade de os estudantes receberem ensino nas áreas creativas e não apenas nas tradicionais ciências, engenharia, tecnologia e matemárica. O dever de qualquer Governo é levar a sério as indústrias criativas e o ensino da criatividade, tão necessária para o desenvolvimento da indústria, do comércio e da cultura.”


 


VER - Proponho para estes dias entre o Natal e o fim de ano duas exposições bem diferentes. Uma está no CCB, no espaço dedicado a exposições de arquitectura, a Garagem Sul e tem um título desafiante: “África – Visões do Gabinete de Urbanização Colonial”, com curadoria de Ana Vaz Milheiro, com Ana Cannas e João Vieira. Através de um conjunto de desenhos, relatórios e fotografias, depositados no Instituto de Investigação Científica Tropical, e que são apresentados em público pela primeira vez, mostra-seuma paisagem africana desenhada e inventada a partir do coração da metrópole, em Lisboa, no período final da colonização portuguesa, entre 1944 e 1974. A outra exposição, bem diferente, está em pleno Chiado, na galeria João Esteves de Oliveira, na Rua Ivens 38. Sob o título O “Melhor do Acervo”, João Esteves de Oliveira apresenta  trabalhos em papel de artistas consagrados como  Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, Rui Chafes e artistas mais novos,  como Manuel Diogo (de quem é a obra aqui reproduzida), Vasco Futscher, Josefina Ribeiro, Carmo Posser ou Hugo Palma, entre outros.


 


OUVIR - O disco de que hoje falo é, para mim, uma das mais estimulantes edições de jazz do ano que agora está a acabar. O saxofonista norte-americano Joshua Redman chamou para o seu lado o trio dirigido pelo pianista Brad Mehldau, o baixista Larry Grenadier e o baterista Brian Blade. A tudo isto juntou uma orquestra dirigida por Dan Coleman. O resultado é um disco, “Walking Shadows”, que está no limiar entre o easy listening e um clássico. Brad Mehldau foi o produtor e teve certamente uma palavra a dizer na escolha do repertório, introduzindo temas inesperados num disco de jazz. Começo pelo “Let It Be” dos Beatles (um grupo cuja obra Mehldau gosta de revisitar) onde Redman mostra bem o seu talento de saxofonista, passando do gospel para o funk com elegância. Logo no tema de abertura, “The Folks Who Live On The Hill”, um standard de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II, Dan Coleman cria um fundo orquestral que permite a Redman mostrar o seu talento. A versão do “Adagio” de Bach é um exemplo de simplicidade com o saxofone praticamente apenas em diálogo com o baixo. Outros pontos altos são “Lush Life” ou “Easy Living” e sobretudo o trabalho de arranjos e execução em “Last Glimpse Of Gotham”, um tema do próprio Mehldau. O disco encerra com um belíssimo original de Redman, “Let Me Down Easy”. Alguns puristas acharão que a escolha do repertório é de gosto duvidoso e de um ecletismo perigoso. Eu acho a escolha provocante. E corajosa - ainda por cima com um excelente resultado final. (CD Nonesuch).


 


PROVAR - No Inverno, quando não há sardinhas e apetece um petisco, que fazer? A minha sugestão é que aproveitem as fantásticas conservas de sardinha portuguesas - e nos últimos anos têm ressurgido boas marcas antigas. Uma delas é a Fábrica de Conservas Pinhais, fundada em 1920. A Pinhais produz três variedades muito procuradas - as sardinhas em azeite virgem, as sardinhas em azeite temperado, picante, e as sardinhas em tomate. Há mesmo uma embalagem de degustação onde vêm caixas de conservas destas três variedades. A empresa, de Matosinhos, continua nas mãos da mesma família desde a fundação, utiliza os métodos tradicionais e emprega cerca de 140 pessoas. O trabalho é quase todo feito manualmente, desde a escolha e preparo da sardinha à sua colocação nas latas, o que proporciona uma qualidade diferente ao produto final. Gosto destas sardinhas como entrada, acompanhadas de um pedaço de bom pão tostado - mas há quem as arranje e tire a pele e as espinhas e misture com um esparguete. Seja como fôr, as conservas de sardinha, quando são boas, são uma grande base para a nossa petiscaria. A tradicional tiborna, que é a mais portuguesa das tapas, fica à maravilha com umas sardinhas em tomate ou picantes por cima.


 


DIXIT - “Parece-me que neste momento existem falhas no plano de ajustamento da troika” - Leonardo Mathias, Secretário de Estado da Economia, em entrevista ao jornal espanhol “Expansión”.


 


GOSTO - Da aplicação de novas tecnologias à criação e monitorização de um rebanho comunitário em Penela, para garantir a produção do queijo Rabaçal na região.


 


NÃO GOSTO - De quem escolhe a época do Natal para fazer greve e depois ainda se congratula com a acumulação de lixo nas ruas.



BACK TO BASICS - A coisa mais importante da vida é nunca deixarmos de nos questionar - Albert Einstein

dezembro 20, 2013

Sobre a influência dos algoritmos na política

ALGORITMOS - Luis de Camões não imaginaria como o seu verso “Todo o Mundo É Feito de Mudança” se revelaria tão actual séculos depois. Hoje mais que nunca a mudança é permanente - a esmagadora maioria dos recursos que utilizamos na vida moderna, baseados em software, estão permanentemente a mudar. Nos últimos 20 anos assistimos a uma transformação brutal - o foco deixou de estar no hardware e passou para o software e programas que custavam milhares de euros foram substituídos por aplicações, muitas vezes mais poderosas e eficazes, que ou são gratuitas ou custam muito pouco. Hoje em dia talvez seja mais certo dizer-se que toda a vida é feita de algoritmos em permanente alteração - porque é essa de facto a nossa nova realidade. Um artigo recente de Lev Manovich sublinhava este facto: “O software tornou-se uma linguagem universal. Aquilo que a electricidade e o motor de combustão significaram no início do século XX, pode ser comparado ao que o software significa neste início de século XXI (...) Se queremos entender as técnicas contemporãneas de comunicação, representação, simulação, análise, tomada de decisão, memória, visão, escrita e interacção temos que compreender o software.”


Tudo isto é verdade, mas o mais interessante, é que, ao mesmo tempo que a tecnologia nos rodeia e está em permanente mutação, oferecendo o que há dez anos era impensável, continuamos a querer coisas básicas na nossa vida, nas cidades onde vivemos - conforto de circulação, transportes públicos e privados que funcionem, zonas verdes bem conservadas, boas escolas públicas, bons hospitais, ruas limpas e seguras. E é curioso constatar que os políticos mais tecnocratas são aqueles que pior interpretam e satisfazem as necessidades do seu eleitorado. Por enquanto ainda não há algoritmo que resolva esta equação.





SEMANADA - Foi detectada em Braga uma fraude de sete milhões de euros em cursos profissionais e ex-dirigentes da Associação PME-Portugal foram constituídos arguidos; em época de Natal até aos fins de semana a Avenida da Liberdade, em Lisboa, continua engarrafada, a causar mais poluição do que antes das obras; quatro em cada dez portugueses confessam ficar sem dinheiro após pagar as contas do mês; o setor da construção civil fatura 7% em reabilitação urbana em Portugal, quando a média europeia é de 37%; Jorge Jesus é o 11º treinador mais bem pago do mundo; Portugal registou a quinta maior queda anual de salários na União Europeia; em 2012 Portugal foi um dos três países da OCDE a regitar maior quebra nas receitas fiscais; no primeiro semestre houve quase dez mil insolvências de empresas e particulares declaradas nos tribunais portugueses; em Portugal, ao longo dos últimos três anos, foram apreendidas 13 armas ilegais por dia; Passos Coelho admitiu que no curto prazo o Governo poderá não ter outra alternativa do que aumentar os impostos se o OE proposto pelo Governo fôr chumbado no Tribunal Constitucional; Paulo Portas admitiu que PSD e CDS podem concorrer separados às próximas legislativas; as autarquias que cobram IMI pela taxa máxima vão duplicar em 2014; os CTT esperam receber este ano 180 mil cartas dirigidas ao Pai Natal.


 


ARCO DA VELHA - O executivo municipal de Braga, liderado pelo socialista Mesquita Machado, deixou uma fatura de 150 milhões de euros para pagar até 2033 por causa de uma parceria público-privada que construíu 35 campos de futebol nas 62 freguesias do concelho - em algumas há agora dois campos.


 


FOLHEAR - Quando se abre a edição especial que a revista “Egoísta” fez neste Natal, ressurgindo, mesmo que efémera, quando já não se esperava, encontram-se logo estas palavras de Sylvia Plath: “It is a terrible thing to be so open: it is as if my heart put on a face and walked into the world”. O tema desta edição especial é a poesia e nas primeiras páginas está um portfolio fotográfico de Annie Leibowitz, que é uma revisitação de Romeu e Julieta, feita para a Vogue. Há poemas de Lu Yu, Gastão Cruz, António Ramos Rosa, Adrienne Rich, João Rui de Sousa, Eugénio de Andrade, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral, Vasco Graça Moura, Hilda Hist, Rainer Maria Rilke, Pedro Tasmen e Jaime Rocha, entre outros. Há mais fotografia de Augusto Brázio, Maria João Gonçalves, Christophe Jacrot, Ricardo Alevizos e sobretudo um imprevista e surpreendente trabalho de Pedro Cláudio. Nas ilustrações destaque para os trabalhos de  Manuel San Payo e Rodrigo Prazeres Saias. Um verdeiro número para coleccionadores. Uma preciosidade. Uma prenda de Natal para os fãs da revista.


 


VER -  Todas as razões são boas para ir ao MUDE, o Museu do Design e da Moda, que fica na Rua Augusta 24. Mas, agora, há mais uma razão, incontornável - descobrir a exposição “3553”, de Teresa Segurado Pavão, na Sala dos Cofres. O local em si é magnífico, mas a força das pequenas peças ali ganha outra dimensão - quase comovente. Na sala dos cofres privados, de aluguer,  do antigo Banco Nacional Ultramarino, o edifício onde o MUDE foi acolhido, existem 3552 cofres - e é deste número que nasce o título da exposição - evocando o cofre seguinte, na realidade inexistente, o momento que está para vir, o futuro que não se conhece. As peças expostas são objectos simples - que podem ser do quotidiano, mas podem também ser tesouros guardados - e a sua presença na sala dos cofres reforça esta ideia de tesouro que vale a pena salvaguardar. Cabe aqui elogiar o trabalho do catálogo e as fotografias de Eurico Lino do Vale, despojadas mas não neutras, que conseguem fazer retratos de objectos quase como se tivessem expressão. As peças criadas por Teresa Segurado Pavão são lindíssimas - nas formas, mas também nos pormenores. Parecem imaginadas como esculturas - quase orgânicas, como naqueles casos onde um alfinete atravessa o barro branco como se envolvesse a pele, ou quando existe a sensação de que um objecto pode ter muitos usos, dependendo da imaginação. São 120 peças, criadas de 2011 até agora. A exposição “3553” pode ser vista até ao início de Março


 


OUVIR - Sou da opinião que um disco gravado do vivo funciona muitas vezes como um tira-teimas: há músicos que fazem álbuns muito certinhos em estúdio, mas depois é o diabo quando vão para um palco e lá querem gravar alguma coisa. Felizmente no caso de António Zambujo a gravação feita em espectáculo só confirma as boas impressões deixadas pelos registos de  estúdio. O disco foi gravado ao viuvo no Coliseu, faz agora um ano, em Dezembro do ano passado, pouco tempo depois da edição do seu álbum “Quinto”. Inclui 19 temas entre os originais de  Zambujo, clássicos de Marceneiro, uma versão de uma canção de Vinicius e Banden Powell, poemas de João Monge, Aldina Duarte e Maria do Rosário Pedreira. No espectáculo gravado Zambujo acompanhou-se a si próprio à guitarra clássica e a seu lado estiveram Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Jon Luz (cavaquinho e guitarra clássica), José Miguel Conde (clarinetes), Ricardo Cruz (contrabaixo) e a participação de uma grupo de cante alentejano que o acompanhou em alguns dos temas. (CD UNIVERSAL).


 


PROVAR - Não sou muito dado a doces, mas nesta altura do ano o Bolo-Rei tira-me do sério. Aqui há uns anos achava que o da Pastelaria Cinderela, no Areeiro, era o melhor de todos - e ainda é bom. Depois passei a gostar do da Pastelaria Colombo, que era óptima e lindíssima, praticamente em frente à Versailles na Avenida da República, e que hoje é um incaracterístico MacDonalds. Esse, já não se pode provar - mas o da Versailles é ele próprio um bom sucessor. Outro que me agrada é o da pastelaria Aloma, em Campo de Ourique, na Rua Francisco Metrass. E claro, há o incontornável Bolo-Rei da Confeitaria Nacional, da Praça da Figueira, e que agora tem vários pontos de venda, um dos quais nas Amoreiras. O segredo do Bolo Rei está na massa, que deve ser leve e na qual devem como que flutuar pedaços de frutos secos e algumas passas. O segredo é conciliar a leveza com uma boa distribuição dos frutos - não podem ser demais, não podem ser de menos, não podem ficar colados ao fundo. E é escusado o Bolo Rei estar recoberto de açúcar caramelizado, algumas frutas cristalizadas - não demais - bastam. Nesta altura do ano o único doce que não dispenso é o Bolo Rei - e sou dos que não se importam que, se ele fôr dos bons, tenha dois ou trs dias. Se fõr bom não perde qualidades. E, como bem disse Miguel Estevs Cardoso, bom Bolo Rei não precisa de manteiga para nada.


 


DIXIT - “Não criei nem tenciono criar nenhum movimento” - declaração de Carvalho da Silva três dias antes de ser anunciado o movimento 3D para as eleições europeias, em que ele surge como um dos promotores.


 


GOSTO - Do levantamento dos sem-abrigo de Lisboa, feito por uma equipa de voluntários organizada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.


 


NÃO GOSTO - Está muito na moda, mas fui lá e não gostei. O Mercado de Campo de Ourique é apenas uma má cópia da ideia do Mercado de San Miguel (em Madrid), só que atravancado e com mais confusão que fulgor.


 


BACK TO BASICS - «Uma ideia que não é perigosa não merece sequer ser chamada de ideia» - Oscar Wilde





dezembro 18, 2013

SOBRA A INDIGNAÇÃO

Há semanas em que falta assunto. Esta é uma delas. Não sei do que hei-de falar, sobre que tema escrever. Não vou falar da tragédia que aconteceu durante o fim-de-semana na Praia do Meco. Olho já sem espanto para as notícias que revelam adjudicações dúbias e que envolvem figuras destacadas do PSD Porto. Fico quase sem reação quando leio que o Director demitido da PSP na sequência da invasão da escadaria do Parlamento vai para oficial de ligação da embaixada portuguesa em Paris, com a diplomática remuneração correspondente. Sorrio quando ouço Sócrates comentar o défice português e a política de austeridade. Sorrio ainda mais quando percebo que o retrato que os Gato Fedorento fizeram do país, e que só vi no YouTube, consegue ter graça no meio de toda esta desgraça – e interrogo-me sobre o porquê de terem sido tão criticados. Constato que enquanto Passos Coelho teoriza sobre a não necessidade de um acordo com o PS, o seu parceiro de coligação, Paulo Portas, afirma ser pecado não negociar com os socialistas. Passeio nas ruas de Lisboa e continuo a desesperar, num Domingo à tarde, com o que António Costa fez à Avenida da Liberdade e interrogo-me se os engarrafamentos contínuos não geram enorme poluição. Fico desanimado quando olho à volta e fico a apreciar o que se diz e o que se passa. Não ouço uma ideia transformadora vinda de quem manda – na cidade ou no país. O poder vicia e rotina-se – e quando isso acontece perde razão de ser. Eu, contrariado, começo a encolher os ombros. Já pouco me espanta, mesmo quando muito me indigna.


 


(Publicado no diário Metro de  17 de Dezembro)

dezembro 13, 2013

O VÍCIO DO PODER E A TENTAÇÃO DO ABISMO

L’ÉTAT C’EST MOI ? -  Rui Rio bateu esta semana o recorde nacional de juras de não querer ganhar protagonismo na política. Quis o acaso que  estivesse presente em várias iniciativas, desde uma plataforma que as más línguas dizem ser a sua rampa de lançamento para outros vôos, até um almoço-conferência na Associação 25 de Abril onde lançou pequenas bombas como esta: “Temos de acabar com isto de as medidas irem sempre ao Constitucional”, aproveitando para  criticar a opacidade da justiça, a vários níveis, e o seu envolvimento na política. Não contente com esta auto-proclamada ausência de posicionamento político não se coibiu também de sublinhar que admitia a possibilidade de eleições primárias, nos partidos, para escolha do candidato a Primeiro Ministro, à semelhança do sistema norte-americano. Embora reafirmando sempre não ter ambições políticas, não deixou de dizer que que o poder político é eleito para defender o interesse público, sublinhando que, na sua opinião, ao longo dos últimos 40 anos o poder político tem vindo a ficar cada vez mais refém de interesses setoriais e corporativos. Aguarda-se com curiosidade o desenrolar de novos episódios deste reality show mas uma coisa é certa: nada de novo no horizonte - Rio é mais um  a dizer uma coisa e a fazer outra.


 


SEMANADA - Crimes sexuais vitimam cinco menores por dia, a maioria é abusada por familiares e tem idades entre os 8 e 12 anos; três agentes da PSP foram agredidos numa discoteca gay do Porto quando tentavam terminar uma rixa; uma investigadora portuguesa obteve um financiamento de 1,3 milhões de euros para um estudo sobre género e direitos sexuais na Europa; Ministério dos Negócios Estrangeiros foi atacado por hackers chineses que ofereciam a Rui Machete fotos de Carla Bruni nua; PSP investiu 300 mil euros em drones voadores, motos de água e um barco semi rígido; novo código do trabalho reduziu salários em 2,3%; Banco de Portugal prevê novos aumentos salariais nos privados nos próximos anos; as mulheres ganham em média menos 16,2% que os homens na União Europeia; Passos Coelho anunciou recandidatura à liderança do PSD; Rui Rio participou numa reunião da plataforma Uma Agenda Para Portugal que agrupa uma facção do PSD; 57% dos portugueses com menos de 24 anos pensam que o seu futuro passa pelo estrangeiro; o PIB da Islândia registou um crescimento de 6,1% no terceiro trimestre; José Sócrates vai integrar o Conselho Geral da Universidade da Beira Interior  - “no fundo é um filho da terra que é reconhecido em Portugal e no estrangeiro”, afirmou o Presidente do Conselho Geral, Paquete de Oliveira.


 


ARCO DA VELHA - “Será que podemos realmente dizer que a crise ficou para trás quando há 12% da população activa sem emprego?” - interrogou-se Christine Lagarde no Parlamento Europeu, falando sobre os erros cometidos pelo FMI na aplicação de planos de austeridade.


 


VER -  2013 fica marcado pela entrada em cena de uma estrutura privada, experiente em produção e promoção de espectáculos, na organização de exposições de arte de grande dimensão e com recurso a uma comunicação invulgar nesta actividade. Trata-se da Everything Is New, de Álvaro Covões, o responsável por numerosos concertos e festivais. A primeira experiência, bem conseguida na captação de públicos, foi feita com a exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda, que atraíu dezenas de milhar de visitantes. E agora, no Museu Nacional de Arte Antiga, dando corpo a uma parceria com o Museu do Prado, a mesma Everything is New empenhou-se em criar um acontecimento em  “Rubens, Brueghel, Lorrain - A Paisagem Nórdica do Museu do Prado”, que agrupa até final de Março seis dezenas de obras de referência do museu madrileno. A intensa cobertura mediática e a publicidade, invulgares em iniciativas de Museus do Estado, têm o bom sabor da ousadia e da novidade e, espera-se poderão trazer ao Museu Nacional de Arte Antiga público em maior número que é habitual. Esta forma de trabalhar é a que pode proporcionar que novos públicos vivam a experiência da descoberta da Arte, que deixa de se esconder e se mostra sem complexos. Já agora uma palavra também para o envolvimento de uma empresa portuguesa, a Artwear, responsável pelo merchandising da exposição, e que começa a ser uma referência até a nível internacional.


 


OUVIR - Entre 1973 e 1984 existiu um grupo, a Banda do Casaco, que marcou quase sempre o panorama musical de então com um equilíbrio inovador entre as influências da música tradicional portuguesa e a descoberta de sonoridades pop e contemporâneas e, sobretudo, a experimentação de palavras da língua portuguesa e a sua introdução invulgar na estrutura musical das canções, graças às letras de António Avelar de Pinho. A Banda do Casaco, percebe-se hoje ouvindo a sua obra, ajudou a que muito pouco tempo depois se voltasse a cantar em português e se conseguisse contar histórias musicais - que se fizessem canções, afinal. Pela Banda do Casaco passaram gerações de músicos de várias áreas desde os fundadores Antònio Pinho, Luis Linhares, Celso de Carvalho e Nuno Rodrigues, a Carlos Zíngaro, Carlos Barreto, António Emiliano, Moz Carrapa, José Eduardo, Ramon Galarza, Vitor Mamede, Rão Kyao, Tó Pinheiro da Silva ou Zé Nabo e vozes como Concha, Gabriiela Schaaf, Cândida Soares, Helena Afonso ou Né Ladeiras, por exemplo. Durante esses anos foram feitos sete LP’s de originais, os dois últimos já sem a participação de António Pinho. Este ano José Fortes, uma das referências da gravação sonora em Portugal, pegou no material que originalmente tinha gravado em fita e remasterizou-o digitalmente - e o resultado é muito bom. Do trabalho saíram duas edições distintas: duas caixas, que englobam os sete discos originais, um DVD de gravações ao vivo e um CD de inéditos diversos, profusamente acompanhado por livros que enquadram a edição e reconstituem a história da Banda do Casaco, e um CD compilação - “Bada do Casaco - 40 Anos de Som”, que agrupa 16 dos mais significativos temas da história do grupo. A caixa é um exclusivo FNAC e Companhia Nacional da Música, a compilação está à venda por todo o lado e com uma magnífica capa desenhada por Carlos Zíngaro e que aqui podem ver. É uma peça única para perceber como no final da década de 80, e a partir daí, a música portuguesa evoluíu.


 


FOLHEAR - Só pela capa vale a pena reter esta edição do British Journal Of Photography, um retrato assinado por Spencer Murphy, e que faz parte do levantamento do retrato na fotografia contemporânea que é um dos pratos fortes deste número. Na série Projects há belíssimos exemplos de ensaios fotográficos, esse lado da imagem quase esquecido em Portugal: a nova classe média africana, placas fúnebres de cemitérios soviéticos, iamgens de família, a Etiópia pós-colonial ou o lugar das pessoas nas cidades. Um pouco mais à frente encontramos comunidades alternativas de skaters, invulgares mulheres madrilenas e  marginais dos Balcãs. Mas o portfolio que mais me atraíu, a seguir aos retratos, foi o dedicado a fragmentos de multidões, instantâneos da vida moderna.


 


PROVAR - Ao início era apenas no Chiado. Depois a Brasserie de L’Entrecôte mudou de donos e estendeu o seu conceito a um total de seis restaurantes, mas manteve sempre inalterado o conceito: uma entrada de salada verde fresca com nozes picadas, seguida do único prato disponível - entrecôte fatiado, mal passado a menos que se peça de outra forma, envolvido num saboroso molho Brasserie que leva 18 ingredientes, de ervas variadas a mostarda de Dijon - uma receita tradicional do Café de Paris, em Genéve. A acompanhar, batata frita feita na hora, aos palitos finos e que é servida à descrição. Parece banal mas a qualidade da carne e do seu corte, assim como o tempêro certo do molho, tornam -se um pólo de atracção para carnívoros (embora os vegetarianos tenham à sua disposição um bife de seitan). Novidades são a sandwich de entrecôte, com o dito, o respectivo molho e rúcula, e a de salmão, em pão de cereais, com rúcula e queijo creme - ambas com a batata frita da casa. ambas a 8,40 €. A carta de vinhos é variada e bem escolhida e a cerveja, Sagres de pressão, é bem tirada e cá para mim é a boa escolha para o prato. A Brasserie de l’Entrecôte abriu agora nas Amoreiras o seu sexto restaurante, no corredor de restauração onde antes estava a cervejaria Portugália, que pertence aliás aos mesmos donos. Bom serviço, atento e ágil. O menu tradicional, acima descrito, fica por 18.95 €, a que se há-de juntar tudo o resto que fôr pedido. Ao almoço, em querendo,  há um menu executivo, mais económico (12,90 €).


 


GOSTO - “Desfado”, de Ana Moura, ganhou o título de melhor disco de World Music do ano, atribuído pelo Sunday Times. Esta semana saíu uma nova edição que inclui um CD extra gravado ao vivo.


 


NAO GOSTO - A corrupção em Portugal está acima da média da zona Euro, revela um estudo da Transparency International


 


DIXIT - “Eu sou a deputada mais famosa do Parlamento Europeu (...) Há outros que ninguém sabe quem são” - Edite Estrela


 


BACK TO BASICS - Servir música ao jantar num restaurante é um insulto, tanto para o cozinheiro como para o violinista - G.K. Chesterton


 

dezembro 10, 2013

SOBRE A DENÙNCIA COMO MÉTODO

A Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, afirmou segunda-feira: "Penso que é um dever de cidadania denunciar fraudes, denunciar corrupção e outros crimes", enfatizando que o que está em causa "não é só um problema das instituições", mas também um "problema de cidadania".


Não posso estar mais de acordo com a Ministra. Acho mesmo que deve ser aberta uma linha para os cidadãos se queixarem de todos os eleitos, deputados, autarcas, membros de Governo e gestores de empresas públicas quer desbarataram dinheiros públicos, fizeram obras inúteis, favoreceram amigos em concursos, privilegiaram contratos por interesse próprio, deram benesses a familiares, amigos ou correligionários de partidos ou de sociedades mais ou menos obscuras.


 


Um Estado que é incapaz de se escrutinar a si próprio, uma classe política que em muita medida é parasita e corrupta, um sistema de financiamento de partidos que favorece negociatas, um regime que opta sempre por cobrar mais e oferecer menos, não tem moral para falar. Mais: não merece respeito nem apoio.


 


Um sistema que apela à denúncia de cidadãos contra cidadãos sendo incapaz de olhar para si próprio não merece o respeito dos eleitores. A Ministra da Justiça não conhece casos de abusos entre políticos de diversos partidos? Entre ex governantes de várias tendências? Entre deputados de várias bancadas? Não acredito que não saiba de nada, que nunca tenha ouvido falar de nada.


 


Quando a classe política se conseguir dar ao respeito e mostrar, exemplarmente, que pune quem abusa, então poderá começar a pedir alguma coisa à sociedade. Até lá, é devedora. Muito devedora de todos os que pagamos impostos, de todos os que cada vez se sentem menos inclinados a votar em eleições cujo resultado é sempre o contrário das promessas feitas.

dezembro 06, 2013

SOBRE A CRIATIVIDADE E A FALTA QUE ELA FAZ

CRIAR - Durante alguns bons anos trabalhei numa empresa que produzia para televisão. Fiz documentários, ajudei a fazer entretenimento, comprei formatos e produzi-os, aceitei encomendas e consegui fazê-las. Mais tarde, com uma pequena equipa brilhante de pessoas da RTP, trabalhei na criação e lançamento de um canal, a 2:, que foi das coisas de que me orgulho. Da mesma maneira que os escritores e os músicos dizem, com verdade, que não voltam a ler ou a ouvir os seus trabalhos depois de terminados, também nunca gostei de rever o que fiz na televisão. Mas, por acaso, sempre gostei de ver os resultados do que fazia - quer do ponto de vista quantitativo, quer qualitativo. A minha vida profissional dá-me a possibilidade de saber o que se passa na televisão sem a ver. Todos os dias sigo as audiências - confesso que é uma coisa viciante. E vejo como tudo mudou tão depressa nos últimos anos. No final do terceiro deste terceiro trimestre existiam 3,16 milhões de assinantes do serviço de televisão por subscrição, mais 149 mil do que em igual período de 2012. Estas casas significam mais de 75% do total de espectadores e têm acesso a, pelo menos, 50 canais. Eu, que vejo televisão de forma incerta, continuo encantado pelo que me entra, nesse ecrã, pela casa dentro. Sei que a televisão e a internet se namoram, que já se cruzam às vezes e quanto mais a fibra ótica avançar mais isso acontecerá.. As pessoas continuam a ver programas de televisão - mesmo que não seja num aparelho convencional, e esse é um dos encantos da mudança dos tempos. Os progressos tecnológicos nas telecomunicações vão permitir que se vejam programas de televisão de formas e em circunstâncias que ainda não imaginamos - da mesma forma que há dez anos as redes sociais como Facebook eram uma improbabilidade. Eu acredito que são os conteúdos e a criatividade que fazem mover o mundo - do ponto de vista económico, do ponto de vista social, do ponto de vista cultural. Estes tempos que vivemos, de grandes mudanças tão aceleradas, são magníficos desafios. Já repararam como há tanta criatividade nas empresas, nas artes, nas ciências e tão pouca na política, reduzida a uma repetição de chavões e fechada sobre receitas antigas? Isto dá que pensar: será que a sociedade é comandada por políticos que não a compreendem, que são incapazes de fugir de receitas antigas e avessos à inovação?





SEMANADA - A emigração para Angola mais que triplicou desde o início da crise; receitas do Turismo cresceram 7% até Setembro; o Governo esperava rescindir com 15 mil funcionários públicos mas apenas cerca de 3 mil solicitaram rescisão; o Ministro da Educação recuou no caso da prova de acesso, insentado mais de metade dos professores inicialmente abrangidos; a corrupção em Portugal regista níveis acima da média da zona Euro; o antigo presidente de Câmara do Alandroal, do PS, foi acusado pelo Ministério Público de 209 crimes de peculato; começou a guerrilha no PSD com a criação do movimento “Uma Agenda Para Portugal”, em apoio das ambições políticas de Rui Rio; Portugal é o único país comandado pela troika a sair da crise com menos população; no entretanto portugal começou a exportar a troika sob forma de um jogo de sala feito por uma pequena empresa; as PME portuguesas empregam 2,4 mihões de pessoas, ou seja 78,6% do emprego do setor privado não financeiro; segundo o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais” 15% dos utilizadores de redes sociais afirmam já ter realizado compras nesses sites; em Novembro de 2013, RTP1, SIC e TVI emitiram cerca de 213 horas de informação regular, o que representa uma média diária de 2 horas e 22 minutos por canal, e a RTP1 foi, a estação que emitiu mais notícias, com 2245 trabalhos, e a que deu mais tempo em grelha à informação regular, com cerca de 78 horas; duas candidatas a nova palavra do ano são “grandolada” e “pós-troika”.


 


ARCO DA VELHA - A Louropel é uma empresa de Famalicão que se tornou na líder mundial de fabrico de botões, produzindo entre 9 a 12 milhões de botões por dia, 25% dos quais ecológicos. Fatura 14 milhões de euros por ano, tem três fábricas e 243 trabalhadores e paga salários acima da média da região.




VER -  Hoje proponho-vos que vão ver uma loja - a loja nova de “A Vida Portuguesa”, no largo do Intendente, na antiga zona fabril da fábrica de azulejos Viúva Lamego. Ouso chamar exposição a esta loja. Uma exposição que tem  desde brinquedos a roupas, passando por conservas, azeites, produtos de cosmética ou até pastilhas elásticas. Tudo português, tudo feito em pequenas e médias empresas, tudo feito com criatividade e alma, com embalagens extraordinárias e por grandes marcas. Grandes marcas nossas - portuguesas. Catarina Portas começou há uns anos a apostar em descobrir e incentivar estes fornecedores - heróis que resistem à ditadura das grandes superfícies, ao comércio injusto que criou um sistema onde a distribuição tem lucros e os produtores têm custos - é o mundo ao contrário: sem produtores não havia comércio.  A loja em si é enorme - coexiste com as amostras dos antigos azulejos ali fabricados e que decoram partes das paredes. Quando se percorre esta loja renasce o orgulho sobre aquilo que somos capazes de fazer, sobre quem persiste em fabricar, em produzir, em se adaptar aos novos tempos. Algumas das marcas que Catarina Portas ajudou a redescobrir ganharam entretanto projecção internacional - estão nas zonas de luxo em grande cadeias de lojas em Nova Iorque, fornecem restaurantes em Londres, aparecem nas páginas de publicações como a Monocle. Estas marcas dão-nos orgulho e mostram-nos um caminho.




OUVIR - Vou gastar poucas linhas nisto: “The Marshall Mathers LP 2”, de Eminen, é um grande disco. Revivalista, tentativamente cabotino, a repisar territórios percorridos, às vezes óbvio, permanentemente provocador. Muito do que aqui está existe nas nossas memórias, mas a forma como reaparece é o que faz a diferença. 13 anos depois da versão original que lhe deu fama e proveito, Eminem faz o mais arriscado de todos os caminhos - uma viagem nostálgica que consegue convencer, com humor e sabedoria, uma sabedoria feita de lata e provocação - no fundo a melhor de todas.




FOLHEAR - Há algum tempo que não lia um livro que me divertisse tanto - e com o qual não estivesse tão de acordo - como “50 segredos politicamente incorrectos do amor”, de Pedro Marta Santos. Hoje em dia são publicados tantos livros que seguir o panorana editorial é uma tarefa impossível - ainda por cima maçadora se atentarmos nos best-sellers da chamada nova literatura portuguesa. Estou muito solidário com os que acham as estrelas literárias do presente uma bosta, desculpem-me a expressão mas melhor não me ocorre. Pedro Marta Santos felizmente escapa a essa definição e fez um livro maldito. Eu cá gosto dos livros malditos, inspiram-me bem mais que os livros bem-ditos. Além disso gosto de escritos confessionais - “marimbe-se definitivamente para a razão”, escreve o autor, antes de dizer uma evidênica: “Estaríamos todos melhor se Cristo fosse chanceler da Alemanha”. Estão a ver o que eu digo? O livro foi bem editado pela Guerra E Paz na sua colecção de Livros Politicamente Incorrectos. Bem haja.




PROVAR -  Durante meses andei a querer conhecer a Taberna Moderna - que fica na Rua dos Bacalhoeiros, a chegar ao Campo das Cebolas e à Casa dos Bicos.  Não foi fácil marcar mesa, o lugar está na moda - entre os devaneios dos novos fãs de Gin e a onda que a casa conseguiu criar. Este é um daqueles restaurantes que concilia um cozinha razoável com um entretenimento simpático. A qualidade da comida não é o único factor, o ambiente pesa mais pontos. Mas, felizmente, a comida não desagrada. Um arroz rico e de substância, chamado de Domingo, foi interessante, mas a salada de bacalhau e a salada de vieira foram mais estimulantes. O tamboril tostado com chutney também se relevou satisfatório. O tomate temperado nas entradas e o leite frito nas sobremesas ganharam votos. O serviço é simpático. O sítio é todo ele simpático. É um bom sítio, não sei bem se é só um restaurante. Fica na Rua dos Bacalhoeiros 18, está em  facebook/taberna moderna e tem o telefone 218 865 039.




GOSTO - Da nova loja das conservas que fica na Rua do Arsenal 130, em Lisboa, que tem cerca de 300 variedades de produtos, 70% dos quais são dedicados à exportação.




NÃO GOSTO - Da arrogância, a roçar o ditatorial,  de João Bilhim, numa entrevista sobre a sua comissão (que opina sobre o recrutamento de dirigentes e gestores públicos) a querer que ela tenha maior dimensão, faça maia avaliações e receba por isso pilim dos contribuintes. Se ele se leva a sério é um caso perigosíssimo: confundir um cenário com a realidade é fatal.




DIXIT - "Não tenciono colocar a minha liderança à disposição no curto prazo" - Pedro Passos Coelho




BACK TO BASICS - A democrcia é o processo que assegura que seremos governados por pessoas que nunca serão melhores do que aquilo que merecemos - George Bernard Shaw




dezembro 03, 2013

SOMOS CADA VEZ MENOS

Esta semana foi divulgado um estudo que indica que Portugal perde habitantes a um ritmo crescente e tudo indica que, quando acabar a intervenção da troika, teremos uma população menor e mais envelhecida do que aquela que tínhamos quando a crise começou. O aumento da emigração e a quebra da natalidade, em conjunto, colocam Portugal numa situação pior que qualquer outro dos países intervencionados.




Os efeitos da crise e as perspectivas nebulosas quanto ao futuro adiam decisões dos casais novos sobre mais filhos – o que quer dizer que daqui a duas décadas teremos um problema: menos novas famílias constituídas, diminuição do consumo, com, consequências que atingem vários sectores da economia.


 


Por outro lado a saída de muitos jovens que vão procurar trabalho no estrangeiro tem um reflexo directo no envelhecimento da população, o que reduz ainda mais a taxa de natalidade e agrava a situação.


 


Vários especialistas consideram, por outro lado, que o aumento da emigração dos jovens mais qualificados significa também que iremos ter menores condições de desenvolver sectores competitivos da economia. No jornal “Público” de ontem vários especialistas coincidiam no diagnóstico: “A perda de população tira ao país potencialidades de crescimento a prazo”. Porquê? – “Na prática, o que acontece é que com menos população, especialmente se a que saíu estava entre a que tinha mais qualificações, a capacidade do país para ser mais produtivo, competitivo e inovador pode perder-se durante um período muito longo de tempo.”


 


Esta situação de perca de população é um efeito colateral, mas directo, das medidas tomadas na sequência do descalabro a que se chegou. O descalabro da primeira década deste século vai deixar marcas numa geração inteira.


 

novembro 29, 2013

PÚBLICOS, CONSUMOS E CULTURA

PÚBLICOS - Os portugueses estão a ir menos ao cinema, quase não frequentam bibliotecas públicas e visitam pouco os museus. Espectáculos, tirando os festivais de verão, têm público reduzido, seja teatro, dança ou ópera. As vendas de livros estão abaixo da média europeia - nos principais indicadores de consumos culturais ombreamos com a Roménia e a Bulgária. Há quem diga que o problema essencial tem a ver com a falta de estímulos à cultura desde os bancos da escola primária. Ouso aqui lançar uma provocação: após décadas de subsídios, de muitos milhões investidos em teatro, cinema e num conjunto alargado de instituições e equipamentos, porque é que não existem e se multiplicam os públicos? Será apenas porque a escola não ensina a descobrir a cultura, ou será que os agentes culturais se foram divorciando dos públicos? Já sei que vou ser pouco popular, mas não me sai da cabeça que quem não precisa de vender bilhetes para ter receita tem tendência a falar para o umbigo. Isto passa-se  na maior parte dos sectores subsidiados, nos sectores onde se foi desleixando a comunicação com os públicos, onde não foi objectivo assumido a vontade de os captar e multiplicar. Assim, quando esses públicos não surgem a culpa é sempre do sistema - que não os empurra em rebanho até quem os devia captar. E esses, para além das falhas do sistema, ficam demasiadas vezes sentados à espera que alguém chegue. Mas quando há uma boa ideia, bem divulgada e produzida, o público lá aparece - veja-se o que aconteceu com a exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda.




SEMANADA - Passos Coelho afirmou que a reforma do Estado não é uma iniciativa totalitária; na Assembleia da Republica foi aprovado o Orçamento de Estado para 2014; Soares apelou às armas; as polícias em manifestação invadiram as escadas do Parlamento; sindicalistas ocuparam quatro Ministérios; as secretas confessaram desconhecer tudo isto; cada Ministério vai ter 20 polícias a reforçar a segurança; mais de 400.000 pessoas ganham o salário mínimo; sete em cada dez pensionistas da segurança social ganham menos que o salário minimo; desde 2010 a UE aumentou em 6,7 milhões o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão; o governo decidiu adiar para 2014 a emissão de dívida a longo prazo; o Banco de Portugal considerou que o orçamento de estado para 2014 pode fazer agravar o crédito malparado; as empresas públicas não financeiras aumentaram o endividamento em 6,2% no ano passado; o Banco de Portugal alertou para os riscos da elevada exposição da banca e dos seguros à divida publica portuguesa;  depois das promessas eleitorais das últimas autárquicas, António Costa aproveitou a primeira reunião da nova Assembleia Municipal de Lisboa para anunciar que a Câmara de Lisboa vai aumentar “de forma estrutural” taxas municipais em 2014; o custo dos doze estádios de futebol que estão a ser preparados para receber o Campeonato do Mundo, que decorre no próximo ano no Brasil, agravou-se em 320 milhões de euros menos de um ano; as crianças a partir dos oito anos gastam metade do seu tempo livre, cerca de 21,5 horas por semana, a ver TV ou na internet.




ARCO DA VELHA - A CMVM demorou quatro meses a disponibilizar publicamente a informação de que Rui Machete havia renunciado ao cargo de vice-presidente da Assembleia Geral da CGD na data em que tomou posse como Ministro dos Negócios Estrangeiros.




VER -  Esta semana andei a espreitar no Facebook o que andam alguns artistas a fazer. Soube que Cristina Ataíde vai levar as suas montanhas (a imagem que aqui está)  a Nova Iorque no próximo ano. Descobri um sedutor conjunto de molduras vazias na página de Ana Vidigal. Espreitei o novo atelier de Paulo Brighenti. Vislumbrei as viagens de Susana Anágua. Invejei os trabalhos que Carlos Correia levou até à Galeria Pedro Oliveira, no Porto. Segui as fotografias que Luísa Ferreira vai fazendo. Em procurando bem o Facebook dá-nos um retrato do que se vai preparando, melhor que os guias desactualizados e tardios que são publicados na imprensa, cada vez mais preguiçosa a seguir a realidade nesta área, com medo de ofender com o que escreve e com pudor em mostrar o que não está na moda. Apetecia-me que alguém fizesse uma galeria virtual no Facebook, onde fosse expondo trabalhos que de outra forma não podemos ver. Irrito-me cada vez que percebo que uma exposição acabou e já não a consigo visitar. Mas ficaria menos irritado se a pudesse pelo menos vislumbrar na sua memória digital. O Facebook é bom para isso - pode deixar o testemunho, como se fosse um catálogo virtual. Há muito ainda por fazer neste mundo novo, e as possibilidades que ele abre de divulgação da arte contemporânea são infindáveis.




OUVIR - Há discos que são uma festa e “Caríssimas Canções”, de Sérgio Godinho, é um deles. Trata-se de um trabalho de selecção e interpretação de canções alheias, que vão de “People Are Strange”, dos Doors, a “Heartbreak Hotel” de Elvis Presley, com boa passagem garantida por temas como “Sampa”, de Caetano Veloso, “Vendaval”, que foi cantado por Tony de Matos, as brasileiras “Conversa de Botequim” e “Geni e o Zepelin”. Mas aqui estão também Zeca Afonso com os seus “Vampiros”, Jacques Brel com “Les Vieux” ou Violeta Parra com “Volver A Los 17”. E, claro “You’ve Got To Hide Your Love Away”, dos Beatles. É uma espécie de cancioneiro eclético de uma geração, interpretado com amor, humor e originalidade. Gosto dos arranjos, da guitarra marcante que se manifesta em “Vendaval”, do trabalho que Hélder Gonçalves, Manuela Azevedo e Hugo Rafael fizeram com Sérgio Godinho. Já sabia que Sérgio é um dos melhores fazedores de canções que temos; fiquei a saber que é também um dos nossos grandes intérpretes de composições alheias. O disco foi gravado ao vivo no CCB e na Casa da Música no final do primeiro semestre deste ano. Lá em casa esté em estado “repeat” há uns dias.




FOLHEAR - Este mês a Monocle publica uma dupla edição, que abarca Dezembro e Janeiro, dedicada a mostrar os caminhos para ser bem sucedido em 2014. A edição é grande - 300 páginas mais um suplemento de outra centena, dedicado a escolhas especiais da equipa da revista - The Monocle 100. Em destaque um guia de compras em Lisboa. Logo na primeira página está em realce a Chocolataria Equador, do Chiado, já aqui louvaminhada. Outras lojas em destaque são a luvaria Ulisses, a Conserveira de Lisboa, a Chapelaria Azevedo, a Loja do Burel, a charcutaria Moy e a Embaixada do Princípe Real. Em matéria de comida as recomendações passam pelo Cantinho do Avilez, o Bistro 100 Maneiras e a Petiscaria Ideal. O hotel sugerido é o Memmo Alfama. Mudando de registo, só pelo suplemento The Monocle 100 já se justificava ter a revista - é delicioso folhear boas ideias de todo o mundo. E para quem se interessa pela sobrevivência da imprensa há dois interessantes artigos sobre experiências bem sucedidas - uma na California e outra na Suécia.




PROVAR - Um dia destes foi almoçar, algo desconfiado, confesso, ao restaurante do Chef Cordeiro no Terreiro do Paço. Saí de lá convencido de que não vale a pena ir de pé atrás quando o anfitrião tem pergaminhos - uma estrela Michelin na Casa da Calçada em Amarante e outra na Feitoria do Altis Belém. Não deve ser fácil governar uma casa daquelas - tem  área considerável no interior e na esplanada exterior, soberba, sobre a maior praça de Lisboa. No piso superior há uma zona mais formal e com uma escolha de lista mais elaborada. Fiquei-me, satisfeito, pelo rés do chão. Esquecendo um deslize ou outro no serviço, passemos à substância. Comecei com uma muxama de atum que estava muito boa e que cumpriu a função, abrindo o apetite. Provei um rissol de berbigão e camarão, rico, cremoso, saboroso, que me fez lembrar os que comia em casa da minha avó. Já o pastel de bacalhau achei trivial. Mas, em compensação, a açorda de bacalhau com poejos estava no ponto açordeiro, com bom bacalhau que se sentia e com o aroma único dos poejos frescos. Tudo foi acompanhado com vinho a copo, primeiro branco e depois tinto, sempre Álvaro Castro, do Douro. Espero que o Chef Cordeiro dedique a este local o tempo e a atenção que merece e que não se distraia, nem se perca,  com a tentação de ser estrela de televisão. Hei-de lá voltar, quando fizer menos frio, para me deliciar na esplanada. O telefone é o 216 080 090.




GOSTO - Com a campanha “Portuguese shoes the sexiest industry in Europe”, o calçado português ganhou um prémio europeu de apoio à internacionalização de empresas, em concorrência com o champagne de França.




NAO GOSTO - Há restaurantes que não avisam não ter multibanco e que, na hora de pagar, indicam que ao lado há uma caixa para ir levantar dinheiro. Foi o que me aconteceu esta semana no muito badalado Mercantina, em Alvalade. A evitar.


DIXIT - “Prefiro uma igreja ferida e suja por andar na rua a uma igreja interessada em ser o centro e que acabe enclausurada num emaranhado de obsessões e rituais”  - Papa Francisco




BACK TO BASICS - Quanto mais coisas existem que possam envergonhar alguém, mais essa pessoa é encarada com respeito - Gerorge Bernard Shaw




novembro 26, 2013

O CASO DO DEPUTADO PIRATA

Ofereço hoje o meu espaço de opinião à Associação do Comércio Audiovisual de Obras Culturais e de Entretenimento de Portugal – Acapor. A Acapor dirigiu uma carta aberta ao deputado do PS João Galamba, pedindo a sua demissão, por este ter solicitado, através do twitter, um link de uma transmissão ilegal do jogo de futebol Porto-Sporting.


 


Excertos da carta-aberta da ACAPOR: “Temos procurado elucidar a comunidade e particularmente o poder político/legislativo para as consequências nefastas e arrasadoras do problema da pirataria. Como se vê, continuamos muito longe de alcançar os objectivos. A revelação pública, não hesitante e despudorada de que o Sr. Deputado procura ver por canais ilegítimos uma transmissão desportiva com exclusividade de visionamento por subscrição paga é prova que, provavelmente, andamos a perder o nosso tempo na Assembleia da República. A pirataria é a principal causa da perda de 4 Milhões de espectadores nas salas de cinema em menos de 3 anos – 1,1 Milhões só nos últimos 10 meses – é responsável por não existir actualmente exibição regular de cinema dos Distritos de Évora, Beja, Portalegre e Castelo Branco. A pirataria está ainda na origem da perda de 25 milhões de vendas de DVDs/Blu-Rays em apenas 4 anos. Independentemente da questão penal do comportamento e da inerente incitação à prática de crime à comunidade, a falta de sensibilidade para a problemática por si manifestada e o desprezo pelo drama das famílias que perderam o seu sustento às mãos da pirataria, deveriam levar o Sr. Deputado a apresentar a renúncia ao seu mandato, nos temos do artigo 7.º do Estatuto dos Deputados em face da grosseira violação do artigo 14.º n.º 1 al. e) do mesmo diploma legal.”




(Publicado na edição de dia 26 do diário METRO)

novembro 22, 2013

SOBRE O VAZIO NACIONAL

VAZIO  - Um dia talvez se consiga fazer a História destes anos, deste terrível começo de século que levou Portugal para o vazio onde nos encontramos, um vazio tecido por uma nova emigração que procura outra vez fora de Portugal o que o país lhe não pode dar; um vazio de ideias e de protagonistas políticos, um vazio que vive no conformismo, que não tem rasgo para além da obediência. Este nosso Portugal é o retrato de um país que encomendou estudos que ignorou; que teve oportunidades que desbaratou; que recebeu milhões que desperdiçou; que foi megalómano ao ponto de deixar o básico e fazer o supérfluo; que não conseguiu pôr a justiça a funcionar a metade do ritmo a que aumentou impostos. Este é ainda o país onde o Estado entende que a sua missão é dificultar e não ajudar a criar. É um país carregado de oportunidades mas perito em semear dificuldades. Dantes tínhamos industriais mas não tínhamos designers; hoje temos designers mas não temos novos industriais. As coisas parece que crescem onde não devem, e encolhem onde deviam aumentar.




SEMANADA - O porta-voz do PS, João Ribeiro, suspendeu funções partidárias e vai emigrar para a Coreia do Sul, ao serviço da ONU; no ano passado terão emigrado 2500 enfermeiros portugueses; tabaco mata 29 pessoas por dia em Portugal; 90% dos fumadores portugueses iniciaram o consumo de tabaco antes dos 25 anos; Portugal tem a segunda pior taxa de natalidade da UE, apenas superada pela Alemanha; o país parece um copo vazio - Portugal perdeu 55 mil habitantes em 2012; Pinto Monteiro, ex-Procurador Geral da República, afirmou que há cópias das escutas do processo “Face Oculta”, que deviam ter sido destruídas, nas mãos de “jornalistas e particulares”; 15,5 % das vitimas de violência conjugal são homens; Rui Tavares lançou um projecto de partido, a que chamou Livre e convidou para o evento José Sá Fernandes; Cristiano Ronaldo iniciou a construção de um museu na Madeira que receberá os troféus ganhos pelo jogador; desde que este Governo está em funções já se verificaram perto de 500 dias de greve no sector dos transportes; exportações de calçado subiram 7,2% até Setembro; a macdonalds já faz 34% das compras a produtores nacionais; doze restaurantes portugueses receberam estrelas no guia Michelin de 2014; a Pepsi na Suécia quis fazer uma campanha viral contra Cristiano Ronaldo e saíu-se muito mal - a Pepsi tem, no mundo inteiro, no facebook, 28 milhões de fãs, pouca coisa comparados com os 64 milhões de Ronaldo, que caíram em cima da beberragem que nem gato a bofe.




ARCO DA VELHA - O Ministro da Administração Interna afirmou-se surpreendido com o elevado número de horas de inoperacionalidade dos helicópteros Kamov durante o período crítico dos incêndios florestais. No total os cinco helicópteros Kamov estiveram inoperacionais 2318 horas, ou cerca de 96 dias inteiros. Este ano os incêndios devastaram 145 mil hectares e mataram nove pessoas.




VER - Há uma pequeníssima e muito curiosa galeria em Lisboa, que integra o Projecto Travessa da Ermida a Ermida de Nossa Senhora da Conceição. Fica numa pequena rua de Belém, a estreita Travessa do Marta Pinto, perto da Fábrica dos Pastéis de Belém, numa antiga ermida cujo proprietário é um médico, Eduardo Fernandes. O Projecto é completado pelo restaurante Enoteca de Belém, pela Oficina de Joalharia e ainda por uma publicação bi-anual, “Efeméride”. Desde esta semana e até 22 de Dezembro a Ermida apresenta dois desenhos de grandes dimensões de Teresa Gonçalves Lobo que este ano já mostrou trabalhos bem diferentes, por exemplo na Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e na VPF Creamarte. “Para Além De”... é o título desta exposição que é mais uma mostra da forma de desenhar, original e pesoalíssima da artista, que combina s simplicidade com a força, a sobriedade com a emoção. O texto de apresentação da exposição, de Bernardo Pinto de Almeida tem um título que diz tudo: “ A disciplina secreta do desenho”.




FOLHEAR  - A edição de Dezembro da revista “Vanity Fair” tem Nicole Kidman na capa, a propósito de uma das mais reveladoras entrevistas da actriz que gosta de realizadores rebeldes e decidiu sair de Los Angeles e ir viver para Nashville. A Vanity Fair costuma vangloriar-se de ser a revista com melhores artigos sobre o mundo da finança e nesta edição o perfil de Dan Loebe, um dos mais polémicos gestores de hedge funds, não deixa os seus créditos por mãos  alheias ao descrever a forma como ele actua e os expedientes a que recorre quando quer controlar uma empresa. Um dos pontos altos da revista é um inquérito, a 100 personalidades relevantes da arte, sobre quem são os maiores artistas contemporãneos vivos: e os vendedores são Gerhard Richter, Jasper Johns, Richard Serra, Bruce Nauman e Cindy Sherman - que ficam no Top 5. A reportagem do mês é sobre uma tribo da Amazónia e a polémica da edição é sobre a vida secreta do Vaticano, ou a comunidade gay que vive no centro de poder da Igreja Católica.




OUVIR - Uma coisa mesmo engraçada é que os Beatles, ao fim destes anos todos, ainda mexem - quer dizer, ainda se descobrem gravações inéditas. Há poucos dias foi editado “The Beatles On Air - Live at the BBC Volume 2”. O Volume 1 tinha sido originalmente editado em 1994, e foi agora também reeditado. Este segundo volume tem dois CD’s e 63 registos gravados em programas da BBC que foram para o ar em 1963 e 1964 e que até aqui não tinham tido edição discográfica. Além de canções há numerosas gravações de conversas com os quatro Beatles, momentos de humor, excertos do programa semanal “Pop Go The Beatles” que durante algum tempo eles asseguraram, cantando temas seus mas também versões de outros - como a deliciosa “I’m Talking About You” de Chuck Berry onde John Lennon mostra bem as suas origens no rock’n’roll, uma decente versão de “Words Of Love” de Buddy Holly e uma muito emotiva forma de interpretar “Please Mr. Postman”. E claro que também se encontram versões gravadas ao vivo para a rádio dos primeiros êxitos dos Beatles - “She Loves You”, “Do You Want To Know A Secret”, “Please Please Me”, “And I Love Her” ou “I Want To Hold Your Hand”, entre muitas outras. São duas horas divertidas, um regresso a bons tempos da rádio. Num pequeno texto de introdução Paul McCartney homenageia a tradição da BBC, escrevendo que foi a ouvir a estação que descobriu a música. E que, depois, foi a BBC que ajudou a que os Betales chegassem onde chegaram.




PROVAR - Um prato de que gosto muito, e que por falta de oportunidade raramente como, é essa pequena maravilha a que se chama fígados de aves à francesa. Cortados os fígados em pequenos pedaços, refogados num molho que leva um pouco de vinho branco e frutos secos, são acompanhados por arroz branco, solto. Bem apurado, o molho fica espesso e ajuda a dar sabor ao arroz. Ao contrário do que se pode pensar é um prato leve e um dos restaurantes que melhor o confecciona é o Café do Chiado. Situado a dois passos do Chiado, no Largo do Picadeiro, entre as traseiras dos teatros S. Luiz e S. Carlos, o Café do Chiado é há muito uma referência quando se fala de um local com uma cozinha de qualidade, pratos tradicionais, bom serviço e preços médios. Além dos fígados de aves encontram um bom rosbife, um arroz de pato honestíssimo, bom bacalhau à braz e uns surpreendentes ovos mexidos com salmão. A garrafeira é equilibrada e concilia vinhos tradicionais com algumas boas propostas recentes - peça recomendações que vale a pena. O Café do Chiado pertence ao Centro Nacional de Cultura e foi remodelado em 2006, mas mantém uaa sala interior onde livros e jornais integram a decoração. Cá fora está uma das melhores e mais confortáveis esplanadas da Baixa. Está aberto todos os dias das dez às duas da manhã, servindo ao longo de todo o dia.  O telefone é o 213 460 501.




DIXIT - “Se Ronaldo não vencer a Bola de Ouro é injusto” - Paulo Bento




GOSTO - Do trabalho de comunicação que está a ser feito relativamente à privatização dos CTT.




NÃO GOSTO - Do espanto algo serôdio causado pelas revelações de Fernando Moreira de Sá sobre os métodos utilizados para promover Passos Coelho em 2010.




BACK TO BASICS - A democracia é o processo pelo qual as pessoas são livres de escolher quem é que vai levar com as culpas do que aconteceu - Laurence J. Peter.




novembro 19, 2013

O carro à frente dos bois

Constato que foi criado um partido cuja linha programática principal é fazer eleger Rui Tavares para o Parlamento Europeu. Explico melhor – ele já é eurodeputado, mas foi eleito pelo Bloco de Esquerda, de onde saíu há uns meses. Não encontrando quem lhe agrade para se incluir nas listas, para as próximas eleições, resolveu criar um partido. Arranjou outros dissidentes, como Joana Amaral Dias e uns ex-simpatizantes, como José Sá Fernandes, e resolveram montar uma organizaçãozinha que lhes dê voz – melhor dizendo, que lhes proporcione um palco.


 


Sabe-se pela voz do seu promotor que o novo partido irá posicionar-se a meio da esquerda. Não sei bem o que isto será – se entre o PS e o PC, se entre o PC e o Bloco, se num qualquer ponto geométrico improvável que agora não distingo. Tudo parece demasiado plástico – por exemplo os quatro pontos que o norteiam são a liberdade, a esquerda, a Europa e a ecologia. Acho curioso querer conciliar a europa com a liberdade, olho para as palavras e parece-me um cocktail de circunstância feito num panelão onde irão caindo trânsfugas mais interessados num poiso que numa ideia. A ver vamos o que isto dá – se é que vai dar alguma coisa.


 


Decidiram chamar “Livre” ao novo partido e escolheram para símbolo uma papoila. Infelizmente a beleza da papoila é efémera – assim como a sua vida – é das flores que mais rapidamente fenece. Quando olho para o que vejo escrito sobre este partido, sobre o que o seu principal promotor diz, não lhe entendo o sentido, nem o objectivo. Será como a papoila,que aparece e desaparece num instante? Olho para a operação montada e parece-me ter sido feita de trás para a frente. Sabe-se nome e símbolo mas não se percebe para quê, nem o quê, nem como. Está o fato pronto, mas ainda não se sabe quem o vai vestir. É o típico caso de colocar o carro á frente dos bois.


 


(Publicado na edição de dia 19 de Novembro do jornal Metro)

novembro 15, 2013

O PODER, O IMOBILISMO, OS PARTIDOS, AS PALAVRAS AO VENTO

PODER - Há um espectro que assola a maioria parlamentar em Portugal e esse espectro é o Tribunal Constitucional. O resultado de ter uma Constituição fortemente marcada por conceitos ideológicos é que a sua interpretação favorece opções ideológicas. O Tribunal Constitucional, pela forma como os seus membros são designados, é o terreno ideal para crescer um problema. O problema foi adubado, cresceu, fortificou e hoje em dia o Tribunal Constitucional tornou-se ele próprio numa força política. Não é propriamente uma coisa muito normal, mas é assim, e não ter esta realidade em conta é sinal de que se pretende exercer o poder ignorando esse mesma realidade - e isso dá sempre mau resultado. Hoje é esta maioria a ter problemas, no futuro será outra qualquer, mas a questão essencial permanece: o sistema político está a precisar de uma reparação urgente - está prestes a ficar bloqueado, como um motor sem óleo nem manutenção que ao fim de um tempo deixa de funcionar. Os os partidos se convencem que a questão tem de ser encarada de frente e que é essencial existir um acordo que permita desbloquear o regime, ou um dia destes vão todos ficar a lamentar nada terem feito, atirando culpas uns para cima dos outros. Infelizmente conhecemos esta parte de ginjeira mas isso só nos devia levar a agir, e não a fugir à questão. Parece que cada geração política que entra no poder é mais imobilista que a anterior.




SEMANADA - O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, continua a cometer gaffes quando em visita oficial fora de portas; começou mesmo a campanha eleitoral para as presidenciais; António Capucho anunciou em entrevista que estava disponível para ser candidato a Presidente da República; na mesma senda, foi lançado esta semana o livro  “António Guterres - Os Segredos do Poder”, uma biografia autorizada do ex-PM, onde este ataca Marcelo Rebelo de Sousa, outro candidato provável;  invocando a situação na justiça o Conselho Superior da Magistratura reuniu, pela primeira vez, com Cavaco Silva; o Índice de Expectativa Marktest caiu fortemente em Outubro, revelando um aguçar do clima de pessimismo acentuado entre os portugueses relativamente à sua situação económica e à do país - as mulheres revelam-se mais pessimistas do que os homens e as pessoas acima de 55 anos são as mais pessimistas de todas; dívidas fiscais contestadas em tribunal disparam 1,5 mil milhões em três meses; o Estado perde 50 milhões com  benefícios questionáveis concedidos nas isenções de IMI; facturas por pagar cresceram 25% nos Media e mais de metade das empresas do sector antecipam riscos de pagamento no próximo ano; a produção industrial em Portugal caíu 11,2% em setembro, destacando-se como o pior resultado da União Europeia face ao mês anterior; nova queda no número de nascimentos em Portugal - de 90 mil no ano passado devemos passar para 80 mil, o número mais baixo desde que há registos; armas apreendidas pela GNR aumentam quase 50% por cento em seis meses.




ARCO DA VELHA - Estou para ver se os prémios, como carros,  que as Finanças vão sortear para quem pede facturas estarão sujeitos à regra da retenção de 20% quando tiverem valor superior a cinco mil euros.




VER - Semana de inaugurações: Na Baginski, Rua Capitão Leitão 51-53, no Beato, inaugurou “Index 2013”, de Pedro Casqueiro, um conjunto de pinturas a acrílico sobre tela, que ocupam as duas salas da Galeria - um dos trabalhos é o que ilustra esta nota -  e que mostram a produção mais recente do autor, com alguns dos seus traços característicos - a evocação do desenho, a definição de formas geométricas e a influência da pop art; a exposição de Pedro Casqueiro fica na Baginski até 11 de Janeiro. No Transboavista VPF Art Edifício (Rua da Boavista 84) abriram esta semana várias exposições. Uma delas, “Duda Original”, é uma colectiva de artistas contemporãneos espanhóis integrada na Mostra Espanha 2013, com curadoria de Andrea Rodriguez Novoa e Verónica Valentini. Duas outras exposições em destaque no mesmo edifício - “New Wave”,  na VPF, com trabalhos de Cecília Corujo, Inês Rebelo de Andrade, Catarina Vaz e João Maciel);  e “Dear Stories” (na Plataforma Revólver, em torno da imagem fotográfica, por iniciativa da agência de fotografia de autor Dear Sir, com trabalhos de  Alexandre Almeida, Angela Berlinde, Inês d’Orey, José Bacelar, Luisa Ferreira, Mireille Loup, Monika Merva, Paulo Catrica, Tito Mouraz e Valter Vinagre). Até 11 de Janeiro.




FOLHEAR  - Luis Queirós é sobretudo conhecido pelo facto de ter sido o fundador e impulsionador da Marktest, a que preside. Mas além disso tem uma assinalável actividade cívica através da Fundação Vox Populi, que criou, e que intervém nas áreas educacional e ambiental. Licenciado em Físico-Químicas,  o desenvolvimento sustentável é uma das suas preocupações e ao longo do tempo foi alinhando as suas reflexões num blogue intitulado Transição - reflexões sobre o modelo de transição para a era poscarbono, que pode ser visto em poscarbono.blogspot.pt. Energia, recursos naturais, poluição, demografia e os limites que impõem ao crescimento são alguns dos temas que mais suscitam as reflexôes de Luis Queirós: “A ideia de Transição acompanha-me há muito. Conheci entre os adeptos da transição gente empenhada e solidária, e que acredita na existência de uma via diferente para prosperar”. Algumas das suas reflexões, escritas de 2009 para cá, foram agora reunidas num livro “O Mundo em Transição” , que, nas palavras do autor, “principiou a ser escrito quando o tempo se tornou confuso e o futuro começou a apresentar-se incerto e perigoso”. Viriato Soromenho Marques indica-o como pertencendo ao grupo de “pioneiros de uma verdadeira economia que assuma os limites ecológicos da experiência histórica e social da humanidade”.




OUVIR - Esta semana escolho ouvir um disco de 1962. Escolho ouvir o”Busto”, de Amália Rodrigues. É unanimemente considerado um disco marcante da carreira da fadista e da História do Fado. É o primeiro trabalho de Amália com Alain Oulman, e é também o primeiro onde canta poemas de Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira e Luis de Macedo, por exemplo. O acompanhamento é feito por José Nunes na guitarra portuguesa, por Castro Mota na viola e por Alain Oulman no piano, até aí um instrumento pouco ouvido no Fado. A capa é uma fotografia de Nuno Calvet de um busto da própria Amália feito pelo escultor Joaquim Valente. Aqui estão fados como “Asas Fechadas”, “Abandono”, “Povo Que Lavas no Rio” e um da própria Amália,  “Estranha Forma de Vida”, que com o tempo ganhou novo sentido neste “Busto”. Escrevo tudo isto porque esta junção de talentos, esta escolha das diversas peças, se deve a uma pessoa, o grande produtor discográfico que marcou a música portuguesa no século XX, Rui Valentim de Carvalho. Esta semana, ao reouvir o “Busto”, imaginei-o a juntar as pessoas, a assistir ao que estava a ser feito, a acompanhar e a estimular o processo criativo como ela tão bem e tão discretamente sabia fazer. A imagem que tenho de Rui Valentim de Carvalho é a de um sorriso a espreitar na porta, a perguntar o que havia de novo para ouvir. E ouvia com atençāo, e dava preciosas sugestōes. Tinha uma total abertura de espírito e uma curiosidade imbatível. E, sempre, uma palavra de incentivo. Só assim podem nascer discos como este “Busto”.




PROVAR - De há uns tempos a esta parte renasceu o consumo de Gin - e já não estou a falar do simples Gin com água tónica, uma rodela de limão, gelo e mais nada. O Gin ficou na moda, aparecem novas marcas a toda a hora, até há uma premium portuguesa, aparecem bares especializados e restaurantes que propõem combinações de Gin com alguns pratos. Há garrafas de Gin que se batem em preço com as dos melhores whiskies de malte e até a forma de consumo varia. Há copos especiais para as novas experiências de consumo, na forma de balão, e sobretudo criou-se o hábito de no momento misturar ingredientes botânicos, especiarias que garantem uma nova experiência. Algumas destas especiarias são utilizadas na destilação do Gin, e a sua adição no momento do consumo produz novos sabores. Um dinâmico apreciador português de Gin teve a ideia de facilitar a vida dos consumidores e criou a Gin Box, uma caixa com dez das espécies botânicas mais utilizadas pelas principais marcas de gin vendidas em Portugal, arrumadas de uma forma prática e organizados para rápida preparação da bebida: Flor de Hibisco, Grão de Coentro, Pimenta da Jamaica,, Pimenta Rosa , Cardamomo,, Cravinho, Bagas de Zimbro , Estrela de Anis , Noz-moscada  e Pau de Canela. A venda da Gin Box é feita exclusivamente online através do site www.theginbox.com. A página da Gin Box no Facebook tem receitas e conselhos práticos - a caixinha promete munições para provas de Gin bem disputadas entre amigos..


 


DIXIT - “Os partidos têm de aceitar que têm de se reformar porque o mundo mudou” - Adriano Moreira




GOSTO - O Ministro da Economia, Pires de Lima, é da opinião que deve ser introduzida uma disciplina de empreendedorismo no ensino obrigatório.




NÃO GOSTO - Do número crescente de lojas fechadas, com a indicação de venda ou aluguer, que proliferam pelas ruas do centro de Lisboa.




BACK TO BASICS - Para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras - Padre António Vieira.

novembro 13, 2013

AMEAÇAS ANÓNIMAS DO FISCO

Começar o dia com um mail das Finanças, enviado às seis e meia da manhã, com o título “Pague as suas dívidas fiscais sem juros nem custas e com redução de coimas” é mesmo uma coisa desnecessária. Todo o palavreado do email está escrito como se o cidadão fosse devedor de alguma coisa, insinua penalidades e trata-o como se de facto tivesse dívidas. Eu sabia que não tinha dívidas, mas fiquei receoso de algum lapso e fui ver – e de facto não existe, da minha parte, nenhuma dívida ao fisco. Mas mesmo assim o fisco trata-me como se eu fosse um bandido. Pois eu acho que quem comete o crime de falsa acusação é que age como um bandido. O email que recebi – e que com certeza milhares de contribuintes receberam - não vem assinado por ninguém, apenas por um anónimo cargo de Chefe dos Serviços de Finanças. Se quiser responsabilizar alguém pelos incómodos que me causou, quem nomeio? Será legal ameaçar um contribuinte de forma anónima?


 


Eu acho esta forma de tratar as pessoas um abuso. Um enorme abuso. Pago os meus impostos – que não são pequenos - e vi todos eles, sem excepção, aumentarem. Não sinto que o Estado esteja melhor. Se pago mais e o Estado não está melhor, é ele que me é devedor, não sou eu.


O modo como as Finanças agem através da Autoridade Tributária faz lembrar aqueles polícias de trânsito que numa recta no meio de Alentejo se escondiam atrás de um chaparro a ver se alguém excedia a velocidade num sítio onde o limite era anormalmente baixo. É tudo feito às escondidas, para penalizar o cidadão e não para melhorar o funcionamento das coisas. O país vive de autoridades que ameaçam mais do que deviam e que fazem do abuso o seu modo de vida. Aos políticos interessa este estado de coisas – aumentar os impostos é a única medida que sabem implementar.


 


(publicado no Metro de 12 de Novembro)


 

novembro 08, 2013

Sobre o processo de decisão nos partidos políticos e sugestões avulsas

PARTIDOS - O caso das suspensões, expulsões e polémicas partidárias, desencadeado pelas recentes eleições autárquicas, leva-me a pensar no funcionamento actual dos partidos. Seria curioso ter um estudo independente e sério, actual, sobre o processo de decisão interno dos partidos em questões como escolhas de candidatos e grandes opções políticas.  Seria curioso saber de facto quantos militantes activos tem cada partido, o que é a vida partidária fora dos ciclos eleitorais - das eleições internas e das eleições nacionais. Seria fundamental saber quais são, no dia a dia, as formas de intervenção na sociedade, nomeadamente no alargamento da actividade fora da estrita militância para outros níveis de apoio menos estruturados. A minha sensação é que hoje em dia os partidos - a maioria - são estruturas opacas fechadas sobre si mesmas. Debatem os seus problemas internos, criam os seus conflitos internos, organizam facções, degladiam facções, levantam inquéritos, propõem sanções, promovem expulsões. O que se passa no PSD Madeira e no PSD em distritos como Porto ou Sintra, por exemplo, são casos elucidativos de um espírito revanchista que não perdoa o pensamento autónomo e enaltece a obediência cega, tendo ainda por cima a particularidade de não promover, com igual intensidade e rapidez, o apuramento de responsabilidades dos actos que levaram a essas dissidências e  a maus resultados eleitorais. Como é que um partido quer captar simpatizantes e alargar o seu círculo de influência se trata assim aqueles que são supostos ser os seus melhores quadros?




SEMANADA - Já existem 38 mil canais no Meo Canal; um terço dos pneus analisados num estudo recente da ACAP estavam em más condições para circulação; um aluno com seis anos de idade, de uma escola de Mangualde, foi suspenso depois de morder um colega; uma escola de Gaia, construída há dois anos e que teve um custo de seis milhões de euros, já precisa de obras de reparação urgentes; na Guarda a mãe de um aluno que tinha sido repreendido por mau comportamento agrediu a professora que fez a repreensão, a qual teve de receber tratamento hospitalar; o numero de refeições diárias fornecidas nas cantinas sociais aumentou 25% para 49.150 por dia; há mais de 12 mil casais em que nenhum dos membros tem trabalho; o Ministério Público decidiu que não houve falsificação dos documentos apresentados por orgãos de comunicação que indicavam a participação de Pais Jorge, ex-secretário de Estado deste Governo,  na negociação de contratos swap pelo Citigroup com o Governo de Sócrates; por falta de capacidade do servidor interno da organização, inspectores da Judiciária estão a ser aconselhados a guardar dados dos seus inquéritos nos seus computadores pessoais.




ARCO DA VELHA - Por ano cada português consome 466 sacos de plástico e um dinamarquês apenas consome quatro.




OUVIR - “Reflektor”, o novo álbum dos Arcade Fire, deve neste momento ser o recordista de elogios da crítica internacional. Posso assegurar uma coisa: os elogios não são exagerados e, apesar das reticências que alguns sentiram em relação ao trabalho anterior, “Suburbs” (que na época aqui considerei um disco brilhante), a verdade é que este “Reflektor” parece ter convencido os mais cépticos. O álbum é provocador e inovador - no conceito sonoro, na produção, em boa parte assegurada por James Murphy, dos LCD Soundsystem. Logo no começo Will Butler e Régine Chassagne cantam "If this is heaven/I need something more" e essa frase dá o mote a todo o álbum - dois CD’s - ou dois volumes se preferirem, cada um com um guia impresso sobre as canções, no qual elas são contextualizadas. É um conceito inesperado - 13 canções em dois discos, pouco mais de 75 minutos de música. As influências são muitas - desde David Bowie, um dos heróis da banda e que no segundo disco faz um breve dueto com Will Butler, até ritmos caribenos, pop electrónico dos anos 80, sons dos Talking Heads ou até dos Velvet Underground. Pelo meio há referências punk e até glam rock, como sucede em “Joan Of Arc”, que encerra o primeiro CD. Este é claramente um disco de viragem, um ponto de ruptura com o passado. Há aqui risco e desejo de mudança - que isto suceda depois do sucesso comercial de “Suburbs” mostra a inquietude desta banda canadiana. Em “Normal Person” os Arcade Fire distanciam-se da rotina e deixam no ar o que é o lema que parece ter norteado todo o trabalho de concepção e produção deste disco - "If that's what's normal now, I don't want to know".




VER - Esta é a semana inaugural da Experimenta Design (EXD),  a bienal que desde 1999 se dedica ao design, arquitectura e criatividade. A edição deste ano é a primeira num novo modelo que pretende reforçar as componentes de informação e de formação directa, graças a um aumento do número de eventos na área das conferências, debates e workshops. Por outro lado o programa deste ano também procura garantir uma maior atenção ao desenvolvimento de projectos aplicáveis à cidade que acolhe a Bienal - e a propósito vale a pena dizer que a partir do próximo ano existira uma Bienal EXD em São Paulo, na sequência do estabelecimento de uma ligação de parceria e de uma plataforma conjunta com o Brasil. Em Lisboa, na programação deste ano, destaco as exposições “Metamorphosis” no Mosteiro dos Jerónimos, centrada na arquitectura; a “Identity” que no Convento da Trindade mostra uma escolha de criações de design de todo o mundo, a “Neoasterisms” no Planetário Calouste Gulbenkian e a “Unmapping The World” no Palácio dos Condes da Calheta. Ainda no Convento da Trindade o Lounging Space acolhe uma série de iniciativas que podem ser consultadas no site. O novo museu dos Coches vai acolher as conferências e existe uma aplicação para iPad com todas as novidades da EXD, na App Sttore, a EXD MAG.




FOLHEAR - A edição de Novembro da Vanity Fair tem na capa uma bela fotografia de Jay Z, vestido com um magnífico smoking branco. Lá dentro uma entrevista com Shawn Carter - o verdadeiro nome de Jay Z. Ali se conta a história de como um traficante de droga se tornou num rapper influente de sucesso, revelando-se como um dos símbolos da cultura popular, ao mesmo tempo que desenvolveu um império de negócios - Roc Nation - que vai da música ao desporto, passando pela moda e produtos de cosmética de luxo, e finalmente se assume como um homem de família, ao lado de Beyoncé. Outros pontos fortes desta edição são uma inédita história da vida de Mia Farrow, antes e depois de Woody Allen. Destaque para a lista dos nomes mais proeminentes daquilo a que a revista chama o New Establishment - e que vão de Jeff bezos da Amazon a Dick Costollo do Twitter, passando por Eric Schmidt do Google - num porfolio que ao todo junta 33 belíssimos retratos. Finalmentne destaque ainda para o encontro de dois designers de excepção - Jonathan Ive da Apple e Marc Newson e a forma como criaram um exemplar único de uma máquina fotográfica Leica para ser leiloada numa acção de recolha de fundos.




PROVAR - Sou um fã de anchovas - quer frescas, quer filetes de anchova de conserva. Não é fácil encontrar anchovas frescas em Lisboa, mas no Algarve ainda se conseguem encontrar em alguns restaurantes. Na ausência das frescas, as enlatadas cumprem bem a sua função. Sou um fã das anchovas Pitéu, principalmente dos filetes guardados em azeite em frasco de vidro. Mas, sem prejuízo nem desprimor das excelentes conservas portuguesas, outro dia aventurei-me na loja Gourmet do El Corte Ingles, e não resisti a umas anchovas do cantábrico, cuja imagem da lata aqui se reproduz. São preparadas pela Codesa, uma das boas conserveiras espanholas. Algumas das melhores barras de Espanha usam estas anchovas nas tapas que elaboram - e experimentem colocar um filete de anchova numa fatia de pão barrada de manteiga - vão ver o que é bom. Estas, da Codesa, vendem-se em embalagens de 20 filetes por 28 euros e de 10/12 filetes a 12 euros. Experimentem tirá-las da lata um pouco antes, estender os filetes num prato e regá-los com um fio de azeite, polvilhando de seguida com salsa fresca picada e, se quiser, um pouco de alho picado. Reserve e deixe marinar assim no frigorífico durante uma hora e meia e, a seguir, prove. Verá que o sabor fica mais suave e que pode confeccionar umas magníficas tapas.   




GOSTO - A versão inglesa de “Os Trinta - Nada É Como Sonhámos”, o primeiro romance de Filipa Fonseca da Silva, entrou no top 100 da Amazon, de livros escritos por mulheres.




NÃO GOSTO - Há falta de vacinas para recém nascidos nos centros de saúde de Lisboa.




DIXIT - “Nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo mal cheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário” - Juiz Rui Teixeira, a propósito da aplicação do acordo ortográfico.




BACK TO BASICS - “Quando se diz que a televisão transforma a política num circo, convém recordar que esse circo já existia e que a televisão veio apenas mostrar que nem todos os intervenientes estavam suficientemente treinados” - Edward Murrow

novembro 05, 2013

OS PARTIDOS E A PROCURA DA CULPA

Na ressaca das autárquicas começam a surgir as notícias de que alguns partidos políticos estão a mover processos contra militantes que apoiaram outras listas que não as dos partidos onde estavam filiados. Estas purgas internas varrem em graus diversos todo o leque partidário, mas o PSD é porventura o partido onde existem mais casos.


 


Eu percebo que um partido fique incomodado quando um militante se rebela. Mas também não posso deixar de pensar que muitas vezes a rebelião dos militantes nasce do facto de os partidos se afastarem dos seus princípios, de tomarem decisões erradas, de terem o processo de decisão concentrado em meia dúzia de pessoas que não se importam nem com a análise do que pode ser melhor e proporcionar melhores resultados, e muito menos pensam no que pode contribuir para uma boa imagem do seu partido.


 


O que se passou em vários pontos do país teve a ver com análises mal feitas, com juízos que tiveram mais em conta guerras de poder internas do que a apresentação de candidatos e programas credíveis. Muitas vezes, contrariando o mais elementar bom senso, foram apresentados candidatos sem nenhum ligação com os círculos onde iriam ser votados. O resultado foi sempre negativo para os partidos que fizeram este tipo de escolhas.


 


Ocorre-me perguntar se, em vez de instaurarem processos a militantes que se rebelaram contra más decisões, não valeria a pena averiguar quem tomou essas más decisões, saber porque as tomou e, no fim, instaurar processos a quem foi afinal o responsável pelo que sucedeu.


Ao longo dos anos, infelizmente,  os partidos têm-se afastado da realidade e são cada vez mais círculos fechados que apenas se movem para benefício de quem domina o aparelho, e não uma organização que se move em nome de uma ideia ou de um programa. E isso vai dar mau resultado.


 


(Publicado na edição de 5 de Novembro do diário METRO)