julho 05, 2013

A TENTAÇÃO DO PRECIPÍCIO NO TABULEIRO DE XADREZ

XADREZ - A única coisa que me ocorre é que os senhores políticos, além de escangalharem o país, tramaram a vida dos comentadores - uma opinião não se aguenta meia dúzia de horas e eu estou aqui quinta de manhã, sem saber que dizer. Poucos serão os que percebem o que se passou nos bastidores desde o fim de semana passado, mas há campo para fazer perguntas: Porque é que Passos Coelho persistiu no nome de Maria Luis Albuquerque, apesar de saber que o líder do outro partido da coligação discordava fortemente da escolha? Como é que o Presidente da República não usou os mecanismos à sua disposição para  perguntar ao líder do segundo partido da coligação se estava confortável com a situação? Porque é que Paulo Portas agiu, aparentemente, sem falar com os seus mais próximos? Tenho várias teorias sobre o assunto e algumas delas não são novidade: a primeira é que inabilidade política, teimosia, desfasamento da realidade, arrogância e sobranceria têm sido  linhas mestras de Passos Coelho e elas estiveram sempre presentes nestes dias; a segunda é que o Presidente da República já não sabe como há-de exercer o seu cargo - é caso para se perguntar onde está o Wally? ; e a terceira é que Paulo Portas decidiu jogar um jogo de xadrez em simultânea, abrindo vários tabuleiros ao mesmo tempo - o do Governo, o do seu partido e o de eventuais futuras coligações em caso de eleições antecipadas, nomeadamente com o PS. O tema das coligações - que tem a ver com o funcionamento do sistema partidário e político que temos - é aliás central em toda esta história. Temos uma fraca cultura política de negociação, indispensável em coligação. Os líderes partidários estão habituados a ser obedecidos e não a fazer compromissos - querem o poder, ponto. Não é preciso ser-se analista para perceber que desde há muitos meses o PSD anda a esticar a corda na relação com o CDS, e um dia ela havia de se partir - rebentou no pior momento possível. As jogadas politiqueiras sobrepõem-se a acordos políticos sérios e isso tem os elevados custos que estamos a ver - e devo dizer que, nesta matéria, Passos Coelho, num primeiro momento, e Paulo Portas, num segundo, estiveram-se nas tintas para as dificuldades do país e para as consequências dos seus actos. A verdade é que a direita e o centro direita não têm sido capazes de levar um Governo até ao fim - lembram-se de um conselho coordenador da coligação, anunciado a 20 de Setembro do ano passado e de que nunca mais se ouviu falar? A crise não vem de agora, foi-se agudizando, muito graças ao facto de o Governo ter sido conduzido, na prática, por Vitor Gaspar - a sua carta de demissão é clara sobre isso e é exemplar sobre a sua noção de política e compromisso nas referências que faz, de novo, ao Tribunal Constitucional. Não arrisco prever o que se irá passar, mas admito que Paulo Portas, com o seu xeque ao rei conseguirá cedências de Passos Coelho, reforçando o seu papel no Governo, ultrapassando dificuldades no seu partido e forçando uma remodelação maior do que se imaginava há uma semana. Por quanto tempo se aguentará esta situação? Não faço ideia das consequências dentro do PSD - mas não me custa imaginarRui Rio, no Porto, a afinar o motor de um carro de corrida antigo, daqueles de que tanto gosta,  para fazer a antiga Nacional Um, rumo à sede do PSD em Lisboa, talvez com paragem prévia em Belém, vestido com a armadura de salvador da Pátria. Como um amigo meu dizia por estes dias, preocupo-me ainda mais quando me parece também ouvir o silvo de um jacto privado, com Sócrates lá dentro, a levantar vôo de Paris, rumo a Lisboa. João Quadros, com o seu humor corrosivo que todos conhecemos, quarta à noite, no twitter, imaginava Jack Bauer, a personagem central da série “24 Horas” a olhar para Portugal e a dizer “Isto já não faz sentido: não é possível acontecer tanta coisa em 24 horas!”.




SEMANADA - Segunda feira, o primeiro briefing do Governo falhou a demissão do Ministro Vitor Gaspar; Maria Luis Albuquerque foi nomeada Ministra das Finanças depois de ter desmentido o seu antecessor Vitor Gaspar no caso dos swaps; terça-feira, o segundo briefing do Governo, falhou a demissão do Ministro Paulo Portas; Cavaco Silva deu posse à nova Ministra das Finanças meia hora depois da demissão de Ministro do líder do segundo partido da coligação; quarta-feira Passos Coelho viajou para Berlim e já não houve briefing; foi neste dia, quarta feira, que curiosamente se assinalaram os 130 anos do nascimento de Franz Kafka; na mesma quarta-feira o CDS mandatou o Ministro irregovalmente demissionário, Paulo Portas, para negociar com Passos Coelho a viabilização do Governo; título de uma página de política do Correio da Manhã na quarta-feira: “Dois Ministros do CDS devem demitir-se hoje”; a Bolsa de Lisboa deu um trambolhão histórico; Jorge Sampaio falou sobre a crise a pedir eleições antecipadas a 29 de Setembro; Seguro foi a Belém pedir eleições antecipadas a 29 de Setembro; José Sócrates demitiu-se do cargo de engenheiro na Câmara da Covilhã, onde estava há 20 anos em regime de licença sem vencimento; Luis Filipe Vieira, presidente do Benfica, desmarcou quarta feira uma entrevista na TVI devido à grave crise do país, afirmando não ser “tempo de falar de futebol”; Vale a Azevedo foi condenado a mais dez anos de prisão; o Ministério Público contrariou o Presidente da República, que pretendia a manutenção do procedimento criminal contra Sousa Tavares no caso do palhaço.




ARCO DA VELHA - Em 2012 o fisco deixou prescrever mais de 900 milhões de euros de dividas fiscais e a divida à segurança social aumentou quase 1,3 mil milhões de euros. Fisco e segurança social têm 28 mil milhões de euros por cobrar, ou seja o equivalente a três defices orçamentais;




OUVIR- Estou rendido ao disco de estreia de Gisela João,  deslumbrado por esta voz, encantado por estes arranjos, pelo atrevimento na escolha do repertório e pela deliciosa falta de reverência na interpretação. Gosto de iconoclastas e este é um belíssimo disco à margem dos bons costumes, coisa rara no que por aí se edita em nome do fado. Claramente este é o melhor disco de estreia da geração mais recente dos que cantam fado e  arrisco dizer que esta é a única grande fadista a aparecer nos últimos anos, em que tantos imitadores têm feito carreira. Não por acaso a produção executiva é de Helder Moutinho - que confiou a produção musical a Frederico Pereira, que fez um belíssimo trabalho, com a ajuda de Ricardo Parreira na guitarra, Tiago Oliveira na viola, e Francisco Gaspar no baixo. Nascida em Barcelos, Gisela João oscila entre temas populares como “A Casa da Mariquinhas” ou “Malhões e Vira”, a clássicos como “Maldição”, “Sou Tua”, “Não Venhas Tarde” ou o extraordinário “Madrugada Sem Sono”, que abre o disco num arranjo excepcional. E há novidades, como “Primavera Triste” de Aldina Duarte ou a maior surpresa do disco, “Vieste do Fim do Mundo”, de João Loio. Nada aqui é gratuito, nem exibicionista. E é isso que faz ouvir este CD vez após vez. “Não é fadista quem quer/mas sim quem nasceu fadista” - por acaso são estas as últimas palavras cantadas deste disco. (CD Edições Valentim de Carvalho)




FOLHEAR - Gosto de romances de estrada e gosto ainda mais de romances de estrada com música. Gosto da escrita de Francisco Camacho e gosto deste seu novo romance, “A Última Canção da Noite”. Há uns anos Nick Hornby juntou três dezenas de ensaios sobre canções de que gostava e publicou “31 Songs”. Primeiro comprei o livro, depois comprei o disco, que juntava 18 dos temas de que ele falava. Se estivesse numa editora discográfica fazia uma compilação com as canções de Francisco Camacho, aquelas que ele seleccionou recentemente para um artigo ,no cada vez mais imprescindível carrosselmag.com sobre o seu livro, e juntava-lhes mais umas tantas de que ele se lembrasse. Lá estariam os Ramones, Clash, Long Ryders, Sonic Youth, mas também Radiohead, Go Betweens ou Madonna. Pela estrada fora e sempre a abrir ele havia de fazer uma bela compilação. Pelo menos tão envolvente como este “A Última Canção da Noite”, de Marrocos a Berlim, uma viagem de liberdade, paixão e imprevistos, acelerada ao som do rock’n’roll, como bem lembra o CarrosselMag.




DIXIT - “Foi a crise dos partidos (...) - prometendo o que o país não podia dar - que provocou a desconfiança generalizada na capacidade deles para resolverem os problemas do País” - Manuel Villaverde Cabral




GOSTO - Da Campanha da Associação Portuguesa de Produtores de Biocombustíveis: “Se não há petróleo em Portugal, planta-se”, apelando à plantação de soja e colza para a produção de biodiesel.




NÃO GOSTO - Da revogação pela Secretaria de Estado da Cultura da autorização de venda de uma pintura do século XV, de Crevelli, que é propriedade privada.




BACK TO BASICS - Uma observação atenta revela que a maior parte das situações de crise geram a oportunidade para que tudo fique na mesma - Maxwell Maltz




(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Julho)

PARA QUE PODERIA SERVIR O SERVIÇO PÚBLICO DE TV?

(Texto de opinião escrito a pedido da Notícias TV numa série de artigos sobre "A RTP e o Futuro")


 


Depois dos acontecimentos desta semana, fica novamente em aberto o que vai acontecer à RTP – a mudança de Governo e de ciclo político trará provavelmente alterações aos planos traçados. Há alguns anos que me interesso pelo tema: em 2002 integrei uma Comissão criada pelo Ministro Morais Sarmento, que elaborou um Relatório sobre o Serviço Público de Televisão, cujos princípios gerais continuam justos. Algum tempo depois fui convidado para pôr de pé o projecto de um canal aberto à Sociedade Civil, que ficou conhecido como a 2:,  que dirigi durante quase três anos.  Antes, quando trabalhei na produção independente, nomeadamente na área dos documentários, na Valentim de Carvalho Televisão, testemunhei que era mais fácil vender documentários sobre a história contemporânea portuguesa à SIC, como aconteceu, do que à RTP. De há cerca de três anos a esta parte a estação pública tem perdido progressivamente relevância e, nos tempos mais recentes, as mudanças de tecnologia, de distribuição e de hábitos de consumo de programas foram enormes, afectaram-na de forma sensível,  e é absolutamente indispensável que as definições gerais de serviço público audiovisual sejam adaptadas à realidade da introdução da Televisão Digital Terrestre e que o papel da RTP seja repensado no novo universo tecnológico, nomeadamente enquanto motor de inovação e não enquanto bastião da tradição.


Costumo dizer que Gutenberg chegou à televisão com a entrada no mercado de câmaras digitais de alta definição de preço acessível e com sistemas de edição baseados em computadores que qualquer um de nós pode ter em casa. Mas a realidade é que este Gutenberg audiovisual ainda é pouco aproveitado pelo serviço público e que a RTP, para utilizar uma analogia com a imprensa, ainda trabalha com composição a chumbo numa época em que o offset já tem várias gerações e em que, por exemplo no MEO, é possível a cada um de nós criar um canal – bem sei que não é bem disso que estamos a falar, mas este exemplo serve para mostrar como a televisão deixou de ser uma tecnologia inacessível e isso tem inevitavelmente consequências no comportamento de todo o sistema.




A ALTERAÇÃO DO CONSUMO E A REESTRUTURAÇÃO DA RTP




Hoje em dia cerca de 77% dos lares portugueses consomem televisão que lhes chega por um dos sistemas de distribuição de cabo ou satélite. Quer isto dizer que estes lares têm uma oferta de pelo menos meia centena de canais, em vez dos quatro tradicionais (RTP 1 e 2, SIC e TVI) e do Canal Parlamento, que também está, vá-se lá perceber porquê, na Televisão Digital Terrestre.


Portanto, sem desprezo pelos 23% de lares restantes, a oferta e os hábitos de consumo de televisão em Portugal mudaram de forma substancial nos últimos cinco anos. Basta dizer que desde há mais de um ano o conjunto dos canais de cabo ultrapassa em share médio de audiência qualquer um dos canais de sinal aberto.


Ora estas alterações significativas na distribuição e no consumo dos canais de televisão tem inevitavelmente consequências no serviço público – sobretudo no que deve ser a sua definição hoje em dia. A questão do acesso universal e gratuito por exemplo, já não é a pedra de toque da definição. Por outro lado, os canais generalistas e comerciais privados fornecem informação pelo menos tão pluralista como a da RTP, entretenimento e produção nacional em maior quantidade que a RTP, e qualquer pessoa – com cabo ou sem cabo - pode aceder a eles em qualquer ponto do território para ver futebol ou transmissões diretas de acontecimentos importantes – já que todos o fazem.


 


Fruto de um posicionamento concorrencial face aos privados, a RTP é ainda hoje uma entidade despesista, com uma estrutura sobredimensionada e custos desproporcionados. Num modelo ideal a RTP devia possuir apenas os meios necessários à informação e à emissão e tornar-se, usando a terminologia anglo-saxónica, num “broadcaster” e não numa empresa de produção, que é hoje em dia. Ou seja, toda a área de conteúdos não informativos devia ser descontinuada e o investimento em programas de documentário, ficção, infantis e entretenimento devia ser aplicado na produção externa e na aquisição de programas. Este canalizar para a aquisição de conteúdos de parte importante das verbas actualmente gastas em funcionamento permitiria dinamizar a produção independente, desenvolvendo e consolidando uma industria audiovisual, necessária à manutenção do português enquanto língua viva. Recordo que a RTP é a empresa que menos tempo de emissão consagra à produção nacional não informativa, nomeadamente na ficção. No meu entender existe um papel importante a desempenhar pelo serviço público e que tem a ver com uma carteira de encomendas continuada, junto à produção independente, nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais.


De uma forma mais concreta, faria sentido que o serviço público de televisão investisse a maior fatia do seu orçamento de produção na encomenda e aquisição de programação de stock – aquela que se pode repetir ao longo do tempo e que não se esgota na primeira emissão, e a que se chama de fluxo. Para dar um exemplo uma série de ficção é stock e um concurso como o “Preço Certo” é fluxo. Faz mais sentido investir no que perdura do que naquilo que se evapora, certo? Já nem vou dizer que o aproveitamento da produção de stock nas emissões internacionais, em intercâmbios com outras televisões ou até na venda de direitos é uma realidade e que o fluxo é inaproveitável em tudo isto.


 


CRIATIVIDADE OU BOÇALIDADE?


 


Analisemos o tema de outra perspectiva, mesmo correndo o risco de alguma repetição: nos dias de hoje, num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?


Correndo mais uma vez o risco de me repetir, insisto em algumas perguntas: o serviço público deve fazer concorrência aos privados,  ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entretenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que já passam nos canais de cabo emitidos em Portugal?




Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas.


Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural na acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos.


 


OLHAR PARA O FUTURO E TOMAR DECISÕES


 


Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.


Para terminar e para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, com um único canal nacional, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal único nacional, na minha opinião,  não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, modalidades de desporto incluídas – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento. Existem pelo mundo diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos. Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. A presença do operador de serviço público no cabo deve ser repensada à mesma luz da não concorrência aos privados e protegendo a necessidade de maior participação das diversas regiões do país, aproveitando os recursos técnicos existentes para a informação. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África – compreendendo aliás que nos países lusófonos já existem operadores locais de televisão com os quais interessa mais fazer cooperação do que concorrência -  e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.


Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam, ou não, útil e necessário. O resto é uma questão de distribuição e de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado, da forma mais concreta que fôr possível.




Manuel Falcão



julho 02, 2013

O PROBLEMA DO FISCO

A máquina fiscal portuguesa foi construída para cobrar o que é fácil, evitar quem se pode defender e programada para agir sem pensar. Acham que estou a exagerar? Basta ver o número de processos que prescreveram de grandes calotes, basta ver a forma como por exemplo no caso do Imposto Único de Circulação se enviam cobranças que entopem o sistema, não distinguindo quem já tem o veículo vendido, ou, pior ainda, roubado e desaparecido. O fisco é cego e surdo, mas é muito pouco mudo – embora faça apenas ouvir o seu vozeirão a quem não deve, a quem tem poucos recursos para lhe responder à letra.


 


Há dias tive conhecimento de um caso em que o fisco decidiu pedir, para investigação, os documentos comprovativos de despesas de saúde de uma senhora com 84 anos, que, por ver mal, foi operada às cataratas e que, por sofrer do coração, e de diabetes, já foi operada, tem um pacemaker e tem que fazer exames regulares e tomar mediação adequada. Esta forma de actuação do Fisco atira os incómodos da situação para o contribuinte, a viver de uma pensão. O Estado castiga quem lhe dá dinheiro para viver – os contribuintes, que masoquisticamente sustentam quem os persegue.




Quando tomo conhecimento de casos destes penso logo no desperdício de tempo e de recursos que o Fisco tem em situações assim.


O Fisco, quando investiga uma senhora de 84 anos, nestas condições, parece-me estar a desperdiçar recursos que deviam ser usados na verdadeira fuga aos impostos. Mas como essa é mais incómoda de investigar, e ainda por cima se arrisca a ser mais incómoda politicamente, a administração fiscal decide, como é hábito, ir pelo lado do mais fraco. Não há-de ser por acaso que as dívidas ao fisco prescritas em 2012 dispararam mais de 35% em relação ao ano anterior. Eu gostava, uma vez que fosse, de ver o fisco a investigar como deve ser casos de grandes fugas aos impostos. Sem automatismos nem facilitismos. Mas para isso era preciso pensar. É isso, é  pedir demais ao Estado e a quem nele manda.




(publicado no Diário metro de 2 de Julho)


 

junho 28, 2013

A SEMANA DA GREVE, MAS COM MUITO PARA VER

GREVE - À hora a que escrevo ainda não sei o que aconteceu de facto. Mas posso, sem grande risco, pensar que a greve de quinta-feira atingiu sobretudo serviços do Estado e empresas públicas. Dantes, as greves gerais não eram assim - paravam fábricas, paravam empresas privadas, paravam países. Agora conseguem parar os transportes e, por via disso, inviabilizam que algumas pessoas vão trabalhar, apesar de não quererem fazer greve. A verdade é que, historicamente, o desenvolvimento do transporte privado tramou os sindicatos e restringiu o universo grevista. Li esta semana que só 10% dos trabalhadores do sector privado são sindicalizados - e os sindicatos bem podem dizer que a culpa é das empresas que atemorizam oa assalariados, mas ninguém em seu perfeito juízo acredita nisso como regra geral. Mais provavelmente, muitos colaboradores de empresas privadas estão apostados em conseguir, nesta difícil conjuntura, que as empresas onde trabalham consigam produzir, vender, facturar e, consequentemente, pagar. Hoje ainda continua a haver quem queira apenas um emprego; mas há muita gente que prefere trabalhar, percebendo que só a sua produtividade ajuda a que a situação geral melhore. É triste que seja na administração pública, mais improdutiva que a actividade privada em termos objectivos, que a greve alcance indícies palpáveis. É o melhor sinal da urgente necessidade de uma reforma e redimensionamento do Estado, muito para além do que os partidos, tementes das suas clientelas eleitorais, estão dispostos a arriscar. Em Portugal continua a falar-se muito de direitos e pouco de responsabilidades. Ao ler declarações, destes dias, do líder da CGTP, Arménio Carlos, dei comigo a pensar que quando um dirigente sindical aparece a pedir eleições, não está a fazer reivindicações, está a fazer política, necessariamente partidária. É nestes dias que vale a pena recordar as palavras de Oscar Wilde, ao sublinhar que “dever é o que esperamos dos outros, não o que nós mesmos fazemos”. Para terminar a conversa: uma semana depois do aviso, continuo à espera de ver como vai ser a prometida comunicação diária do Governo nestes tempos agitados. Terá feito greve?


 


SEMANADA - O Benfica tem 104 jogadores a contrato, o FC Porto tem 69 e o Sporting tem 62 - 235 jogadores apenas nestes três clubes;  o número de milionários em Portugal, usando o critério de património financeiro superior a um milhão de dólares, cresceu 3,4% no ano passado e é agora de 10.750 pessoas; 45 % das casaas do Algarve são residências secundárias; segundo o Banco de Portugal as empresas privadas e as famílias estão a conseguir reduzir a dívida, mas o estado continua a aumentá-la; a dívida pública, que no final de 2013 devia ser de 123%, já atingiu os 127%; o Secretário de Estado da Economia, Franquelim Alves, considerou que a “descida do IRC é um sinal crítico para a política económica” na captação de investimento; o Ministro das Finanças Vitor Gaspar disse na Assembleia da República que ainda não vê margem para poder baixar impostos”; a Secretária de Estado do Tesouro disse no Parlamento que o cancelamento de 69 contratos swaps não custou dinheiro aos contribuintes, embora provocasse uma perca de mil milhoes de euros, suportada pelo Estado; o negócio da construção prevê uma quebra de 15% neste ano.


 


ARCO DA VELHA - A colecta do IRS aumentou 30,6%, a do IRC apenas 8,2% e a de todos os outros impostos caíu 92% - e mesmo assim Vitor Gaspar diz-se satisfeito com a execução orçamental, feita à custa da cobranças mais simples.

VER - Lisboa vive um momento alto em matéria de exposições de fotografia. No Museu da Electricidade inaugurou “Pátria Querida”,  uma boa amostra do trabalho do espanhol Alberto Garcia-Alix, que se celebrizou a mostrar a movida madrilena. Se o que faz a fotografia é o modo de ver, a maneira de transmitir o que se observa, aqui o objectivo está bem conseguido. Na Gulbenkian, inseridas na programação “Próximo Futuro”, estão duas exposições imperdíveis - uma mostra dos Encontros de Fotografia de Mamako, que traça um retrato da África pós colonial, e “Present Tense”, uma mostra comissariada por António Pinto Ribeiro (o amentor do ciclo “Próximo Futuro”) e que desbrava caminhos contemporâneos da observação do espaço e das pessoas no continente africano. Finalmente, em “A Pequena Galeria” (24 de Julho nº 4C) está “De Maputo”, que agrupa fotografias de José Cabral e Luis Basto, com breves mas importantes evocações de Rogério Pereira e Moira Forjaz.


 


OUVIR- Lembram-se de Lloyd Cole? Com os Commotions conquistou fama graças a belas canções, intimistas q.b. Numa carreira a solo incerta, manteve a descrição e o seu novo disco, ironicamente intitulado “Standards”, não é um repositório de versões de lugares comuns, mas sim a tentativa de deixar para a memória do seu público algumas canções. A viver nos Estados Unidos desde há anos, o disco é marcado pelos sons do pop e rock americanos, mais do que pelo suave pop britânico que deu fama a lloyd Cole. Nõo é certamente por acaso que a única versão de canção alheia nestes “Standards” é “”California Earthquake”, de Cass Elliott, dos The Mamas & The Papas, um velho tema de 1968. Dos temas novos, que mostram como aos 52 anos ainda se consegue comabter o destino, destaco “Blue Like Mars”, “Women’s Studies”, “Opposites Day” e “No Truck”. A vasta legião de fãs de Cole em Portugal não ficará desiludida com este disco.


 


FOLHEAR - Qualidade de Vida em 2013, onde se pode encontrar?


Pois é, Costa, em ano de eleições Lisboa saíu da lista das 25 melhores cidades para viver elaborada pela “Monocle”. Eu, lisboeta, tenho pena. Aguentámos lá uns anos, mas não sobrevivemos ao mandato do Costa e do Sá Fernandes. Tenho muitoa pena de ver a minha cidade transforamada num fim de semana em cartaz publicitário de um hipermercado, como vai acontecer este sábado. Estas coisas pagam-se. Para o Continente é barato, para Lisboa, é caríssimo. A “Monocle” sublinha que uma boa cidade deve viver sete dias por semana, sem interrupções, para os seus habitantes. O que se vai passar sábado na Avenida  é uma interrupção da cidade. Além de uma foleirice, é um abuso. Rewsta-nos a satisfação de o Deli Delux ser referida como a sexta melhor loja de comida e bebida no “The Monocle Food And Entertaining Guide 2013”, com destaques para o vinho deo Porto da Taylor’s e para as conservas da Tricana. O City Survey da edição dupla de Verão, agora distribuída, é sobre o Rio de Janeiro. E, claro que me dói um pouco ver Madrid citada várias vezes e Lisboa assim esquecida. olhem, agradeçam ao Costa.


 


PROVAR - Onde é que uma cerveja moçambicana e a vista do casario de Lisboa, com o Tejo por pano de fundo combinam? A resposta é num belo terraço, perto do Castelo, no alto do antigo mercado do Chão do Loureiro, hoje um parque de estacionamento bem útil para se poder ir à zona da Costa do Castelo? Ali pode beber uma “laurentina” bem fresquinha”, mas também uma “dois MM”. No restaurante, que dispõe da mesma vista, tem uma boa selecção de vinhos - mas aceite a sugestão dos vinhos Casa da Ínsua, do Dão, que têm uma excelente relação qualidade-preço. Provou-se a galinha em caril com amendoim, o chacuti de vaca e o camarão à Laurentina e tudo merece elogios. O serviço, como diz voz amiga, é acima de simpático. O Zambeze está aberto todo o dia, alternando entre café, esplanada e restaurante, fica ao alto da Calçada do Marquês de Tancos e tem o telefone 218 877 056.


 


DIXIT - Procuro político honesto para votar - Cartaz em manifestação no Brasil


 


GOSTO- Os Moonspell e seus convidados são os escolhidos para, amanhã, sábado, encerrarem as Festas de Lisboa junto à Torre de Belém.


 


NÃO GOSTO - Já repararam que Antonio Costa protege o piquenicão e as hortas postiças do Continente, ao mesmo tempo que a Câmara arrasar hortas comunitárias?


BACK TO BASICS - Por mais interessante que a estratégia pareça, devemos sempre olhar para os resultados que proporciona - Sir Winston Churchill



(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Junho)

TV: OS EIXOS DAS PROGRAMAÇÕ

Se olharmos para as audiências dos três canais comerciais constatamos que a TVI lidera graças ao Big Brother, que a SIC conquista público com as novelas e que o assunto da RTP é o futebol.


 


Programas destas tipologias estão no topo dos mais vistos da semana em cada um destes canais. Uma análise mais fina permite perceber que a RTP 1 e 2 obtêm os seus melhores resultados na zona Centro do país, que é também onde a diferença entre a TVI e a SIC é menor. Em contrapartida é na zona de Lisboa que essa diferença é maior e é também em Lisboa que a RTP2 obtém o pior resultado, ficando em sétimo lugar, atrás de canais de cabo como a Disney, o Hollywood e a SIC Notícias.


 


“Bem Vindo a Beirais”, único programa de ficção da RTP que aparece na lista dos mais vistos da estação, surge em 14º lugar, uma posição modesta, apesar da qualidade – e características populares – do programa – o que pode ter a ver com os hábitos criados nos públicos que seguem a RTP, um canal quase sem ficção.


 


(Publicado dia 28 na revista Correio da Manhã TV)


 

junho 25, 2013

OS SALTA POCINHAS

Este romance dos candidatos autárquicos salta-pocinhas, que se apresentam como autarcas profissionais e querem passar de uma Câmara para outra independentemente do número de mandatos que levam no cartório, é um dos mais tristes episódios do nosso sistema político.


Mas não é só a situação em si que é caricata – quando o problema começou a surgir, aqui há uns meses, a Assembleia da República tinha tido oportunidade e tempo de corrigir ou esclarecer aquilo que houvesse a fazer em matéria legislativa, o que teria evitado o lavar de roupa suja entre tribunais e candidatos a que temos assistido. Deve aliás sublinhar-se que as maiores culpas de não se ter esclarecido esta situação no local competente, que era o Parlamento, vieram do PSD e do PS, que na altura sacudiram a água do capote e não quiseram pronunciar-se. O PS, previdentemente,  tem evitado apresentar candidatos salta-pocinhas mas o PSD não resistiu e, portanto, está cheio de problemas ainda por cima nas duas Câmaras politicamente mais significativas – Lisboa e Porto.


 


Eu, por princípio, sou contra a perpetuação de responsáveis de cargos políticos nos mesmos cargos e por isso até achei razoável que houvesse um limite de três mandatos. Acho uma cobardia política que, na altura devida, os deputados tenham fugido a pôr esta situação em pratos limpos – tanto mais que deixaram campo aberto para o que agora está a acontecer: face à mesma situação, vários tribunais decidem de maneira diferente e, nuns casos autorizam a candidatura de quem já tem três mandatos, noutros, não. Tudo isto contribui para desacreditar a política e os políticos, para confundir os eleitores – com eleições já marcadas não se saberá, de certeza certa, quem serão os candidatos em várias autarquias. Um triste espectáculo.


 


(Publicado no diário Metro de 25 de Junho)

junho 21, 2013

Negociatas ou negócios? Costa nomeia provedor dos animais...

PORTUGAL - Duas décadas de desvario vão custar-nos outro tanto tempo para recuperarmos de tudo aquilo em que nos deixámos enredar - seja a Europa, seja a inconsciência local. As PPP’s, de que tanto se fala, são um bom exemplo de fazer vista com dinheiro alheio, de comprar jóias a crédito que irão ter pouco uso. Hoje, já percebemos que é assim: endividámo-nos por soberba. Deixámo-nos, todos, cair na tentação. As PPP’s são o melhor retrato de um país que, mais do que de negócios, gosta de negociatas. Se olharmos bem para a nossa História vemos muitos negociantes, comerciantes espertos, vendedores de especiarias,  de volfrâmio, ou do gás natural que o Ministro do Canadá diz que vai extrair no Algarve. No fundo andamos todos à espera que saia um euromilhões ao país. Poucos são os empresários portugueses que preferem criar, inovar, desenvolver e fabricar, a comprar e a vender. O comércio está-nos na alma e é isso que lá vamos fazendo. O pior é quando vendemos o país ao desbarato ou quando vendemos ilusões uns aos outros. É o que tem acontecido, com a benção de Bruxelas e as negociatas à sombra dos partidos instalados. No Correio da Manhã, Paulo Pinto de Mascarenhas escreveu que PPP’s quer dizer “Portugueses Pagam Políticos”. Tudo indica que tem razão.




SEMANADA - A derrapagem nas PPP do sector rodoviário pode chegar aos nove mil milhões de euros; o Estado já assumiu mil milhões de euros em perdas com “swaps”; há mais de 12 milhões de indivíduos, no mundo inteiro, com um património superior a um milhão de dolares; segundo a Caritas, o risco de pobreza afecta 23,5% da população portuguesa; Silva Peneda, Presidente do Conselho Económico e Social, considerou, numa comissão parlamentar, que o cenário macroeconómico do orçamento rectificativo, já aprovado, é irrealista e sublinhou que o programa de ajustamento tem corrido mal; em 2012 mais de 120.000 portugueses abandonaram o país em busca de trabalho na emigração, mais 20% que no ano anterior; o poder de compra dos portugueses está 25% abaixo da média europeia; a emissão de Bilhetes de Tesouro registada esta semana foi emitida com juros mais altos que em Maio do ano passado; em termos de receitas, a Liga portuguesa de futebol está ao nível da Liga da Ucrânia; António Costa vai deixar de ter Helena Roseta como vereadora e passou-a para a Assembleia Municipal de Lisboa; António Costa designou o deputado do PS Fernando Medina como seu sucessor na Câmara Municipal; António Costa nomeou Mega Ferreira para a direcção da Orquestra Metropolitana de Lisboa; António Costa criou um novo cargo, Provedora do animal, e atribuíu-o à ex-deputada do PS Marta Rebelo;  por este andar qualquer dia António Costa pode anunciar que há um provedor das bicicletas; Cavaco Silva decidiu não desistir do processo contra Miguel Sousa Tavares por causa das analogias entre o Presidente e uma actividade circense.




ARCO DA VELHA - Na mesma semana em que Paulo Portas apresentou a sua moção de estratégia ao Congresso do PP, na qual defende a baixa do IRS ainda na actual legislatura, e em que vários digirientes do PP confessaram “profunda incomodidade” com os resultados do Governo, o Ministro Poiares Maduro considerou que a coligação do Governo “é muito coesa” e Passos Coelho afirmou não ter um calendário para a descida do IRS.

VER - Estava cheio de curiosidade em ver a nova Photographer’s Gallery, em Londres, no Soho, perto de Oxford Circus, que abriu, renovada, este ano. Data originalmente do início dos anos 70 e é,  como se diria aqui, uma iniciativa da sociedade civil, aliás de uma pessoa, Sue Davies - com apoios de diversas entidades, umas públicas, outras, mais numerosas, privadas, desde empresas de consultoria a empresas industriais. É uma daquelas coisas que não existe, por enquanto, em Portugal. Há galerias e espaços disto e daquilo, de umas marcas e de outras, mas não há muitos espaços de iniciativa privada que consigam reunir apoios institucionais diversos - e do próprio público que contribui - para se desenvolverem. Gostei muito da nova galeria, do seu espaço, de iniciativas como a “What Do You See?”, onde se pede para cada visitante que queira expressar o que sentiu a olhar para a única fotografia que está exposta naquela sala. De todas as exposições, e eram várias, a que mais me intertessou foi a de Chris Killip - “What Happened - Great Britain 1970-1990”, em que o autor retrata como era a vida em comunidades que estavam a passar pela desintegração da velha sociedade industrial.  Mas, lá como aqui, a fotografia é território de polémica, entre os que olham para a realidade e os que preferem a fantasia ou a manipulação da técnica. De qualquer forma, a verdade é que os vários lados desta história estão nesta galeria. (Ramillies Street 16-18)




 


FOLHEAR - Em boa companhia, estive uma hora na fila, uma hora a fazer horas para entrar, e um bocadinho mais de duas horas a visitar a exposição. Não me arrependo de um único segundo gasto nesse dia. Já antes, para prevenir o excesso de peso na bagagem de regresso, tinha encomendado, e recebido, o catálogo da exposição. Estou a falar de “David Bowie Is Here”, que até Agosto está no Victoria & Albert, cada vez mais um dos museus incontornáveis do Reino Unido. De maneira que quando voei para Londres, com Bowie na mira, já o tinha bem folheado em casa, e levava na cabeça a frase na dupla página do começo: “I opened doors that would have blocked their way, I braved their cause to guide, for little pay”. O catálogo tem um nome diferente da exposição, um pequeno jogo de palavras: "David Bowie is Inside" - são cerca de 300 páginas, editadas pelos curadores da exposição, e que, tanto quanto possível num livro, fazem justiça à exuberância visual e tecnológica que nos permite percorrer a carreira de Bowie, as suas manias, as suas obsessões, as suas paixões. No fim, um quase concerto, em surround, um momento de transição, antes de voltar à rua. A tecnologia, nesta exposição, é admirável e permite uma experiência única. Mas este livro, que se pode encomendar pela Amazon por 24 libras, permite-nos ter uma ideia de tudo o que se mostra no Victoria & Albert. E a mim vai-me servir de memória de um dia de descoberta.




OUVIR- Na vida de qualquer grupo rock e pop decente o primeiro disco deve ser bom, o segundo um desafio e, o terceiro, a redenção. “Modern Vampires Of The City”, o novo e terceiro álbum dos Vampire Weekend, encaixa-se que nem uma luva nesta descrição. Aqui está uma bela colecção de temas, alguns com arranjos e vocalizações inesperadas, a romper com os discos anteriores. Há boas canções, uns toques de ironia nas letras, poderia quase falar em rebeldia, mas mais não digo - desde que sei que o ex-Ministro da Defesa e da propaganda socrática, Santos Silva, está a investigar, numa Universidade onde pontifica, o movimento punk em Portugal, o qual considera pouco proletário, ando a pensar em desistir de escrever sobre música. Já me chegam as PPP nas estradas, escuso de me aborrecer mais com assuntos destes. Não é? Mudando de conversa, e para não enjoar, não perdem nada em ouvir este disco. Tem mesmo cantigas atrevidas.




PROVAR - Aviso já que hoje falo para carnívoros - vegetarianos e fanáticos de aquários podem abster-se. O assunto aqui é carne, de várias origens e com vários corte e temperos. O Talho é uma aventura de Kiko Martins e, se de um lado serve carne crua para levar para casa e cozinhar, do outro é um agradável e bem decorado restaurante, com uma espaço confortável (uma acústica perfeita), e boas surpresas na confecção de vários géneros de carne. Há um menu de almoço mais económico, há sempre uma proposta de hamburguer do mês - por estes dias é o hamburguer manjerico, com manjericão e parmesão. Num belo jantar o rosbife asiático marcou pontos, assim como a vitela maronesa. E o serviço também merece destaque. (Rua Carlos Testa 18, frente ao El Corte Ingles, é a rua que sai do Largo de S. Sebastião da Pedreira). Telefone 213 154 105.




DIXIT - “Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”, Bartoon, sobre a greve dos professores




GOSTO- Da inovação de uma rolha de cortiça de enroscar desenvolvida em Portugal pela Amorim.




NÃO GOSTO - Do surto de nomeações camarárias de António Costa.


BACK TO BASICS - Não sou obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos terá dado a razão e o intelecto se esqueceu de nos ensinar a utilizá-los - Galieleo Galilei

junho 18, 2013

BICICLETAS NOS PASSEIOS

Até há pouco tempo eu julgava que os passeios eram para peões e as faixas de rodagem para veículos. Lembro-me que, quando estudei o código da estrada, as bicicletas era consideradas veículos e não deviam andar em cima dos passeios. Pois constato que hoje isso é letra morta. Há poucos dias ía sendo atropelado por duas bicicletas que seguiam numa zona estreita de passeio, com andaimes, na Rua Castilho, ao fim da tarde. Não é a primeira vez que em passeios para peões, e fora das ciclovias, me cruzo com ciclistas que circulam com a convicção que os passeios são seus e que os peões se devem desviar.


 


Também não consigo compreender porque é que os ciclistas, em Lisboa, muitas vezes decidem não acatar a sinalização dos semáforos e passam os vermelhos, de preferência contornando-os pelas passadeiras para peões. Outra coisa que me faz espécie é que os ciclistas andem lado a lado na faixa de rodagem, condicionando todo o trânsito. Tudo isto são contravenções ao código da estrada – mas em nome do espírito politicamente correcto que se instalou para quem anda de bicicleta, o código da estrada pelos vistos deixou de ser aplicado. Esta é uma originalidade portuguesa. Lá fora não vejo isto – e vejo muito mais bicicletas a circular nas cidades do que aqui.


 


Os ciclistas andam nas faixas de rodagem ou nas suas zonas demarcadas, param nos sinais vermelhos e não andam por cima de passeios nem em passagens de peões. Não percebo porque é que em Portugal existe isto – e já imagino que os fanáticos das bicicletas se indisponham com o que aqui escrevi – mas na verdade não me agrada nada ir no passeio - e andar na rua a pé é uma coisa de que gosto - e ter que me desviar por causa de um ciclista.


 


O Dr. António Costa achará que isto é forma de tratar os peões lisboetas ou continua a fechar os olhos aos devotos do vereador Fernandes?


 


(publicado na edição do diário Metro de dia 18 de Junho)

junho 11, 2013

O DISCURSO DO PASSADO

Ouvi dizer que o Presidente da República está muito preocupado com o futuro e com o que o país deve fazer no pós-troika. Mas a verdade é que no seu discurso do 10 de Junho só o ouvi falar sobre o passado, como Portugal era maravilhoso e se transformou de forma tão inexcedível quando ele foi Primeiro-Ministro. Foi um discurso cínico, cruel. a justificar opções passadas que, em muito, nos conduziram onde estamos. Foi o elogio disfarçado e hipócrita de uma época em que Cavaco Silva optou pelo betão, pelo princípio do desvario nas obras públicas e se esqueceu de criar bases sustentadas de desenvolvimento. Cavaco, Primeiro-Ministro, entregou o país ao eixo franco-alemão que nos inundou de fundos para pagar o que nos roubava na agricultura e nas pescas. É de um cruel cinismo falar como ele falou. Se existiam dúvidas de que Portugal não merece ter um Presidente da República como ele, desvaneceram-se com o que Cavaco Silva disse neste 10 de Junho.


 


Quando daqui a uns anos se fizer a história verdadeira - não o embuste habilidoso dos discursos do 10 de Junho - ver-se-à quão nefastas foram as escolhas e opções estratégicas de Cavaco na governação e como foram perniciosas as suas opções no desencadear e evoluir dos momentos críticos da crise  - desde Sócrates até agora. Nessa altura poder-se-à perceber como os milhões que a Europa pagou a Portugal se destinaram apenas a iludir e distrair o pagode com estradas, enquanto uns quantos as construíam e outros íam fazendo negociatas à conta dos lugares que tinham ocupado na política. O maior legado de Cavaco, de que ele não fala, é o rol de casos pouco claros que envolvem gente da sua entourage e que continuam a ser o exemplo do pior que o regime tem para mostrar.




(Publicado no diário Metro de 11 de Junho)

junho 07, 2013

A COMPETITIVIDADE NAS MÃOS DO ESTADO

COMPETITIVIDADE - Para usar as palavras do engenheiro dos desenhos manhosos, o Governo está com uma narrativa complicada: o que prometeu não se concretiza, as previsões falham, as taxas de impostos aumentaram mas a cobrança é menor, e a dívida do país não pára de aumentar - até o PS já aparece a falar da eventualidade de um segundo resgate.  Pior que isso, no seio do Governo é cada vez mais evidente a clivagem - Gaspar continua a revelar a sua falta de bom senso em episódios como a nomeação da administração da CGD, há Ministros desaparecidos em combate e que não dão sinal de si e, de uma forma geral, os grandes dossiers prometidos para esta altura estão como este estranho Verão: incertos e frios. Mesmo as medidas anunciadas são tímidas e não atacam de frente as questões. O Governo olha para a crise e tenta pegas de cernelha mal sucedidas. O maior problema que se põe na captação do investimento não tem a ver com o Tribunal Constitucional e as suas decisões: tem a ver com as altas taxas de IRC comparadas com outros países europeus nossos concorrentes, com a instabilidade fiscal e os sucessivos agravamentos de toda a espécie de taxas e, finalmente, com uma justiça ineficiente e lentíssima que é um obstáculo à actividade das empresas e ao crescimento da economia. Estes três pontos - falta de competitividade no IRC, instabilidade fiscal e funcionamento da justiça - são todos da responsabilidade do Estado e constituem o maior e mais grave factor de perca de competitividade em Portugal. Mas nisto não vejo o Governo a tocar.




SEMANADA -  Gaspar falhou todos os timings de nomeação da nova administração da Caixa Geral de Depósitos; 23 mil empresas ficam indevidamente com o IRS retido aos seus funcionários; foram perdidos mais de cem mil empregos em três meses; em Abril, o número de casais em que ambos os cônjuges estão desempregados aumentou para 13.176, mais 67,3% do que em  2012; o PIB do primeiro trimestre caíu 4% em relação ao mesmo período do ano anterior e atingiu o valor mais baixo desde 2000; 51% dos valor corrigido no Orçamento Rectificativo deve-se ao agravamento da recessão e falha das previsões e não às decisões do Tribunal Constitucional; o orçamento rectificativo reviu em baixa todas as previsões de receita de imposto, com uma queda média de 4,5% face ao valor inicialmente previsto; o FMI admitiu “erros graves” nas suas decisões sobre a Grécia;  29 das 49 cadeias portuguesas estão sobrelotadas;  a Ordem dos Advogados decidiu não acatar uma decisão de um tribunal sobre os exames a estagiários; um barómetro de opinião divulgado esta semana mostra que os portugueses estão a perder confiança nas instituições governamentais, nos media e nas instituições não governamentais e apenas 36% dos inquiridos confia na Banca; os cinco maiores partidos portugueses têm menos de 300.000 militantes no seu conjunto, ou seja menos de 3% da população; os três maiores clubes de futebol portugueses têm, no seu conjunto, cerca de 380.000 sócios; Treinadores: no Porto foi-se embora o que venceu, no Benfica ficou o que perdeu.




ARCO DA VELHA - Dois policias que faziam uma prova para chefes, foram apanhados com cópias dos testes que iam fazer, mas foram perdoados e podem repetir a prova - os policias apanhados a cabular admitiram que tinham tido acesso prévio à prova e informaram que ela era do conhecimento de muitos dos candidatos, mas escusaram-se a revelar quem a facultou.




VER - Três recomendações bem diferentes: no Centro Cultural de Cascais, até 1 de Setembro, fotografias das grandes estrelas do cinema da época de ouro de Hollywood, que fazem parte da colecção de John Kobal. No Museu Berardo, no CCB, está até 27 de Outubro “O Consumo Feliz”, uma colecção de 350 imagens de cartazes publicitários  do acervo da agência  James Haworth & Company, uma das principais produtoras de publicidade do Reino Unido, com actividade iniciada por volta de 1900 e continuada até cerca de 1980. E finalmente, para uma coisa completamente diferente recomendo a exposição “Marco Aurélio And Friends - Sete Artistas Ulissiponenses”, em que destaco os trabalhos de Ana Fonseca, Conceição Abreu e Teresa Gonçalves Lobo. Tudo na Plataforma Revólver, Rua da Boavista 84, em Lisboa. No mesmo local, mas na VPF Cream Art, o destaque vai para o trabalho de Luis Alegre.




OUVIR- Aqui há uns anos existia uma designação, “bubble gum music”, para definir aqueles discos que se ouviam, eram muito doces de entrada, mas rapiudamente perdiam o sabor e o interesse e se deitavam fora a seguir. Pois bem, os discos dos The National são tudo menos isso. Ouvem-se com redobrado gosto vez após vez, em cada nova audição descobrem-se novas subtilezas nas letras, novos pormenores nas canções. “Trouble Will Find Me” é o título do sexto album


dos The National, e inclui a presença de convidados como Annie Clark of St. Vincent, Richard Reed Parry dos Arcade Fire ou Sufjan Stevens, e Sharon Van Ette. O primeiro single deste novo disco é “Demons”, exactamente uma dessas canções que cresce com o tempo - graças a uma percussão quase hipnótica, a um ritmo que nos agarra e a uma vocalização, de Matt Berninger, que só na aparência parece displicente e desinteressada, quando ele canta, como se estivesse apenasde passagem por ali palavras como estas:  “When I walk into a room I do not light it up.”  Não há muitas bandas hoje em dia que se possam gabar disto: de terem motivos de interesse nas letras, na música e nas vocalizações. Destaco ainda outros temas como a faixa de abertura  “I Should Live In Salt”, “Graceless”, “Slipped” ou ainda a canção que encerra o disco, “Hard To Find”, uma espécie de declaração de intenções em que Berninger promete não deixar de se questionar.  Uma das razões do sucesso dos The National tem a ver com a forma como as suas canções evocam histórias, casos, cenários ou pensamentos que acabam por ser comuns a toda uma geração e na qual muitos se revêem. Deixo-vos uma frase incontornável de “Slipped”, onde Matt Berninger escreveu e canta “I'm having trouble inside my skin, I'm trying to keep my skeleton in,”. Estas canções são sobre o poder dos sentimentos. E, por isso, deixam marca.




DESCOBRIR - Hoje proponho um magazine digital que tem por programa publicar uma boa história por dia. É isso mesmo que tem acontecido, desde há uma semana, em www.carrosselmag.com ou facebook.com/carrosselmagazine. No projecto está uma equipa pequena mas criativa que inclui os fundadores Joana Stichini Vilela, (a autora do livro “Lx60 – A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma”), e Bruno Faria Lopes. A bordo estão outros jornalistas da sua geração e com provas dadas, mas também uma agência de produção digital, a Gomo, e uma agência de comunicação, a iupi. O resultado tem sido bom de seguir todos os dias e tem revelado empresários criativos, tendências geracionais como voltar ao campo, reportagens de concertos, portfolios de fotografia, novas formas de agitação política em Barcelona e até a verdadeira história dos hamburgueres do Honorato ou a experiência de um “ghostwriter” a contar a história de outra pessoa. Ir ao Carrossel passou a fazer parte da minha lista diária de leituras.





PROVAR - O restaurante “Sabor & Arte” fica no Páteo Bagatela e neste tímido Verão proporciona uma boa esplanada, além de uma ampla sala interior. A ementa é baseada na cozinha portuguesa e ali se encontram honestos e frescos linguados dourados com arroz de tomate, ou um bife de boa qualidade - mas nesta altura do ano quem fôr pelas sardinhas não ficará desiludido e os filetes com salada podem ser também uma boa alternativa. Menos português mas igualmente interessante é o ossobuco à Romana. Os preços são razoáveis, o serviço é simpático, vê-se sempre alguém conhecido. A lista é variada, os vinhos têm boas propostas correntes e  a esplanada é mesmo muito agradável. Fica na Rua Arilharia 1 nº51 e o telefone é 213865390.




DIXIT - Vitor Gaspar foi útil para o Governo numa fase, mas agora é bastante inútil - Marcelo Rebelo de Sousa




GOSTO - Do prémio Leão de Ouro, na Bienal de Veneza, atribuído a Angola, para a melhor representação nacional, pelo trabalho do fotógrafo Edson Chagas.




NÃO GOSTO - Existem 24 mil idosos em Portugal a viver em lares clandestinos



BACK TO BASICS - A grande diferença entre uma democracia e uma ditadura é que, na democracia, primeiro votamos e depois obedecemos a ordens, enquanto que numa ditadura não se perde tempo a votar - Charles Bukowsky




(Publicado no Jornal de Negócios de 7 de Junho)

junho 04, 2013

O SEU A SEU DONO

Estamos, como país, a apertar o cinto de uma maneira terrível – melhor dizendo, os cidadãos apertam o cinto muito para além do que há dois ou três ano imaginaram que iria suceder; mas isto não impede que a dívida portuguesa continue a aumentar, que o Estado continue a gastar mais do que devia e que a nossa situação geral não esteja a melhorar – na realidade alguns indicadores mostram que está a piorar. As sucessivas previsões de receita fiscal revelam-se enormes falhanços, porque o consumo é cada vez menor, porque há menos empregados a contribuir, porque há mais empresas a falir. 


 


Ao mesmo tempo que a receita fiscal desce, os custos com o desemprego sobem – uma coisa é consequência da outra. A economia portuguesa, destruída de forma metódica – na pesca, na agricultura e na indústria -  graças a incentivos europeus ao longo dos últimos 25 anos,  continua a ser o sector mais subalternizado pela acção governativa. O nosso sistema fiscal é uma roleta russa – e os investidores que criam emprego e riqueza geralmente não são fãs de encostar uma pistola à cabeça. A nossa taxa de IRC é por si só um obstáculo à captação de investimento, por mais esforços de diplomacia económica que existam.


 


O Governo diz que quer captar investimento, mas as medidas que toma são marginais e não atacam o fundo do problema: um sistema fiscal com valores nada competitivos em termos europeus , um sistema fiscal que muda todos os seis meses e que não garante a estabilidade mínima que os investidores procuram, uma justiça lentíssima que é também um obstáculo à actividade das empresas – por si só estes três pontos constituem o maior e mais grave factor de perca de competitividade da economia portuguesa – e são todos da exclusiva responsabilidade do Estado.


 


(Publicado na edição de dia 4 de Junho do diário METRO)

maio 31, 2013

DESABAFOS, JAMIE CULLUM, UM CONTO, UMA REVISTA

DESABAFO - Não sei bem que vos diga. A OCDE olha para as previsões que a troika obrigou o Governo a assumir, comenta o assunto com desprezo e ouve-se um sibilino  “ni hablar”. Por todo o lado vejo anúncios de greves e constato que o novo lider da UGT se deixou cair na tentação de deixar de ter agenda e posição própria. Por estes dias decorre uma reunião de esquerdas cujo programa é evitar qualquer mudança - e dou comigo a concordar com um texto de Henrique Monteiro, no site do Expresso, onde ele elabora sobre o conservadorismo de uma esquerda que se preocupa mais com a própria defesa do que em olhar para os desprotegidos da sociedade. Um pouco à frente leio que os professores vão fazer greve no dia dos exames, e pergunto-me se não lhes ocorre que estão a desprezar os alunos. No Governo vou vendo que Passos Coelho vai metendo umas discretas farpas em Vitor Gaspar a propósito da CGD e do prazo de cumprimento da meta do défice, e sinto um ruidoso mar de silêncio da maioria do elenco do executivo, como se eles próprios tivessem já baixado os braços. Se olhar para a acção do Governo nestes meses vejo um rasto de destruição, mas muito poucos sinais de alguma coisa nova construída. Falo com pessoas de várias gerações que não encontram rumo, nem perspectiva, nem - e isto é o pior - vontade de ter confiança. Um amigo meu dizia-me há dias que a única luz ao fundo do túnel é a de uma locomotiva alemã que nos vai passar por cima. Começa a ser difícil não concordar com ele.




SEMANADA - No Porto e em Lisboa os respectivos Metros perdem dois milhões de passageiros por mês; em 2012 os transportes públicos perderam 45 milhões de passageiros; a polícia facturou este ano, até Maio, menos 1,3 milhões de euros em multas, comparado com o mesmo período do ano passado; em 2012 mais de metade dos contribuintes não pagaram IRS e apenas 26% das empresas pagaram IRC; um quinto dos contribuintes suporta mais de 70% das receitas do IRS; no presente ano lectivo 279 cursos superiores tiveram menos de 20 inscritos; o Museu do Brinquedo em Sintra, que conta com 60 mil peças, está em risco de fechar; a dívida pública portuguesa detida pelos bancos cresceu 250% entre 2009 e início de 2012; a TVI afirma ter perdido oito milhões de euros devido aos resultados, que contesta desde o início, do painel de audiências criado pela GFK em 2012; registos de compra de casa caíram 74% desde 2009 ; em Lisboa há 2000 pessoas que dormem na rua;  PS somou 20 mil novos militantes nos últimos dois anos; as instâncias europeias deram mais um ano a Portugal para atingir a meta do défice, mas deram mais dois anos à França, Espanha, Polónia e Eslovénia; François Hollande disse que não será a Comissão Europeia a ditar à França o que o país deve fazer; a OCDE considerou "improváveis" as metas orçamentais portuguesas para 2013 e 2014 acordadas com a troika.




ARCO DA VELHA - Em Vinhais uma professora foi acusada de morder um aluno de sete anos “para mostrar como dói”, depois de a criança ter mordido um colega.

VER - Na galeria João Esteves de Oliveira estão por estes dias dois autores, Jorge Nesbitt e Ângela Dias sob o título “Dois Em Um”. Nesbitt abandona aqui o rumo dos seus trabalhos anteriores e apresenta guaches, simples, a lembrar exercícios de formas e cores, com algo de oriental. Ângela Dias faz desenhos em que se desenrolam pequenas histórias e as obras que expõe são baseadas na combinação da escrita com a imagem, palavras desenhadas em torno de figuras, folhas que evocam páginas de cadernos ou de um diário, graficamente muito apuradas, envolventes e algo misteriosas - num contraste com desenhos de maiores dimensões que parecem anunciar personagens recorrentes das histórias desenhadas. Até 28 de Junho, de terça a sábado, na Rua Ivens 38.




OUVIR- Jamie Cullum deixou-se de citar os clássicos do jazz vocal e, ao sexto álbum, fez o seu disco mais atrevido - e interessante: “Momentum”. Ouso dizer que isto é um trabalho pop, como era o jazz que se dançava e enchia as noites de ritmo. Aqui estão truques dos melhores cancioneiros da música popular, com recurso às sonoridades dos velhos sintetizadores. Tudo isto é particularmente saliente na sua versão de um clássico de Cole Porter, “Love For Sale”, onde introduz  um espírito funk com toques de hip hop, que aliás aproveita bem um sample da voz de Roots Manuya, tudo pontuado pelo solo do próprio Collum num Fender Rhodes. Destaco ainda temas como o “The Same Things”, a faixa de abertura cheia de sonoridades de Nova Orleãs ou o intenso  e , digo eu, esmagador “Edge of Something” onde vale a pena ouvir com atenção os pormenores da percussão. “Anyway” e “Take Me Out (Of Myself) são mais dois temas pop perfeitos - já para não falar de uma balada arrasadora que dá pelo nome de “Save Your Soul”. CD Island/Universal.




FOLHEAR - A edição de Junho da “Vanity Fair” traz Bradd Pitt na capa, a propósito da aventura de 200 milhões de dolares que foi fazer o seu novo filme “World War Z”. que ele andou a preparar e a produzir desde 2006. Se contarmos com os custos de pós-produção e marketing o filme precisa de facturar 400 milhões de dolares no mundo inteiro para fazer break-even. Fazendo jus à fama de ter os melhores jornalistas de negócios a contarem histórias de dinheiro nas suas páginas, esta Vanity Fair conta a épica aventura da venda do Instagram ao Facebook, mas o prato forte é a história dos feitos de Steve Cohen, o fundador do hedge fund de 14 mil milhões de dolares SAC Capital e a forma como está a ser investigado pelo procurador Preet Bharara que se tem dedicado, com sucesso e várias detenções no activo, a casos de inside trading ao longo dos últimos sete anos. Um ponto de situação sobre a vida de Carla Bruni fora do Palácio do Eliseu e uma investigação sobre a noite em que Oscar Pistorius disparou sobre a sua namorada completam esta bela edição da “Vanity Fair”.




LER - Duas mulheres ao telefone, durante duas horas seguidas, falam de quê? A resposta está em “Quando A Chuva Parar”, de Joana Pereira da Silva, uma argumentista que se estreia neste formato de pequeno conto, numa nova colecção, com livros de menos de cem páginas, e que se destina a ser lida nas deslocações diárias. Se alguma vez sentiu desejo de ser mosca para ouvir uma conversa solta entre duas amigas, aqui está a forma de resolver essa vontadinha. Maria e Teresa desbobinam as suas memórias de juventude numa conversa que decorre enquanto Maria vem de carro, numa noite chuvosa, do Porto para Lisboa, depois de uma discussão com o marido. A escrita tem ritmo, imagina-se com facilidade duas actrizes a representar a situação. A ideia desta colecção é muito engraçada - livros que se lêem depressa, e a ideia deste livro em particular ainda é mais sedutora: espreitarmos uma conversa. A colecção chama-se “poucas palavras GRANDE FICÇÃO” e tem a chancela da Guerra e Paz.





PROVAR - Decididamente estou a fazer revisão da matéria dada - num regresso ao “Apuradinho”, em Campolide, tirei a barriga de misérias com um dos meus petiscos preferidos: pivetes. Para quem não sabe, pivetes são os bocados de rabo de boi, devidamente cozinhados, estufados. No “Apuradinho” pode pedi-los com osso ou desossados, só com a carne a navegar no molho, saborosíssimo. Para a mesa vem um tachinho com os pivetes , acompanhados por puré de batata caseiro. A combinação é fantástica e é um verdadeiro exemplo da arte culinária ribatejana - já que o petisco se fez gente por lá. O “Apuradinho” fica na Rua de Campolide 209 e tem o telefone 213 880 501. Na minha lista de preferências desta casa estão também as iscas e os pastéis de bacalhau - daqueles de chorar por mais, acabadinhos de fazer, acompanhados por arroz solto de tomate.



DIXIT - «Às vezes acordo e constato que vivo num país onde o primeiro-ministro é Passos Coelho, o candidato à sua substituição é António José Seguro e o Presidente da República é Cavaco Silva. Só pode ser um pesadelo” - Miguel Sousa Tavares, no “Expresso”.




GOSTO- Da actuação do Secretário de Estado do Turismo, a facilitar o acesso às actividades merítimo-portuárias para combater a sazonalidade da procura turística no litoral.




NÃO GOSTO - Da reacção da Presidência da República a uma entrevista de Miguel Sousa Tavares, indo fazer queixinhas à Procuradoria Geral da República.




BACK TO BASICS - Devemos perdoar sempre aos nossos inimigos, isso é o que mais os irrita - Oscar Wilde

maio 28, 2013

NO REINO DAS EXPERIÊNCIAS

Quando olho para a actividade do principal partido do Governo e para a do principal partido da oposição tenho a estranha sensação que os respectivos líderes se esqueceram de que o seu trabalho devia ser desenvolver políticas e discutir política. Em vez disso vou assistindo a umas discussões, muitas vezes bizantinas, um a dizer que tem de se fazer, o outro a dizer que não se pode fazer. Estes dois líderes são hábeis na resposta, prolixos na guerrinha de soundbytes, mas muito fraquinhos na construção de políticas – o que, necessariamente passa pela construção de acordos e de pontes. Fico com a sensação que os dois, Passos e Seguro, preferem a intriga palaciana para a manutenção do poder ao exercício de facto da acção política, no sentido da resolução dos problemas e da construção de soluções.


 


É desesperante ver como estes políticos dos dois maiores partidos preferem escudar-se atrás de receitas, do que pensarem um pouco na realidade e construírem propostas objectivas a partir de dados objectivos. O desfasamento que ambos mostram frente à realidade das pessoas e do país é confrangedor – um porque acha que a solução está em evitar a mudança, o outro porque segue instruções para uma mudança tão rápida e tão grande que qualquer dia acaba com as pessoas. A actividade política é suposta evitar situações destas, não é suposta proteger experiências ditadas sabe-se lá de onde. Por estes dias Rui Zink postou no Facebook uma frase que resume na perfeição a situação que vivemos: “Povo, à beira-mar plantado, e bem amestrado, aluga-se para experiências científicas. Sigilo assegurado.”


 


(Publicado no diário Metro de 28 de Maio)

maio 24, 2013

Qual a relação entre 10 milhões de euros, o MUDE e o Pavilhão de Portugal?

MUDE - O Museu do Design e da Moda, MUDE, tem tido uma actividade assinalável, fruto da equipa dirigida por Bárbara Coutinho, que soube bem exponenciar o núcleo inicial da Colecção Capelo, assegurado ainda antes de António Costa ser Presidente da Câmara. A António Costa coube a instalação do MUDE no antigo edifício sede do Banco Nacional Ultramarino, na Rua Augusta - o edifício estava em péssimas condições e foi assumidamente usado “em bruto” pelo MUDE, com intervenções mínimas, fruto de um acordo entre a Câmara e a CGD, que detinha o imóvel. Por estes dias António Costa anunciou ir investir dez milhões de euros na reabilitação do edifício, num projeto que irá ampliar a área do Museu para os oito pisos do edifício, num total de 15 mil metros quadrados. Eu percebo que António Costa queira desenvolver o que começou, em plena baixa da cidade. Mas não deixo de sentir alguma estranheza por não se ter aproveitado esta oportunidade - e este investimento - para resolver a questão do Pavilhão de Portugal - questão que ainda fica mais saliente agora que passam 15 anos sobre a realização da EXPO. Faz pena que o edifício de Siza Vieira, concebido para ser um local de acolhimento de exposições, com características ideais para isso, e com infra estruturas de armazenamento de obras de arte, esteja praticamente abandonado e a degradar-se. A questão que se põe é a de ter abertura de espírito suficiente para equacionar fazer reviver o edifício com uma colecção e actividade como a do MUDE, fomentando as ligações à indústria e à universidade, e enriquecendo o pólo oriental da cidade. Os dez milhões para recuperar o edifício do BNU não poderiam ser melhor utilizados para dar uma utilidade consentânea com o projecto inicial do pavilhão de Portugal? Nunca é tarde para mudar de rumo. Bem sei que o problema central da não utilização do pavilhão de Portugal é saber quem assume o custo do edifício - mas será que um problema de engenharia financeira do Estado vai condenar à degradação e inutilidade aquele espaço?




SEMANADA - O Conselho de Estado, convocado para debater o futuro, esteve sete horas reunido e produziu um comunicado que é uma lista de tarefas para o presente; o pós-troika no pós-Conselho de Estado resume-se a análises sobre timing de remodelação no Governo, saída de Vitor Gaspar para Comissário Europeu e prazo para a ruptura da coligação; o conteúdo da reunião do Conselho de Estado foi tornado público nos jornais no espaço de 24 horas, e contribuíu, muito mais do que o vago comunicado oficial, para se perceber o que foi discutido; o banco central alemão deu orientações sobre o Banco Central Europeu e sobre a política do Governo francês; entre a chegada da troika e a sua partida prevista,  o desemprego deverá ter aumentado 60,9%, o PIB deverá encolher 5,8%, o investimento cairá 28,3% e o consumo privado cairá 6,7% - mas em compensação a dívida pública terá aumentado 24% e os juros da dívida terão um aujmento de 47,7%; Portugal está no top 5 europeu na compra de BMW, Mercedes e Audi; o ministro alemão das Finanças encontrou-se com Vitor Gaspar e teceu-lhe rasgados elogios; o Ministro Miguel Poiares Maduro encomendou um estudo sobre a melhoria das formas de comunicação do Governo e exortou “a comunidade política a contribuir para um discurso público mais construtivo e informado”.




ARCO DA VELHA - O Estoril teve 45 pontos na Liga e gastou três milhões de euros nesta época, enquanto o Sporting ficou atrás, com 42 pontos, e gastou 68 milhões - feitas as contas cada ponto custou ao Estoril 67 mil euros e cada ponto custou ao Sporting 1,6 milhões, o mais elevado custo por ponto de todos os clubes da I Liga.




VER - António Sena da Silva foi um homem visual - o prazer do olhar era o seu modo de vida e isso reflectiu-se, do design à fotografia. No Torreão Nascente da Cordoaria, estão cerca de duas centenas de imagens numa exposição criada por Sérgio Mah, intitulada “Uma Antologia Fotográfica”, que estará patente até 4 de Agosto. Tenho a tentação de dizer que Sena da Silva foi aquilo a que os americanos chamam “street photographer” - até porque, como a exposição mostra, ele dedicou-se a retratar a evolução de Lisboa entre os anos 50 e os anos 70. Aqui está o quotidiano da cidade, das pessoas que a habitam e, quase sempre, do rio que nessa altura era uma presença não vista, nem vivida. A exposição ocupa completamente os dois pisos da Cordoaria e mostra várias fases do trabalho de Sena da Silva - formatos de negativo diferentes, máquinas diversas, um uso impoluto do preto e branco e um uso discreto e contido da côr. O rigor do enquadramento é uma constante, quer fotografe paisagens urbanas, ou o campo, ou máquinas, ou fábricas ou objectos. Esta é uma exposição que nos ajuda a reter a memória do tempo - e o trabalho de Sérgio Mah é um exemplo de respeito pela obra, um exemplo do prazer de dar a descobrir o encanto da imagem fotográfica.




OUVIR- Até aqui “The Heart Of The Matter” era uma novela discreta de Graham Greene, escrita no final da década de 40. Agora é também um disco de Jane Monheit em que a sua versão da fusão de duas canções dos Beatles, “The Long And Winding Road” e “Golden Slumbers”, se torna fatalmente um ponto de atracção. Mas é em “Born To Be Blue” de Mel Tormé ,ou “When She Loved Me” de Randy Newman, que ela verdadeiramente mostra a sua versatilidade e capacidade de interpretação - que se faz ainda notar em dois temas de Ivan Lins, “Depende de Nós” e “A Gente Merece Ser Feliz”. Em “The Two Lonely People”, de Bill Evans, Monheit mostra como não receia mostrar a voz quase sem presença instrumental, uma voz às vezes tímida, outra à beira de um lamento. Os arranjos, no entanto, são parte importante deste álbum, assinados pelo teclista Gil Goldstein, que com o baterista Rick Montalbano e o guitarrista Romero Lubambo, asseguram um suporte musical digno de destaque. (CD Emarcy/Universal).




FOLHEAR - O jornal “Próximo Futuro” é uma das mais interessantes publicações de instituições culturais. É um jornal que a Gulbenkian edita para acompanhar o seu programa “Próximo Futuro”, coordenado por António Pinto Ribeiro. São 40 páginas, distribuídas na Fundação e disponíveis em versão electrónica em www.proximofuturo.gulbenkian.pt . A edição agora em distribuição, a nº 13,  anuncia o novo ciclo de programação de Junho e Julho e tem na capa uma obra impressionante do artista sul-africano Conrad Botes. Lá dentro um belo texto de António Pinto Ribeiro com o provocador título : “Lamento dizer-vos mas somos todos africanos”, citando a frase de abertura da intervenção de Desmond Tutu na Gulbenkian, no ano passado. A nova programação tem em destaque uma festa da Literatura e do Pensamento do Sul da África, a exposição dos Encontros de fotografia de Bamako, um ciclo de cinema com uma dúzia de filmes e bailes na garagem com, por exemplo, o DJ Rui Miguel Abreu. Além disso estão previstos concertos com música da Tanzânia e uma espectáculo de dança baseado na marrabenta, entre muitas outras iniciativas, todas elas bem anunciadas neste jornal que tem um delicio espírito “fanzine” em technicolor.




PROVAR - A ementa de um bom restaurante deve ser uma obra em permanente transformação. No De Castro Elias é isso que acontece e agora há algumas novidades: começo por umas chamuças de massa filo, umas com queijo da beira e mel, outras com alheira e espinafres. Para fazer crescer água na boca há umas tostadas de cavala fumada com legumes salteados e uma açorda de cogumelos e enchidos. Nos pratos mais substanciais sugiro um entrecosto assado com arroz de forno ou uma perna de pato com canela e azeitona. Seguindo a recomendação da casa os petiscos foram acompanhados por um muito honesto vinho  Santos Lima, o “Confidencial” Reserva, a bom preço. E claro que há sempre os clássicos da casa - moelas picantes e feijão manteiga com ameijoas.  O De Castro Elias fica na Elias Garcia 180, e tem o telefone 217 979 214. Vale a pena reservar.




DIXIT - “Perante as sucessivas medidas da troika, que não dão resultado, eu, no mínimo, gritava” - Manuela Ferreira Leite




GOSTO - Do início da edição portuguesa da revista “Granta” - o tema “Eu” foi o escolhido para o primeiro número, que inclui textos de vários autores e um porfolio fotográfico de Daniel Blaufuks. A direcção é de Carlos Vaz Marques.


NÃO GOSTO - De uma  luta anti-austeridade conduzida por quem andou a promover gastos bem acima das possibilidades do país.


BACK TO BASICS - O riso é a mais antiga e mais terrível forma de crítica - Eça de Queiroz.

maio 21, 2013

A JUNTA MÉDICA DE BELÉM

O pós troika inicia-se em Junho do próximo ano, antes da conclusão da atual legislatura. Mas pelos vistos o Conselho de Estado, que vai decorrer poucas horas depois do momento em que escrevo estas linhas, na tarde de segunda-feira 20, debaterá a situação política geral dessa altura futura, em vez da situação do presente. É mais uma originalidade do processo. Há quem diga que a lógica de discutir o futuro tem a ver com a convicção, mais ou menos generalizada, que daqui a um ano, mais coisa menos coisa, já não será Pedro Passos Coelho o Primeiro-Ministro. Nunca fui grande fã de crónicas de mortes políticas anunciadas – que geralmente nunca são certeiras. E parece-me que era bem melhor ter a coragem de olhar para o que se passa. Esta é daquelas situações em que mais vale a pena falar da dor de dentes que temos agora do que da gangrena que, se calhar, pode existir daqui a um ano.


 


O Presidente da República faz malabarismos para, em simultâneo, se ir demarcado das políticas de Gaspar, para se manter sorridente a Paulo Portas, e para continuar a poder cavaquear com Seguro. É um equilíbrio difícil, este de manter pontes entre o presente e o futuro.  Este Conselho de Estado, que para uns vem tarde e que para outras vem com a ordem de trabalhos trocada, é mais um passo no imbróglio existente. A situação política está como a malfadada pneumonia que anda para aí: os remédios corriqueiros não a debelam e é preciso doses maciças de remédios muito fortes para amainar os sintomas. O ponto curioso disto tudo é saber se os doutores que se sentaram em Belém terão conseguido encontrar remédio que cure o paciente ou se optaram apenas por anestésicos e sonoríferos.


 


(publicado no diário Metro de terça  21 de Maio)


 

maio 17, 2013

CONCORRÊNCIA INFORMATIVA

Esta semana fui ver como se comportam os três canais informativos nas várias regiões do país, dentro dos espectadores qie têm televisão por subscrição e que são sensivelmente 2/3 do total. A nível nacional a SIC Notícias lidera estes canais informativos na sexta posição, seguida da TVI 24 na nona posição e da RTP Informação na 12ª. Na zona da Grande Lisboa a coisa é bem diferente – a SIC Notícias está em 5º lugar, a TVI 24 em 10º e a RTP Informação em 14ª. O melhor resultado da SIC Notícias é na zona sul, na quarta posição – a RTP Informação nem aparece nos 15 primeiros nesta região e a TVI 24 está na 8ª posição. A única região em que a TVI 24 consegue bater a SIC Notícias é a zona Centro, onde se coloca na 5ª posição, seguida da SIC Notícias na sexta posição e da RTP Informação na 13ª. Finalmente na zona norte a SIC Notícias aparece em 8º lugar, a TVI 24 em 9º e a RTP Informação em 12º. Na maior parte das regiões as preferências, excluindo os informativos e os generalistas, vão para o Hollywood, o Panda e o Disney Channel.


 


(Publicado dia 17 de Maio na revista Correio da manhã TV)

maio 14, 2013

O PECADO ORIGINAL

Qual a razão da recorrente instabilidade política a que se assiste em Portugal, ao clima, repetido em vários mandatos e com vários protagonistas, de desconfiança entre o Presidente da República e os Governos?  O novo livro de Pedro Santana Lopes chama-se “O Pecado Original” , dedica-se a analisar o choque constitucional entre Belém e São Bento ao longo dos anos e faz uma retrospetiva de como os vários Presidentes da República têm exercido os seus poderes. “O sistema de Governo da Constituição Portuguesa depende do discernimento de um homem só”– diz o autor, sublinhando que o Parlamento e o Governo dependem do Presidente da República e que “a Assembleia da República não dispõe de autoridade política equivalente, apesar de igualmente eleita por sufrágio direto e universal”. O resultado é que o sistema favorece “ um Presidente da República «que tome conta disto» ou «que deite isto abaixo», quando fôr o caso”.


 


Em jeito de conclusão, Santana Lopes escreve: “Importa clarificar o sistema semipresidencial: ou governa o Presidente (como em França), ou governa o Primeiro Ministro. Se é para o presidente governar, deve presidir ao Conselho de Ministros. Se não é, e se é o Governo que governa, a oposição deve estar – no que ao Estado respeita – no Parlamento. Nesse caso o Presidente só deve poder dissolver o Parlamento nas situações expressamente previstas na Constituição, deixando esse poder de ser discricionário”.


 


Isto quer dizer retirar do Presidente a capacidade de ser ele próprio oposição e a possibilidade que tem de demitir o Governo “para assegurar o normal funcionamento das instituições democráticas” – pretexto suficientemente amplo e que tem sido utilizado de forma discricionária. A polémica está lançada. E bem lançada.


 


(Publicado no diário Metro de dia 14 de Maio)

maio 11, 2013

Audiências, músicas, livros, anotações soltas

AUDIÊNCIAS -  Um dia se fará a história deste processo, a história de como se aumentou artificialmente o consumo de televisão, de como se aumentou o número de resultados indefinidos e se criaram distorções no mercado, como se fomentou a ruptura, como se pôs em causa a auto-regulação. Esta semana a RTP e a TVI deixaram a CAEM, a entidade que superintende na medição de audiências. Na origem estão todos os problemas com a audimetria da GFK. Vale a pena não esquecer quem desenhou e impulsionou o actual e polémico modelo, na altura em que o concurso para a nova audimetria foi lançado. Vale a pena não apagar a memória do que foi este processo, do papel desempenhado por cada protagonista, das divisões que provocou, dos erros causados e, eventualmente, dos prejuízos provocados. Teria sido possível encontrar equilíbrios entre a GFK e a Marktest e teria sido possível evitar a saída da RTP e TVI se tivesse havido mais bom senso. Para memória futura vejamos as diferenças verificadas na medição de audiências de televisão no primeiro trimestre deste ano. No painel da CAEM/GFK, a RTP1 obteve 12% de share, a RTP2 teve2,7, a SIC atingiu 23,2 e a TVI 25,7, enquanto o conjunto dos canais de cabo alcançou 24,9% e o conjunto de “outros” não identificados teve 11,5%. Mas no painel da Marktest/Kantar os números são um pouco diferentes: 16,6% para a RTP1, 2,2% para a RTP2, 23% para a SIC e 27,5% para a TVI, enquanto o cabo ficou nos 25% e os “outros” não identificados em apenas 5,8%. Como se vê persistem as diferenças, com sobrevalorização na CAEM/GFK dos não identificados, e diferenças, para menos,  na RTP1 (4,6%) e TVI (2,5%). Esta semana foi eleita nova direcção para a CAEM, espera-se que seja capaz de voltar a colocar o processo nos carris. E que volte a imperar o bom senso e se corrijam as anormalidades técnicas que persistem em existir.




SEMANADA - Passos Coelho anuncia várias novas medidas; Paulo Portas convoca imprensa para comunicação; Passos Coelho diz que Portas participou ativamente na elaboração das medidas; Paulo Portas vem dizer que foi e será sempre contra uma das medidas anunciadas; na sua crónica na SIC Marques Mendes afirmou saber que vai ser convocado a curto prazo o Conselho de Estado; Aguiar Branco, Ministro da Defesa, disse que o Governo está coeso e que o CDS está tranquilo; Fernando Seara disse que Paulo Portas assumiu uma posição muito respeitada em defesa dos pensionistas; o Ministro Poiares Maduro disse, na sua primeira entrevista, não ver na taxa suplementar sobre os pensionistas, divergência entre Passos Coelho e Paulo Portas; Pedro Passos Coelho disse à UGT que afinal não haverá nova taxa sobre os pensionistas; o novo secretário de Estado do Desporto decidiu, dez dias depois de tomar posse, conceder benefícios fiscais a quem der donativos ao clube de que é sócio, o Vitória de Guimarães;




ARCO DA VELHA - Angela Merkel confessou, numa entrevista, que tem “certas capacidades de camelo” que lhe fazem aumentar a resistência, disse-se atraída por homens “de olhos bonitos” e admitiu que um dos seus desejos secretos é cortar lenha.

VER - Muita actividade na Gulbenkian, justifica-se passar lá algum tempo. Para além da exposição documental sobre a vida e a obra da escritora Clarice Lispector, “A Hora da Estrela”, destaque para a mostra de cerca de duas centenas de desenhos que integram “A Obra Perdida de Emmerico Nunes”, um desenhador e ilustrador português que publicou quase toda a sua obra em revistas alemãs, nas décadas de 10 e 20 do século passado - com um traço fino, de humor e de observação. Além disso, o Centro de Arte Moderna apresenta  “Gálapagos”, o resultado de uma residência artística ali realizada, patrocinada pela Fundação em parecria com a Fundação Charles Darwin e o Museu de História Natural de Londres. E finalmente vale a pena ver “360º - Ciência Descoberta”,   uma exposição sobre a ciência ibérica na época dos descobrimentos, que apresenta os desenvolvimentos científicos e técnicos associados às grandes viagens oceânicas de Portugueses e Espanhóis nos séculos XV e XVI, e o impacto que causaram na ciência europeia. Por fim, se quiser petiscar tem ali ao lado a Cafetaria do Centro de Arte Moderna, que está com uma nova dinâmica - que se nota aliás no Facebook.




OUVIR- “O Grande Medo do Pequeno Mundo” é o terceiro álbum de Samuel Úria e começa logo assim: “Duplas Falsas Partidas/São motins contra quem/ Usa pólvora seca/ Para fazer-nos correr”. Úria é dos casos mais interessantes, surgidos nos últimos anos, a escrever canções em português e as suas letras são um exemplo do que a nossa língua permite fazer - falando de temas actuais, de estados de espírito, com ritmo, com sonoridade. Às vezes conta histórias, noutras deixa recados. A sua voz molda-se bem com as palavras e o seu caminho musical vai ficando mais coerente com a forma de cantar as palavras que usa. Confesso que gostava de ouvir outros cantores interpretarem algumas destas canções e também gostava de ouvir Úria, por exemplo, a cantar versões de alguns temas de Sérgio Godinho. Uma coisa é certa: não há, fora do fado,muita gente a percorrer, com esta qualidade e consistência, os caminhos das novas canções cantadas em português. Podia ser melhor, é imperfeito q.b. Mas isso abre a possibilidade de um dia destes conseguir dar o salto. Falta-lhe método e produção - o que, esclareça-se, não deve querer dizer complicação e sim contenção e força.




FOLHEAR - A Madeira foi das primeiras regiões do país onde a fotografia se desenvolveu, praticamente desde a sua descoberta, na primeira metade do século XIX - e isto pela mão fundamentalmente de dois estúdios: Vicentes Photographos e Perestrellos Photographos, a que rapidamente se adicionaram João Francisco Camacho, Augusto Maria Camacho , Augusto César dos Santos e Joaquim Augusto de Sousa. O mais notável é a qualidade do trabalho - estético e técnico - da maioria do trabalho destes fotógrafos madeirenses. Em 1982, nasce “A Photographia- Museu Vicentes”, na casa onde estava instalado o estúdio do mesmo nome. Hoje em dia estão lá depositados e conservados cerca de 800 mil negativos que são um testemunho da vida do arquipélado durante mais de uma centena de anos, desde meados do século XIX. Por iniciativa da delegação regional da Madeira da Ordem dos Economistas foi editado um livro intitulado “As Origens do Turismo Madeirense- Quintas e Hotéis do acervo da Photographia Museu Vicentes”. É um álbum fascinante e ao longo das suas 180 páginas vemos a evolução da ilha, a transformação da sua paisagem, os grandes marcos do tursimo madeirense, desde as quintas de aluguer onde se hospedavam os primeiros visitantes até ao campo de golfe do Santo da Serra e respectiva Casa de Chá, passando, claro pelo histórico Hotel Reid’s e os outros grandes hotéis madeirenses construídos na primeira metade do século XX. A obra, já nas livrarias, mostra imagens registadas entre cerca  1870 e o final dos anos 50 do século passado.




PROVAR - Gosto de bons pequenos almoços, tomados com calma e de preferência em casa. Aos fins de semana permito-me uma pequena indulgência: torradas em bom pão, obviamente com manteiga. O pão alentejano, de Beja, da padaria “Fermentopão”, que se encontra com alguma facilidade nos supermercados lisboetas é a minha primeira escolha. Mas quando não o encontro há uma boa alternativa , da península de Setúbal, perto de Palmela, que é o pão da Lagoinha, e que também se encontra, igualmente fresco, em alguns supermercados. Para a coisa ficar completa prefiro manteiga dos Açores e as minhas duas escolhas vão para a manteiga Nova Açores, que tem boa distribuição em supermercados, e na mais artesanal (e mais aborosa)  Manteiga Uniflores (produzida pelas Cooperativa Ocidental na da Ilha das Flores) e que se pode encontras na Mercearia Criativa, da Avenida Guerra Junqueiro em Lisboa. E assim se começa bem o dia.




DIXIT - Pedro Passos Coelho e Paulo Portas fizeram “dois discursos de Primeiro Ministro sobre a mesma matéria,mas o do líder do CDS é bem melhor” - Marcelo Rebelo de Sousa.




GOSTO - Da análise feita no livro “Pecado Original” em que Santana Lopes aborda o funcionamento da Presidência da República no nossos sistema político.


NÃO GOSTO - Emigração portuguesa para a Alemanha aumentou 43% no último ano.


BACK TO BASICS - A Democracia é aquilo que permite que sejamos governados à medida daquilo que merecemos - George Bernard Shaw

maio 07, 2013

(DES) GOVERNO

Aqui vai um pequeno resumo dos últimos quinze dias: há cerca de semana e meia uma discussão interna no Conselho de Ministros tornou-se pública em 24 horas. Na semana passada o Primeiro Ministro anunciou uma série de medidas na quinta-feira à noite, teoricamente aprovadas em Conselho de Ministros, e o líder do CDS/PP, Paulo Portas, anunciou logo de seguida uma conferência de imprensa, para Domingo, onde se iria pronunciar sobre as referidas medidas.


 


Pouco depois desta informação, Passos Coelho elogiou o seu parceiro de coligação e disse que Paulo Portas tinha participado ativamente na elaboração das medidas anunciadas. No Domingo Paulo Portas declarou ser contra as novas taxas sobre os pensionistas, pondo assim em causa uma das medidas anunciadas por Passos Coelho.


 


Ficou claro que está a decorrer uma partida de xadrez em que cada um dos jogadores faz movimentos cuidadosamente planeados, tentando colocar o outro em xeque. Para complicar o jogo Marques Mendes resolveu iniciar uma simultânea e abriu novo tabuleiro, para anunciar que vai ser convocado um Conselho de Estado.




Como bem escreveu, ontem, Pedro Santos Guerreiro no seu Editorial no “Jornal de Negócios”, o Governo está a ficar ingovernável. Na última semana ficou evidente que Paulo Portas está a acelerar o movimento do seu reposicionamento, colocando o CDS/PP no papel de charneira indispensável para assegurar existência de uma maioria – não se vá dar o caso de haver uma crise e surgirem eleições com uma vitória do PS.




Na realidade, na conjuntura actual, nem PS nem PSD podem governar sozinhos – os dois partidos precisam de Portas e ele sabe disso. Algo me diz que esta vai ser uma longa partida de xadrez e ninguém pode dizer que sabe qual será o seu desfecho.


 




(Publicado na edição de hoje do diário METRO)