junho 28, 2013

A SEMANA DA GREVE, MAS COM MUITO PARA VER

GREVE - À hora a que escrevo ainda não sei o que aconteceu de facto. Mas posso, sem grande risco, pensar que a greve de quinta-feira atingiu sobretudo serviços do Estado e empresas públicas. Dantes, as greves gerais não eram assim - paravam fábricas, paravam empresas privadas, paravam países. Agora conseguem parar os transportes e, por via disso, inviabilizam que algumas pessoas vão trabalhar, apesar de não quererem fazer greve. A verdade é que, historicamente, o desenvolvimento do transporte privado tramou os sindicatos e restringiu o universo grevista. Li esta semana que só 10% dos trabalhadores do sector privado são sindicalizados - e os sindicatos bem podem dizer que a culpa é das empresas que atemorizam oa assalariados, mas ninguém em seu perfeito juízo acredita nisso como regra geral. Mais provavelmente, muitos colaboradores de empresas privadas estão apostados em conseguir, nesta difícil conjuntura, que as empresas onde trabalham consigam produzir, vender, facturar e, consequentemente, pagar. Hoje ainda continua a haver quem queira apenas um emprego; mas há muita gente que prefere trabalhar, percebendo que só a sua produtividade ajuda a que a situação geral melhore. É triste que seja na administração pública, mais improdutiva que a actividade privada em termos objectivos, que a greve alcance indícies palpáveis. É o melhor sinal da urgente necessidade de uma reforma e redimensionamento do Estado, muito para além do que os partidos, tementes das suas clientelas eleitorais, estão dispostos a arriscar. Em Portugal continua a falar-se muito de direitos e pouco de responsabilidades. Ao ler declarações, destes dias, do líder da CGTP, Arménio Carlos, dei comigo a pensar que quando um dirigente sindical aparece a pedir eleições, não está a fazer reivindicações, está a fazer política, necessariamente partidária. É nestes dias que vale a pena recordar as palavras de Oscar Wilde, ao sublinhar que “dever é o que esperamos dos outros, não o que nós mesmos fazemos”. Para terminar a conversa: uma semana depois do aviso, continuo à espera de ver como vai ser a prometida comunicação diária do Governo nestes tempos agitados. Terá feito greve?


 


SEMANADA - O Benfica tem 104 jogadores a contrato, o FC Porto tem 69 e o Sporting tem 62 - 235 jogadores apenas nestes três clubes;  o número de milionários em Portugal, usando o critério de património financeiro superior a um milhão de dólares, cresceu 3,4% no ano passado e é agora de 10.750 pessoas; 45 % das casaas do Algarve são residências secundárias; segundo o Banco de Portugal as empresas privadas e as famílias estão a conseguir reduzir a dívida, mas o estado continua a aumentá-la; a dívida pública, que no final de 2013 devia ser de 123%, já atingiu os 127%; o Secretário de Estado da Economia, Franquelim Alves, considerou que a “descida do IRC é um sinal crítico para a política económica” na captação de investimento; o Ministro das Finanças Vitor Gaspar disse na Assembleia da República que ainda não vê margem para poder baixar impostos”; a Secretária de Estado do Tesouro disse no Parlamento que o cancelamento de 69 contratos swaps não custou dinheiro aos contribuintes, embora provocasse uma perca de mil milhoes de euros, suportada pelo Estado; o negócio da construção prevê uma quebra de 15% neste ano.


 


ARCO DA VELHA - A colecta do IRS aumentou 30,6%, a do IRC apenas 8,2% e a de todos os outros impostos caíu 92% - e mesmo assim Vitor Gaspar diz-se satisfeito com a execução orçamental, feita à custa da cobranças mais simples.

VER - Lisboa vive um momento alto em matéria de exposições de fotografia. No Museu da Electricidade inaugurou “Pátria Querida”,  uma boa amostra do trabalho do espanhol Alberto Garcia-Alix, que se celebrizou a mostrar a movida madrilena. Se o que faz a fotografia é o modo de ver, a maneira de transmitir o que se observa, aqui o objectivo está bem conseguido. Na Gulbenkian, inseridas na programação “Próximo Futuro”, estão duas exposições imperdíveis - uma mostra dos Encontros de Fotografia de Mamako, que traça um retrato da África pós colonial, e “Present Tense”, uma mostra comissariada por António Pinto Ribeiro (o amentor do ciclo “Próximo Futuro”) e que desbrava caminhos contemporâneos da observação do espaço e das pessoas no continente africano. Finalmente, em “A Pequena Galeria” (24 de Julho nº 4C) está “De Maputo”, que agrupa fotografias de José Cabral e Luis Basto, com breves mas importantes evocações de Rogério Pereira e Moira Forjaz.


 


OUVIR- Lembram-se de Lloyd Cole? Com os Commotions conquistou fama graças a belas canções, intimistas q.b. Numa carreira a solo incerta, manteve a descrição e o seu novo disco, ironicamente intitulado “Standards”, não é um repositório de versões de lugares comuns, mas sim a tentativa de deixar para a memória do seu público algumas canções. A viver nos Estados Unidos desde há anos, o disco é marcado pelos sons do pop e rock americanos, mais do que pelo suave pop britânico que deu fama a lloyd Cole. Nõo é certamente por acaso que a única versão de canção alheia nestes “Standards” é “”California Earthquake”, de Cass Elliott, dos The Mamas & The Papas, um velho tema de 1968. Dos temas novos, que mostram como aos 52 anos ainda se consegue comabter o destino, destaco “Blue Like Mars”, “Women’s Studies”, “Opposites Day” e “No Truck”. A vasta legião de fãs de Cole em Portugal não ficará desiludida com este disco.


 


FOLHEAR - Qualidade de Vida em 2013, onde se pode encontrar?


Pois é, Costa, em ano de eleições Lisboa saíu da lista das 25 melhores cidades para viver elaborada pela “Monocle”. Eu, lisboeta, tenho pena. Aguentámos lá uns anos, mas não sobrevivemos ao mandato do Costa e do Sá Fernandes. Tenho muitoa pena de ver a minha cidade transforamada num fim de semana em cartaz publicitário de um hipermercado, como vai acontecer este sábado. Estas coisas pagam-se. Para o Continente é barato, para Lisboa, é caríssimo. A “Monocle” sublinha que uma boa cidade deve viver sete dias por semana, sem interrupções, para os seus habitantes. O que se vai passar sábado na Avenida  é uma interrupção da cidade. Além de uma foleirice, é um abuso. Rewsta-nos a satisfação de o Deli Delux ser referida como a sexta melhor loja de comida e bebida no “The Monocle Food And Entertaining Guide 2013”, com destaques para o vinho deo Porto da Taylor’s e para as conservas da Tricana. O City Survey da edição dupla de Verão, agora distribuída, é sobre o Rio de Janeiro. E, claro que me dói um pouco ver Madrid citada várias vezes e Lisboa assim esquecida. olhem, agradeçam ao Costa.


 


PROVAR - Onde é que uma cerveja moçambicana e a vista do casario de Lisboa, com o Tejo por pano de fundo combinam? A resposta é num belo terraço, perto do Castelo, no alto do antigo mercado do Chão do Loureiro, hoje um parque de estacionamento bem útil para se poder ir à zona da Costa do Castelo? Ali pode beber uma “laurentina” bem fresquinha”, mas também uma “dois MM”. No restaurante, que dispõe da mesma vista, tem uma boa selecção de vinhos - mas aceite a sugestão dos vinhos Casa da Ínsua, do Dão, que têm uma excelente relação qualidade-preço. Provou-se a galinha em caril com amendoim, o chacuti de vaca e o camarão à Laurentina e tudo merece elogios. O serviço, como diz voz amiga, é acima de simpático. O Zambeze está aberto todo o dia, alternando entre café, esplanada e restaurante, fica ao alto da Calçada do Marquês de Tancos e tem o telefone 218 877 056.


 


DIXIT - Procuro político honesto para votar - Cartaz em manifestação no Brasil


 


GOSTO- Os Moonspell e seus convidados são os escolhidos para, amanhã, sábado, encerrarem as Festas de Lisboa junto à Torre de Belém.


 


NÃO GOSTO - Já repararam que Antonio Costa protege o piquenicão e as hortas postiças do Continente, ao mesmo tempo que a Câmara arrasar hortas comunitárias?


BACK TO BASICS - Por mais interessante que a estratégia pareça, devemos sempre olhar para os resultados que proporciona - Sir Winston Churchill



(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Junho)

TV: OS EIXOS DAS PROGRAMAÇÕ

Se olharmos para as audiências dos três canais comerciais constatamos que a TVI lidera graças ao Big Brother, que a SIC conquista público com as novelas e que o assunto da RTP é o futebol.


 


Programas destas tipologias estão no topo dos mais vistos da semana em cada um destes canais. Uma análise mais fina permite perceber que a RTP 1 e 2 obtêm os seus melhores resultados na zona Centro do país, que é também onde a diferença entre a TVI e a SIC é menor. Em contrapartida é na zona de Lisboa que essa diferença é maior e é também em Lisboa que a RTP2 obtém o pior resultado, ficando em sétimo lugar, atrás de canais de cabo como a Disney, o Hollywood e a SIC Notícias.


 


“Bem Vindo a Beirais”, único programa de ficção da RTP que aparece na lista dos mais vistos da estação, surge em 14º lugar, uma posição modesta, apesar da qualidade – e características populares – do programa – o que pode ter a ver com os hábitos criados nos públicos que seguem a RTP, um canal quase sem ficção.


 


(Publicado dia 28 na revista Correio da Manhã TV)


 

junho 25, 2013

OS SALTA POCINHAS

Este romance dos candidatos autárquicos salta-pocinhas, que se apresentam como autarcas profissionais e querem passar de uma Câmara para outra independentemente do número de mandatos que levam no cartório, é um dos mais tristes episódios do nosso sistema político.


Mas não é só a situação em si que é caricata – quando o problema começou a surgir, aqui há uns meses, a Assembleia da República tinha tido oportunidade e tempo de corrigir ou esclarecer aquilo que houvesse a fazer em matéria legislativa, o que teria evitado o lavar de roupa suja entre tribunais e candidatos a que temos assistido. Deve aliás sublinhar-se que as maiores culpas de não se ter esclarecido esta situação no local competente, que era o Parlamento, vieram do PSD e do PS, que na altura sacudiram a água do capote e não quiseram pronunciar-se. O PS, previdentemente,  tem evitado apresentar candidatos salta-pocinhas mas o PSD não resistiu e, portanto, está cheio de problemas ainda por cima nas duas Câmaras politicamente mais significativas – Lisboa e Porto.


 


Eu, por princípio, sou contra a perpetuação de responsáveis de cargos políticos nos mesmos cargos e por isso até achei razoável que houvesse um limite de três mandatos. Acho uma cobardia política que, na altura devida, os deputados tenham fugido a pôr esta situação em pratos limpos – tanto mais que deixaram campo aberto para o que agora está a acontecer: face à mesma situação, vários tribunais decidem de maneira diferente e, nuns casos autorizam a candidatura de quem já tem três mandatos, noutros, não. Tudo isto contribui para desacreditar a política e os políticos, para confundir os eleitores – com eleições já marcadas não se saberá, de certeza certa, quem serão os candidatos em várias autarquias. Um triste espectáculo.


 


(Publicado no diário Metro de 25 de Junho)

junho 21, 2013

Negociatas ou negócios? Costa nomeia provedor dos animais...

PORTUGAL - Duas décadas de desvario vão custar-nos outro tanto tempo para recuperarmos de tudo aquilo em que nos deixámos enredar - seja a Europa, seja a inconsciência local. As PPP’s, de que tanto se fala, são um bom exemplo de fazer vista com dinheiro alheio, de comprar jóias a crédito que irão ter pouco uso. Hoje, já percebemos que é assim: endividámo-nos por soberba. Deixámo-nos, todos, cair na tentação. As PPP’s são o melhor retrato de um país que, mais do que de negócios, gosta de negociatas. Se olharmos bem para a nossa História vemos muitos negociantes, comerciantes espertos, vendedores de especiarias,  de volfrâmio, ou do gás natural que o Ministro do Canadá diz que vai extrair no Algarve. No fundo andamos todos à espera que saia um euromilhões ao país. Poucos são os empresários portugueses que preferem criar, inovar, desenvolver e fabricar, a comprar e a vender. O comércio está-nos na alma e é isso que lá vamos fazendo. O pior é quando vendemos o país ao desbarato ou quando vendemos ilusões uns aos outros. É o que tem acontecido, com a benção de Bruxelas e as negociatas à sombra dos partidos instalados. No Correio da Manhã, Paulo Pinto de Mascarenhas escreveu que PPP’s quer dizer “Portugueses Pagam Políticos”. Tudo indica que tem razão.




SEMANADA - A derrapagem nas PPP do sector rodoviário pode chegar aos nove mil milhões de euros; o Estado já assumiu mil milhões de euros em perdas com “swaps”; há mais de 12 milhões de indivíduos, no mundo inteiro, com um património superior a um milhão de dolares; segundo a Caritas, o risco de pobreza afecta 23,5% da população portuguesa; Silva Peneda, Presidente do Conselho Económico e Social, considerou, numa comissão parlamentar, que o cenário macroeconómico do orçamento rectificativo, já aprovado, é irrealista e sublinhou que o programa de ajustamento tem corrido mal; em 2012 mais de 120.000 portugueses abandonaram o país em busca de trabalho na emigração, mais 20% que no ano anterior; o poder de compra dos portugueses está 25% abaixo da média europeia; a emissão de Bilhetes de Tesouro registada esta semana foi emitida com juros mais altos que em Maio do ano passado; em termos de receitas, a Liga portuguesa de futebol está ao nível da Liga da Ucrânia; António Costa vai deixar de ter Helena Roseta como vereadora e passou-a para a Assembleia Municipal de Lisboa; António Costa designou o deputado do PS Fernando Medina como seu sucessor na Câmara Municipal; António Costa nomeou Mega Ferreira para a direcção da Orquestra Metropolitana de Lisboa; António Costa criou um novo cargo, Provedora do animal, e atribuíu-o à ex-deputada do PS Marta Rebelo;  por este andar qualquer dia António Costa pode anunciar que há um provedor das bicicletas; Cavaco Silva decidiu não desistir do processo contra Miguel Sousa Tavares por causa das analogias entre o Presidente e uma actividade circense.




ARCO DA VELHA - Na mesma semana em que Paulo Portas apresentou a sua moção de estratégia ao Congresso do PP, na qual defende a baixa do IRS ainda na actual legislatura, e em que vários digirientes do PP confessaram “profunda incomodidade” com os resultados do Governo, o Ministro Poiares Maduro considerou que a coligação do Governo “é muito coesa” e Passos Coelho afirmou não ter um calendário para a descida do IRS.

VER - Estava cheio de curiosidade em ver a nova Photographer’s Gallery, em Londres, no Soho, perto de Oxford Circus, que abriu, renovada, este ano. Data originalmente do início dos anos 70 e é,  como se diria aqui, uma iniciativa da sociedade civil, aliás de uma pessoa, Sue Davies - com apoios de diversas entidades, umas públicas, outras, mais numerosas, privadas, desde empresas de consultoria a empresas industriais. É uma daquelas coisas que não existe, por enquanto, em Portugal. Há galerias e espaços disto e daquilo, de umas marcas e de outras, mas não há muitos espaços de iniciativa privada que consigam reunir apoios institucionais diversos - e do próprio público que contribui - para se desenvolverem. Gostei muito da nova galeria, do seu espaço, de iniciativas como a “What Do You See?”, onde se pede para cada visitante que queira expressar o que sentiu a olhar para a única fotografia que está exposta naquela sala. De todas as exposições, e eram várias, a que mais me intertessou foi a de Chris Killip - “What Happened - Great Britain 1970-1990”, em que o autor retrata como era a vida em comunidades que estavam a passar pela desintegração da velha sociedade industrial.  Mas, lá como aqui, a fotografia é território de polémica, entre os que olham para a realidade e os que preferem a fantasia ou a manipulação da técnica. De qualquer forma, a verdade é que os vários lados desta história estão nesta galeria. (Ramillies Street 16-18)




 


FOLHEAR - Em boa companhia, estive uma hora na fila, uma hora a fazer horas para entrar, e um bocadinho mais de duas horas a visitar a exposição. Não me arrependo de um único segundo gasto nesse dia. Já antes, para prevenir o excesso de peso na bagagem de regresso, tinha encomendado, e recebido, o catálogo da exposição. Estou a falar de “David Bowie Is Here”, que até Agosto está no Victoria & Albert, cada vez mais um dos museus incontornáveis do Reino Unido. De maneira que quando voei para Londres, com Bowie na mira, já o tinha bem folheado em casa, e levava na cabeça a frase na dupla página do começo: “I opened doors that would have blocked their way, I braved their cause to guide, for little pay”. O catálogo tem um nome diferente da exposição, um pequeno jogo de palavras: "David Bowie is Inside" - são cerca de 300 páginas, editadas pelos curadores da exposição, e que, tanto quanto possível num livro, fazem justiça à exuberância visual e tecnológica que nos permite percorrer a carreira de Bowie, as suas manias, as suas obsessões, as suas paixões. No fim, um quase concerto, em surround, um momento de transição, antes de voltar à rua. A tecnologia, nesta exposição, é admirável e permite uma experiência única. Mas este livro, que se pode encomendar pela Amazon por 24 libras, permite-nos ter uma ideia de tudo o que se mostra no Victoria & Albert. E a mim vai-me servir de memória de um dia de descoberta.




OUVIR- Na vida de qualquer grupo rock e pop decente o primeiro disco deve ser bom, o segundo um desafio e, o terceiro, a redenção. “Modern Vampires Of The City”, o novo e terceiro álbum dos Vampire Weekend, encaixa-se que nem uma luva nesta descrição. Aqui está uma bela colecção de temas, alguns com arranjos e vocalizações inesperadas, a romper com os discos anteriores. Há boas canções, uns toques de ironia nas letras, poderia quase falar em rebeldia, mas mais não digo - desde que sei que o ex-Ministro da Defesa e da propaganda socrática, Santos Silva, está a investigar, numa Universidade onde pontifica, o movimento punk em Portugal, o qual considera pouco proletário, ando a pensar em desistir de escrever sobre música. Já me chegam as PPP nas estradas, escuso de me aborrecer mais com assuntos destes. Não é? Mudando de conversa, e para não enjoar, não perdem nada em ouvir este disco. Tem mesmo cantigas atrevidas.




PROVAR - Aviso já que hoje falo para carnívoros - vegetarianos e fanáticos de aquários podem abster-se. O assunto aqui é carne, de várias origens e com vários corte e temperos. O Talho é uma aventura de Kiko Martins e, se de um lado serve carne crua para levar para casa e cozinhar, do outro é um agradável e bem decorado restaurante, com uma espaço confortável (uma acústica perfeita), e boas surpresas na confecção de vários géneros de carne. Há um menu de almoço mais económico, há sempre uma proposta de hamburguer do mês - por estes dias é o hamburguer manjerico, com manjericão e parmesão. Num belo jantar o rosbife asiático marcou pontos, assim como a vitela maronesa. E o serviço também merece destaque. (Rua Carlos Testa 18, frente ao El Corte Ingles, é a rua que sai do Largo de S. Sebastião da Pedreira). Telefone 213 154 105.




DIXIT - “Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”, Bartoon, sobre a greve dos professores




GOSTO- Da inovação de uma rolha de cortiça de enroscar desenvolvida em Portugal pela Amorim.




NÃO GOSTO - Do surto de nomeações camarárias de António Costa.


BACK TO BASICS - Não sou obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos terá dado a razão e o intelecto se esqueceu de nos ensinar a utilizá-los - Galieleo Galilei

junho 18, 2013

BICICLETAS NOS PASSEIOS

Até há pouco tempo eu julgava que os passeios eram para peões e as faixas de rodagem para veículos. Lembro-me que, quando estudei o código da estrada, as bicicletas era consideradas veículos e não deviam andar em cima dos passeios. Pois constato que hoje isso é letra morta. Há poucos dias ía sendo atropelado por duas bicicletas que seguiam numa zona estreita de passeio, com andaimes, na Rua Castilho, ao fim da tarde. Não é a primeira vez que em passeios para peões, e fora das ciclovias, me cruzo com ciclistas que circulam com a convicção que os passeios são seus e que os peões se devem desviar.


 


Também não consigo compreender porque é que os ciclistas, em Lisboa, muitas vezes decidem não acatar a sinalização dos semáforos e passam os vermelhos, de preferência contornando-os pelas passadeiras para peões. Outra coisa que me faz espécie é que os ciclistas andem lado a lado na faixa de rodagem, condicionando todo o trânsito. Tudo isto são contravenções ao código da estrada – mas em nome do espírito politicamente correcto que se instalou para quem anda de bicicleta, o código da estrada pelos vistos deixou de ser aplicado. Esta é uma originalidade portuguesa. Lá fora não vejo isto – e vejo muito mais bicicletas a circular nas cidades do que aqui.


 


Os ciclistas andam nas faixas de rodagem ou nas suas zonas demarcadas, param nos sinais vermelhos e não andam por cima de passeios nem em passagens de peões. Não percebo porque é que em Portugal existe isto – e já imagino que os fanáticos das bicicletas se indisponham com o que aqui escrevi – mas na verdade não me agrada nada ir no passeio - e andar na rua a pé é uma coisa de que gosto - e ter que me desviar por causa de um ciclista.


 


O Dr. António Costa achará que isto é forma de tratar os peões lisboetas ou continua a fechar os olhos aos devotos do vereador Fernandes?


 


(publicado na edição do diário Metro de dia 18 de Junho)

junho 11, 2013

O DISCURSO DO PASSADO

Ouvi dizer que o Presidente da República está muito preocupado com o futuro e com o que o país deve fazer no pós-troika. Mas a verdade é que no seu discurso do 10 de Junho só o ouvi falar sobre o passado, como Portugal era maravilhoso e se transformou de forma tão inexcedível quando ele foi Primeiro-Ministro. Foi um discurso cínico, cruel. a justificar opções passadas que, em muito, nos conduziram onde estamos. Foi o elogio disfarçado e hipócrita de uma época em que Cavaco Silva optou pelo betão, pelo princípio do desvario nas obras públicas e se esqueceu de criar bases sustentadas de desenvolvimento. Cavaco, Primeiro-Ministro, entregou o país ao eixo franco-alemão que nos inundou de fundos para pagar o que nos roubava na agricultura e nas pescas. É de um cruel cinismo falar como ele falou. Se existiam dúvidas de que Portugal não merece ter um Presidente da República como ele, desvaneceram-se com o que Cavaco Silva disse neste 10 de Junho.


 


Quando daqui a uns anos se fizer a história verdadeira - não o embuste habilidoso dos discursos do 10 de Junho - ver-se-à quão nefastas foram as escolhas e opções estratégicas de Cavaco na governação e como foram perniciosas as suas opções no desencadear e evoluir dos momentos críticos da crise  - desde Sócrates até agora. Nessa altura poder-se-à perceber como os milhões que a Europa pagou a Portugal se destinaram apenas a iludir e distrair o pagode com estradas, enquanto uns quantos as construíam e outros íam fazendo negociatas à conta dos lugares que tinham ocupado na política. O maior legado de Cavaco, de que ele não fala, é o rol de casos pouco claros que envolvem gente da sua entourage e que continuam a ser o exemplo do pior que o regime tem para mostrar.




(Publicado no diário Metro de 11 de Junho)

junho 07, 2013

A COMPETITIVIDADE NAS MÃOS DO ESTADO

COMPETITIVIDADE - Para usar as palavras do engenheiro dos desenhos manhosos, o Governo está com uma narrativa complicada: o que prometeu não se concretiza, as previsões falham, as taxas de impostos aumentaram mas a cobrança é menor, e a dívida do país não pára de aumentar - até o PS já aparece a falar da eventualidade de um segundo resgate.  Pior que isso, no seio do Governo é cada vez mais evidente a clivagem - Gaspar continua a revelar a sua falta de bom senso em episódios como a nomeação da administração da CGD, há Ministros desaparecidos em combate e que não dão sinal de si e, de uma forma geral, os grandes dossiers prometidos para esta altura estão como este estranho Verão: incertos e frios. Mesmo as medidas anunciadas são tímidas e não atacam de frente as questões. O Governo olha para a crise e tenta pegas de cernelha mal sucedidas. O maior problema que se põe na captação do investimento não tem a ver com o Tribunal Constitucional e as suas decisões: tem a ver com as altas taxas de IRC comparadas com outros países europeus nossos concorrentes, com a instabilidade fiscal e os sucessivos agravamentos de toda a espécie de taxas e, finalmente, com uma justiça ineficiente e lentíssima que é um obstáculo à actividade das empresas e ao crescimento da economia. Estes três pontos - falta de competitividade no IRC, instabilidade fiscal e funcionamento da justiça - são todos da responsabilidade do Estado e constituem o maior e mais grave factor de perca de competitividade em Portugal. Mas nisto não vejo o Governo a tocar.




SEMANADA -  Gaspar falhou todos os timings de nomeação da nova administração da Caixa Geral de Depósitos; 23 mil empresas ficam indevidamente com o IRS retido aos seus funcionários; foram perdidos mais de cem mil empregos em três meses; em Abril, o número de casais em que ambos os cônjuges estão desempregados aumentou para 13.176, mais 67,3% do que em  2012; o PIB do primeiro trimestre caíu 4% em relação ao mesmo período do ano anterior e atingiu o valor mais baixo desde 2000; 51% dos valor corrigido no Orçamento Rectificativo deve-se ao agravamento da recessão e falha das previsões e não às decisões do Tribunal Constitucional; o orçamento rectificativo reviu em baixa todas as previsões de receita de imposto, com uma queda média de 4,5% face ao valor inicialmente previsto; o FMI admitiu “erros graves” nas suas decisões sobre a Grécia;  29 das 49 cadeias portuguesas estão sobrelotadas;  a Ordem dos Advogados decidiu não acatar uma decisão de um tribunal sobre os exames a estagiários; um barómetro de opinião divulgado esta semana mostra que os portugueses estão a perder confiança nas instituições governamentais, nos media e nas instituições não governamentais e apenas 36% dos inquiridos confia na Banca; os cinco maiores partidos portugueses têm menos de 300.000 militantes no seu conjunto, ou seja menos de 3% da população; os três maiores clubes de futebol portugueses têm, no seu conjunto, cerca de 380.000 sócios; Treinadores: no Porto foi-se embora o que venceu, no Benfica ficou o que perdeu.




ARCO DA VELHA - Dois policias que faziam uma prova para chefes, foram apanhados com cópias dos testes que iam fazer, mas foram perdoados e podem repetir a prova - os policias apanhados a cabular admitiram que tinham tido acesso prévio à prova e informaram que ela era do conhecimento de muitos dos candidatos, mas escusaram-se a revelar quem a facultou.




VER - Três recomendações bem diferentes: no Centro Cultural de Cascais, até 1 de Setembro, fotografias das grandes estrelas do cinema da época de ouro de Hollywood, que fazem parte da colecção de John Kobal. No Museu Berardo, no CCB, está até 27 de Outubro “O Consumo Feliz”, uma colecção de 350 imagens de cartazes publicitários  do acervo da agência  James Haworth & Company, uma das principais produtoras de publicidade do Reino Unido, com actividade iniciada por volta de 1900 e continuada até cerca de 1980. E finalmente, para uma coisa completamente diferente recomendo a exposição “Marco Aurélio And Friends - Sete Artistas Ulissiponenses”, em que destaco os trabalhos de Ana Fonseca, Conceição Abreu e Teresa Gonçalves Lobo. Tudo na Plataforma Revólver, Rua da Boavista 84, em Lisboa. No mesmo local, mas na VPF Cream Art, o destaque vai para o trabalho de Luis Alegre.




OUVIR- Aqui há uns anos existia uma designação, “bubble gum music”, para definir aqueles discos que se ouviam, eram muito doces de entrada, mas rapiudamente perdiam o sabor e o interesse e se deitavam fora a seguir. Pois bem, os discos dos The National são tudo menos isso. Ouvem-se com redobrado gosto vez após vez, em cada nova audição descobrem-se novas subtilezas nas letras, novos pormenores nas canções. “Trouble Will Find Me” é o título do sexto album


dos The National, e inclui a presença de convidados como Annie Clark of St. Vincent, Richard Reed Parry dos Arcade Fire ou Sufjan Stevens, e Sharon Van Ette. O primeiro single deste novo disco é “Demons”, exactamente uma dessas canções que cresce com o tempo - graças a uma percussão quase hipnótica, a um ritmo que nos agarra e a uma vocalização, de Matt Berninger, que só na aparência parece displicente e desinteressada, quando ele canta, como se estivesse apenasde passagem por ali palavras como estas:  “When I walk into a room I do not light it up.”  Não há muitas bandas hoje em dia que se possam gabar disto: de terem motivos de interesse nas letras, na música e nas vocalizações. Destaco ainda outros temas como a faixa de abertura  “I Should Live In Salt”, “Graceless”, “Slipped” ou ainda a canção que encerra o disco, “Hard To Find”, uma espécie de declaração de intenções em que Berninger promete não deixar de se questionar.  Uma das razões do sucesso dos The National tem a ver com a forma como as suas canções evocam histórias, casos, cenários ou pensamentos que acabam por ser comuns a toda uma geração e na qual muitos se revêem. Deixo-vos uma frase incontornável de “Slipped”, onde Matt Berninger escreveu e canta “I'm having trouble inside my skin, I'm trying to keep my skeleton in,”. Estas canções são sobre o poder dos sentimentos. E, por isso, deixam marca.




DESCOBRIR - Hoje proponho um magazine digital que tem por programa publicar uma boa história por dia. É isso mesmo que tem acontecido, desde há uma semana, em www.carrosselmag.com ou facebook.com/carrosselmagazine. No projecto está uma equipa pequena mas criativa que inclui os fundadores Joana Stichini Vilela, (a autora do livro “Lx60 – A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma”), e Bruno Faria Lopes. A bordo estão outros jornalistas da sua geração e com provas dadas, mas também uma agência de produção digital, a Gomo, e uma agência de comunicação, a iupi. O resultado tem sido bom de seguir todos os dias e tem revelado empresários criativos, tendências geracionais como voltar ao campo, reportagens de concertos, portfolios de fotografia, novas formas de agitação política em Barcelona e até a verdadeira história dos hamburgueres do Honorato ou a experiência de um “ghostwriter” a contar a história de outra pessoa. Ir ao Carrossel passou a fazer parte da minha lista diária de leituras.





PROVAR - O restaurante “Sabor & Arte” fica no Páteo Bagatela e neste tímido Verão proporciona uma boa esplanada, além de uma ampla sala interior. A ementa é baseada na cozinha portuguesa e ali se encontram honestos e frescos linguados dourados com arroz de tomate, ou um bife de boa qualidade - mas nesta altura do ano quem fôr pelas sardinhas não ficará desiludido e os filetes com salada podem ser também uma boa alternativa. Menos português mas igualmente interessante é o ossobuco à Romana. Os preços são razoáveis, o serviço é simpático, vê-se sempre alguém conhecido. A lista é variada, os vinhos têm boas propostas correntes e  a esplanada é mesmo muito agradável. Fica na Rua Arilharia 1 nº51 e o telefone é 213865390.




DIXIT - Vitor Gaspar foi útil para o Governo numa fase, mas agora é bastante inútil - Marcelo Rebelo de Sousa




GOSTO - Do prémio Leão de Ouro, na Bienal de Veneza, atribuído a Angola, para a melhor representação nacional, pelo trabalho do fotógrafo Edson Chagas.




NÃO GOSTO - Existem 24 mil idosos em Portugal a viver em lares clandestinos



BACK TO BASICS - A grande diferença entre uma democracia e uma ditadura é que, na democracia, primeiro votamos e depois obedecemos a ordens, enquanto que numa ditadura não se perde tempo a votar - Charles Bukowsky




(Publicado no Jornal de Negócios de 7 de Junho)

junho 04, 2013

O SEU A SEU DONO

Estamos, como país, a apertar o cinto de uma maneira terrível – melhor dizendo, os cidadãos apertam o cinto muito para além do que há dois ou três ano imaginaram que iria suceder; mas isto não impede que a dívida portuguesa continue a aumentar, que o Estado continue a gastar mais do que devia e que a nossa situação geral não esteja a melhorar – na realidade alguns indicadores mostram que está a piorar. As sucessivas previsões de receita fiscal revelam-se enormes falhanços, porque o consumo é cada vez menor, porque há menos empregados a contribuir, porque há mais empresas a falir. 


 


Ao mesmo tempo que a receita fiscal desce, os custos com o desemprego sobem – uma coisa é consequência da outra. A economia portuguesa, destruída de forma metódica – na pesca, na agricultura e na indústria -  graças a incentivos europeus ao longo dos últimos 25 anos,  continua a ser o sector mais subalternizado pela acção governativa. O nosso sistema fiscal é uma roleta russa – e os investidores que criam emprego e riqueza geralmente não são fãs de encostar uma pistola à cabeça. A nossa taxa de IRC é por si só um obstáculo à captação de investimento, por mais esforços de diplomacia económica que existam.


 


O Governo diz que quer captar investimento, mas as medidas que toma são marginais e não atacam o fundo do problema: um sistema fiscal com valores nada competitivos em termos europeus , um sistema fiscal que muda todos os seis meses e que não garante a estabilidade mínima que os investidores procuram, uma justiça lentíssima que é também um obstáculo à actividade das empresas – por si só estes três pontos constituem o maior e mais grave factor de perca de competitividade da economia portuguesa – e são todos da exclusiva responsabilidade do Estado.


 


(Publicado na edição de dia 4 de Junho do diário METRO)

maio 31, 2013

DESABAFOS, JAMIE CULLUM, UM CONTO, UMA REVISTA

DESABAFO - Não sei bem que vos diga. A OCDE olha para as previsões que a troika obrigou o Governo a assumir, comenta o assunto com desprezo e ouve-se um sibilino  “ni hablar”. Por todo o lado vejo anúncios de greves e constato que o novo lider da UGT se deixou cair na tentação de deixar de ter agenda e posição própria. Por estes dias decorre uma reunião de esquerdas cujo programa é evitar qualquer mudança - e dou comigo a concordar com um texto de Henrique Monteiro, no site do Expresso, onde ele elabora sobre o conservadorismo de uma esquerda que se preocupa mais com a própria defesa do que em olhar para os desprotegidos da sociedade. Um pouco à frente leio que os professores vão fazer greve no dia dos exames, e pergunto-me se não lhes ocorre que estão a desprezar os alunos. No Governo vou vendo que Passos Coelho vai metendo umas discretas farpas em Vitor Gaspar a propósito da CGD e do prazo de cumprimento da meta do défice, e sinto um ruidoso mar de silêncio da maioria do elenco do executivo, como se eles próprios tivessem já baixado os braços. Se olhar para a acção do Governo nestes meses vejo um rasto de destruição, mas muito poucos sinais de alguma coisa nova construída. Falo com pessoas de várias gerações que não encontram rumo, nem perspectiva, nem - e isto é o pior - vontade de ter confiança. Um amigo meu dizia-me há dias que a única luz ao fundo do túnel é a de uma locomotiva alemã que nos vai passar por cima. Começa a ser difícil não concordar com ele.




SEMANADA - No Porto e em Lisboa os respectivos Metros perdem dois milhões de passageiros por mês; em 2012 os transportes públicos perderam 45 milhões de passageiros; a polícia facturou este ano, até Maio, menos 1,3 milhões de euros em multas, comparado com o mesmo período do ano passado; em 2012 mais de metade dos contribuintes não pagaram IRS e apenas 26% das empresas pagaram IRC; um quinto dos contribuintes suporta mais de 70% das receitas do IRS; no presente ano lectivo 279 cursos superiores tiveram menos de 20 inscritos; o Museu do Brinquedo em Sintra, que conta com 60 mil peças, está em risco de fechar; a dívida pública portuguesa detida pelos bancos cresceu 250% entre 2009 e início de 2012; a TVI afirma ter perdido oito milhões de euros devido aos resultados, que contesta desde o início, do painel de audiências criado pela GFK em 2012; registos de compra de casa caíram 74% desde 2009 ; em Lisboa há 2000 pessoas que dormem na rua;  PS somou 20 mil novos militantes nos últimos dois anos; as instâncias europeias deram mais um ano a Portugal para atingir a meta do défice, mas deram mais dois anos à França, Espanha, Polónia e Eslovénia; François Hollande disse que não será a Comissão Europeia a ditar à França o que o país deve fazer; a OCDE considerou "improváveis" as metas orçamentais portuguesas para 2013 e 2014 acordadas com a troika.




ARCO DA VELHA - Em Vinhais uma professora foi acusada de morder um aluno de sete anos “para mostrar como dói”, depois de a criança ter mordido um colega.

VER - Na galeria João Esteves de Oliveira estão por estes dias dois autores, Jorge Nesbitt e Ângela Dias sob o título “Dois Em Um”. Nesbitt abandona aqui o rumo dos seus trabalhos anteriores e apresenta guaches, simples, a lembrar exercícios de formas e cores, com algo de oriental. Ângela Dias faz desenhos em que se desenrolam pequenas histórias e as obras que expõe são baseadas na combinação da escrita com a imagem, palavras desenhadas em torno de figuras, folhas que evocam páginas de cadernos ou de um diário, graficamente muito apuradas, envolventes e algo misteriosas - num contraste com desenhos de maiores dimensões que parecem anunciar personagens recorrentes das histórias desenhadas. Até 28 de Junho, de terça a sábado, na Rua Ivens 38.




OUVIR- Jamie Cullum deixou-se de citar os clássicos do jazz vocal e, ao sexto álbum, fez o seu disco mais atrevido - e interessante: “Momentum”. Ouso dizer que isto é um trabalho pop, como era o jazz que se dançava e enchia as noites de ritmo. Aqui estão truques dos melhores cancioneiros da música popular, com recurso às sonoridades dos velhos sintetizadores. Tudo isto é particularmente saliente na sua versão de um clássico de Cole Porter, “Love For Sale”, onde introduz  um espírito funk com toques de hip hop, que aliás aproveita bem um sample da voz de Roots Manuya, tudo pontuado pelo solo do próprio Collum num Fender Rhodes. Destaco ainda temas como o “The Same Things”, a faixa de abertura cheia de sonoridades de Nova Orleãs ou o intenso  e , digo eu, esmagador “Edge of Something” onde vale a pena ouvir com atenção os pormenores da percussão. “Anyway” e “Take Me Out (Of Myself) são mais dois temas pop perfeitos - já para não falar de uma balada arrasadora que dá pelo nome de “Save Your Soul”. CD Island/Universal.




FOLHEAR - A edição de Junho da “Vanity Fair” traz Bradd Pitt na capa, a propósito da aventura de 200 milhões de dolares que foi fazer o seu novo filme “World War Z”. que ele andou a preparar e a produzir desde 2006. Se contarmos com os custos de pós-produção e marketing o filme precisa de facturar 400 milhões de dolares no mundo inteiro para fazer break-even. Fazendo jus à fama de ter os melhores jornalistas de negócios a contarem histórias de dinheiro nas suas páginas, esta Vanity Fair conta a épica aventura da venda do Instagram ao Facebook, mas o prato forte é a história dos feitos de Steve Cohen, o fundador do hedge fund de 14 mil milhões de dolares SAC Capital e a forma como está a ser investigado pelo procurador Preet Bharara que se tem dedicado, com sucesso e várias detenções no activo, a casos de inside trading ao longo dos últimos sete anos. Um ponto de situação sobre a vida de Carla Bruni fora do Palácio do Eliseu e uma investigação sobre a noite em que Oscar Pistorius disparou sobre a sua namorada completam esta bela edição da “Vanity Fair”.




LER - Duas mulheres ao telefone, durante duas horas seguidas, falam de quê? A resposta está em “Quando A Chuva Parar”, de Joana Pereira da Silva, uma argumentista que se estreia neste formato de pequeno conto, numa nova colecção, com livros de menos de cem páginas, e que se destina a ser lida nas deslocações diárias. Se alguma vez sentiu desejo de ser mosca para ouvir uma conversa solta entre duas amigas, aqui está a forma de resolver essa vontadinha. Maria e Teresa desbobinam as suas memórias de juventude numa conversa que decorre enquanto Maria vem de carro, numa noite chuvosa, do Porto para Lisboa, depois de uma discussão com o marido. A escrita tem ritmo, imagina-se com facilidade duas actrizes a representar a situação. A ideia desta colecção é muito engraçada - livros que se lêem depressa, e a ideia deste livro em particular ainda é mais sedutora: espreitarmos uma conversa. A colecção chama-se “poucas palavras GRANDE FICÇÃO” e tem a chancela da Guerra e Paz.





PROVAR - Decididamente estou a fazer revisão da matéria dada - num regresso ao “Apuradinho”, em Campolide, tirei a barriga de misérias com um dos meus petiscos preferidos: pivetes. Para quem não sabe, pivetes são os bocados de rabo de boi, devidamente cozinhados, estufados. No “Apuradinho” pode pedi-los com osso ou desossados, só com a carne a navegar no molho, saborosíssimo. Para a mesa vem um tachinho com os pivetes , acompanhados por puré de batata caseiro. A combinação é fantástica e é um verdadeiro exemplo da arte culinária ribatejana - já que o petisco se fez gente por lá. O “Apuradinho” fica na Rua de Campolide 209 e tem o telefone 213 880 501. Na minha lista de preferências desta casa estão também as iscas e os pastéis de bacalhau - daqueles de chorar por mais, acabadinhos de fazer, acompanhados por arroz solto de tomate.



DIXIT - «Às vezes acordo e constato que vivo num país onde o primeiro-ministro é Passos Coelho, o candidato à sua substituição é António José Seguro e o Presidente da República é Cavaco Silva. Só pode ser um pesadelo” - Miguel Sousa Tavares, no “Expresso”.




GOSTO- Da actuação do Secretário de Estado do Turismo, a facilitar o acesso às actividades merítimo-portuárias para combater a sazonalidade da procura turística no litoral.




NÃO GOSTO - Da reacção da Presidência da República a uma entrevista de Miguel Sousa Tavares, indo fazer queixinhas à Procuradoria Geral da República.




BACK TO BASICS - Devemos perdoar sempre aos nossos inimigos, isso é o que mais os irrita - Oscar Wilde

maio 28, 2013

NO REINO DAS EXPERIÊNCIAS

Quando olho para a actividade do principal partido do Governo e para a do principal partido da oposição tenho a estranha sensação que os respectivos líderes se esqueceram de que o seu trabalho devia ser desenvolver políticas e discutir política. Em vez disso vou assistindo a umas discussões, muitas vezes bizantinas, um a dizer que tem de se fazer, o outro a dizer que não se pode fazer. Estes dois líderes são hábeis na resposta, prolixos na guerrinha de soundbytes, mas muito fraquinhos na construção de políticas – o que, necessariamente passa pela construção de acordos e de pontes. Fico com a sensação que os dois, Passos e Seguro, preferem a intriga palaciana para a manutenção do poder ao exercício de facto da acção política, no sentido da resolução dos problemas e da construção de soluções.


 


É desesperante ver como estes políticos dos dois maiores partidos preferem escudar-se atrás de receitas, do que pensarem um pouco na realidade e construírem propostas objectivas a partir de dados objectivos. O desfasamento que ambos mostram frente à realidade das pessoas e do país é confrangedor – um porque acha que a solução está em evitar a mudança, o outro porque segue instruções para uma mudança tão rápida e tão grande que qualquer dia acaba com as pessoas. A actividade política é suposta evitar situações destas, não é suposta proteger experiências ditadas sabe-se lá de onde. Por estes dias Rui Zink postou no Facebook uma frase que resume na perfeição a situação que vivemos: “Povo, à beira-mar plantado, e bem amestrado, aluga-se para experiências científicas. Sigilo assegurado.”


 


(Publicado no diário Metro de 28 de Maio)

maio 24, 2013

Qual a relação entre 10 milhões de euros, o MUDE e o Pavilhão de Portugal?

MUDE - O Museu do Design e da Moda, MUDE, tem tido uma actividade assinalável, fruto da equipa dirigida por Bárbara Coutinho, que soube bem exponenciar o núcleo inicial da Colecção Capelo, assegurado ainda antes de António Costa ser Presidente da Câmara. A António Costa coube a instalação do MUDE no antigo edifício sede do Banco Nacional Ultramarino, na Rua Augusta - o edifício estava em péssimas condições e foi assumidamente usado “em bruto” pelo MUDE, com intervenções mínimas, fruto de um acordo entre a Câmara e a CGD, que detinha o imóvel. Por estes dias António Costa anunciou ir investir dez milhões de euros na reabilitação do edifício, num projeto que irá ampliar a área do Museu para os oito pisos do edifício, num total de 15 mil metros quadrados. Eu percebo que António Costa queira desenvolver o que começou, em plena baixa da cidade. Mas não deixo de sentir alguma estranheza por não se ter aproveitado esta oportunidade - e este investimento - para resolver a questão do Pavilhão de Portugal - questão que ainda fica mais saliente agora que passam 15 anos sobre a realização da EXPO. Faz pena que o edifício de Siza Vieira, concebido para ser um local de acolhimento de exposições, com características ideais para isso, e com infra estruturas de armazenamento de obras de arte, esteja praticamente abandonado e a degradar-se. A questão que se põe é a de ter abertura de espírito suficiente para equacionar fazer reviver o edifício com uma colecção e actividade como a do MUDE, fomentando as ligações à indústria e à universidade, e enriquecendo o pólo oriental da cidade. Os dez milhões para recuperar o edifício do BNU não poderiam ser melhor utilizados para dar uma utilidade consentânea com o projecto inicial do pavilhão de Portugal? Nunca é tarde para mudar de rumo. Bem sei que o problema central da não utilização do pavilhão de Portugal é saber quem assume o custo do edifício - mas será que um problema de engenharia financeira do Estado vai condenar à degradação e inutilidade aquele espaço?




SEMANADA - O Conselho de Estado, convocado para debater o futuro, esteve sete horas reunido e produziu um comunicado que é uma lista de tarefas para o presente; o pós-troika no pós-Conselho de Estado resume-se a análises sobre timing de remodelação no Governo, saída de Vitor Gaspar para Comissário Europeu e prazo para a ruptura da coligação; o conteúdo da reunião do Conselho de Estado foi tornado público nos jornais no espaço de 24 horas, e contribuíu, muito mais do que o vago comunicado oficial, para se perceber o que foi discutido; o banco central alemão deu orientações sobre o Banco Central Europeu e sobre a política do Governo francês; entre a chegada da troika e a sua partida prevista,  o desemprego deverá ter aumentado 60,9%, o PIB deverá encolher 5,8%, o investimento cairá 28,3% e o consumo privado cairá 6,7% - mas em compensação a dívida pública terá aumentado 24% e os juros da dívida terão um aujmento de 47,7%; Portugal está no top 5 europeu na compra de BMW, Mercedes e Audi; o ministro alemão das Finanças encontrou-se com Vitor Gaspar e teceu-lhe rasgados elogios; o Ministro Miguel Poiares Maduro encomendou um estudo sobre a melhoria das formas de comunicação do Governo e exortou “a comunidade política a contribuir para um discurso público mais construtivo e informado”.




ARCO DA VELHA - O Estoril teve 45 pontos na Liga e gastou três milhões de euros nesta época, enquanto o Sporting ficou atrás, com 42 pontos, e gastou 68 milhões - feitas as contas cada ponto custou ao Estoril 67 mil euros e cada ponto custou ao Sporting 1,6 milhões, o mais elevado custo por ponto de todos os clubes da I Liga.




VER - António Sena da Silva foi um homem visual - o prazer do olhar era o seu modo de vida e isso reflectiu-se, do design à fotografia. No Torreão Nascente da Cordoaria, estão cerca de duas centenas de imagens numa exposição criada por Sérgio Mah, intitulada “Uma Antologia Fotográfica”, que estará patente até 4 de Agosto. Tenho a tentação de dizer que Sena da Silva foi aquilo a que os americanos chamam “street photographer” - até porque, como a exposição mostra, ele dedicou-se a retratar a evolução de Lisboa entre os anos 50 e os anos 70. Aqui está o quotidiano da cidade, das pessoas que a habitam e, quase sempre, do rio que nessa altura era uma presença não vista, nem vivida. A exposição ocupa completamente os dois pisos da Cordoaria e mostra várias fases do trabalho de Sena da Silva - formatos de negativo diferentes, máquinas diversas, um uso impoluto do preto e branco e um uso discreto e contido da côr. O rigor do enquadramento é uma constante, quer fotografe paisagens urbanas, ou o campo, ou máquinas, ou fábricas ou objectos. Esta é uma exposição que nos ajuda a reter a memória do tempo - e o trabalho de Sérgio Mah é um exemplo de respeito pela obra, um exemplo do prazer de dar a descobrir o encanto da imagem fotográfica.




OUVIR- Até aqui “The Heart Of The Matter” era uma novela discreta de Graham Greene, escrita no final da década de 40. Agora é também um disco de Jane Monheit em que a sua versão da fusão de duas canções dos Beatles, “The Long And Winding Road” e “Golden Slumbers”, se torna fatalmente um ponto de atracção. Mas é em “Born To Be Blue” de Mel Tormé ,ou “When She Loved Me” de Randy Newman, que ela verdadeiramente mostra a sua versatilidade e capacidade de interpretação - que se faz ainda notar em dois temas de Ivan Lins, “Depende de Nós” e “A Gente Merece Ser Feliz”. Em “The Two Lonely People”, de Bill Evans, Monheit mostra como não receia mostrar a voz quase sem presença instrumental, uma voz às vezes tímida, outra à beira de um lamento. Os arranjos, no entanto, são parte importante deste álbum, assinados pelo teclista Gil Goldstein, que com o baterista Rick Montalbano e o guitarrista Romero Lubambo, asseguram um suporte musical digno de destaque. (CD Emarcy/Universal).




FOLHEAR - O jornal “Próximo Futuro” é uma das mais interessantes publicações de instituições culturais. É um jornal que a Gulbenkian edita para acompanhar o seu programa “Próximo Futuro”, coordenado por António Pinto Ribeiro. São 40 páginas, distribuídas na Fundação e disponíveis em versão electrónica em www.proximofuturo.gulbenkian.pt . A edição agora em distribuição, a nº 13,  anuncia o novo ciclo de programação de Junho e Julho e tem na capa uma obra impressionante do artista sul-africano Conrad Botes. Lá dentro um belo texto de António Pinto Ribeiro com o provocador título : “Lamento dizer-vos mas somos todos africanos”, citando a frase de abertura da intervenção de Desmond Tutu na Gulbenkian, no ano passado. A nova programação tem em destaque uma festa da Literatura e do Pensamento do Sul da África, a exposição dos Encontros de fotografia de Bamako, um ciclo de cinema com uma dúzia de filmes e bailes na garagem com, por exemplo, o DJ Rui Miguel Abreu. Além disso estão previstos concertos com música da Tanzânia e uma espectáculo de dança baseado na marrabenta, entre muitas outras iniciativas, todas elas bem anunciadas neste jornal que tem um delicio espírito “fanzine” em technicolor.




PROVAR - A ementa de um bom restaurante deve ser uma obra em permanente transformação. No De Castro Elias é isso que acontece e agora há algumas novidades: começo por umas chamuças de massa filo, umas com queijo da beira e mel, outras com alheira e espinafres. Para fazer crescer água na boca há umas tostadas de cavala fumada com legumes salteados e uma açorda de cogumelos e enchidos. Nos pratos mais substanciais sugiro um entrecosto assado com arroz de forno ou uma perna de pato com canela e azeitona. Seguindo a recomendação da casa os petiscos foram acompanhados por um muito honesto vinho  Santos Lima, o “Confidencial” Reserva, a bom preço. E claro que há sempre os clássicos da casa - moelas picantes e feijão manteiga com ameijoas.  O De Castro Elias fica na Elias Garcia 180, e tem o telefone 217 979 214. Vale a pena reservar.




DIXIT - “Perante as sucessivas medidas da troika, que não dão resultado, eu, no mínimo, gritava” - Manuela Ferreira Leite




GOSTO - Do início da edição portuguesa da revista “Granta” - o tema “Eu” foi o escolhido para o primeiro número, que inclui textos de vários autores e um porfolio fotográfico de Daniel Blaufuks. A direcção é de Carlos Vaz Marques.


NÃO GOSTO - De uma  luta anti-austeridade conduzida por quem andou a promover gastos bem acima das possibilidades do país.


BACK TO BASICS - O riso é a mais antiga e mais terrível forma de crítica - Eça de Queiroz.

maio 21, 2013

A JUNTA MÉDICA DE BELÉM

O pós troika inicia-se em Junho do próximo ano, antes da conclusão da atual legislatura. Mas pelos vistos o Conselho de Estado, que vai decorrer poucas horas depois do momento em que escrevo estas linhas, na tarde de segunda-feira 20, debaterá a situação política geral dessa altura futura, em vez da situação do presente. É mais uma originalidade do processo. Há quem diga que a lógica de discutir o futuro tem a ver com a convicção, mais ou menos generalizada, que daqui a um ano, mais coisa menos coisa, já não será Pedro Passos Coelho o Primeiro-Ministro. Nunca fui grande fã de crónicas de mortes políticas anunciadas – que geralmente nunca são certeiras. E parece-me que era bem melhor ter a coragem de olhar para o que se passa. Esta é daquelas situações em que mais vale a pena falar da dor de dentes que temos agora do que da gangrena que, se calhar, pode existir daqui a um ano.


 


O Presidente da República faz malabarismos para, em simultâneo, se ir demarcado das políticas de Gaspar, para se manter sorridente a Paulo Portas, e para continuar a poder cavaquear com Seguro. É um equilíbrio difícil, este de manter pontes entre o presente e o futuro.  Este Conselho de Estado, que para uns vem tarde e que para outras vem com a ordem de trabalhos trocada, é mais um passo no imbróglio existente. A situação política está como a malfadada pneumonia que anda para aí: os remédios corriqueiros não a debelam e é preciso doses maciças de remédios muito fortes para amainar os sintomas. O ponto curioso disto tudo é saber se os doutores que se sentaram em Belém terão conseguido encontrar remédio que cure o paciente ou se optaram apenas por anestésicos e sonoríferos.


 


(publicado no diário Metro de terça  21 de Maio)


 

maio 17, 2013

CONCORRÊNCIA INFORMATIVA

Esta semana fui ver como se comportam os três canais informativos nas várias regiões do país, dentro dos espectadores qie têm televisão por subscrição e que são sensivelmente 2/3 do total. A nível nacional a SIC Notícias lidera estes canais informativos na sexta posição, seguida da TVI 24 na nona posição e da RTP Informação na 12ª. Na zona da Grande Lisboa a coisa é bem diferente – a SIC Notícias está em 5º lugar, a TVI 24 em 10º e a RTP Informação em 14ª. O melhor resultado da SIC Notícias é na zona sul, na quarta posição – a RTP Informação nem aparece nos 15 primeiros nesta região e a TVI 24 está na 8ª posição. A única região em que a TVI 24 consegue bater a SIC Notícias é a zona Centro, onde se coloca na 5ª posição, seguida da SIC Notícias na sexta posição e da RTP Informação na 13ª. Finalmente na zona norte a SIC Notícias aparece em 8º lugar, a TVI 24 em 9º e a RTP Informação em 12º. Na maior parte das regiões as preferências, excluindo os informativos e os generalistas, vão para o Hollywood, o Panda e o Disney Channel.


 


(Publicado dia 17 de Maio na revista Correio da manhã TV)

maio 14, 2013

O PECADO ORIGINAL

Qual a razão da recorrente instabilidade política a que se assiste em Portugal, ao clima, repetido em vários mandatos e com vários protagonistas, de desconfiança entre o Presidente da República e os Governos?  O novo livro de Pedro Santana Lopes chama-se “O Pecado Original” , dedica-se a analisar o choque constitucional entre Belém e São Bento ao longo dos anos e faz uma retrospetiva de como os vários Presidentes da República têm exercido os seus poderes. “O sistema de Governo da Constituição Portuguesa depende do discernimento de um homem só”– diz o autor, sublinhando que o Parlamento e o Governo dependem do Presidente da República e que “a Assembleia da República não dispõe de autoridade política equivalente, apesar de igualmente eleita por sufrágio direto e universal”. O resultado é que o sistema favorece “ um Presidente da República «que tome conta disto» ou «que deite isto abaixo», quando fôr o caso”.


 


Em jeito de conclusão, Santana Lopes escreve: “Importa clarificar o sistema semipresidencial: ou governa o Presidente (como em França), ou governa o Primeiro Ministro. Se é para o presidente governar, deve presidir ao Conselho de Ministros. Se não é, e se é o Governo que governa, a oposição deve estar – no que ao Estado respeita – no Parlamento. Nesse caso o Presidente só deve poder dissolver o Parlamento nas situações expressamente previstas na Constituição, deixando esse poder de ser discricionário”.


 


Isto quer dizer retirar do Presidente a capacidade de ser ele próprio oposição e a possibilidade que tem de demitir o Governo “para assegurar o normal funcionamento das instituições democráticas” – pretexto suficientemente amplo e que tem sido utilizado de forma discricionária. A polémica está lançada. E bem lançada.


 


(Publicado no diário Metro de dia 14 de Maio)

maio 11, 2013

Audiências, músicas, livros, anotações soltas

AUDIÊNCIAS -  Um dia se fará a história deste processo, a história de como se aumentou artificialmente o consumo de televisão, de como se aumentou o número de resultados indefinidos e se criaram distorções no mercado, como se fomentou a ruptura, como se pôs em causa a auto-regulação. Esta semana a RTP e a TVI deixaram a CAEM, a entidade que superintende na medição de audiências. Na origem estão todos os problemas com a audimetria da GFK. Vale a pena não esquecer quem desenhou e impulsionou o actual e polémico modelo, na altura em que o concurso para a nova audimetria foi lançado. Vale a pena não apagar a memória do que foi este processo, do papel desempenhado por cada protagonista, das divisões que provocou, dos erros causados e, eventualmente, dos prejuízos provocados. Teria sido possível encontrar equilíbrios entre a GFK e a Marktest e teria sido possível evitar a saída da RTP e TVI se tivesse havido mais bom senso. Para memória futura vejamos as diferenças verificadas na medição de audiências de televisão no primeiro trimestre deste ano. No painel da CAEM/GFK, a RTP1 obteve 12% de share, a RTP2 teve2,7, a SIC atingiu 23,2 e a TVI 25,7, enquanto o conjunto dos canais de cabo alcançou 24,9% e o conjunto de “outros” não identificados teve 11,5%. Mas no painel da Marktest/Kantar os números são um pouco diferentes: 16,6% para a RTP1, 2,2% para a RTP2, 23% para a SIC e 27,5% para a TVI, enquanto o cabo ficou nos 25% e os “outros” não identificados em apenas 5,8%. Como se vê persistem as diferenças, com sobrevalorização na CAEM/GFK dos não identificados, e diferenças, para menos,  na RTP1 (4,6%) e TVI (2,5%). Esta semana foi eleita nova direcção para a CAEM, espera-se que seja capaz de voltar a colocar o processo nos carris. E que volte a imperar o bom senso e se corrijam as anormalidades técnicas que persistem em existir.




SEMANADA - Passos Coelho anuncia várias novas medidas; Paulo Portas convoca imprensa para comunicação; Passos Coelho diz que Portas participou ativamente na elaboração das medidas; Paulo Portas vem dizer que foi e será sempre contra uma das medidas anunciadas; na sua crónica na SIC Marques Mendes afirmou saber que vai ser convocado a curto prazo o Conselho de Estado; Aguiar Branco, Ministro da Defesa, disse que o Governo está coeso e que o CDS está tranquilo; Fernando Seara disse que Paulo Portas assumiu uma posição muito respeitada em defesa dos pensionistas; o Ministro Poiares Maduro disse, na sua primeira entrevista, não ver na taxa suplementar sobre os pensionistas, divergência entre Passos Coelho e Paulo Portas; Pedro Passos Coelho disse à UGT que afinal não haverá nova taxa sobre os pensionistas; o novo secretário de Estado do Desporto decidiu, dez dias depois de tomar posse, conceder benefícios fiscais a quem der donativos ao clube de que é sócio, o Vitória de Guimarães;




ARCO DA VELHA - Angela Merkel confessou, numa entrevista, que tem “certas capacidades de camelo” que lhe fazem aumentar a resistência, disse-se atraída por homens “de olhos bonitos” e admitiu que um dos seus desejos secretos é cortar lenha.

VER - Muita actividade na Gulbenkian, justifica-se passar lá algum tempo. Para além da exposição documental sobre a vida e a obra da escritora Clarice Lispector, “A Hora da Estrela”, destaque para a mostra de cerca de duas centenas de desenhos que integram “A Obra Perdida de Emmerico Nunes”, um desenhador e ilustrador português que publicou quase toda a sua obra em revistas alemãs, nas décadas de 10 e 20 do século passado - com um traço fino, de humor e de observação. Além disso, o Centro de Arte Moderna apresenta  “Gálapagos”, o resultado de uma residência artística ali realizada, patrocinada pela Fundação em parecria com a Fundação Charles Darwin e o Museu de História Natural de Londres. E finalmente vale a pena ver “360º - Ciência Descoberta”,   uma exposição sobre a ciência ibérica na época dos descobrimentos, que apresenta os desenvolvimentos científicos e técnicos associados às grandes viagens oceânicas de Portugueses e Espanhóis nos séculos XV e XVI, e o impacto que causaram na ciência europeia. Por fim, se quiser petiscar tem ali ao lado a Cafetaria do Centro de Arte Moderna, que está com uma nova dinâmica - que se nota aliás no Facebook.




OUVIR- “O Grande Medo do Pequeno Mundo” é o terceiro álbum de Samuel Úria e começa logo assim: “Duplas Falsas Partidas/São motins contra quem/ Usa pólvora seca/ Para fazer-nos correr”. Úria é dos casos mais interessantes, surgidos nos últimos anos, a escrever canções em português e as suas letras são um exemplo do que a nossa língua permite fazer - falando de temas actuais, de estados de espírito, com ritmo, com sonoridade. Às vezes conta histórias, noutras deixa recados. A sua voz molda-se bem com as palavras e o seu caminho musical vai ficando mais coerente com a forma de cantar as palavras que usa. Confesso que gostava de ouvir outros cantores interpretarem algumas destas canções e também gostava de ouvir Úria, por exemplo, a cantar versões de alguns temas de Sérgio Godinho. Uma coisa é certa: não há, fora do fado,muita gente a percorrer, com esta qualidade e consistência, os caminhos das novas canções cantadas em português. Podia ser melhor, é imperfeito q.b. Mas isso abre a possibilidade de um dia destes conseguir dar o salto. Falta-lhe método e produção - o que, esclareça-se, não deve querer dizer complicação e sim contenção e força.




FOLHEAR - A Madeira foi das primeiras regiões do país onde a fotografia se desenvolveu, praticamente desde a sua descoberta, na primeira metade do século XIX - e isto pela mão fundamentalmente de dois estúdios: Vicentes Photographos e Perestrellos Photographos, a que rapidamente se adicionaram João Francisco Camacho, Augusto Maria Camacho , Augusto César dos Santos e Joaquim Augusto de Sousa. O mais notável é a qualidade do trabalho - estético e técnico - da maioria do trabalho destes fotógrafos madeirenses. Em 1982, nasce “A Photographia- Museu Vicentes”, na casa onde estava instalado o estúdio do mesmo nome. Hoje em dia estão lá depositados e conservados cerca de 800 mil negativos que são um testemunho da vida do arquipélado durante mais de uma centena de anos, desde meados do século XIX. Por iniciativa da delegação regional da Madeira da Ordem dos Economistas foi editado um livro intitulado “As Origens do Turismo Madeirense- Quintas e Hotéis do acervo da Photographia Museu Vicentes”. É um álbum fascinante e ao longo das suas 180 páginas vemos a evolução da ilha, a transformação da sua paisagem, os grandes marcos do tursimo madeirense, desde as quintas de aluguer onde se hospedavam os primeiros visitantes até ao campo de golfe do Santo da Serra e respectiva Casa de Chá, passando, claro pelo histórico Hotel Reid’s e os outros grandes hotéis madeirenses construídos na primeira metade do século XX. A obra, já nas livrarias, mostra imagens registadas entre cerca  1870 e o final dos anos 50 do século passado.




PROVAR - Gosto de bons pequenos almoços, tomados com calma e de preferência em casa. Aos fins de semana permito-me uma pequena indulgência: torradas em bom pão, obviamente com manteiga. O pão alentejano, de Beja, da padaria “Fermentopão”, que se encontra com alguma facilidade nos supermercados lisboetas é a minha primeira escolha. Mas quando não o encontro há uma boa alternativa , da península de Setúbal, perto de Palmela, que é o pão da Lagoinha, e que também se encontra, igualmente fresco, em alguns supermercados. Para a coisa ficar completa prefiro manteiga dos Açores e as minhas duas escolhas vão para a manteiga Nova Açores, que tem boa distribuição em supermercados, e na mais artesanal (e mais aborosa)  Manteiga Uniflores (produzida pelas Cooperativa Ocidental na da Ilha das Flores) e que se pode encontras na Mercearia Criativa, da Avenida Guerra Junqueiro em Lisboa. E assim se começa bem o dia.




DIXIT - Pedro Passos Coelho e Paulo Portas fizeram “dois discursos de Primeiro Ministro sobre a mesma matéria,mas o do líder do CDS é bem melhor” - Marcelo Rebelo de Sousa.




GOSTO - Da análise feita no livro “Pecado Original” em que Santana Lopes aborda o funcionamento da Presidência da República no nossos sistema político.


NÃO GOSTO - Emigração portuguesa para a Alemanha aumentou 43% no último ano.


BACK TO BASICS - A Democracia é aquilo que permite que sejamos governados à medida daquilo que merecemos - George Bernard Shaw

maio 07, 2013

(DES) GOVERNO

Aqui vai um pequeno resumo dos últimos quinze dias: há cerca de semana e meia uma discussão interna no Conselho de Ministros tornou-se pública em 24 horas. Na semana passada o Primeiro Ministro anunciou uma série de medidas na quinta-feira à noite, teoricamente aprovadas em Conselho de Ministros, e o líder do CDS/PP, Paulo Portas, anunciou logo de seguida uma conferência de imprensa, para Domingo, onde se iria pronunciar sobre as referidas medidas.


 


Pouco depois desta informação, Passos Coelho elogiou o seu parceiro de coligação e disse que Paulo Portas tinha participado ativamente na elaboração das medidas anunciadas. No Domingo Paulo Portas declarou ser contra as novas taxas sobre os pensionistas, pondo assim em causa uma das medidas anunciadas por Passos Coelho.


 


Ficou claro que está a decorrer uma partida de xadrez em que cada um dos jogadores faz movimentos cuidadosamente planeados, tentando colocar o outro em xeque. Para complicar o jogo Marques Mendes resolveu iniciar uma simultânea e abriu novo tabuleiro, para anunciar que vai ser convocado um Conselho de Estado.




Como bem escreveu, ontem, Pedro Santos Guerreiro no seu Editorial no “Jornal de Negócios”, o Governo está a ficar ingovernável. Na última semana ficou evidente que Paulo Portas está a acelerar o movimento do seu reposicionamento, colocando o CDS/PP no papel de charneira indispensável para assegurar existência de uma maioria – não se vá dar o caso de haver uma crise e surgirem eleições com uma vitória do PS.




Na realidade, na conjuntura actual, nem PS nem PSD podem governar sozinhos – os dois partidos precisam de Portas e ele sabe disso. Algo me diz que esta vai ser uma longa partida de xadrez e ninguém pode dizer que sabe qual será o seu desfecho.


 




(Publicado na edição de hoje do diário METRO)

maio 03, 2013

O TRABALHO DESAPARECE?

TRABALHO - O nível de desemprego na Europa e na União Europeia é preocupante. Noutras regiões do globo não é especialmente melhor. E a má notícia é que o Mundo se encontra num, ponto de viragem em que a criação de novas indústrias não quer necessariamente dizer a criação de um número significativo de novos postos de trabalho. Nos Estados Unidos e em vários países da Europa estão a regressar indústrias que tinham sido deslocalizadas para outras regiões - e esse regresso ocorre quer por razões de logística, de eficiência ou de qualidade. Mas as novas fábricas têm mais robots e menos pessoas, e o regresso da indústria não quer dizer um retomar do emprego. Ao virar da esquina está a revolução das impressoras 3D, que num futuro não demasiado distante poderão fabricar pequenas peças ou máquinas inteiras praticamente sem intervenção humana. Estamos numa encruzilhada - e saber qual o rumo a seguir para fazer crescer o emprego e dinamizar a economia não vai funcionar com as receitas das últimas décadas. E é sobre isto que temos que pensar e encontrar o nosso caminho, a partir dos nossos recursos e do nosso talento.




SEMANADA - O actual nível de emprego é o mais baixo desde 1997; os países periféricos pesam 44% no total dos desempregados da Europa; na zona Euro há 19 milhões de pessoas sem trabalho; a circulação dos jornais diários generalistas em Portugal caíu 10%; a Comissão Nacional de Proteção de Dados considera que a Autoridade Tributária está a recolher informações que extravasam os dados relevantes para efeitos fiscais; Mário Soares acusou Cavaco de fazer um discurso inconstitucional; Vitor Gaspar apelou ao consenso e criticou a “política de mentira”; a dívida das empresas públicas duplicou entre 2007 e 2012; O Primeiro Ministro anunciou que há grande coesão no Governo; Pedro Passos Coelho afirmou que quase 78% do que o Estado gasta são salários, transferências sociais e juros da dívida pública; Portugal registou em 2010 e 2011 o maior aumento da carga fiscal na União Europeia; o “Correio da Manhã” reportou que Sócrates fez o seu exame final de inglês técnico num restaurante do Bairro Alto, numa conversa ao almoço com o respectivo professor; um ex-deputado do PS processou a Assembleia da República para tentar receber uma subvenção vitalícia; o sistema de vigilância da cadeia de Faro está desligado há quatro anos por falta de manutenção.     




ARCO DA VELHA - Os grandes bancos que venderam “swaps” às empresas públicas são quase todos assessores financeiros do Estado

VER - Esta semana sugiro 3 ideias de fotografia, bem diferentes. Na Fundação EDP, Museu da Electricidade, está a exposição anual do World Press Photo, uma das mostras de fotografia que mais público atrai e que apresenta os melhores trabalhos de fotojornalismo escolhidos por um júri internacional -  teoricamente mostra o melhor da foto reportagem de todo o mundo. Noutro registo sugiro uma ida à recentemente inaugurada “Pequena Galeria“, que fica na Avenida 24 de Julho nº 4C, perto da Praça D. Luis - que apresenta uma exposição designada “O Grupo de Évora” e que agrupa trabalhos de António Carrapato, João Cutileiro, Pedro Lobo e José M. Rodrigues. E, finalmente, para algo completamente diferente, na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens nº 38  ) durante meia dúzia de dias - de 7 a 11 de Maio -  pode ver uma recolha de fotografias de trabalhos de Rui Chafes, o artista convidado este ano para oprojecto dedicado ao Espaço Público e à Arte Pública do Chiado e da Baixa.




OUVIR-  “Mosquito”, o quarto álbum dos norte-americanos Yeah Yeah Yeahs, podia estar nesta coluna na secção “Back To Basics”. O seu álbum de 2009, “It’s Blitz!” acabou por não corresponder às expectativas comerciais que a banda tinha colocado e este “Mosquito” fecha o círculo, regressando ao início da história, há uma década. “Area 52”, um dos melhores temas do disco, é bem exemplo disso e vive de evocações do próprio passado, mas também dos Stooges ou Cramps, por exemplo - e a faixa título, “Mosquito”, evoca a tradição musical de Nova York, a cidade onde a banda agora regressou. Há hinos, como “Sacrilege”, há um piscar de olhos a outras músicas como em “Buried Alive”, que conta com a colaboração do rapper Kool Keith/Dr. Octagon e há um retrato de Nova York em “Subway”. Karen O, Nick Zinner and Brian Chase estão de volta à sua cidade, onde aliás este álbum foi gravado numa cave desocupada - e fizeram um disco que bem pode ser um ajuste de contas com o passado e uma preparação para o pensam fazer no futuro. Eu confesso que gosto disto e tenho ouvido “Mosquito” um bom par de vezes nos últimos dias - é despretencioso, bem produzido e com uma sonoridade desafiante que nos faz pensar que mesmo depois das crises há esperança.




FOLHEAR - Um dos temas recorrentes da revista “Monocle” é o interesse por pequenos projectos de produçāo artesanal, seja de roupa, mobiliário, acessórios ou ... apitos metálicos e óculos de tartaruga. A edição de Maio da revista vem cheia de exemplos destes, feitos em Inglaterra, França, Dinamarca ou Espanha. Alguns destes projectos internacionalizam-se e ganham mercados inesperados - muitos sāo quase "case studies". E tanto podem ser uma produtora de filmes na Dinamarca que trabalha com uma equipa de dez pessoas até à oficina que faz móveis inesperados ou sapatos por medida. Todos têm em comum o facto de fazerem a aliança entre design contemporâneo e métodos de produçāo artesanais, mas sem esquecer as facilidades dadas pela técnica. Em comum têm também a presença humana - na criatividade, na atenção ao pormenor. São pequenas empresas que desenvolvem novos projectos nas mais diversas áreas, das mais tecnológicas às mais simples e tradicionais. Dão emprego, contribuem para a economia, utilizam mão de obra local. Esta edição está cheia de exemplos destes. O tema forte de capa desta “Monocle” de Maio é a guerra de audiências nos programas matinais de rádio e televisão, mostrando a partir da concorrência desenfreada que se passa nos nossos antípodas, na Austrália. Pode parecer um tema esotérico, mas a verdade é que o espaço da manhã, nas estações de televisão e da rádio está a ser no novo prime time, um dos poucos momentos em que as pessoas estão menos ligadas à internet e ao Facebook, esse grande concorrente na partilha dos sofás ao fim do dia. Outros registos dignos de nota dizem respeito ao novo protagonismo de Londres no campo da fotografia - desde uma nova Feira a várias galerias. A revista tem um roteiro da cidade com todos os novos locais a não perder para quem gosta de fotografia.




PROVAR - Olivier Costa, o “chef” que se especializou em criar espaços de entretenimento onde se come bem, abriu agora o “Honra”, integralmente dedicado á tradição culinária portuguesa. Fica no novo Hotel Figueira - numa Praça da Figueira desleixada pela Câmara - esta semana quando lá fui o centro da praça estava um caos de sujidade e desleixo, cercado por grades municipais que envolviam cadeiras plásticas meio tombadas. Não imagino o que ali tenha acontecido, mas não é bonito de ser ver numa praça que quer agora captar turistas. Mas Olivier não tem culpa da preguiça dos vereadores camarários em exercício na área do espaço urbano e merece elogios por mostrar aos muitos estrangeiros que o visitam o que são ovos verdes, peixinhos da horta, lulas recheadas ou um simples bitoque - já para não falar dos travesseiros e pastéis de nata à hora do chá. Como sempre nos restaurantes de Olivier  a cozinha é honesta - se bem que aqui algumas frituras mereçam mais cuidado - nomeadamente a dos pastéis de nata. Mas o bitoque estava em muito boa forma com batatas fritas como deve ser e o polvo panado com arroz de feijão cumpria. Há cocktails de ginjinha e vinhos a copo das melhores precedências e a preço decente.  Praça da Figueira 16, telefone 210 194 154. Reserve, que a casa anda cheia e é bom ir à baixa jantar ou almoçar.




DIXIT - “Já engolimos todos os venenos sem efeito algum” - José Pacheco Pereira, na “Sábado”.




GOSTO- Da iniciativa de aulas interactivas de matemática para crianças, da Khan Academy, lançado pela Fundação PT no seu site, numa versão em português.




NÃO GOSTO -  Os prejuízos com swap são equivalentes a 10% da dívida das empresas públicas.




BACK TO BASICS - Os factos são terríveis; as estatísticas são mais maleáveis - Mark Twain.




(Publicado no Jornal de Negócios de  dia 3 de Maio)

abril 30, 2013

INCOMPETÊNCIA OU CORRUPÇÃO?

Uma das curiosidades  mais intrigantes dos últimos dias é a forma como as operações de swaps que mais prejuízos causaram em empresas públicas estão  concentradas em número apreciável ligadas ao sector dos transportes.  Podia ter acontecido noutras áreas, mas a verdade é que desde os Metros de Porto e Lisboa até à Carris ou Refer, é grande a concentração  destas operações em empresas públicas tuteladas pelo Ministério dos Transportes, decisões tomadas praticamente em simultâneo, na época do Governo Sócrates.  Por acaso foi também nos Transportes que surgiram as negociatas com as sucatas e as pressões para que fossem tomadas decisões de favor. No caso dos swaps alguns responsáveis financeiros dessas empresas, à época, já estão identificados.




A mim quer parecer-me que falta contar muita coisa: quem apareceu com o negócio? Quem fomentou o negócio? Quem trouxe os bancos e os seus contratos? Foram os directores financeiros ou eles limitaram-se a obedecer a instruções das suas administrações?  A ideia de fazer do dinheiro dos contribuintes material para apostas arriscadas veio dessas administrações ou através da tutela? Quem montou um jogo de apostas ruinoso nas empresas públicas de transportes?




Quando o dinheiro dos contribuintes se envolve em negócios privados, que terminam com um prejuízo colossal para o Estado e um lucro desproporcionado para os privados, a coisa merece atenção. Pode ter sido incompetência; pode ter sido ambição; mas também pode ter sido corrupção. E convinha esclarecer isso – é que no fim do dia quem toma as decisões e gera prejuízos acaba olhando para a paisagem com ar intrigado – mas os contribuintes são sempre quem tem de  pagar a factura dos disparates que outros fizeram em seu nome.




(publicado no diário Metro de  30 de Abril)

abril 26, 2013

O PROBLEMA DE BASEAR A POLÍTICA NUM EQUÍVOCO

 


OS RESTOS - É certo que os enganos fazem parte da vida e que só quem nada faz nunca se engana ou se erra. Mas o caso do estudo de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, “Growth in a time of debt”, que nos últimos anos moldou o pensamento de instituições internacionais e responsáveis políticos, é um pouco mais que isso. É um estudo que veio a calhar para servir de guarda-chuva à adopção de medidas e que foi adoptado de forma tão cega, como se de um dogma se tratasse, sem pelos vistos ter sido suficientemente escrutinado. Quando um estudante mais atento descobriu os erros de análise e tratamento dos dados em que o estudo se baseia para chegar às suas conclusões abre-se caminho para colocar uma dúvida: as falhas foram acidentais, ou foram deliberadas, para permitir chegar às conclusões que todos conhecemos? Nunca se saberá a resposta a esta questão, mas é perturbante perceber que as políticas de austeridade, nos moldes que conhecemos, aproveitaram bem a circunstância e o erro para conseguirem uma cobertura teórica. Mais perturbante ainda é a forma como pessoas desde António Borges a Durão Barroso começaram a mudar de opinião sobre as políticas de austeridade precisamente na semana em que o erro - ou a fraude - se descobriu. Quando percebemos que o sistema - e a política da União Europeia - se baseia num equívoco, teme-se o pior. Retive o que o economista Felix Ribeiro, uma voz infelizmente pouco ouvida, disse esta semana na TVI: «a união europeia já acabou e agora discute-se apenas quem manda nos restos».




SEMANADA - Continuou a remodelação de secretários de Estado, a quinta deste Governo, também conhecida por remodelação Swap; Durão Barroso diz que a austeridade “atingiu o limite”; Angela Merkel considera que os Estados da Zona Euro têm de estar preparados para ceder mais soberania  às instituições europeias; comparando números de 2011 com 2012, dos países da zona Euro, Portugal diminuíu no PIB e aumentou na dívida pública e no défice; em 2012 houve 17 Estados da União Europeia com défices acima dos 3% e 14 Estados com dívida pública acima dos 60% do PIB - ou seja, em violação das regras do pacto de Estabilidade; mais de 55% dos desempregados não recebem qualquer apoio do Estado; o Governo reviu em baixa a taxa de crescimento da economia portuguesa, que passou para -2,3%, a seguir a uma revisão provocada pelo abrandamento das exportações;  nos primeiros três meses do ano os portugueses compraram 101 milhões de raspadinhas, que deram 8,2 milhões de euros de prémios; até o programa “Governo Sombra”, na TVI 24, derrotou “A Opinião de José Sócrates” na repetição emitida à uma da manhã de Domingo para Segunda.




ARCO DA VELHA - Luis Filipe Menezes considerou Pedro Passos Coelho “o Primeiro Ministro mais sério desde o 25 de Abril”, sem mencionar sequer Sá Carneiro.

VER - Volta e meia há filmes assim, que nos fazem pensar no país que somos, nas pessoas que somos, no estado da nação neste ano da graça de 2013. «É O Amor”, de João Canijo, é um filme assim. Mostra o que frequentemente não queremos ver - sobretudo mostra um Portugal que às vezes as grandes cidades não querem saber que existe. Não é um filme “voyeur” sobre uma outra realidade, é um retrato cúmplice de uma descoberta. A ideia base é seguir o dia a dia de uma comunidade de pescadores, de Caxinas, Vila do Conde, na qual Anabela Moreira (que foi a cabeleireira de “Sangue do Meu Sangue”) surge como uma actriz em conflito interno que vai procurar perceber o que é a vida das mulheres dos pescadores nestes tempos actuais. Vou recorrer às palavras do próprio realizador : «A mulher das Caxinas é um modelo da portuguesa moderna. Esta afirmação contradiz a imagem tradicional de uma peixeira enlutada do Norte de Portugal. Mas foi isso o que descobrimos durante a investigação para este filme. E foi isso que nos encantou. A força romântica e vital daquelas mulheres, capazes de amar e lutar pela vida - delas e dos maridos -, fez com que se lhes dedicasse um filme. » 
«É O Amor» é um manual de como combater ideias feitas e de como saber olhar para a realidade e, com poucos meios, fazer um filme que não é uma excursão veraneante fora das grandes cidades, mas um documento sobre o nosso tempo.




OUVIR- “Overgrown”, o segundo disco de James Blake, agora editado, mostra uma sensível evolução desde o álbum estreia de 2011. Os ingredientes base - uma mistura equilibrada de jazz e soul - mantêm-se aqui, mas mais vigorosos, ou, se quisermos, com uma mais acentuada presença dos rhythm ‘n’blues, logo bem evidenciada no primeiro single deste novo trabalho, “Retrogade”. Mas logo a seguir, “DLM” é um tema marcado por um piano envolvente em diálogo com a voz de Blake. O primeiro tema do disco, “Overgrown”, faz a declaração de intenções: “I don’t want to be a star, or a stone on the shore, or a doorframe in a wall when everything’s overgrown”. Blake, que compôs todos os temas e toca todos os intrumentos no álbum, faz questão em evidenciar com este disco que não vai passar a vida a repetir a fórmula de sucesso que obteve na sua estreia. Muda, evolui, arrisca, às vezes entra em ruptura. O disco é mais directo, as canções são mais variadas entre si e curiosamente aquela cuja sonoridade se aproxima mais do primeiro disco é “Digital Lion”, que foi produzida por Brian Eno. Os sinais mais fortes são dados em “Voyeur”, com o seu ritmo marcado, e no tema “Take A Fall For Me”, o único a incluir um convidado, o rapper RZA dos Wu-Tang, a marcar as palavras por cima de uma escapadela de Blake pelo hip hop. (CD Atlas/Universal)




FOLHEAR - A edição de Maio da “Vanity Fair” tem uma capa lindíssima - Audrey Hepburn, em 1957, fotografada por Bud Fraker para o filme “Funny Face”. Mas o artigo não é sobre este filme, mas sim sobre os tempos em que a actriz viveu em Roma, depois do êxito que “Roman Holiday”, o seu filme de 1953. A “Vanity Fair” recorre a um novo livro do filho da actriz para mostrar imagens e contar episódios dos tempos em que ela viveu La Dolce Vita, em que descobriu a liberdade de Roma. Outro artigo fantástico é a história da ascensão e queda da revista “Holiday”, que nos anos 50 e início dos anos 60 foi o magazine de viagens por excelência e um exemplo de trabalho editorial, nos textos e nas imagens, um daqueles relatos que nos faz ter saudades das revistas a sério. Finalmente há uma bela reportagem sobre o crescimento do Facebook - não no número de utilizadores, mas como um novo media, como um novo suporte de publicidade. Neste artigo a Vanity Fair recorda como os meios são efémeros e, no início, parecem estranhos - a rádio gratuita nos anos 20 não parecia um negócio possível até transmitir o primeiro anúncio em 1923, o tempo que demorou a surgir o primeiro spot publicitário na televisão, em 1941, a maneira como a Nielsen começou a medir audiências nos anos 50, a internet a surgir em 1991 mas a primeira publicidade digital a aparecer em 1994 - e o Google adwords a surgir apenas em 2000. E, agora, o Facebook, algo mais do que aquilo que já se conhecia.




PROVAR - Durante os últimos anos o restaurante do Teatro S.Luiz foi o Spot S. Luiz, uma casa onde nos primeiros anos existiam algumas experiências curiosas, um quase percursor dos hamburgueres gourmet e de refeições leves e bem elaboradas - uma cafetaria como até então não existia naquela zona da cidade. Nos últimos tempos a qualidade foi decaindo, até encerrar. Agora, no mesmo local, surgiu o Café São Luiz, pela mão da equipa que está desde há uns anos no Café no Chiado. A decoração foi mudada, a carta foi completamente refeita e a garrafeira também. Na cozinha estão os “chefs” Nuno Bandeira de Lima e Luís Barros, que trabalharam juntos no Lapa Palace. A inspiração é da culinária portuguesa mas com toques de surpresa - como um risotto de cogumelos porto bello e rabo de boi ou um osso buco com batatinhas na chapa e molho de iogurte. Nas entradas há uma tentadora cavala em escabeche com broa de milho, azeite, hortelã e agrião. Nas sobremesas o destaque vai para o creme brulée de abóbora e requeijão com praliné de amendoa e tomilho. Pronto, a seguir, dieta... Rua António Maria Cardoso, 58, telefone 213 460 898.




DIXIT - “João Capela tem grande futuro” - Pinto da Costa, referindo-se à actuação do árbitro do Benfica-Sporting




GOSTO- Da iniciativa de fazer uma Vila Literária em Óbidos.




NÃO GOSTO - Do abate de árvores, contra as regulamentações camarárias, na Avenida da Ribeira das Naus.




BACK TO BASICS - Não sou um grande humorista nem invento piadas: limito-me a observar o que o Governo faz e a reportar os factos - Will Rogers

abril 23, 2013

Vai uma voltinha, Dr. Costa ?

Hoje vou aqui deixar um convite ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa: venha comigo dar um passeio de moto nas ruas da cidade para ver o estado em que elas estão, para perceber o perigo que os buracos e os pavimentos ondulados representam para os motociclistas. Prometo ir devagar, mas gostava que visse – e sentisse nos solavancos -  o que se passa.


 


O efeito, para os turistas que nos visitam, do desleixo na conservação dos pavimentos da cidade, é péssimo – basta ver o estado calamitoso da Avenida Brasília, junto ao rio, que parece uma pista de todo o terreno. Por todo o lado há exemplos destes – até em pavimentações recentes.


 


Este ano vai haver eleições e qualquer dia começa o regabofe da caça aos votos. Imagino até que inventem umas repavimentações. Mas o importante seria existir um trabalho de manutenção sério, alguém na Câmara que se preocupe em prevenir em vez de ficar imóvel a assistir á degradação da cidade. Já nem falo da sinalização no pavimento, que na maior parte das zonas mal se vê, criando fatores adicionais de perigo.


 


Choca-me  ver que se investe em tanta coisa e na segurança dos cidadãos que circulam em Lisboa se investe tão pouco. Quanto significaria, em melhorias na segurança nas ruas da cidade, o custo das obras sucessivas na rotunda do Marquês de Pombal?


 


Aqueles que por opção preferem andar de motociclo em Lisboa, aliviando o trânsito, a poluição e o estacionamento, são penalizados em comparação com outros lisboetas. São o parente pobre das atenções da autarquia. Há uns 40 anos que circulo em duas rodas na cidade e nunca a vi em tão mau estado como agora. Faz pena.


 


(Publicado no diário metro de  23 de Abril)