abril 12, 2013

Como criar saturação nos públicos?

 


ANÁLISES - No Domingo passado José Sócrates, na RTP1, teve uma audiência média de 978 mil telespectadores, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, alcançou 1,6 milhões. Os números nāo mentem e, nesta semana em particular, evidenciam uma coisa, que voz amiga bem me sublinhou: estamos numa fase em que as pessoas nāo querem ouvir comícios, nem ataques, nem vinganças; querem quem as ajude a pensar e a compreender, querem quem aponte algum optimismo com espírito construtivo. É isto que Marcelo faz, e é o contrário do que Sócrates proporciona. Mesmo o universo anónimo e heterogéneo das audiências televisivas consegue separar o trigo do joio.




POLÍTICA - Chego ao meio da semana um pouco perplexo. Será possível que o Governo verdadeiramente nāo equacionasse um “chumbo” do Tribunal Constitucional? Os juristas que estāo no Governo e nos gabinetes nāo se pronunciaram? Os políticos nāo previram? Os constitucionalistas da área do PSD nāo disseram ao Primeiro-Ministro aquilo que nestes dias mais recentes têm escrito, comentando a situaçāo? Ou pura e simplesmente o Governo nāo quis ouvir? Nāo consigo deixar de pensar que, ou o Governo previu o que ía acontecerr e estudou alternativas,  ou não previu - e aí o caso revela inconsciência. Nem quero pensar que o Governo soubesse, desde o início do processo do Orçamento que isto iria acontecer, e que voluntariamente deixasse a panela ao lume, para,quando fervesse, poder dramatizar a situaçāo. Qanto maior a dramatizaçāo, já se sabe, maiores os argumentos para justificar o que aí vem - os cortes na despesa. Os mesmos cortes que há muito deviam ter sido estudados, preparados e anunciados, para poderem ser implementados de acordo com um plano gradual que tivesse apoio político para além da coligaçāo. Infelizmente o Governo preferiu fechar-se cada vez mais dentro de si próprio, criando divergências nos próprios partidos que o apoiam e menosprezando a necessidade de conseguir alianças. No fundo, o desprezo pela negociaçāo política, que é a única coisa que nos pode salvar.




SEMANADA - Miguel Relvas à quinta, Tribunal Constitucional à sexta, Conselho de Ministros ao sábado, Passos Coelho, José Sócrates e Marcelo Rebelo de Sousa ao Domingo, António José Seguro à segunda; ainda no Domingo o Nobel da Economia Paul Krugman, referindo-se a Portugal e a novas medidas de austerirdade, comentou “Just say Nao”; o Financial Times escreveu em editorial que os sacrifícios dos portugueses serāo em vāo se nāo houver um plano europeu para impulsionar o crescimento; António Lobo Xavier afirmou no início da semana que “este é o momento da remodelação do Governo”; Vitor Bento afirmou que o acordão do Tribunal Constitucional “estreitou o caminho de permanência no euro”; Num artigo de opinião, Ângelo Correia sublinhou: “só se reforma ou refunde um Estado, se se reformar ou refundar os principais atores, ou seja, os partidos”; o economista João Ferreira do Amaral propôs que o melhor para as contas públicas seria diminuir a carga fiscal para que a economia voltasse a crescer; Eduardo Catroga disse que o Governo desperdiçou ano e meio para reduzir a despesa pública; o chumbo do Tribunal Constitucional a quatro artigo do Orçamento de Estado para 2013 não terá efeitos imediatos no 'rating' da dívida soberana de Portugal, considera a agência de 'rating' Standard & Poor's; a troika anunciou que na próxima semana fará uma visita de urgência a Portugal.




ARCO DA VELHA - Título da semana, sobre a saída de Miguel Relvas do Governo: “Passos perde pára-raios”.




VER - Carlos Correia é um dos mais interessantes artistas portugueses contemporâneos e desde há alguns anos tem vindo a mostrar um olhar muito peculiar em relação ao que se passa à sua volta, evocando momentos que misturam a realidade com referências a obras clássicas da pintura (nomeadamente Manet) ou situações de imagem quase noticiosa. Mas em todas elas há um peculiar sentido de observação, um sentido de humor elegante e o estabelecimento de uma cumplicidade entre o artistas e o espectador da sua obra, que se revela aliás no título que retoma para a sua nova exposição - “La Place Du Spectateur II”, e que estará patente desde quinta-feira 18 de Abril na Galeria  Baginsky, em Lisboa, na Rua Capitão Leitão 51 a 53, ao Beato, em Lisboa.




OUVIR- Mesmo num disco com muita produção, como é este, Madeleine  Peyroux consegue transmitir a ideia de que estamos num clube de jazz a falar com amigos e a beber um copo quando surge uma cantora que nos começa a seduzir. Essa faceta, digamos, de cabaret, sempre me atraíu em Peyroux. Quando começou a trabalhar em “The Blue Room”, o novo álbum, a ideia seria fazer um disco de homenagem a Ray Charles, baseado no repertório de “Modern Songs”, dois álbuns que se tornaram referência na obra do cantor. Mas a meio do percurso a coisa evoluíu para incluir outras canções modernas, como “Bird On The Wire” de Leonard Cohen, “Desperadoes Under The Eaves” de Warren Zevon, ou “Guilty” de Randy Newman. As interpretações de Peyroux de temas cantados por Ray Charles, como “Take These Chains”, “I Can’t Stop Loving You”, “Bye Bye Love” ou “Born To Lose” são exemplos de contenção e criatividade, ajudados pelos arranjos de Larry Klein. O disco inclui ainda um DVD com uma versão acústica, ao vivo, de “I Can’t Stop Loving You”, um documentário sobre o processo de produção do trabalho, e o teledico de “Changing All Those Changes”, uma das interpretaçōes clássicas de Ray Charles, uma canção de Buddy Holly, que Madeleine Peyroux resgatou para este “The Blue Room”.




FOLHEAR - A revista “Photography” (melhor dizendo, British Journal of Photography) é uma das melhores publicações que podemos encontrar sobre os caminhos percorridos pela imagem fotográfica, novidades técnicas e exemplos do trabalho de fotógrafos de diversas sensibilidades. Não mostra apenas fine art, nem apenas foto-jornalismo. Abre as páginas a ensaios e a novos criadores, e assim torna-se uma das poucas publicações do género a dar uma imagem ampla do que se faz pelo mundo - como prova o artigo sobre novos fotógrafos orientais. Além disso reporta iniciativas como o “The Commons”, resultado de um acordo entre a Library of Congress dos Estados Unidos e o Flickr, destinado a recuperar e a trabalhar arquivos antigos e geralmente esquecidos. Mas o prato forte desta edição é o especial de 16 páginas sobre “Genesis”, o novo trabalho de Sebastião Salgado que ele desenvolveu ao longo dos últimos oito anos. Além de várias imagens da série (que vai dar um livro e uma exposição), o artigo mostra o processo de trabalho de Salgado, da preparação à impressão das imagens, fala do material que usa desde 2008 (Canon 1Ds Mk III, digital) e revela que no final as fotografias são processadas através de um programa de software, DxO que, a partir de imagens digitais, consegue reproduzir o aspecto característico do filme a preto e branco Kodak Tri-X de 35 mm. O artigo é fascinante e só por si vale os 12 euros que a revista custa em Portugal. Podem ter uma ideia da coisa em www.bjp-online.com ou na aplicação para iPad.




PROVAR - Nos últimos tempos começa a surgir uma nova geração de restaurantes que apostam na comida portuguesa de qualidade, ementa diária limitada mas variada e serviço atencioso. O S- Restaurante & Petiscos, está neste campo. Abre de segunda a sexta ao almoço e à sexta, à noite, serve petiscos. Fica nas antigas instalações da “Bruschetta”, ao Rato, uma bela sala de arcos de pedra, agora dividida em duas áreas, uma delas, ao fundo, para fumadores. A ementa diária tem quatro pratos cozinhados e alguns grelhados, o vinho da casa, branco e tinto, é servido em jarros e vem da Casa Ermelinda Freitas; o couvert inclui um honesto paio fatiado e um queijo simpático. Panadinhos de frango com arroz de coentros, bola de cozido, polvo com batata doce, galo de cabidela ou arroz de pato são alguns dos pratos que fazem a marca da casa. Pode ser reservada para graupos ao jantar. S - Rua de S. Filipe Nery 14, telefone 213 866 372. Chegue cedo, que a casa enche depressa com uma clientela fiel.




GOSTO - Da aplicação “wunderlist” , para me ajudar a organizar os dias.




NĀO GOSTO - Da absurda situação de confusão a que o silêncio do parlamento remeteu as candidaturas autárquicas.



BACK TO BASICS - “Aquilo que é ilegal pode fazer-se imediatamente. O que é inconstitucional demora um pouco mais de tempo” - Henry Kissinger em, 1973, ao New York Times.




(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Abril)

abril 09, 2013

À ESPERA...

Temos todos passado estes dias à espera. Na sexta-feira, depois de esperarmos meses, o Tribunal Constitucional ainda nos fez esperar um bom bocado para além da hora anunciada. A partir daí passámos a esperar pelo Conselho de Ministros extraordinário de sábado; depois esperámos pelo comunicado do Presidente da República; a seguir passámos a esperar pela comunicação oficial do Primeiro Ministro, no Domingo, que por sua vez criou expectativa por aquilo que Sócrates e Marcelo Rebelo de Sousa iriam dizer à noite. À hora a que escrevo aguarda-se que Seguro fale, à mesma hora que Passos falou na véspera, e que seja anunciado um novo Conselho de Ministros extraordinário para terça-feira.


 


No entretanto, olhando para as audiências de televisão da semana passada, constata-se que  o futebol derrotou completamente a política. Os dois programas de televisão mais vistos na semana passada foram as transmissões dos jogos Benfica-Newcastle e do Real Madrid-Galatasaray. O terceiro lugar coube à novela "Dancin'Days" e em quarto lugar ficou o "Jornal das 8" de Domingo da TVI, que inclui o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa - que teve 34,1% de share. "A Opinião de José Sócrates" limitou-se ao 14º lugar de audiências com 19,5% de share - enfim , coisa pouca para quem esperava que isto voltasse a colocar a RTP no pódio.




Parece que agora, finalmente, se vai olhar para a despesa. Só por causa das coisas recordo as palavras de Eduardo Catroga, num artigo de opinião: “O Governo desperdiçou ano e meio para reduzir a despesa pública (...) O Governo devia, na segunda metade de 2011, ter confrontado a troika (...) ter criado capital de queixa para utilizar no momento oportuno.” Pelos vistos o Governo ficou à espera - infelizmente andamos sempre demasiado tempo à espera.




(publicado no diário METRO de 9 de Abril)

abril 05, 2013

DIAS DE PESADELO, SÍTIOS DE FOTOGRAFIA E O FADO...

PESADELO - Na mesma semana em que o PS apresentou, como puro gesto de retórica, uma moção de censura ao Governo, sem conseguir detalhar uma única medida alternativa plausível para conseguirmos sair da crise, soube-se que aumenta o número de Ministros que desejam sair do executivo e o número daqueles que não se sabe bem o que lá andam a fazer. Miguel Relvas já saíu pelo seu pé mas Vitor Gaspar continua ao leme, autêntico Primeiro Ministro sombra, alimentando-se de previsões falhadas, entre ministros até aqui imobilizados como Nuno Crato, ou um Santos Pereira que não consegue encontrar espaço para fazer o que quer que seja. O comportamento de uma parte cada vez maior do Governo e de uma parte cada vez maior dos partidos que o integram é um sinal de perigo mais evidente que a moção de Seguro. No meio disto continua a obsessão por mudar o nome às coisas sem cuidar da substância - é assim que depois de se terem enterrado as Novas Oportunidades se dá uma dose de vitaminas a um Impulso Jovem que se arrisca a ser o maior exemplo de política espectáculo dos últimos anos. Não estou certo que mais política espectáculo seja aquilo que nos faz falta, e inclino-me para pensar que o Governo e o Presidente da República fariam bem melhor em estudar como se pode mudar de politicas e como é absolutamente necessário alterar a forma de fazer política. E, no entretanto, estamos todos à espera de um Tribunal Constitucional que desenha a sua própria táctica politiqueira. Isto tem todos os ingredientes para acabar mal.




SEMANADA - Entre 2010 e 2012 as dívidas das famílias e das empresas tiveram uma pequena diminuição, mas a do Estado teve um aumento de 25%; os impostos indirectos caíram 6,4% em Fevereiro, mas a previsão do Governo era um aumento de 0,2%; as contribuições para a segurança social subiram 1,8% mas as previsões do Governo eram de uma subida de 8,1%; os gastos com o subsídio de desemprego aumentaram 21,1% em Fevereiro face ao período homólogo de 2012, mas o Governo só previa um aumento de 3,8%; prevê-se agora uma redução do PIB nominal  de 1,1 mil milhões de euros face a 2012, quando no Orçamento de Estado estava previsto um aumento de 0,4 mil milhões de euros; um estudo da Goldman-Sachs sobre o acesso das empresas ao crédito em diversos países europeus, mostra que em Portugal o custo dos financiamentos bancários é de 6,68% e na Alemanha é de menos de 3%; as queixas sobre a conta da electricidade duplicaram este ano em relação a igual período do ano passado; no hospital de West Suffolk, em Inglaterra, 40 dos 55 enfermeiros são portugueses; a série norte-americana “A Bíblia”, exibida pela SIC na Páscoa, e que tinha como protagonista o actor português Diogo Morgado no papel de Jesus Cristo, foi vista no total por 2,5 milhões de espectadores, batendo largamente o reality-show do serviço público de televisão protagonizado por José Sócrates.




ARCO DA VELHA - O piso do novo passeio da Ribeira das Naus teve que ser reparado três dias depois da inauguração oficial.



VER - O início de actividade de A Pequena Galeria (Av 24 de Julho 4c, à Praça D. Luis) é o pretexto para hoje sugerirmos uma incursão pela fotografia. Obra de sete sócios, A Pequena Galeria foi buscar o seu nome a The Little Galleries of the Photo Secession, de Alfred Stieglitz, fundada em 1905 na Quinta Avenida, em Nova Iorque. A Pequena Galeria é uma bela ideia, que promete actividade e variedade - abriu a 21 de Março com a colectiva #Salão1 e quinta-feira 4 de Abril inaugurou a sua segunda exposição, Flâneur Noir,  de um dos sócios, Guilherme Godinho, que tem a particularidade de fotografar a preto e branco com um Blackberry 9700 Bold, o que, em tempos de Instagram e iPhone não deixa de ter a sua graça. Na K Galeria (Rua das Vinhas 43A, ao Bairro Alto), Pedro Letria comissariou a primeira mostra de imagens do colectivo Kameraphoto tiradas em 2012 no âmbito do projecto DR - Um Diário da República. A exposição tem edição em livro, sob o título Please Hold e, ao mesmo tempo, inaugurou também, no mesmo local, Volto Já, de Augusto Brázio. A Galeria Quadrado Azul mudou-se do Largo Stephens, ao Cais do Sodré, para Alvalade, na Rua Reinaldo Ferreira 20-A (perto da Padre António Vieira). "Gloom", uma exposição individual de Paulo Nozolino, formada por um conjunto de 10 imagens verticais, a preto e branco, todas da Bretanha. E, finalmente, Rita Barros mostra na Loja da Atalaia (ao lado do restaurante Bica do Sapato), a  série, Displacement 2, que foi iniciada no final do verão de 2012 e que mostra o processo de desconstrução do Chelsea Hotel, em Nova Iorque, onde ela viveu durante vários anos e que tem sido uma inspiração recorrente na sua obra.




OUVIR- O fado, por estes dias, desenvolve-se entre a moda e a poluição, que na música andam de mãos dadas. Hélder Moutinho não é moda porque não tem época nem tempo. É diferente dos imitadores e das poluições porque a voz anda a par com o sentir - o sentir do peso das palavras e o sentir das músicas. Esta combinação não é frequente, é rara. Quando acontece, devemos ouvir. Quem canta assim, quem conjuga a voz com as guitarras e as violas, quem diz o que sente e pronuncia as palavras a fazerem poema, merece ser ouvido - embora, no meio das modas e poluições, não seja fácil conseguir voltar a ouvir. Mas, mal começa a tocar este “1987”, percebe-se que Hélder Moutinho é diferente. Precisa mesmo de ser ouvido. Bem ouvido. Sente-se como ele e Frederico Pereira, que assegurou a direcção musical e a produção, fizeram equipa. Dá gozo ouvir este disco, sentir o trabalho, a dedicação, o conceito, a imaginação. De certa forma este álbum é conceptual - desenvolve-se em cinco momentos - cada um deles escrito de forma diferente - por Hélder Moutinho ele próprio, José Fialho Gouveia, João Monge, Pedro Campos e Fernando Tordo, que fez um fado absolutamente surpreendente, de homenagem a Beatriz da Conceição, o culminar perfeito de um disco que é uma história de Amor e de Lisboa. Não por acaso o primeiro fado do disco explica tudo: “Venho De Um Tempo”. Daqui a um mês, dia 3 de Maio, Hélder Coutinho apresenta estes fados, ao vivo, no Teatro de S. Luiz. (CD “1987”, de Hélder Moutinho,  HM Música/ Valentim de Carvalho).




FOLHEAR - Foi preciso folhear com atenção a Monocle de Abril para descobrir uma marca de armações de óculos portuguesa exemplarmente desenhada - Paulino Spectacles, criada por Ramiro Pereira, e fabricada à mão em Portugal. Outra referência lusitana na mesma edição vai para o restaurante Can The Can, no Terreiro do Paço, onde se criam delícias a partir de conservas portuguesas, um projecto de Rui Pragal da Cunha que foi buscar o nome de uma canção de Suzi Quatro, a rainha do Glam Rock, para designar a casa. Logo por acaso o Can the Can está na mesma edição em que a Monocle fala do St John em Londres, do Vivant Table em Paris ou do célebre Noma em Copenhaga - isto além de um completo guia de viagem a Tanger. Mas a história mais deliciosa desta edição da Monocle é sobre o grande negócio que representa para os museus a venda de postais com reproduções de obras das suas exposições.O Nezu, um dos mais célebres museus japoneses, em Tóquio, recebe 180 000 visitantes por ano e vende cerca de um milhão de postais e o departamento de postais da Tate Modern, de Londres, vende 750.000 libras de postais por ano a 65 pence cada um, todos cuidadosamente impressos em  papel de 330 gramas. O mais vendido é o que reproduz uma obra de Salvador Dali e outro, de Roy Lichtenstein, segue a curta distância.




PROVAR - Mercearia do Peixe é um nome invulgar para um restaurante, mas ele funciona bem - e se o peixe é fresco e bem grelhado a carne não lhe fica atrás. Aqui exercem com perfeição o exercício dos bons grelhados, feitos a partir de boa matéria prima, seja tirada do mar, seja crescida em terra como um belo naco de boa carne. O serviço é simpático e eficiente, a sala é ampla com uma boa esplanada (agora coberta) que quando chegar finalmente o bom tempo deve ser bem agradável. Este é um daqueles restaurantes onde os preços são comedidos sem que isso signifique sacrifício na qualidade. Fica em Caxias, por trás do Jardim da Cascata Real, na Avenida António Florêncio dos Santos 7, telefone 214 420 678.




GOSTO- A editora portuguesa Planeta Tangerina foi considerada a melhor da Europa em livros para a infância


NÂO GOSTO - As fraudes em reformas e em subsídios da segurança social atingem cerca de cinco mil milhões de euros


BACK TO BASICS - Governo e sorte são necessários à vida, mas apenas um louco confia plenamente no Governo e na sorte - P.J. O’ Rourke



(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Abril)



abril 02, 2013

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DO IVA

Parece que os rapazes da troika andam muito surpreendidos com o facto de a electricidade estar cara e não ter tido grandes reduções de preço. Por mim falo, mas na realidade eu pago bem mais electricidade desde que se lembraram de aplicar o IVA a 23% a este consumo. Mas o IVA não se aplica apenas à energia que eu efectivamente consumo.


 


A EDP fez o favor de este mês incluir nas facturas um esclarecimento aos consumidores sobre a composição do preço. Fiquei a saber que cerca de 30% do total do valor que a EDP me factura, antes de IVA, vem das rendas pagas a municípios pela passagem da rede de abastecimento e dos subsídios à produção dos vários tipos de energia - atenção: dos subsídios e não dos custos de produção e comercialização que são outra coisa e estão indicados à parte.


 


Este apoio obrigatório que os consumidores têm que dar a mais de 30% do que lhes é cobrado, está também sujeito a IVA – apesar de, para todos os efeitos, ser uma espécie de taxa. Mas além de pagarmos IVA sobre estes subsídios, também pagamos IVA sobre a contribuição audiovisual obrigatória (que é o que alimenta a RTP para supostamente ela prestar serviço público), também pagamos IVA sobre o Imposto Especial de Consumo de Electricidade e também pagamos IVA sobre a Taxa de Exploração que se destina a pagar a existência da Direcção Geral de Energia.


 


Praticamente um terço do valor da factura de electricidade reflecte taxas e subsídios, também sujeitos a IVA – uma espécie de dupla tributação. Isto é um bocadinho de roubalheira, ou é impressão minha? Se o IVA, mesmo continuando a 23%, só fosse aplicado à parte correspondente à energia e à distribuição, aquilo que cada um de nós paga desceria quase sete por cento.


 


(Publicado no diário METRO de dia 2 de Abril)

março 28, 2013

CULTURA & SERVIÇO PÚBLICO + SUGESTÕES AVULSAS

CULTURA & SERVIÇO PÚBLICO - Num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?


Nesta conjuntura, porque deve existir um serviço público financiado pelos cidadāos, quando três quartos das casas têm cabo e acesso a mais de 50 canais de todo o mundo? O serviço público deve fazer concorrência aos privados, disputando com eles audiências e publicidade? Ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entertenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que passam nos canais de cabo emitidos em Portugal? As perguntas são numerosas, mas no fim resumem-se a isto: o serviço público deve investir em produção de stock, que possa ser reutilizada, emitida diversas vezes, ou, como tem predominantemente feito, investir em produção de fluxo que se esgota na primeira emissão? Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas. Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural nma acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos. Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.




SEMANADA - A Biblioteca Nacional contava em 2010 com 46.502 leitores presenciais, uma redução em relação aos 69.341 de 2000; Em 1997 existiam 164 bibliotecas escolares, em 2011 o total era de 2490, das quais 2069 no ensino básico público e 36 no ensino privado; em 2007 foram registados 17.097 novos títulos de livros, em 2011 o número desceu para 16.839, o valor mais baixo dos últimos anos; em 1960 existiam 437 recintos de espectáculos, em 2011 o número era de 165; em 1960 a percentagem de espectadores de cinema era de 2,9% por mil habitantes e em 2011 era de 1,5%; 2011 foi o ano com menor número de filmes portugueses exibidos desde 2000; o número de exibições de filmes de origem norte americana quadriplicou entre 1980 e 2011; o número médio de espectadores de cinema por sessão era de 334 em 1960, passou para 179 em 1980, reduziu para 56 em 1990 e caíu para 23 em 2011; em 2009 o Teatro Nacional de S. Carlos registou 46.272 espectadores de ópera e em 2011 desceu para 23.838, um numero ainda menor que os 27.675 de 1986; os gastos familiares com cultura e lazer desceram 9,5% no último ano.




ARCO DA VELHA - O número de exemplares vendidos de publicações de imprensa periódica em 2011 foi o mais baixo desde o início do milénio

VER - Na galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C, 2ª a 6ª, das 15 às 19h30), está uma mostra do trabalho realizado nos últimos 25 anos por Júlio Pomar sobre o suporte azulejo - como as figuras de convite, evocação dos painéis que eram colocados na entrada de edifícios numa atitude de cortesia. Na exposição, “Que Procura Vmê” estão também cerâmicas -  por exemplo  cinco peças  feitas a partir dos moldes de Bordallo Pinheriro, que resultaram de um desafio feito pela galerista, Ana Viegas, a Júlio Pomar, a propósito da comemoração do centenário da morte de Bordallo Pinheiro, em 2005.




OUVIR- O jazz é um território de cruzamentos, de fusões, de encontros inesperados, de desafios. Jason Moran, 38 anos, é um dos mais interessantes pianistas da nova geração do jazz americano, um contraste com o saxofonista Charles Lloyd, de 75 anos. São duas gerações de músicos, com influências diferentes. Moran integra a formação regular de Lloyd, mas em “Hagar’s Song” decidiram juntar-se apenas os dois. Charles Lloyd assegura o sax alto e tenor e flautas e Jason Moran o piano e tamborim. O título do álbum, e um dos seus temas, “Hagar Suite”, representam uma homenagem à avó de Lloyd, que foi uma escrava negra. Para além dos temas originais, intensos, aqui estão versões inesperadas e cativantes de Mood Indigo, de Duke Ellington, de “Bess You Are My Woman Now” de Gershwin, de “I Shall Be Released” de Bob Dylan e de “God Only Knows”, dos Beach Boyes, com quem aliás Lloyd tocou na California nos anos 70. CD ECM, na Amazon..




FOLHEAR - Como era o mundo do jazz na Lisboa entre os anos 20 e 50 do século passado? João Moreira dos Santos, um dos homens que mais se tem dedicado á investigação da história do jazz em Portugal, fez um curioso roteiro do que foi o despontar do jazz em Lisboa, desde clubes como o Bristol, a cabarets como o Maxim (que era no Palácio Foz), clubes como o Magestic ou o Nina (onde tocou Louis Armstrong), passando por cafés como o Negresco, o Hot Clube, ou salas como o Teatro Apolo, o Condes ou o Coliseu dos Recreios, não esquecendo o São Carlos onde já em 1925 se tocava jazz. Ao longo de uma centena de páginas compilam-se informações, pequenas histórias e curiosidades que ajudam a fazer o retrato de uma Lisboa cosmopolita - como se diz na capa, este é um “guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do jazz em Portugal”. Edição Casa Sassetti.


 


PROVAR - O pastel de Chaves é uma especialidade tradicional constituída por uma espécie de folhado finíssimo de carne picada no interior, com tempero transmontano. A receita original foi inventada há 150 anos e em 2012 passou a ser um produto de indicação geográfica protegida. Desde há algum tempo passou a ser possível prová-los em Lisboa, na loja Prazeres da Terra, que fica no nº6 do Largo Dona Estefãnia. Lá estão eles fresquinhos todos os dias, prontos a comer ou a levar, ou ainda congelados para fazer em casa á medida das necessidades - e na versão congelados há também um belo formato mini.A casa tem muitos e bons produtos transmontanos, de enchidos a azeite, passando por vinhos, queijos, compotas e o célebre pão de Gimonde, pitos de Santa Luzia, corvilhetes (umas empadas...) de Vila Real, ou o folar de Chaves. Um mundo de bons petiscos.




GOSTO- Na Islândia o sector das indústrias criativas tem uma receita que é o dobro da riqueza produzida pela agricultura e quase igual à receita das pescas.




NÂO GOSTO -  A receita produzida pelas  industrias criativas na economia, em Portugal, tem vindo a diminuir nos últimos cinco anos.




BACK TO BASICS - "Se tiveres a impressão de que és pequeno demais para poder mudar alguma coisa neste mundo, tenta dormir com um mosquito e verás qual dos dois impede o outro de dormir” - Dalai Lama




(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Abril)

março 26, 2013

Ò TEMPO VOLTA PARA TRÁS?

A notícia do regresso de José Sócrates à actividade política tem sido um dos motivos de grande animação nos últimos dias – a evocação do passado é sempre uma tentação.  Ninguém em seu perfeito juízo acredita que a intenção de Sócrates seja apenas observar e reflectir sobre o que se passa em Portugal e  na Europa, para mostrar o que aprendeu nestes quase dois anos de estudo de Ciência Política, em Paris. Obviamente ele quer ter espaço para se promover e o convite caíu-lhe no regaço em boa altura, ajudando-o na construção do puzzle que é o seu regresso à política. Marques Mendes  visou alto quando apontou que o objectivo de Sócrates seria preparar uma candidatura presidencial.  


 


A mim não me interessa particularmente se Sócrates já se decidiu a querer ser Presidente da República ou se está apenas a fazer tiro ao alvo a António José Seguro. Interessa-me mais saber porque é que um canal de serviço público considera importante e relevante usar a chicana política na luta de audiências com canais privados em torno do comentário político.


 


O meu ponto é sobretudo este: qual o sentido de todos andarmos a pagar um serviço público de televisão, que mensalmente nos é debitado na factura da electricidade, se o objectivo desse canal é fazer guerra de audiências? Isto faz algum sentido para o desenvolvimento do serviço público? Produz conteúdos relevantes no futuro? Ajuda a desenvolver a indústria do audiovisual? Claro que Sócrates tem todo o direito de escrever, falar, comentar. Escusa é de ser convidado para o fazer, como foi dito,  apenas porque ajuda a uma guerra de audiências da RTP com a SIC e a TVI.


 


(Publicado no diário METRO de 26 de Março)

março 22, 2013

UMA HISTÓRIA DE SUSPENSE E DE REGRESSO AO LOCAL DO CRIME

SUSPENSE - Existe uma contagem decrescente que está a agitar o país, a que conta os dias que faltam para ser divulgado o parecer do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento de Estado. Os sintomas estão à vista na radicalização das declaraçōes políticas dos mais diversos sectores. Esta semana os pedidos de mudança de executivo vieram de dentro do próprio PSD, o que para alguns foi entendido como um sinal de que circulariam já indícios de que os juízes do Palácio Ratton poderiam colocar o Governo em situação delicada. O Presidente da República, que tem cultivado demais o silêncio, também fez subitamente ouvir críticas sobre o rumo não só do país, mas também da Europa. Se juntarmos todas as peças começam a criar-se as condições para uma crise política. Mais do que provenientes das oposições, os mais preocupantes sinais de crise são aqueles que emanam do agudizar de contradições no ecosistema do poder - ou seja na base política do Governo. De Ângelo Correia a Pires de Lima sucederam-se reparos às opções que têm sido seguidas. Estas contradições, tão públicas e notórias, são a maior ameaça a Passos Coelho. Não deixa de ser espantoso que a oposição interna do PSD esteja a conseguir ser politicamente mais hábil que o aparelho do partido - que anda enredado na complicada teia das próximas autárquicas e da confusão criada em torno da lei de limitação de mandatos. Num clima destes tudo pode acontecer. E, de alguma forma, parte do aparelho prefere que mudanças, a ocorrerem, sucedam depressa. Pode ser que assim ainda se salve a honra do convento a tempo da ida às urnas.




RETORNADO - Fiquei a saber que Sócrates regressa à política, ao local onde já esteve - no caso um comentário semanal na RTP. Não sei se é pesadelo ou se é apenas notório mau-gosto. Mas é completamente absurdo. Não se trata de uma questão partidária, trata-se de bom senso. Sócrates fez o que fez, desapareceu como se sabe. É premiado com um programa onde comentará o que os outros políticos fazem - os do Governo e os do seu partido. Cá para mim António José Seguro deve ter dado saltos de contentamento quando leu a notícia nesta quinta-feira. Imagino, enternecido, Silva Pereira de mão dada com José Lello, embevecidos a olharem para o ecrã enquanto o chefe vai perorando. Vislumbro filas imensas de patrocinadores para o programa de Sócrates, todos interessados em associar as suas marcas ao grande líder. Quanto mais penso nisto, mais certeza tenho que o ridículo mata. E a falta de bom senso tem morto o serviço público.




SEMANADA - A dívida pública directa do Estado ultrapassou os 200 mil milhões de euros e aumenta a um ritmo de quase 100 mil euros por dia; em Portugal existem 735 mil casas vazias e há concelhos onde há mais alojamentos do que habitantes; em 40 concelhos nascem menos de dois bébés por mês; nos últimos três meses foram nomeadas mais de 250 pessoas para vários grupos de trabalho; Angelo Correia, que durante anos apoiou Passos Coelho na sua ascensão política, afirmou esta semana que são necessárias “mudanças profundas no Governo”; António Capucho e Angelo Correia apelaram à convocação do Conselho de Estado; António Pires de Lima disse-se chocado com o estilo do Governo e principalmente com o comportamento de Vitor Gaspar; Alberto João Jardim e Freitas do Amaral defenderam a mudança de Governo, mas sem eleições, e dentro do actual quadro parlamentar; maioria teme crise política depois de conhecida a decisão do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento de Estado; em Chipre há cerca de 200 futebolistas portugueses nos diversos escalões da modalidade, dos quais 51 na 1ª divisão; a utilização de vales de desconto cresceu 40% num só ano.




ARCO DA VELHA - A canção “Cacei o Grilo”, do bracarense Miguel Costa, com o refrão “cacei o grilo na toquinha/cacei o grilo à Zirinha”, levou uma vizinha do artista, de nome Alzira, a processá-lo e a exigir uma indeminização de seis mil euros, por entender que a cantiga lhe é dirigida e que a tornou alvo de chacota popular.

VER - Teresa Gonçalves Lobo desenha com um traço muito particular e o resultado produz um dos efeitos mais complicados de obter: criatividade com simplicidade e elegância. Isto é particularmente evidente na sua nova exposição patente na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva até 24 de Junho próximo - “i em pessoa”. Além de 42 desenhos originais, estão em destaque duas peças de mobiliário basedas na ideia matriz desta exposição, que é a forma da letra i. As peças de mobiliário, uma cadeira e uma chaise longue, foram executadas pelos mestres artífices da Fundação, seguindo os desenhos da artista, e acrescentam uma inesperada tridimensionalidade à obra. A ideia da Fundação é conseguir juntar artistas contemporâneos com os técnicos e os mestres das oficinas da FRESS, num processo integrado de trabalho. Na mesma linha surge um álbum, que agrupa 10 gravuras, assinadas e feitas sobre papel japonês pela artistas, mas depois acabado nas oficinas de encadernação e passamanaria da Fundação.




OUVIR- Quando encontro a expressão “Great American Songbook” penso logo em canções célebres da Broadway ou da idade de ouro de Hollywood - de qualquer forma alguma coisa feita antes do advento do rock. Quando olho para a ficha técnica penso em compositores com nomes como Gershwin, Rodgers, Hart ou Hammerstein. Tony Bennett é o último dos sobreviventes de um grupo que incluía Frank Siantra, Dean Martin ou Sammy Davis, por exemplo. Mantém-se igual a si próprio e nunca precisou de mudar o estilo para permanecer popular. “As Time Goes By - Great American Songbook Classics”, a colectânea agora editada, reúne na maior parte gravações originalmente feitas nos anos 70, quando o cantor resistiu a modernizar o seu estilo. Hoje, estas interpretações, são verdadeiros clássicos, como se constata logo em “Blue Moon”, mas também em “Reflections”, ou “As Time Goes By” - para falar só de alghuns temas de um lote que inclui também “The Lady Is A Tramp” ou “This Can’t Be Love”, por exemplo. Não vejo melhor maneira de começar a Primavera que ouvir este disco ao fim da tarde.




FOLHEAR - Conhecer a história recente nem sempre é fácil, escrever com perspectiva e  distância sobre  assuntos contemporâneos, mais ainda. Evitar que o relato seja enfadonho e conseguir que a história seja atraente é  ainda mais difícil.


“A Cimeira das Lajes: Portugal, Espanha e a Guerra do Iraque”, é um exemplo raro do que pode e deve ser a história recente vista, recordada e interpretada - neste caso por  Bernardo Pires de Lima. Este é um género raro em Portugal mas que fica com um standard estabelecido depois deste livro. As divergências entre Sampaio e Durão  Barroso em matéria de política externa lançam nova luz sobre o errático comportamento do então Presidente e sobre o princípio do fim do regime, a que hoje assistimos com clareza. Percebe-se agora o que levou Bush a manter  o comando da Nato em Oeiras, que concessões foram feitas, o que estava em cima da mesa. Esta é uma visão do que foram as manobras, alianças e guerras internas no Portugal desse tempo. Fica claro que Durão começou então a sua campanha para Presidente da Comissão Europeia. Com a proverbial paciência que se lhe reconhece jogou xadrez melhor que os outros, irritou Sampaio,  contrariou-o e, no fim, literalmente ficou na fotografia. O tempo dirá se ficou bem. Edições Tinta da China.




PROVAR - Uma das mais deliciosas conservas que experimentei nos últimos tempos é o mexilhão fumado, em azeite, produzido pela Tricana. Cada lata custa 3,10 euros e posso garantir que duas latas fazem uma bela entrada para quatro pessoas com uns toques de uma salada apropriada. Em alternativa podem ser bem usadas para tapear, sobre rodelas de batata doce assada. A conjugação de sabores funciona bem, o mexilhão fumado tem um travo delicioso e viciante, e um bom vinho branco levemente frutado, como o magnífico Altano, da Symington, acompanha na perfeição. A Conserveira de Lisboa (Rua dos Bacalhoeiros 34) tem normalmente a gama de produtos da Tricana.




PALAVRAS - “Se Merkel pensasse e ouvisse, antes de agir e exigir, não teria criado tantos problemas” - Luis Campos e Cunha




GOSTO - Nasceu uma nova casa para ver fotografia em Lisboa - A Pequena Galeria, na 24 de Julho, 4C.




NÂO GOSTO - Vitor Gaspar prevê mais cem mil desempregados até final deste ano


BACK TO BASICS -  A minha noção de activismo político não é bem carregar num botão para assinar uma petição online - Jody Williams



(Publicado no Jornal de negócios de 22 de Março)

março 19, 2013

O ADIVINHO

Eu, se fosse aos astrólogos, irritava-me com a comparação que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa fez entre eles e o Ministro Gaspar. Eu acho a afirmação do professor Marcelo muito maldosa para os astrólogos – eles aliás não têm culpa nenhuma do que está a acontecer. Passo a explicar: é que os astrólogos já provaram que são bem mais certeiros nas suas  previsões do que aquilo que o Ministro Gaspar faz.


Neste espaço de dois anos que leva de Governo o Ministro Gaspar ainda não acertou uma previsão – já viram bem? Tudo aquilo que se mete a adivinhar, sai furado. Se o homem tivesse bom senso, deixava de fazer previsões e passava apenas a relatar ocorrências. Sempre ouvi dizer que a astrologia é um caso de estudo, preparação e rigor – não é apenas lançar palpites ao ar, ao sabor das circunstâncias, que é a especialidade do Ministro Gaspar.


 


Por isso os verdadeiros astrólogos têm razão quando se aborrecem com a comparação entre eles e o Ministro. O próprio Fernando Pessoa, que reconheceu em tempos ter havido uma época em que se dedicou a interpretar os astros, havia de dar saltos se o comparassem a Gaspar.  Tudo seria mais simples se Vitor Gaspar  tivesse o título de “Ministro do Erro” em vez de “Ministro das Finanças”. Voltando ao Professor Marcelo a única coisa que me faz sorrir é imaginar Gaspar frente a uma bola de cristal, com olhar intrigado, a querer perceber porque erra tanto; sem encontrar a resposta, acabou por dar uma martelada na bola, para a ver por dentro. Ficou com um monte de cacos à sua frente – mais ou menos o mesmo que está a fazer ao país.


 


(Publicado no Metro de hoje)

março 15, 2013

O SISTEMA NUMA ENCRUZILHADA & SUGESTÕES AVULSAS

SISTEMA - A história recente resume-se a isto: sai um partido, entra outro; sai este, regressa o anterior; os eleitores vivem cada vez pior e o país afunda-se. O sistema não funciona - está feito não para resolver problemas e tomar medidas, mas para votar promessas e pagar favores. Não favorece rupturas, privilegia a continuidade. Quando o mal se instala uma vez, perpetua-se. Em consequência, as pessoas deixam de acreditar nos políticos e nos partidos. Esta semana um grupo de figuras, muito maioritariamente do mesmo lado do espectro político, lançou um “Manifesto Pela Democratização do Regime” que, espero, não se transforme numa espécie de Frente Popular dos desiludidos do PS, Bloco e de algum PC. No entanto, reconheço que dizem coisas com sentido desde o processo de escolha dos candidatos, até ao processo de criação de listas independentes. Afirmam, com razão, que  “a Assembleia da República representa hoje sobretudo – com honrosas excepções – um emprego garantido, conseguido por anos de subserviência às direcções partidárias e de onde desapareceu a vontade de ajuizar e de controlar os actos dos governos.” Mas noutros pontos o Manifesto é conservador ao extremo, ao não admitir que o mundo mudou, que muitos erros foram feitos e têm que ser corrigidos mesmo que isso provoque alterações na vida das pessoas. De um lado propõe mudanças, do outro defende o que existe e, na Europa, persegue ainda a perigosa fantasia que se vai cada vez mais transformando em pesadelo. No fundo é inconsequente. É pena, porque a discussão da mudança da Lei Eleitoral e do funcionamento do sistema é fundamental, e deve incluir o anacrónico semipresidencialismo - levado ao extremo por Cavaco - cujos custos hoje estão bem à vista. Se não conseguirmos mudar o funcionamento, não mudaremos o sistema, que se alimenta da credulidade dos eleitores e do esmagamento dos contribuintes.



SEMANADA - Segundo dados da PSP, no último ano ocorreram em Lisboa  1,5 manifestações por dia, em média; a recessão está a destruir 535 empregos por dia ao longo do último ano; a procura interna registou uma quebra de 6,8%; estão a sair do país, em busca de trabalho no estrangeiro, 180 pessoas por dia; a PSP do Porto tem 200 viaturas paradas à espera de reparação, quase metade da sua frota; uma mulher de 30 anos foi detida em Barcelos quando levava a filha à escola às 9 da manhã, com uma taxa de alcoolémia de 2,85; a Câmara Municipal de Lisboa pretende concessionar o Pavilhão dos Desportos para instalação de uma discoteca; o Ministério da Educação já perdeu 150 acções judiciais por não pagar a professores; no sector da construção o crédito malparado já atinge 19,3% do volume dos empréstimos; Fronteira, Vidigueira e Alvito são as zonas do país onde se verificam taxas mais altas de insucesso escolar; a administração pública está a demorar, em média, 140 dias a liquidar as facturas aos fornecedores - contra os 61 dias da média comunitária.



ARCO DA VELHA - A China produz 85 mil milhões de pauzinhos de madeira, o que significa o abate de pelo menos 20 milhões de árvores para os fabricar;.



VER - Uma boa surpresa é o que chamo à  exposição “Fotógrafos do Mundo Português, 1940”, que até 26 de Maio está no Padrão dos Descobrimentos, em Belém. Gostei de, num domingo destes, ver o Padrão cheio de visitantes, portugueses e estrangeiros , e de ver esta exposição seguida com atenção. Tem imagens hoje surpreendentes, que acompanham a construção e a realização da “Exposição do Mundo Português”, que foi inaugurada a 23 de Junho de 1940. esta exposição do Padrão recolhe o trabalho de nove destacados fotógrafos da época ao longo dos dois anos que demorou a pôr de pé a Exposição do Mundo Português, culminando na sua abertura ao público - Horácio e Mário Novais, Eduardo Portugal, Paulo Guedes, Kurt Pinto, António Passaporte, Ferreira da Cunha, Abreu Nunes e Casimiro Vinagre são os autores representados. Bem enquadrada por um texto de Margarida Acciaiuoli sobre a época e os trabalhos apresentados, cito como ela sublinha o poder da fotografia nestas imagens - “a fotografia de um evento ultrapassa sempre o próprio evento”. A entrada custa três euros mas além das exposições dá direito a subir ao alto do Padrão, de onde se tem uma vista única sobre Lisboa e o estuário do Tejo.



OUVIR- De repente, e de forma algo inesperada, David Bowie colocou a circular em Janeiro, na altura do seu 67º aniversário,  a primeira canção de um novo disco. A canção, intitulada “Where Are We Now”, é uma evocação dos seus álbuns na época em que viveu em Berlim. A capa do novo CD, uma destruição da capa de “Heroes”, o segundo dos discos da trilogia berlinense, evoca esse olhar, destacado pela frase “The Next Day”, que é o título do álbum e também da primeira canção, um olhar sobre a mortalidade e transitoriedade da vida. A mortalidade é aliás o tema que percorre este 24º disco de Bowie, no ano em que uma exposição no Vistoria & Albert Museum de Londres (até 11 de Agosto) lhe dá um estatuto invulgar no panorama da cultura popular. Primeiro disco de originais dos últimos 10 anos, surge numa altura que em muitos podiam bem pensar que David Bowie se encontrava a gozar uma tranquila reforma. Mas a energia e qualidade deste trabalho voltam a colocar em questão a ideia feita de que as estrelas da cultura popular  desaparecem rápido. Os últimos anos têm assistido à demonstração do contrário e Bowie mostra como está ao seu melhor nível em canções como as já referidas, ou ainda “Dirty Boys”, “You Feel So Lonely You Could Die”, “If You Can See Me”, “Love Is Lost”, “I’d Rather Be High” ou a belíssima “Heat” que encerra o disco, e que é um manual de tudo o que fascina na criatividade de Bowie. Um crítico inglês resumiu bem a situação, descrevendo “The Next Day” como “inovativo, sombrio, arrojado e criativo - um álbum como apenas Bowie podia fazer”. (CD Sony Music na Amazon ou iTunes).



FOLHEAR - A revista “Intelligent Life”, do grupo “The Economist”, tem uma bela edição para iPad totalmente gratuita, financiada por publicidade exclusiva do Crédit Suisse. Na edição de Março/Abril a capa é dedicada ao maestro venezuelano Gustavo Dudamel, cuja história é bem contada, percebendo-se o impacto que ele está a ter na forma de divulgar a música clássica. Numa área completamente diferente há uma recolha da opinião de seis escritores sobre quais são os melhores cheiros do mundo - de rosas a bacon a fritar, passando pelo cheiro do pão a fazer ou da chuva no meio do campo. O guia da cidade nesta edição é dedicado a Copenhague, há uma bela história sobre fechos éclair e outra sobre o surgimento do novo Jaguar F, traçando o paralelo com o nascimento do jaguar E em 1961. A terminar, destaque para um artigo sobre a cultura do cacau em São Tomé e Princípe ao longo da história, da escravidão aos tempos actuais - com citações de Claudio Corrallo, o italiano que tem ajudado a recolocar o arquipélago no mapa como o produtor do melhor cacau - e do melhor chocolate do mundo. Na música, uma lista imperdível de canções para dias de chuva, uma pérola nos tempos húmidos que correm.



PROVAR - Já aqui tenho dito que o Salsa & Coentros, em Alvalade, é dos meus restaurantes preferidos em Lisboa. Em matéria de restauração estou cada vez menos inclinado a experimentar extravagâncias e mais inclinado a manter-me fiel aos clássicos. E uma coisa engraçada é que no Salsa & Coentros, que desde 2006 é um porto seguro, além das sólidas propostas tradicionais da ementa, existem volta e meia umas novidades - e tudo funciona a preços sensatos. Já  elogiei a empada de cozido que me deram a experimentar há uns meses e desta vez venho partilhar o arroz de tordos. Aqui está um petisco que não me passava á frente há muitos anos. Estava impecável, no tempero, no ponto da carne, na cozedura do arroz. Nada a dizer. Soube-me mesmo muito bem. Quando lá forem perguntem sempre o que há, e que não esteja na lista - o Sr. Duarte tem sempre umas surpresas guardadas.  Rua Coronel Marques Leitão, 12, telef 218 410 990.




GOSTO- Da recolha de música portuguesa “Deem-me duas velhinhas, Eu Dou-vos o Universo” que agrupa 26 temas populares feita por Tiago Pereira, com o apoio da Optimus.



NÂO GOSTO - Lisboa está outra vez toda suja e esburacada e não vejo António Costa a fazer nada sobre o assunto.


BACK TO BASICS - O verdadeiro mistério do mundo está no que é visível, não naquilo que é invisível - Oscar Wilde

março 12, 2013

POR UMA CANDIDATURA ANTI- EMEL

Uma das coisas que falta nas próximas autárquicas de Lisboa é uma posição clara, dos vários candidatos, sobre essa aberração chamada EMEL, uma entidade especializada em dar cabo da vida dos lisboetas – dos contribuintes que aqui pagam imposto automóvel, que aqui vivem, que aqui pagam taxas municipais de esgotos e de tudo o resto, que aqui pagam IMI e que por persistirem em continuar a viver em Lisboa, apesar de todos os atropelas, são penalizados.


 


Em Abril de 2011, na sequência de alterações solicitadas pela EMEL e patrocinadas pelo executivo municipal, a Assembleia Municipal lamentavelmente aprovou alterações à atribuição do cartão de estacionamento de residente, que dificultam ainda mais a vida dos lisboetas e permitem a intromissão abusiva na sua esfera privada.  As alterações são uma maneira de, a coberto de pretextos burocráticos, interferir na vida pessoal dos cidadãos. De facto, se um cidadão residir em Lisboa, estiver registado na sua morada, mas se por uma qualquer razão – vida em comum por exemplo -  viver noutro local da cidade mantendo no entanto a residência anterior, fica proibido de pedir estacionamento na nova morada, ao contrário do que acontecia anteriormente.


 


Qualquer cidadão com residência em Lisboa, eleitor e contribuinte registado na cidade, devia poder, enquanto mantiver essa qualidade, solicitar o seu direito a estacionamento noutro local se a vida o levar a isso e anulando a localização anterior, bem entendido. Tudo o resto é absoluta intromissão na esfera privada e é um abuso burocrático – daqueles que os inventores das rotundas anacrónicas e da caça cega às multas gostam de fazer para verem se conseguem que Lisboa fica ainda com menos habitantes. Quem avança contra  a EMEL?




(Publicado no Metro de dia 12 de Março)

março 08, 2013

A ATRACÇÃO PELO ABISMO EM LISBOA, O VAZIO ITALIANO E NOTAS AVULSAS

LISBOA - Quando um partido chama para candidato autárquico o ex-trunfo eleitoral trágico-cómico de um candidato derrotado a um clube de futebol, está tudo dito. Seara fica o equivalente PSD do sportinguista Dias Ferreira ao convidar Paulo Futre para presidente da Junta de Freguesia de Campolide. E quem, nos partidos que apoiam a candidatura de Seara, assobia para o ar enquanto a avançada de Futre se desenrola, fica potencialmente fora de jogo por melhores intenções que tenha. Assim já temos um cómico nas autárquicas em Lisboa - e ainda a procissão vai no adro. O autismo dos protagonistas políticos é aquilo que mais facilita o discurso contra os partidos. E quando um discurso nasce por isto, não é um discurso contra a democracia, mas apenas uma chamada de atenção para a tentar salvar. A democracia não se fortalece com a indiferença face a imbecilidades.

ITÁLIA - Não resisto a transcrever este excerto que dá o mote a um brilhante artigo de um colunista do Corriere Della Sera, Beppe Severgnini, publicado esta semana na revista Time: “Em Roma não há Papa, o Primeiro Ministro Mario Monti está de saída, o recém eleito Parlamento parece irremediavelmente comprometido, e o Presidente Giorgio Napolitano está a dez semanas de se reformar, o que quer dizer que já não tem poderes constitucionais para convocar novas eleições - e pode até acontecer que saia de cena mais cedo que planeado, deixando a Itália completamente sem liderança.”

SEMANADA - A venda de casas já caíu cerca de 50%; o valor médio das transacções de imobiliário caíu 20% em 2011 e cerca de 25% no ano passado; Lisboa registou a maior queda, com 61% de queda, seguida do Algarve com 57%; o Estado tem já mais pensionistas que funcionários activos; actualmente, em Portugal, há 16 vezes mais pessoas insolventes que em 2008; a A5 teve uma quebra de circulação de 6 mil veículos por dia em 2012; o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana recebe cerca de 300 pedidos de esclarecimento diários, de inquilinos e senhorios, sobre a nova Lei das Rendas; Merkel vai ter de defrontar nas próximas eleições um partido anti-euro, “Alternativa Para a Alemanha”, criado à volta das figuras que quiseram vetar a participação do país no primeiro resgate à Grécia; Vitor Gaspar defende que o esforço de Portugal no pagamento da dívida à troika deve ser maior que o da Irlanda; pelas contas do Governo, Portugal vai levar quatro décadas a colocar a dívida pública em 60% do PIB; numa feira industrial de calçado em Milão estão 114 marcas portuguesas, que exportam 500 milhões de euros e empregam 6000 pessoas.

ARCO DA VELHA - Em Tomar um advogado levou uma arma para a sala de audiências, na leitura de uma sentença, afirmanndo que não sente confiança na segurança dos tribunais portugueses.

VER - Nestes tempos conturbados há uma exposição que merece uma visita: “Cartazes de Propaganda Chinesa - A Arte Ao Serviço da Política”. A exposição está no Museu do Oriente até final de Outubro e mostra uma centena de cartazes de propaganda política chinesa, produzidos entre 1959 e 1981 e que constituem um documento histórico da celebração da agitação e propaganda, no período que vai do Grande Salto em Frente e da criação das Comunas Populares ao fim da Revolução Cultural. Esta centena de cartazes integra a Colecção Kwok On da Fundação Oriente e mostra os temas mais correntemente abordados à época, como a glorificação do presidente Mao Zedong e dos heróis comunistas, a prosperidade da economia, a luta contra o imperialismo, a felicidade do povo e o poder do exército. Alguns destes cartazes tinham tiragens enormes, da ordem das dezenas de milhar de exemplares e integravam o quotidiano das cidades chinesas. Eram na realidade peças de arte ao serviço da política, evidenciando o impacto que a imagem pode ter na comunicação. É curioso também notar a influência do grafismo destes cartazes na propaganda portuguesa nos anos a seguir a 1974 e, já agora, é muito curioso comparar com o que é feito hoje em dia - graficamente mais pobre, predomínio da palavra sobre a imagem, desaparecimento de figuras heróicas ou exemplares. Como quase tudo na vida, a tendência ressurgirá um dia destes. Imperdível para quem se interesse por comunicação política. E pela agitação que deve inspirar a propaganda.

OUVIR- “Apetece-me tanto ouvir Schubert”, dizia ela num Domingo de manhã. Por sorte estava aqui o disco - o novo trabalho de Maria João Pires, onde  interpreta  duas das sonatas mais célebres de Schubert . A Sonata n.º 16, em Lá menor, foi apresentada pelo próprio compositor como a sua “Primeira Grande Sonata”; e  a Sonata n.º 21 em Si Bemol maior, a derradeira do compositor, concluída pouco tempo antes da sua morte, considerada uma das mais substanciais obras para piano da última fase de Schubert. As gravações foram feitas em estúdio, em Hamburgo, em 2011, e são um exercício de maturidade da pianista, ao preferir, nas suas próprias palavras, "não tomar cada obra como um todo, mas simplesmente tocá-la tal como ela é dada” pelo compositor. O exercício resulta, e é uma prova de comedimento e de modéstia, coisas que os intérpretes exuberantes não apreciam. Felizmente Maria João Pires não alinha nessa categoria. A sua interpretação mostra a expressividade da música de Schubert, mas respeita as suas nuances, o seu colorido. Sobretudo no final da segunda sonata percebe-se a sensibilidade de Maria João Pires, a sua técnica colocada ao serviço do respeito pela música, tal como ela foi imaginada. CD Deutsche Grammophon.

FOLHEAR - Em plena hecatombe europeia, este é um dos números mais provocantes da revista mensal Monocle. O título diz tudo: “Why The World Needs The New Germans”. Em destaque estão 12 personalidades alemãs contemporâneas que “o mundo deve conhecer”, desde arquitectos a apresentadores de televisão, passando por designers de automóveis, artistas, cientistas, directores de museus e até uma jogadora de futebol. Mas esta “Monocle” dedica-se também a contar a história de ícones alemães, como os lápis da Faber ou os ursos doces da Haribo. Há também um portfolio que representa empresas industriais de pequena e média dimensão, que se distinguem pelo contributo que dão para a economia - desde um fabricante de orgãos para igrejas, até material científico para escolas, máquinas tipográficas como a histórica Heidelberg ou, até, uma fábrica de trelas para cães e outra de torneiras. Claro que há muito mais para ler, desde propostas culinárias e gastronómicas até às obrigaçōes e estratégia das emissões internacionais da televisão pública alemã (um artigo bem engraçado na nossa conjuntura...) ou, finalmente, o movimento de ressurgimento das artes na Baviera.

PROVAR - Em Lisboa, ao contrário de outras cidades, não há muitos bares equipados com vários ecrãs para nas noites europeias se verem os diversos jogos ao mesmo tempo. Pois fiquem, sabendo que agora existe um lugar assim no Hotel Real Parque, na Avenida Luis Bivar 67. Em tempos já aqui elogiei o restaurante deste hotel, louvaminhando em especial o cozido à portuguesa das terças-feiras. Mas hoje o assunto é como passar um fim de tarde com  amigos a olhar para o ecrã- O Real Sports Bar é um sítio raro, onde tanto se pode comer um belo prego em bolo do caco, prego do lombo acondicionado em manteiga de alho - uma coisa pecaminosa. Ou, então, um belo de um um hamburguer feito de carne da vazia com bacon, bom queijo, cebola, alface, servidos numa simples focaccia, com toques de rúcula e o natural acompamnhamento da batata frita. Se nada disto atrai peçam uma tábiua de queijos ou um prato de carnes frias e um copo de vimnho. Get ready. Esta cidade anda pasmada e sítios assim ajudam a recuperar da crise. A bons preços, esclareço.

GOSTO - Várias marcas de luxo, nos têxteis e calçados, abandonaram as fábricas da Ásia e voltaram a produzir em Portugal, não pelo preço, mas pela qualidade;

NÃO GOSTO - Da atitude de laxismo do Estado na recuperação dos créditos do antigo BPN;

PALAVREADO - Mais vale cavalo na lasanha que asnos no poder - cartaz de uma manifestação recente em França

BACK TO BASICS - A pobreza apadrinha a revolução e o crime - Aristóteles




(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Março)

março 05, 2013

TRAGICOMÉDIA POLÍTICA

Quando um cómico tem bom resultado eleitoral  fica provado que a política se transformou por completo em comédia. A culpa disso não é do cómico, neste caso de Beppe Grillo, e do seu movimento “Cinco Estrelas”. A culpa é dos políticos que desacreditaram o funcionamento do sistema até ao ponto em que as pessoas ou deixam de votar ou votam de uma forma cáustica, para mostrarem a sua distância em relação aos partidos tradicionais.


 


Beppe Grillo, que ganhou fama na televisão, desde há anos que faz da crítica à corrupção na política o tema do seu humor cáustico, mas foi a sua intervenção, primeiro num blogue, e, depois, no facebook  e noutras redes sociais que massificou verdadeiramente o seu posicionamento político e o do seu movimento.


 


Mais cedo ou mais tarde um fenómeno semelhante repetir-se-à noutros países – e o sucesso obtido nestas eleições italianas vai servir de catalisador para surgirem localmente candidatos a assumirem o papel de Beppe Grillo. Não me admiraria se nestas autárquicas alguma coisa surgisse já – aliás foi precisamente pelas eleições autárquicas de há uns anos atrás que o movimento de Grillo iniciou a sua intervenção política em actos eleitorais.


 


Durante uns anos o Bloco de Esquerda foi o refúgio dos descrentes, mas ele acabou por se institucionalizar e existe um vazio no espectro partidário – com a particularidade de poder ser abrangente em termos ideológicos,  já que o protesto contra a desgraça do sistema e dos partidos que existem é o ponto de partida de tudo. Vamos ver quem assumirá o papel de Beppe Grillo na tragicomédia em que se tem transformado a política em Portugal.


 


(Publicado no diário Metro de 5 de Março)

março 01, 2013

Sobre cavalos, incoerências, exposições, ben harper, hollywood e petiscos

DESCARAMENTO - A afirmação mais extraordinária desta semana vem do Sr. Seguro: diz ele que o Sr. Coelho tem que pedir desculpa pelo que anda a fazer. Gostaria de ter ouvido o Sr. Seguro dizer o mesmo ao Sr. Sócrates - ou pelo menos não ter a desfaçatez de exigir desculpas sem antes ter reconhecido os erros. A súbita determinação do Sr. Seguro surge na semana em que a oposição se junta para se manifestar contra as medidas que o PS subscreveu quando chamou a Troika. Eu não gosto especialmente de muito do que este Governo tem feito - e admito que até me desagrada mais a forma que o conteúdo. Mas desagrada-me ainda mais aqueles que não querem mudar a situação que nos trouxe até aqui e não fazem uma só proposta concreta. O Sr. Seguro só me faz pensar que são verdadeiras as minhas piores suspeitas sobre a falta de decoro dos políticos. A amnésia. na política, é o veneno que mata a democracia. Por falar nisso registemos, para memória futura, o que o Sr. Sócrates anda a fazer na sua nova vida profissional, como facilitador de compras de medicamentos por estados sul-americanos.




CAVALAR - Pelo andar que as coisas levam, qualquer dia arriscamo-nos a que comece a ser retirada do mercado carne de cavalo devidamente identificada por nela terem sido encontrados vestígios da carne de burro. Este episódio da mistela de carnes é uma bom retrato da Europa da Política Agrícola Comum - talvez fosse melhor chamar-lhe da máxima aldrabice comum. Há duas certezas nisto: os sistemas de regulação não funcionam e os fabricantes e vendedores não se preocupam em ter a certeza daquilo que utilizam e vendem. Acessoriamente percebe-se que nunca foi tão verdade o princípio de vender gato por lebre, garantindo a utilização de matéria prima mais barata, aldrabando os consumidores sobre a sua origem. Por cá o extraordinário Sr. Nunes da ASAE, que durante meses perseguiu as colheres de pau e as chouriças, acordou pressuroso a levantar autos que são a confirmação de que antes não fez o trabalho de casa nem se preocupou. Preferiu sempre o mais fácil e espalhafatoso, ao mais necessário. Por isso mesmo é que estamos a comer almondegas de cavalo em lojas de mobiliário. É um sinal dos tempos e uma boa descrição da Europa.  

SEMANADA - Em dois anos Portugal foi o país da Europa que mais cortou na despesa social, tendo feito uma redução de 3,7 mil milhões de euros; a massa salarial do Estado deve cair 2,4% no próximo ano, a maior redução na Europa; as previsões da Comissão Europeia sobre o défice orçamental português são maiores que aquelas que o Governo assume; em 2012 o custo dos juros da dívida do Estado vai ser de 732 euros por cada cidadão português; em 2012 a nacionalidade portuguesa foi atribuída a 84 mil pessoas; 24% da população lisboeta tem mais de 65 anos de idade;  a capital tem a população mais idosa do país; 16% do parque habitacional de Lisboa está vazio; Lisboa tem hoje menos de um terço dos habitantes que tinha em 1960; 90 por cento do corpo de segurança especial da PSP passou a estar destacado para proteger membros do Governo e Presidente da República; 58 agentes da GNR e PSP foram expulsos por corrupção (a maioria), violência doméstica e até homicídio; antigos para-quedistas vão entregar uma providência cautelar para suspender um concurso de compra de 11 mil boinas verdes para a GNR, considerando que a escolha da cor pela GNR é uma ofensa à sua honra.

ARCO DA VELHA - Portugal é o único país em que quase se abre uma crise política em torno de uma diferença numa letra escrita numa Lei.  Saber se essa Lei se refere a “de” ou a “da” seria cómico, se não fosse trágico. Espantosamente a descoberta da diferença na letra veio do Presidente da República, mas todos os partidos ficaram insensíveis à novidade.

VER - A nova exposição de Inez Teixeira propõe uma viagem pelo mundo do fantástico, com referências pop e à banda desenhada. A definição pode parecer simplista, mas revela o que senti. E senti-me muito bem a ver estes trabalhos, feitos de um imenso pormenor e da exploração dos limites da  imaginação, desafiando a realidade. No trabalho de Inez Teixeira fascina-me esse pormenor, o detalhe, o sentido insinuado da fantasia que surge para além das aparências. Se puderem não a percam, nas salas Cinzeiro 8 do Museu da Electricidade até 26 de Maio.

DESCOBRIR - Manuel João Vieira pegou na sua casa e levou-a para a Cordoaria. Não estou a exagerar - levou o recheio do seu apartamento e replicou o seu espaço doméstico, encenando-o com um a teia complexa de paredes simuladas por carpintaria, onde agora reside o que tinha na sua casa num pacato bairro lisboeta. Levou tudo - as guitarras, os bandolins, os amplificadores, o piano. Levou a cama, o fogão e o frigorífico. Levou os discos, os livros, as roupas e os chinelos. Levou-se também a ele próprio, que agora lá vive, à vista de todos. Os visitantes passeiam-se nesta exposição como na sua casa - quer dizer, visitam a sua vida. É uma instalação radical, de íntima e exposta que fica.  Há muito que não via uma imaginação assim em movimento, provocadora, estimulante. Exposição mais interactiva que esta, não há.

OUVIR- Ben Harper tem feito os seus melhores discos sempre na companhia de alguém. Agora chamou para o seu lado Charlie Musselwhite, um lendário bluesman, que acompanhou com a sua harmónica nomes como John Lee Hooker. A BBC chamou a este novo disco de Ben Harper, “Get Up!”, um exemplo de blues do século XXI. A coisa pode parecer exagero mas na realidade há muito que não sentia os blues assim tocados. O dueto entre a harmónica de Musselwhite e a voz e guitarra de Ben Harper é um exemplo de entusiasmo e do melhor que se pode fazer na música popular quando o tema é reinterpretar a tradição, inovando-a - algo que se tem tornado a especialidade de Ben Harper ao longo das duas décadas que já leva de carreira.

FOLHEAR -  A edição especial de Março da revista norte-americana “Vanity Fair” é sempre dedicada a Hollywood, tendo por pretexto a atribuição anual dos Oscars. Não interessa aqui quem ganhou - o objectivo é dar uma outra visão de tudo o que rodeia o mundo do cinema norte-americano, que culmina naquela cerimónia de prémios. Na capa estão Ben Affleck, Emma Stone e Bradley Cooper, fotografados por Bruce Weber, que assina o portfolio desta edição especial. Destaque também para a história da vida de Merv Adelson, um dos grandes produtores de televisão (Dallas por exemplo) e da forma como esteve ligado à Mafia - curiosa reportagem numa edição dedicada a Hollywood. Para além do cinema, destaque para um perfil de Rahm Emanuel, que de braço direito do Presidente passou para mayor de Chicago e se posiciona como um dos mais importantes políticos americanos.Robert de Niro responde ao tradiciopnal questionário de Proust que encerra a revista e o desenhador português André Carrilho tem honras de convidado especial para desenhar quem é quem hoje em dia em Hollywood.

PROVAR - Durante meses tentei, sem sucesso, ir jantar ao Cantinho do Avilez, no Chiado - esbarrei sempre na exigência irritante dos dois turnos - um às oito, cedo demais, outro às dez, demasiado tarde. Por um golpe de sorte, um dia destes, passava no local à hora de almoço num fim de semana e havia mesa para dois. Valeu bem a pena - logo no começo, desde as azeitonas (tão bem temperadas), às tostas finíssimas, quase rendilhadas, até ao creme de tomate com azeite e alho que também vem no couvert. Na mesa ao lado havia uns peixinhos da horta que faziam água na boca, mas ajuizadamente ficámos por uma vieiras na frigideira com batata doce (que me disseram estar soberbas) e eu por um bife à portuguesa com batata frita - tudo honestíssimo - do tempero à qualidade da carne, passando pela impecável fritura das batatas. Fritar bem é coisa rara e este Cantinho sabe do que fala. A escolha dos vinhos a copo é ampla e o tinto de José Avilez em parceria com Bento dos Santos, que surge como a recomendação da casa, tem uma excelente relação de qualidade-preço. O serviço é simpático e atento, e na mesa ao lado um americano bonacheirão deliciava-se com petiscos, bem explicados em inglês pelos empregados.Enquanto o americano se espantava com o preço módico do copo de vinho, eu finalizava em beleza com um sorvete de limão com mangericão. O Cantinho do Avilez fica na Rua dos Duques de Bragança nº7 e tem o telefone  211 992 369. Hei-de lá voltar, se tiver a sorte de arranjar lugar.

GOSTO - Mais de 500 mil visitantes chegam anualmente ao Porto de Lisboa em cruzeiros turísticos.

NÂO GOSTO - De ver militares, oficiais e generais, em jantares de pressão política.

BACK TO BASICS - O maior medo que se pode ter na vida é temer constantemente que se possa errar - Elbert Hubbard




(Publicado no Jornal de Negócios de dia 1 de Março)

fevereiro 26, 2013

MANUAL DA OPOSIÇÃO

Esta semana vai ser quentinha – não estou a falar das condições atmosféricas, refiro-me à situação política e social. As manifestações convocadas para o próximo sábado já não são iniciativas espontâneas, como aconteceu há uns meses. Agora há apoios de sindicatos, de associações, de partidos, existe uma grande confluência, digamos, de vontades e de espíritos. O que a anterior manifestação tinha de fator aglutinador, esta tem de fator redutor. Alguns partidos foram incapazes de resistir à tentação de meter a foice em seara alheia. Surpreendidos há uns meses pela dimensão e abrangência do protesto, aborrecidos por tudo ter acontecido à sua margem, ei-los agora a tomar conta da ocorrência. Esta não é uma boa notícia: a partidarização desta iniciativa, já inevitável no estado em que as coisas estão, vai reduzir o seu alcance, apesar de ter que se reconhecer que a construção da imagem frentista está a ser feita com arte: desde as cantilenas de protesto, aos apoios diários que se sucedem, passando pelos murais pintados em direto para a televisão ou os episódios encenados deixados no YouTube, cria-se a sensação de uma grande frente. Há menos improviso, mais coordenação – notoriamente existe uma organização. A imagem que agora está a ser construída é diferente da anterior: trata-se de uma campanha de esquerda, com símbolos tradicionais da esquerda, com recurso a métodos tradicionais das organizações de esquerda, contra um governo de direita. Deixou de ser um protesto dos descontentes, passou a ser um protesto da oposição. Esta diferença é grande. Vamos a ver no que resulta.


 


(Publicado no diário Metro de 26 de Fevereiro)

fevereiro 22, 2013

O sinal dos protestos, inveja urbana, sugestões avulsas

PROTESTOS - Quando uma acção de agitação e propaganda - a grandolada como lamentavelmente já lhe chamam - alcança bons resultados é porque existe disposição para ela ser amplificada. Todos os que passaram por acções destas sabem que não basta uma boa ideia. É preciso conseguir o momento certo para que a boa ideia se multiplique. Hoje, é claro, isso é mais fácil porque o espaço entre a acção e a sua comunicação e massificação se tornou praticamente instantâneo. Mas, continua a ser necessário que exista o momento. E a questão é essa: estamos perante um momento em que a oposição ao Governo varreu fronteiras partidárias, ideológicas e etárias. Se fosse o Bloco de Esquerda ou o PCP, e mesmo também o PS, a oporem-se o facto seria significativo mas não chegaria. O problema é que, nos apoiantes e eleitores do PSD e do PP, também se acumulam críticas a Gaspar, Passos Coelho e outros membros do Governo. A coisa avolumou-se a um ponto em que já não interessa se o objectivo da acção governativa é correcto - e isso é o pior de tudo porque cria o clima para destruir o que se fez e para evitar fazer o que ainda é preciso. O grande problema deste Governo á a falta de política, na realidade a falta de bom senso: é ter julgado que os fins justificam os meios e ter agido sem querer fazer participar as pessoas no processo. O Governo tem o pecado da soberba e julga que a sua razão basta - e teve medo de mobilizar as pessoas porque sabia que ía tomar medidas anti-populares. Alguém lhes devia ter explicado que essas medidas exigiam cuidados redobrados. Quando se vai para  a guerra, faz-se campanha antes, e em vez de promessas que depois se revelam mentira. Como se esqueceram do assunto, em cada esquina nasce naturalmente um protesto. Desde 1974 que não existia esta confluência de pessoas, opiniões, e movimentos num só sentido e este é o elemento novo de todo este processo, novo e preocupante pelo risco que encerra de fazer um curto circuito no sistema político. E a culpa não é de quem protesta, é de quem criou as condições para o protesto ganhar esta dimensão. O regime está a perder a sua base social de apoio e esta não é uma boa notícia.

INVEJA  - Quem me conhece sabe que não sou invejoso. Mas reconheço  que desta maneira de trabalhar e de fazer, tenho muita inveja: aqui fica um resumo de um excelente artigo do Mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, publicado esta semana no Linkedin. Entre 2007 e 2011 o número de nova-iorquinos que trabalham em medias digitais cresceu 80% e a cidade é a região norte-americana que captou mais investimento em empresas tecnológicas no mesmo espaço de tempo, mais que Silicon Valley Em parte isto deve-se aos incentivos criados a partir do início da década de 80 do século passado pelo próprio Bloomberg - as coisas demoram o seu tempo a acontecer mas quando a estratégia é certa , elas surgem. A cidade disponibilizou espaço de trabalho para novas empresas a preços acessíveis - e as 500 empresas que se instalaram nessses espaços conseguiram reunir investimentos privado superiores a 90 milhões de dolares. A cidade investiu também nos cursos de teconologia das universidades locais e espera que os novos engenheiros que de lá vão sair ajudem a criar uma nova vaga de empresas. O programa “Made In New York”, lançado por Bloomberg há uns anos para dinamizar a produção e o desenvolvimento das indústrias do audiovisual na cidade, e que tem sido um êxito, foi agora alargado para a comunidade digital. Este programa fornece recursos e oportunidades para start-ups que escolham Nova Iorque para se instalarem. Mais de 900 empresas em fase de lançamento criarão 3000 postos de trabalho, fundamentalmente dirigidos a jovens técnicos e criativos, e as empresas e a sua localização constam de um mapa interactivo que todos podem consultar -  a cidade esforça-se por divulgar as oportunidades que existem. Chama-se a isto planear, acompanhar, estimular, fazer. Algo muito diferente de prometer e passar a vida a papaguear. Acção política em vez de demagogia política.

SEMANADA - A Caixa Geral de Depósitos prevê prejuízos de 334 milhões de euros nos próximos dois anos; segundo um estudo do BPI, se Portugal tiver condições de pagamento dos empréstimos  semelhantes à Grécia poderá poupar até 14,9 mil milhões de euros; num só trimestre desapareceram 125 mil empregos; o desemprego de longa duração aumentou 29,7%; o desemprego afectou mais as profissões qualificadas e há cerca de 60 mil pessoas de profissões intelectuais inscritas nos centros de emprego, mas a maior parte das colocações disponíveis são para trabalhos que exigem habilitações reduzidas;   António José Seguro escreveu  uma carta à troika a pedir que seja feita fuma avaliação política do programa de ajustamento; Carlos Carreiras escreveu que esta atitude de Seguro revela sensatez política; Passos Coelho garantiu que essa avaliação política já é feita ao mais alto nível pelo Governo; António José Seguro foi a Bruxelas dizer a Durão Barroso que a crise em Portugal é grave; desde 1975 que não se verificava uma queda tão acentuada do PIB como em 2012 - 3,2%, mais uma vez acima das previsões; continuando nos enganos de previsões, Vitor Gaspar foi esta semana ao Parlamento dizer que em relação a 2013 a recessão será o dobro da que previu há três meses no Orçamento de Estado.

ARCO DA VELHA - Na semana passada a GNR detectou 13 camionistas a conduzir sem carta, 35 veículos pesados sem seguro e 112 sem inspecção obrigatória.

VER - Desde a sua reconstrução, após o incêndio do Chiado, esta é a primeira vez que o Museu Nacional de Arte Contemporânea faz uma exposição permanente com a sua colecção. Aqui estão obras de artistas portugueses, feitas entre 1850 a 1975, de nomes como Malhoa, Bordalo Pinheiro, mas também Paula Rego ou Pedro Cabrita Reis, mas também Santa Rita Pintor, Mário Eloy,  Almada, Amadeo Souza-Cardoso, Lurdes Castro ou Júlio Pomar, entre outros. Uma centena de obras que têm andado na maior parte escondidas longe dos olhos do público e que agora podem ser visitadas.

OUVIR- Um dos discos mais divertidos que me foi dado ouvir nos últimos tempos é “The Golden Age Of Song”, de Jools Holland & His Rhythm & Blues Orchestra. Jools Holland é um talentoso músico britânico que integrou os Squeeze e já tocou ao lado de nomes como Eric Clapton, Sting ou Mark Knopfler, entre outros. Depois dos Squeeze tem feito uma bela carreira num programa da BBC que é uma das melhores montras de música pop que se pode encontrar no universo da televisão em todo o mundo. Convida regularmente para o seu programa músicos de diversos géneros e proveniências. Além disso é um amante de canções - de maneira que escolheu 17 clássicos, convidou outros tantos nomes e juntou num só disco o resultado. 12 são gravações inéditas feitas em estúdio e cinco são gravações ao vivo, feitas no seu programa. Aqui estão novas interpretações de temas como “The Lady Is A Tramp”, “September In The Rain”, “Mad About The Boy”, “ My Baby Just cares For Me” ou “Something’s Got A Hold On Me”, por exemplo. A melhor de todas as versões, devo dizer, é a de Paul Weller com Amy Winehouse, em “Don’t Go To Strangers”, gravada ao vivo, na BBC. O disco veio da Amazon.

FOLHEAR - Um dos mais importantes livros sobre a imagem que podemos ler é uma colecção de textos de Susan Sontag, “Ensaios Sobre Fotografia”, que foi reeditada pela Quetzal há pouco tempo. A edição orioginal data de 1973, e em tempos já tinha existido uma outra edição portuguesa. Quando estes textos foram escritos a fotografia não era nada do que é hoje - havia película em vez de digital, a experiência tinha o seu quê de magia alquimista, havia polaroids mas não instagrams e ninguém imaginaria que os telefones fotografassem. Apesar de tudo o que mudou, a essência do pensamento sobre a fixação da imagem no processo fotográfico continua actual - e algumas das ideias, como a da acessibilidade da fotografia como meio de expressão, são cada vez mais reais.  Vale a pena sublinhar um ponto desta edição - a excelência da tradução, assinada por José Afonso Furtado.

GOSTO- O português André Carrilho foi o desenhador convidado pela Vanity Fair para fazer um clássico da revista - um painel na praia de Malibu que evoca as figuras marcantes de Hollywood hoje em dia.

NÂO GOSTO - Parece que há fugas de informação no Ministério Público. Quem diria? E só descobriram agora?

BACK TO BASICS - Quem pode protestar e não o faz, torna-se cúmplice dos actos - n’O Talmude.






(Publicado no Jornal de Negócios de  dia 22 de Fevereiro9

fevereiro 19, 2013

LEMBRETE

Assisto com alguma perplexidade ao evoluir das propostas de António José Seguro. Que me recorde, quem pediu a intervenção da Troika e assinou o respectivo memorando foi um Governo do PS, sem coligações, dirigido por José Sócrates. E, sem querer bater no ceguinho – o pedido tardou por tardio e custou-nos algum dinheiro a todos, que estamos a pagar agora. Já nem vou falar das decisões como a nacionalização do BPN, que cada vez levanta mais dúvidas por todo o lado, e que foi um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes. Isto são águas passadas, dirão. É certo, mas tiveram direitos de autor e é bom que não nos esqueçamos de onde veio – do PS.


 


Entre excursões de norte a sul e com uma entronização em mais uma confraria – a semana passada foi a do porco bísaro – António José Seguro vai-se distanciando cada vez mais do cumprimento dos acordos que o PS assinou enquanto Governo. A sua táctica de oposição joga na amnésia dos eleitores e da negação do passado. Gostava, a talhe de foice, de recordar que a coligação PSD/PP, com todos os problemas que tem, está no poder há pouco mais de dois anos e que o PS esteve década e meia quase ininterruptamente a contribuir para o estado das coisas a que chegámos. A memória das gentes é curta e às vezes há que colocar uns lembretes. Este é um lembrete sobre o método de governação do PS e os resultados que obteve. Ficámos melhor do que estávamos no fim dos Governos Sócrates? O único programa que se conhece a  Seguro é acabar com a correcção dos erros cometidos no passado - até porque, se não houve erros, não é preciso corrigir nada... É um programa político aterrador.




(Publicado no diário Metro de 19 de Fevereiro)


 

fevereiro 15, 2013

As facturas, as cidades criativas, os falsos locais gourmet....

FACTURAS - Com C e sem acordo ortográfico - assim é menos politicamente correcto.
Vamos a factos: um comunicado do Ministério das Finanças, emitido quarta-feira para a Rádio Renascença, dizia que “a autoridade tributária está a actuar à saída de estabelecimentos comerciais e já instaurou diversos processos de contra-ordenação a consumidores que não pediram factura”. Os consumidores estão assim a ser transformados em polícias. A lógica do Estado é simples: ter polícias em todo o lado, fazer de cada cidadão um vigilante. A coisa é ainda mais apurada que no antigamente: há umas décadas atrás os funcionários públicos - mas só estes - podiam receber umas gratificações se denunciassem quem não tinha licença de uso de isqueiro. Agora todos são chamados a ter o seu quinhão na colecta de impostos. A melhor de todas as observações sobre este triste episódio que revela a natureza do Estado que este Governo quer, veio do Cão Azul, um fabricante de T shirts, com mensagens irónicas estampadas, que colocou no Facebook, esta observação: “As repartições de finanças não têm mãos a medir com a quantidade de contribuintes que hoje foram pedir a factura do BPN com medo de serem multados por falta de factura do dinheiro que gastaram na privatização do banco".

CRIAR - Gostava de recordar que no Reino Unido as indùstrias criativas dāo trabalho a milhāo e meio de pessoas, em mais de cem mil empresas, que atingem 41 mil milhōes de euros de facturação e asseguram  exportaçōes no valor de nove mil milhōes de euros. Em Londres, a seguir ao sector financeiro, o sector das indústrias criativas é o mais importante do ponto de vista de volume de negócios. Ali estão incluídos o design, a moda, a música, os filmes, as produções de televisão, a publicidade,  assim como diversas artes. Na Universidade de Londres, seis colégios são dedicados ao ensino de várias destas artes e ofícios e 40 por cento dos seus alunos são estrangeiros, oriundos de 91 países. Empresas do sector das tecnologias de informação,das telecomunicações e do turismo vão lá frequentemente recrutar talento. Em Março, no muito prestigiado e imperial Victoria & Albert Museum, inaugurará uma exposição dedicada a David Bowie, mostrando o seu papel e influência na alteração dos padrões de criação e consumo da cultura popular em várias áreas. E por cá, com tanta conversa sobre indústrias criativas, que se fez? Lisboa que tem para mostrar nesta área?

SEMANADA - António Costa e António José Seguro foram a Coimbra abraçar-se; Mário Soares e Manuel Alegre fizeram as pazes; António José Seguro escolheu para slogan a expressão “Portugal Primeiro”, a mesma que foi utilizada por Passos Coelho em 2012;  cada português gastou 259 euros em medicamentos em 2012, menos 11,7% que em 2011; Portugal aplicou apenas uma das 13 recomendações do Conselho da Europa para melhorar a incriminação de suspeitos e a transparência do financiamento partidário; a área ocupada pelo pinheiro bravo reduziu-se um terço nos últimos 15 anos; uma reportagem de um jornal diário relata que a crise está o provocar enchentes nos consultórios de bruxos e videntes; Portugal é o segundo país europeu com o preço mais baixo de um hamburguer Big Mac, logo a seguir à Estónia; as exportações para a China quase que duplicaram em 2012 em relação ao ano anterior; os países fora da União Europeia são responsáveis por 88% do crescimento de exportaçōes em 2012; no último ano os bancos portugueses cortaram 2350 postos de trabalho e fecharam mais de 150 balcões; os bancos portugueses têm cerca de 23 mil milhões de crédito malparado.

ARCO DA VELHA - A Câmara de Torres Vedras quer candidatar o carnaval da localidade a património da humanidade

VER -  Três sugestões de fotografia para esta semana. No Espaço BES Arte, no Marquês do Pombal, José Medeiros, um dos grande nomes da fotografia brasileira, propõe “O Rio É Uma Festa”, que pode ser visto até 4 de Abril. Na Kameraphoto (Rua da Vinha 43A, Bairro Alto) os brasileiros Fábio Messias, Gio Soifer, Maíra Ramos, Marco A.F. e Otávio Almeida apresentam “Tanto Mar”. E, na Cordoaria Nacional, até 23 de Março, Valter Vinagre apresenta o trabalho que desenvolveu com a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) com o objectivo de retratar o universo das vítimas de crime em Portugal.


OUVIR- Rodrigo Amado é um dos mais interessantes músicos de jazz portugueses, com o atractivo suplementar de ter carreiras paralelas enquanto editor e produtor discográfico, crítico e, também, fotógrafo. Mas é o seu mais recente disco, “Live At Jazz Ao Centro”, que aqui merece destaque. O Motion Trio (Rodrigo Amado no saxofone, Miguel Mira no violoncelo, Gabriel Ferrandini na bateria) teve a participação do trombonista Jeb Bishop na actuação realizada no Festival “Jazz Ao Centro” de Maio de 2011, em Coimbra, e o resultado deste cruzamento é uma explosão de improvisação - no primeiro tema Rodrigo Amado e Bishop exploram os respectivos territórios e é o diálogo entre os dois músicos que acaba por ser o ponto alto nos outros dois temas, “Imaging Caverns” e “Red Halo”. É justo sublinhar o trabalho do baterista, permanentemente a servir de ponto de união entre as improvisções, e a sonoridade invulgar conseguida por Miguel Mira no violoncelo, nomeadamente na abertura de “Red Halo”.

FOLHEAR -   A "Aperture" é uma revista norte-americana, que se edita quatro vezes por ano, exclusivamente dedicada á fotografia. Existe graças à Aperture Foundation. que além de uma galeria, mantém uma actividade de edição de livros muito interessante e é ainda responsável por um curioso blog. Se acederam a www.aperture.org poderão ter uma ideia da extensão do projecto. A revista fez agora 60 anos e ao longo das décadas que existe tornou-se uma referência em termos de história e crítica da fotografia. Na ediçāo de Outono (a mais recente disponível na Amazon UK ) destaco um ensaio sobre a fotografia de guerra, um portfolio sobre comunidades rurais na Rússia e fotografias de publicidade na Vogue americana entre 1930 e 1950. Em apenas 80 páginas percorre-se um mundo de imagens.

PROVAR - Uma coisa que me enerva é a utilização abusiva da palavra gourmet aplicada à designação dos restaurantes.  Iludido pela palavra e por maus conselhos, caí um dia destes na Hamburgueria Gourmet, um estabelecimento localizado no 114 da Rua da Alfandega, já a chegar ao Terreiro do Paço. No princípio da refeição nada fazia prever o que aconteceu; a lista incluía promessas de haburgueres que incorporavam queijo da serra, presunto de Chaves e até copita de Barrancos. No entanto, e por estarmos em Lisboa, decidi experimentar o hamburguer Marrare, que imaginei homenagear o bife do mesmo nome criado por um cozinheiro italiano que andou por estas paragens no final do século XVIII. A receita original é simples, mas complicada demais para esta hamburgueria. Vou passar por cima do facto de a cerveja pedida ao mesmo tempo que o bife ter demorado mais de dez minutos a chegar e vou esquecer que estive 35 minutos à espera do tal hamburguer. Passemos à substância: o hamburguer tinha sido grelhado na chapa,  não tinha tempero que se saboreasse nem paladar que se percebesse. Derramava-se em cima de uma alface que entretanto recozeu, e tinha uns pedaços inusitados de tomate e cebola intercalados entre as duas fatias da carne ressequida. A apropriação indevida do nome Marrare vinha de uma tímida colherada de uma pasta, que teoricamente imitava o molho que deu nome ao bife, e que originalmente tinha a particularidade de ser o produto no qual a carne era cozinhada - e não minguamente baptizada, como neste caso. Em resumo, uma experiência a não repetir e que me faz desconfiar de algumas revistas que fazem listas dos melhores sítios para comer hamburgueres e colocam este local em lugar de destaque.

GOSTO - A revista literária Granta vai ter uma edição portuguesa dirigida por Carlos Vaz Marques.

NÂO GOSTO - Do regresso das obras de construçāo de novas rotundas a seis meses das próximas autárquicas.

BACK TO BASICS - Estar na política é parecido com ser treinador de futebol - tem que se ser suficientemente esperto para perceber o jogo e estúpido ao ponto de julgar que se é importante - Eugene McCarthy




(Publicado no Jornal de Negócios de dia 15 de Fevereiro)