abril 21, 2011

Esvaziar Lisboa

(publicado no diário Metro de 19 de Abril)


 


Cada vez que um empreiteiro abre um buraco numa rua de Lisboa a reparação provoca um solavanco. Não há tampas de esgoto niveladas com o resto do pavimento e cada nova  vala resulta num buraco ou numa lomba - cada remendo é uma armadilha.


 


Quem por estas dias descer a Marquês da Fronteira, frente ao El Corte Ingles, depara-se com buracos onde estavam postes de obras, com bocados de cimento no pavimento, com uma anarquia  que se prolonga pela Duque de Ávila. Nesta última artéria o caos está instalado quase há uma década, graças à arrogância do Metropolitano de Lisboa e ao deixa-andar da Câmara Municipal – o fim das obras já vai atrasado mais de três anos sobre o prazo original e o  desrespeito das autoridades que governam a cidade pelos seus habitantes é total.


 


A Câmara Municipal de Lisboa, sobretudo com António Costa, encara os munícipes apenas como fonte de rendimento – impostos, taxas, multas da EMEL; mas não encara os munícipes com o pessoas que têm direitos.


 


O troço de rua entre o Jardim de S. Pedro de Alcântara e o Cais do Sodré quase tem mais obstáculos e buracos que uma pista de motocross. A situação repete-se nas zonas mais antigas de Lisboa onde a deterioração do pavimento e as armadilhas são totais.


 


Os peões também têm razão de queixa – passeios ondulados, sujos, que não são lavados e se tornam uma armadilha escorregadia, buracos na calçada pensados para fazer tropeçar quem vai a pé.


 


Lisboa é uma cidade tão bonita para os estrangeiros que cá vêm passar um fim de semana, como pouco confortável e desagradável para quem cá vive.


 


O resultado disto está á vista: a cidade perde cada vez mais habitantes, a sua população está envelhecida. Quem opta por viver em Lisboa pode contar com uma perseguição bem organizada por parte da Câmara Municipal, mas escusa de pensar que os impostos que paga lhe podem valer alguma coisa. As autoridades da cidade preferiam que Lisboa não tivesse habitantes – assim teriam menos incómodo e ouviriam menos queixas. Pelos vistos trabalham com esse objectivo.


 

abril 18, 2011

(Publicado No Jornal de Negócios de 15 de Abril)

ILUSIONISMO – Os próximos meses vão mostrar como o Governo, em vez de governar, ser sério e encarar os problemas de frente, transformou o poder num exercício quotidiano de ilusionismo. Estamos a meio de Abril e já é patente que a redução de custos na administração pública se está a fazer na base de uma orçamentação irrealista – tudo foi sub-orçamentado para caber nesta politica do esconde-esconde. Já se percebeu que faltam coisas básicas nos hospitais, que nas forças de segurança e no exército as contas foram muito mal feitas e desconfio que os próximos meses vão trazer dolorosas surpresas – não pela mão do FMI, mas pelo que se tornará patente do malabarismo que a equipa de Teixeira dos Santos e Sócrates andou a fazer. Tudo o que está a acontecer – e o que aí vem – tornará mais claro que chegámos  à situação em que estamos por causa da acção do executivo ao longo dos últimos seis anos e não por causa do derrube do Governo.


 


Já percebemos que este vai ser um ano terrível – para muita gente o  subsidio de desemprego está a acabar; os preços vão aumentar, sobretudo o dos alimentos; é inevitável que aumente o preço dos transportes. A fome e a miséria vão tocar a muitas portas que as não conhecem. O país, que se transformou num gigantesco hipermercado onde comprar se tornou mais importante que produzir,  resume-se a isto: temos uma agricultura e um sector das pescas destroçados e uma indústria sufocada e, nalguns sectores, em vias de extinção. De Madrid chegam notícias de que a Espanha está a sair da crise e nos supermercados portugueses só encontro alhos e fruta espanhola.


 


Organismos internacionais dizem que Portugal vai ser o único pais europeu em recessão em 2012. Batemos no fundo – e a única vantagem de bater no fundo é que daqui para a frente é mais fácil fazer coisas bem feitas, até porque é difícil fazer pior. A negociação com o FMI tem um único grande desafio pela frente: como aplicar os remédios, dando ao mesmo tempo as vitaminas necessárias para começarmos a crescer?


 


 


ARCO DA VELHA – Os descontos efectuados para o IRS, Caixa Geral de Aposentações e Segurança Social a cerca de 50.000 agentes de forças de segurança não foram pagos pelo patrão Estado ao cobrador Estado. Se um empresário fizer isto arrisca-se a ir preso, por reter dinheiro que foi cobrado aos seus funcionários. E quem vai preso no Estado?


 


 


SEMANADA – O PS mostrou-se unido; o PSD apareceu partido; Manuela Ferreira leite recusou integrar as listas do PSD; Luis Filipe Menezes recusou integrar as listas do PSD; Marques Mendes recusou integrar as listas do PSD; António Capucho recusou integrar as listas do PSD; Fernando Nobre aceitou integrar as listas de deputados do PSD; Fernando Nobre fez saber que se não chegar a ser Presidente da assembleia da República também não quer ser deputado.


 


 


AGENDA – Na edição desta semana da “Newsweek” não perder o belíssimo e oportuno artigo sobre Francis Fukuyama – o que ele tem feito, as suas preocupações actuais em Stanford, o modo como vê o mundo hoje em dia – e ele, Fukuyama, mudou, percebe-se logo. Ainda por cima as cinco páginas que a revista lhe dedica são acompanhadas por excelentes fotografias, numa demonstração do que, de forma simples, pode ainda ser feito na imprensa.


 


 


LER –  Infelizmente a VASP resolveu aumentar em Portugal o preço de venda da edição norte-americana da Wired para 10,20€ - escandaloso se pensarmos que o PVP original nos Estados Unidos é de 4.99 US$. Assim, para evitar alimentar a especulação da VASP, resolvi passar a ler a Wired no iPad, onde cada edição custa apenas 2.99€ e tem, ainda por cima, muito mais conteúdos. Está feito o aviso à navegação, passemos ao conteúdo. A edição de Abril é dedicada à criatividade, sobretudo aplicada a novos projectos – ideias interessantes que se podem tornar negócio – desde cortadores de relva a mobiliário, passando por roupa. E como arranjar fundos para desenvolver estes projectos – a Wired relata a experiência do Kickstarter, um site originalmente pensado para angariar fundos para projectos artísticos, mas que agora também proporciona captação de investimento inicial para projectos empresariais. Vejam o site www.kickstarter.com que vale a pena. E é uma bela ideia para tempos como os que vivemos.


 


 


VER – Manuel João Vieira é músico, cantor, ex-candidato à Presidência da República e artista plástico – e com um bocadinho de esforço ainda lhe encontrava outras actividades. Mais conhecido como músico nos Ena Pá 2000, nos Irmãos Catita ou nos Corações de Atum, Manuel João Vieira é um bom pintor, que traz às suas obras o humor que atravessa a sua carreira musical. Nos seus desenhos e quadros, cheios de pequenos pormenores e com um traço minucioso, vê-se como ele é um observador implacável, que retrata o ridículo e interpreta de uma forma muito peculiar a realidade à sua volta.


 


Tem um desenho característico e uma utilização das cores também muito marcada e pessoal. O universo das suas obras vive no domínio do fantástico e da manipulação dos corpos e constrói situações complexas, e surreais, com uma aparência de simplicidade. A Galeria Valbom apresenta aquela que deve ser a sua maior exposição de sempre e que, além das pinturas e desenhos, inclui algumas esculturas, uma instalação e um vídeo. No actual panorama lisboeta é uma exposição imperdível, cáustica mas onde o talento e a transbordante criatividade do autor são bem patentes. A exposição tem o título «A mão esquerda contra a mão direita» e vem assinada por Manuel Vieira como Orgasmo Carlos como Manuel Vieira. Avenida Conde Valbom 89-A, de segunda a sábado das 13 às 19h30.


 


OUVIR –  Bill Frisell é um guitarrista norte-americano de 60 anos com uma longa carreira no jazz. Vinicius Cantuária é um músico e cantor brasileiro, também com 60 anos, com longa carreira mas pouco conhecido entre nós. Ambos juntaram-se para fazer «Lágrimas Mexicanas», um disco inesperado e irresistível, onde o calor e  ritmo tropicais transmitidos por Vinicius Cantuária se conjugam na perfeição com as sonoridades oriundas dos blues, do jazz e do country da guitarra de Bill Frisell.


 


Aqui e ali há aromas de outros ritmos, como no «Cafezinho», a atirar para o rockabilly ou o pop de «Lágrimas de Amor» ou, ainda, as referências a Scott Joplin em «Briga de Namorados». A faixa que dá o nome ao álbum, “Lágrimas Mexicanas” é uma esp explosão de ritmos e de energia num e, finalmente, «Calle 7» é a melhor síntese do que ambos conseguiram, uma evocação de um passeio na Sétima Avenida numa mistura de culturas que é a essência da Nova Iorque.


 


Este dueto é deliciosamente bizarro porque está baseado naquilo que pode tornar um dueto uma coisa séria: a sintonia entre os dois músicos que conseguem combinar a criatividade de cada um de forma natural. Vinicius Cantuária tem estabelecido uma reputação sólida como um dos grandes herdeiros do tropicalismo e tem enveredado por um experimentalismo que nunca abandona as referências populares, mas que aproveita tudo o que pode ser feito com a sua guitarra, voz e percussão e Bill Frisell é um dos magos da guitarra, acústica e eléctrica, e que crescentemente recorre à electrónica para trabalhar as sonoridades e acentuar a improvisação.


 


É certo que a forma como Vinicius Cantuária canta é irresistível, mas neste disco a qualidade da execução instrumental, a sua riqueza e variedade, é verdadeiramente invulgar. E muito melhor que a maior parte das brasileiradas da moda que por aí aparecem. CD Naive, via Amazon.


 


PROVAR – Com este calorzinho só apetece um gelado, Se não quiserem ir ao Santini, ao Chiado, podem experimentar as propostas de sabores do Artisani – que tem uma bela esplanada na Doca de Santo e uma loja simpática na Pedro Álvares Cabral 65, ao pé da Estrela (esta nas noites de sexta e sábado está aberta até às onze), Entre as especialidades da casa há uma espécie de bolos gelados, como os Pinguins ou a revisitação do clássico esquimó fresquinho. A Artisani, recordo os amnésicos, foi a casa que no Natal passado teve a ideia de fazer um gelado de Bolo Rei e que tem cupcakes gelados. Imaginação é o mote desta gelataria que apresenta sabores como canela e mel.


 


BACK TO BASICS Toda a nossa ciência, confrontada com a realidade, é primitiva e infantil – Albert Einstein


 


 

abril 12, 2011

TRÊS QUESTÕES PRÉ-ELEITORAIS

1 – Não sei bem se hei-de dizer que os Congressos partidários hoje em dia se aproximam mais de um comício, se de uma missa. Se calhar são uma mistura das duas coisas – oportunidade mediática com horas de directos de televisão, em conjunto com  a catarse de uma reunião de fiéis, deliciados com a homilia do pregador de serviço. Seja como for Sócrates mostrou que é um belo pregador e disposto a partir em cruzada contra os infiéis. Conseguiu impor-se como factor de unidade – o que não é obra pouca. Parte para a contenda com um partido unido – e tenho impressão que não se pode dizer exactamente o mesmo sobre o PSD.


2 - Eu acho que é normal que o pensamento de cada um vá mudando e evoluindo. E também acho que apoiar-se um partido deve ser cada vez menos uma questão de fé, e sim de razão – baseado num programa, em medidas concretas, num objectivo.  Mais do que nunca, o voto é táctico. Confesso que não sou grande simpatizante de Fernando Nobre e escrevi aqui, na altura das presidenciais, que desconfio sempre de quem a certa altura usa  o protagonismo alcançado em ONG’s para se dedicar à política sem grande programa próprio. Não vou sequer falar de incoerências – mas por mais voltas que dê à cabeça, não consigo perceber o estranho caso de Fernando Nobre - nem do lado dele, nem do lado do PSD. Não me parece que seja grande ideia candidatar a Presidente da Assembleia da República alguém que nunca foi deputado – o cargo, tem sido tradicionalmente reservado a quem tem uma longa e activa vida parlamentar e política, que culmina naturalmente naquele lugar. Assim, parece uma convenção de ilusionistas: Sócrates tirou Ferro Rodrigues da cartola e Passos Coelho sacou Fernando Nobre. Lá está: uma escolha entre pessoas, à frente de uma escolha de ideias, propostas e programas.

3 – Em todo o caso no dia 5 de Junho, para mim, o voto será feito tendo em conta a melhor forma de garantir que será necessária uma coligação, que a decisão de tudo não ficará na mão de um só partido. Acho que só assim existirá alguma salvaguarda futura.


 


(Publicado no diário Metro de 12 de Abril)

(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Abril)

A ENTREVISTA – Quando a RTP 1 programou uma entrevista com José Sócrates para segunda-feira passada, a nova Direcção de Informação da estação estava a correr um risco. Nuno Santos pensou que o tema lhe traria boas audiências – como aconteceu (a entrevista foi, no global de todos os canais, o terceiro programa mais visto do dia), e quis inaugurar o seu mandato a dar que falar. O risco vinha do comportamento de Sócrates, habitualmente arrogante com os jornalistas, e que tem, fruto de muito treino, o hábito de não responder a perguntas concretas e dizer apenas o que lhe interessa. No entanto, nesta entrevista, ele passou das marcas e claramente tentou intimidar os jornalistas – desde as expressões faciais de enfado e desagrado com algumas perguntas, até proferir observações, que não lhe ficam bem, sobre as razões de algumas questões. Acontece que com comportamentos destes Sócrates só dá trunfos aos defensores da privatização da RTP e aos que clamam que o serviço público está sempre em riscos de servir de porta voz governamental. Tivesse Sócrates respondido às perguntas e não fosse tão arrogante para com jornalistas, outra coisa seria. Quando um Primeiro Ministro se comporta, numa entrevista à RTP, como se estivesse num tempo de antena, dá argumentos para quem acha que o serviço público não faz falta. Eu acho que faz falta. Este foi o risco que a estação correu.


 


SEMANADA – No rescaldo da entrevista, Bagão Felix chamou mentiroso a José Sócrates, a propósito de este ter garantido que a questão da ajuda externa não foi discutida no Conselho de Estado; Campos e Cunha disse que «estamos a viver um filme de terror em que o Drácula culpa a vítima»; Manuel Maria Carrilho diz que Sócrates está a trair o interesse nacional e que segue a “estratégia de Xerazade” – com referência à história de As Mil e Uma Noites: enquanto  fôr capaz de contar uma história por noite, a sua vida não estará em risco. Tudo isto foi dito a propósito da entrevista de José Sócrates à RTP 1 na segunda-feira passada.


 


ARCO DA VELHA - «Não tenho o talento e as qualidades que um Primeiro Ministro deve ter» – José Sócrates em entrevista ao DNA, de 16 de Setembro de 2000.


 


O PRESENTE - O pedido de ajuda externa não vem atrasado  os 15 dias desde o chumbo do PEC IV, vem atrasado muitos meses e só o facto de os banqueiros terem levantado a voz a dizer que os cofres estão vazios fez Sócrates agir. Nada mais. O grande problema dos tempos que aí vêm é conseguir passar esta fase, até às eleições antecipadas, sem que o país seja submetido a um saque generalizado pelo Governo e seus organismos periféricos, nesta fase de saída de poder. O comportamento geral do executivo ao longo deste último ano, e sobretudo nas últimas semanas, é o pior dos prenúncios nessa matéria. Em ocasiões destas torna-se especialmente importante que o Presidente da República consiga gerir esta transição sem que o desmando se torne na regra de funcionamento e sem que o Governo deixe deliberadamente agravar a situação do país, refugiando-se numa interpretação minimalista da capacidade do executivo, como se está já a ver no caso das SCUTs


 


O FUTURO - Quanto mais tempo passa mais me convenço que a solução para a delicada situação política não é reforçar a bipolarização PS-PSD, e sim dar possibilidade a forças mais pequenas, à esquerda e direita, para que se possam constituir coligações  equilibradas e saudáveis. É a existência de dois grandes partidos, hoje em dia sem diferenças evidentes entre si, que é responsável pela confusão que se foi instalando aos longo dos anos. A reforma do sistema político não é para agora – mas vai ser impossível continuar a viver com normas e funcionamentos que podiam estar certíssimos há meio século, mas que hoje não se adaptam nem à velocidade da mudança nem à forma como os cidadãos seguem o mundo, a actualidade e percepcionam os acontecimentos. Estamos na segunda década do século XXI com procedimentos do início da segunda metade do século XX. A continuar assim a coisa não pode dar bom resultado.


 


LISBOA – Já que António Costa quer ficar em Lisboa e continuar a ser Presidente da Câmara, ofereço-me para o levar numa voltinha de scooter pelas ruas do centro da cidade para ele sentir, no corpinho, os buracos, o mau estado do pavimento, as armadilhas que existem por todo o lado. Este singelo convite foi, nesta semana, o post que publiquei no Facebook e que gerou maior número de comentários de apoio. É elucidativo da forma como os lisboetas se sentem. Lisboa está a ficar uma cidade complicada. Qualquer dia é óptima para os turistas, mas péssima para quem cá quer continuar a viver. Já agora: repararam como nos dois dias de greve de Metro desta semana os fiscais da EMEL andaram tão zelosos logo pela manhã?


 


AGENDA - No Museu da Electricidade a nova exposição de fotografias de Paulo Catrica intitulada «A Prospectus Archive» e que é baseada nos bastidores do Teatro de S. Carlos; Ainda na fotografia, destaque para a exposição que assinala o 6º aniversário da KGaleria, agora com o seu espaço renovado, na Rua das Vinhas 43 A . Trata-se de uma exposição dos fotógrafos do colectivo Kameraphoto intitualda «Schadenfreude», apresentada como «uma denúncia da compartimentação dos géneros fotográficos».


 


VER – Por iniciativa da Experimenta Design, a exposição «Ordem de Compra» reúne cerca de duas centenas de exemplos de bom design, com aplicação industrial, vindos de 75 empresas nacionais, em sectores de referência como a porcelana, o vidro, a cortiça e o calçado, bem como produtos que usam tecnologias avançadas, destinados a nichos de mercado ou à exportação. A exposição está no Palácio Quintela, ao Chiado, e pode ser vista de terça a Domingo, das 10h00 às 20h00, com entrada gratuita e até 3 de Julho.


 


LER –  Na edição da revista «Monocle» deste mês de Abril, destaco a reportagem sobre uma série de actividades económicas que, em vários locais do mundo, estão a gerar pequenas bolsas de emprego, apostando na qualidade, na manufactura de objectos invulgares, no regresso ao fabrico em pequenas séries, na criação de pequenas e médias empresas, como exemplo de criatividade e desenvolvimento – e se olharmos para a exposição «Ordem de Compra», acima referida, não posso deixar de pensar nisto . Outros artigos interessantes abordam o que é a rádio hoje em dia,  oferecem um olhar sobre Sidney e um guia destacável sobre Madrid, muito bem feito, óptimo para guardar – para quando um assim, sobre Lisboa?


 


OUVIR –  Para mim esta é uma das mais importantes edições discográficas dos últimos anos – o conjunto de quatro CD’s intitulado «Twelve Nights in Hollywood», que recolhe as gravações feitas em 1961, por Ella Fitzgerald, no Crescendo, um pequeno clube de jazz em Los Angeles. Estas gravações, inéditas até agora, foram feitas pelo fundador da Verve e na época agente da cantora,  Norman Granz. Foram remasterizadas digitalmente a partir das fitas originais – e a gravação original era já muito boa. Ao todo estão aqui editadas 76 canções, que recolhem a generalidade dos temas que tornaram Ella Fitzgerald célebre. Ainda por cima ela estava no pico da sua carreira quando estas gravações foram feitas, tinha 45 anos, e cantou de forma solta, com um swing e alegria extraordinários e com uma criatividade invulgar – que deve muito também á qualidade dos músicos que a acompanharam e à ligação que a cantora tinha com eles. Em Portugal estes quatro discos estão distribuídos pela Universal sob a forma de dois CDs duplos, «12 Nights in Hollywood», volumes I e II. Absolutamente imperdível.


 


PROVAR – Por menos de seis euros pode escolher um belo petisco: uma das magníficas conservas da Tricana, acompanhada por bom pão e um copo de vinho. A coisa passa-se todos os dias, ao almoço ou ao lanche, no 128 da Avenida Conde de Valbom, quase a chegar à Fundação Gulbenkian. Há várias outras sanduíches e petiscos e uma oferta vasta de produtos nacionais – de conservas  a azeites, passando por doces – incluindo uma caixa de sardinhas…. de chocolate.


 


BACK TO BASICS – A única coisa que tem valor na vida é aquilo que não conseguimos dizer – Wittgenstein.


 

abril 05, 2011

QUEM ABRIU O BURACO?

(publicado no diário Metro de 5 de Abril)


 


Neste fim de semana descobri uma coisa extraordinária: o país chegou ao buraco em que está e a culpa não é de ninguém. Sócrates diz que a culpa é toda da oposição; Guterres quando se pronunciou há dias sobre a situação portuguesa omitiu qualquer responsabilidade no gasto generalizado, que ganhou razoável incremento no seu tempo; Cavaco Silva não quer nem ouvir falar nisso, esquecendo-se quem iniciou o ciclo de aumentos de custos no funcionamento da função pública; Durão Barroso, apesar de ter estado pouco tempo, também faz como se não tivesse sido primeiro-ministro. Este país só tem autores de boas ideias, todos eles aliás tão bons que são sistematicamente exportados para altos cargos internacionais em reconhecimento dos altos feitos praticados.


 


Nos últimos 15 anos assistimos alegremente a uma espiral de aumento da despesa pública que nos conduziu onde estamos agora. A obsessão pelo contínuo alargamento do Estado Social e pelas grandes obras, e a ilusão do dinheiro fácil e sempre disponível, criou um monstro que imagina auto-estradas paralelas, muitas delas vazias, apenas para alimentar as obras públicas que são a principal fonte de financiamento dos partidos no poder. Vivemos governados por um monstro que criou tantos apoios que acabou por comprometer aqueles que deviam ser básicos: a saúde, a educação, a protecção no desemprego. E vivemos com Governos que, para obterem financiamentos de Bruxelas, aceitaram deixar acabar a agricultura e as pescas e preferiram ver a indústria  reduzir-se à expressão mais simples.


 


E, no entanto, a receita para um bom Governo  é simples e Marco Túlio Cícero, um dos grandes filósofos e políticos da Roma antiga, que se distinguiu pelo sua defesa da rectidão nas contas públicas, sintetizou desta forma o que pensava: «As finanças públicas devem ser saudáveis. O orçamento deve ser equilibrado. A dívida pública deve ser reduzida. A arrogância da administração deve ser combatida e controlada. A população deve trabalhar em lugar de viver da ajuda pública».

(publicado no Jornal de Negócios de dia 1 de Abril)

CRISE – No dia 28 de Janeiro, logo a seguir às eleições presidenciais, escrevi nestas páginas: “Como se percebeu o núcleo duro da direcção do PS reagiu rapidamente – convocando eleições internas (em que Sócrates se recandidata), anunciando novas iniciativas viradas para fora do partido, e dando a entender que controlará o timing de uma remodelação governamental. O PS, que foi o grande derrotado das eleições, tinha o contra-ataque preparado.”


 


Agora jé é claríssimo que Sócrates planeou ao minuto o que iria fazer uma vez resolvidos os problemas das presidenciais. Reposicionou-se no PS, calou a oposição interna, conseguiu o apoio de todos os notáveis do seu Partido e depois geriu bem o momento e criou uma situação de ruptura na semana das eleições directas no PS. Foi levado num andor de unanimidade, transportado pelos três talibãs que são o seu núcleo duro: Santos Silva, Silva Pereira e Jorge Lacão; o quarto canto do andor foi seguro pelo pagador de promessas em exercício, Teixeira dos Santos. Os filmes neo-realistas brasileiros dos anos 60 não teriam melhor cena – e já não vou ao ponto de dizer que a presença de Lula & Dilma foi planeada para coroar a manutenção de Sócrates no PS (embora não descure a coincidència das datas). Preservemos a Universidade de Coimbra de tais aleivosias.


 


Como uma imagem vale mais que mil palavras, retive uma extrordinária fotografia, salvo erro do “Público”, em que Sócrates aparece à chegada a Castelo Branco, para votar nas directas do PS. O seu corpo está meio saído do carro, mas já de pé, a sua cara é de determinação e levanta o braço – não exactamente fechando o punho mas dobrando a mão numa moderada evocação do punho fechado. A imagem é feita escassas 48 horas depois da demissão e mostra a evidência: ele estava preparado para ir à luta e geriu o calendário de todos os acontecimentos. Caíu quem quis, neste jogo de xadrez.


 


SPORTING – O que se passou no final do processo eleitoral do Sporting é também um sinal dos tempos. Tensões artificialmente criadas, ligações obscuras, promessas a eito, falta de respeito pelas pessoas e pelos resultados. O comportamento da madrugada eleitoral é um retrato do que deve ser evitado e daquilo que não é preciso em nenhuma área da sociedade, muito menos no desporto e espectáculo. Nestes tempos difíceis, do ponto de vista político e económico, há uma tendência para que o futebol se torne numa válvula de escape de frustrações e que se crie um autêntico barril de pólvora. Os sinais abundam. Esperemos que o pior seja evitado.


 


ARCO DA VELHA – Já conheciam esta descrição de Sócrates publicada no diário espanhol «ABC»? - «El primer ministro portugués se parece a un conductor que avanza a toda velocidad por la autopista en dirección contraria, convencido que son todos los demás automovilistas los que se equivocan».


 


LER –  A «Tinta da China» é actualmente uma das editoras livreiras com uma actividade mais interessante. As suas colecções são bem pensadas, as suas edições são feitas com cuidados na concepção das capas, na escolha do papel e do tipo de letra. E os livros são bem escolhidos – sejam de viagens, de ficção ou de entretenimento. Até dá gosto. A mais recente aventura da «Pó dos Livros» é uma bem humorada e divertida colecção chamada «Livros Licenciosos», coordenada por António Ventura.


Estão já editados três volumes, todos com títulos deliciosos: ««Entre lençóis – Episódios Inocentes Para Educação e Recreio de Pessoas Casadoiras», de Cândido de Figueiredo; «O Pauzinho do Matrimónio» de autor desconhecido, ilustrado por Rafael Bordallo Pinheiro; e «O Vício em Lisboa – Antigo e Moderno», de Fernando Schwalbach. Estas linhas são dedicadas a este último. Schwalbach era um homem ligado ao teatro, autor de alguns monólogos da época, bon-vivant confesso, especialista nas noitadas lisboetas. A certa altura emendou-se e este seu texto faz parte do processo de redenção – é datado de 1912 e ali descreve bordéis, casas de meninas mais sofisticadas, aborda o vício e o jogo e tece numerosas considerações sobre os usos e costumes da época, as mais das vezes com um pendor moralista sobre o seu passado licencioso. A edição é completada pelo «Regulamento Policial das meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa», de 1865 e por um posfácio do autor da colecção sobre a Lisboa subterrânea de então.


 


VER – O novo ciclo de exposições no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84, de terça a sábado, das 14 às 19h30) tem o atractivo de uma exposição de originais de Inez Teixeira intitulada «Time Is On My Side». Retomando algumas pistas deixadas na sua anterior exposição de pequenos desenhos, Inez Teixeira aborda agora o universo do fantástico com um conjunto de obras, cada uma a evocar o universo da fantasia, todas baseadas num desenho minucioso e na criação de imagens que parecem criadas para a ilustração de fábulas passadas em bosques imaginários. É um conjunto de desenhos, de grande formato, que apela à permanente descoberta dos detalhes. Este ciclo de exposições, que estará patente até 4 de Maio, completa-se com duas mostras colectivas da Plataforma Revólver da qual destaco um belíssimo e invulgar trabalho de Ana Rito.


 


OUVIR –  Para assinalar o centenário de Gustav Mahler a editora discográfica Deutsche Grammophon teve a ideia de fazer uma votação online num site que propositadamente criou para o efeito e onde era possível ouvir as 148 gravações das dez sinfonias de Mahler, nas diversas versões gravadas  entre 1952 e 2008. Cerca de 5000 votantes escolheram de entre as diversas interpretações as que consideraram melhores e o resultado está numa caixa de 13 CD’s que recolhe o registo mais votado de cada uma das sinfonias. «Mahler – The People’s Edition» é o nome desta edição especial que proporciona a obra sinfónica completa do compositor austríaco, em gravações dirigidas por nomes como Karajan, Abbado, Mehta, Solti ou Bernstein, entre outros. A edição inclui ainda um pequeno livro com uma biografia de Gustav Mahler, onde são destacados os pontos altos da sua actividade musical. E o preço é uma agradável surpresa para uma edição com esta qualidade e dimensão, já disponível em Portugal.


 


AGENDA – A Galeria Antiks (Rua Mouzinho da Silveira2, esquina com a Barata Salgueiro), celebra o seu 15º aniversário com uma exposição baseada nos seu riquíssimo acervo, certamente um dos mais importantes entre as galerias de arte portuguesas – vale a pena visitar esta exposição que apresenta trabalhos de 15 mulheres que cruzam épocas bem diferentes, de Josefa de Óbidos a Paula Rego, passando por Sarah Affonso, Sonia Delaunay, Lourdes Castro, Ana Fonseca e Etsuko Koyashi, entre outras.


 


PROVAR – É sempre um prazer regressar ao restaurante Gemelli, seja nos seus menus executivos de almoço (agora com a variante de um prato único de tradição italiana a 16 euros, acompanhado de um copo de vinho), passando pelas degustações do jantar e, sobretudo, pelos deliciosos almoços de sexta-feira que por 32 euros oferecem uma entrada, um primeiro prato baseado numa massa fresca, um prato principal e uma sobremesa surpresa, tudo acompanhado por vinhos escolhidos. Desde há uns anos que tenho para mim que este é o melhor restaurante italiano de Lisboa e certamente um dos melhores restaurantes da cidade em termos absolutos. O chefe Augusto Gemelli continua a variar a sua carta conforme as estações do ano e os produtos de cada época e continua também com os seus cursos de cozinha – em Abril há aulas sobre doces, massas recheadas e um menu de Páscoa alternativo. Todas as informações estão disponíveis em www.augustogemelli.com . O Gemelli fica por cima do mercado de S. bento, na Rua Nova da piedade 99, esquina com a Rua de S. Bento. O telefone para reservas é o 213 952 552. Não se assuste: ali bem perto tem o parque de estacionamento do Clube Nacional de Natação.


 


BACK TO BASICS – As finanças públicas devem ser saudáveis. O orçamento deve ser equilibrado. A dívida pública deve ser reduzida. A arrogância da administração deve ser combatida e controlada... A população deve trabalhar em lugar de viver da ajuda pública - Marco Túlio Cícero (106 aC - 43 aC)


 

março 29, 2011

DISPERSAR EM VEZ DE CONCENTRAR

(Publicado no diário Metro de dia 29)


 


Não é preciso ser bruxo para adivinhar que estamos todos metidos numa considerável complicação. O Governo que está em funções vai abaixo e o próximo é uma incógnita. Os dados existentes permitem concluir que o PSD terá dificuldades em ter uma maioria clara sozinho, e existe a possibilidade de Sócrates conseguir um resultado eleitoral acima daquilo que há uns tempos atrás se pensava ser possível.


 


Incúrias várias, de parte a parte, entre partidos e Presidência da República, algum desprezo pela opinião dos portugueses, e a degradação do sistema político criaram uma situação complicada. A coisa acentua-se porque já se percebeu que José Sócrates controla completamente o aparelho do PS e faz o que bem entende – e será ele a liderar as listas socialistas nas próximas eleições.


 


Estão a vê-lo ser número dois de alguém numa eventual coligação? Isto quer dizer que, do resultado das eleições, sairá sempre um PS pouco disposto a fazer acordos, pouco disponível para negociar, mais interessado em alimentar uma guerrilha contra o vencedor do que em encontrar uma solução de consenso.


 


Quem rever o que têm sido os últimos dois anos perceberá rapidamente que o padrão de comportamento do PS é fomentar o desacordo em vez de procurar o consenso. Num quadro destes cada vez acho mais complicado defender um sistema de bipolarização, entre PS e PSD – o que faz sentido é que haja maior atenção aos partidos mais pequenos e que o peso dos votos expressos seja mais diluído que o habitual.


 


Na verdade acredito que só isso possibilitará encontrar soluções equilibradas de alianças parlamentares, sempre mais difíceis quando a diferença entre votos é enorme. Vamos ter pela frente meses difíceis, com um Governo que não inspira confiança, e do qual se pode, legitimamente face à sua actuação ao longo dos últimos anos, pensar que se prepara para aproveitar o tempo que lhe resta para pôr o país ainda mais a saque. Estes meses vão ser um desafio para o funcionamento do regime.

março 28, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 25 de Março)

A FILA – Nos últimos dias assistimos ao surgimento de uma bicha de ex-dirigentes e responsáveis do PS, pedindo aos partidos da oposição que continuassem a perdoar as trapalhadas que José Sócrates tem montado. Até Mário Soares, que na semana passada tinha dito que a forma de apresentação do PEC IV tinha sido um erro grave, avisando que iria descambar numa crise séria, apareceu esta semana a desejar que ninguém ligasse àquilo que, há uma semana atrás, achava criticável. Também Jorge Sampaio, João Soares, Manuel Alegre, António Costa e muitos outros vieram falar no mesmo sentido – o de os outros partidos deverem atender aos apelos do Partido Socialista que, num clima destes, insistiu sempre em dizer que a culpa não era sua, mas sim dos outros. O inefável Jorge Sampaio, algures no Dubai, confessou-se muito preocupado com a estabilidade – sem querer recordar-se que toda esta instabilidade, em boa parte, está directamente ligada à forma como ele próprio, então Presidente da República, geriu as consequências da saída de Durão Barroso para a Presidência Europeia. Noutras ocasiões a estabilidade não lhe interessou – agora, nas Arábias, está arreliadíssimo com o que se passa.


 


Mas o mais curioso nesta bicha de opiniões de notáveis socialistas é que não há quem veja a evidência: para que se concretize o entendimento alargado que todos pedem é fundamental que Sócrates saia de cena. Se ele se recandidatar em legislativas antecipadas será muito difícil conseguir esse acordo alargado que dizem defender: do ponto de vista político Sócrates mentiu demais, ameaçou demais, chantageou demais, foi arrogante demais. Perdeu a credibilidade – não só nos actos (que nos conduziram onde estamos), como nas palavras que revelaram um sistemático desfoque da realidade. De facto não foi a economia que nos tramou, foi a política seguida por Sócrates, de desprezar a realidade, que nos levou onde hoje estamos. Com Sócrates no PS o entendimento alargado torna-se virtualmente impossível. Era com isto que os guardiões da estabilidade se deviam preocupar. E em vez de pedirem aos outros para mudarem, mais valia que Mário Soares, Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Francisco Assis, António Costa e tantos outros pusessem, mãos à obra para mudarem o que tão mal tem funcionado no Partido Socialista. Já que pertencem ao PS tratem do seu partido em vez de se preocuparem tanto com os outros.


 


E, se o PS não conseguir internamente, com todos estes notáveis, resolver o problema que de facto existe – e que algumas corajosas vozes dissonantes sublinham – de facto o resultado pode ser bem complicado. Qualquer que seja o desenrolar desta situação já se percebeu que Sócrates não pode fazer parte da solução, porque ele esteve na raiz do problema. E é sobre isto que eu gostava de ouvir que têm a dizer tantos notáveis.


 


ARCO DA VELHA – Não consigo perceber porque é que tanta gente que apoiou Manuel Alegre apelou nesta semana a Cavaco Silva para intervir em defesa de Sócrates. Como blogou um amigo meu, se os portugueses quisessem que o Presidente da República atendesse aos apelos do PS, teriam votado Manuel Alegre.


 


LER –  Sérgio Henriques Coimbra é um jornalista português de quem muito gosto e com quem tenho tido o prazer de trabalhar. Ainda por cima escreve muito bem – literariamente falando, e só descobri isso agora. Por estes dias, inspirado por uma ideia de John Steinbeck, editou um delicioso livro intitulado «Passeios com Moby». O Moby é o cão do Sérgio, que o acompanha num passeio por Portugal, uma jornada que é apenas um pretexto para um passeio pela própria vida do autor, para uma descrição ácida (mas lúcida) das vicissitudes de Portugal nos últimos anos.


 


Não é um livro de viagens no sentido tradicional do termo, é um livro que relata a viagem do Sérgio por este mundo e pelo nosso tempo – desde as memórias de Moçambique às reflexões sobre os dislates feitos à paisagem portuguesa, passando pelo apelo à contínua descoberta de novos mundos e novos lugares. De facto há muito que não tinha tanto prazer a ler um livro que, inesperadamente, é sobre a vida e o destino – incluindo o rejeitar as conveniências. «Passeios com Moby», 124 páginas, edição Aletheia.


 


VER – Até dia 6 de Maio vale a pena visitar a exposição de novos trabalhos sobre papel de Pedro Calapez, que inaugurou esta semana na Galeria João Esteves de Oliveira, na Rua Ivens 38. Chama-se «Suave Paisagem» e agrupa 34 novas obras, feitas em 2010 e algumas já em 2011. É um conjunto surpreendente, pela intensidade, pela diversidade de técnicas, mas também pelo lado de novidade das obras mais recentes – a série «Paisagens», desenhos feitos a pastel de óleo sobre papel que criam imagens a partir da junção de vários elementos apenas aparentemente dispersos. A série que dá o nome à exposição , «Suaves Paisagens», recorre a acrílico e aguarela sobre papel e é inesperada na forma como mostra um regresso à pintura unidimensional, depois dos trabalhos mais recentes do artista explorando formas, relevos e instalações tridimensionais. Pedro Calapez tem tido nos últimos anos uma actividade internacional assinalável e tem procurado explorar novos caminhos – como esta exposição bem mostra, até na pequena mas muito curiosa série «Estudos para Construção».


 


OUVER –  Não é gralha, quis mesmo escrever ouver porque vou falar de um misto de ouvir com ver – isto tudo a propósito da edição especial de «The Wall- Live In Berlim». Quem se escapou à missa rezada esta semana no Pavilhão Atlântico por Roger Waters, pode aqui ver e ouvir a liturgia original, do verão de 1990, gravada em Berlim. Além do concerto – com nomes que incluem Van Morrison, Sinead O’Connor, Ute Lemper, The Band, Thomas Dolby e vários outros, esta edição inclui ainda um documentário sobre tudo o que rodeou a produção do primeiro mega-concerto da década de 90 e diversos outros extras  como animações usadas em palco assim como os projectos de todo o cenário. Nesta nova edição especial da Universal - «The Wall Live in Berlin– Limited De Luxe Tour Edition» -  estão incluídos o DVD com as imagens já referidas e dois CD’s que reproduzem integralmente o concerto que de facto simbolizou o fim do Muro. É uma belíssima edição, já disponível em Portugal, e que é o testemunho de uma das maiores produções de sempre na história da música popular.


 


PROVAR – O conflito de Lisboa com as esplanadas é coisa que sempre me intrigou. Será do vento? Será do ar pálido cultivado por tantos cidadãos? Eu por mim gosto das esplanadas, e fico sempre contente quando abre mais uma. Esta semana, aproveitando o primeiro dia da primavera, fui até uma das esplanadas do Jardim de S. Pedro de Alcântara e por lá fiz um almoço ligeiro e tardio. Vista magnífica, o Tejo a espreitar ao fundo, ao lado do Castelo de S. Jorge, local abrigado, sem ventania.


 


Esplanada limpa e asseada, serviço simpático, boas surpresas. As tostas mistas felizmente evitam aquele pão de forma inspirado na borracha, que se tornou demasiado frequente, e usam umas cacetinhos saborosos, aquecidos quanto baste, sem ficarem espalmados e desinteressantes. Cada tosta mista é composta por dois desses pequenos cacetinhos. No meu caso escolhi a de presunto, queijo e rúcula - e não me arrependi. O presunto veio cortado fino, fácil de trincar, sem ser aquelas lascas grossas e secas que infelizmente são a matéria prima da maior parte das sanduíches de presunto locais – que as mais das vezes se assemelham a maus couratos. O queijo também vinha no ponto, aquecido, sem vir transformado em pastilha elástica escaldante. Na mesa ao lado estava uma idêntica tosta, mas de salmão fumado com queijo Filadélfia, com muito bom aspecto – fica para a próxima incursão. Dizem-me que ao fim da tarde vale a pena provar o gin tónico do local. Tenho impressão que ali voltarei mais vezes. Ali e ao outro quiosque –esplanada que fica na parte debaixo do jardim de S. Pedro de Alcântara, ainda mais abrigado, e que acolhe desde o ano passado os célebres cachorros-quentes que dantes só existiam no Guincho.


 


BACK TO BASICS – Uma vida dedicada à política é uma nobre carreira, um jogo hábil ou uma grande calamidade (Oscar Wilde)

março 23, 2011

O PARQUE DE DIVERSÕES DE SÓCRATES

(publicado no diário Metro de 22 de Março)


 


Na noite de Domingo coloquei no Facebook e Twitter esta pergunta: «Estou aqui com uma dúvida: se em Portugal não votámos em Angela Merkel porque é que é ela que manda?».


 


A melhor resposta veio de um conhecido publicitário e tinha a forma de outra pergunta: «porque paga?».


 


Este é o busílis da questão: colocámo-nos numa posição em que desbaratámos todas as ajudas que a Europa foi concedendo ao logo dos anos, diminuímos, por imposição europeia a nossa capacidade de produção – nas pescas, na indústria e na agricultura – e tornámo-nos num país que vive apenas de serviços. Portugal transformou-se num imenso centro comercial que compra tudo ao estrangeiro e se endivida para depois pagar o que consome.


 


Dizer que o país tem sido governado como uma mercearia é uma ofensa para o pequeno comércio. Na verdade os nossos governantes geriram Portugal como um parque de diversões, sem pensar em nada mais que o gôzo imediato e a satisfação de todas as vontades.


 


A Alemanha, pelo seu lado, produz cada vez mais, exporta cada vez mais, e vive das vendas no mercado europeu que ajudou a construir na forma que ele tem hoje. Com grande sentido de missão, a Alemanha financiou o desenvolvimento de mercados periféricos na Europa, para onde passou a vender os seus produtos, as suas marcas, a actividade das suas empresas.


 


Como se tem escrito várias vezes ao longo desta crise, a Alemanha conseguiu, pela economia aquilo que foi incapaz de fazer através da guerra: dominou a Europa. Uma das respostas ao meu post era o clássico «É a economia, estúpido». E esta é a verdade. A força da economia alemã fez com que as decisões dos Estados que não se souberam governar fossem tomadas em Berlim. Foi à senhora Merkel que Sócrates apresentou mais um capítulo do seu PEC – não foi ao presidente português. O episódio ilustra o estado da nação.


 


Que José Sócrates venha agora dizer que a instabilidade não é provocada por ele, mas por outros, é apenas mais um número de circo, dentro do parque de diversões que ele desgraçadamente montou em Portugal ao longo dos últimos anos.

março 18, 2011

A Esquina de 18 de Março no Jornal de Negócios

IMPUNIDADE - Uma das razões do êxito das manifestações de Sábado passado tem a ver com a sensação, que se instala, de em Portugal não existir quem exerça de facto um poder de fiscalização sobre a acção dos políticos em geral, e dos governantes em particular. Não existe quem faça o papel de um Provedor do Eleitor com poderes para suspender políticos incumpridores e punir partidos que os acolhem - imaginem que o PS era multado por cada promessa falsa de Sócrates. A impunidade dos políticos e dos partidos em Portugal é total. Ninguém é responsabilizado pelos seus actos.


 


O Parlamento, a quem caberia fiscalizar a acção do Governo, está bloqueado na lógica que se instalou do bipartidarismo. Os 230 deputados existentes de facto não têm voz própria, são apenas abono das respectivas direcções parlamentares. E a reflexão sobre o bloqueio que o bipartidarismo está a causar é urgente. Mais do que reforçar maiorias parlamentares, estou convicto que a solução passa por uma profunda reforma no sistema politico e eleitoral, que o adapte ao tempo presente, quer em matéria de comunicação, quer de campanha eleitoral, quer de votação, quer em matéria da constituição de novos partidos e movimentos. Quanto mais diversificada  e próxima dos cidadãos for a constituição partidária do parlamento, maior é a probabilidade de sair fora da lógica da alternância entre PS e PSD e forçar a existência de coligações e alianças, que provoquem um Parlamento mais dinâmico, interveniente e com poderes mais efectivos, roubando-os às cúpulas dos grandes partidos.


 


Da maneira como estamos os partidos grandes apenas geram deputados dóceis, conformistas e, na esmagadora maioria dos casos, perfeitamente inúteis. Fragmentar em vez de concentrar pode ser a solução nesta fase – e aliás isso corresponde à evolução do que acontece em tantos aspectos da sociedade contemporânea.


 


 


CRISE - Agora estamos oficialmente em crise – uma crise que se prolongou demasiado porque as tácticas parlamentares e a táctica do Presidente da República assim o quiseram. A reacção de José Sócrates foi a de um cavalo selvagem que não quer ser domado: depois do discurso de posse de Cavaco, pôs-se aos coices. A sua declaração da passada segunda-feira foi uma espécie de denúncia de que o rei vai nu – só que se esqueceu que, neste caso, o rei é ele próprio. A entrevista que deu na quarta-feira na SIC Notícias mostra a escalada em que está empenhado e evidenciou que não vai desistir. Entrou em braço de ferro e é um sobrevivente. No seu partido tem as questões arrumadas – António Costa já mostrou que não se quer meter na confusão e prefere continuar por Lisboa e António José Seguro sente que ainda não tem apoios. Sócrates avisou que vai continuar em cena e mesmo com todas as manifestações que se viram, subestimar a sua capacidade é um erro grave – também ele já percebeu que, sendo impossível resolver a crise em pouco tempo, provavelmente o que mais lhe convém é ir a eleições o mais rapidamente possível. No meio disto existe a possibilidade real de, no quadro actual, sair de eleições um panorama que obrigue a coligações. E com Sócrates ainda em palco. A coisa promete.


 


SEMANADA – No passado dia 12 de Março completaram-se seis anos sobre a tomada de posse do primeiro governo liderado por José Sócrates. Nos últimos cinco anos a divida pública portuguesa passou de 80 mil milhões de euros para cerca de 150 mil milhões de euros. Apenas há um mês o Primeiro Ministro dizia que existia uma folga de 800 milhões no orçamento, para agora ter descoberto que afinal faltam 1,4 mil milhões – a justificação utilizada para o novo plano de austeridade. O bem humorado e perspicaz blogue “31 da Armada” fez notar que em Portugal já há mais PEC’s em funcionamento que automóveis eléctricos a circular – quatro PEC’s e dois automóveis. O aniversário do Governo foi evocado com manifestações que tiveram um aspecto curioso – foram transgeracionais e mobilizaram pessoas de todo o espectro político.


 


ARCO DA VELHA – Se existirem eleições antecipadas, Sócrates recandidata-se sem oposição interna visível no PS. Ele próprio o garantiu. Quem diria, há meia dúzia de meses, que isto podia acontecer, que ele não seria corrido pelos seus pares?


 


LER –  Comecei a seguir a carreira de Tina Brown quando percebi o que ela tinha feito na tradicionalíssima revista britânica “Tatler” no início dos anos 80. Como prémio, foi chamada em 1984 a dirigir a “Vanity Fair” e transformou a histórica revista naquilo que ela é hoje. A seguir, em 1992, tornou a “New Yorker” mais contemporânea. E em 1999 criou a revista “Talk”, talvez um projecto à frente do seu tempo. Em Outubro de 2008 iniciou-se no mundo da internet  e criou o site “The Daily Beast”, que cedo deu que falar . No início deste ano aceitou reformular o newsmagazine “Newsweek” .


Depois de duas edições já publicadas sob a direcção de Tina Brown, percebe-se o que mudou: a fotografia voltou a ganhar importância, o grafismo foi completamente remodelado e novos nomes começaram a assinar nas páginas da Newsweek. O resultado é que a revista saiu da letargia dos últimos anos, em que estava enfadonha, desligada da actualidade e  desinteressante. A edição mais recente, desta semana, tem a melhor capa que até agora vi sobre a catástrofe no Japão e mostra o que uma boa edição fotográfica, que use imagens com espaço e respiração, permite fazer a uma revista. Na última página escreve P.J. O’Rourke, um dos meus heróis. Tina Brown mostra mais uma vez como é importante não só ter bons conteúdos, como apresentá-los de forma superior. Quem disse que não valia a pena fazer nada na imprensa?


 


VER – A edição deste ano do prémio BES Photo 2011 evidencia uma significativa mudança de critério do júri de selecção, em relação ao que tem sido a prática – pouco interessante e muito conservadora – dos últimos anos. Até agora o júri tem privilegiado o domínio da estética politicamente correcta, mas finalmente parece ter resolvido deixar preconceitos e amarras de parte. Esta é talvez a melhor selecção dos últimos anos e conta com trabalhos de Kiluanji Kia Henda (Angola), Carlos Lobo (Portugal), Mário Macilau (Moçambique), Manuela Marques (Portugal) e Mauro Restiffe (Brasil). Fiquei surpreendido pela intensidade das imagens de Mário Macilau, pelos enquadramentos de Kiluanji Kia Henda, pelo olhar de Carlos Lobo e pela interpretação de Mauro Restiffe. Todos acrescentam alguma coisa à evidência, mas todos reflectem o tempo em que vivem – o que nem sempre aconteceu nas seis edições anteriores do prémio. Esta exposição vale francamente a pena ver – tem menos exercícios de estilo, menos jogos florais e maior criatividade e formas de ver – que no fundo é a essência da fotografia. Em exposição no Museu Berardo até 13 de Junho.


 


AGENDA – Na galeria Vera Cortês (Av 24 de Julho, 54, 1º), inaugura Sábado “Forking Paths”, fotografias de Gabriela Albergaria; Na galeria Baginski (Rua Capitão Leitão 51-53), dois projectos em confronto – “Máquina de Chilrear” de Cecília Costa e “De tempos a tempos a terra treme”, de Joana Escoval; no Espaço Arte Tranquilidade (Rua Rodrigues Sampaio 95) está a exposição colectiva “O consolo da pintura” com obras de Ana Jotta, Carlos Correia, João Paulo Serafim, Freek Wambaco, João Pedro Vale, Miguel Ângelo Rocha e Rodrigo Oliveira.


 


OUVIR – Loreena McKennitt é uma cantora e harpista canadiana com uma carreira de já duas dezenas de anos. O seu novo disco, “The Wind That Shakes The Barley” é um claro retorno às suas origens folk, que aliás lhe deram fama e notoriedade. O resultado é o seu melhor disco dos últimos anos, integralmente baseado em sonoridades celtas e em versões de temas tradicionais, vários deles da Irlanda e Escócia. O nome do disco aliás é o mesmo de um filme de Ken Loach, sobre a Irlanda, premiado em Cannes em 2006. A voz etérea de Loreena McKennitt ajusta-se na perfeição a estas canções e continua a surpreender como em “As I Roved Out” ou “The Star Of The County Down”.


 


BACK TO BASICS – Em política lembre-se o que convém e esqueça-se o que já não interessa (anónimo)

Em defesa dos cidadãos

(Publicado no diário Metro, 15 MAR 2011)


 


Ao longo de décadas o nosso sistema político desenvolveu-se em benefício dos intervenientes e não dos cidadãos. Nos últimos anos a situação agravou-se: à medida que aumentava o divórcio entre os partidos políticos e os eleitores, os dirigentes partidários ficaram sentados a olhar para os próprios umbigos. Como consequência o sistema começou a funcionar em circuito fechado, de forma cada vez mais evidente. Os resultados de todos os mais recentes actos eleitorais mostram que a abstenção aumenta e que o número efectivo de votantes vai diminuindo.


 


As duas últimas eleições legislativas ficaram marcadas por promessas que foram negadas e contrariadas nos dias e meses seguintes à votação. Tornou-se habitual que os eleitores votem numa promessa que só lá está por táctica eleitoral e que verdadeiramente não é para ser cumprida. O resultado é o descrédito generalizado nos políticos e na classe política. Pelos erros de alguns acabam todos por pagar


 


Alguma classe política vive da impunidade de saber que as promessas não cumpridas, tornou-se inimputável. Gera desconfiança e descrédito. «A política é a única profissão no país que goza da mais completa impunidade» - escreveu, com razão, Vasco Pulido Valente na semana passada.


 


Por mais estranho que isto seja o nosso sistema político funciona sem fiscalização efectiva. A Assembleia da República deixou há muito de ter a função de vigiar o Governo – é apenas uma corrente de transmissão do executivo.


 


O Presidente da República tem teoricamente um papel de arbitragem, mas há muito deixou de exercer o papel de fiscal e zelador. O Presidente da República, sobretudo no seu primeiro mandato, não serve para defender o interesse dos eleitores, preocupado que está com a sua reeleição.


 


Mais valia que houvesse um provedor dos eleitores, alguém com poder para punir políticos incumpridores, alguém que pudesse sancionar partidos que não cumprem programas eleitorais e penalizasse a sua actividade.

março 11, 2011

A Esquina de dia 11 de Março no Jornal de Negócios

ELEIÇÕES – Estou inclinado a achar que, no início do segundo mandato, os Presidentes da República abusam de Viagra ou de alguma outra substância semelhante. No segundo mandato os presidentes, como Cavaco Silva bem mostrou no seu discurso desta semana, dizem o que antes achariam desestabilizador e passam a agir de forma diferente. Como se toda a vida tivesse pensado e dito o mesmo, Cavaco Silva apelou a que a sociedade civil se levantasse contra o estado das coisas em que o país anda  - «é altura de os portugueses despertarem da letargia em que têm vivido», avisando que «há limites aos sacrifícios» e apelando aos jovens para fazerem ouvir a sua voz.


 


É uma mudança extraordinária de quem, para além do razoável, tolerou, em silêncio, o degradar da situação económica, o degradar do funcionamento das instituições, o degradar do funcionamento do sistema político- partidário, algo que culminou com todos as anomalias eleitorais no próprio dia da sua reeleição e com a elevada abstenção que se estabeleceu no país. Agora, depois de um mês a ouvir opiniões do focus group de notáveis que chamou a Belém, vestiu um camuflado e partiu, diferente e aguerrido, com alma guerreira. Mais vale tarde que nunca? – é verdade – mas escusávamos de ter perdido tanto tempo a deixar o Governo em roda livre só para garantir a reeleição.


 


O problema, aliás, não é só de Cavaco Silva – os Presidentes anteriores fizeram sempre isto – um pouco como se durante o primeiro mandato andassem alimentados a Valiums, acalmando-se à força para garantirem a reeleição, para, depois, no segundo mandato, usarem estimulantes como carburante. É uma situação que se está a tornar ridícula e que é sintomática da forma como os Presidentes governam em função dos seus interesses políticos e pouco mais.


 


Quando olho para este fenómeno penso se não seria mais útil limitar o mandato do Presidente da República a um único, mesmo que um ano mais longo. Assim se evitariam estes tristes episódios em que assistimos à negação das evidências durante metade do seu ciclo de vida político em Belém.


 


Já que os Presidentes governam em função da obtenção do seu segundo mandato, melhor seria tornar esse segundo mandato inexistente. Podia ser que assim tomassem decisões, em vez de viverem de equilibrismos.


 


INVESTIMENTOS – Olhar para a evolução dos investimentos publicitários é sempre curioso. Os números agora conhecidos do mês de Janeiro mostram um ténue sinal de retoma, é certo que muito baseado na publicidade das grandes cadeias de distribuição. No sempre difícil mês de Janeiro o investimento cresceu um pouco mais do que 2% , saindo do ciclo de queda dos últimos meses do ano passado. O investimento publicitário nos canais de cabo continua a crescer a bom ritmo – mas o investimento nos canais de sinal aberto caiu – o mesmo sucedendo, embora de forma mais acentuada, na imprensa diária e semanal. O maior crescimento, claro, continua a ser o investimento publicitário nos meios online, que aumentou cerca de 70% em relação ao mês de Janeiro do ano passado, ultrapassando já, em valores reais, o investimento na rádio e na imprensa diária.


 


SEMANADA – Angolanos compraram mais 5% do BCP; Durão Barroso afirma que Portugal não deve pedir ajuda externa; Portugal subiu ao 5ºlugar da lista dos países que correm maior risco de bancarrota; os juros da dívida pública portuguesa atingiram valores recorde; os Homens na Luta ganharam o Festival RTP da canção; o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, horas antes do discurso de Cavaco Silva, considerou que o Governo «tem todas as condições políticas para alcançar os objectivos a que se propôs e superar a crise que o país enfrenta».


 


FRASE DA SEMANA - «Tudo depende de o PSD continuar escondido atrás da sua táctica de caça aos patos ou mostrar que não tem medo de ir a jogo» - António Nogueira Leite, no Facebook


 


ARCO DA VELHA – Dois terços dos carros da Polícia Judiciária estão inoperacionais ou com problemas de manutenção e, segundo relata a imprensa, a principal polícia de investigação portuguesa está em falência técnica. Nada de novo no universo da Justiça.


 


VER – A galeria Appleton Square é um agradável espaço na antiga zona industrial de Alvalade, por detrás da Avenida da Igreja, que se tem dedicado a arte contemporânea. Agora expõe seis novas obras de Jorge Humberto (JOH), um pintor que se tem destacado pela forma como experimenta técnicas que criam texturas complexas. O título genérico da exposição é «Tradutor», um nome bem escolhido para sublinhar a forma como JOH nos faz ver outras realidades além das evidências. O artista gosta de explorar os sentidos, provocando a imaginação. Usa a cor de uma forma particular, moldando-lhe tonalidades com texturas, às vezes quase como se quisesse criar uma terceira dimensão na sua pintura. Até 26 deMarço, Rua Acácio Paiva 27, aberto das 15 às 20, de terça a sábado.


 


AGENDA – No Teatro Municipal de Almada uma exposição-leilão, que agrupa obras de vários artistas (de Pedro Calapez a Cristina Ataíde, passando por André Gomes, Rui Chafes, Pedro Proença, Jorge Martins, Graça Sarsfield ou Egas Vieira, entre outros) – até dia 17 de Abril.


 


FOTOGRAFIA – Até 15 de Junho, no Museu Colecção Berardo, no CCB, as sempre polémicas escolhas do prémio BES Photo, este ano com trabalhos de Carlos Lobo, Kiluanji Kia Henda, Manuela Marques, Mário Macilau e Mauro Restiffe; no Centro de Artes Visuais, em Coimbra, duas exposições: «2011», de André Cepeda; e «arquivo#0» de José Maçãs de Carvalho.


 


LER –  O novo livro de José Eduardo Agualusa é um divertido exercício de usurpação de estilo. O escritor vestiu a pele de 25 autores já desaparecidos e escreve, sobre temas, factos, pessoas, músicas e tendências actuais como os próprios o fariam, replicando o estilo e, aqui e ali,  os tiques de discurso literário. É um belo exercício de imaginação e bom humor, que resulta em 25 histórias curtas que traçam um bom retrato dos tempos actuais, recorrendo à inspiração de nomes como Eça de Queiroz, Nabokov, Senghor, Bertrand Russell, Bruce Chatwin, Sophia de Mello Breyner, Camilo Castelo Branco ou Nelson Rodrigues, entre outros. Delicioso. José Eduardo Agualusa, «O Lugar do Morto», Edição Tinta da China 157 péginas.


 


OUVIR – Alguns discos são tão belos e perfeitos que se torna muito difícil escrever sobre eles. Logo à primeira audição mostram-se irresistíveis. É o que acontece com o novo trabalho dos norte-americanos The Decemberists, «The King Is Dead», o seu sexto álbum. Normalmente associados a influências do folk britânico, este novo disco é no entanto aquele que mais marcadamente revive a tradição musical norte-americana, com momentos onde se notam influências de nomes como Neil Young, dos REM (Peter Buck colabora aliás no disco). Outra das colaborações vem de Gillian Welch, essa extraordinária intérprete americana que foi às raízes musicais dos Estados Unidos buscar inspiração e que aqui se destaca. Elegante, criativo, inspirado, este disco viveria mesmo que não tivesse estas duas colaborações excepcionais. The Decemberists, The King is Dead, CD Rough Trade


 


PROVAR – Nos anos 60 o restaurante Arraial era um dos locais incontornáveis na zona da Avenida de Roma. Decoração típica portuguesa à moda da época, cozinha tradicional. Com o andar dos anos foi decaindo, e no ano passado sofre uma remodelação total. A decoração ficou mais leve, o espaço mais luminoso, com zona para fumadores. Confortável, boa garrafeira, serviço atento, o Arraial voltou aos seus melhores tempos, mantendo a fidelidade à cozinha portuguesa. Por estes dias provei um bacalhau à Brás e um Choco Frito à moda de Setúbal, ambos a corresponderem às expectativas. Preços razoáveis, boa qualidade, bom serviço. Restaurante Arraial, Travessa Conde de Sabugosa 13 A e 13 C, Telefone 218 400 089.


 


BACK TO BASICS – A palavra foi dada ao homem para esconder o seu pensamento - Stendhal

março 04, 2011

Esquina 398 - Jornal de Negócios

TELEVISÃO - A contínua progressão do cabo continua a fomentar um clima de  agitação nas estações de televisão em sinal aberto. Os números da semana passada são elucidativos: a TVI obteve um share médio de 26%, a SIC ficou em segundo lugar com 23,6%, o conjunto de canais de cabo ficou na terceira posição com 23,5% e a RTP 1 só conseguiu o quarto lugar com 23%; a RTP 2, vítima da falta de estratégia alternativa, caiu para os 3,9%, o seu pior resultado desde há muito tempo. Na realidade o somatório dos canais de cabo já está, nas últimas semanas e de forma regular, na terceira posição, à frente de um dos canais de sinal aberto. 


 


Se olharmos só para os resultados dos que vêem televisão por serviços de distribuição pagos (já existem 2,77 milhões de casas com assinatura de cabo, fibra óptica ou satélite), na semana passada o quarto canal mais visto, logo a seguir aos três canais generalistas, foi a Sport TV, seguido da SIC Notícias, AXN, e só depois a RTP 2. A seguir, para completar o top ten, vêm Hollywood, Fox e Panda.


 


Mas o mais curioso de tudo é que na semana passada, nas casas com televisão por assinatura, 52,2% preferiram os canais do cabo e só 47,8 ficaram pelos canais de sinal aberto. Não é isto que costuma acontecer e certamente a transmissão de vários jogos de futebol na Sport TV justificou esta enorme alteração de padrão. Mas mesmo que nas próximas semanas o cabo volta a ser minoritário, os dados estão lançados e esta é uma realidade que não vai voltar para trás. O mundo da televisão está a mudar de forma acelerada.


 


Os espectadores assumiram o controlo do comando, como dizia a (boa) publicidade da Meo – e o que é facto é que o aumento do número de assinantes de televisão que se verificou desde que existem dois grandes operadores no sector veio contribuir para que progressivamente diminua o número de espectadores da RTP, SIC e TVI.


 


CRISE – Estamos numa situação em que o PS tem medo de cair, mas o PSD parece ter medo de ganhar Um amigo meu dizia-me, há dias, que ao PSD falta « killer instinct» - e Sócrates, é claro, aproveita-se disso. Cada dia que passa ouvem-se mais rumores de que tudo se vai acelerar a partir do próximo dia 9, quando Cavaco Silva tomar posse no segundo mandato como Presidente da República. Esta semana Belém deixou cair nos jornais que o Presidente havia criticado o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a propósito da ameaça de processo disciplinar que este fez a um Juiz que não obedeceu á destruição das gravações das escutas de Sócrates, incluídas no processo Face Oculta. Noutras ocasiões recentes Cavaco deu sinais de distanciamento em relação ao Governo e de preocupação com o evoluir da situação portuguesa. Está agendado um duelo, só que ainda não tem hora marcada – mas mais tarde ou mais cedo ele vai mesmo ocorrer.


 


SEMANADA -Teixeira dos Santos descobriu, ao fim de anos de Governo, que a economia portuguesa não pode continuar a assentar numa espiral contínua de endividamento. O Governo afirmou que prepara mais medidas de austeridade. O concurso do TGV continua a girar sem que ninguém perceba exactamente o que se passa. Sócrates terá falado do TGV na conversa com Merkel?


 


ARCO DA VELHA – Leio nos jornais que os magistrados vão ter de deixar de usar separadores de cartão, em processos judiciais, como importante medida de contenção da despesa anunciada pelo Director Geral da Administração da Justiça.


 


VER – A nova exposição do fotógrafo Paulo Nozolino, Makulatur, é criativamente avassaladora, formalmente contida, mas com uma energia contagiante. Esta intensidade é ainda mais marcante porque o tema da exposição é a vida e a morte, uma vida marcada pela expiação, às vezes apenas reduzida a um caminho para o fim. Os seis dípticos que constituem a exposição são uma evidência da transitoriedade de tudo o que nos rodeia. A própria forma como a exposição está montada, quase a evocar a ida a um sepulcro, apenas quatro pessoas dentro do espaço de cada vez, contribui para uma ideia de criatividade total, tecnicamente irrepreensível,  com a possibilidade de estimular múltiplas leituras. Por fim alguém sai do bonitinho e não hesita em provocar. Ou ser realista. Makulatur, Galeria Quadrado Azul, Largo Stephens 4, até 21 de Abril.


 


AGENDA – Pintura de Michael Biberstein em diálogo com escultura e instalações de Rui Sanches ,em diálogo no Pavilhão Branco do Museu da Cidade de Lisboa, no Campo Grande, até 10 de Abril; trabalhos recentes, sobre papel, de pedro Chorão, na Galeria João Esteves de Oliveira, Rua Ivens 38, até 18 de Março.


 


LER – A edição da revista Monocle de Março aborda um tema actualíssimo: Será que não se dorme na nação do futuro - deixa de haver horários, estamos sempre ligados?.A Monocle sugere formas de equilibrar o trabalho, o descanso e a diversão na época em que estamos sempre ligados através de um dos múltiplos aparelhos que nos rodeiam. Com humor anuncia que os OOOR são uma classe perigosa desfasada com o ritmo dos tempos. OOOR quer dizer «Out of Office Reply» e quem utiliza este mecanismo nos dias de hoje está desfasado da realidade. Por outro lado, sobretudo na Ásia, proliferam os OAH – Open All Hours. A abordagem da Monocle faz-nos poensar nos desafios que a capacidade de conectividade colocam quer ás empresas quer aos profissionais. Muito interessante.


 


OUVIR - Let England Shake, o novo e oitavo álbum de originais de P.J. Harvey, quatro anos depois do perturbante White Chalk, é um disco surpreendente – em termos das canções, do ponto de vista musical e das letras – e, como ela diz, as suas canções nascem de palavras que depois ganham forma musical. Está a tornar-se um lugar comum dizer que este disco coloca a carreira de miss Polly Harvey num novo patamar – mas de facto é verdade. Ela consegue levar a música popular contemporânea para um território há muito inexplorado, num disco em que a música pop regressa ao tema da guerra. «Todos os meus discos são políticos no sentido original do termo - falam da forma como nos relacionamso uns com os outros» - afirmou Harvey numa recente conversa publicada na revista francesa Inrockuptibles. Neste disco ela  fala da guerra através da poesia, fala de conflitos que, ora não localiza no tempo ora descreve de forma clara. Claro que no fim se percebe que ela, em todas estas canções, fala sobretudo da condição humana. Uma das canções, «England», é assim: “I have searched for your springs, but people, they stagnate with time, like water, like air…” .


 


PROVAR – Gostava de conhecer Moçambique, de ouvir lá a sua música que tanto me fascina, de provar os petiscos de que amigos meus falam. Pois fiquem os lisboetas sabendo que há um bocadinho de Moçambique perto do Cais de Sodré, no restaurante Ibo, já aqui mencionado noutra ocasião. Fica mesmo ao lado do Bar do Rio e retorno ao tema porque nestes dias em que o sol começa a querer dar sinal, apetece mesmo ir para  a pequena esplanada do Ibo e beber uma imperial com cerveja de marca «Laurentina», uma das cervejarias famosas de Maputo, comendo umas gambas à moda do que lá se faz. Há muitas outras iguarias – mas destaco o caril de caranguejo, que continua a ser uma especialidade. É pena que aquela zona da cidade esteja tão desleixada pela Cãmara, tão suja e cheia de lixo, e que tenham construído uma pista de ciclismo que obriga quem ali passeia à beira-rio a permanentes exercícios para evitar ser atropelado. Ibo – Cais do Sodré, Armazém A, Telefone 213 423 611.



BACK TO BASICS – A dúvida é o princípio da sabedoria - Aristóteles

março 02, 2011

GOLPADAS PARTIDÁRIAS

(Publicado no diário Metro de 1 de Março)


 


De repente o PS, com ajuda de parte do PSD, começou a falar da necessidade de reorganizar o território. Fala-se em diminuir o número de freguesias, talvez o número de municípios,  em iniciar o processo de regionalização e em promover o reordenamento administrativo do território. À primeira vista tudo parece perfeito.


 


Acontece que, quando ouço falar disto, apetece-me, como dizia o outro, sacar da pistola – a probabilidade de tudo isto só servir para ir ao bolso dos contribuintes ainda mais é elevadíssima, a probabilidade de isto só servir para mais uns jobs for the boys é enorme. Regra geral quando, no contexto do nossos sistema político, se fala de reordenamento administrativo, isso quer dizer fazer uma partilha equilibrada de lugares entre partidos.


 


Como de boas intenções está o inferno cheio vale a pena ver o que se passou em Lisboa, a nível do projecto de redução das freguesias, cozinhado à socapa pelos líderes das distritais do PS e PSD, dois aparelhistas com anos de experiência de negociatas destas. Guiados pelo desejo de dar um exemplo ao país, fizeram um acordo que tem por base a maximização dos resultados eleitorais de ambos os partidos (desprezando os outros), ignorando qualquer diálogo com os eleitos – nas freguesias ena vereação. Ou seja, o único objectivo foi concertar posições que salvaguarde os dirigentes partidários, passando por cima daqueles que foram escolhidos pelos eleitores.


 


PS e PSD dizem que o acordo de Lisboa é exemplar –  na realidade é um alerta para o que, se puderem, responsáveis partidários do calibre dos que fabricaram o negócio irão fazer pelo resto do país.


 


É bem verdade que uma reorganização administrativa do território é uma peça importante de modernização – mas era bom que ela fosse feita com base em estudos e decisões de técnicos e de especialistas,  e não com base nos objectivos partidários do bloco central – que passam por esvaziar a paisagem à sua volta e partilhar lugares.

fevereiro 25, 2011

Esquina 397 - Jornal de negócios

ERC – Vai por aí um grande desassossego à volta da designação dos novos membros da ERC, Entidade Reguladora da Comunicação. Eu, por mim, acho muito bem que se faça um balanço, sério, do que se passou neste primeiro mandato desse organismo. Muita coisa correu mal, a ERC agiu muitas vezes de forma desastrada, actuou quando não era necessário e esteve silenciosa quando se justificava fazer-se ouvir. É  legítimo considerar que, em diversas ocasiões, serviu de cobertura política ao Governo e esteve longe de fazer um mandato independente – e este ponto é certamente o mais grave de todos. A falta de independência e a tendência servilista em relação ao poder político derivam da forma da sua designação – por negociata parlamentar. Na altura em que a ERC foi lançada houve quem chamasse a atenção para o monstro que estava ser criado. Pode dizer-se hoje que o monstro foi amamentado a biberon parlamentar, e que está um perfeito monstrinho. Reconheço que há um trabalho de recolha de informação e sistematização de dados que é importante, e que não era feito com a mesma sistematização na anterior Alta Autoridade para a Comunicação Social - mas tenho as maiores dúvidas sobre a forma de regulamentação permitida a esta entidade e sobre a maneira como ela agiu.



Existem outros pontos quentes neste dossier – para além da forma de escolha dos seus membros – e que vão desde as suas competências e esfera de acção até ao próprio sistema de financiamento do organismo, que levantou justificados protestos dos meios. Estas questões, básicas, deviam ser analisadas e corrigidas para o futuro – mas não ouço ninguém a falar delas.


 


E, depois, existe outra questão, mais grave, que tem a ver com a forma como a ERC interferiu no normal desenvolvimento dos meios. O caso da televisão digital terrestre é o mais gritante de todos. É certo que aqui a culpa não é só da ERC, a Anacom também tem um vasto rol de culpas na forma como todo este processo se arrastou até ao ponto, que é o actual, em que a realidade tecnológica ultrapassou as regulamentações e a previsão dos legisladores – sem que até agora tenham aceite fazer as correcções necessárias.


 


Resumindo: os operadores que distribuem televisão por subscrição são hoje capazes de fornecer serviços (alta definição, 3D,  vídeo on demand, etc), para além da própria emissão digital de televisão, que superam em muito o que sobre esta matéria estava previsto no Concurso da TDT. E isto, mesmo sem que já exista fibra óptica em todo o país. Quando existir, com os programas intensivos de cablagem agora em curso, o anacronismo da solução aprovada para a TDT ainda vai ser maior.


 


Portanto temos um paradoxo: as normas da Televisão Digital Terrestre são mais arcaicas que o serviço que os operadores de cabo conseguem já hoje fornecer. Ou alguém pega nisto de forma racional ou então a factura do disparate será enorme. E a ERC que até agora existiu tem uma quota parte razoável deste disparate.


 


ARCO DA VELHA- O estado a que isto chegou: acabaram com os comboios para Beja, mas abriram lá um aeroporto onde quase só as moscas aterram. O progresso do Portugal contemporâneo é assim: quer ir a Beja? – vá de avião, que já pode aterrar.


 


SEMANADA – Francisco Louçã confessou, numa entrevista, que tem «uma paciência evangélica para Sócrates»; Francisco Louçã disse, numa entrevista, que «se o FMI entrar deve haver eleições».; Francisco Louçã considerou, numa entrevista, que «o Governo de Sócrates é o Governo do PSD»; Francisco Louçã afirmou, numa entrevista, que o Bloco de Esquerda «sairá muito reforçado» da moção de censura ao Governo; Francisco Louçã revelou, em entrevista, acreditar que nas recentes eleições presidenciais «grande parte do PS votou em Cavaco»; Francisco Louçã anunciou, em entrevista, «que o BE é hoje diferente do que era».


 


PERGUNTA – Porque é que ninguém no Governo explica como é que a despesa pública subiu 0,9% em Janeiro?


 


LER – Todos os anos a revista norte-americana «Vanity Fair» faz, no mês de Março, uma edição especial alusiva aos Oscares de Hollywood. É, digamos, uma edição clássica, de colecção, para guardar. Na deste ano, que já está à venda em Portugal, há sobejas razões para ir devorando este número. A primeira é a produção fotográfica da capa, fantástica, um tríptico desdobrável com 15 dos novos actores nomeados este ano. Depois, lá dentro uma recolha de alguns dos mais célebres romances entre actores e actrizes, acompanhado por fotografias históricas (como a de Spencer Tracy com Katherine Hepburn). Ainda em matéria fotográfica destaque para um portfolio de mulheres fatais de Hollywood, de Ava Gardner a Marilyn, passando por Kim Basinger e Elisabeth Taylor. E, para completar o ramalhete, uma fabulosa entrevista com Lauren Bacall, em que ela recorda a sua vida com Humprhey Bogart, o seu namoro com Sinatra e a sua vida no cinema. Imperdível.


 


OUVIR – Return To Forever foi um projecto marcante no jazz desenvolvido por Chick Corea e que, entre 1972 e 1977, agrupou e revelou uma série de músicos e foi uma das referências da época do jazz de fusão. Em 2008 Corea decidiu voltar a pôr de pé o conceito, desta vez sob a designação «Forever». Fez uma longa digressão mundial (agora está a começar outra) e em 2009 foi para estúdio gravar versões acústicas baseadas no trabalho desenvolvido na digressão, que incluía clássicos do jazz, um original e temas da fase Return to Forever. Ao seu lado, em estúdio, estavam o baixista Stanley Clarke e o baterista Lenny White. O resultado é surpreendente – temas conhecidos ganham aqui uma nova vida e o equilíbrio, energia e criatividade destes arranjos acústicos é uma boa surpresa. O resultado é o duplo CD «Corea, Clarke & White – FOREVER». O segundo disco é uma surpresa ainda maior e  regista a gravação de um ensaio da digressão, onde também participaram o violinista Jean Luc Ponty, a cantora Chaka Kahn e o guitarrista Bill Connors. Este disco 2 termina com o registo ao vivo do clássico «500 Miles High», no festival de Jazz de Monterey, em 2009. Uma perfeita delícia.


 


VER  – Na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, e até 12 de Junho, está patente a exposição  «My Choice», uma escolha feita pela própria Paula Rego que inclui 120 obras da colecção do British Council, nomeadamente pinturas, gravuras, fotografia e desenho. Esta colecção inclui 8500 obras dos séculos XX e XXI e esta escolha permite ver alguns significativos artistas britânicos pouco conhecidos em Portugal –  além, claro, de proporcionar a oportunidade de ver o célebre «Naked Girl With Egg» de Lucian Freund e a série de dez gravuras de David Hockney para os Contos dos Irmãos Grimm. Esta exposição é acompanhada por uma outra que mostra quadros de Paula Rego feitos à época da sua obra «Proles Wall», de 1984, considerada como um dos pontos de viragem na carreira da artista.


 


PROVAR – Às vezes há quem pense que uma pequena vivenda ao fundo da Avenida de Berna, quase a chegar à Praça de Espanha, não passa de uma casa particular. Na porta está escrito «La Gondola». Na realidade trata-se de uma referência entre os restaurantes de Lisboa, uma casa que mistura algumas incursões pela cozinha italiana com boa cozinha portuguesa. As influências italianas vêm da origem do restaurante, nos anos 30 do século passado, fundado por uma família italiana que pretendia servir a cozinha do seu país aos compatriotas radicados em Lisboa. Hoje a história é diferente e embora existam alguns pratos italianos o essencial passa-se na tradição portuguesa. Quando lá vou o meu petisco favorito é o bacalhau à Braz, que continuo a achar um dos melhores de Lisboa, levíssimo. As alheiras são reputadas e os grelos que, a pedido, podem acompanhar, são elogiados pelo seu sabor. Para os gulosos, a rematar, aconselho uma trouxa de maçã. Resta dizer, nesta semana solarenga, que o La Gondola dispõe de uma esplanada que é dos locais mais parazíveis de Lisboa. Telefone 217 970 426.


 


BACK TO BASICS – O ódio é a vingança do cobarde – Bernard Shaw

fevereiro 22, 2011

PUNIR A MENTIRA NA POLÍTICA

(Publicado no diário Metro de dia 22 de Fevereiro)


 


Todas as campanhas eleitorais são férteis em promessas. O bom senso e a lógica mandariam que algumas nem chegassem a ser feitas - mas são, e surgem voluntariamente. Os políticos habituaram-se a fazer as promessas que lhes vinham à cabeça e a viver com o seu incumprimento na maior impunidade. As promessas não cumpridas tornaram-se no dia-a-dia de partidos e candidatos e são uma das causas do descrédito da política e do afastamento dos cidadãos em relação ao voto.


 


Por isso, lanço aqui hoje uma ideia: devia ser criado um mecanismo legal que analisasse as principais promessas não cumpridas e promovesse a responsabilização efectiva daqueles que violam o que prometeram. O Presidente da República devia ter especial e constante intervenção nesta matéria, sendo o garante da verificação das principais promessas feitas.


 


Um caso:  quem ao fim de um mandato não consegue cumprir, por margem significativa, metas que prometeu, por exemplo na criação de emprego, deve ser interditado de se recandidatar a próximas eleições. O Presidente da República devia analisar o mandato e verificar quais as promessas que foram completamente desprezadas e que foram apenas engodo eleitoral. E quem mentiu para caçar votos devia ser proibido de ir a novas eleições.


 


Outro caso:  quem promete não aumentar impostos e o faz dois ou três meses a seguir às eleições devia ser destituído de imediato e o Presidente da República devia ter a obrigação de o fazer,  criando um mecanismo de substituição do Governo. Além disso o partido que caucionou estas propostas devia ser penalizado com a perca de lugares no Parlamento e outras condicionantes de actuação.


 


Estas minhas ideias podem parecer estranhas – mas é preciso encontrar uma forma de responsabilizar os responsáveis por cargos políticos pelas mentiras que utilizam com o único propósito de conseguirem ter poder.


 


Se o Presidente da República se tornasse num fiscal, que persegue e castiga a mentira, o nosso sistema político melhoraria, e muito.

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 18 de Fevereiro)

LISBOA - Leio, e nem acredito: «Os deputados municipais do PS e do PSD em Lisboa recusaram terça-feira, na assembleia municipal, enviar para discussão pública propostas de reorganização das freguesias, alternativas àquela negociada por socialistas e sociais-democratas». Aquilo que podia ser uma boa coisa – a diminuição do número de freguesias e uma reordenação da cidade – tornou-se num case study de manobrismo político. Este é o retrato do pior que existe na traficância de interesses partidários, é o retrato da arrogância e soberba das lideranças dos partidos do bloco central na assembleia municipal de Lisboa. Fui eleito, como independente, mas na lista do PSD, em 2009, para a Assembleia Municipal de Lisboa e depois das primeiras reuniões deixei de participar nos trabalhos, solicitando a substituição, em cada reunião, há mais de um ano. Sobre o assunto tenho mantido silêncio, mas há muito que  discordo da actuação da liderança do PSD na Assembleia, discordo da sua relação com a equipa de vereadores social-democratas, e discordo da forma como tem sido conivente com um funcionamento perfeitamente inútil da Assembleia Municipal. A minha curtíssima experiência autárquica faz-me desconfiar da utilidade deste órgão – um mini parlamento para auto satisfação oratória de alguns funcionários políticos, que  promovem reuniões atrás de reuniões, na generalidade vazias e muitas delas inúteis, para justificar umas senhas de presença e dar uma ilusão de debate. Só que, como se vê, quando o debate público é preciso, ele é abafado. A Assembleia devia ser o garante da relação com os Munícipes, e não um obstáculo. Com esta decisão a Assembleia Municipal de Lisboa ergueu à sua volta um muro que a separa da cidade. PS e PSD foram os obreiros desta obra, um tratado de Tordesilhas da capital, negociado directa e exclusivamente entre as estruturas distritais dos dois partidos, com a benção de António Costa. Assim sendo não se percebe para que serve a Assembleia Municipal – é uma mera figura de corpo presente. Esta semana entreguei a minha renúncia ao mandato de deputado municipal. No estado em que as coisas estão, não alimento a menor esperança que mudem.


 


ARCO DA VELHA – O Tribunal Central de Instrução Criminal, que tem em mãos alguns dos mais mediáticos processos judiciais, é o retrato do país real: uma máquina muito usada de fotocópias, ausência de scanner, falta de armários para guardar os processos, um fax com 11 anos; este é o lado da moeda, inverso ao deslumbre tecnológico de Sócrates. De um lado cenário e fantasia; de outro a crua realidade. No meio, a ineficácia da justiça. Portugal no seu melhor.


 


SEMANADA – O Ministro Silva Pereira foi ao Parlamento dizer que a culpa das falhas nas eleições presidenciais foi do Ministério da Administração Interna, mas zurziu a oposição por pedir a demissão do respectivo Ministro; o Bloco de Esquerda transformou um instrumento político, a moção de censura, numa espécie de bóia salva-vidas para o Governo – que vai sair do assunto a rir-se da oposição; no fundo, Louçã teve uma ideia um bocado parva, para utilizar uma expressão muito em voga.


 


PERGUNTA – Que dirá José Sócrates de Angela Merkel? E que dirá Angela Merkel de José Sócrates?


 


LER - «Prova de Vida» é o novo livro de Filipe Pinhal, ex-presidente do BCP que há três anos foi protagonista de uma história ainda muito mal contada. Neste seu segundo livro sobre o BCP (o primeiro foi «Em Defesa do Bom Nome», de 2009), já com o recuo que o tempo proporciona, Filipe Pinhal relata o que aconteceu, em detalhe, designando pessoas e chamando as coisas pelo nome. É um relato impressionante, muito bem resumido por Miguel Cadilhe, na apresentação pública do livro: «A Caixa Geral de Depósitos financiou o assalto ao BCP, com luz verde do Governo, e apadrinhada pelo Banco de Portugal, CMVM e pelo Ministro das Finanças». Os detalhes e peripécias deste processo que «levou o BCP a mudar de mãos sem que quem o adquiriu pagasse prémio aos accionistas», provocou a governamentalização, politização e desvalorização do Banco – defende Pinhal. Este é um retrato de uma época , a da fase inicial do regime Sócrates, da tomada de posições em vários sectores, numa utilização abusiva do Estado como ainda não se tinha visto de 1974 para cá.


 


VER – A galeria Pente 10 é uma das poucas que em Lisboa se dedica à fotografia – e tem feito um bom trabalho, embora os preços apontados sejam um pouco desproporcionados . Até dia 2 de Abril exibe uma nova série de fotografias de Luisa Ferreira, agrupadas na exposição «Nós». São imagens construídas, situações onde a natureza se cruza com a encenação da presença de pessoas, familiares e amigos da autora. Em boa parte funciona como um regresso às origens, num percurso muito pessoal. Com um cuidado extremo no enquadramento e na abordagem quase gráfica da natureza ( a série dos bosques, por exemplo), «Nós» retoma  a vontade de Luisa Ferreira em mostrar que a sua fotografia vai para além da observação da realidade, preferindo construir momentos. Intervenção na paisagem, como diz Luisa Ferreira.


 


OUVIR – A pianista japonesa Mitsuko Uchida regressa pela segunda vez ao registo dos concertos para piano nº20 e nº 27 de Mozart, duas das peças mais populares do compositor. O registo original foi feito há já algumas décadas, com a English Chamber Orchestra. Aqui Uchida trabalhou com a Orquestra de Cleveland, que surge em grande forma, e com quem a pianista conseguiu estabelecer uma relação perfeita, dirigindo-a a partir do paino, como acontecia na época em que Mozart compôs. Mas o fundamental continua a ser  a precisão, a leveza do fraseado e o sentimento colocado por Uchida nestas peças.


 


AGENDA – Tesouros escondidos por detrás da aparência exterior: assim se pode descrever «BloomArt», a exposição de esculturas murais que Anamar & Telma apresentam na Cordoaria Nacional, até 17 de Março. Cada peça mistura cores com formas, palavras e frases com música e um ponto comum entre todas: no interior, guardado está um anel. E um anel, como escreve João Pinharanda sobre  a exposição, «deve ser um objecto mágico (….) teremos de ser nós a gerir o bem e o mal que ele possui». 


 


PROVAR – O Hotel Inspira Santa Marta é um bom exemplo de recuperação de um prédio antigo. Em vez de uma ruína temos agora um prédio vivido, recuperado com bom gosto e funcional. No seu piso de entrada funciona a Open Brasserie Mediterrãnica – o espaço é amplo, luminoso, infelizmente com clientela não muito abundante. E, no entanto, a cozinha é simpática e baseada em produtos como o peixe espada preto (bons filetes), um saboroso frango do campo recheado ou uma posta de boa carne barrosã, grelhada. Os acompanhamentos tem uma preocupação de agricultura biológica e o restaurante serve água da torneira filtrada. O serviço é simpático, a confecção é boa, a arquitectura é convidativa. Pena não ter mais gente, porque a merecia. Ao almoço e jantar há menus especiais mas em qualquer caso mantém-se a lista. Os vinhos disponíveis não são muitos mas são bem escolhidos e a preço razoável.  Rua de Santa Marta 48, telefone 210440900.


 


BACK TO BASICS – A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano (Voltaire)

fevereiro 18, 2011

UMA ASSEMBLEIA MUNICIPAL APODRECIDA

Apresentei hoje a renúncia ao mandato de Deputado Municipal. As razões são as que estão neste texto, publicado hoje em «A Esquina do Rio», no Jornal de Negócios. Não fazia sentido continuar com um mandato que deixei de exercer, quando, há um ano, ficou claro que a agenda da Direcção do Grupo do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa, e da respectiva Distrital, era diferente da luta por uma Lisboa melhor e com sentido, que os vereadores eleitos da lista a que pertenci se esforçavam por desenvolver.


 


Custava-me caucionar, pelo silêncio, posições que muito me desagradavam. Esta semana, com a evidência de uma negociata política entre as Distritais do PSD e PS, com o objectivo de calar posições divergentes, achei que já não fazia sentido continuar numa Assembleia que privilegia evitar o debate aberto sem rédeas partidárias, erguendo um muro à sua volta, voltando costas à cidade.



Manopras partiodárias destas, como as protagonizadas pela Direcção da bancada do PSD e respectiva Distrital, de facto contribuem para denegrir a imagem da actividade política. Mas são um espelho fiel da realidade partidária.


Aqui está o texto em que explico as minhas razões:
 
«Leio, e nem acredito: «Os deputados municipais do PS e do PSD em Lisboa recusaram terça-feira, na assembleia municipal, enviar para discussão pública propostas de reorganização das freguesias, alternativas àquela negociada por socialistas e sociais-democratas». Aquilo que podia ser uma boa coisa – a diminuição do número de freguesias e uma reordenação da cidade – tornou-se num case study de manobrismo político.


 


Este é o retrato do pior que existe na traficância de interesses partidários, é o retrato da arrogância e soberba das lideranças dos partidos do bloco central na assembleia municipal de Lisboa. Fui eleito, como independente, mas na lista do PSD, em 2009, para a Assembleia Municipal de Lisboa e depois das primeiras reuniões deixei de participar nos trabalhos, solicitando a substituição, em cada reunião, há mais de um ano.


 


Sobre o assunto tenho mantido silêncio, mas há muito que  discordo da actuação da liderança do PSD na Assembleia, discordo da sua relação com a equipa de vereadores social-democratas, e discordo da forma como tem sido conivente com um funcionamento perfeitamente inútil da Assembleia Municipal. A minha curtíssima experiência autárquica faz-me desconfiar da utilidade deste órgão – um mini parlamento para auto satisfação oratória de alguns funcionários políticos, que  promovem reuniões atrás de reuniões, na generalidade vazias e muitas delas inúteis, para justificar umas senhas de presença e dar uma ilusão de debate. Só que, como se vê, quando o debate público é preciso, ele é abafado.


 


A Assembleia devia ser o garante da relação com os Munícipes, e não um obstáculo. Com esta decisão a Assembleia Municipal de Lisboa ergueu à sua volta um muro que a separa da cidade. PS e PSD foram os obreiros desta obra, um tratado de Tordesilhas da capital, negociado directa e exclusivamente entre as estruturas distritais dos dois partidos, com a benção de António Costa. Assim sendo não se percebe para que serve a Assembleia Municipal – é uma mera figura de corpo presente. Esta semana entreguei a minha renúncia ao mandato de deputado municipal. No estado em que as coisas estão, não alimento a menor esperança que mudem.»

fevereiro 15, 2011

SOBRE A PREPOTÊNCIA

Publicado no Metro de 15 de Fevereiro)


 


Como é que as Finanças podem leiloar um andar sem terem a certeza da situação e do estado da pessoa que foi penhorada e executada? Como é possível que haja quem autorize uma penhora a uma pessoa falecida? Que perversos mecanismos foram criados que levam a estas faltas de humanidade?


 


O lamentável caso conhecido na semana passada vem chamar a atenção sobre a forma de actuar das Finanças. Percebe-se que vigora a lei do menor esforço e, sempre, a presunção de que o contribuinte é culpado. O caso do leilão do andar penhorado com o cadáver da dona lá dentro, morta há oito anos, mostra uma única coisa – a prepotência do Estado e a irracionalidade do funcionamento da máquina fiscal.


 


O caso não é único. Todos infelizmente testemunhamos que, mesmo quando após o falecimento de um familiar são tomadas todas as providências (declaração do óbito às finanças, habilitação de herdeiros, etc), durante anos o falecido continua a receber cartas, algumas contendo ameaças de penhora sem que seja explícita a razão – muito menos quando é suposto que o Fisco saiba quem são os herdeiros e não os contacta, preferindo executar quem já não pode contactar a verificar quem devia, de facto, avisar.


 


Todo este caso é uma sucessão de mau funcionamento do Estado – das polícias que não ligaram ao que vizinhos e familiares diziam, dos tribunais que descartaram as investigações, do Fisco que não cuidou em sequer tentar perceber o que se passava. E tudo culminou nesse supremo requinte de insanidade e crueldade que foi leiloar um imóvel sem sequer haver o cuidado de antes o abrir e verificar.


 


Burocrata, arrogante, insensível, descuidado, prepotente – este é o retrato do Estado, um Estado para quem , cada vez mais, os cidadãos não têm direitos e são apenas devedores, culpados,  incumpridores. A obsessão da receita fiscal mais fácil – cobrada aos mais fracos  - dá nisto. E neste caso seria muito bom que se soubesse quem foi culpado de tudo o que aconteceu, nas várias etapas do caso.