fevereiro 15, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Fevereiro)

SPORTING – Fico a olhar para o frenesim eleitoral que vai pelo Sporting e espanto-me com o facto de os candidatos já anunciados terem enveredado por um rol de promessas e contactos (jogadores, treinadores, agentes futebolísticos), sem antes apresentarem o trabalho de casa: como resolvem a situação financeira do clube, que está praticamente falido, e como mobilizam os sportinguistas que, depois de todos os dislates recentes, estão para o seu clube como os eleitores portugueses para os políticos: descrentes e desconfiados de tanta promessa sem substância. Na situação em que o Sporting está quer-me  parecer que nenhum dos candidatos em liça neste momento (escrevo quarta ao fim do dia) mostrou até agora ideias, recursos e equipa.


O futebol português continua refém de um sistema que se habituou a viver acima das posses e com recurso demasiado frequente a expedientes. Apesar do nevoeiro dos últimos dias isto não vai lá com sebastianismos nem desejos voluntariosos: sem capacidade efectiva de mobilização de capital, sem capacidade agregadora de equipas e de competências, o Sporting só vai piorar.


O ex-jogador, e sportinguista, Carlos Xavier fez uma síntese brilhante da situação e da forma de a resolver: «O Sporting precisa de alguém que traga ovos para fazer omeletes».


 


 


RESPONSABILIDADE - Tenho alguma curiosidade em saber o que o Ministro da Administração Interna vai dizer sexta-feira no Parlamento. Já se sabe que recebeu o relatório preliminar da Universidade do Minho, sobre o qual nada adiantou. Mas logo depois de o ter recebido decidiu aceitar a demissão  do Director Geral da Administração Interna e a manter em funções o director geral da Administração Eleitoral. Presume-se pois que o problema esteve no Ministério, e, se assim foi, não se percebe porque é que o Ministro não assume também, ele próprio, as responsabilidades pelo facto de ter havido cidadãos que não puderam votar. E, já agora, porque é que o Ministro da Presidência, que tutela o cartão do cidadão, tem estado tão caladinho? Também ele tem responsabilidades no que se passou.


 


 


SEMANADA – O PSD anunciou uma espécie de Estados Gerais e mostrou-se disponível para votar uma moção de censura ao Governo; José Sócrates arrancou numa autêntica campanha eleitoral junto dos empresários – começou pelas exportações e nas próximas semanas tem a agenda carregada; o PSD olhou para os passeios e sugeriu que o executivo deixasse de andar à deriva e pediu que o Governo, governe;  e  Cavaco Silva vetou um diploma do Governo, chamou o Ministro Santos Silva a Belém e deixou correr nos jornais que lhe tinha dado um puxão de orelhas; Mário Soares, no seu artigo semanal do «Diário de Notícias» destacou os Deolinda e a canção «Parva Que Sou», citando parte da letra e mostrando assim que continua atento aos sinais de degradação do sistema político.


 


 


ARCO DA VELHA – A igreja católica dos Estados Unidos desenvolveu uma aplicação que se chama «Confession» e que mediante o custo inicial de 1,47 dolares, permitirá aos fiéis confessarem os seus pecados através do iPhone.


 


LER – Com a proliferação de edições que existe às vezes esquecemo-nos como um livro pode ser um objecto único. Recordamo-nos da importância da edição quando nos surge uma obra como «Almocreve das Palavras», uma recolha de poemas de Henrique Segurado, escritos ao longo de 20 anos, entre 1969 e 1989, acompanhados por desenhos de Rui Sanches. A poesia de Henrique Segurado, com quem tive a felicidade de trabalhar e de aprender, é como ele: sensível, criativa, sentida, emocional. São 200 poemas, muitos escritos em viagem, alguns pessoalíssimos, que falam de coisas comuns – como um cozido à portuguesa, ou das fantásticas aventuras de Emilio Salgari, mas também um belíssimo «Papel Moeda», que evoca Fernando Pessoa. Desde que tenho este livro, há quase duas semanas, volto a ele com frequência e sempre com gosto – a descobrir pormenores nas palavras, nos desenhos ou na cuidada edição (a capa, a tipografia, a entrelinha, o papel), fruto dos cuidados de Joana Morais Varela e Vasco Rosa.


 


 


VER – Na Plataforma Revólver (Rua da Boavista 84-1’, Lisboa) está uma nova exposição colectiva, criada por Victor Pinto da Fonseca, o dinamizador de todo o edifício Transboavista. A verdade é que as inaugurações nos vários espaços de exposição deste local têm uma animação única em Lisboa nestes dias que correr. Ainda por cima as exposições mostram frequentemente obras surpreendentes – e nesta cabe destacar o desenho minucioso, quase obsessivo de Inez Teixeira, a colecção de insectos de Sofia Aguiar ou as peças de Rosa Carvalho, Sofia Leitão e Fabrizio Mato. A exposição decorre até 10 de Março e as obras são todas recentes, algumas aqui mostradas pela primeira vez. Aliciante e, nalguns casos, deliciosamente perturbador.


 


 


OUVIR – A partir dos primeiros segundos de «Rider To The Sea», a faixa de abertura do disco estreia de Anna Calvi, percebe-se que ali está qualquer coisa inovadora – diferente e excepcional. Nos últimos três anos Calvi compôs e pensou as canções deste disco e andou a apresentá-las ao vivo e a ganhar uma legião de seguidores, que inclui Brian Eno. Quem já a ouviu ao vivo diz que ela evoca Patti Smith (é a opinião de Eno) e P.J. Harvey – que por acaso trabalha com o mesmo produtor de Calvi, Rob Ellis., As similitudes não são de estranhar: a chave do impacto de Anna Calvi está na forma como conjuga a guitarra eléctrica com a voz. Diga-se que usa a guitarra de forma exemplar e que a sua sonoridade é crua, emotiva e com uma energia simples e eficaz. Brian Eno surge em duas das faixas do disco (um raro empenho, diga-se), e depois de se ouvir «The Devil», a sexta faixa, percebe-se que este é uma caso especial de talento. O disco roda há duas semanas no meu carro e não vai de lá sair tão cedo. Há poucos CDs que produzam sensações como este consegue.


 


 


AGENDA – A ideia é muito engraçada e deve ficar em agenda ao longo do ano: para assinalar o 15º aniversário da XN Brand Dynamics, a sua fundadora e responsável, Xana Nunes, vai promover uma série de iniciativas, entre as quais diversas exposições no espaço do escritório da empresa, na Rua das Chagas 20 r/c. Até 15 de Março, e de segunda a sexta entre as 10 e as 13H e as 15 e as 18H quem quiser pode ir vber as fotografias da série «Woman Nature», da autoria de Luis de Barros, Mário Princípe, Carlos Ramos, Ricardo Quaresma e Rui Aguiar.


 


 


PROVAR - Volta e meia gosto de regressar a pequenos restaurantes onde me sinto bem, mesmo que lá vá raramente. O La Moneda é um desses sítios. Bom ambiente, boa luz, obras sempre diferentes nas paredes, frequência simpática. E, claro, comida muito bem preparada – quer dizer, boa matéria prima, bom tempero, boa confecção, boa apresentação – tudo saído do chefe Leo Guzman, um chileno há vários anos residente em Lisboa e dirigindo aquele local. Se na lista tiverem o bife de atum grelhado ou a espetada mista de atum, tamboril e camarão, não hesitem. Mas têm muito mais por onde ensaiar, das entradas aos doces – e nesta última secção deixo-vos a sugestão do bolo de tâmaras. O vinho branco da casa é um arinto muito digno que acompanha bem a refeição. O preço final é sensato e o local é movimentado ao almoço e ao jantar. Eu por mim, cada vez que vou para os lados do Cais do Sodré ponho logo o La Moneda na lista de boas hipóteses. Rua da Moeda 1C, telefone 213908012.


 


 


BACK TO BASICS – Tudo quanto sei, com maior certeza, sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol – Albert Camus.

(Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Fevereiro)

PUBLICIDADE - No ano passado o investimento publicitário no mercado português desceu mais uma vez e as estimativas mais conservadoras apontam para uma queda em  valores próximos dos 2,5% por cento – isto depois de em 2009 a diminuição ter sido mais violenta, de 15%. Em dois anos desapareceram do mercado cerca de 120 milhões de euros de investimento.


Já é possível perceber que a imprensa, sobretudo a diária, foi o sector mais prejudicado e em 2010 a coisa foi de tal forma que os investimentos publicitários captados directamente pelos jornais diários já ficaram, em termos de valores líquidos, atrás da rádio, da televisão por cabo e também da internet (se contabilizarmos a estimativa de publicidade colocada em motores de busca).  Na realidade a imprensa diária teve uma queda de cerca de 15% e a não diária conseguiu suster a queda próximo dos 6%. Na média geral a imprensa desceu cerca de 9%, a maior queda do sector


 


A grande surpresa de 2010 foi o significativo aumento do investimento em canais de cabo. Enquanto os canais generalistas tiveram uma quebra ligeiramente inferior a 4%, o conjunto dos canais de cabo teve um crescimento de quase 19 por cento, o segundo maior crescimento do mercado, logo a seguir à internet, que cresceu mais de 25%. Este resultado conjunto dos canais de cabo e dos canais em sinal aberto fez com que o investimento global em televisão caísse apenas cerca de 2%, contra uma queda superior a 13% no ano anterior.


O bom desempenho do Cabo tem uma razão evidente: a segmentação dos públicos de televisão é cada vez mais evidente e os anunciantes descobriram que canais como a SIC Notícias, a SIC Mulher, o AXN, a FOX e FOX Life, a RTP N e TVI 24 e, claro, a Sport TV, já tinham conquistado audiências consideráveis e que lhes garantiam eficácia a bom preço. O crescimento do mercado de televisão por subscrição, verificado nos últimos dois anos, desde que o MEO entrou em cena, ajudou a tornar os números de audiência bem mais interessantes – e os departamentos comerciais dos vários operadores reagiram com rapidez a isto.


 


Neste contexto não é preciso ser bruxo para especular que a tendência para a dispersão do investimento publicitário em televisão  pelos canais de cabo vai continuar a crescer – quando o novo sistema de audiometria estiver a funcionar os canais de cabo serão certamente os mais beneficiados pela correcção da amostra e pela nova tecnologia utilizada. Não me admiro se durante este ano surgirem novos canais de cabo de produção local, explorando a vontade de o público ter alternativas. Na televisão vai dar-se uma fragmentação semelhante à que há uns anos aconteceu na imprensa. E inevitavelmente neste ano, na imprensa,  vamos assistir a um movimento de encerramento de títulos e de concentração, que aliás já se iniciou.


Mas o digital é o sector que se adivinha mais curioso de seguir. A proliferação dos tablet terá um efeito multiplicador em termos de audiência e frequência de utilização. As possibilidades de segmentação e do contacto tendencialmente individualizado, nas redes sociais e em outras plataformas mais tradicionais, vão constituir um chamariz de investimento. É um mercado em que o sofisticação técnica e de instrumentos de análise e controlo terá cada vez maior importância. Mas é também um mercado em que a qualidade dos conteúdos e o valor das marcas informativas ou de lazer terá peso e capacidade de atracção de utilizadores. A convergência entre a media tradicional e a media digital vai acelerar de forma inevitável e a utilização de dispositivos móveis vai ser a grande impulsionadora de mudança nos próximos anos.


 


 


ARCO DA VELHA – O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento, considera que as conversas telefónicas de José Sócrates com Armando Vara sobre a eventual compra da TVI são exclusiva e estritamente pessoais e do foro das respectivas vidas privadas. O facto de as duas pessoas serem da direcção do PS e uma delas ser Primeiro-Ministro, e ambos estarem a ver como poderiam tornar a TVI menos incómoda para o Governo, é obviamente, também, uma questão pessoalíssima.


 


 


VER – A fotografia está em alta por estes dias. No museu Arpad Szenes-Vieira da Silva (Jardim das Amoreiras), sob a designação «Retratos de Mulheres», estão expostas imagens de Man Ray, Jorge Martins e Julião Sarmento. De Man Ray, o único cuja criação foi essencialmente fotográfica, está exposta a célebre série «The Fifty Faces Of Juliet», feita entre 1941 e 1955. Jorge Martins mostra uma série, «Eros Cromático», feita entre 1964 e 1973, com as imagens fotográficas coloridas a lápis de cera e algumas outras, mais recentes, com uma técnica que mistura fotografia e iulustração e que tem muitas semelhanças com a célebre aplicação «Brushes» para iPhone – é uma mostra inédita desta faceta do pintor. Finalmente Julião Sarmento apresenta 62 fotografias de 31 mulheres, realizadas ao longo de 42 anos, numa escolha de Sérgio Mah, todas elas entre o registo da intimidade e o instantâneo proporcionado pela luz ou a circunstância- e a fotografia é assídua na obra de Julião Sarmento.. O museu está aberto de segunda a domingo entre as 10h00 e as 18h00 e é uma boa ocasião para ver como a fotografia, para ser criativa, não precisa de ampliações em formatos gigantes, como infelizmente se tem tornado hábito. O tamanho não é tudo, na realidade – a esse propósito a exposição «Ópera» fotografias de Augusto Alves da Silva, no Museu da Electricidade, esconde na dimensão a sua vulgaridade.


 


 


LER – A edição de Fevereiro da revista Monocle tem por tema central uma série de reportagens sobre casos de mudança – em países e em cidades – que correram de forma especialmente positiva nestes conturbados tempos de crise.  Por coincidência um dos entrevistados desta edição é Mohammed ElBaradei, o homem que depois de ter estado 12 anos à frente da Agência Internacional da Energia Atómica e de ter ganho um Nobel da Paz (em 2005), decidiu voltar ao seu Egipto e dinamizar a democratização do país. A entrevista foi feita muito antes dos actuais protestos e é oportuníssima – até porque enla ElBaradei estabelece praticamente um plano de acção.


 


 


OUVIR – Jason Beck é um pianista, de formação clássica e prática rock, com incursões no rap e na lounge music. É conhecido sob o nome de Gonzales, Chilly Gonzales, e actua em Lisboa neste sábado à noite, em duas sessões, no Space, em Alcântara. A sua obra mais conhecida data de 2005 e é «Solo Piano», agora reeditado entre nós numa edição especial que é uma tentação. Ao disco original foi acrescentado um DVD em que Gonzales se propõe dar uma série de aulas de piano. O vídeo é mais divertido do que eficaz, mas mostra a capacidade de entertainer que o músico também tem. Para além das “lições” o DVD inclui diversas actuações e vídeos e é um bom complemento ao disco original. De qualquer foama o CD com as 16 composições de «Solo Piano» merece, só por si, ser escutado com atenção. Gonzales inspirou-se claramente nas «Gymnopédies» de Erik Satie e o resultado é uma bela surpresa.


 


 


AGENDA – «A Cena do Ódio» é um novo programa de rádio, aos domingos, na Antena Um, entre as 11 e o meio-dia. É um daqueles programas de rádio como já não havia, um programa pensado, músicas escolhidas em redor de um tema, textos cuidados, uma realização minuciosa. No comando do programa está David Ferreira, que todas as semanas propõe um tema – e esta semana é, muito adequadamente à situação geral, «a revolta».


 


 


BACK TO BASICS – A publicidade é a vida do negócio – Calvin Coolidge

(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Janeiro)

DAY AFTER – No seu discurso de vitória Cavaco Silva falou mais do passado que do futuro e, de uma forma inesperada, e em termos práticos, sugeriu estar interessado em ajustar contas com quem se lhe atravessou no percurso antes destas eleições. É um discurso virado para problemas pessoais, mais do que para a situação do país. E é um péssimo sinal sobre o que poderá ser o seu segundo mandato. De uma assentada perdeu iniciativa política e criou um ruído desnecessário.


Na noite eleitoral foi claro que Sócrates só apareceu no Altis para cumprir um ritual e dar por encerrado um assunto incómodo, que foi a desagradável candidatura de Manuel Alegre, para a qual os socialistas foram empurrados pelo Bloco de Esquerda. Como se percebeu logo de imediato a núcleo duro da direcção do PS reagiu rapidamente – convocando eleições internas (em que Sócrates se recandidata), anunciando novas iniciativas viradas para fora do partido, e dando a entender que controlará o timing de uma remodelação governamental. O PS, que foi o grande derrotado das eleições, tinha o contra-ataque preparado.


De uma forma muito clara José Sócrates aproveitou a fase passadista do reeleito Presidente para aparecer ele a marcar a agenda e a preparar o contra-ataque político. Quer legitimar-se internamente, eliminar o espaço daqueles que o contestam dentro do PS e, preferencialmente, conseguir novos aliados que o ajudem a levar até ao fim o ciclo político. Na sua cabeça está certamente posicionar-se para futuras eleições legislativas – as notícias da sua morte política são, como se vê, largamente exageradas. Sócrates vai à luta e tem a estratégia montada, que como se sabe pelas notícias vindas a público, passa por existir um grupo de media impulsionado por figuras que lhe são próximas e o têm defendido. Não é a primeira vez que isto acontece na história política portuguesa: Marcelo Rebelo de Sousa criou o «Semanário» para criar maior diversidade política na comunicação, o PS já tentou fazer isso com a Emaudio há uns anos atrás e o diagnóstico actual é que a influência dos socialistas nos media é reduzida. Vamos portanto ter pela frente um Sócrates determinado, provavelmente com legitimidade acrescida dentro do PS e a tentar ser ele a marcar a agenda política.


O trabalho da oposição não vai ser fácil. Passos Coelho sabe disso e fez um discurso prudente – e provavelmente estará a pensar que lhe vai ser mais difícil chegar ao Governo do que, a certa altura, se imaginava. Pelo seu lado Paulo Portas iniciou um movimento de reorganização do PP que lhe vai dar maior agilidade para se colocar, a ele próprio, na primeira linha da oposição – é também evidente que o grande rival de Sócrates na marcação da agenda política vai ser Paulo Portas, até porque ao PP interessa colocar-se na posição mais vantajosa para, quando for altura, negociar um acordo eleitoral com o PSD.


 


 


VOTAR – A lógica manda que votar deva ser uma operação fácil, confortável para os cidadãos e que não crie angústias, dúvidas ou perturbações. O que aconteceu no Domingo passado é exactamente o contrário disto. O Estado atribuiu novos números de eleitores a uma série de cidadãos, mas não os avisou do facto – nem mesmo quando levantaram o documento de identificação que serviu de justificação técnica para alteração do número anterior. Pior, em muitos casos, colocou os eleitores a votarem longe do local habitual, e também não tomou nenhuma medida para os avisar. A campanha de apelo à participação eleitoral foi má, não esclareceu sobre estes pontos, criou oportunidade para todas as complicações que aconteceram. Seria bom que o Governo, como acontece em muitos países,  proporcione a cada eleitor a possibilidade de escolher o local onde pretende exercer o direito ao voto. Era uma forma simples de combater a abstenção.


 


 


RESUMO DA SEMANA – Houve eleições, o resultado não teve surpresas; Cavaco ganhou, mas com a sua menor votação em candidatura presidencial e fez um mau discurso; Alegre teve uma derrota estrondosa com menos de 10% do total de recenseados; a abstenção e os votos brancos atingiram os maiores valores de sempre; Mário Soares escreveu a explicar que Alegre não devia ter sido o candidato do PS; logo a seguir à eleição os juros da dívida voltaram a subir; e o PS começou a mexer-se, agora que já está livre do Bloco de Esquerda.


 


 


ARCO DA VELHA - A operação em torno das novas declarações do célebre Bibi, a propósito do processo Casa Pia, é um acabado exemplo de como em Portugal, em matéria de Justiça, vale tudo menos a sua aplicação.


 


 


VER – Ligada à agência Kameraphoto, a K Galeria, no Bairro Alto, apresenta ainda hoje (ultimo dia) a exposição «Retratos com História», de Eduardo Gageiro, um dos mais importantes fotojornalistas portugueses das décadas de 70 e 80. Estes retratos, que vão de Amália a Zeca Afonso, passando por Sophia de Mello Breyner, Spínola ou Orson Welles, permitem perceber a importância de Gageiro na fotografia portuguesa. Se puderem, não percam – Rua da Vinha 43 A, das 10 às 18h00. Podem também ter uma ideia das imagens em www.kameraphoto.com


 


 


LER –  Na edição de Fevereiro da Vanity Fair há um belíssimo artigo sobre os bastidores da tomada de posse de Kennedy, ocorrida há 50 anos. Desde os prepartivos para a cerimónia, ao grande baile inaugural , passando pelos discursos e os problemas com os convites, até ao portfolio de fotografias da época, tudo contribui para um retrato desses primeiros momentos do curto mandato de John Kennedy. Outro curioso artigo desta edição conta a história da polémica aliança entre o circunspecto diário britânico The Guardain e Julian Assange, o fundador do Wikileaks. Na capa, Justin Bieber – 17 milhões de fãs no Facebook, 100 milhões de dólares facturados no ano passado e o vídeo mais visto de sempre do YouTube.


 


 


OUVIR – O mais recente álbum de Brian Ferry, «Olympia», é polémico, inesperado, nalguns momentos surpreendente – como na versão de «Song To The Siren», de Tim Bucley, que conta com participações de nomes como Phil Manzanera, Nile Rodgers, David Gilmour e Johnny Greenwood nas guitarras e Brian Eno (que está presente também em várias outras faixas) nas teclas. A sonoridade evoca por vezes o álbum «Manifesto», dos Roxy Music (1979) e atinge o ponto alto em temas como «Me Oh My», «Reason Or Rhyme» ou «Tender Is The Night», esta talvez a melhor interpretação de Brian Ferry desde há muitos anos.


 


 


PROVAR – Há dias dei comigo num simpático restaurante, perto do convento do  Beato, em direcção a Braço de Prata. Chama-se Entra e é um bom exemplo de um local onde a cozinha é honesta, os preços recheados de bom senso e o serviço eficaz e simpático. O Entra tem duas salas, uma de entrada, com vista para a rua e a cozinha, e outra, no interior, ideal para juntar um grupo de amigos. A decoração é simples mas imaginativa – por exemplo os candeeiros são feitos de garrafas sem fundo, as mesas e as cadeiras são de boa dimensão e confortáveis.


Os menus de almoço incluem sugestões como osso bucco com linguini, filete de peixe espada sobre legumes ou arroz de polvo, e vão variando durante a semana. O vinho da casa é um generoso vinho novo da zona de Azeitão e, na mesa, existem fatias de quaijo da ilha e de queijo de ovelha da serra da Gardunha. Nas sobremesas há uma mousse de requeijão com abóbora que se revelou uma boa surpresa.


Ao jantar o serviço é à lista e, desde os ovos mexidos com farinheira nas entradas, ao lombo de porco com molho de amêijoas e coentros acompanhado de grão e grelos salteados com chouriço, ao pregado frito com espinafres salteados com puré de batata e aipo, a escolha é variada. A lista de vinhos não é ambiciosa mas tem boas propostas a bom preço. Resumindo: uma boa casa. Rua do Açucar 80, telefone 212 417 014.


 


 


BACK TO BASICS – Os vencedores adquirem, imediatamente, os vícios dos vencidos – Roger Gard 

fevereiro 08, 2011

A CRISE NA CULTURA

(Publicado no Metro de 8 de Fevereiro)


 


Bem sei que falar de investimentos em Cultura no meio da crise em que estamos é uma coisa um bocado complicada e , eventualmente, pouco popular. Mas esta é, também a altura certa para falarmos do que deve ser o papel do Estado na Cultura, e qual a estratégia a seguir.  Até porque, de facto, a Cultura está em crise – sem rumo, sem estratégia e com muitas queixas. A questão principal é estudar a forma como o Estado deve apostar neste sector, por forma a gerar um efeito reprodutor aos investimentos efectuados.


 


Esta é uma questão delicada: os agentes do sector habituaram-se a viver com subsídios, ou de subsídios do Estado. Descuraram, na maior parte dos casos, ir buscar receitas a outros lados e muitas vezes usaram argumentos distorcidos para não se submeterem às receitas de bilheteira – ou seja, ao financiamento captado a partir dos públicos.


 


O Estado também não tornou aliciante a acção mecenática. A Lei existente é desadequada para as circunstâncias actuais, a fiscalidade dos produtos culturais merecia ser repensada, existe ainda um território extenso para optimizar recursos em toda esta área. Por outro lado os passos na articulação entre o Turismo e a Cultura foram insuficientes e nesta matéria, mais uma vez, muitos investimentos foram subsídios disfarçados para satisfação de clientelas políticas diversas. Há coisas estruturantes por fazer – desde a existência de uma Film Commission, até um plano articulado entre o Governo e as autarquias para desenvolvimento e descentralização  da actividade artística.


 


Acredito que se pode fazer melhor com o dinheiro que existe. O esforço de racionalização no sector tem sido quase nulo. As despesas com estrutura e pessoal ocupam uma fatia desproporcionada em relação ao investimento em actividades – seja no património, seja na encomenda de novas obras, seja na aposta na criatividade. Nos últimos anos a estagnação e a deterioração das actividades culturais têm sido a norma. Espero que a crise não faça esquecer  aquilo que é preciso fazer em todo este sector.


 

fevereiro 01, 2011

CIDADE FANTASMA

(Publicado no Metro de 1 de Fevereiro)


 


No último fim de semana o New York Times publicou na sua secção de viagens um guia para um fim de semana em Lisboa – de sexta a domingo. É um belo roteiro rápido da cidade. O ponto principal , repetido várias vezes no texto, é que somos uma cidade baratucha e onde se consegue comer a preços razoáveis e visitar museus gratuitos (perante o espanto do autor do artigo, diga-se).


 


Todos nós que vivemos em Lisboa ficamos muito contentes quando surgem estes artigos. Mas depois, no dia a dia da cidade, ficamos mais pesarosos. Nos últimos anos assiste-se a um esvaziamento da cidade, cada vez com menos residentes, e a um envelhecimento da sua população. Já nem falo da baixa, votada praticamente ao abandono. Mas basta ir para Alvalade, da Avenida de Roma à Avenida da Igreja, para perceber como uma zona que há trinta anos estava cheia de gente, com uma população jovem considerável, com cafés e esplanadas abertos à noite, se converteu progressivamente num deserto que fecha por volta das nove da noite. Depois disso é raro encontrar alguma coisa aberta e não é frequente encontrar pessoas na rua. O contraste com cidades como Madrid é enorme .


 


Os governantes da cidade não ajudam a reverter esta situação – Lisboa é uma cidade que trata mal quem cá persiste em viver: mais taxas, maiores dificuldades logísticas, penalização dos residentes com viatura por força da extraordinária EMEL, falta de incentivos para rejuvenescimento da população residente.


 


Aqui há uns anos dizia-se que era o centro histórico da cidade que estava a ficar deserto. Agora são os bairros mais recentes que começam a sofrer do mesmo mal. Mesmo que os turistas gostem muito de nos visitar, a verdade é que cada vez menos pessoas cá gostam de viver – ou cá conseguem viver em condições. Por este andar qualquer dia Lisboa vai ser uma cidade fantasma – com muitos turistas mas poucos residentes.


 


Faz-me muita impressão assistir a este definhamento de Lisboa, faz-me uma impressão sentir que a cidade é governada para ser vista e não vivida. Este é o maior crime de quem governa a cidade.

janeiro 25, 2011

UM REGIME VAZIO

(Publicado no Metro de 25 de janeiro)


 


No momento da vitória Cavaco Silva congratulou-se com o facto de não ter usado cartazes de rua na sua campanha. Na realidade ele foi o candidato do silêncio – sem cartazes, sem respostas  às perguntas. Uma das consequências desta estratégia do silêncio foi afastar os eleitores da política e, por isso, Cavaco Silva pode gabar-se de ter sido o Presidente eleito com menos votos e com maior abstenção. É Presidente de um país que neste Domingo disse não acreditar nos políticos, ele incluído.


 


Vamos a contas: Cavaco foi eleito com o seu menor voto de sempre nas três eleições presidenciais que já disputou: 2.230.104 votos, menos meio milhão que em 2006. Os seus votos representam uns meros 23% do total de eleitores inscritos. Isto não lhe tira legitimidade, mas mostra uma evidência: só conseguiu o apoio de menos de um quarto dos portugueses.


 


Mais interessante ainda é vermos que 64% dos eleitores optaram por não votar em qualquer dos candidatos apoiados por partidos – e aqui incluo as abstenções, os votos brancos e nulos, os votos em José Manuel Coelho e Fernando Nobre – ao todo 6.200.636 eleitores. Só as abstenções, votos nulos e brancos somam 5.417.428 eleitores num total de 9629.630 – ou seja 59,56% do total. A verdade é esta – quase 2/3 do país não se revê nos candidatos do sistema político. Dá que pensar. O recado é claro: o regime está vazio.


 


Há outro número curioso – Manuel Alegre perdeu 306.338 votos de 2006 para cá, apesar do apoio expresso do Bloco de Esquerda e do PS. Mas Fernando Nobre, sem apoios partidários, teve 593.868 votos, o que quer dizer que roubou votos aos candidatos institucionais. Manuel Alegre escusa de procurar muito onde estão os votos que perdeu – a maioria deve ter ido para Fernando Nobre.


Por isso é que me apetece dizer que o grande vencedor da noite eleitoral esteve sossegado, afastado da ribalta, e cultivou, ele também o silêncio. Chama-se Mário Soares, e ontem deve ter sorrido ao ver os resultados. Há cinco anos Alegre desfez-lhe a ele, Soares, os resultados eleitorais; ontem Soares serviu-lhe a vingança. Fria, como convém.

janeiro 22, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 21 de Janeiro)

ELEIÇÕES – Não tenho memória de uma campanha eleitoral tão fraca e desinteressante. Dos discursos dos candidatos aos tempos de antena, tudo é bafiento, vazio, desinteressante. Existem mais ataques pessoais do que debate de questões importantes. Dificilmente se percebe qual a posição dos candidatos sobre o papel da Alemanha e França na crise europeia. Análises sobre as consequências da evolução tecnológica no mercado de trabalho não existem. Ligações com a realidade do mundo em que vivemos são quase nulas, para além dos habituais muros de lamentações. Manuel Alegre é um poço de contradições, Cavaco Silva deixou-se enredar num poço de negações, Fernando Nobre é incompreensível e os outros candidatos não têm existência real – um fora do aparelho que o alimentou, outro fora da fantasia que criou e o último fora do ridículo que cultiva.


Os cartazes são incipientes e, a propósito, sugiro que visitem o blogue www.imagensdecampanha.blogs.sapo.pt que fez um belo apanhado de cartazes eleitorais de presidenciais anteriores.


É muito curioso que em 2011 os tempos de antena televisivos sejam tão pobres, tecnicamente rudimentares, mal feitos até. Não é só uma questão orçamental  -certamente é também a prova de como os próprios candidatos consideram pouco úteis os tempos de antena e acabam por optar não os utilizar de facto, limitando-se a ocupar da forma mais básica o espaço que lhes foi dado. – até porque concentram esforços em criar todos os dias oportunidades de imagens para os noticiários das televisões, que é o veículo que privilegiam e verdadeiramente lhes interessa. Esta questão deve aliás fazer pensar na lógica de penalizar as estações privadas de televisão com um considerável espaço de tempo de emissão, em horário nobre, que na prática lhes retira audiência. Em muita coisa precisamos de mudar a Lei Eleitoral – para além do sistema político – e estas presidenciais estão a ser a prova disso. Muito provavelmente os resultados vão ajudar a comprovar isto mesmo, mostrando que é importante existir uma reflexão profunda sobre a forma como se faz política e como se devem dinamizar os processos eleitorais para assegurar maior participação. Tenho curiosidade em ver como vão ser as abstenções, os votos nulos e os votos brancos. Tenho curiosidade em ver como será o resultado de Alegre versus Nobre. E tenho curiosidade de ver quantos portugueses não votarão em nenhum dos candidatos, como eu – farto que estou de andar a escolher o mal menor.


 


 


ARÁBIAS – Esta semana fartei-me de pensar no livro «Os Charutos do Faraó», um dos clássicos das aventuras de Tintim. Foi nesse livro que apareceu um personagem chamado Oliveira de Figueira – e já que estamos em época de celebrar a Wikipedia é de lá que retiro este texto: «Ele é um comerciante oriundo de Lisboa, vendendo suas mercadorias em pleno desero do fictício país de Khemed. Dotado de uma grande facilidade para convencer, consegue vender a Tintim uma grande quantidade de objectos inúteis, assim como aos árabes que aparecem de todas as partes ao escutá-lo a falar. » Pois surgiu-me natural e óbvia a comparação entre Oliveira de Figueira e José Sócrates no seu périplo destes dias pelas Arábias. Sócrates apregoou tudo o que quis – das energias renováveis ao progresso tecnológico. Da venda da nossa dívida não falou em público, mas o Ministro dos Negócios Estrangeiros encarregou-se de dizer que também a dívida fazia parte do catálogo da venda ambulante. Na última semana antes das eleições Sócrates vestiu-se de personagem de banda desenhada e preferiu os ares das arábias aos jantares de carne assada do seu candidato. É uma curiosa coincidência.


 


 


ARCO DA VELHA – Se Alegre perder, o PS prepara-se para acusar o Bloco de Esquerda – lido nos jornais.


 


 


VER – «Encenações» é o título da exposição de 40 novas obras de Manuel Amado, que ficará na bela sala da Sociedade Nacional de Belas Artes até 15 de Março. O habitual traço minucioso do pintor contrasta com o universo que projecta personagens de fantasia,  criando por vezes como que  instantâneos de sonhos. Alguns dos quadros respiram num universo próximo da banda desenhada, proporcionando leituras diversas – na cor, no enquadramento, na narrativa visual. Há um lado contemplativo nesta série de novas obras, em que o autor posiciona as personagens que criou no exacto ponto em que ele próprio se colocou para visualizar (ou imaginar) as imagens pintadas. Rua Barata Salgueiro 36, das 14 às 20h00, fecha domingos e feriados.


 


 


LER – A revista «Monocle» reincidiu na edição de um jornal. É a segunda vez, a primeira foi no Verão e o jornal estreia em formato jornal da «Monocle» era dedicado ao sol e ao mediterrâneo. Esta segunda edição é dedicada à neve e à montanha. Mais uma vez surpreende a capacidade de adaptação do formato contido da «Monocle» ao tamanho de um jornal e a capacidade que a equipa da publicação tem em fabricar conteúdos temáticos de forma tão interessante. E é isso exactamente que é o mais interessante quando se folheiam estas 72 páginas , ao longo de artigos sobre os encantos da capital da Islândia, exemplos de boa arquitectura em retiros de montanha, devaneios gastronómicos adequados ao Inverno ou uma bela reportagem sobre Andorra, que por acaso é um dos destinos de neve preferidos pelos portugueses.


 


 


OUVIR – «Dig» é o nome de um álbum gravado em 1951 com Miles Davis (trompete) e Sonny Rollins (sax tenor), a liderarem um grupo que incluía também Art Blakey na bateria, Tommy Potter no baixco, Jackie McClean no sax alto (a sua primeira gravação para disco) e Walter Bishop no piano. A presente reedição, remasterizada, em CD, reproduz os sete temas do LP, quatro dos quais são originais de Miles Davis (como «dig», a faixa título» e outros três versões, entre as quais destaque para «It’s Only A Paper Moon». O que é mais curioso é que esta gravação é posterior a «birth Of The Cool», o histórico registo que projectou Miles Davis, e é bem diferente do ponto de vista da sonoridade. Miles Davis tinha 25 anos na altura e Sonny Rollins tinha acabado de fazer 21. É muito engraçado descobrir hoje como eles encaravam e faziam música na altura – há exactamente 60 anos. Disponível na FNAC.


 


 


PROVAR – Ao fundo do Campo Grande, paredes meias com o estádio universitário, depois de passada a Reitoria e seguindo em frente, fica o Hipódromo do Campo Grande. Lá dentro está um restaurante que vale a pena visitar. A sala é confortável, ampla, a misturar o clássico e o contemporâneo, com uma ampla janela sobre o relvado do hipódromo. A cozinha é claramente portuguesa, tradicional, com uma proposta variada de carnes onde se destacam de bifes e umas iscas que são de perdição, algumas tentadoras ofertas de bacalhau, peixes no carvão e uma dourada à Bulhão Pato que chamou a atenção. Boa carta de vinhos, preços ajuizados para a qualidade da matéria prima, da confecção e do serviço. E do local, também, que a sala merece elogios. Estacionamento fácil, encerra domingos ao jantar. Telefone 217 957 521.


 


 


BACK TO BASICS – Nunca se mente tanto como em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça - Bismarck

Não voto contrariado

(Publicado no diário METRO de 18 de Janeiro)


 


Domingo que vem há eleições e encaro seriamente a possibilidade de, pela primeira vez na vida, não ir votar em nenhum candidato. Gostava de poder e querer ir votar mas estou farto do mal menor. Não me apetece votar num candidato que passou um mandato a ver se não incomodava ninguém, para poder ser reeleito. Estou farto de superioridades morais apregoadas. Nenhum dos candidatos me motiva.


 


A campanha eleitoral é um exemplo do que não deve acontecer: insultos em vez de ideias, mentiras em vez de esclarecimento, promessas em vez de factos.  Irrita-me a política tratada como um jogo de futebol: o nosso sistema reduziu a actividade política e cívica a uma guerra clubística entre partidos e entre quem eles apoiam.


 


Cada cidadão tem o dever de participar – e votar é uma forma de participação. Mas os políticos, os candidatos, têm o dever de nos mobilizarem, têm o dever de, mais por actos do que por palavras,  nos convencerem. Mas da mesma forma que votar é uma forma de participação, não votar é uma forma de rejeição do sistema, dos seus intervenientes. Se não encontro candidato que me satisfaça, não sou obrigado a votar em ninguém.


 


A minha única dúvida está em saber exactamente como vou fazer isto – se me abstenho por ser incapaz de escolher um voto, ou se faço voto nulo e escrevo qualquer coisa. Uns amigos meus – aviso já que até são à esquerda – vão escrever « FMI»no boletim de voto. Eu talvez escreva «eleições antecipadas».  Tenho até ao fim de semana para decidir, mas uma coisa é certa: nenhum destes candidatos leva o meu voto e não me apetece encher-me de comprimidos contra a azia no Domingo à tarde.


 


Domingo à noite, quando os resultados forem conhecidos, vou contar a soma de abstenções, com votos nulos e votos em branco. E vou ver quantos votaram. Eu aposto que a maioria dos eleitores não vai querer participar nisto, não vai votar em nenhum dos candidatos – e se isso acontecer, ainda bem. Talvez se perceba que é preciso mudar alguma coisa.


 

(publicado no Jornal de Negócios de 14 de Janeiro)

SITUAÇÃO – Durante anos o Estado passou rasteiras à classe média, quer em matéria de impostos e taxas, directos e indirectos, quer através de milhentos ardis para lhe dificultar a vida. Com as novas medidas de austeridade a coisa refina-se: ainda mais impostos e taxas, penalizações nos custos de saúde, nas deduções dos recibos verdes, ameaças de maior desemprego, diminuição do poder de compra. Este aperto da classe média, que vive cada vez mais sufocada entre os empréstimos que a ilusão de progresso incentivou, e a dura realidade da diminuição efectiva dos seus rendimentos, só pode ter efeitos de bola de neve.


As grandes cadeias de supermercados vão facturar menos, os concessionários das auto-estradas vão receber menos portagens, todo um sistema de funcionamento da sociedade que está montado, em boa parte, para viver das receitas do estilo de vida da classe média, está agora em risco de entrar em colapso. Olho para o lado e vejo dezenas de amigos e conhecidos que já sabem, na sua própria família directa, o que é o desemprego; olho para pessoas com cinquenta e poucos anos que não conseguem encontrar trabalho para as qualificações e experiência que têm; olho para o outro lado e vejo jovens recém-licenciados que desesperam por conseguir aplicar aquilo que estudaram e que a proliferação de cursos ajudou a pensar que um diploma só por si seria uma chave para uma vida sem problemas. Estamos agora a enfrentar décadas de irracionalismo – na educação, mas também no consumo, no modo de vida, na falta de incentivo a poupanças, na construção de uma sociedade que beneficiava o facilitismo, a começar pelos políticos que laboriosamente dela se alimentaram.


 


 


MEMÓRIA - Manuel Alegre foi, durante um semestre,  secretário de Estado do I Governo Constitucional. Nessa qualidade encerrou as quatro publicações do grupo da Sociedade Nacional de Tipografia, entre as quais o diário «O Século», em Fevereiro de 1977, atirando para o desemprego 900 trabalhadores.  Talvez a história dos media portugueses fosse bem diferente se Alegre não tivesse assumido o papel de carrasco do maior grupo de imprensa que então existia e que integrava o diário «O Século» e as revistas semanais «Século Ilustrado», «Vida Mundial» e «Mulher- Modas e Bordados». Quando assinou a morte do grupo do «Século»,  Manuel Alegre fez promessas de uma reestruturação que nunca foi sequer iniciada. É este o candidato que se nomeia campeão da Liberdade.


 


PRESIDENCIAIS – Olhando para o que se passa só posso achar que a candidatura de Defensor de Moura é uma lebre propositadamente largada para servir de tambor a Manuel Alegre nos seus ataques a Cavaco. Nestas presidenciais não há ideias, nem linha política, apenas ataques e contra-ataques. É um jogo de futebol mal jogado, um péssimo espectáculo para os eleitores.  Não admira que comecem a aparecer frases como esta, de Pedro Rolo Duarte, no seu blogue: «É desolador querer votar e não ter em quem votar».


 


 


DESTAQUE – O cartonista Luis Afonso resumiu da melhor forma a situação que se vive em Portugal: «Ajuda financeira não sei, mas ajuda psicológica precisamos de certeza».


 


 


ARCO DA VELHA – «Senhor Professor, tomei dois supositórios para poder estar aqui hojea vê-lo» - declaração de uma apoiante de Cavaco Silva durante uma acção de campanha eleitoral no Fundão.


 


 


VER – Quem gosta de banda desenhada não pode perder a exposição que está no Museu Berardo desde o início desta semana, «Tinta dos Nervos» - e que precisamente se dedica à banda desenha contemporânea feita em Portugal, com um selecção cuidadosa de autores feita por Pedro Vieira de Moura. Aqui coexistem nomes menos conhecidos, com actividade quase só em fanzines, como autores mais conhecidos com obra editada e divulgada. E algumas surpresas, como bandas desenhadas feitas pelo pintor Eduardo Batarda ou do músico Carlos Zíngaro.


 


 


LER – Quando passeamos nas ruas de uma cidade e nas estradas que lhe dão acesso vemos continuamente manifestações de arte urbana – dos graffittis a instalações. A editora Taschen reuniu centenas de imagens destas num livro absolutamente fantástico - «Trespass, História da Arte Urbana Não Encomendada». O título em si vale a pena, porque de facto é de arte não encomendada que falamos, quando falamos destas formas de arte urbana contemporânea. É uma actividade que nasce do improviso, do desejo de auto-expressão, do impulso criativo do momento. No prefácio do livro Sara Schiller sublinha que esta é uma viagem «por testemunhos efémeros» que se tornam parte da paisagem e sublinha «o forte espírito de comunidade destes artistas», para depois fazer notar uma evidência que me tinha passado despercebida: «A internet, combinada com a máquina fotográfica digital ou mesmo os telemóveis actuais, permitiu partilhar imagens e torná-las conhecidas do outro lado do mundo»; ou seja, possibilita que se veja mesmo sem se ir ou estar, de forma praticamente instantânea. Quando se folheia o livro, ao longo das suas 320 páginas, percebe-se este espírito de partilha, e de descoberta. No posfácio, Anne Pasternak sublinha que esta é uma «arte não encomendada mas intervencionista, uma arte em que os artistas concretizam as suas ideias por conta própria; onde há parede ou asfalto há uma superfície que pode servir aos artistas intervencionistas, que estão por todo o lado».


 


 


OUVIR – A coisa mais verdadeira que li sobre este CD dos LCD Soundsystem, «This Is Happening», é que cada disco é o resultado da colecção de discos dos seus criadores. Ouvindo este álbum, geralmente considerado como um dos melhores do ano passado, é isso mesmo que transparece. Aqui as influências são de David Bowie, de Eno, de Robert Fripp, mas também de Iggy Pop ou dos Human League. O resultado final é uma conjugação de ritmos que não nos deixa ficar quietos, uma constante provocação dos sentidos e das memórias auditivas. Entretenimento inteligente.


 


 


PROVAR – Uma boa refeição faz-se de um somatório de componentes: conforto da sala, qualidade dos ingredientes, o saber do cozinheiro e, finalmente a simpatia e qualidade do serviço. Vai sendo cada vez mais raro encontrar tudo isto num mesmo espaço, sobretudo em Lisboa, onde às vezes a vaidade de alguns chefes se sobrepõe ao respeito pelos clientes. Felizmente não é o caso de Henrique Mouro, o chefe que está por trás do restaurante Assinatura – que fica perto do Rato, numa perpendicular à Rua Alexandre Herculano. Henrique Mouro ganhou fama no Club, em Vila Franca de Xira, e transportou o seu saber, sem pretenciosismos escusados, para Lisboa. A sala é de boa dimensão, bem iluminada, mesas e cadeiras confortáveis. O serviço é competente e não intrusivo mas é na criatividade colocada na forma de interpretar receitas tradicionais portuguesas que se encontra a chave do sucesso do restaurante. Ao almoço há menus executivos (com a vantagem de se poder escolher apenas um prato ou fazer várias combinações entre as propostas) e à noite, em querendo, há propostas de degustação. A lista de vinhos é boa e a preços moderados. Assinatura, Rua do vale de Pereiro 19ª, Telefone 213 867 696.


 


 


BACK TO BASICS - Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança , Nicolau Maquiavel.


 


 

janeiro 11, 2011

O tristíssimo Alegre

(Publicado no diário Metro de 11 de Janeiro)


 


O mesmo candidato que, nos seus cartazes eleitorais, promete garantir democracia e estado social é um político com mais de três décadas de parlamento, mas com quase nula experiência governativa ou de gestão concreta de assuntos do Estado.


 


Na realidade Manuel Alegre foi secretário de Estado do I Governo Constitucional por escassos seis meses e fica na história por ter sido o governante que encerrou as quatro publicações do grupo da Sociedade Nacional de Tipografia em Fevereiro de 1977, atirando para o desemprego 900 trabalhadores daquele que era, à época, o maior e mais prestigiado grupo de imprensa existente em Portugal.


 


Talvez a história dos media portugueses fosse bem diferente se Alegre não tivesse assumido o papel de carrasco de um grupo de imprensa nessa altura. Por isso as suas declarações sobre o seu apego à Democracia esbarram no incontornável facto de, enquanto governante, a ter diminuído ao limitar – e muito - a oferta de imprensa existente.


 


O grupo de imprensa que Manuel Alegre encerrou integrava o jornal diário «O Século» e as revistas semanais «Século Ilustrado», «Vida Mundial» e «Mulher- Modas e Bordados». Era, em termos de qualidade e diversidade de títulos, um grupo ímpar na imprensa portuguesa da época.


 


Manuel Alegre acabou com ele de um dia para o outro, basicamente porque a linha editorial do «Século» o incomodava – a ele e ao Partido Socialista.


 


Quando assinou a morte do grupo do Século, Manuel Alegre fez promessas de uma reestruturação que nunca foi sequer iniciada. Na realidade o que interessava era encerrar aquelas publicações, limitar as vozes discordantes do Governo do PS.


 


No site da candidatura ou nos documentos oficiais de Manuel Alegre não se vê uma referência a esta sua acção enquanto governante. Manuel Alegre é do género de preferir esconder o que não lhe interessa. Talvez por isso esqueceu que tinha sido convidado por uma agência publicitária a escrever para uma campanha do BPP – e depois, quando a coisa se soube, meteu os pés pelas mãos.


 


Na realidade, Manuel Alegre não é um político fiável. Prefere esconder os seus erros a assumi-los.

(Publicado no Jornel de Negócios de dia 7 de Janeiro de 2011)

DÉCADA – A primeira década do século XXI foi, no caso português, uma década de enorme desperdício – de tempo, de oportunidades, de recursos, de ideias e de decisões. Uma década marcada por uma larga maioria de anos de governação do PS, em que o país não avançou. Na primeira metade da década Jorge Sampaio manobrou a forma e o timing das suas decisões, de acordo com os interesses do seu partido, para partir tranquilo de Belém, depois de ter entregue o Governo a José Sócrates.


 


Na segunda metade da década, José Sócrates fez ouvidos de mercador a todos os que avisavam dos perigos e da gravidade da situação – mesmo de dentro do seu partido - e conduziu o país ao descalabro, perante a relativa complacência de Cavaco Silva. E foi, ainda, a década em que a utopia da Europa se começou a desmoronar, em que o predomínio franco-germânico se consolidou, e em que as políticas comuns foram esquecidas. Tudo o que foi base do funcionamento dos Estados da Comunidade nas últimas duas décadas está em processo de revisão. E o tão enaltecido Tratado de Lisboa já é, maioritariamente, letra morta. «Foi porreiro pá» - dizia José Sócrates a Durão Barroso na cerimónia final desse Tratado. Viu-se, não é?


 


DISTRACÇÃO – As comemorações do Centenário da República custaram milhões e mobilizaram pouca gente. Serviram para  glorificar mais uma ideologia do que um ideal. E, no fim, arriscam-se a ter sido a ante-câmara da eleição presidencial menos votada dos últimos 37 anos. Se a abstenção passar dos 50 por cento ficaremos pelo menos com uma certeza: teremos um Presidente – e um regime - que não representa eleitoralmente a maioria dos portugueses. No entretanto a campanha alimenta-se de chicanas políticas, entre um Manuel Alegre desesperado para quem vale tudo, e um Cavaco apostado em ser o maior obstáculo à sua própria reeleição.


 


CULTURA – A actuação de Gabriela Canavilhas no Ministério da Cultura é uma desilusão. Sem orçamento nem força política, limita-se a gerir o caos em que o seu Ministério se foi transformando, sugerindo medidas avulsas, a maior parte das vezes irreflectidas, como é a questão da fusão dos Teatros Nacionais na polémica Opart ou as várias demissões que já provocou. São actuações como estas que levam a pensar se não fará sentido deixar de existir Ministério da Cultura, neste momento apenas um centro de custos, ainda por cima com despesas de funcionamento consideráveis para os resultados produzidos.


 


Não seria de estudar outro modelo? Aqui está um caminho que vale a pena debater, sobretudo na situação actual: qual o papel do Estado na Cultura? Como e onde se devem investir recursos públicos nesta área? E que pode o Estado fazer para incentivar o desenvolvimento da actividade privada  – pelo menos em boa parte das actividades relacionadas com a criação artística? A oposição teria aqui muita matéria para agitar as águas e quebrar preconceitos se se dedicasse ao tema com seriedades e sem demagogias.


 


PERGUNTA – Que diz António Costa aos aumentos decretados pelo Ministério da Administração Interna nos desbloqueamentos de veículos, reboques e estacionamentos em parques da polícia? São aumentos entre os 50% e os 100%, que tornam a vida ainda mais difícil aos lisboetas, sempre perseguidos pelos esbirros da EMEL. Lembrei-me, a propósito, do novo slogan que os trabalhistas britânicos criaram para denunciar os aumentos de impostos: «wrong tax, wrong time». Pense nisto, Dr. António Costa.


 


LISBOA – Os jornais relataram esta semana um caso que é um exemplo do desgoverno e inacção existentes na Câmara Municipal de Lisboa. O Centro de Dia, construído de raiz pela autarquia da capital em Campo de Ourique, ficou pronto em 2008 e custou perto de 900.000 euros. Desde então está vazio, a degradar-se, e nestes últimos dias foi vandalizado. As culpas deste estado de coisas vão passando de mão em mão sem ninguém assumir responsabilidade – a Junta de Freguesia diz que não é com ela, a Câmara diz que é com a Misericórdia, a Misericórdia diz que não tem a ver com o assunto e o vereador do pelouro de Acção Social, Manuel Brito, diz desconhecer o caso e fez esta declaração extraordinária: «Ainda tenho o pelouro da Acção Social, mas, na prática, deste há muitos meses que ele está nas mãos do senhor Presidente». Nem vale a pena comentar…


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, aquele deputado ilusionista que fez desaparecer gravadores durante entrevistas incómodas, quando estava a ser inquirido sobre aspectos pouco claros da sua actuação enquanto advogado, foi o melhor que o PS se lembrou de arranjar para presidir à nova Comissão de Inquérito sobre Camarate. O mais espantoso de tudo é que, sobre o furto dos gravadores aos jornalistas, o Parlamento nada disse na altura. Vai-se a ver e, agora, o ilusionista recebe, em vez de admoestação, uma recompensa. Como é que se há-de acreditar no Parlamento?


 


DESCOBRIR  –  A revista «Computer Arts» tem uma edição internacional que se tornou um objecto de culto no meio do design digital. Desde há dois meses existe também uma edição portuguesa, muito bem feita por sinal. Para além de conteúdos comuns com a edição internacional, apresenta portfolios e entrevistas com criadores portugueses como André Beato, Luis C. Araújo,  Luis Bacharel ou Vasco Vicente, entre outros. A entrevista do mês é com André Carrilho, o caricaturista português que mais se internacionalizou. Da publicidade à banda desenhada, passando por jogos, novo software e conselhos práticos de negócio, a Computer Arts aborda várias áreas. Destaque, nas duas edições já em banca, para a rubrica estúdio do mês, em Janeiro dedicada á equipa da Dub Video Connection.


 


FOLHEAR – Magnífica a edição de Janeiro da «Wallpaper». Sob o título «What Happens Next» a revista leva-nos a descobrir as novas tendências da arquitectura, fotografia, design e moda – mas também da gastronomia. Esta edição inclui ainda os nomeados para os Design Awards e uma lista de novos empresários que dão nas vistas em todo o mundo – entre os quais está Catarina Portas com os seus quiosques e as lojas a Vida Portuguesa. A outra presença portuguesa na revista é uma belíssima página de publicidade á Renova - «The Sexiest Paper On Earth»ssinatura da empresa é magnífica - «Renova, the black toilet paper company». Aqui está um belo exemplo de uma empresa portuguesa que está a trabalhar bem a sua marca além fronteiras.


 


OUVIR – «My Beautiful Dark Twisted Fantasy» é um dos discos que mais apareceu nas escolhas dos melhores do ano em 2010. O seu autor é Kanye West, um rapper com um invulgar talento para fazer grandes canções – de tal forma que este seu álbum parece mais um «best of» que um disco de originais. Embora se decrete com regularidade a morte do hip-hop, a verdade é que Kanye West escreve de forma interessante, é diferente da maioria dos outros artistas, indiscutivelmente criativo, tem um ego do tamanho do universo e é consideravelmente louco. Mas no fim o resultado musical é magnífico. E magnético. Apetece repetir audição após audição.


 


PROVAR – Antes que o Sushi Café abra portas na Barata Salgueiro, continua a valer a pena experimentar os seus pratos nas Amoreiras. É um dos restaurantes de sushi com melhor relação de qualidade-preço e, também, um dos mais populares. Quem não gosta de sushi tem outras especialidades da cozinha japonesa onde pode fazer belas descobertas – desde massas a carnes. É um dos melhores restaurantes existentes nos centros comerciais de Lisboa. Telefone 213840299


 


BACK TO BASICS Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito (Albert Einstein)

dezembro 30, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Dezembro)

2011 - Desta vez, quando começo a desejar bom ano aos meus amigos, sinto-me um pouco cínico. Já sabemos que o ano que entra não vai ser bom. Vamos ter maiores dificuldades, os preços aumentam, os impostos aumentam, provavelmente o desemprego aumentará, há uma elevadíssima probabilidade de não passarmos do fim de Março sem o FMI nos bater à porta. O mais engraçado de tudo isto é que a entrada do FMI pode ser, paradoxalmente, o seguro de vida de José Sócrates. Com o FMI em acção diminui-se a possibilidade de se radicalizar a crise política – a começar pelo Presidente da República que for eleito e que pensará ainda mais, antes de qualquer tentação de dissolver a Assembleia da República. Se o FMI entrar em cena muito provavelmente fica afastado o cenário de eleições antecipadas no próximo ano e aumentam as possibilidades de Sócrates chegar ao final desta legislatura. Por este andar, José Sócrates ainda vai acender uma vela a Dominique Strauss-Kahn, o Director Exxecutivo do FMI.


 


2010 - Este ano serviu para mostrar que em Portugal subsistem dois grandes problemas estruturais – uma Justiça que não funciona e que se degrada cada vez mais, e uma corrupção que grassa de forma endémica e tem tentáculos em todo o lado, alimentando partidos, instituições, figuras públicas. De certa forma os agentes da justiça estão hoje tão desacreditados como os políticos. Para o mundo exterior fazem parte do mesmo círculo de sobreviventes que faz tudo para iludir a verdade e manter o poder. O alastrar da corrupção tem a ver com a degradação da justiça, com o sentimento de impunidade que se tornou uma característica da sociedade portuguesa, com a aplicação de dois pesos e duas medidas no dia-a-dia nos mais diversos sectores. A ineficácia da justiça corrói o país e este é um daqueles sectores onde as reformas não têm existido e, ao invés, tudo se tem degradado ainda mais.


 


PERGUNTA – Com o switch off analógico e a implementação da Televisão Digital Terrestre já definido para o primeiro semestre de 2012, quando é que a Anacom esclarece a forma e calendário de escolha dos operadores de canais TDT?


 


ARCO DA VELHA – António Guterres, em entrevista à Única: «Olho para trás com enorme tranquilidade». É preciso ter lata.


 


VER – Nesta semana fui ver «Inside Job - A Verdade da Crise», um documentário de origem norte-americana que faz uma análise factual da crise de subprime de 2008  e que lançou o sistema financeiro mundial no abismo. O realizador é Charles Ferguson e o narrador é Matt Damon. Através de uma investigação cheia de dados e de entrevistas com algumas figuras chave da política, da finança, de universidades, instituições internacionais e da informação, o filme segue o crescimento da influência de uma indústria cujas principais figuras procuraram – e conseguiram – menorizar os organismos nacionais de regulação, manipular e influenciar agências de rating e que permanecem em postos chave do Governo e de organismos oficiais nos Estados Unidos. O filme baseia-se no contraste de depoimentos, no uso de contraditório e é um belo exemplo de cinema documental – tecnicamente escorreito, com todos os intervenientes convenientemente identificados, com uma  banda sonora dinâmica. Não deixa de ser curioso que as entrevistas a responsáveis do FMI pareçam as mais lúcidas na análise do que aconteceu, chamando a atenção para numerosos alertas feitos ao longo do tempo e que não foram escutados. A História não se repete – mas foi isso mesmo que aconteceu em Portugal – avisos repetidos, vindos de todo o lado, olimpicamente ignorados por quem tinha o poder de intervir e mudar as coisas.  Nos Estados Unidos, desde que foi lançado, em meados de Outubro, o filme já fez mais de três milhões de dólares de bilheteira, um número invulgar para a exibição de um documentário. Em Portugal, em cerca de um mês, já ultrapassou os 16.000 espectadores. Quando se sai do cinema, depois de ver este «Inside Job», percebe-se que os implicados nesta história estão por todo o lado – a começar pela Administração Obama – e preparam-se para fazer outra das suas habilidades logo que possam. A título de curiosidade . um dos responsáveis das agências de rating que na véspera da explosão davam boa nota ao Lehman Brothers, diz alto e bem som, numa Comissão do Senado, que se limita a dar a sua opinião e que os ratings nada mais são que uma opinião. Uma poderosa opinião, pelos vistos.


 


LER – Aqui há uns anos, um dos grandes enigmas para os apreciadores de histórias de espiões, era saber como é que escritores como John Le Carré sobreviveriam ao fim da Guerra Fria, à queda do muro de Berlim e à desarticulação da URSS. Pois a verdade é que lá têm sobrevivido, e como se mostra no novo livro de Le Carré, «Um traidor dos nossos», continua a existir forma de construir um enigma e uma história em torno de um casal inglês de classe média e de um Russo de contornos duvidosos. O encontro entre os dois homens, o inglês e o russo, dá-se num court de ténis e é esse o cenário para a definição de personagens e o ponta pé de saída de toda a história. Empolgante, com belos episódios, «Um Traidor dos Nossos» é um regresso de John Le Carré a alguns dos seus melhores momentos, evocando situações do passado, numa mistura bem doseada com o presente, algures entre a nostalgia pelo tempo das longas partidas de ténis nas férias e a realidade do presente, marcada pelo instantâneo dos actos e das notícias.


 


OUVIR – O melhor disco português de 2010 teve a sua edição original em 1970. Chama-se «Com Que Voz» e é considerado, a par de «Busto», a melhor gravação da fadista. David Ferreira, que conhece como poucos a obra de Amália, pegou no disco original e nos arquivos da Valentim de Carvalho e criou uma nova edição. Rodeou-se de pessoas conhecedoras. A nova edição tem dois discos – o álbum original, remasterizado (e ainda mais surpreendente) e um segundo disco, intitulado «A Procura», que revela 19 gravações feitas na época e que eram desconhecidas ou pouco conhecidas, entre as quais alguns inéditos, como por exemplo uma gravação alternativa de «Com Que Voz». Frederico Santiago, que fez a procura nos arquivos e depois dirigiu a recuperação das gravações, fez um trabalho extraordinário. Da edição faz ainda parte um livro, de 88 páginas, no formato do CD, e que agrupa textos de vários autores, contando diversos episódios que marcaram uma época e as pessoas que na altura trabalhavam mais de perto com Amália Rodrigues. É preciso sentir e viver uma dedicação especial para fazer um objecto assim – com respeito pela tradição e com a curiosidade da descoberta; com evocação da memória e a revelação do que estava escondido. David Ferreira é dos grandes editores portugueses e não havia melhor pessoa para ter dirigido este trabalho e nos ter feito redescobrir, ao fim de 40 anos, a grandeza, criatividade e originalidade de Amália Rodrigues.


 


BACK TO BASICS – «Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução » - Eça de Queiroz


 

dezembro 24, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Dezembro)

PRESIDENCIAIS


Os debates televisivos entre os vários candidatos presidenciais estão a ser o «flop» do ano. Discursos redondos, manifesta falta de ideias, mero aproveitamento de oportunidade propagandística, há de tudo um pouco. O outro lado da evidente falta de interesse tem a ver com uma questão de fundo: os cidadãos afastam-se da política e  a culpa não é certamente deles, mas sim dos políticos que prometem uma coisa e fazem outra, eleição após eleição.


No caso concreto do Presidente da República a situação é agravada pelo descrédito em que a função tem caído – os estranhos e oscilantes mandatos de Jorge Sampaio ajudaram a denegrir a função,  e este mandato de Cavaco Silva, que correu entre a crise e o silêncio, foi tudo menos empolgante. Não deixa de ser irónico que no centenário da República a eleição para Presidente esteja a ser tão apagada e tão pouco mobilizadora.


Alguma coisa está mal, profundamente mal, em todos este sistema cada vez mais desfasado da realidade. Depois, claro, há oportunismos políticos que agravam tudo isto: como se pode acreditar num candidato, como Manuel Alegre, que está atado nas críticas ao Governo pelo facto de ser o candidato oficial do PS, e que não diz uma palavra sobre as formas de sair da crise?


 


 


LISBOA


Dos filmes de Vasco Santana e António Silva ficam-nos na memória personagens como o Costa, do Castelo. Infelizmente agora o Costa é outro – tem pouco humor e muita malandrice. Especializou-se em cobrar taxas e mais taxas a quem gosta de viver em Lisboa. O Costa, da Câmara (um apoiante de Alegre, claro) cobra taxas do subsolo e agora quer aplicar taxas para a protecção civil e bombeiros. Por acaso quem vive em Lisboa já cá paga IRS, já paga a contribuição autárquica e as receitas arrecadadas deviam ser para fazer funcionar os serviços da cidade. Mas não – as taxas são para a máquina burocrática da Câmara. Os serviços básicos e de emergência, esses, ficam a descoberto. O que o Costa, da Câmara, anda a fazer é um abuso e dos grandes – anda a meter-nos a mão no bolsos - nas próximas eleições lembrem-se disto. Lisboa está cada vez pior, o  incentivo para cá viver é cada vez menor. É uma pena mas é assim. E enquanto isso o centro da cidade vai definhando e ficando cada vez mais deserto. O ponto é este: a protecção e o funcionamento de uma cidade fazem parte da razão de ser de pagarmos impostos – cobrar mais taxas pelos serviços básicos é abuso e nada mais.


 


 


COMPRAS


Quem por estes dias for a um supermercado fazer compras do Natal vai ficar espantado como há tão pouca coisa produzida em Portugal. De figos secos a guloseimas, de frutas variadas a congelados, cada vez há menos produtos cultivados, transformados e embalados em Portugal. Deixámos de ser um país produtor, mesmo nas coisas onde tínhamos tradição. Um dos efeitos perversos da política europeia foi este de destruir a capacidade agrícola dos pequenos países e de fomentar a exportação pelos grandes produtores. Agora, os grandes países apontam-nos o  dedo porque nos endividámos para lhes fazer compras – em tudo, da indústria à agricultura. A utopia europeia revelou-se uma  perigosa forma de acentuar as diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Apenas os ingénuos acreditam que em Berlim e Paris há quem pense no bem comum. Como sempre, cada um faz por si, à custa dos outros. É uma história que tem séculos.


 


 


PERGUNTA


Donde vem tanta euforia com os sucessos da educação se esta semana foram revelados estudos que indicam que em 45% das escolas os resultados são fracos relativamente ao insucesso escolar?


 


ARCO DA VELHA


A notícia é de estarrecer: PS e CDS receberam a dobrar reembolso do IVA relativo a despesas de campanha eleitoral, apenas porque os serviços que deviam ser competentes não detectaram que existia uma duplicação.


 


 


VER


Até 23 de Janeiro, no Museu da Electricidade, junto ao Tejo, a Fundação EDP apresenta a “As Cidades de Vieira da Silva e Arpad Szenes”., num bem sucedido esforço de complementaridade em relação à Trienal de Arquitectura. Através de 58 obras das colecções da Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva, Metropolitano de Lisboa e de uma colecção particular,  traça-se um percurso de observação do espaço urbano e da presença das pessoas nesse mesmo espaço. Como curiosidade algumas destas obras são agora expostas pela primeira vez. De terça a Domingo, entre as 10 e as 18h00.


 


LER 


A edição de Janeiro da revista norte-americana «Vanity Fair» tem na capa uma extraordinária fotografia de Johnny Depp, executada por Annie Leibowitz. O mais curioso é que a entrevista a Depp é feita Por Patti Smith, sim a mesma que canta e toca. E é uma bela entrevista, a propósito do file «the Tourist», protagonizado por Depp. Outro ponto de interesse nesta edição é um belo artigo sobre a vida de Jacqueline Onassis enquanto editora de livros, com algumas revelações curiosas sobre a forma como ela organizava o seu dia a dia no mundo da edição livreira.


 


REGISTO


«Femina», de Legendary Tiger Man, aliás Paulo Furtado, está  entre os melhores do ano da revista francesa Les  Inrockcuptibles. Merece. Já agora, para a mesma publicação, o melhor disco de 2010 foi «Suburbs», dos Arcade Fire. Para mim, também.


 


OUVIR


Chet Baker começou por ganhar fama graças a uma versão de «My Funny Valentine» que o então jovem tropetista gravou em 1952, inserido no quarteto de Gerry Mulligan. Uns anos mais tarde, em 1958, Chet Baker grava para a etiqueta Riverside um disco em que aparece primordialmente  como cantor - «Chet Baker Sings». Baker tem uma voz envolvente e um estilo vocal descontraído, mas sedutor. Chet costumava dizer que ele próprio não sabia se era um trompetista que cantava ou um cantor que tocava trompete. O disco adensa a dúvida – mas é um exercício de criatividade vocal e um dos momentos altos da sua carreira, agora remasterizado digitalmente, e com a inclusão de quatro extras em relação aos dez temas da edição original. «It Could Happen To You» - Chet baker sings, CD Riverside/Universal, na FNAC.


 


PROVAR


Se um dia destes lhe apetecer ouvir  música africana, acompanhada por boa muqueca de camarão, moamba ou cachupa, o destino pode ser a Casa da Morna, na Rua Rodrigues Faria 21, a Alcantara. Nas noites de quinta-feira Tito Paris está por lá – é um dos sócios da casa. Sala ampla, mesas confortáveis, bom som. Telefone 213 646 399.


 


BACK TO BASICS


Era bom que as pessoas que têm dificuldade em comunicar optassem por ficar caladas – Tom Leher

(Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Dezembro)

PRESIDENCIAIS


Este ano as candidaturas ao mais alto cargo do regime resolveram todas usar trajes de virgens puríssimas e, em uníssono, afirmam-se totalmente castas e isentas de especialistas em marketing em comunicação. Não tenho tanto a certeza que assim seja, mas admitamos que os candidatos falam verdade – coisa rara entre políticos. Se isso acontecer, como diz um amigo meu, há duas coisas interessantes de seguir: por um lado será curioso ver como se comporta a participação do eleitorado sem o esforço de captação de vontades coordenado por especialistas – ou seja, teremos maior ou menor abstenção?; e, por outro, já que juram que não existem spin doctors de serviço, é lícito pensar que as asneiras e malfeitorias produzidas durante a campanha serão da responsabilidade dos próprios candidatos e não de nenhuns especialistas. Na fase em que estamos Manuel Alegre leva a palma na utilização de golpes baixos e na táctica Wikileaks – calhandrices descontextualizadas com o objectivo de denegrir outro candidato. Já que os candidatos se afirmam entregues a si próprios teremos oportunidade de ver qual é o que melhor pensa pela sua cabeça, o que, confesso, me provoca uma certa curiosidade. Para já registo que no primeiro debate televisivo Fernando Nobre passou um rolo compressor por cima de Francisco Lopes, que corre o risco de mostrar o seu jogo ainda antes do que tinha planeado: sair de cena e dedicar-se à venda de digestivos que ajudem a tragar outro candidato logo na primeira volta – talvez o mesmo do Bloco de Esquerda e do PS. Até finais de Janeiro ainda me vou divertir um bocadito.


 


 


WIKILEAKS


A questão básica em todo o caso Wikileaks é a da verificação dos factos. O Wikileaks pegou em registos de comunicações diplomáticas e divulgou-os, tal e qual. Enviou-os a alguns jornais que aceitaram publicar informações desses registos, sem se preocuparem com a verificação da verdade dos factos. Ou seja, alguns dos mais prestigiados jornais do mundo publicaram afirmações, boatos, interpretações, sem o mínimo cuidado de verificar a sua veracidade, ao contrário do que mandam as suas regras internas de apuramento de notícias. O Wikileaks, na feliz expressão de  João Quadros neste jornal, não é mais que a porteira do mundo, que se dedica à intriga. A única coisa que o Wikileaks mostra é o triste estado de diplomatas de diversos países, mais preocupados em fazer calhandrice em torno de um gin tónico, do que em fazer análises sérias. Os documentos tornados públicos dão uma imagem pífia da diplomacia, e se calhar o retrato corresponde à realidade. Espiões de pacotilha, boateiros compulsivos, construtores de fantasias e fofoqueiros profissionais – eis o conteúdo principal do que tem sido revelado. Talvez fosse altura para que os diplomatas começassem a pensar no que fazem e na forma como falam, e não nos resultados das asneiras que dizem quando são publicamente conhecidas.


 


 


RESUMO DA SEMANA


O FMI está de novo a visitar as nossas contas; O Tribunal de Contas quer esclarecer a compra pela PSP dos blindados que chegaram atrasados à cimeira da Nato; Mário Soares acusou Angela Merkel e Nicolas Sarkozy de quererem destruir a Europa; o Ministro Santos Silva mostrou-se indignado com a demagogia dos políticos.


 


 


PERGUNTA


Porque será que «Sem Eira Nem Beira», a célebre canção dos Xutos sobre o senhor engenheiro, não foi tocada no concerto de apresentação da nova imagem da Novabase, que por acaso tem como grandes clientes em Portugal diversos organismos públicos?


 


 


ARCO DA VELHA


Num total de 233 milhões de euros que o Estado português pagou às empresas de sete sectores responsáveis por actividades consideradas de serviço público,  70% foi para o sector da comunicação social e, destes, 145,9 milhões foram para a RTP (e o resto para a Lusa). Existe aqui uma clara desproporção – o que torna ainda mais urgente ver o que deve e não deve ser considerado serviço público nesta área.


 


 


CASTIGO


Depois de uma campanha publicitária em que, de forma canhestra, se tentava captar a simpatia dos lisboetas, a EMEL lançou nos últimos dias uma nova estratégia de sedução: tolerância zero nas zonas centrais da cidade neste período de compras de Natal. Imagino que seja uma medida de apoio ao comércio de rua e de incentivo a viver e comprar em Lisboa. Claro que nesta frenética actividade a EMEL depois demonstra o melhor da sua incompetência quando não consegue dar prazos para desbloquear viaturas, provocando mais e mais incómodos, e quando o seu centro de atendimento telefónico é um exemplo de desprezo pelos utentes. Disto  (da falta de resposta no serviço a multados e bloqueados) é que ninguém na EMEL fala – porque o princípio é pura e simplesmente cobrar – e aí vale tudo- até a má educação dos agentes que, quando protestam pela demora, dizem que é consequência de se ter prevaricado. Já agora – as queixas relativas a tudo isto também se aplicam, ipsis verbis, à Polícia Municipal.


 


 


VER


Até 30 de Janeiro está patente no Palácio Quintela (Rua do Alecrim 70), a exposição «Display: Objects, Buildings And Space», organizada pela Experimentadesign em colabortação com seis galerias de Lisboa e que apresenta obras de 22 artistas – entre os quais Daniel Blaufuks, João Penalva, José Pedro Croft, Rui Chafes e Mauro Cerqueira. De Terça a Domingo entre as 10 e as 20 horas.


 


 


LER


Como estamos em época de desafios culinários, deixo aqui uma bela sugestão que fará as delícias de todos os apreciadores da arte da cozinha: «Memórias e receitas culinárias dos Makavenkos», um livro do grande animador deste grupo lisboeta, Francisco de Almeida Grandella – o homem que fundou os armazéns do mesmo nome e cuja vida é contada num belo prefácio de Anabela Natário. As receitas incluídas no livro são cruzadas com relatos de episódios e memórias diversas – já nem sei distinguir o que é mais delicioso.


 


 


OUVIR


Se gostam de heresias «Mongrel» é o disco ideal para passar estes dias. Trata-se de uma interpretação muito livre do trio de Mário Laginha à música de Chopin. Atenção, não é uma adaptação jazzística do trabalho do compositor – vais num sentido de recriação, mais do que de apenas fazer arranjos. Além de Mário Laginha no piano, o trio integra Bernardo Moreira no baixo e Alexandre Frazão na bateria – uma formação sólida em cujo talento reside grande parte do bom resultado obtido.


 


 


PROVAR


O restaurante D’Oliva Al Forno criou reputação em Matosinhos ao longo dos anos e agora chegou ao centro de Lisboa, à Rua Barata Salgueiro, um pouco abaixo da Cinemateca, onde antes era uma loja de roupa. Primeiro o espaço: muito bem conseguido, em dois níveis, uma zona agradável para fumadores perto do bar (que também é utilizado para servir refeições) e outra, mais ampla, para não fumadores. Boa insoniração – mesmo quando cheio a cacofonia não incomoda. Público muito diversificado em idades – ambiente simpático, bem decorado e, sobretudo, muito bem iluminado. Depois: uma cozinha verdadeiramente bem dirigida, pratos simples, bem confeccionados, uma lista bem pensada, com opções de preço sensatas e uma lista de vinhos bem escolhida e, também, com preços ajustados à realidade. Resta dizer que o serviço é verdadeiramente invulgar, em qualidade e atenção às mesas, mesmo com o restaurante cheio. As propostas são diversas, desde peixes do dia a massas italianas. Rua Barata Salgueiro 37ª, Telefone 213528292


 


 


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Nada sei, excepto a dimensão da minha ignorância – Sócrates (469-399 A.C.)

dezembro 11, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 10 de Dezembro)

PRESIDENCIAIS


Não havia necessidade nenhuma de se ter criado ruído em torno da marcação dos debates entre os candidatos às presidenciais. A candidatura de Cavaco Silva teria ficado bem melhor na fotografia se não se tivesse deixado posicionar como avessa a debates, usando pretextos um pouco desfocados e que ainda por cima só vieram chamar atenção para o seu próprio atraso em ter terminado a recolha das assinaturas de suporte à candidatura – um misto de inocência e de inexperiência política da máquina que está na candidatura do actual Presidente.


 


No fundo, a posição assumida em relação aos debates é a mesma lógica do tabú sobre a recandidatura: uma persistente atitude de auto-suficiência, de muita insensibilidade e, talvez, até de alguma dificuldade em conviver com os mecanismos comunicacionais das sociedades abertas e contemporâneas. Não basta estar nas redes sociais e ter sítios de internet bem feitos. O que interessa é o conteúdo – que se constrói dia-a-dia com acções e, também, com a forma como as decisões são tomadas. Os actos, como se sabe, falam mais que as palavras.


 


Dito isto, Cavaco Silva é, acho eu, o menor dos males, embora exista um tema central nestas eleições, que devia ser a prioridade do debate e do esclarecimento dos candidatos: o que fazer à seguir à eleição, quando a situação económica e política inevitavelmente se complicar ainda mais? Que pensa cada um dos candidatos sobre o Day After? Com os dados que temos, qual a probabilidade de dissolver o Parlamento ou de procurar outras soluções de Governo? A ideia é manter a crise em lume brando até o cozinhado apodrecer ou existe alguma ideia nova?


 


PARADOXO


Num país que inventa tantos mecanismos de regulação, que tantas vezes é intransigente em excesso em relação a normas e regulamentos, é paradoxal que uma situação que implica com a dignidade da vida humana, ainda por cima em situações de grande fragilidade física e psíquica, seja tão descurada e permita a manutenção em funcionamento - conhecendo-as – de instalações como o local onde se acumulavam idosos à espera da morte, na Charneca da Caparica, e que só por um infeliz acaso foi desmascarado.


 


Esta triste situação é o retrato de um Estado demasiado presente numas coisas e inexistente noutras. Para além dos responsáveis concretos pelo local, têm também de ser investigadas as entidades que deviam fiscalizar e evitar estas situações. Os nossos impostos, de todos, devem servir, em primeira linha, para evitar casos como este. Como sabemos não é isso que se passa.


 


 


PERGUNTA


O dinheirinho com que o Presidente Carlos César quer pagar compensações aos funcionários públicos açoreanos caíu do céu, foi pescado no mar, ou vem de todos os contribuintes?


 


 


ARCO DA VELHA


As preocupações governamentais sobre ecologia e sustentabilidade são esquecidas quando se operacionalizam sistemas como o dos novos recibos verdes electrónicos, que entraram em fase experimental no início de Dezembro. Não só, quando se imprimem, provocam um gasto mais alto de papel, como ainda por cima estão desenhados para inevitavelmente esvaziarem mais depressa os tinteiros das impressoras, provocando gastos suplementares e desperdícios acentuados. Aqui está um caso de uma medida que podia ter sido bem melhor pensada.


 


 


FOLHEAR


A edição do «The Economist» de 4 a 10 de Dezembro, traz uma série de artigos sérios e preocupantes sobre a Europa e sobre o Euro – analisando sem fantasmas nem pruridos a questão do desaparecimento do Euro, quer por dificuldades dos países do Sul, quer por falta de vontade da Alemanha. E na mesma edição está um belo dossier, sobre os perigos do aumento de poderio da China. Já agora, para os que têm iPad, é possível consultar alguns artigos escolhidos pelo editor de forma gratuita. E são boas escolhas, não é refugo.


 


 


VER


Cem anos depois do restauro dos painéis de S. Vicente de Fora, de Nuno Gonçalves, o Museu Nacional de Arte Antiga e a Faculdade de Belas Artes organizam uma série de colóquios e exposições, que, a propósito da efeméride, juntam artistas contemporâneos de várias gerações. Por exemplo na Galeria da Faculdade de Belas Artes estão até 7 de Janeiro obras de Ana Telhado, José Quaresma, Manuel San-Payo e Filipa Roque, entre outros. E, em vários locais do Museu Nacional de Arte Antiga, até 27 de Fevereiro, estão obras de Rui Chafes, Sara Bichão, Manuel Vieira, Manuel Botelho, Jorge Molder, Isabel Sabino e Pedro Cabrita Reis, entre outros.


 


LER


Confesso que de início pensei que a biografia de Keith Richards, «Life», seria um aborrecido relatório de ocorrências na vida dos Rolling Stones, nomeadamente os seus conflitos com Mick Jagger, pontuado por aspectos picantes da atribulada vida pessoal do guitarrista dos Rolling Stones. Acontece no entanto que logo nas primeiras páginas fiquei envolvido pela forma como a narrativa está construída por James Fox, o responsável pela forma final do livro. Ao longo de quase 550 páginas Keith conta a sua vida – desde as influências musicais da infância, até à forma como conheceu Jagger e os outros Stones.


 


Um dos aspectos curiosos é que ao longo do livro se percebe como desde cedo os elemntos dos Stones perceberam quepor mais divergências que tivessem tinham que manter o grupo em andamento – até porque o grupo era essencialmente a empresa que les haviam criado. Desse ponto de vista «Life» é um curioso relato de como manter um projecto no meio de todos os sobressaltos  - uma coisa que por exemplo os Beatles foram incapazes de fazer, divididos em primeiro lugar por disputas intensas em volta do quinhão de  pessoal cada um.


 


Keith Richards fala abertamente da forma como utilizou drogas e relata numerosos momentos da sua vida, na maior parte das vezes com o cuidado de procurar encontrar um ponto de contacto, no tempo, com a actividade da banda. E os relatos do processo de criatividade e de reinvenção que os Rolling Stones têm tido ao longo dos seus já quase 50 anos de vida – começaram em 1962 – são numerosos. De certa forma é também o relato destas décadas que passa por «Life», uma inesperada deliciosa leitura para estes dias.


 


 


OUVIR


Querem viajar no tempo e recuar até 1978? Fácil, ouçam o novo disco de Bruce Springsteen e vejam como gravações feitas nessa altura continuam actuais. «The Promise», assim se chama o novo duplo CD de Springsteen, agora editado, agrupa 21 temas que foram registados na altura das sessões de gravação do álbum «Darkness On The Edge Of Town» e que, na maioria, devido a um conflito legal entre o músico e o seu agente da época, ficaram bloqueadas para edição durante anos. Depois de convenientemente misturadas vêem agora a luz do dia, assim como alguns temas já conhecidos, como «Racing In The Street», que aliás abre o álbum. Há também as «versões Springsteen» de canções entretanto gravadas por outros artistas, como «Because The Night», um tema tornado popular por Patti Smith, e «Fire», que foi um tema que Springsteen escreveu para ser interpretado por Elvis Presley e cuja versão mais conhecida é das Pointer Sisters.


 


Ao longo destas duas décadas existem registos de algumas destas canções por Springsteen em gravações ao vivo, mas as gravações originais, de estúdio, eram desconhecidas. O que é mais curioso é que estas canções, escritas há mais de duas dezenas de anos, com uma das melhores formações de músicos da carreira de Springsteen ( Clarence Clemmons, Max Weinberg e Stevie Van Zandt nomeadamente) se mantêm particularmente actuais na conjuntura de crise e transformação em que vivemos.


 


 


PROVAR


Nada melhor para esta altura do ano que uma perdiz. Eu por mim gosto muito de as petiscar no Salsa & Coentros, quer a deliciosa perdiz com couve lombarda, quer a empada de perdiz. Rua Coronel Marques Leitão 12, Alvalade, telefone 218 410 990.


 


 


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Muita da histórica social do Ocidente nas últimas três décadas pode resumir-se a ter substituído o que funcionava por aquilo que parecia poder funcionar (Thomas Sowell)


 

dezembro 05, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Dezembro)

ANIVERSÁRIO – O Tratado de Lisboa está a celebrar o seu primeiro aniversário. A Europa, segundo opinião mais ou menos generalizada dos especialistas, está desfeita. Entre a pirómana Merkel e o desbragado Sarkozy, a crise alastra por todos os países. Depois da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, já se fala de problemas em Itália, na Bélgica e na Holanda. Alguns mais atrevidos dizem que a França virá a seguir. Esta Europa é uma ilusão caríssima, que interessou aos grandes países só até certo ponto e que acabou por prejudicar de facto as economias mais pequenas. Os políticos que, nos pequenos países, se deixaram enredar pelo canto da sereia têm responsabilidades históricas no falhanço de uma comunidade que nunca foi verdadeiramente equalitária. A Comunidade Europeia é uma fantasia política cujo preço vamos pagar durante muitos anos. A verdade resume-se a isto: para nós, querer ser europeu é pior do que querer ser apenas português. Há uns anos a Restauração, que esta semana se assinalou, tinha percebido isso mesmo. Precisamos mais de uma Restauração do que de uma remodelação. E não precisamos ainda de um Presidente da República que olha para a ideia da Europa como para um Sol que nos ilumina – mesmo quando é evidente que nos apaga.


 


FEIRAR –  A Arte Lisboa tem o objectivo, programático, de divulgar a actividade de artistas e galeristas portugueses e de internacionalizar o mercado de arte em Portugal. Aos poucos tem deixado de fazer qualquer destas coisas. Este ano, por força da cimeira da NATO, mudou-se da Expo para a Junqueira, o que só por si podia ser uma boa coisa. A Junqueira é um espaço projectado por Keil do Amaral, mais aconchegado, mais central. O grande problema é que não foi feita comunicação suficiente para a mudança de local e muita gente foi ter à FIL Expo à procura de uma Feira que estava a uma dezena de quilómetros de distância.  Esta feira modificada teve um dia de duração a menos, a segunda feira, crucial para o público alvo que pode preferir não estar em Lisboa ao fim de semana. Não convidou jornalistas estrangeiros para divulgarem o evento, nem fez a mínima tentativa de internacionalizar o certame junto dos mercados de arte que nos são próximos. A lógica da FIL é apenas alugar os metros quadrados dos stands sem se preocupar em garantir notoriedade ou estimular a presença de visitantes. A campanha publicitária foi má e  quase inexistente. A comunicação foi ridículamente fraca. O lado profissional do marketing do evento foi desprezível. Comparando com o que a AEP faz a Norte, nas suas feiras, a FIL tem muito a aprender. E é uma pena, porque entre interesse dos artistas, vontade dos galeristas e até apoios do Estado, o que aqui falta é uma capacidade de organização e divulgação que justifique a sua existência.


 


MUDAR - A remodelação vai-se fazendo aos poucos. Na Justiça, entre Secretários de Estado e directores gerais, já começou. Nas Obras Públicas, Ministro e Secretário de Estado já lêem o mesmo discurso, portanto presume-se que um dos postos seja extinto, por óbvia sobreposição de competências. O Governo desfaz-se, em cada reprimenda europeia que leva, à média mínima de duas por semana. Um dia destes Sócrates é Primeiro Ministro de um Governo-sombra.


 


ARCO DA VELHA – O Governo anunciou esta semana outra medida de contenção: vai criar  mais uma empresa pública – a Agência para o Investimento Público e Parcerias. A empresa destina-se a acompanhar as grandes obras públicas e as parcerias público-privadas. Terá três admnistradores e um quadro técnico à medida das necessidades e servirá para retirar competências a várias Direcções Gerais do Estado e mesmo a alguns Ministérios.


 


PERGUNTA – O que é feito do Hot Clube? Porque é que já ninguém fala do assunto? As antigas instalações do Hot Clube, na Praça da Alegria, arderam em 22 de Dezembro do ano passado, está quase a fazer um ano. Em Abril soube-se que a Câmara Municipal disponibilizaria um outro espaço, também na Praça da Alegria, uma antiga loja nos números 47 e 49 e contribuiria com 200.000 euros para as obras. Entretanto não se sabe de mais nada. A Escola de Jazz Luis Vilas Boas lá vai tendo actividade, na Rua da Galé, a Alcântara, mas o site e a newsletter do Hot Clube são completamente omissos a respeito das novas instalações, do ponto de situação das obras, dos planos para o regresso à Praça da Alegria. Quem é que não está a cumprir?



 


LER Em 1987 Herberto Hélder pegou em alguns dos seus textos favoritos de outros autores e fez deles uma versão portuguesa. Assim nasce “As Magias”, que como o autor esclarece mais não são que “poemas mudados para português”. São poemas breves de autores como Blaise Cendars, D.H. Lawrence, Henri Michaux ou Marie Welch, para além de escritos tradicionais, anónimos, dos índios Cunas, dos pigmeus da África Equatorial, da Austrália, da Roma antiga, da Colômbia ou do México. A Assírio & Alvim reeditou agora o livro, na sua bela colecção O Gato Maltês. Uma pequena jóia para tardes outonais


 



FOLHEAR – A edição de Dezembro-Janeiro da revista “Monocle” parece ter sido inspirada num dos nossos queridos almanaques do Borda d’Água. Tem previsões para o ano que aí vem, receitas diversas para ultrapassar dificuldades, sugestões avulsas sobre as mais variadas áreas. E tem três especiais: um guia sobre novas ideias para pequenos negócios, um dossier sobre a Finlândia que faz  crescer a vontade de visitar o país e um especial sobre viagens com um top de 50 sugestões. Fiquem a saber que o melhor restaurante frente ao mar, Segundo a Monocle, é o Azenhas do Mar, aqui mesmo ao pé de Lisboa, no alto da falésia com o Atlântico pela frente.


 



VER– Até 22 de Janeiro pode ser vista na Plataforma Revólver a exposição “Pieces and Parts”, que numa selecção cuidada agrupa curiosas tendências e artistas, entre os quais Alexandra Mesquita, Ana Vidigal, Cristina Ataíde, Inês Nunes, Julião Sarmento, Rui Effe e Teresa Milheiro, entre outros. Será certamente uma opção individual, mas gostei especialmente do trabalho que Cristina Ataíde fez para esta exposição, e que serviu aliás de imagem para o evento. Rua da Boavista 84-1º, Lisboa.


 



OUVIR – Jane Monheit editou o seu primeiro disco há cerca de dez anos e tem feito uma carreira notável. “Home”, o seu novo disco, recolhe uma série de standards e é uma bela prova do seu amadurecimento artístico e da forma como a sua interpretação vocal  foi ficando cada vez mais segura. Neste disco existe um único tema original, “It’s Only Smoke”, um dos dois duetos vocais do album. Aqui, Monheit canta com Peter Eldrige e o resultado é arrebatador. Mas o ponto alto do disco vem no outro dueto, uma versão do clássico “Tonight You Belong To Me” onde se cruzam as vozes de Jane Monheit e de John Pizarelli, que é também quem toca, de forma superior, a sua guitarra eléctrica. Só por isto já valia a pena descobrir este “Home”.


 


PROVAR – Lisboa tem um novo restaurante nepalês, nas Avenidas Novas. Chama-se Casa Nepalesa e oferece uma boa escolha de pratos do dia, assim como à lista. Provei um frango cortado aos pedaços, cozinhado com espinafres e um molho temperado que estava excelente e uns filetes de linguado com molho de caril que foram uma bela surpresa. Como sobremesa comi um arroz doce à moda do Nepal, diferente do nosso, que me deixou a pensar de onde veio aquela ideia – se fomos nós que buscámos inspiração a oriente, se foram eles que tiveram algum visitante lusitano.  O ambiente é muito acolhedor, a decoração evoca uma casa nepalesa, o serviço é muito atento e simpático e o preço é comedido. Há vinho a copo e uma lista pequena mas razoável de vinhos. Casa Nepalesa, Avenida Elias Garcia 172 A, telefone 217979797.


 


BACK TO BASICS – Gosto de Teatro é muito mais real que a vida. Oscar Wilde.